Gomes Leal — O Selvagem | O homem que disse ter trancado tudo | Ep. 9
Gomes Leal — O Selvagem | O homem que disse ter trancado tudo | Ep. 9
No episódio 9 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “O Selvagem”, do poeta português Gomes Leal.
Duas leituras em voz alta e uma ideia central: o falante diz ter fechado o passado, rasgado os livros e esmagado as próprias dores. Mas o corpo e o próprio poema o desmentem. O peito ainda é um covil, as dores continuam vivas como serpentes e, no fim, os cães encontram uma voz para o lamento que ele não consegue admitir.
Neste episódio:
• A solidão como escolha: “fechei”, “rasguei”, “calquei” — verbos de alguém que constrói o próprio isolamento
• Os livros rasgados e duas noites opostas: ler para deixar o mundo entrar ou rasgar as páginas para mantê-lo do lado de fora
• O peito como covil: não um túmulo, mas a toca escura de alguma coisa que ainda está viva
• As dores como serpentes: quem não sente nada não precisa continuar a esmagar nada
• O lamento dos cães e o fim em reticências: o homem que disse ter trancado tudo não consegue trancar o próprio poema
Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta.
Poema lido no episódio:
“O Selvagem”
Gomes Leal
Eu não amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.
Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
— Passividade estupida das Cousas.
Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N’um egoismo barbaro e escuro.
Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.
E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram á lua…