Alberto Caeiro — O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia | Estar só ao pé dele | Ep. 11
Alberto Caeiro — O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia | Estar só ao pé dele | Ep. 11
No episódio 11 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento o poema XX de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, conhecido pela primeira linha: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”.
Duas leituras em voz alta e uma ideia central: o Tejo pode ser maior, mais belo, mais importante — mas isso não decide o valor do rio que conhecemos de perto. E, no último verso, uma única palavra abre o poema em duas direções: estar sóao pé do rio pode significar estar apenas ali. Pode significar também estar sozinho.
Neste episódio:
• A contradição das três primeiras linhas — e como belo deixa de funcionar como uma medida comparável e passa a depender da relação entre uma pessoa e um lugar
• O Tejo carregado de navios, descobertas, América e história, em contraste com um rio que não leva a lugar nenhum e “não faz pensar em nada”
• Barquinhos de papel no Rio Quitandinha, em Petrópolis, e a diferença entre ver um rio e conhecê-lo de perto
• O movimento de “toda a gente” para “poucos”, “ninguém” e finalmente quem está ao pé do rio
• A palavra só como dobradiça do último verso: apenas e sozinho — e a sombra que essa segunda leitura lança sobre a liberdade do rio
O poema
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
— Alberto Caeiro, XX de O Guardador de Rebanhos