Cesário Verde — Manias | A crueldade do olhar | Ep. 7
No episódio 7 de A Menor Distância: Poesia em Português, Acácio lê e comenta “Manias”, de Cesário Verde.
Um soneto cruel, satírico e desconfortável: uma mulher respeitável por fora, cruel por dentro; um homem preso à própria devoção; e um narrador que parece enxergar tudo — até percebermos que o olhar dele também tem a sua mania.
Neste episódio:
A hipocrisia da dama que vai à missa enquanto trata o outro com desprezo
A devoção do “bom rapaz” — entre amor, autoengano e sofrimento real
“Tremente” como a palavra que muda o tom do poema
O prazer cruel de reconhecer tipos humanos — e o lugar do leitor dentro desse olhar
Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta.
Manias
Cesário Verde
O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância, quixotesca.
Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
Termos do poema:
Jactância: ostentação, vaidade exibicionista
Quixotesca: grandiosidade delirante, fora de proporção com a realidade
Dengue: maneirismo afetado, postura delicada e exagerada
Déia: forma coloquial e ligeiramente depreciativa de “senhora”
Tremente: que treme; no episódio, a palavra que muda o tom do retrato
Domínio público: Cesário Verde morreu em 1886; sua obra está em domínio público.