Augusto dos Anjos — O Morcego | O que entra no quarto à noite | Ep. 5
No episódio 5 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “O Morcego”, de Augusto dos Anjos.
Um morcego entra no quarto à noite. O poeta se assusta, tenta expulsá-lo, toca-o com um pau — mas o animal não desaparece. No fim, o poema revela o que já estava rondando desde o início: a consciência humana, aquilo que entra sem pedir licença e que não conseguimos manter fora.
Mas o que me prende neste poema não é só a metáfora. É a ambiguidade. O morcego incomoda, invade, perturba. Mas isso não significa que seja monstruoso. Há coisas que queremos expulsar sem destruir — porque, no fundo, sabemos que nos pertencem.
Neste episódio:
- O quarto como espaço invadido: a noite, o corpo e o susto inicial
- A sede ambígua: quem arde, o morcego ou o poeta?
- O contra-ataque: o esforço de retomar o quarto
- A consciência como aquilo que entra imperceptivelmente
Leitura integral do poema (2x) + análise em três lentes.
Poema em domínio público.
Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta.
O Morcego
Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!