Episódios de Nós Dois Na Diáspora

EP 05 - Silêncios e Exaustões: A realidade da maternidade

06 de maio de 20261h52min
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Esqueça a propaganda de margarina. No mês das mães, mandamos a real sobre um dos temas mais romantizados (e adoecedores) da nossa sociedade: a maternidade.

Roberta Almeida e Alexandre "Eazy Kaos" Assis abrem o microfone para um papo visceral sobre a exaustão materna, o mito do "instinto" e a solidão estrutural — especialmente para as mulheres pretas e periféricas. Por que a sociedade cobra a "mãe perfeita" enquanto normaliza mais de 5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro? Por que terceirizamos a criação de filhos para mulheres precarizadas?

Prepare-se para um desabafo sem filtros, cheio de indignação, verdades incômodas e, acima de tudo, um abraço apertado em cada mãe que está exausta de carregar o mundo nas costas.

🎧 O que você vai ouvir neste episódio:

  • ​O mito do instinto materno e o "presente divino".
  • ​O apagamento da identidade da mulher após o parto.
  • ​O peso do machismo e do racismo na criação dos filhos.
  • ​A indignação contra a "paternidade de fim de semana".

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Indicações do Alê:

GOG - Razão Para Viver ft. Chê

Filosofia de Rua - Histórias do Coração

Indicações da Rô:

Filme Mommy

Filme A Melhor Mãe do Mundo

Livro Máquina de Leite

Trabalho de pesquisa da Rô

Siga a gente:

Conheça também o ateliê da Rô: ⁠@honeycolmeiacriativa⁠

Edição: Alexandre Assis

Assuntos8
  • Presença maternaO mito do instinto materno · Solidão estrutural na maternidade · Machismo e racismo na criação dos filhos · Paternidade de fim de semana · Construção social da maternidade · Maria (mãe de Jesus) · Maternidade preta e periférica · Violência obstétrica · Perda de identidade da mulher após o parto · Adoecimento materno
  • Desigualdade Racial e de Classe na MaternidadeMaternidade de mulheres negras e periféricas · Sobrecarga de trabalho para mulheres negras · Renda precarizada e trabalhos informais · Vigilância e punição estatal da maternidade não-branca · Mulheres negras como maioria das mães solo
  • Violência e Discriminação na MaternidadeViolência contra a mulher · Violência contra pessoas pretas · Racismo e eugenia na medicina · Mulheres negras vítimas de violência obstétrica · Homens que abandonam a família ao descobrir deficiência do filho
  • Impacto da ausência paternaMais de 5 milhões de crianças sem nome do pai · Homens como reprodutores vs. pais presentes · Pensão alimentícia e negligência paterna · O papel do homem na criação dos filhos
  • Educação Sexual e Planejamento FamiliarA importância da educação sexual · Anticoncepcionais masculinos · Planejamento familiar e a família tradicional brasileira · Maternidade como escolha, não condição
  • Maternidade e feminilidade atacadasPerda da adolescência pela maternidade precoce · Abandono de sonhos e carreira pela maternidade · Dificuldade de reinserção no mercado de trabalho · O corpo da mulher após a gestação
  • Maternidade e Saúde MentalAnsiedade e depressão materna · Arrependimento da maternidade · O psicológico da mulher que aborta vs. a maternidade · O corpo da mulher após a gestação
  • O papel da maternidade na sociedadeSer mãe como um título na quebrada · Proteção social oferecida por mães na comunidade
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Salve, salve! Começando mais um Nós Dois na Diáspora. Aqui quem fala é o Alexandre Assis. Finalmente recuperado da maldita gripe que eu estava, da dor de garganta, da bezetacil, de tudo que estava acontecendo. Com muito chá, com muito alho e tudo mais. Você pode imaginar que é possível ser usado para curar alguém de uma tosse.

Mas enfim, estou bem finalmente. E, além de estar bem, eu não estou sozinho. Eu tenho aqui a nossa querida, necessária, tudona, proprietária, maravilhosa, Roberta Almeida. Olá, Hunnis. Tudo bem por aí? Agora eu estou bem.

Eu também venho de uma semana... Uma semana não, né? De uns dias vendo o Alexandre se recuperar, falando pra ele tomar chá, pra ele tomar remedinho, chamando a atenção do boy... Enfim, mas estamos aqui. Muita crochetagem, muita pesquisa. E vamos lá pro nosso episódio?

Vamos lá para o nosso episódio, mas antes sigam a gente no Spotify, já que você está aí ouvindo. Claro, se você estiver no Spotify, já clica no seguir, não custa nada. É só você baixar o player e abrir a página inicial, se já não estiver, e clicar em seguir. E aí depois que você ouvir o episódio, você vai fazer um outro favor para a gente. Você vai lá avaliar o nosso podcast.

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Lembrando também que você pode nos seguir em qualquer outro agregador de podcasts. Hoje todos eles têm esse recurso, como também a maioria deles tem o recurso de avaliação. E, de novo, se você está no Spotify, todo episódio tem uma caixinha para você colocar seu comentário e tudo mais. Então participe lá, dê a sua opinião, sugira coisas. E agora sim, vamos que vamos para a nossa pauta, porque hoje tem coisa para falar, hein? Eita nóis, eita nóis.

Esse episódio, como vocês podem talvez estar imaginando, a gente vai falar sobre maternidade, estamos aí no mês das mães, próximo ao dia das mães. E claro que, sendo uma pessoa como eu, como o Ale, a gente não vai falar sobre maternidade num ponto de que, ai, é a coisa mais linda do mundo, é quando a mulher vira realmente mulher.

e nananã, nananã, não. A gente vai falar da maternidade no ponto de vista que talvez pouquíssimas pessoas falam, muitas mulheres têm vontade de dizer, mas não têm coragem por conta de julgamentos e tal. E que sim, são os silêncios e as exaustões a realidade da maternidade.

Antes de tudo, eu queria dizer que é evidente que pra quem ouve o nosso podcast já sabia que a gente não ia falar de um jeito florido sobre maternidade. Certamente a gente não ia ter um discurso aqui piegas, um discurso fofinho e florido a respeito de maternidade. Quem já tem acompanhado, a gente sabe que a gente tem um jeito bem peculiar e agridoce de falar das coisas. Verdade.

Mas o que eu penso a princípio sobre todas essas coisas que envolvem a maternidade é que eu sou muito mais aqui um aluno do que professor. Eu sou muito mais aqui neste momento um ouvinte, um fomentador de ideias do que alguém que vá trazer opiniões muito, sei lá, grandiosas a respeito desse assunto.

Eu acho que aqui sim cabe aquela questão de local de fala Claro que com muito cuidado Porque a gente não pode usar essa coisa de local de fala Pra nos esvairmos dos temas De fingirmos que não é problema nosso Mas é um tema que sim, de fato, ele é bem complexo Ele é bem impactante Inclusive, acredito que pro próprio público feminino Que nos ouve, e que é a maioria inclusive Dos nossos ouvintes E aí

A crítica até para o público feminino é algo difícil de engolir. É verdade. Existe um silêncio muito específico na maternidade, mas que, por incrível que pareça, não é um silêncio que está na ausência de som. É um silêncio de quem está cansada demais para falar.

Hoje a gente vai falar sobre a maternidade real, aquela que não aparece na propaganda da margarina. E normalmente a gente idealiza uma maternidade daquela da qual vai ter o companheiro ou a companheira, que realmente as coisinhas vão dar tudo certinho, desde o momento de parir, até quando as crianças estão já com 5 anos de idade, pertinho de ir pra escola, mas enfim. De novo, né? Com muito cuidado.

Eu acredito que esse silêncio ensurdecedor que existe dentro da maternidade é algo que é abafado de diversas formas, sabe? Realmente existe um romantismo em cima da maternidade, realmente existe uma ideia de que toda maternidade é uma bênção, que toda a vinda de uma criança é ao ventre de uma mulher e, posteriormente...

Dando a vida a ele, dando a luz à criança é uma bênção. Só que no mundo que a gente vive hoje, na sociedade que temos, e claro, não estou falando de hoje, mas isso já é de muito, muito tempo, de muitas e muitas gerações, é apenas uma forma de abafar a exaustão, a luta, a luta que inclusive é muito desleal.

que as mães enfrentam. Então, esse silêncio, na minha cabeça aqui, é um grande abafamento de grito, de um grito mesmo. Talvez não um grito literal, mas o grito de um corpo cansado, de uma mente adoecida, de uma série de coisas que a mulher precisa lidar além do criar a criança em si. Porque se fosse só criar a criança, ainda assim seria uma baita de uma luta.

Mas existem tantas coisas ao redor que dificulta que, enfim, eu acho que é mais ou menos nessa linha. É posto que a maternidade é amor. As pessoas falam que existe um instinto maternal, que é um amor materno. Mas para além do amor, a maternidade também traz adoecimentos. Essa romantização que acaba violando as mulheres, que é esse ideal do instinto materno, do amor materno.

É muito engraçado que para qualquer outro tipo de relação as pessoas falam que precisa existir um amor na construção. Mas esse ser humano que nasce a gente não conhece. Como que a gente pode amar incondicionalmente esse ser humano que a gente não conhece?

Precisa existir um conhecimento e uma construção. Uma vez eu ouvi, nos reels aí no Instagram, um rapaz, eu não lembro agora quem falou, enfim, mas... Claro que não é brasileiro, não tem uma cultura ocidentalizada, e aí o rapaz fala mais ou menos assim, que é esperado de que uma criança ame seus pais.

Mas a criança, a única coisa que ela sabe é que ela precisa de cuidado. Ela precisa que o ego dela seja alimentado para que ela possa existir. Então ela não sabe o que é amor. Ela sabe das suas necessidades. E quando uma criança não sabe dizer se ama ou não os pais, aí os pais, enquanto pessoas adultas, ficam chateados porque a criança não soube dizer se ama ou não os pais. É porque esse amor não existe. Essa relação precisa ser criada para que essa criança possa entender o que é amor. E vice-versa, não só a criança em si.

No seu entendimento, existe o tal instinto materno? Não, não existe o instinto materno. Porque, assim, somos animais, mas somos animais pensantes, animal racional. E quando a gente vê toda a conjuntura sobre a existência dessa maternidade ocidentalizada que vem, então, para o Brasil...

a gente consegue entender que nada mais é uma visão eurocêntrica de maternidade. E esse tipo de maternidade passou a existir lá para controle de corpos femininos. Quando a gente vai fazer pesquisa, né, pra quem não sabe, meu campo de pesquisa é a maternidade.

Eu amo falar sobre isso, eu amo pesquisar sobre isso, eu faço parte de alguns grupos de estudos sobre maternidade e algumas discussões. Porque pra quem acha que, por exemplo, toda feminista só acha que tem que falar sobre aborto, as feministas que falam sobre aborto, que defendem o aborto, melhor dizendo, elas defendem também o maternar com todos os direitos. O maternar sem precisar fazer das tripas coração. E também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também também

É o maternar fazendo das tripas, tripas e coração, coração. Que cada coisa esteja posta no seu lugar. Enfim, o instinto materno, ele é dado como presente divino. Só que Deus é tão filho da puta que ele não dá o instinto paterno. É só pra mulher. Por que é só pra mulher? É pra controlar o corpo feminino. Pra que o homem, então, no detrimento do cuidar, da mulher ter que cuidar de sua prole, porque a prole é dos dois, não só da mulher.

ele possa então conquistar qualquer outro espaço na sociedade. Ele possa ser um doutor, ele possa ser um mestre, ele possa ser qualquer outra coisa, o presidente da república, o dono da porra toda. Enquanto isso, a mulher tá fazendo o quê? Lavando, cozinhando, passando, cuidando, sendo teta, porque nas primeiras existências do neném, o neném não enxerga a existência de um ser humano, enxerga as suas existências, como eu disse antes.

Então a mãe passa a ser só uma máquina de leite. E todos os fluidos que saem dentro do corpo dela. A gente cresce ouvindo que toda mulher nasceu pra ser mãe. Mas ninguém fala das condições reais dessa maternidade. A maternidade, ela vem como uma construção social. E ela não é algo natural. Gerar e parir é algo natural. Mas cuidar de alguém, como que pode ser? Coco, o que que materializa a maternidade?

Porque se a gente olhar direitinho, aqui na nossa discussão, quando a gente vai fazer alguma... Na verdade, quando a gente vai fazer qualquer tipo de pesquisa sobre maternidade, sempre coloca mulher. Mas e se a gente inverte as coisas, subverte as coisas, no caso, melhor dizendo, e aí é um homem trans? Como que a gente vai colocar, então, essa questão do instinto maternal no homem trans? Verdade, verdade. É uma parada muito louca esse tema. Esse tema é... ...

E que bom que você é alguém que estudou muito a respeito, porque é doido o negócio. E aí a gente pode colocar como que isso é construído socialmente. Mais uma vez, vou trazer aqui, vou jogar uma sementinha do mal, que é o que eu gosto de fazer.

Quando a gente vê direitinho o que é a família e como que é construída a família, a partir de que viés? É uma visão religiosa. Quem é a mãe? Qual é o espelho que todas as mulheres precisam seguir?

É a mãe de Jesus, a Maria, coitada. Que tudo suportou. Ela foi violentada, porque não fala como que foi que o suposto Espírito Santo adentrou nela pra colocar um bebezinho dentro do corpo dela, né? A bichinha era virgem, né, gente? Coitada, ela era, né, gente. Ela tava pretendendo casar com carinha lá, o marcineiro.

Menina, você falando isso aqui, eu só pensando, agora nós vamos ser cancelados. Agora nós vamos ser cancelados. Ah, o cancelamento agora vem. É, né? Porque o cara, o suposto Espírito Santo foi lá, coisou ela. A bichinha, será que ela teve um orgasmo? Porque a gente precisa falar a real, né? Porque pra parir, gente, parir é uma desgraça, eu parir normal.

Foi um parque supernatural. Então eu tenho total lugar de fala. Eu pari em casa, não fui nem no hospital. Porque o médico também foi negligente comigo. Aí entra num outro lugar, né? A maternidade preta. Porque as mulheres pretas, elas são... Ah, é preta. Boliviana. Quem é que pode também ser mãe nessa sociedade que a gente tá? Enfim.

Voltando para aqui o ponto, porque esse tema me deixa muito, muito empolvorosa. E aí a gente tem a Maria, né, coitada. Ela se sujeitou a ser mãe de Jesus, tudo suportou, calada, educou. Deus nunca foi lá nem para comprar uma roupinha para o menino. Que a criança, ninguém sabe, né? Mas criança come, criança veste, criança custa.

E Deus fez o papel certinho do homem que tá aqui nessa sociedade, que é o cara que vai comprar cigarro e nunca mais volta. O suposto Espírito Santo foi lá, botou a sementinha nela, né, o Jesus, e não voltou mais. Onde que Deus tava nisso daí tudo? Não fala também como que o José, né, o marceneiro lá, o cara teve que cuidar do filho do outro homem.

Ele não cuidou do próprio filho. E a Maria sempre ali, doce, meiga, com abnegação, com todas as mazelas, né? Imagina, gente, cuidar de uma pessoinha, sustentar uma pessoinha e ainda assim aceitar todas essas coisas caladas. E aí esse é o espelho, é a referência de mãe que a gente tem.

E quando a gente fala sobre esse instinto materno e que não existe o instinto paterno, a gente vê na propaganda, a gente vê na televisão, a gente vê nas novelas, toda essa narrativa da família perfeita. Tem um filme que eu ainda não assisti, mas ele se chama O Narciso. É o filme em que o Sr. Jorge interpreta um gênio.

E aí o menino pretinho, ele deseja ter uma família. E a família que o gênio, o suposto gênio, né, que é o seu Jorge, dá pro menino, é uma família branca, típica da propaganda de margarina. E aí esse filme parece ser muito bom, eu ainda não assisti, mas só por ter a direção do Jefferson Day, esse filme merece ser uma das indicações aqui desse podcast.

E aí, mais uma vez, Maria, ela viveu para o filho. Não tem uma escritura na Bíblia explicando quem era Maria.

Não fala que Maria cresceu, nasceu, do que ela gostava, que tipo de roupa ela vestia, que comida ela gostava, mas fala tudo sobre Jesus. E de como que Maria viveu ao redor dessa história, dessa narrativa. E é isso que se exige da mulher. Enquanto isso, não se exigiu nada de Deus. Deus não teve nenhum papel na criação desse menino chamado Jesus Cristo.

Ele é a persona que influencia, então, a normatização, a normalização, no caso, né? Normatização é outra coisa. A normalização dos pais irem sempre buscar comprar cigarro e nunca mais voltar. Que se a gente for dar um Google pra ver quantas crianças não tem o registro, no registro não tem o nome do pai, é muita gente. Isso sem contar os que tem o nome do pai, mas que o pai nunca olhou nem na bilotinha dos olhos das crianças.

Você até anotou aqui na nossa pauta, né? São mais de 5 milhões de crianças que não tem o nome do pai no registro. Sim. Cara, eu fico tão maluco com tudo isso que... Porque assim, é claro, eu tenho plena ciência.

de que tudo que você está dizendo é a nossa realidade, é a realidade que a gente vive. A solidão da maternidade, a desplicência do homem enquanto pai, de apenas ser o reprodutor ali e não assumir o seu papel. Os números dizem isso, não é nada que nós estamos inventando aqui, por mais negacionista que seja, alguém que possa receber esse podcast que a gente está aqui fazendo, não tem como negar isso, não tem como negar.

incluindo isso nessa questão da sua resposta pra minha pergunta anteriormente sobre o instinto materno não existir e ao que parece também não existe o instinto paterno, mas ainda assim isso é uma coisa que

Sei lá, me pega muito, porque... É claro, eu só posso falar de mim. Eu lembro que quando a minha filha nasceu, né? Minha primeira filha nasceu, a Ana Luísa. Eu tinha 30 anos quando a Ana nasceu. E assim, meu, eu era um puta de um porra louca.

Trabalhava pra sobreviver, sonhava com a música, vivia no rolê, indo pra show, pipipi, popopô, não guardava dinheiro pra nada. Só que aí quando a minha filha nasceu, eu senti que muita coisa em mim mudou. Por isso que eu fiz essa pergunta também pra você. Porque pensando na minha vivência, parece que algo diferente nasceu em mim.

A partir do nascimento da Ana. E pra quem conhece as pessoas mais próximas que conhece, bem a fundo essa história minha com a Ana, sabe que isso aqui tem um tom que eleva a vários níveis. Sim. É claro que eu não vou abrir isso aqui, né? Por uma questão de respeito e ética, tanto comigo quanto com a minha filha. Ah, sim, que aí você não vai estar contando só a sua história nesse momento. Exato, exato. Então, como sou eu que estou aqui com o microfone na mão, então tem que falar de mim.

Tipo, eu sinto que algo mudou em mim quando isso aconteceu. Mas aí agora te ouvindo, talvez eu encontre uma linha aí pra achar uma resposta pra isso. Que eu acho que, pelo menos no meu caso, talvez as coisas tenham mudado porque eu estava numa configuração que difere do que a gente vê, infelizmente, na maioria das vezes, né? Ou seja, eu estava com a mãe da Ana.

Eu estava com a mãe da Ana, nós estávamos dentro de um relacionamento, e esse relacionamento não teve a maternidade como um divisor de águas, um divisor de história, de mudança de configuração, nada. A gente permaneceu junto na ocasião.

Então, eu acho que talvez este pacote tenha ajudado a fazer com que talvez... E aí, de novo, tô falando só de mim. Quem pode falar essa outra parte é a mãe dos meus filhos. Talvez a maternidade pelada tenha sido menos penosa, porque eu estava junto. E pra mim, realmente, me trouxe essa questão do tal instinto paterno, porque eu estava vivendo e estava disposto a viver aquilo.

Eu entendo não como um instinto ou algo do tipo. Mas, por exemplo, nascer uma criança. E para criar uma criança, precisa de muitas mãos. É uma sociedade.

Outros tipos de maternidade, como de algumas civilizações indígenas aqui no Brasil, hoje não acontece mais isso por conta de direitos humanos e tal, mas, por exemplo, a mulher, quando estava grávida, e aí ela estava tendo as dores do momento do parto, ela se isolava, no máximo ela estaria acompanhada por uma outra mulher. E se naquele momento a sociedade, aquela civilização,

não estivesse apta a receber o bebezinho, ela matava. Ela enterrava o bebezinho. Sério? Porque não tinha esse imaginário de que o feto poderia ser alguém. Tá. Porque ela só estava gerando. Sim. Ela não estava tendo a idealização de um ser humano igual a gente tem na nossa sociedade.

Isso não se assemelha também a determinados instintos dos animais ditos irracionais? Eles percebem quando, por exemplo, eu já vi acontecendo, né? De a minha cachorrinha, a Suzy...

Que nome lindo. Ela teve alguns bebês e talvez um ela percebeu que iria morrer. Tava muito fraquinho, doentinho. E aí ela comeu. Ela comeu o neném por conta que aquele filhote ia ser uma presa fácil.

Na natureza, os animais fazem isso. Sim. E aí, algumas sociedades indígenas que existiram e que existem aqui no Brasil ainda, tem essa cultura. Se a mulher indígena da civilização XYZ percebe que esse neném vai trazer alguma desvantagem para a civilização, porque é a civilização que cria, não é só aquela mulher que pariu. Sim.

É a sociedade toda. Tá envolvida. Tá comprometida com a educação. Com o alimentar. Com o vestir do nenenzinho. E se a sociedade está doente. Ela não traz o bebezinho pra sociedade. Ela termina ali. Naquele momento. Ela não cria vínculo afetuoso. Com aquele novo ser.

Nem enquanto estava dentro da barriga. E aí, claro, com toda a questão dos direitos humanos e tal, isso não existe mais. Mas é uma visão diferenciada do que é maternidade. Sim. Porque o criar uma pessoa, hoje é colocado só nas mãos das mulheres. Ah, você tem mais afinidade com isso. Não, me botaram para ter mais afinidade com isso, desde quando eu nasci.

É um conjunto de castas que foram se formando e que criaram toda essa questão que, sei lá, que colocam, que rotulam como instinto materno, como toda mulher nasceu para ser mãe. É tudo uma coxa de retalhos de dogmas, de religiosidades e tudo mais.

Você tocou falando nessa questão de novo de que toda mulher nasceu para ser mãe. E eu tive um papo com um guia no terreiro. E aí eu falei mais ou menos assim. Eu já sou mãe. Eu posso me considerar sagrada? Porque trago uma pessoa para o mundo. E aí ele falou assim. Falando dessa forma. Você reduz as mulheres que não puderam gerar bebês. Não porque elas não quiseram. Mas porque elas estavam doentes.

Sim. Caramba. E então você reduz a existência dessa mulher. E é muito engraçado que em outras civilizações africanas, o cargo de Ialodê, que significa mãe, a pessoa se torna mãe por uma outra perspectiva. Não pela perspectiva do parir, mas pela perspectiva de escolher ser mãe de uma outra pessoa.

Porque muitas sociedades africanas são matriarcais. Sim. Então, o ser mãe não tá somente colocado numa caixinha ocidental que nem tá aqui, que é o ser mãe do filho do meu marido. Que aí, enquanto meu marido tá na rua trabalhando, sendo o que ele quer ser, eu tô sendo sua mãe, porque eu nasci somente pra isso.

Pra ser mãe. A mulher não nasce pra ser outra coisa. Na cultura ocidentalizada. Sim, sim. E aí a gente tem essa outra perspectiva do que é maternar mais uma vez. Do que é ser mãe. Uma perspectiva materna diferenciada. E dito tudo isso...

Por isso, eu trago uma reflexão aqui. Quem é que pode ser mãe? A mãe perfeita. Aí quando a gente vai olhar direitinho aqui nesse prisma ocidentalizado, a única pessoa, o único tipo de mulher que pode ser mãe dentro dessas características ocidentalizadas é a mulher branca rica. Que aí ela vai ter tudo que ela precisa. Muito dinheiro, outras pessoas pra limpar, cozinhar, enquanto ela tá sendo só mãe.

da nova pessoinha que chegou tornando mais difícil a vida de outras mulheres que são mães sim

Porque vai ter ali a empregada que ganha um salário de merda, que às vezes se desloca da periferia para ir para os bairros nobres, onde só o trajeto já é um risco que ela corre, assim como toda mulher. Só que, infelizmente, esse perigo fica mais latente para uma mulher preta. Vai lá trabalhar, deixando o filho dela, sei lá, com a avó.

Porque muitas vezes o pai é ausente ou o pai tá trabalhando também. Também. Com a filha mais velha. Com a filha mais velha. Deixa com uma vizinha. Com sorte, às vezes, tem uma creche. E ela tá lá trabalhando por um salário ruim pra tornar a vida dessa mulher branca e rica melhor ao detrimento da vida dela. Sim. Isso é louco. Ocidentalizado, colonizado, enfim. E aqui a gente nem tá falando dos corpos trans. É, isso também.

Porque o homem trans também pode gerar filho. Pode. Tem útero. Tem útero. É um corpo com útero. Aí, essas discussões, elas são muito, muito mal feitas aqui no Brasil.

E, inclusive, quando a gente toca nesse assunto, muitas pessoas criam pechas falando que coisa horrorosa. Um homem tem barba e tal e vai gerar, vai ficar com barriga de grávida. Quantos homens aí parecem estar grávidos, gente? Um homem que tem bilal, né? Parece que está grávido, com barriga de cirrose e ninguém fala nada. Obrigado por especificar, né? Porque para quem não conhece, eu sou um homem gordo.

Talvez o aparente também. Talvez o aparente também. Mas aqui é só gordura mesmo, gente. Não é nem cirrose. Não, mas barriga de cirrose parece muito barriga de grávida. Ficar com a pele lisinha igual da grávida. Você já viu essa coisinha assim? Já vi essas coisinhas. Essas coisinhas fofas, só que não. Muito bom.

Aí, quando a gente sai do mundo das ideias e olha pra realidade, os números são muito claros, né? Porque aí entra essa questão que o Ale falou da mulher negra, da mulher não branca, né? Porque a gente pode colocar aqui as mulheres indígenas, as mulheres, algumas asiáticas, que elas não têm a carteirinha de mãe, elas não podem ser mãe plenamente.

Porque, pra além de tudo, o Estado entra pra vigiar e punir a maternidade da mulher não-branca. Porque, tipo assim, se você não fizer tal coisa, o conselho tutelar vai bater na sua porta, viu? Se você não fizer tal coisa, a gente vai tirar essa criança de você. Enquanto não é falado isso pra uma mãe branca rir. Não mesmo.

Então, os dados falam por si só. Mais de 11 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas no Brasil. Cerca de 90% dos lares são monoparentais e são chefiados por mulheres. A ausência paterna chega a mais de 5 milhões de crianças que não têm o nome no registro, como o Alê citou.

Eu tive uma vivência com a minha filha, que acho que isso eu posso abrir aqui. Eu participei de uma questão no nome dela, que a gente precisava resolver. Uma questão com o sobrenome dela, que a gente precisava resolver. E aí, o procedimento para fazer essa correção, pensando apenas em documentos, né? Documento, ajustes, configurações. Ele era tratado pela mesma parte do cartório, onde, por exemplo, um pai ia assumir um filho.

Então, sei lá, por alguma razão, a mãe iniciou essa maternidade como mãe solo. E aí, sei lá... Caiu um raio na cabeça do homem e ele escolheu ser pai. Teve um mínimo de consciência e resolveu assumir ali o filho e dar o seu sobrenome pra ele. Ou então, até outra questão, né? Uma questão de, por exemplo, de uma pessoa se envolver. Ter um relacionamento com uma mulher que já tinha um filho. Esse filho também tava ali tendo ausência paterna.

E aí esse homem decide dar o nome dele, o sobrenome dele, melhor dizendo, pro filho. Então, onde a gente precisava fazer essa correção era o mesmo lugar que cuidava disso. Na época que a gente foi tratar esse assunto, tava tendo uma campanha, incentivado pelo governo ou pelo Estado, não vou lembrar agora. Era tipo um mutirão pra dar sobrenomes pros filhos. Pra crianças terem o sobrenome do pai e da mãe.

E aí, tipo assim, eu só soube disso porque na hora de pesquisar, de ver como é que podia fazer essa questão, a gente acabou dando de cara com isso. Falaram, então beleza, se tá tendo uma ação, provavelmente é algo menos burocrático, algo mais simples de resolver. Sim, sim. E de fato foi, né? De fato foi algo muito rápido. Eu lembro que foi papo de menos de uma hora, tava resolvido isso.

Mas por que eu tô falando isso? Porque o que me chamou a atenção? Porque geralmente, toda iniciativa, ou do governo, ou da prefeitura, enfim, que se fala, sei lá, mutirão de limpar o nome, mutirão de vacinação, enfim. Geralmente você traz à sua mente a ideia de que você vai chegar num lugar e esse lugar vai estar lotado. Com várias pessoas ali resolvendo suas questões dentro desse mutirão, a depender do tema. Sim. Então é vazio. Tem ninguém fazendo isso.

ninguém quer ser pai. Quase todo ano tem o sonho de ser pai. Na verdade, ele tem o sonho de prender a mulher na maternidade. Ou apenas o sonho de ter um filho, mas sem estar nesse pacote e toda a responsabilidade que envolve isso. Porque, assim, aí eu posso falar, né? Tipo, porra, é muito legal você colar num rolê e levar seu filho pequeno. Claro que sim. Além de também chamar algumas mulheres pra você ficar trocando, ficar trocando confete. Também é verdade.

É verdade. Então, assim, é muito legal você, sei lá, você colar num só site com os camaradas, num futebol e colar lá com o seu filho ou com a sua filha também. Falar, ah, você quer meu filho? Ou então, sei lá, tem algum evento do trabalho, um evento de família no trabalho. Aí você leva seu filho pra conhecer seu trabalho e tal. Tudo isso é muito legal. É muito legal. Só que, infelizmente, tipo...

Muitas vezes todos esses eventos que eu estou citando como exemplo aqui, ele esconde uma realidade muito diferente do que está sendo apresentado ali nesses eventos. Porque assim, olha os olhos de quem está de fora, olha que pai bacana, pai presente, olha o filho que bonitinho, está arrumadinho, perfumadinho, limpinho, com um tênizinho legal, cuida bem do menino, e às vezes ele não é nada disso. Por detrás de toda criança limpa e organizada tem uma mãe descabelada.

nervosa, suja, com fome, porque às vezes nem tem pra comer, a bichinha tem. E inclusive, pegar esse gancho que você falou, né, você deixou uma coisa aqui legal na nossa pauta, falando sobre essa questão da sobrecarga de trabalho.

Porque mulheres dedicam, em média, quase o dobro do tempo aos cuidados domésticos e filhos em comparação aos homens. Mesmo quando trabalham fora, continuam sendo as principais responsáveis pela casa. É que é tipo esse negócio assim, ah, mas eu deixei pra você. Você tem mais habilidade com isso. Mas a mulher tem mais habilidade porque ela foi treinada, né? Eu acho que a gente passa a ter habilidade com determinada coisa quando a gente começa a fazer. Você vai tirar a carteira de motorista.

Você não sabe dirigir, você não sabe fazer baliza, você não sabe estacionar. A partir de que momento que você passa a ter habilidade em fazer todas essas coisas? É repetindo os processos e você vai ficando bom. É a mesma coisa de trocar a fralda, a mesma coisa de dar mamadeira, a mesma coisa de lidar com as coisas domésticas, né? Que a gente coloca assim nesse âmbito. Eu vou dar um... vou quebrar aqui um pouquinho o protocolo da nossa gravação, porque...

É que essa parada me pega, Preta, sabe? Porque assim, tudo que você falou é uma grande verdade. E nós estamos quebrando aqui esse paradigma de que a mulher não nasceu pra ser mãe, então talvez o homem também não nasceu pra ser pai. Uma vez que uma coisa depende da outra. Porém, contudo, entretanto, sim, tudo é um treinamento. Ninguém sabe fazer. Ninguém sabe.

Acho que este é o pedaço que talvez melhor ilustre essa coisa de que não existe de fato um instinto materno, esse tipo de coisa. Porque não, meu, nem toda mulher vai saber de primeira fazer as coisas que a criança necessita, né? Eu lembro que a minha filha, porque pra quem não sabe eu já sou avô. Quando a minha filha, quando a minha neta nasceu, e olha que ela teve rede de apoio, né? Tava ali com a mãe também.

Minhas irmãs dando um apoio, uma força. E tipo assim, ela teve uma dificuldade enorme de fazer a neném acertar ali o peito pra poder mamar e tal. Mas enfim, né? Sem viajar muito. Cara, eu fico muito puto com essa questão da... É uma coisa tão da hora.

Nesse momento eu estou tentando de verdade Não romantizar nada do que eu vou falar aqui Mas de novo, porque A melhor forma de eu ilustrar Isso é contando a minha parte Como foi pra mim ser pai E cara, porra, eu adorava trocar a fralda dos meus filhos Sabe, ter aquele momento De troca, sabe Porque de fato

No começo, a configuração era essa, né? Eu trabalhava, a mãe dos meus filhos estava de licença maternidade. Então, enfim, eu chegava em casa à noite, esse tipo de coisa. Mas, meu, eu voltava louco pra chegar em casa, pra ficar com a Ana, por exemplo.

Pra brincar com ela, pra ter... Eu dar o banho pra ela, eu dar a jantinha dela, trocar a fralda pra dormir, dar o arrotinho ali antes de ir pro berço, esse tipo de coisa. Então, assim, pra mim isso era algo extremamente prazeroso. Sabe? Extremamente prazeroso. Sabe? E, de novo, tirando o romantismo, é claro, talvez ali pra mim, por eu estar participando apenas de um pedaço do dia, eu conseguia ter essa leitura extremamente prazerosa de estar ali tendo esse momento com a minha filha. Eu...

Ao passo que o dia todo quem estava lidando com isso era a mãe dela. Então, é claro, talvez para mim eu conseguia ter esse gostinho mais doce da paternidade. Porque eu não estava vivendo aquilo 24 horas por dia. Sim.

Então tudo bem, eu coloco isso, não vou tirar isso da conversa. Mas ainda assim, quando a gente pensa num cenário que nem esse pedaço faz, ainda que ele esteja com a mãe, ele chega do trabalho e não faz porra nenhuma pelo bebê. Então assim, ainda assim, eu acho que esse pedacinho que eu tô falando ainda...

Ele merece ser dito E eu fico impressionado Como que pode um homem Ter a oportunidade de ser pai Ter uma oportunidade financeira De poder custear A criação dessa criança Estar com a mãe Da criança Estarem dentro de uma mesma casa E o cara não querer participar disso Pra mim Eu não suporto essa ideia

Isso sem falar os homens que vão embora quando descobrem que o bebê vai nascer com alguma deficiência. E que as mulheres têm que lidar com isso totalmente sozinhas. É verdade. A gente também tem que falar disso aqui. A taxa de participação no mercado de trabalho cai drasticamente para mulheres com filhos pequenos. Muitas mulheres saem ou são empurradas para fora do mercado de trabalho após ter o bebê. Já aconteceu comigo?

Uma entrevista, eu tenho quase que certeza absoluta que homens não passam por isso. É, quando a gente vai fazer uma entrevista, e aí pergunta, você tem filho? Aí, tipo, pro homem pergunta se tem filho ou não e tal, e só faz lá um check na prancheta. Quando é pra mulher, pergunta, você tem filho? Aí a mulher vai falar se tem ou não. E aí, quando a mulher tem, pergunta, mas como você vai fazer? Porque a responsabilidade da logística com a criança é totalmente única e exclusiva da mulher pra sociedade, né?

E aí um dia eu tava fazendo, vou falar mesmo aqui, porque eu gosto de jogar a semente do mal. Falar mesmo. Fui fazer uma entrevista de processo seletivo na loja 100, pra trabalhar como vendedora, na parte de eletrônico, celular, tablet, essas coisinhas. E cara, eu gosto de trabalhar com vendas, eu gosto de trabalhar com o público, é uma skin nativa minha. E aí eu fui entrevistada por dois homens brancos, precisamos também falar sobre isso.

E aí, lá nas perguntas e tal, perguntas rotineiras, que acho que cabe pra toda entrevista, um deles me perguntou, ah, você tem uma filha e tal, mora só vocês duas. Pra quem não sabe, eu tenho uma filha hoje de 18 anos, eu sou uma mulher de 33 anos, eu fui mãe na adolescência. A pior coisa da vida de uma pessoinha é perder a adolescência cuidando de uma criança.

pulei etapas, enfim. Claro, eu amo muito a minha filha, mas eu detesto a maternidade, eu odeio com todas as forças. Esse tipo de maternidade que é imposta no Brasil é uma maternidade que faz a manutenção da miséria.

e eu posso provar isso com dados. Enfim, e aí eu morei, moramos sozinhas, ela e eu, pelo menos uns 12 ou 13 anos. Então, era sempre nós duas. Claro que eu tive minha rede de apoio, minha mãe, minha avó, minha família, eu morei perto dos meus familiares.

Mas na hora de fechar a porta, era só nós duas. Voltando pra pergunta que o imbecil fez pra mim, aí um dia você acorda de manhã, sua filha vai estar com febre, e é o mesmo dia que você precisa vir mais cedo pra fazer o recebimento de mercadoria. O que você vai fazer?

Eu só respondi para ele, eu tenho certeza absoluta que quando você está doente, você vai querer... Quando você está doente, você quer o colo da sua mulher ou da sua mãe. Se você é um cavalo desse tamanho, não falei cavalo, né? Se você, um homem adulto, feito, quer o colo da sua mãe, quem dirá eu? A minha filha, que é uma criança. Se ela não quer o colo da mãe dela, então primeiro eu vou cuidar dela, porque a lei exige que eu cuide para depois vir trabalhar. Claro que eu não fui contratada. Claro.

Talvez ele queria que eu dissesse que eu ia abandonar a criança com a minha mãe, jogar a responsabilidade do cuidado de uma criança para outra mulher, porque coloca-se também que no imaginário a avó é sempre uma pessoa totalmente disponível.

A avó da criança é uma pessoa totalmente disponível. 24 horas por 48, a avó da criança tem que estar disponível. E não, a minha mãe é uma mulher jovem também. A minha mãe tá na casa dos 50 e, porra, minha mãe adora tomar cervejinha dela, ir pro samba, fazer as coisinhas dela. Ela trabalha, então ela não é uma avó totalmente disponível. A minha mãe me ajuda muito, mas a responsabilidade do cuidado da minha filha é minha e deveria ser do pai também.

Com certeza. Desculpa te perguntar, foi em que ano isso? Em 2021, 2022. Cara, como que pode em 2022 ter dois filhos da puta pra perguntar uma porra dessa, cara? O pior foi eu ter colocado no Facebook e uma mulher dizer que isso é normal.

Assim, dizer que é normal em que sentido? De que isso é o tipo de coisa que realmente acontece ou normal que, tipo, é assim mesmo? É, tipo assim, ah, mas essas perguntas precisam ser feitas. Bota o mano cu. Essas condições que a gente coloca pras mulheres precisam ser feitas pra gente poder entender, não sei o que lá. Entender o quê? Outra mulher falar isso. Entender o quê? Eu quis rasgar o cu com a unha, furar os meus olhos com os meus próprios dedos pra eu não ler um negócio desse. Mano, não é possível, velho.

E aí é muito engraçado também como que as mulheres acabam tendo que sair dos seus empregos ou sendo... ou simplesmente largando os empregos, porque não tem quem cuida. Quem é que vai cuidar do bebê? Que horário que a creche funciona? Horário comercial. A gente tá aí numa luta pra poder tirar a escala 6x1. A grande maioria das pessoas que trabalham em supermercado, quando você vai lá no supermercado e olha a frente de caixa, quantos homens você vê? Uhum.

Essas mulheres que estão na frente de caixa, que são operadoras de caixa, elas têm filhos. Elas não conseguem trabalhar no horário que a creche funciona. Uma porque também a oferta de trabalho que o mercado dá, o mercado que eu digo é o supermercado, horários que ou é das 6 às 2, das 2 às 10, são horários que não têm nada a ver com o horário real da escola, com o horário real da creche. Aonde essa criança fica, gente?

largada. É aí que eu falo que a maternidade é, a maternidade no Brasil, é a maior arma para manutenção da miséria. Essa mulher, quando sai lá da frente de caixa, que aguentou todas, até para mijar, ela precisa pedir permissão para fazer xixi, quando ela está com cólica, ela não sabe se ela está com cólica de fazer o 2 ou se ela está menstruando, porque ela não consegue nem ir no banheiro. Uma vez eu estava num restaurante.

Eu fui fazer xixi e aí no banheiro do lado tinha uma funcionária ligando pro filho, falando pro filho tomar remédio. Imagina como que tava a cabeça dessa mulher. Filho, precisa tomar remédio. Ó, daqui a pouco a mãe vem aqui no banheiro de novo e eu vou tentar te ligar, tá bom? Fica com o celular perto. E aí, como que essa mulher trabalha?

E eu tenho certeza que se ela não fosse trabalhar num dia de domingo, tipo dia das mães, se essa mulher não fosse trabalhar pra poder garantir o emprego dela nesse dia, ela não ia ter a vaga dela lá. Enquanto o filhinho dela tava doente. Agora me diz, que idade será que essa criança tinha pra ela precisar ligar? Uma chamada no banheiro, enquanto tá mijando, falando com o filho. Gente, isso é muita manutenção da miséria. Muita manutenção da miséria.

E aí você ouve, eu já ouvi de familiares meus falando, ai, porque tem um monte de filho para viver de Bolsa Família. Porra, gente, Bolsa Família, para uma mulher conseguir pegar um Bolsa Família, ela tem que ter uma renda per capita, por pessoa, de 217 reais, se eu não me engano.

Vamos colocar na minha realidade aqui, que sou eu e Rebeca, que morou por 12, 13 anos sozinha, eu e Rebeca. Se a gente colocasse uma renda per capita de R$217,00, R$400,00, não chega a R$500,00. Meu aluguel era o R$500,00. Isso porque eu consegui um cara muito bacana que me fazia um valor de aluguel numa casa relativamente boa, num bairro razoavelmente bom, num valor bom, que eu pudesse pagar.

Porque se a gente for olhar direitinho, uma casa digna, decente, não custa 500 reais. E aí eu ia comer o quê com esse valor de 500 reais? E aí se eu trabalho e passar, se a mulher trabalha e passa um centavo dessa renda por capita, ela não consegue receber o Bolsa Família. E aí o Estado coloca a mulher para estar dentro de relações em que não cabe. E aí a gente coloca aqui violência, violência doméstica, violência, todo tipo de violência que essa mulher se sujeita para poder ter uma renda relativamente boa.

trabalhos horrorosos de empregada doméstica, morar em lugares em que precisa dividir o banheiro com outras casas, porque o que mais tem aí é construção, moradias irregulares. E aí, ouvi de um Zé Ruela, que as mulheres que eu tenho no filho para ganhar a Bolsa Família. Eu queria ter a expertise dessas mulheres que conseguem viver com Bolsa Família. Porque o que essas mulheres têm de administração de pobreza,

Se ela fosse presidente do Brasil, se ela fosse a secretária da economia do Brasil, gente, o Brasil saia dessa miséria que a gente vive. Com certeza. Com certeza. Eu queria ter a expertise dessa mulher pra conseguir viver com Bolsa Família. E eu queria que eu ouvi na minha frente um cara falar uma porra dessa. De que mulher faz filha pra ter Bolsa Família. Sim.

É de uma imbecilidade, é de uma ignorância, é de um mau caratismo. E no mínimo, caras que falam esse tipo de coisa são caras que pagam 200 reais de pensão porque é um miserável e os 30% que pode ir pro filho não dá mais que 200 reais porque recebe também um salário miserável de fome. E aí acha que a mulher tá passando progressiva no cabelo, alisando, passando coisa na unha, fazendo cílios com esses 200 reais. Alô?

Ei, jogador do Palmeiras, tudo bem? Como é que tá no Estados Unidos fugindo da polícia, hein? Seu filho de uma puta. Não sei se vai suar pro ar, mas foda-se.

A gente pode falar também como que é as creches, né? Menos de 40% das crianças, dentre 0 a 3 anos, tem acesso a creche no Brasil. Ou seja, a conta fica pra quem? Pra mãe. Gente, eu vou falar um negócio pra vocês. Conselho da amiga Ru. Não tenha filhos.

as pessoas falam assim, ai, adoça, dar presente pro meu filho, não sei o que, não sei o que lá, é adoçar a minha alma, adoçar a minha vida. Gente, é um caralho. Quando a Rebeca nasceu, eu vou falar agora numa parte muito subjetiva e íntima minha, quando a Rebeca nasceu, eu deixei de existir pras pessoas que me conheciam.

Eu já tava vivendo uma solidão, porque eu fui mãe aos 15, engravidei aos 15 anos. Então era mais ou menos assim, não anda mais com a Roberta, tá? Porque a Roberta tá grávida, você vai acabar engravidando também. Então as minhas amiguinhas meio que ficaram vetadas de poder andar comigo. Mano do céu. Eu tinha uma amiga que ia me ver. A Patrícia.

uma amiga. E aí minhas primas também foram instruídas, né? Não todas, né? Mas foram instruídas também de não andarem comigo, porque eu tava grávida, né? Então todo mundo também ia ficar grávida. Tipo, como se fosse dengue. E aí a Rê nasceu.

Era meu aniversário, quem ganhava presente era a Rê. As pessoas falavam comigo para perguntar da Rê. Eu deixei de existir por algum tempo, por um bom tempo. E aí o não existir foi depois passar a ter que trabalhar para sustentar esse ser humaninho. Então tudo o que eu queria ser teve que ficar em segundo ou terceiro plano, porque eu precisava ser uma outra coisa.

Eu precisei ser uma pessoa provedora para esse novo ser humaninho. Então, é basicamente isso, gente. Não tenha filhos. É um grande conselho. Acho que você pode pegar um gato, um cachorro, enfim. Ou se é o desejo, o sonho de ter filho, que seja somente o seu sonho e o seu desejo. Não conte com o desejo do outro, porque todo mundo é legal, até a página 2.

Eu ia mencionar isso, né? Porque eu penso, por exemplo, né? Agora, de novo, né? Como homem, eu também sou solidário ao pensamento de se você puder não tenha filhos. Mas aí não era nem pensando nesta parte, é mais pensando no mundo em si, né? Porque trazer uma criança pra este mundo do jeito que ele é hoje, tem que ter muito culhão, cara. Tem que ter muito culhão e muito útero pra poder fazer isso, cara. Porque é o mundo desgraçado que a gente vive. Agora.

É claro que isso é uma exceção à regra, mas se existe um planejamento, existe ali um relacionamento consolidado, é um desejo de ambos, tanto do carinha quanto da menina. Eu acho que ainda tem que ser mais da menina. Sim, porque até pensando nessa configuração que existe no mundo corporativo de que a licença paternidade é bem menor do que a licença maternidade, por mais que o cara queira muito fazer parte de tudo isso, ele ainda não vai conseguir, felizmente.

Por conta de toda uma configuração social. Sim, sim. Existem conversas de se mudar isso. Algumas empresas voluntariamente estão mudando isso, mas ainda assim está num processo muito embrionário tudo isso. Mas existe conversa sobre esse assunto. Me gerou uma dúvida aqui que eu vou jogar para os nossos ouvintes.

Que eu poderia ter pesquisado, mas não pesquisei. E quem souber e quiser compartilhar com a gente, vai ser muito legal. Como que fica a questão da licença maternidade quando é um homem trans que pare?

Alguém, se souber, por gentileza, traga essa informação pra gente. Porque é uma questão. Aí é achismo, tá? Mas aí os nossos ouvintes podem nos ajudar. Eu acho que ele tem o direito sob pleito. Entendeu? Esse caso precisa ser levado pro jurídico da empresa.

E aí entender com a empresa, tipo assim, o quão dispostos ou não eles estão com essa questão, entendeu? Mas aí de novo, é um outro achismo meu, porque a sua pergunta foi muito boa. Porque assim, se hoje nós temos empresas que estão voluntariamente mudando esse cenário da licença-paternidade e eles estão bancando, por exemplo...

Ou o pai ter o mesmo período da mãe, ou ele ter um período ainda consideravelmente maior, ainda que não consiga dar todo, mas ser bem maior do que a lei diz. Eu entendo que uma empresa que tenha esse perfil, ele não vai fazer essa acepção de gênero, entendeu? É um ponto que eu acho, que uma empresa que já tem um pensamento um pouco mais progressista nesse sentido, não vai fazer um litígio com relação a essa questão. Mas, a sua pergunta realmente é bem caprichada.

Eu acho que a gente precisa de leis que deixem o tintim por tintim bem esclarecidinho para não dar brecha para coisas ruins. Na prática, então, a maternidade no Brasil é isso. Milhões de mulheres criando filhos sozinhas, fazendo ali a manutenção da miséria, trabalhando fora, cuidando da casa, sem rede de apoio e sem política pública que realmente funcione.

porque a política pública que está posta é uma política pública que coloca a mulher dentro de uma cadência de miséria que coloca ela à mercê de qualquer coisa. À mercê, porque quando você precisa, quando a necessidade é latente, gritante, qualquer coisa que aparecer é bom. Inclusive um homem violento, inclusive moradias indignas, enfim.

Dito tudo isso, a gente precisa trazer às claras que a maternidade não é vivida da mesma forma por todas as mulheres, como a gente já tem falado aqui. No Brasil, a maternidade tem cor, tem classe, tem território. Que não é aqui na ZL, não, no fundão da ZL, não é no fundão da Norte, não é no fundão da Sul, enfim.

Mulheres negras são a maioria entre as mães solo. Cerca de 65%, 70% das mães solo no Brasil são mulheres negras. Ou seja, a sobrecarga da maternidade recai majoritariamente sobre elas. A renda que é tão precarizada, como por exemplo, mulheres negras recebem em média menos da metade do rendimento de homens brancos.

isso não sou eu quem estou dizendo, isso daí se vocês jogarem aí dados IBGE, IPEA, FGV, vocês vão ter esses dados. Então, a maioria dessas mulheres trabalham como domésticas, em trampos precarizados, trabalhos informais que não dão garantia de nada quando elas precisam de algum afastamento. Isso impacta determinantemente a maternidade, que aí é menos tempo com as crianças, menos dinheiro, menos apoio, enfim. Aí, tem um desgraçadinho da Silva, que agora eu não vou saber dizer quem é,

Que lançou alguns vídeos dizendo como o psicológico da mulher que aborta fica. Tipo, como se ela ficasse totosinha das ideias porque ela abortou. Só que ninguém fala como o psicológico dessa mulher que passa por tudo isso fica.

Aí agora quem vai colocar uma sementinha do mal é ser eu, tá? Eu acho que uma coisa não invalida a outra, tá? Porque eu imagino que o processo do aborto em si deva ser um processo extremamente invasivo e traumatizante, não? Não, não é invasivo e nem traumatizante. Você tomou um remedinho, menstruou. Tudo bem, mas... Só. Ok, a depender do período de gravidez, né? Sim. Então é isso que eu tô querendo dizer.

Mas aí são casos e casos. Trazer uma pessoa pro mundo, e dependendo da circunstância que é, é melhor passar por um caso invasivo, traumatizante. Imagina só, você ser estuprado e ficou grávida. Ah não, claro, claro. E aí foi arrastando, arrastando, arrastando, e o bebezinho, o feto ou o embrião, a gente precisa dar os nomes que existem, né?

Porque a gente coloca o nome de bebezinho quando é uma criança desejada. E quando não é uma criança desejada, é feto, é embrião, pode ser dado qualquer outro nome. Inclusive, parece até um petecente de carne só. A gente não sabe nem o que é, porque é disforme.

Ah, sim. Então, determinado período sim. Não existe sequela psicológica. Não existe. Porque, imagina só, eu vivo uma maternidade a mais da metade da minha vida. Certo. E não tem como mensurar o quanto tudo isso causou danos psicológicos na minha vida. Não existe nem estudo. Mas por que querem pesquisar supostos danos psicológicos numa mulher que interrompeu uma gravidez?

E que isso não vai dar problema nenhum na vida dela. Ela toma dois comprimidinhos e ela sangra. Geralmente o aborto é isso. Sim. E os remedinhos que são para abortos, eles são mais seguros do que gerar um bebê. São mais seguros do que o Viagra, que é vendido indiscriminadamente. E aí me diz...

Inclusive, posso comentar uma coisa aqui que tem sido muito curioso pra mim. É claro que eu acho que você pode ser um tema pra um outro episódio, mas só porque você mencionou. Você já reparou, sei lá, quando você sai pra fazer alguma atividade sua, alguma coisa assim, a quantidade de caixas e embalagens, enfim, de tadalafila, de Viagra jogado na rua?

Você já reparou isso? Não, eu ainda não reparei, mas agora que você falou, vai começar a aparecer na minha frente. Hoje mesmo, né? Só pra contar, a gente tá gravando esse episódio aqui no dia 1º de maio. Hoje, mais cedo, nós dois saímos pra fazer algumas compras. Quando a gente tava andando na avenida, eu vi pelo menos três caixas. Eu vi duas caixas de Tadalafila jogadas no chão, uma de Viagra. E aí eu vi, mais pra frente, eu vi duas cartelas. Inclusive, uma tinha ainda comprimido dentro.

Sério? De toda ela fila. Eu acho que é porque, como eu não conheço, tipo, não tá no meu cotidiano, sabe? Então eu não enxergo. É que o nome tá escrito, né? É, mas assim, tipo, passa... Fica banalizado. Deixa eu explicar isso direito, né? Porque assim, me laço uma dessa e falo, nossa, como ele sabe, né? É, veio isso na minha mente.

Então, vamos lá. Vamos tirar esse telefone da sala. Tava escrito, tá, gente? Tava escrito na caixa. Dá lá fila. Tava escrito na cartela também. Vamos lá, né? Vamos com calma. Por favor, obrigado de nada. Vamos com calma aí, né?

Mas enfim, eu queria comentar isso porque realmente nessa questão do uso indiscriminado tá assim, um negócio maluco com essas paradas, esses vasodilatadores. Sim, e aí é um bagulho muito doido, né? Tipo, é muito importante ter a piroca dura, mas a mulher não pode escolher se ela quer dar continuidade ao bebezinho ou não. Ela foda-se.

E tudo isso a gente pode colocar também na conta da falta de educação sexual. Sim. Porque quando a gente é educado pela igreja, por exemplo, ai que você só pode transar depois que casa. Porra, o cara não sabe nem aonde é o clitóris, o que é cu e o que é vagina. E aí a mulher não sabe também... Desculpa, eu adoro, eu consigo não saber o que é cu e o que é vagina. Tipo assim, a vagina a gente falou bonitinha, agora cu é cu mesmo. É porque todo mundo tem.

Ai, cacete, maravilhoso. E aí, e a mulher não sabe nem o seu próprio prazer, né? Porque a gente é ensinado na escola que quando o homem tem uma ereção, é que ele tá com prazer. E a mulher tem ereção como? Foi descoberto esse...

mês que passou aqui, que mês que nós estamos? Maio, né? Abriu, descobriu que existem um milhão de terminações nervosas e quais são os caminhos que existem de terminações nervosas no clitóris. Porque aí agora sim, a gente pode ter uma conversa genuína sobre reparação, qualquer tipo de cirurgia que precisa ser feito na vagina, porque antes era feito de qualquer jeito, porque não existia um estudo de verdade de como que é o formato da vagina.

Onde que fica os nervos, as terminações, as correntes sanguíneas, indiferente do pênis. Porque é isso, né? A gente vive numa sociedade falocêntrica, então... Falocêntrica, olha aí, que momento, hein?

Aqui a gente também pode trazer, já que a gente tá racializando o negócio, né? A violência que as mulheres negras sofrem. Como eu disse no começo do episódio, eu pari em casa. E aí eu fui três vezes pra maternidade, Leonor, aqui no Tatuapé.

Três vezes. Na terceira vez, o médico olhou dentro dos meus cornos e falou, você de novo aqui, mulher? Aí imagina, você 15 anos, tendo 15 anos, você é uma mulher negra, fica à mercê de médicos que são brancos e são treinados por uma medicina eurocêntrica. Quase eugenista, né? Eugenista. E aí eu falei, então, quando é que eu vou saber a hora? Ele falou, quando a bolsa estourar, vai dar tempo de você ir pra alguma maternidade. Fica tranquila.

Só que aí hoje, né, eu com 33 anos, estudando todas essas questões da maternidade, no último exame de pré-natal eu tava com um dedo de dilatação já. E aí do último exame até o dia em que a renasceu, passou-se mais ou menos uns 15, 20 dias. Eu não tenho certeza porque hoje já tem 18 anos, né, gente? Já tem bastante tempo.

E aí, a primeira vez que eu fui, que eu tava achando que era a hora de a Rebequinha chegar, eu estava ainda com um dedo de dilatação. Na última vez que eu fui, eu tava com três, dois e meio, três dedos de dilatação. No meu ponto de vista, talvez ele não poderia ter me internado. Mas ele poderia ter falado, fica aqui na sala de espera, vai andar. É. Vai fazer um exercício.

Vai ali num restaurante, toma um chá, toma um café, daqui a pouco você volta, sabe? Mas não, ele mandou eu ir pra casa. O pai da rei e eu voltamos pra casa e ficamos esperando a bolsa estourar. A bolsa estourou? Rebeca tava coroando já, gente. Não tinha mais o que fazer. Olha que loucura, gente. Uma loucurinha. E aí eu me pergunto, se eu fosse uma mulher branca na casa de uns 25, 30 anos, será que eu tinha recebido esse tratamento?

Certamente não, infelizmente.

Então, mulheres negras são as principais vítimas de violência obstétrica no Brasil. Existe uma falata de que pessoas negras têm maior resistência à dor. Mulheres negras recebem menos anestesia. Também são as que mais perdem filhos para a violência urbana, a ação policial. E mais uma vez eu coloco aqui. Quem é que paga conta dessa saúde psicológica da mulher? Que perde o filho para a violência policial, para a violência urbana. Porque é muito difícil ter um filho preto.

No Brasil. E aí eu posso colocar também sobre o ponto de vista de um pai, cara. Porque eu também tenho um filho preto, né? Eu tenho um casal de filhos, que eu já mencionei aqui em outros episódios. E, meu, eu tenho muito medo, sabe? Eu tenho muito medo mesmo. Porque é incrível, né? Que a bala perdida, por exemplo, sempre acha uma testa preta, né? Sempre acha um corpo preto pra se encontrar. Independente da idade.

independente da idade. E eu tenho um filho que estuda, que trabalha, que tá sempre aí na rua, que chega tarde em casa da escola, veja só vocês, né? Meu filho não chega tarde na escola porque tá vadiando, porque tá na biqueira, que tá nesse tipo de coisa. Não, o moleque sai do trabalho e vai pra escola. Aí chega em casa, papo de 11, 11 e pouco da noite. E aí é...

E aí, neste ponto, muito infelizmente, a gente consegue aproximar as conversas, por exemplo, e claro, eu tô falando isso com muito cuidado e respeito, a gente consegue aproximar a conversa da violência contra a mulher e a violência com pessoas pretas em geral. Porque eu vejo meu filho num processo de vulnerabilidade, talvez tão grande quanto, por ser simplesmente um menino preto. Porque assim, ele é um menino preto, um jovem preto, que tá na rua.

fora de hora, entre aspas, né? Como se tivesse hora certa para as pessoas estarem na rua. E aí, ele pode se tornar uma vítima de um policial simplesmente por estar na rua. Não precisa nem de um flagrante, não precisa nem de nada. E realmente, os números não mentem. Jay-Z já dizia isso. Homens mentem, mulheres mentem. Números não. Números não.

E a gente vê que realmente uma mãe preta, ela vive num estado de atenção barra aflição constante quando seu filho tá na rua. É foda, é foda.

Bom, com tudo isso, quando a gente fala de exaustão materna, a gente precisa perguntar exaustão de quem? Porque no Brasil, quem mais sustenta essa exaustão são as mulheres negras periféricas e, muitas vezes, ou principalmente das vezes, né, sozinhas. Tem mais alguma coisa pra falar sobre isso, Ale? Eu ainda estou digerindo algumas coisas.

Então, vamos para a próxima pauta? Vamos. E nem é meme.

E aí a gente pergunta, né? O que são esses silêncios que a gente fala lá no começo? Não poder reclamar. Sentir culpa por estar cansada. Não falar sobre arrependimento, frustração, raiva. Fingir que está tudo bem. Eu vou fazer uma... Mais uma vez um lugar de fala aqui. Por favor, por favor.

Eu tinha isso internamente dentro de mim, né, desse sentimento de odiar a maternidade. Mas eu tinha muito medo de falar isso pras pessoas, porque eu tinha medo de ser julgada como louca, né, porque na verdade mulher preta já é louca naturalmente. Calada ela é louca, né, e raivosa, e pode explodir a qualquer momento.

E aí eu não falava isso. Um dia eu estava assistindo TV e passou no Globo Repórter sobre o arrependimento de mulheres de ter sido mãe. E mulheres maduras, mulheres que tinham tido bebês na casa dos 20 e poucos anos, 30 anos, mulheres que tinham carreiras consolidadas e que decidiram ter filho. E aí elas falando real, abertamente, na Rede Globo, o quanto que elas tinham arrependido da maternidade, da escolha da maternidade.

E ali eu vi que o problema não era porque eu fui mãe aos 15 anos, porque, porra, quem foi adolescente nos anos 2000, eu fui um dos terrores dos professores, a maternidade. Na primeira década dos anos 2000, muitos professores não sabiam como lidar com um monte de menina aparecendo grávida nas salas de aula.

Tanto que eu tive licença maternidade da escola por uma professora. Foi lá na minha casa. Olha, não precisa ir mais pra escola. A gente tá com medo de você ir pra escola. Porque eu estudava numa escola grande, que tinha muito, muito adolescente. E tinha escadas e tal. Então eles estavam com medo da gente se machucar. E eu tinha notas boas. Então eu não precisava ficar indo pra escola. E essa professora ficou fazendo a manutenção das minhas matérias, sabe? Então eles estavam com medo de como... ...en um olho também.

de uma mãe adolescente, uma gestante adolescente melhor, se machucar dentro da escola. Então eles estavam fazendo essa campanha, pode ficar em casa, fica em casa. E aí a partir dessa reportagem, eu consegui entender que isso não era algo somente meu. E que isso não tinha a ver somente, claro, que ser mãe na adolescência é uma coisa do caralho, mas que isso não tinha somente com a maternidade na adolescência.

Que a maternidade, depois que eu fui crescendo e amadurecendo isso, eu consegui compreender que é o tipo de maternidade que é posto para a mulher. É esse que é o problema. E não o do gerar o bebê. Não de o cuidar do bebê. Porque, poxa vida, isso acaba que está uma coisa ligada na outra.

o nenenzinho nasce, o primeiro contato que o nenenzinho tem é com o corpo que pariu esse neném. E eu vou trazer aqui uma fala da minha avó que eu acho que é a coisa mais linda do universo. Você não vai me fazer chorar aqui no meio da gravação não, né? Porque quando você fala da sua avó, você sabe que você me toca quando você fala da sua avó. Eu tenho uma avó chamada Belanísia.

É a coisinha mais preciosa da galáxia da minha vida. Eu já tô com o olho marejado, olha que bosta. E eu tenho um tio que, claro, é filho, dá trabalho. E aí um dia meu tio tava lá com umas questões e tal. E a minha avó falou assim, eu falei, vó, o tio já é adulto.

Deixa ele viver na vida dele. Para, para de ficar se preocupando. Ele olhou dentro dos meus córneos e falou o seguinte. Antes do mundo saber da existência do meu filho, eu já sentia ele dentro de mim. Ele é meu e eu vou cuidar enquanto eu tiver vida. Isso me fez ver a minha avó de uma forma tão grande, tão grande, que é o amor da minha vida, né, gente?

Olha, pra vocês ouvirem, ela já tinha me contado essa história antes. E toda vez que ela conta essa história pra mim, eu fico emocionado. Vocês não estão vendo, eu tô com o olho cheio de lágrima aqui. Ele tá mesmo, porque o Ali é um chorão. Eu sou muito chorão, cara.

Essa história me toca muito, cara, porque, de novo, né? Eu acho que essa conversa aqui é muito importante, essa conversa que a gente tá tendo aqui, e é uma conversa que talvez os ouvintes não tenham... Aliás, talvez não, eles não têm essa visão.

Mas é uma conversa muito genuína no sentido de... A gente nunca teve uma conversa como a gente tá tendo agora nessa gravação falando sobre isso. A gente já pincelou, já pegou alguns recortes disso aqui e isso já apareceu em conversas minhas com você. Mas essa é a primeira vez que a gente tá tendo uma conversa realmente seguida e estruturada sobre esse tema.

E claro, desde que eu te conheço, eu sei que você traz todo um estudo sobre essa parada. No seu Instagram tem umas postagens mais antigas das quais você falava muito sobre isso. Tem vídeo seu, inclusive, para quem quiser ver mais sobre isso, está lá no arroba L, Roberto, Underline Silva. Então você tem muito matéria.

material sobre esse tipo de coisa e esse é um bagulho que me pega muito porque eu penso que essa conversa além dela ser importante ela é eu acho mais importante ainda as reflexões que essa conversa pode gerar

De fato, quando a gente fala sobre uma maternidade nociva, uma maternidade adoecida, mexe com as pessoas porque, primeiro, existe toda essa questão dessa construção, dessa casta e tudo mais em cima da maternidade, mas além de tudo isso, existe a questão do valor propriamente dito da maternidade, porque isso, independente de ser nocivo, independente de qualquer coisa, é algo muito valoroso, é uma coisa de alto valor.

E aí quando a gente ouve uma fala do componente da sua avó, é aí que pega pra mim. Porque eu tenho certeza que não deve ter sido fácil pra ela ser mãe. Porque se hoje, nos nossos tempos, né? Nas nossas gerações mais próximas aqui, já é esse caminho quase que martírico. Nem sei se existe essa palavra, enfim. Mas imagina pra ela. Onde tudo era muito mais normalizado no sentido de que as coisas eram porque eram e pronto.

O abandono parental, o machismo, as prisões não físicas que a mulher sofria, às vezes até físicas mesmo. E ainda assim ela ter uma fala tão bonita e pura como essa. É foda. Sim, verdade. Bom, e aí, né, quando... Enfim, eu entendi que eu posso, sim, amar a Rebeca dessa mesma veracidade. Não, qual é a palavra melhor? Eu acho que veracidade cabe bem.

essa mesma veracidade, esse desejo que minha avó coloca na fala dela, eu posso amar sim a Rebeca, nessa mesma ótica e perspectiva. Só que eu não preciso amar aquilo que me fez título de mãe, né? Eu não preciso amar a maternidade, porque porra, galera...

Olha, é muito difícil você ter que fazer por muito tempo o que precisa, ao ponto de se esquecer aquilo que você gosta e não conseguir fazer aquilo que você quer, porque você é mãe. E tem que sempre se colocar em segundo plano, porque você agora precisa cuidar de uma pessoinha.

Dentro de tudo isso, existe um pacto social de silêncio, né? Porque uma mãe que fala que está exausta, ela vira automaticamente uma mãe ruim. E se uma mulher negra, principalmente mulher negra, fala que está cansada, que desabafa esse cansaço com alguém, as pessoas batem assim na mãozinha, poxa, você é forte, vai lá.

E eu acho também que cabe até uma pergunta genuína mesmo aqui, com que você acabou de falar sobre essa questão de silenciar a exaustão pra não ser rotulada de uma mãe ruim, uma má mãe. Primeiro, assim, você tinha consciência dessa visão não romantizada da maternidade desde o começo? Ou isso foi algo que você construiu conforme você foi amadurecendo, estudando e tudo mais?

Isso foi acontecendo a partir do momento que eu escolhi fazer um curso técnico. A Rê tinha acho que uns 3, 4 anos, por aí. Aí eu comecei a fazer esse curso técnico e eu tinha alguns acordos com a minha mãe. Certo. Eu já tinha me separado do pai da Rê, e aí eu morava com meu pai mais minha avó. E a minha mãe me ajudava cuidando da Rê pra eu poder estudar. E...

Obrigada, amor. Alexandre trouxe a água pra mim, ele é um princeso.

E aí, esse curso ia ter um período de três semestres. Gente, foi uma loucura, um salseiro. Esses três semestres. Trabalhar, estudar, cuidar da Rê, cuidar de mim. E aí, eu tomei bomba numa matéria. E eu precisava refazer mais um semestre essa matéria. A minha mãe não conseguia cuidar da Rê. Porque a vida aconteceu. E aqui, eu não digo que a minha mãe foi má. Ou que ela quis me castigar. A vida acontece.

As pessoas têm as próprias vidas, independente de serem seus pais, de serem seus irmãos, de serem seus tios. E o que aconteceu? Eu não consegui concluir o curso técnico, porque quem é que ia cuidar da regência? Gente, eu tentei levar a Rebeca pra ETEC. Olha aí. Eu colocava ela no meio do bolinho das pessoas, pra ninguém ver ela entrando comigo.

E na hora de voltar eu sempre tinha uma carona, sempre tinha um amigo com carro que me deixava no lugar mais próximo, um professor que me deixava, ah, eu vou te deixar então na estação tal, que aí fica melhor pra você pegar o ônibus de volta pra sua casa. Sempre aparecia alguém com carro, sabe? Foi muito engraçado esse período, mas muito desesperador. E aí nesse momento eu percebi que eu não podia ser o que eu queria. Eu queria ser uma técnica de segurança do trabalho. E aí eu não poderia ser o que eu queria, eu tinha que ser o que eu podia.

A partir desse momento que me deu esse start de entender o quanto que a maternidade exige. E uma outra coisa que eu queria te perguntar. Como tem sido pra você blindar a Rebeca disso?

Não tem blindagem muitas das vezes. É difícil. Eu tô perguntando isso porque... Se pra um adulto é difícil entender... Porque assim, de novo, nós estamos tendo uma conversa aqui praticamente 100% genuína por conta do que eu já expliquei antes. Pra mim, aqui, enquanto eu tô te ouvindo, porque hoje eu tô mais na condição de ouvir, pra mim é... E claro... E claro, eu vou te ouvir, porque hoje eu vou te ouvir, porque hoje eu vou te ouvir,

Porque eu sou homem também, né? Eu nunca vou ser mãe. Pra mim, algumas coisas aqui eu realmente tenho que digerir. E provavelmente quando eu estiver editando, eu vou continuar digerindo. Esse pra mim é difícil. Quão difícil deve ser pra uma criança isso? E aí eu não falo nem só pensando na Rebeca. Eu falo pensando em todo filho e filha que está nessa configuração. Os números nós já falamos aí, não são poucas crianças. Sim, sim.

Como blindar um filho disso? Porque ele não pediu pra nascer. Ele simplesmente surgiu. E por mais que a mãe esteja ali exausta, cansada, às vezes revoltada, às vezes indignada, frustrada, depressiva, sabe? E de novo, essa criança não tem nada a ver com isso. Como proteger a criança de tudo isso e ainda conseguir ser, pelo menos pra ela, uma boa mãe? Bom, acho que você já até respondeu, né? Sim.

E é um bagulho que eu penso muito, sabe? Porque existe muita desestruturação, muito desequilíbrio em tudo isso. Porque no fim de contas é um desdobramento. Temos uma mãe exausta, uma mãe com todas essas questões que nós estamos falando aqui. E que quer ela goste da ideia ou não, quer ela queira ou não, ela está construindo um caráter dentro de uma criança. É por isso que eu digo que é a maior manutenção da miséria. Sim, porque ela perpetua. Exato.

Como que eu posso exigir de uma menina... Já que nós estamos citando aqui a Rebeca, como que nós podemos exigir, por exemplo, da Rebeca que ela seja uma boa mãe? Eu preciso fazer uma observação nessa sua fala de boa mãe. Uma impossível. Ah, sim. Sim. Claro. Porque o que é bom? Dentro dos parâmetros de maternidade, ser a boa mãe é a mulher branca que tem dinheiro e que ela consegue se dedicar 100% integralmente para o seu filho.

E aí quando a gente vai tirar essa ótica aí do que é bom, a gente precisa falar do que é possível. Até mesmo dentro da psicanálise, quando Freud começa a pesquisar essas coisas, e aí ele fala sobre como é construído o ego do bebê e tal, e aí ele coloca que a mãe, na perspectiva materna, ela precisa ser perfeita. Existem também algumas pesquisas falando sobre...

O livro Emílio, que foi escrito por Jacques Rousseau no período de 1760, ele coloca o Emílio, uma criança, e aí dentro desse livro ele faz a construção de uma mãe perfeita. Foi a partir daí que começaram a fazer as castrações dos corpos femininos. E aí vem...

O Freud, que também faz essa alusão do ego do bebê, que é imprecedível a partir do cuidado da mãe. Só que a Ilacan, dentro da psicanálise, ele muda o perfeito para um lar, uma mãe, um pai possível. Porque hoje em dia a gente está pisando em qual chão? Para que a gente seja bom. Por isso que a gente precisa ter...

Precisa colocar, eu precisei pontuar essa parte do bom pra o possível. Porque a gente nunca vai alcançar o bom. Ah, sim, né? Eu acho que eu acabei falando mais no sentido do olhar de fora, né? O olhar da sociedade. Eu tenho ciência disso porque, por mais que eu tenha tentado ser um pai presente, eu também muitas vezes me questiono se eu fui pai que eu deveria ser ou se eu consegui suprir as lacunas.

Há vacunas que a separação de mim com a mãe deles gerou. Porque eu entro nessas nóia também, sabe? Às vezes eu vejo meus filhos passando por algumas situações, seja no passado, seja no presente. Não, assim, eu acho que hoje eu tô mais tranquilo nesse sentido, eu tô mais racionalizado nesse sentido. Mas eu vou falar mais de passado, tá? Às vezes meus filhos passaram por algumas situações...

E me pairava na cabeça a seguinte coisa. Será que se eu não tivesse me separado, isso estaria acontecendo? Será que se eu estivesse com a mãe deles, isso estaria acontecendo? Mas é porque eu tô falando que agora eu consigo racionalizar melhor isso. Muito por conta do que você falou. Porque assim, eu era o pai possível quando estava lá. Quando a gente ainda tinha uma construção de família, de estar todo mundo junto. Eu era um pai possível. A mãe deles também era uma mãe possível.

E quando um relacionamento adoece, quando um casamento adoece, tudo que gira em torno do casamento também adoece. Ou seja, se eu era o pai possível, com o relacionamento ruindo, eu estava sendo menos do que o possível.

Porque eu estava reverberando sobre meus filhos a situação ruim que o casamento estava vivendo. Então eu já não era um pai tão bom assim. A mãe deles não era uma mãe tão boa assim. De novo, né? Pensando na sociedade. Não porque eu estou usando a palavra boa no sentido literal.

E aí, então, a separação veio e a partir dessa separação e com a reconstrução de nossas vidas, minha e da mãe deles, a gente pôde ter espaço para voltar a ser o pai e a mãe possível. Porque saiu daquela aura de conflito, saiu daquela aura de infelicidade e com as nossas vidas sendo reconstruídas, a gente teve talvez um fôlego.

E é claro, se com toda essa construção da sociedade, essa construção machista e tudo mais que acontece, torna normalizado o pai ser menos ativo, às vezes até por mais que ele queira ser ativo, mas ele não consegue se colocar no mesmo nível que a mãe, ainda assim, o simples fato de ser pais separados se torna mais um gap, mais uma lacuna, mais um fator que joga contra.

Eu não tava lá na casa da minha filha quando a minha filha teve a primeira menstruação dela. Eu não tava com meu filho quando meu filho, sei lá, deu o primeiro beijo dele. Quando teve a primeira transa dele. Quando a minha filha teve a primeira transa dela. Eu não estava junto. Isso pesa sobre mim. Porque, de novo, não é uma questão de querer barra poder. A gente se separou. Então, enfim.

Outra realidade, né? Outra realidade. Mas eu tentei e tento ser o mais presente possível ainda dentro dessa possibilidade. Só que eu fico... E é por isso que essa pergunta que eu fiz pra você vem com um peso. Porque se eu, nas condições que...

Aí eu vou colocar muitas aspas nisso. Essas condições que me privilegia de não haver uma cobrança tão forte sobre mim pela criação dos meus filhos, ao passo que pra mãe sempre a cobrança é maior. Se pra mim isso pesou, se isso pra mim, dentro da minha consciência me pesa, eu fico pensando numa mãe, sabe?

Porque ainda que a sua história com a Rebeca tenha as suas particularidades que são diferentes das minhas, o fato de você tomar consciência da maternidade, não ser essa coisa fofa, linda e bela que a sociedade vende, e tomar essa consciência por si só, torna a coisa mais visceral, porque aí você não está apenas vendo, mas você está vivenciando, se você está tendo plena consciência do que está acontecendo porque você tirou as escamas dos olhos,

Porra, blindar a filha ou qualquer outra mulher que esteja passando essa situação diante da epifania da realidade? Puta que pariu. Puta que pariu. É, dito tudo isso, eu volto mais uma vez lá na questão da educação sexual. E aí quando a gente fala sobre educação sexual, as pessoas falam Ah, vocês vão ensinar as crianças a transar? A minha mãe já falou isso.

Não, a gente vai ensinar, por exemplo, que o menino pode dizer não. Que tá ok se ele disser não, que ele não vai ser taxado com qualquer outra palavra, zoado. Que ele pode dizer não se uma menina pedir pra ficar com ele e tal, e ele não quer, ele pode dizer não. E que a menina, ela não é obrigada a se sujeitar a fazer sexo pra ter carinho. Que carinho não tá ligado ao sexo.

Eu tô aqui acendendo um cigarro pra pensar na vida, cara. E que existem milhares de dúvidas sobre questões de anticoncepcional, como que toma pílula. Tem meninas que não sabem, meninas que moram aqui, no mesmo bairro que a gente, que elas não sabem, sabe? Ou que, por exemplo, por que não existe um estudo que um homem também pode se responsabilizar sobre o anticoncepcional? Ele ter, ter o anticoncepcional masculino. Por que não existe um anticoncepcional masculino?

Por que que não existe? Aí a responsabilidade de evitar uma vida nova sobrecai mais uma vez somente pra mulher. O homem, ele não evita uma vida nova. Ele não sobrecai nele. É só, tipo, usa camisinha. Ok.

Eu acho que o mais próximo que tem disso são preservativos masculinos que tem espermicida nele, né? Sim. É o mais próximo disso. É o mais próximo, mas mesmo assim não existe uma construção, um estudo, uma campanha. Não tem. Não tem. E aí eu acho que é isso. A gente precisa de educação sexual pra que as famílias sejam realmente famílias desejáveis.

E sabe o que é mais louco disso tudo que você tá falando? Que assim, apesar de não haver uma educação sexual, esse tipo de coisa, a gente vê muita molecadinha, né, os moleques, morrendo de medo de ser pai. Mas o medo de ser pai não é simplesmente o fato de tipo, ah, eu não quero ser pai agora. Ah, eu não estou pronto ainda, não fiz meu pezinho de meia pra ser pai. Não é esta a motivação.

É a motivação, primeiro, não ter responsa financeira, tipo assim, eu não quero bancar ser pai, porque ou seja, nessa fala já tá imbuído de que ele vai abandonar. Sim. Se essa menina engravidar. Claro. Sim. E a segunda coisa de que, tipo assim, ele quer viver.

Ele quer viver Ele quer comer várias minas Tem direito? Claro que tem direito Só que a menina também tem Gente, ouvintes É muito importante Deixar isso claro pra vocês Não é que a gente está demonizando A maternidade A gente vai falar isso na conclusão, então nem vou me estender Mas o que eu estou querendo dizer aqui É que a menina Ela tem todo o direito de ter uma vida sexual Super ativa e variada E aí

E que a maternidade seja uma escolha, não uma condição. Exato. Exato. Pra você, menina novinha que tá aqui ouvindo a gente, vai transar mesmo. Mas transa com o cara responsa. Vai fazer suas coisinhas. Entendeu? Vai transar. Vai ter sexo bom.

Não ficar com vagabundo, com filho da puta, imbecil, só pra você não ficar sozinha ou pra suprir uma carência. Não. Vai fazer isso porque você curte o cara, o cara é firmeza, te trata bem e vocês têm cumplicidade suficiente pra fazer isso, ainda que casual. Porque tem que ter...

complicidade mesmo no casual. Tem que ter. Sabe? Isso não é um pensamento conservador. Isso é autopreservação. Então, assim, meninas, transem. O ponto é, você não precisa engravidar pra transar, cacete. Sabe? E o dia que... E se você quiser ser mãe, que faça isso, primeiro, consciente de que algumas coisas são o que são infelizmente...

infelizmente, mas ainda que esteja nesse cenário desfavorável, ainda quando há uma cumplicidade, quando há uma responsabilidade e há planejamento, esse caminho tem de ser menos penoso. Sim. Ah, e uma coisa que eu odeio com todas as minhas forças é o tal do planejamento familiar que o posto de saúde sugere. Ah, sim.

Por que só existe o planejamento familiar a partir do momento de um casamento? Pois é. Porque o planejamento familiar poderia ser constituído de uma maneira diferente, junto, claro, com uma equipe técnica como existe no posto de saúde realmente, que é com assistente social, a psicóloga ou psicólogo. Existe uma equipe técnica, a equipe de enfermagem. E aí, a mulher, o homem, essas pessoas só têm acesso a essas coisas dentro dessa...

coisa aí do planejamento familiar. E aí, o que é família? Qual é a família tradicional brasileira? Não é a da margarina. Mas uma vez eu coloco aqui. A família tradicional brasileira é a avó, a mãe e os filhos. A casa das pessoas no Brasil é dessa forma. Onde está o pai, né? Onde está o arrombado? E é como que a gente pode fazer um planejamento familiar se a minha família é eu, minha mãe e minha filha?

E mais do que isso, né, Preta? Porque assim, planejamento familiar não é só vendo sobre o ponto de vista de uma saúde, ainda que física, mais emocional. Quando a gente pensa em planejamento familiar, a gente teria que falar primeiro de inteligência financeira, entendeu? Porque vai dinheiro nisso aí. Sim, sustentar uma criança, gente. É um barulho louco. Vai um dinheiro. Gente, a gente tava fazendo compra mês passado, eu vi, tava uma família comprando fraldas, eu entrei em pânico.

Eu paralisei Quando eu vi o preço da fralda Tipo um pacote que dura um mês Acho que nem um mês, dependendo da criança Deve durar 15 dias, uma semana Cento e poucos reais, eu fiquei Gente, tô passada

A gente colocou aqui, lavou os pratos. Lavou a alma. E aí, sobre o adoecimento materno, né? A exaustão física, mental. Ansiedade, gente. A incerteza do amanhã que uma mãe tem é uma coisa que é brutal. A incerteza do amanhã.

E a depressão, a perda de identidade, a maternidade dentro disso tudo, ela não só pode ser como ela é nociva. E eu acho que, principalmente sobre a perspectiva da perda da identidade, porque mesmo as mulheres que desejam ter filhos, que planejam, na hora que ela se vê em só uma pessoa teta...

Essa expressão é maravilhosa. É que aí a mãe, a mulher, ela acaba sendo só um peito que jorra leite. E que se houve o chorinho do bebê, o peito já tá brotando leite. É uma coisa louca. E isso faz com que realmente a gente perca a nossa identidade.

Eu tenho que fazer uma observação aqui, que quando o Alê se tornou avô, ele ficava falando, não, a Ana tá bem, a Ana tá bem. Uma hora eu me embucetei, que ele ficava repetindo tanto isso, eu falei assim, a Ana não tá bem, ela acabou de parir, ela tá cheia de pontos, ela tá cheia de incerteza, a cabeça dela tá cheia de minhoca, ela tá acordando de madrugada só pra verificar se o neném tá chorando, se o neném tá respirando. Aí ele ficou, tipo, meio ressabiado, nem contestou muito o que eu disse, aí a gente foi visitar a nenenzinha.

Aí a Ana falou, eu acordei pra ver se o neném tava respirando. Eu falei, tá vendo? E aí eu preciso incluir uma coisa. Quando eu a vi com meus olhos, porque até então essas respostas que eu dava pra vocês, eu decidava porque nós conversávamos muito via WhatsApp. Hoje eu tô tendo a oportunidade de morar mais perto dos meus filhos, mas antes não era assim, eu tava bem longe dos meus filhos. Eles numa ponta e eu na outra de São Paulo. Mas aí quando eu vi a menina, a bicha é magrela, pálida, olho fundo.

Eu falei, é, realmente ela não tá bem. Falando, gente, não me façam rique dói. É, foi mesmo. Gente. Foi mesmo. Bichinha, meu. Não, ela não tá bem, ela não tá bem. Ela colocou uma criança pra fora. Real, meu. Real, nossa, meu. A bichinha tava... Nossa, parece que ela tava com a aparência de estar doente, cara. Sim.

Que loucura, meu. Que loucura. Isso porque ela não passou por uma anestesia geral. Ela teve parte normal. As coisinhas que é mais simples possível. Enfim. E real. É um acontecimento. Dizem que o corpo da mulher só volta a ser o que era um ano depois. É, né? De parir um neném.

Tem uma coisa que falam, que aí você vai me ajudar a dizer, primeiro, se realmente é algo que existe, ou se isso é apenas uma fala machista que eu estou aqui replicando sem querer. Dizem que a mulher nunca volta, pensando em físico, tá? Ela nunca é igual depois de uma gestação. Que a mulher, ou ela tem um, ela cria um desenvolvimento físico diferente, né? No sentido de, tipo assim...

Sei lá, a mulher ganha mais corpo, a região aqui do quadril ganha mais volume, a mulher, aos olhos do padrão, fica mais gostosa. Ou então, a gestação dá uma puta detonada no corpo da mulher e às vezes ela até tinha um corpo super bonito antes da gravidez e ele nunca mais volta a ficar como era antes. Isso é algo... Tem alguma comprovação isso? Ou é só uma fala machista e idiota que eu tô replicando sem querer?

É uma fala machista idiota, porque o corpo muda independente de gravidez ou não. Quantas mulheres que você conhece que não tem filhos e que mudou o corpo várias vezes? Que ficou mais gorda ou mais magra e que nem teve filho? O corpo muda, independente de maternidade, de gerar um bebê. Então eu acho que é meio machista mesmo. Não tem como você saber se o quadril ficou largo ou não. Claro que quando vai ter a dilatação, existe o deslocamento, toda...

estrutura do corpo muda, né? Tanto que pra parir uma criança, a mulher chega a sentir dor de quase de morte. É uma dor que parece que todos os ossos do corpo tá quebrando. Eu tenho um total lugar de falo. Eu nunca esqueci essa dor, gente. E tem mulheres que têm três filhos. Eu não sei se beira coragem ou loucura. E aí...

E aí eu vejo essa fala como machista, porque o corpo muda ao decorrer da vida. E como que você vai saber? Só porque ela é mãe? Então, tá vendo, ouvintes? O problema não é você falar uma palavra idiota, o problema é você levar isso como uma verdade. Uma verdade absoluta. Eu trouxe uma pergunta.

Em minha defesa foi uma pergunta, e eu mesmo já fiz o meia-culpa fazendo a pergunta. É isso mesmo ou estou replicando uma coisa machista e idiota? Enfim, né? Bom, eu acho que a gente precisa parar de tratar o sofrimento materno como fraqueza. Ah, sim. Quando, na verdade, ele é uma estrutura.

Porque uma pessoa cansada, adoecida, ela não vai ter pensamentos bons para o futuro. Ela não vai ter vontade de estudar para melhorar a própria vida. Ela não vai conseguir, talvez, nem estruturar, pavimentar algo para a nova vida que está surgindo. Porque o cansaço, ele não é só mental, é físico. Poxa vida, eu já coloquei comida no fogo e fui dormir. E eu nem era idosa.

Eu estava tão cansada que eu tinha que colocar comida para fazer. Tinha alguém esperando eu cozinhar. Ou então acordar 40 minutos mais cedo para fazer arroz e deixar um bifezinho frito enquanto eu estou tomando banho. Porque a criança precisava comer. E aí eu acordava cedo para fazer isso antes de sair para trabalhar. O cansaço físico está aí também. Porque ainda é tão difícil dividir a responsabilidade da criação.

O que muda quando o homem participa de verdade? Eu tenho que trazer uma observação de uma coisa que eu ouvi. Eu tenho uma tia que ela é mãe de uma criança que nasceu com deficiência. E aí ela realmente pegou isso de uma causa de vida dela, sabe? Poxa, eu não tenho como falar o que essa mulher deve ter passado, tanto mentalmente, psicologicamente, fisicamente, sabe? Os cansaços, as coisas que ela teve que atravessar. E aí

E aí, às vezes, ela deixava, nesse período ela estava num casamento com o pai da criança, e às vezes ela deixava a criança alguns minutos com o pai, e aí ela falava assim, nossa, deixa eu voltar logo, porque o pai da minha filha vai ficar cansado. Olha isso. Eu preciso voltar logo. Gente, essa fala dela me atravessava tanto? Tanto.

Mas enfim, existe paternidade no mesmo nível que a maternidade é cobrada? Essas reflexões eu acho que a gente pode levar para a vida. E eu gostaria que vocês, ouvintes, deixassem suas respostas desses questionamentos, dessas reflexões. E você, Ale, tem alguma coisa para dizer sobre essas perguntas? Afinal de contas, a gente já falou bastante sobre essas. Você tem mais alguma coisinha para complementar?

Eu acho que tá na hora de a gente começar a ter uma postura, e agora eu tô falando sobre a perspectiva de um homem, acho que tá na hora de a gente começar a trazer esses assuntos pras nossas rodas de amigos, sabe? Se tem duas coisas que são muito engraçadas, assim, e aí eu tô sendo irônico...

quando eu penso em círculos de amizade entre homens, é que assim, a violência contra a mulher é uma coisa tão presente na sociedade, mas ninguém fala que tem um amigo agressor. Ninguém conhece um amigo agressor. Ah, não, não conheço nenhum amigo, não é agressor até onde eu sei. E a segunda coisa é, nessa mesma roda de homens, quantos são pais de verdade mesmo? Pai que corre como pai, que age como pai? Não pai igual Deus.

Não são meros reprodutores. Eu acho que tá na hora de começar a colocar esse dedinho na ferida entre os homens. É que a gente tá numa sociedade tão adoecida, tão polarizada, que as pessoas conseguem ser imbecis o suficiente pra achar que pautas como essa é coisa de esquerda. Sabe? Discutir isso é coisa de esquerdista, é coisa de lacrador. Uhum.

mimimi, woke. Você vê o quão doente nós estamos, o quão doente essa sociedade está. Dito tudo isso, foda-se. Precisa se falar a respeito. A gente não pode normalizar ver um amigo sendo um merda de pai. A gente não pode normalizar o cara que cometa da maneira mais natural e normal possível. Tipo, ah, meu, eu vou pagar pensão pra bancar a vagabunda da minha ex.

Ou, por exemplo, cara, que você sabe que não paga pensão, mas tá na balada bancando o combo mais caro do rolê e você bebendo junto. E você bebendo junto. Você é cúmplice. Você é cúmplice. E aí, de novo, eu vou fazer minha minha culpa de novo. Num passado, eu sim, eu convivi com imbecis.

Com paz de merda Só que eu achava Que eu ia estar arrumando briga Se eu colocasse meu dedinho no meio Então eu meio que Fingia que não estava vendo Para evitar conflito, para evitar ter briga No meu meio Felizmente eu amadureci o suficiente Hoje para, primeiro, porque Se eu Se eu manter uma relação de amizade com esse tipo de cara Eu acho que eu estou tão errado quanto ele

É, me diga com quem tu andas que eu te direi quem é isso. Exatamente, né? Não tem aquela outra... E aí tem aquela outra também, né? Só que aí falando de racismo, enfim. Que tipo, você tem 10 nazistas numa mesa e você senta nela, agora tem 11. Exato. Entendeu? Então, a gente precisa ter essas ideias. Chamar esses caras pras ideias mesmo e falar, e aí, cuzão? Você vai dar jeito nessa porra da sua vida quando?

Don't try to tell me

A gente não tá aqui pra dizer que a maternidade é ruim, mas pra dizer que ela não pode continuar sendo vivida nesse nível de exaustão e silêncio. Talvez o problema nunca tenha sido a maternidade, mas o jeito que a sociedade construiu ela. Então é como a gente disse, não que a maternidade tenha que ser uma condição de vida pra menina, mas uma escolha. Porque eu preciso fazer uma observação aqui pra gente poder já caminhar pras coisas finais, porque a gente tá falando pra caramba.

Ótimo, mas isso é bom. Na quebrada, ser mãe te dá título. Sim. Porra, verdade. Você não é só uma qualquer. Você é mãe de alguém. Então você vai ter um título na quebrada. E aí a gente precisa também ter conversas, fazer debates dentro dessa perspectiva.

Posso citar só um exemplo de uma coisa que você acabou de dizer? Isso é tão louco, esse bagulho de que na quebrada, na quebrada, na favela, mãe tem título. Eu tenho certeza que nossos ouvintes que são de quebrada também, conhecem uma ou duas histórias assim. De cara que não morreu... Por causa da mãe. Por causa da mãe. Eu só não vou te matar porque você é a mãe da dona Maria ali e tal, não sei o que. Tenho certeza que tem gente que conhece essa história. Alguma história assim.

Que respeita muito a mãe do fulano. Que respeita muito a mãe do fulano. Isso é foda. Assim como outra coisa também. Que a mãe, né, que tem esse título que você tá falando, às vezes não é nenhuma questão de tipo assim, de que a vida de um filho que é pilantra é poupado porque é filho daquela mãe.

Mas os filhos, às vezes, estão protegidos pelo crime por eles serem filhos de uma determinada mãe. De uma mãe que, de repente, faz um corre na quebrada, no melhor dos sentidos, né? Que, tipo assim, vai e faz uma ação comunitária, faz ali a ação de leite, por exemplo, que é uma coisa muito comum em comunidade. A casa dela tá aberta pras crianças ficarem lá, enquanto outras mães estão trabalhando.

Exatamente. Essas mães, elas criam uma redoma de proteção sobre a sua própria família simplesmente por ser mãe. Louco isso. Louco. A gente pode caminhar então para as... Indicações? Indicações? Você tem? Hoje eu tenho. Manda. Ah, é para eu começar? Vai, porque eu tenho um monte. Ah, então beleza.

Bom, como todo mundo sabe, eu sou um cara da música, então eu quero indicar duas músicas para as pessoas ouvirem. Muitos, assim, até pelas coisas que eu pesquiso aqui a respeito dos analytics aqui do nosso podcast, provavelmente eu vou falar de duas músicas que, pela faixa etária das pessoas que mais ouvem a gente, podem até conhecer, e aí vai relembrar delas.

E pra vocês que nunca ouviram, eu gostaria muito que vocês ouvissem. A primeira música é uma música do GOG, que saiu em 96. O nome da música é Razão Pra Viver. Primeiramente foi um single que ele lançou, com essa música, com algumas versões. E depois ele colocou no álbum dele, se eu não me engano é o quarto álbum dele. É o álbum Prepare-se, que saiu no mesmo ano.

Essa música conta a história de uma mãe que tem um filho que está entrando no mundo das drogas e do crime. E essa música, ela me... Eu tô arrepiado só de estar falando disso. Essa música, ela me toca muito porque o centro da história da música não é o...

menino no crime, mas é a ótica da mãe. A mãe sofrendo diante de tudo aquilo e o Gog na letra faz o papel de uma pessoa próxima da mãe e na letra não fica muito explícito o que ele é dessa mãe, se ele é um amigo, se ele é um vizinho, se ele é um parente, ele não ilustra isso na letra.

mas ele ilustra como alguém que ele conhece muito bem, que ele sabe muito da história dessa mãe, então ele traz recortes do passado dessa mãe, antes dessa criança nascer, o que ela passou durante o parto, e o zelo, o carinho e tudo mais, e na letra, sim, ela é uma mãe solo, e ela vê esse menino desandando pras drogas, pra pequenos roubos, e depois aumentando o patamar dentro do crime, até que esse menino se vai. E aí ele narra toda essa trajetória e aí

E falando da dor da mãe Da dor simplesmente de ser mãe O sofrimento que foi pra ser mãe E o sofrimento de perder um filho pro crime Então isso é uma música que, nossa Ela me toca muito, muito, muito, muito E a outra música que eu quero citar Também é de 96 De um grupo que eu respeito muito Que eu tenho um carinho enorme por cada um dos integrantes Que é do Filosofia de Rua Uma música chamada Histórias do Coração Que é um grande clássico do rap nacional Um grande clássico

E é uma música que conta, que ela fala sobre desaparecimento de filhos, de pessoas que desapareceram. Enfim, não sabe se morreu, se viveu, saiu para um rolê e não voltou mais. E eles trazem muito também a visão da mãe que perde um filho desta forma.

Sem ter uma resposta. Sem ter uma resposta. Que às vezes é melhor receber um corpo morto. Exatamente. Que dá fim na procura. Que acaba o sofrimento. Aliás, acabar o sofrimento é muito forte dizer isso, mas pelo menos te dar uma resposta. O que aconteceu com o teu filho, com a tua filha, enfim. E essa música é uma música que retrata isso. E por que eu tô falando dessas duas músicas? Claro, porque tem tudo a ver com o tema do nosso podcast.

Mas também porque são duas músicas que são extremamente corajosas, na minha opinião. Ainda mais pensando que são músicas antigas, músicas que tem 30 anos, tá fazendo 30 anos este ano. Olha que loucura. E foram músicas extremamente corajosas. Primeiro, porque ambos os temas são pouquíssimos ou só foram eles que exploraram. Eu mesmo não tenho conhecimento de algum outro rap brasileiro que fala sobre desaparecimento de pessoas. Eu não conheço.

E uma música que fala de mãe tem muitas. Eu mesmo tenho uma música pra minha mãe. Mas até então eu não conheço uma música que fala sobre esse tipo de uma situação que infelizmente é muito comum nas favelas, nas comunidades, mas sob a ótica da mãe. Se fala muito da ótica da pessoa que está protagonizando essa entrada no crime.

Mas eu particularmente acho que só tem essa música do GOG que fala da dor da mãe. Claro, tem músicas que tem recortes falando sobre o sofrimento de uma mãe. Mas uma música dedicada inteira sob a ótica da mãe, eu só conheço essa. Então eu acho que são duas músicas muito importantes para ser ou conhecidas ou relembradas. Top!

Bom, eu vou trazer aqui dois filmes, um livro e a minha pesquisa, né? Claro. Claro. Por que não? Bom, o primeiro filme é um filme chamado Mamã, ou Mom, do título original, né? Que eu trago aqui, escrito por Xavier Dolan.

Esse filme, ele se passa numa realidade um pouco distópica. É tipo assim, é uma família, o pai morreu por qualquer situação. No filme, explica o que aconteceu com o pai. E aí, essa mãe, junto com o filho, precisa viver e enfrentar o mundo.

Só que o filho tem uma condição de saúde mental que, se eu não me engano, ele tem esquizofrenia. E aí essa mãe não consegue dar conta de cuidar da saúde mental, da saúde financeira, de todos os aspectos de saúde que existe sozinha, dela e dessa criança, desse adolescente. Acontece que em um dado momento ele coloca fogo numa cafeteria.

Se eu não me engano, uma outra criança morre ou fica muito queimada e aí ele é indiciado, ele vai para a júri e tudo mais, porque ele cometeu um crime e aí ele precisa responder desse crime e ela não dá conta de cuidar dessa criança.

Num dado momento, ela entrega essa criança para o Estado. E aí desmistifica essa mãe que tem que dar conta de tudo, mesmo quando ela não consegue. Eu acho esse filme maravilhoso. Ele está disponível na Netflix para alugar. Na Netflix não, gente. Na Prime. O outro filme é um filme brasileiro. A Melhor Mãe do Mundo. Dirigido por Ana Muilaert. Não sei falar. Espero que eu esteja falando certo.

Esse filme é lindo. Eu fui assistir no cinema, chorei litros e litros. E esse filme, ele coloca, como o Alê fez uma provocação aqui, sobre como blindar, como ser numa perspectiva social uma boa mãe. E aí, a personagem que agora esqueci o nome é uma mãe negra da Quebrada.

que ela está fugindo de um homem violento com duas crianças e ela inventa a felicidade. É tão uma loucura, ai eu fico emocionada, que a mãe tem que fazer tanta coisa e ali mostra o quanto que a mãe também precisa inventar a felicidade para que os filhos pequenos não entendam o que a miséria está fazendo com eles. A falta de ser assistido por um Estado que leva em consideração as desgraças verdadeiras.

E aí, a minha terceira indicação é o livro Máquina de Leite, escrito por, não sei falar aqui não, gente, Silvia Molnar. Não é brasileiro, né? Mas tem tradução aqui pro Brasil, tem uma edição traduzida aqui no Brasil, que aí fala muito de uma maternidade que foi desejada, planejada, só que quando o neném realmente chega, tudo aquilo que foi idealizado entra em conflito.

Porque a mulher passou a ser uma teta. E ela tem que estar disponível para o neném. O sono dela não existe mais. Ela não existe. Ela não consegue pentear o cabelo. Ela não consegue tomar banho. Porque o neném está ali a todo momento exigindo atenção. E uma teta. Uma teta muito farta, graças a Deus. E aí ela vai falando como que é essas aflições.

E aí, então, a última indicação que eu faço, que aí a gente pode também deixar o link na descrição para vocês terem acesso, é a minha pesquisa, né, de conclusão de curso. Para quem não sabe, eu sou historiadora. E aí, essa minha pesquisa surgiu de uma vivência na Casa Viviane, no CDCM, onde eu trabalhava. E eu ouvi...

Uma mulher, mãe de cinco filhos, dizendo que a primeira vez que ela foi pra um cinema foi depois dos 30. Quando a filha mais velha dela levou ela no cinema. Ela nunca tinha ido ao cinema. Uma mulher da mesma idade que eu. E ali eu vi o quanto que a maternidade tirou a oportunidade dessa mulher. Várias oportunidades. De ir no cinema, gente. Ir no cinema é uma coisa simples.

E aí o nome da minha pesquisa é Silêncios e Exaustões, a realidade da maternidade em Guianazes à luz do maternalismo. Eu acho que é isso. Muito bem. Olha, rapaz, é um soco no estômago. Essa conversa foi um soco no estômago. E eu queria...

deixar aqui antes de passar nas nossas redes sociais e tudo mais. Primeiro agradecer, claro, nossos ouvintes por estar aqui, por estar até este momento ouvindo isso aqui. Uma conversa muito importante, muito séria, muito complexa, muito dura. Verdade. É assim, né? É que eu acho muito da hora a sua característica de conseguir falar coisas sérias de um jeito, às vezes até beirando o cômico.

Eu acho essa uma característica muito da hora sua, porque eu acho que se fosse eu conduzindo esse episódio aqui, eu acho que eu não conseguiria ter nenhum alívio cômico. Porque foi como eu falei no início do episódio. Eu estou aqui muito mais numa questão de ouvir, de absorver do que contribuir com ideias. Talvez eu ajude, ajudei, facilitei alguma coisa aqui para a conversa fluir.

Mas maternidade sempre será um assunto muito tocante para mim, porque eu fui um filho de uma mãe que teve que segurar muitas pontas e que viveu num período onde o machismo era muito mais normalizado do que é agora. Meu pai era um homem machista, sim. Minha mãe lidou com muita coisa, muita coisa. Pelo respeito à memória dela, eu não vou trazer aqui.

Mas que foi uma mãe incrível Uma mãe maravilhosa Uma mãe que, assim, quando eu penso nela Eu penso que eu fui privilegiado, sabe? Que foi um privilégio ser filho da Dona Maria José Porque a Dona Maria José Ela foi essa mulher do filme que você falou

De inventar a felicidade. Ela foi a mãe que teve que ser muitas coisas, além de mãe, dentro de uma casa. Teve que ser mãe, teve que ser professora, teve que ser psicóloga, teve que ser uma entidade espiritualista dentro da casa, teve que ser ponto de equilíbrio pra muita coisa, teve que ser trabalhadora, sabe? Em um período considerável da minha infância. E eu acho que falar do que a gente falou aqui,

que na minha cabeça soa também como uma forma de homenageá-la. Se hoje eu conseguir ter abertura, se hoje eu conseguir ter uma mente que havia brechas na minha mente o suficiente para eu conseguir desconstruir coisas, para eu conseguir me esvair de certos pensamentos, de certas atitudes, de certas faltas de atitude, isso tudo aconteceu porque eu tive uma educação incrível da minha mãe que mesmo...

Me acompanhando até um determinado momento da minha vida. Ela deixou construído algo dentro de mim. Que me permitia evoluir. E que eu continuo evoluindo até hoje. Então assim. Eu tô com o meu coração. Por um lado quentinho. Mas por outro lado. Apertado. Com esse episódio. E eu queria também. Agradecer você. Gente o Alexandre tá com o olho cheio de lágrima. Para menino. A gente tá aqui.

Parabéns, Pretinha. Ai, obrigada, amor. Parabéns, Pretinha. Eu também te amo. Que episódio, meus queridos e queridas, que episódio. Olha, obrigado, Preto. Obrigado por trazer essa pauta. Obrigado por conseguir estruturar essa ideia aqui e trazer uma conversa tão importante para nossos ouvintes. E para vocês que ainda não nos seguem nas redes sociais enquanto eu enxugo meus olhos. Ele está se recompondo. Enquanto eu me recomponho. Quer um golinho d'água? Não, não, obrigado.

Então, sigam a gente nas redes sociais, sigam aí o arroba nós dois na diáspora. Se vocês quiserem mandar um e-mail para a gente, mande aí no nós dois na diáspora arroba gmail.com o que de repente você não quer externar publicamente ali no comentário do Spotify, mas gostaria de ter essa ideia com a gente. Pode mandar um e-mail, pode mandar um direct no nosso Instagram.

Pode também mandar sugestões de tema. A gente gosta pra caramba. Importante, importante. Trazer ideias pra nós. Serão sempre muito bem-vindas. Eu já tinha falado no meio do episódio, mas falo aqui novamente. Se vocês quiserem seguir a Roberta no Instagram, é arroba Lroberta__silva. Se vocês quiserem me seguir nas redes sociais, eu só tenho o Instagram. Me livrei do Threads, tá? Ainda bem. Me livrei dessa doença.

É arroba easycaos.music Se vocês quiserem conhecer o meu trabalho na música, podem pesquisar por Easy Caos nas suas plataformas aí de MP3. E-A-Z-Y-K-A-O-S Eu sei que é um nome complicado, mas eu vim da época que todo nome de rapper era americanizado, né? Mano Brown, S-Blue, Ed Rock. Vejam só vocês. Eu vim dessa época.

Se vocês quiserem conhecer aí o Ateliê da Rua, também segue lá no arroba Honey, coméia criativa. Acompanha lá a agenda dela, ela tá postando bastante coisa, tem muita coisa aí pra acontecer, muita coisa bacana acontecendo e a gente gostaria muito que vocês acompanhassem esse trabalho super bonito que ela faz e que eu tenho certeza que ainda vai gerar frutos bem, bem bonitos, assim, tanto pra história dela quanto pras pessoas que forem tocadas com o trabalho dela.

Certo, gente? Então, um grande abraço, aquele axé e até semana que vem. Até, Hunnys. Beijo no coração. Tchau, tchau. Ufa. É, só tem isso pra dizer ufa.