Episódios de CADA UM NO SEU LUGAR

INÊS MAIA

08 de maio de 202637min
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A Inês é uma das muitas e bravas mulheres do Teatro do Porto, que fazem desta arte muito mais do que um evento de palco. O Teatro também pode e deve ser ativismo e motor de democracia.

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Assuntos7
  • Ser mulher e ativismoConquistas de direitos das mulheres · Interseccionalidade e luta de minorias · Ataque aos direitos das mulheres · Discurso misógino e machista
  • Retrocesso de direitosLei da deportação e lei do género · Reversão de direitos garantidos · Pacote laboral e direitos dos trabalhadores · Salário mínimo nacional universal
  • Guerra e isolamento digitalDanos colaterais e bombardeamento de escolas · Falta de pudor na destruição de vidas e países · Interesses económicos, financeiros e geopolíticos · Frieza e desumanização na interação digital · Isolamento social e emocional
  • Neoliberalismo e individualismoMantra do 'faça você mesmo' · Falsa promessa de riqueza individual · Destruição da ideia de coletivo e bem comum · Propagação de falsas notícias sobre gestão social
  • Identidade de género e retrocesso socialRedução das pessoas ao binómio homem-mulher · Medicalização da identidade · Dificuldade e humilhação para pessoas trans · Definição de género em menores · Necessidade de acompanhamento e ferramentas para pais e escolas
  • Projeto Democracia e AuroraReflexão sobre as conquistas de Abril · Impacto na vida das mulheres portuguesas · Participação das mulheres na clandestinidade · Exposição 'Elas tiveram medo e foram'
  • Comunismo e esquerdaSentido do comunismo como combate · Crítica à inoperância da esquerda · Perda de terreno de ideais comunista e socialista · Voto à esquerda e disciplina ideológica
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A verdade é que uma boa dose de trauma, pronto, fica sempre bem. Claro. Ora bem. A pessoa fica desinteressante.

Vamos começar, ou já começámos, o nosso Cada Um no Seu Lugar, aqui no Teatro da Palmilha Dentada, no Lugar. E temos o excelso prazer de ter connosco a Inês Maia, colaboradora, enfim, assídua colaboradora, nem que seja a nível de afinidades intelectuais ou sociais, ou seja o que a gente chamar. E por isso mesmo hoje está cá... Há quem lhe chama amizade, não é? Há quem lhe chama amizade. Há quem lhe chama amizade, claro, é isso mesmo. Também. Mais simples. Mais simples.

E por isso mesmo, hoje vamos aqui conversar sobre um projeto muito específico, dos muitos que a Inês Maia já teve e vai tendo, acho eu, que é em primeiro o Pé de Cabra, e depois aquilo que passou aqui no lugar como sendo uma coprodução do Pé de Cabra com o Teatro da Palmeira e Dentada, que é a democracia. Em primeiro lugar, Inês Maia, quem é você?

Ai, que pergunta difícil. Quem sou eu? Sou mulher, sou produtora, sou ativista. Sou mulher, isso hoje em dia é uma afirmação. É. Cada vez mais. Sim. E é a primeira coisa que eu sou. Também sou mãe.

O que é que se perdeu hoje em dia em ser mulher? Ou o que é que se ganhou? Ganhou-se imensa coisa. As mulheres ganharam, ou melhor, as mulheres não ganharam nada. As mulheres conquistaram, através do seu esforço e luta, uma situação de reconhecimento de direitos e de igualdade cidadã.

conseguiram-na através de um esforço grande desenvolvido ao longo de muitos anos, através de uma série de lutas, através da consciencialização social, através da relação que tem que ser estabelecida com outras áreas minoritárias e em respeito pela interseccionalidade, que é uma coisa que é absolutamente inegável e que tem que ser vista e olhada de frente e trabalhada, através da participação na luta de outros.

Na luta dos trabalhadores, na luta dos homossexuais, na luta das pessoas trans, na luta das pessoas racializadas, na luta pela paz.

Eu vinha a ouvir, lamentavelmente, as notícias, porque como tu disse, ando sempre de moto e hoje, que está um tempo horrível, decidi vir de carro e tive algum tempo para vir a ouvir as notícias, a TSF. E até estava lá a Inês Barbosa, que é daqui do Porto, a falar sobre o Teatro do Oprimido e a escolher algumas notícias do dia que me pareceram muito engraçadas. E todas elas têm a ver com mais ou menos, ou seja...

escolheu uma notícia sobre a lei da deportação, agora a lei do género, todas elas, como é natural, vão ter a supressão de direitos. E eu lembrei-me de uma entrevista que vi aqui há uns, talvez, dois anos, na SIC.

Uma entrevista no jornal a um tipo que pertence àquela ala, que quer deitar abaixo o regime e fazer mil e uma coisas, rever a Constituição. E na altura ele dizia, de uma forma até meio jocosa, que é preciso ter atenção que os direitos...

Podem reverter-se. E há muitos direitos que podem reverter-se. Nós não devemos dar nada por adquiridos. Mas ele falava de coisas que são direitos que nós julgamos, julgamos porque não estão inscritos. Mas que são direitos garantidos e universais e que não pode haver retrocesso nessas matérias. E eu lembro-me daquilo me chocar muito. E hoje em dia, a supressão de direitos e a reversão de direitos é uma coisa cada vez mais comum. É. Nomeadamente nas mulheres.

Nomeadamente nas mulheres. Está a haver um ataque grande aos direitos das mulheres e está a haver, sobretudo, uma normalização de um discurso absolutamente misógino e machista que começa desde a mais terra infância. Exatamente. E achas que voltamos à Constituição de 1933 ou já te pareceu uma ideia?

Parece-me que há... Eu não creio que voltemos à Constituição de 33, mas receio que esteja em curso uma vontade, seguramente, mas eventualmente uma manobra de reverter, de retirar direitos que estão previstos na Constituição de 76. Como, por exemplo... ... ... ... ... ... ... ... ...

75, 76. 76, a Constituição é 76. Como, por exemplo, os direitos dos trabalhadores, de uma forma muito evidente, aliás, este pacote laboral que está neste momento a ser proposto pelo Governo é um ataque brutal aos direitos dos trabalhadores e também das trabalhadoras, a Constituição de 76 traz uma coisa interessantíssima, que é a definição do salário mínimo nacional universal, igual para homens e mulheres.

Esta igualdade, esta universalidade do salário mínimo nacional foi absolutamente determinante naquilo que foram as conquistas de Abril na vida das mulheres.

nós estamos em março em que se celebra o Dia Internacional da Mulher não sei se estou a estragar o alinhamento disto estamos a gravar em março não, não, é só por causa da data o alinhamento da sequência dos episódios o teu é o 6 e aqui nós dizemos sempre isto e é verdade e a Rita que está aqui mais uma vez a acompanhar-nos nas imagens sabe

Isto é um processo ainda muito embrionário, portanto a ordem dos episódios nem sequer corresponde à ordem com que os espetáculos estão aqui a passar. Nós queremos é falar com as pessoas e dar a conhecer as pessoas e o seu trabalho. Qualquer forma, o projeto que nos une de uma forma mais artística, se quiseres, o Democracia, é um projeto que nasce.

de um outro, ou melhor, nasce de uma encomenda que nós fizemos à palmilha dentada, nós, pé de cabra, fizemos à palmilha dentada, e que se insere no âmbito de um projeto maior que se chama A Aurora no Caminho para a Igualdade. Exato, sim. Este projeto reflete, nasce da necessidade de reflexão do que é que foram as conquistas de Abril e o impacto que tiveram na vida das mulheres portuguesas.

Contributo que as mulheres portuguesas deram para que se fizesse o 25 de Abril, portanto, a participação das mulheres no período da clandestinidade. Recordo-se que o papel da mulher, voltando à Constituição de 1933, eu a certa altura estudei a fundo, quase a fundo, precisamente do ponto de vista dos direitos femininos.

E uma das coisas a que a mulher tinha direito na Constituição de 1933 era a satisfazer o marido, expressamente. A mulher tem que esperar o marido em casa e quando o marido chega tem que o satisfazer. Eu não sei se sabias, Rita, mas isto é verdade. Isto está escrito na Constituição de 1933. É bastante nojento. E não pode negar ao marido o dever do descanso do marido. Do descanso do marido? Não está bem exatamente assim. Da satisfação sexual do marido?

Portanto, a impossibilidade de se negar à prática do ato sexual também está implícita nessa satisfação. E isso também é um dos temas que vocês trazem no Aurora? A prática sexual não. Não é isso. Com escolas não falamos disso. Não é isso.

Eu, por acaso, no democrácia também não senti isso. Não, também não foi. Não, mas sim. Mas essa é a pior coisa com os direitos das mulheres. É sobre o que é que era a vida das mulheres antes do 25 de Abril e como é que elas se alinharam na luta por uma vida melhor. Ou seja, como estas mulheres decidiram ir à luta.

inaugurou agora no Aljube uma exposição chamada Elas tiveram medo e foram. E isto resume muito bem. Elas tiveram medo e foram. Foram à luta, foram conquistar um país melhor, foram lutar por aquilo que achavam que tinham direito. Achavam, acreditavam. E tinham, efetivamente. Portanto, o Aurora...

Pensa sobre isso, reflete sobre isso, através da programação de espetáculos, numa sua primeira edição, através da programação de espetáculos. Portanto, a Aurora é um ciclo, digamos, programático. O Aurora começou por ser esta vontade de falar sobre, esta vontade de refletir sobre se estamos ou não estamos a perder direitos.

E como é que mantemos os direitos que ganhamos à custa... Acho que podem acabar com o ciclo. Podemos, não é? Não, estamos mesmo a perder. É verdade, estamos mesmo. Estamos todos. Estamos todos. Aliás, as agressões que nós vemos diariamente nas notícias é a perda do direito internacional. Completamente. O direito internacional é, puf, já foi. Já foi. Mas isto tem impactos diferentes em pessoas diferentes.

Ou seja, nós sabemos que as guerras são especialmente danosas para as crianças, que isto não é uma coisa... Não há estranheza nesta afirmação. Portanto, a guerra é danosa para todos, mas é mais danosa para as crianças. É mais danosa para as mulheres. Já nem tem o nome pomposo que tinha, e eu digo isto com todas as reservas, mas que ficou famoso o Bush, sobretudo o filho, que se chamava os danos colaterais.

Hoje em dia já nem há esse cuidado semântico. Nada. Não só há esse cuidado semântico, como há efetivamente essa potencialidade. Bombardeia-se uma escola feminina, por exemplo, e é só saber quem é que foi. Já não há aquela coisa de, pá, isto foi o míssil. Um de nós foi. Exato. Basta saber quem é que tem a melhor retórica.

Sim, há uma falta de pudor completa na forma como se eliminam vidas, como se destroem países, como se praticam o genocídio. E achas que tem a ver com o quê? Eu tenho a minha própria, eu acho que a progressiva, obviamente interesses económicos, interesses financeiros, interesses geopolíticos, tudo isso, mas o progressivo embrinhamento, não sei se existe esta palavra, mas à medida que nos embrinhamos,

mais a fundo na nossa interação digital, por exemplo, ganhamos uma frieza que nos permite matar sem estar presentes. As guerras são feitas à distância. Exatamente. Tu vês pela câmara, comandas botões, não mexes sem armas. Tens o relatório do que foi atingido. Exato. Um relatório estatístico, não é? Daquela ideia de que uma morte é uma tragédia. Só tens de ter alguém com lata para ir às conferências de imprensa.

Sim, é evidente que o digital, o mundo digital, as redes sociais, é um fator de isolamento emocional, social e de... Sim, é um fator de isolamento social e emocional. Mas o que eu acho é que...

Este isolamento não é inocente. Pois, há preciso uma vontade. Há uma vontade. Os senhores que são donos disto tudo restringem-te direitos, dificultam-te a vida, aumentam-te a carga laboral e incutem-te a ideia de que falhas porque és tu que falhas, não é a sociedade que está preparada para te fazer falhar. Isso é o mantra do neoliberalismo, não é?

tens que fazer melhor, tu consegues fazer melhor tu por ti, fazes por ti é porque tu não fazes que não és milionário qualquer um pode ser milionário isto é uma uma isto é falso desde logo, e é muito importante dizer isto isto é absolutamente falso mas é vendido como verdadeiro, porquanto seja factual ou seja, eu tenho um amigo que tem um filho

na casa dos 16, 17, que lhe diz, e ele, para muita tristeza deste meu amigo, mas é o que ele diz, esta malta mais nova cresce agora com umas ideias muito estranhas, que não é a estranheza que nós tínhamos, por exemplo, no tempo dos meus pais, que eram só algumas coisas, que eram puramente conservadoras ou retrógradas, e a gente, pronto, é velhote. Mas hoje em dia há clivagens nestas ideias que fazem com que o mundo avance literalmente para um precipício maior, ou seja, este meu amigo diz que o filho lhe diz, sem pudor nenhum,

Porquê que eu hei de ouvir um professor que tem um Renault Clio, passo a publicidade, quando posso ficar em casa a aprender com um youtuber que tem um Lamborghini? E passas outra vez a publicidade. Isto é factual. Não é factual porque ele não aprende nada que seja construtivo para o mundo.

e mesmo para ele nós tivemos, durante o Aurora tivemos miúdos que disseram, que verbalizaram isto as mulheres não têm que ter tantos direitos como os homens, não devem sequer miúdos que diziam coisas do género eu tenho menos direitos que o meu pai porque compreendem os direitos dos outros como atentados aos seus direitos isto não é uma construção social é um progresso individualista cada vez maior

É a destruição da ideia de coletivo, é a destruição da ideia de sociedade, é a destruição da ideia do bem comum, é o bem individual, ou o benefício individual, sobrepor-se àquilo que é o bem comum, que é o bem social, e o entendimento de que o bem social é indispensável.

para o bem-estar individual, é a propagação de falsas notícias sobre o que é uma sociedade bem gerida.

Agora vamos ter que conversar mais a fundo, que eu gosto muito destas conversas. Primeiro, ainda para terminar aqui este tópico, há quem defenda, por exemplo, ainda outro dia vi um documentário do Louis Theroux, que falava precisamente sobre isso, que é, há cada vez mais uma franja ideológica que diz que para equilibrar tudo temos de voltar a uma definição clara do papel do homem e da mulher nas relações. Isto faz algum sentido para ti?

Não, isso é completamente obsceno até. Em que medida? Primeiro, a redução das pessoas ao binómio homem-mulher. Sério, amigos, século XXI.

Mas hoje está a passar, hoje, acho que é hoje que vai ser discutida a lei da... É verdade que é. O que estamos a assistir é, mais uma vez, a uma proposta de retrocesso. Sim. A uma proposta de retrocesso, a uma proposta de medicalizar a identidade. A uma proposta de criar fatores de dificuldade e humilhação às pessoas que já vivem numa situação de desconformidade consigo. Sim.

É acrescentar peso ao que já existe. A pior culpa-te é a questão das idades, em que se possa definir, por exemplo, o género, porque isso para mim, eu sou completamente a favor de toda a lei que permita a uma pessoa ter livre arbítrio e autodeterminação naquilo que é a sua identidade.

Mas também me preocupa um bocado, por exemplo, às vezes quando ouço, que muito sinceramente, hoje em dia já não sei o que é rumor ou não, mas quando se fala em definição de género, ou essa decisão imputada a pessoas com 12 anos ou 16 anos, isso existe? É boato? Eu não sei se isso existe. A minha existir assusta-me. Eu não sei se isso existe, concretamente, ou seja, dizer-te, conheço algum caso. Ou seja, desinformação.

O que eu acho é que há miúdos em que isso é muito evidente. É muito evidente, pá. E é muito evidente muito cedo. Mas também é um anos grande, não os deixa progredir a um ponto em que se possa... Ou seja, vamos lá ver. Uma criança não pode... Para mim é inaceitável a ideia de que uma criança com 3 anos e meio chega à casa e diz, olha, eu afinal não sou uma menina, sou um menino. E os pais, pumba, já, hospital com ele, vamos... Não, não é?

Há um processo aqui e há um processo que tem que ser acompanhado, mas que não tem que ser medicalizado, tem que ser acompanhado. Tem que ser observado, a distância, a ser visto. Os pais têm que ser dotados das ferramentas para compreenderem isto, para apoiarem. As escolas têm que ser dotadas das ferramentas, as escolas e as pessoas, para acompanharem e para apoiarem isto. E onde está a falhar essa noção social de que a família é mais do que um binómio e que exige permanência?

Eu acho que a gente vai ter que voltar ao capitalismo, Rodrigo. Ou seja, é muito conveniente a questão da dependência da mulher em relação ao homem. A questão de haver o binómio homem-mulher.

É uma questão económica. Tem vantagens. Concentra a riqueza. Concentra a riqueza na figura dos homens. Ou não. A Benetton, por exemplo, descobriu há muito tempo que pode fazer coleções absolutamente sem género. Pois descobriu. O que não invalida. Que descubra também, ao mesmo tempo, que se a fortuna feita com a coleção sem género for concentrada nos homens da família...

fica concentrada em menos pessoas desde que eles usam cor-de-rosa não há problema nenhum exato, o problema é que isto não é uma questão estética olha, mas é uma questão é uma questão eu também concordo contigo muito política, muito adiísmos capitalismos liberalismos

Fascismos? Fascismos, sem dúvida nenhuma. Aí eu acho que é mais, em termos bélicos quase, bélicos naquilo que provoca ir suprimindo direitos e fazendo com que a população se sinta cada vez mais atacada, o que gera inevitavelmente a guerra ou o estado de guerra civil. E acho que o fascismo funciona muito por aí. Desnortear, provocar o caos, monopolizar e depois soltar as pessoas numa arena. Mas...

pressentindo ou sabendo qual a tua tendência ideológica.

Eu cresci com uma educação, um pai, sobretudo, que esteve sempre muito ligado à luta antifascismo e contra o 25 de abril. Pela Constituição do 25 de abril. Contra a PIDE, pela Constituição. Inclusive, fez parte da Comissão da Extinção da PIDE. Era uma coisa que sempre me passou e com a qual eu sempre...

Mas, por outro lado, também teve o papel dele muito... E que pertenceu, efetivamente, ao Partido Comunista, mas sempre tive uma visão muito crítica e muito analítica e muito progressiva das ideias. E então sempre cresci com uma reserva grande de não me aderir a nenhuma ideologia e permanecer lá. E, posto isto, eu pergunto, o comunismo hoje em dia ainda faz sentido?

Como combate a este tipo de... Porque aqui na rua, por exemplo, há cartazes se és comunista, organiza-te. São coisas, são propagandas que eu julguei que nunca mais varia. Eu acho que sim, evidentemente que faz sentido o comunismo. Mesmo com toda a sua história? Sobretudo com toda a sua história.

Sim, eu aqui estou a falar do lado, obviamente, pejorativo. Faz parte... Bem, primeiro, esse lado pejorativo a gente teria que esmiuçar, mas... Esmiuçamos, tu vês cá outra vez. Ok, está bem, mas não temos tempo desta. Estamos nos 20 minutos e ainda não falámos do espetáculo. Exatamente.

Exato, isto está a correr impecável para falar de projetos e de espetáculos. Mas 10 da manhã estava a falar de liberalismos e comunismos. Mas sim, é evidente que o comunismo, e sim, a soma militante comunista, como se sabe, isto não é um segredo, pelo contrário, é uma coisa que eu afirmo com muitíssimo orgulho.

Sim, e empenho. Ou com o orgulho do empenho que consigo ter no momento. Nem sempre sou a melhor comunista do mundo. E, portanto, nessa altura, se calhar tenho um bocadinho menos de vontade. Isso é a ideia mais capitalista que existe. A melhor comunista do mundo.

não é nesse sentido é no sentido de nem sempre me estou a comportar ou a agir ou a lutar ou a defender os direitos das pessoas e quando te diz isto a Inês Baia tem as mãos juntas como se estivesse a rezar e a fazer assim o gesto como se estivesse isso é muito injusto, vá!

voltando a pôr as mãozinhas em... nem sequer sei o que se chama pronto

Há momentos, sim, com muito orgulho e com muita convicção. Ou seja, continuas a achar que é uma vida? Continuo, continuo a achar que é a solução, continuo a achar que é, de facto, o caminho para a construção de uma sociedade na qual eu acredito e que me parece ser necessária, cada vez mais necessária.

Dizes-me, o comunismo não tem tido grande saída. Sim, ia dizer isso. E as coisas. Não, não, percebe uma coisa, eu consigo relacionar-me com o comunismo, nunca teria capacidade para ter uma disciplina ideológica para ser um comunista, por exemplo, mas o meu voto é sempre à esquerda, sempre, mais ou menos, mas é sempre à esquerda e ponho as mãos como tu.

Acho que nunca vou sair daqui. E consigo compreender, de certa medida, seja porque eu acho que tem havido alguma inoperância, se calhar da esquerda como um todo, consigo compreender que ideais como o comunista ou mesmo o socialismo percam terreno.

Consigo, porque estamos a viver numa sociedade cada vez mais individualista, em que se tu quiseres comer, à hora que tu quiseres, clicas um botão e vem-te trazer à casa. Exato, põem-te à porta. E depois dizem que a pessoa que te trouxe está cá de forma ilegal. E que te está a roubar o emprego. Está a roubar o emprego e dizem que é uma pessoa que violas, se te traz-te um hambúrguer e viola-te, pronto. Agora...

Ou seja, assustando-me, isso eu consigo compreender mais ou menos porque é que os ideais de esquerda, se calhar, estão a perder algum... Custa-me perceber, e há uma coisa que eu gostava de ouvir, qual é a tua opinião, o que é que se passa com o Alentejo e com o Algarve e com os comunistas que viraram partidários do Chega? Se há que usar, que eu acho que há. O que é que se passou com esta zona e com estes votos?

Bem, primeiro, a ideia de que os votos do Chega, uma ideia que é amplamente difundida, os votos do Chega vieram todos do PCP. Não, acho que não. Não, acho que parte deles, efetivamente, migrou. Oh, Rodrigo, a ideia é disseminada dessa forma. E o objetivo não é inocente. O que queremos dizer com isto, para além disto de ser...

numericamente falso de nós nunca, nunca o PCP teve 50 deputados. Portanto, não são todos votos. Sim, mas o Chega tem, porque faz uma coisa que é fenomenal, que é...

no ano 2026 ele consegue buscar o animal que sobra dos autómatos que nós somos hoje em dia, então vai buscar os instintos mais básicos e regimenta-os de vários quadrantes. Essa é a questão. E essa é a questão para alguma esquerda. Exatamente. E a ideia de que os comunistas

São tão animais como os gajos do Chega. Esta ideia é absolutamente perversa. Primeiro porque é de reduzir as pessoas que votam no Chega à condição de seres abjetos, sem... Não, não, mas... Olha que é, olha que é... Não, mas quando eu digo isto, eu quero dizer... E acho que eles fazem isso... Essa tradução de que as pessoas... Ou seja, as pessoas que votam no Chega são pessoas como tu e eu. Sim, sim.

nem mais, nem menos. Exatamente. Aliás, é uma discussão que eu tenho muitas vezes é quando as pessoas chamam nomes aos votantes no cheio e eu digo, não, essas são pessoas. Por alguma questão estão a fazer isto. Aliás, o Brexit aconteceu porque isolaram as pessoas em tratamento dos dados. E são pessoas que estão a serem... São pessoas que são vítimas desta sociedade. São pessoas que são vítimas da falência e do capitalismo. São pessoas que não têm emprego, são pessoas que não conseguem... que continuam pobres a trabalhar.

que ficam mais pobres a trabalhar. Com graus de literacia. Com enormes graus de literacia, com imensas... Porquê no Alentejo?

O Alentejo também é a zona das zonas mais pobres do país com mais dificuldades. Mas em termos ideológicos custa admitir-nos, mesmo em termos históricos, custa admitir que há malta que lutou pelo 25 de abril a votar neste quadrante. O livro do... Eu agora vou me enganar no nome dele, porque engano-me sempre. Má pessoa. Miguel Carvalho.

Por dentro do Chega, o livro... Sim, sei qual é. Há um momento, naquelas 780 páginas... Já leste? Não, não li. Mas li excertos. Não li ainda as 780 páginas. É complicado aquilo. É difícil. Mas li excertos e houve uma certa malta que me falou de outros excertos, que eu também fui pegando, portanto, já folhei o livro, já li uns bocados aqui e ali, não li de fia para vir. É um facto. Mas há um momento em que ele, nas várias entrevistas que faz,

Ou seja, sai de lá uma reflexão que é esta. Há malta no Alentejo. No Alentejo posso estar a ser imprecisa. No Alentejo, Algarve, aquilo... Eu jurava que era Alentejo, mas posso estar aqui a ser imprecisa. E perdoem-me se foi. Baixa Alentejo, o sul... Que deixando de ter votado no PCP e votando no Chega, não se revê...

numa alteração ideológica. Ah, mas numa poluição revolucionária. Desesperada. Sim.

Não é propriamente numa posição revolucionária. É num gesto desesperado de pode ser que mude. Mas essa é a narrativa. E por isso é que quando eu falo em animais não digo que as pessoas sejam melhores ou piores. Eu digo que apela a um instinto natural de sobrevivência. Apela ao mais básico do ser humano e apela ao mais...

ao mais fácil, se calhar. É fácil teres um culpado. É fácil dizeres, é aquele gajo. E, para mais, se aquele gajo for de uma cor diferente, isto ajuda tanto, não é? Ou se for uma gaja. Sim, sim. Porque estas progressões do fascismo não são muito diferentes nunca, não é? Não, não, não. Estrangeiros? E anunciam-se a milhas. A gente sabia o que é que vinha por aí. Comunidade LGBT? Exatamente.

Mulheres, deficientes, idosos. Sim, sim. São as minorias chatas que querem direitos e que agora temos que ter atentos a elas. Ou que são caras. Sim. Ou que são caras. Não é?

Eu pessoalmente, isso é como aquela conversa dos gajos que dizem, passa a expressão e o palavrão, mas tem que ser dito assim, eu não gosto de paneleiros, só não gosto que eles sejam à minha beira. Eu não gosto de paneleiros, eu só não gosto que se façam a mim. E esse tratamento das minorias acaba por ser assim.

Se eles puderem votar em mim, tudo bem. Agora, se vierem com as suas coisas, para cima de mim, de minorias que querem direitos, isso já não quero. Isso aí fora, porque acabam por se meter também na minha narrativa. O que é que isto é? É a concentração da riqueza, não é?

É a concentração da riqueza em alguns que, para já, que vão sendo cada vez mais pequenos. Ou seja, começamos por dizer... Isso é uma questão de mal. Isso é uma questão de mal. E fabula, não é? Primeiro concentramos a riqueza nos brancos, depois concentramos a riqueza nos homens, depois concentramos a riqueza em alguns homens e depois, finalmente, concentramos a riqueza num só homem.

Sim. Não é? É este o caminho, não é? Ou é esta a tentativa? Estava aqui a imaginar caras no espectro português em que isso acontece, e são algumas. Mas sim, mas é muito por aí. Olha, já não temos mais tempo. Eu sei. Eu tenho que te perguntar o que é que... Então deixa-me dizer-te muito rapidamente. Queres que diga alguma coisa sobre o espetáculo ou não?

Se me estás a ameaçar assim, não quero ouvir. Não, devo desistir, pá. Não, diz aí. Porque na verdade, tanto a Aurora.

Como democracia? São sobre isto, pá. Quem é que nós somos? Porquê que nós estamos aqui? No sentido profundo da vida, pá. Não estou brincando. É sobre a questão da... É sobre o que é isto da construção de uma sociedade. De uma sociedade em que todos temos direitos e em que todos vivemos bem.

No Democracia, uma das coisas que me motivou, uma conversa um bocadinho mais, sei lá, mais frutífera entre mim e o Ricardo foi que isso não espetáculo.

A certa altura, a personagem discorre sobre casos de censura da Pio, e o Ricardo coloca aquilo no espetáculo como uma espécie de alerta para uma coisa que já aconteceu, mas que, lê-se nas entrelinhas, pode voltar. Sim.

E eu, compreendendo, até porque já trabalho com o Ricardo há muitos anos, compreendendo exatamente o que ele queria fazer, acabei por lhe dizer que, na minha opinião, este tipo de sensibilização pode já não ser... Isso é uma das grandes dificuldades do projeto. Como é que tu falas hoje com os miúdos? O Aurora nasce da vontade de trabalhar nas escolas, no ensino secundário.

Como é que tu falas hoje com os miúdos sobre estas questões, quando estes exemplos são todos absolutamente longínquos e infelizinhos para eles? Esta ideia... Esta ideia do lápis azul que vai rasurar e que vai...

A prática da censura está instituída nas próprias redes sociais hoje em dia. A prática até dá auto-censura. Exatamente. Mas quando tu lhes dizes, ah não, porque as coisas notícias iam para um jornal e havia um senhor que olhava para elas e riscava aquilo que não podia ser. Eles nem sequer concebem o que é esta ideia.

não conhecem esta realidade não conhecem esta realidade às vezes têm respostas até giras do género meto nas redes mas quais redes, moço? Não havia redes e não e depois vem o algoritmo de lápis azul e como é que metes nas redes hoje sem seres bloqueado pelas redes

Ou seja, nós andamos todos a comunicar uns com os outros e a difundir informação sem nenhuma espécie de controle sobre esse meio. Sim.

E completamente condicionados por ele. O meio condiciona a mensagem. A gente só consegue transmitir determinado tipo de mensagem. Sim, sim. Porque a mim acontece-me esta coisa, que é muito distópica. Às vezes fico com uma sensação de que estou já numa distopia. Olho para pessoas que são diametralmente opostas a mim, em termos ideológicos, e penso, este tipo não tem mau fundo.

E eu reconheço que ele está noutra lógica da minha, mas eu não consigo chegar a ele. É como se estivéssemos mesmo encapsulados. E eu nem tenho redes sociais. Usas as redes da palmilha. Usas as redes da palmilha para coscovilhar a vida alheia, não é? Não para ver se gosta de espetáculos e se dizem mal. Uma das coisas engraçadas que aconteceu durante o projeto nas escolas foi que a certa altura fizemos um exercício, que até foi orientado pela Rita Reis, em que a gente colocava ela.

Eu não fiz nada, eu só lá estava a assistir e ia ser bonita. Ela colocava uma série de poemas no chão e convidava os alunos das escolas a pegarem nesses poemas, a lerem-nos e a performá-los. E depois fazia isto nas salas de outros alunos. Quando ela coloca esses poemas no chão, há um miúdo que escolhe desses poemas o poema...

do Sérgio Budinho, que eu acho que o poema é dele, a música foi cantada por ele a vida toda, ou que força é essa? Ok? Em que a letra o que diz é que força é essa amigo, que te põe de bem com outros e de mal contigo. Que a Capicua transformou em que força é essa amiga. E que depois a Capicua transformou em que força é essa amiga. Exato.

A certa altura nós estávamos lá e havia um miúdo que participava no projeto que tinha sido detetado, tinha sido assinalado por uma das pessoas como um miúdo que estava próximo do Chega, próximo das ideias de extrema-direita. E a gente falava com aquele puto. Participou no projeto, ativamente, quis fazer tudo, teve em todas, era um puto espetacular, era um miúdo mesmo giro.

Foi essa a música que ele escolheu. E esta música, voltando àquela questão, há um bocado do Miguel, a quem eu tenho que pedir desculpa por ainda não ter lido o livro, mas lerei. É isto, não é? Que força é essa? O que é que a gente faz com esta raiva? O que é que a gente faz com esta... É preciso ter cuidado a canalizá-la para sítios que depois... É, mas temos... Que é de resto o que acontece muitas vezes com o Trump. Agora só mesmo para terminar, que devemos não terminar, mas o grande eleitorado do Trump é melhor nada melhor nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada

É malta a quem a sociedade falhou. É malta a quem a sociedade falhou, sim. Do interior. Pronto. Eu acho que falhei com o tempo também, porque era para parar nos 30. E falhamos olimpicamente com a parte dos espectáculos. Mas mantivemos-nos no tema. Foi fixe. Depois podemos marcar outro dia para falar. Eu acho que deu para perceber que o ativismo está presente. É. O cuidado por manter a democracia é uma preocupação. É fundamental. Isso tem que ser. Malta, não se pode distrair dessa missão.

Tu continuas só com o pé de cabra? Eu sei que tens aí outras coisas. Não sei se queres falar. Eu neste momento até tenho o pé de cabra muito em stand-by.

porque aceitei ser diretora da ACCE como é que foste encontrar a ACCE? eu não queria falar mas nós não precisamos falar disso pronto se tu quiseres pode ser em outro episódio não, mas quer falar sobre isso não implica falar sobre coisas que necessitam nós podemos falar sobre o que tu quiseres curiosidade como é que isto aconteceu? como é que isto aconteceu? aconteceu assim, houve um grande amigo teu sim então

que por sinal também é um bom amigo meu, que me ligou a dizer, olha, estamos nesta situação, tu sabes que estamos nesta situação, queres pensar na possibilidade de pegar nisto? E depois eu andei a pensar com ele. Assusta-me a ideia de não ser capaz de estragar, de não fazer banho. Não me assustou. Gosto muito de trabalhar com jovens.

Porque são muitos anos com a mesma estrutura, a mesma direção. Mas isso também é bom. Às vezes o simples facto das coisas mudarem alivia. Sim, sim. E acho que se calhar estava nessa altura. É muito mais feminino agora na direção, não é? Agora é exclusivamente feminino. Eu não queria dizer isso. Com incidências da vida, não é? Olha, muito obrigado. Vamos ficar por aqui. Obrigada a ele. Agora entrou o genérico.

E aí