Álvaro de Campos — Todas as cartas de amor são | O amor ridículo | Ep. 8
No episódio 8 de A Menor Distância: Poesia em Português, leio e comento “Todas as cartas de amor são”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa.
Duas leituras em voz alta e uma ideia central: talvez as cartas de amor não sejam ridículas apesar de serem verdadeiras — talvez sejam ridículas porque são verdadeiras. O amor, quando tenta escrever, perde a pose. E é exatamente aí que se revela.
Neste episódio:
• O título como frase incompleta: “Todas as cartas de amor são” — e a palavra “ridículas” chegando depois da pausa, com mais peso
• A repetição de “ridículas” como epífora: não um tropeço, mas um tambor que denuncia o que o falante tenta controlar
• O ridículo como condição da carta de amor: sem exposição, sem vergonha, talvez não haja amor real
• O parêntese final e a palavra “esdrúxulas”: entre o termo técnico, o sentido de estranheza e a autoconsciência do poema
• O heterónimo como defesa brilhante: Pessoa inventa outro para não ser apanhado a sentir — e escreve o poema mesmo assim
Um poema por episódio. Duas leituras. Escuta atenta.
Poema lido no episódio:
“Todas as cartas de amor são”
Álvaro de Campos
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)