Salvador, Igreja Mãe do Brasil | Padre Manoel Filho
O podcast "Salvador, Igreja Mãe do Brasil” é uma iniciativa da Rede Excelsior de Comunicação em celebração aos 475 anos da criação do Bispado de São Salvador da Bahia e aos 350 anos de sua elevação à Arquidiocese e Primaz do Brasil. Neste segundo episódio, o padre Manoel Filho, Vigário Episcopal para Cultura, Educação e Comunicação da Arquidiocese de Salvador, conduz uma reflexão sobre a presença dos santos e devoções religiosas na construção da cidade e do Arcebispado de Salvador. Este é o segundo de uma série de episódios mensais, sempre publicados no dia 25, em referência à data de criação da Diocese de São Salvador da Bahia. 🎧 Disponível no YouTube, no Spotify da Rádio Excelsior da Bahia e no site da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. 🔔 Inscreva-se no canal, ative as notificações e acompanhe essa jornada pela história da Igreja Mãe do Brasil. Siga nossos outros perfis: Instagram: https://instagram.com/radioexcelsior?igshid=ZDdkNTZiNTM= Facebook:https://www.facebook.com/RadioExcelsior?mibextid=ZbWKwL Acesse nosso site em: https://fundacaodomavelar.com.br Acesso nosso site em: https://radioexcelsiorfm.com.br/
Padre Manuel Filho
Oi gente, sejam bem-vindos a mais um podcast Salvador Igreja Mãe do Brasil. O podcast que fala sobre os 475 anos de bispado de Salvador e os 350 anos de elevação à arquidiocese. Hoje a gente está em mais um capítulo especialíssimo e eu estou com a presença de uma pessoa que, além de padre, é meu amigo, Padre Manuel Filho.
que está aqui com a gente hoje. E o nosso tema hoje é Presença dos Santos e Devoções Religiosas na construção da cidade e do Acebispado de Salvador. Padre Manuel, seja muito bem-vindo. Padre Manuel, que é vigário episcopal para pastoral da cultura e da educação e da comunicação. Aí eu falei a tria de certa, né, gente? Cultura, educação e comunicação.
É daqui da arquidiocese. Sua trajetória é marcada por muitos anos como coordenador da Pastoral da Comunicação, também da Pastoral do Turismo, nacional e também arquidiocesano. E eu soube também que o Padre Manuel é historiador, não é isso, Padre? Pelo menos professor de história, com certeza. Padre, seja muito bem-vindo ao podcast Salvador Igreja Mãe do Brasil.
Obrigado, uma alegria. Estamos, de fato, comemorando esse jubileu. Também ali como pároco da ascensão do Senhor. Estamos celebrando também as alegrias de fazer parte dessa história. Inclusive, na coordenação da comissão do jubileu. Então, estou tendo essa missão com muita alegria e muita responsabilidade também.
Muita responsabilidade mesmo, porque a gente aqui nesse podcast já está vindo tanta história, tanta coisa. Imagina lá no vicariato, né, Fábio? Temos muita coisa, graças a Deus. Graças a Deus, Salvador, é rica. Então vamos lá, vamos começar falando sobre o DNA devocional e dessa trajetória aqui das devoções. A gente está falando de uma fé que constrói. Então, qual o...
papel dos padroeiros, que a gente tem padroeiros, hoje a gente tem muitos padroeiros em paróquias, padroeiros em cidades, nas regiões metropolitanas a gente tem padroeiros, e essa identidade do povo, de que arquidiocese está, povo baiano, povo de Salvador.
Nesses quase cinco séculos de história, desde que a diocese foi criada, a gente tem uns padroeiros que protegem. Então, qual é a identidade desses padroeiros? Eles são iguais aos europeus? Eles são diferentes? Como é que eles chegam aqui? A devoção vem com os portugueses. Fundamentalmente, as grandes devoções são trazidas pelos portugueses, pelos jesuítas, pelos beneditinos, pelos...
Carmelitas e pelos franciscanos primeiro a devoção a Nossa Senhora que é a Padroeira da Bahia sob o título de Conceição da Praia vem com os portugueses é a grande devoção de Portugal a Padroeira de Portugal é Nossa Senhora da Conceição Manuela da Praia
Não era da praia. E aqui a gente tem o encontro com a nossa cultura, com as nossas raízes. E vai ampliando. Eu fico sempre... E temos um dado que é absolutamente relevante, que são os nossos santos. Sim. Os santos daqui. Sim.
os que passaram aqui, os que viveram aqui, os que são daqui, os que estiveram um dia, dois dias, dez anos com a mancheta. Sim. Enfim. Os que têm milagres comprovados com pessoas daqui. Daqui. E assim a gente vai vendo como a ideia de santidade, a ideia dessas devoções populares, por exemplo, é óbvio que Santo Antônio, que na verdade foi o primeiro padroeiro de Salvador. Sim. Não é?
Tem uma devoção muito grande por causa das nossas raízes portuguesas, da colonização portuguesa. E o que ele é em Portugal, especialmente em Lisboa, é impressionante. E a gente vê aqui também. E junto com os padroeiros e os santos de devoção, alguns não são nem padroeiros, mas tem muita devoção. Por exemplo, São Cosme e Damião. Tem uma devoção que extrapola os limites da paróquia de São Cosme e Damião.
Senhor do Bom Fim é porque Senhor do Bom Fim sendo Jesus não é santo é próprio Deus mas ele até conheço uma expressão que Padre Edson gosta de usar, é o padroeiro do coração dos bairros
Então essa expressão a gente pensou um dia e falou assim, Padre Edson gosta muito, e eu vejo que é isso mesmo. Porque existem os padroeiros oficiais e existem as grandes devoções. Então Santo Antônio, por exemplo, que não é padroeiro, é um santo de grandíssima devoção. Santa Bárbara. Santa Bárbara, uma santa de grandíssima devoção. E com experiências de fé. Sim.
experiências de transcendência muito fortes na nossa cidade. Então, de fato, não são 365, são mais de 400 igrejas em nossa cidade, muito mais que isso, em nossa diocese, com os seus quatro municípios, além de Salvador, Lauro de Freitas.
Itaparica, Mar Grande e Salinas. São os quatro municípios que hoje compõem Arquidioceso Salvador, além de Salvador. Então, além desses padroeiros todos, desses santos todos, quer dizer, são os padroeiros, são as devoções populares que extrapolam os limites do patronato paroquial, por exemplo. E são os nossos santos, os santos que passaram aqui. Inclusive, existe notícia.
de que inúmeros santos jesuítas passaram aqui, inúmeros, que você imagina que Salvador, como foi a sede da província jesuíta no Brasil, então todo mundo que vinha para o Brasil passava Salvador. São João de Deus, por exemplo, existe notícia de que ele passou por aqui, além de São José de Anchieta, que morou 10 anos em Salvador.
Depois nós temos aqueles que passaram aqui um dia, dois dias, horas, como Santa Tereza de Calcutá e São João Paulo II. E aqueles que, de fato, aquelas que marcaram a nossa história, como Santa Dulce, Beata Lindalva, Amada Vitória da Encarnação.
Que estão aí nos processos. E que não está. Por exemplo, Soros Manangélica. Que não está em processo ainda. A gente até espera que uma hora esteja. Mas que também tem devoção. Se você parar um tempo ali na Igreja da Lapa.
onde está a sepultura de Sra. Joana Angélica, você vai ver muita gente chegando lá para rezar, muita gente visitando o túmulo. Então, essa ideia de santidade, eu fico pensando que quando a Bahia, essa Bahia foi...
encontrada quando os portugueses chegaram aqui no dia 1º de novembro. E como era de costume, batizar o lugar com a festa religiosa que estava acontecendo naquele dia. E eles batizaram esta baía de Baía de Todos os Santos. Não foi por acaso, tinha um propósito ali. Tinha um propósito. Ainda tem Maria Milza, que também esteve aqui.
Maria Milza passou por aqui, sim. Ali está em processo também de beatificação, como a Madre Vitória da Encarnação. E Maria Milza também, sim, tem uma proximidade. Muita gente aqui tem devoção por ela. Mulheres, né? Mulheres. É muito interessante também. Isso que eu me lembro bem dela, porque a história dela é muito... Muito bonita e muito vinculada. Faleceu aqui em Salvador. E se vale a pena as pessoas também visitarem lá, o espaço dela lá em Itaberaba. A Lagoinha. Está fazendo... Não, porque a casa é... É...
Mas o nome do lugar é Lagoinha. Lagoinha. O nome do povoado é Lagoinha. Em Lagoinha. Município de Itaberaba. Itaberaba. A casa de Maria Milza, onde ela morou, né? Que tem muitos objetos e muitas coisas. E tem a igreja do lado. Sim, uma devoção incrível.
Maravilha, a gente sempre está fazendo analogias, Padre, que levam as pessoas também a visitarem outros espaços. Claro. Mas a gente falando agora sobre o processo de imandades, o Padre citou aqui algumas devoções que também têm envolvimento com a imandade.
E as pessoas às vezes ficam nessa dúvida do processo de como é que funcionam as irmandades. E ordens terceiras, que é como se fosse o processo assim. Elas foram fundamentais nessa organização também, de organização social, essa organização toda do processo da cidade.
Como é que eles funcionam? Esse grupo de pessoas, de devotos, ajudaram a erguer não apenas templos, mas também escolas, hospitais, devoções. Como é que foi isso? As irmandades, socialmente falando, têm sua origem muito forte na Idade Média.
dentro da lógica do que se chamava na Idade Média de corporações de ofícios. Então, os ofícios, sapateiros, engraxates, médicos, se juntavam e formavam as chamadas corporações de ofícios medievais. Eram grupos de pessoas que se entreajudavam também. Eram grupos de entreajuda. Isso é muito forte também nas irmandades.
Então, é essa lógica de grupos de pessoas que se unem em torno de uma profissão, de um ofício, é transposto, acontece também, grupos de pessoas que se unem em torno de uma devoção, em torno de um santo, em torno de uma espiritualidade. Na igreja, é o que hoje a gente chama, por exemplo, hoje a gente tem os movimentos.
Grupos, movimentos pastorais. Grupos, movimentos pastorais, onde os leigos encontram o seu espaço na igreja. São hoje, sei lá, movimentos escalada, focolari, renovação carismática, grupo de jovens, apostolado da oração. Entendi, entendi. Mas, ali pela Idade Média, nos primeiros momentos... No início, havia Irmandade.
Eram as irmandades. As irmandades eram os grupos de leigos, o espaço do leigo na vida eclesial. Entendi. Muito fortemente. Então, tinha essas duas características. Sim. O espaço de pertencimento laico e o espaço de autoajuda. Por exemplo, a Ordem Terceira de São Francisco, aqui em Salvador, os membros da Ordem Terceira de São Francisco têm o direito de, na velhice, morar no abrigo Santo Isabel.
Quando a gente olha ali do Pelourinho, lá na saúde, aquele belíssimo prédio amarelo, cheio de janela, parece um palácio. Isso é um palácio, padre? Ele pode morar ali. Tem uma cota que ele pode pagar e é ele que tem direito. É o irmão da Ordem Terceira que tem direito de morar ali na velhice. Então tem essa característica também de se autoajudar, de se entreajudar, de entreajuda, de entreapoio. Então essas duas características configuram.
E aí, em cima disso, por causa de se juntar em torno de uma devoção, aí as irmandades constroem as suas igrejas, têm a obrigação de cuidar da igreja, têm os seus projetos sociais, têm a obrigação, em geral, nos estatutos das irmandades, consta a obrigação de perpetuar a devoção. Por isso que chama devoção...
do Senhor do Bom Fim da Bahia. Entendi. Entendeu? Porque o principal objetivo é cuidar dos bens, tá em vista, mas o objetivo principal, o fim não são os bens, o fim é perpetuar a devoção. A devoção. Manter a devoção viva. E aí vai chamando mais jovens, vai chamando gente nova, vai atualizando. Então tem esses objetivos. E aqui em Salvador...
Não é como numa cidade histórica, uma diocese de 475 anos, uma cidade que acabou de fazer 477 anos de fundada. A gente tem, então, irmandades antiquíssimas, como a do Bonfim, como a Conceição da Praia. E existe uma distinção canônica.
Porque a Ordem Terceira, aí sim, ela está vinculada a uma congregação religiosa, a uma Ordem Primeira. Sim. Até simbolicamente, embora aqui a gente tenha um exceto, mas até simbolicamente você vai ver sempre a Igreja da Ordem Terceira do lado da Igreja da Ordem Primeira.
Mas, Padre, se tem ordem primeira e ordem terceira, não tem ordem segunda? Tem. É. Tem ordem segunda. Na ordem primeira, todo mundo é frade, né? Quem mora, por exemplo, ali em São Francisco ou no Carmo, todos são frades. Sim. Mas existem frades ordenados sacerdotes. Sim, que são. Ordem primeira.
Os não ordenados, segunda. Olha, gente. Os leigos, ordem terceira. Gente, não sabia dessa segunda, não. Eu conheci a primeira e a terceira. Porque, digamos assim, a primeira e a segunda moram no convento. E para o olhar externo, você não vê diferente. Todo mundo é igual, porque todo mundo é frágil.
Mas agora aqui, por exemplo, a gente tem muito conhecido, está aí nas redes sociais, Frey Lohane. Frey Lohane. Frey Lohane não é ordenado padre. Por quê? Porque ele não se sente vocacionado ao sacerdócio. E é uma coisa interessante. Existia muito isso.
antigamente, depois deixou um pouco de existir. E essa vocação à vida religiosa sem o sacerdote floresce hoje nas congregações. Começa a existir de novo. É muito das freiras, né? Exatamente. O freio...
É o equivalente da freira. Na verdade, a lógica seria essa. Sim. O rapaz entra no convento para ser freio. Freio. A necessidade... De operários para nossa mesa. Faz com que ele, a congregação de cida, olha, você vai ser ordenado, porque a gente precisa de padre. Entendo. Mas a vocação primeira é para a vida como irmão. Freio é irmão. Sim. Então, a vida de irmão, a vida consagrada.
Então, a ordem terceira está sempre ligada, umbilicalmente ligada à ordem primeira. Por isso as igrejas. Qual é a exceção? Nós temos três ordens terceiras em Salvador. Qual é a exceção? São Domingos. A igreja de São Domingos, que é da ordem terceira. As irmãs que administram. Não, é uma ordem. Uma ordem terceira, de leigos, ali do lado, de frente da catedral. Sim. Ela não tem a ordem primeira.
Por quê? Historicamente, teve alguma situação que aí, de fato, eu não sei dizer, mas aqui em Salvador, ela não tem a Ordem Primeira. Então é como se ela fosse... Não tinha. Está ligada à Ordem Dominicana. Sim. Só que os padres, os frades dominicanos, formaram a comunidade aqui em Salvador agora.
que não vão ter um convento histórico grande no centro histórico, que não foi construído, mas eles estão presentes, inclusive para garantir essa identidade da Ordem Terceira, que já está presente, com uma presença significativa em nossa cidade. Já existia devoção.
já existia a ordem não, a ordem existia, a ordem terceira é tricentenária a ordem terceira de São Domingos é tricentenária, aqui é aquela igreja belíssima, muito bem conservada como as ordens de São Francisco e do Carmo aí são as ordens terceiras aqui nós temos três as irmandades
São inúmeras, né? Porque a gente conhece muito Bonfim e Concessão da Praia. São as mais conhecidas. Mas, por exemplo, a Igreja de Santo Antônio, além do Carmo, é uma igreja de irmandade. A Igreja da Penha também é? A Igreja da Penha é uma igreja de irmandade. Rosário dos Pretos é uma irmandade. É verdade. Existem muitas irmandades, pequenas irmandades, inclusive, em Salvador, e que são irmandades. Que são irmandades. E preservam a igreja que tem... E a devoção.
ampliam e preservam a devoção. Que maravilha a gente entender isso aqui nesse processo de construção da Igreja de Salvador e ouvir o Padre Manuel falar sobre esses detalhes pequenininhos, mas que são muito importantes para o nosso entendimento e nossa fé. É interessante esse processo. Padre, falando sobre essa questão de devoção popular, o senhor falou muito sobre isso.
Muitas vezes, elas influenciaram a própria estrutura da igreja institucional da Bahia. Como é que foi isso? Começou no popular e... Em geral, na América Latina, o processo de evangelização demandou a religiosidade popular pela ausência de sacerdotes. Então, como a gente não tinha sacerdote para cobrir a necessidade do povo, o povo se reúne para rezar sem padre.
Aí vem as novinas, vem as trezenas, vem as processões, vem as manifestações culturais, marujada, reis, essas manifestações culturais ligadas à religião. Então, a gente diz, sem medo de errar, porque não sou eu que estou dizendo, os historiadores falam que a religiosidade popular... A gente nãoở em quadru A.
sedimentou, ampliou e sustentou o catolicismo e o cristianismo no Brasil. Vamos tirar do passado e botar no presente? Sim. Vamos. Alimenta, sustenta e mantém. Porque a religiosidade popular, primeiro, dá uma coisa que hoje em dia se fala muito, mas que é interessante, tem 475 anos. Protagonismo do leigo. É verdade, isso é.
Quem é? E protagonismo da leiga. Da leiga, padre, perfeito. E o Sino do falou bastante sobre isso, né? Então é interessante, se você for ver, as grandes lideranças, as mestras da religiosidade popular, são mulheres. É verdade.
Entendeu? As rezadeiras, as benzedeiras, aquelas mulheres que puxam os benditos, que puxam as rezas, que reúnem a comunidade na sua casa, para a trezena de Santo Antônio, para o meio do Rosário, para a novena de São Benedito.
Aí depois, lógico, entra o círculo bíblico, agora a naturalidade. O círculo de Jericó. São os leigos. E são as leigas. Que maravilha isso. Então, na verdade, porque o círculo de Jericó já não está no âmbito da religiosidade popular. É mais moderna e está mais no âmbito do neopentecostalismo católico. Está um pouco nessa linha. Mas o...
no campo da religiosidade popular, essas novinas, essas trezenas, esses benditos, tudo isso, essas manifestações culturais, falam de protagonismo leigo, falam de evangelização, de manutenção e de ampliação da ação evangelizadora, a partir da fé singela, simples e profunda do povo. Começa com a fé do povo.
A fé do povo, entendeu? As congadas também, padre? Congadas, marujadas, ternos de reis. Essas festas, porque geralmente elas estão ligadas à festa de santos, muitas de festas de santos negros. Sim, sim. A festa de São Bidito, essa coisa toda. Tem muita relação com comunidades quilombolas, emanescentes quilombolas.
Lógico, santos negros E tal Mas não só Ou comunidades que tem muita população negra Apesar de não ter Que não é só Agora, protagonismo leigo E feminino Isso aí é geral É unânime É unânime
Por quê? Bem, primeiro que eu não tinha padre. Sim. E muitas vezes não tem. Sim. Então, se você chega hoje numa comunidade, ou tem a festa, ou tem o trido, ou tem a trezena, ou tem a novena, ou tem a celebração da palavra. Porque às vezes a gente que mora em Salvador, mora no centro urbano, mora em paróquias, em concentração, a gente não tem ideia. Um dia eu encontrei, eu fui assessorar a Assembleia de Ocesana de Macapá.
e ali hospedado com o bispo e tal, um padre chegou, os padres ficavam e lá uma característica tem que ter barco, toda paróquia tem barco
Tipo a galeota do povo Não, barco mesmo, para levar o padre Porque as paróquias são imensas São ribeirinhas E o padre passa 15 dias Na paróquia Aquele padre que estava ali jantando comigo Dizia isso, eu passo 15 dias na paróquia 15 dias no barco visitando Quer dizer, são visitas De um dia, de dois dias Na paróquia, naquela comunidade Naquela comunidade A fim na quadra
E os outros 28 dias? E os outros 29 dias? Sim. Quer dizer, hoje existe essa realidade. Na zona rural, existe essa realidade. Nas nossas comunidades periféricas... São muitas comunidades. Muitas. Tem uma paróquia com 20 comunidades. Então, assim, como é que o padre... Eu fiz estágio pastoral na Mata Escura quando eu terminei o seminário. Então, era um padre, dois diáconos e eu.
E a paróquia tinha 13 comunidades. Olhei. Então, todo final de semana, tinha celebração em todas as comunidades. Misericórdia. Mas era como? Era rotativo? Era rotativo.
Então, nem todas tinham missa. Sim, sim. Era a celebração da pula. Todo mundo celebrava uma meia-dia, uma sábado de tarde, melhor dizendo, uma sábada à noite, uma domingo de manhã, uma domingo à tarde. Então, o padre celebrava três. Sim.
O diácono celebrava três, seis. O outro diácono celebrava... Eu acho que era um só. Porque tinha leigos também celebrando. Entendi. E era rotativo. Na matriz, tinha dia que não tinha missa. Tinha do final de semana que tinha celebração da palavra. E é justo, né? E com leigo.
Porque o padre precisa estar em todas as outras. Então você veja que essa é a realidade. Então, no concreto da vida das comunidades, mais ou menos, há realidade popular. E aí depois, uma coisa forte, essa ideia de família, de clã. Família no sentido ampliado, de vizinhança.
O que acaba construindo. Construindo relações. Então, é muito forte as manifestações de religiosidade popular. Acho que são essas palavras mesmo. Sustentar, ampliar e manter a fé do povo. Com protagonismo leigo e feminino.
E aí, falando dessa questão dessa religiosidade popular, a gente tem umas festas aqui que são bem fortes, que tem isso muito forte, né? A festa do Senhor do Bonfim, né? A gente tem isso muito forte em Santa Bárbara, né? Em Santo Antônio.
E na Conceição da Praia. Sim. Santa Luzia também. Santa Luzia. É verdade. Santa Luzia é muito forte. É verdade. Santa Luzia. São Lázaro é muito forte. E São Lázaro tem um interreligioso também bem forte. Muito forte. É verdade. Então, a gente tem lugares assim. Sim. Como é que funciona essa característica interreligiosa e popular?
Essa construção já começou desde lá de trás ou foi algo que foi adquirindo aos poucos com a mudança dos povos? Sim, vai mudando o tempo, elementos novos. O que não muda é o que é essencial. E aí a gente tem a identidade.
E hoje em dia mesmo, as eleições de matriz africana, as grandes lideranças, falam cada vez mais também na fidelidade, porque o sincretismo nasceu de uma proibição. Sim. O sincretismo é resultado, o sincretismo é uma coisa.
É uma realidade que nasceu de uma necessidade ruim, de um aspecto negativo da nova história. Aliás, há poucos dias, a ONU, quase que com unanimidade, declarou que a maior chaga da humanidade foi a escravização de pessoas humanas e do povo negro. A ONU declarou. Só três países não votaram contra essa declaração. Mas...
Então, foi uma realidade que nasceu de uma chaga histórica. A própria mãe Estela dizia, essa chaga histórica já não existe mais. Então, a gente não tem mais necessidade de sincretismo. A gente pode reconstruir a fidelidade e a originalidade das nossas tradições religiosas. Mas está aí, é um fato.
tradicionalmente sempre houve na nossa história então o que a gente precisa? a gente está lá com a nossa identidade muito clara muito marcada é uma festa católica, são festas católicas de santos católicos no dia dele no dia litúrgico dos santos então são festas católicas em diálogo em diálogo
com outras manifestações religiosas e com as manifestações culturais decorrentes. Então, a palavra que define isso é aquela que veio com muita força no Conselho Vaticano II, que eu estou falando aqui agora, diálogo. É sempre diálogo. Eu tenho que entender.
Que o diálogo, sobre todos os aspectos da vida, no religioso também, o diálogo não diminui em nada a minha verdade. Com certeza. A capacidade de dialogar não diminui em nada a verdade que a gente carrega. Com certeza. Então, a nossa identidade, a nossa verdade de fé se mantém cristalina.
em diálogo com outras possíveis manifestações religiosas, que também redifinem o seu papel e as suas posturas, e com a cultura, aí sim. E a cultura é vasta, a cultura envolve as comidas próprias, envolve as danças, os ritmos, as alegrias. E, olha, sinto dizer, mas não é, assim, ai, que pena, mas não é prerrogativa nossa. Não.
Onde existem festas religiosas, existem festas populares no entorno da festa. Na Alemanha, na Suíça, na Bélgica, na Argentina, no México, nem se fala. Claro que há os países de... Olha, não vou nem dizer isso, porque não é verdade. Os países europeus em Portugal, na Espanha, na Alemanha, na Itália, tudo...
tem festa. Toda fé, toda manifestação religiosa tem festa. Um pouco o racionalismo do iluminismo entrou em algum momento na história da religião e deixou algumas expressões religiosas um pouquinho mais secas, mais racionais, menos envolvidas. Mas, fora isso, todas as manifestações são aí.
católicas, cristãs, evangélicas, das outras grandes heranças, tradições religiosas, hinduísmo, budismo, islamismo, tudo tem som, tudo tem cor, tudo tem música, tudo tem comida, tudo tem flores, tudo tem cheiros, todas as manifestações faz parte. Agora, a gente não perde a identidade, então a identidade está lá.
Agora o diálogo é aberto. Sim. E o que é litúrgico a gente mantém na liturgia. Porque é o essencial. É o essencial. Perfeito, padre. O povo baiano tem isso, né? Dessas gírias. A gente tem gírias específicas, né? O povo baiano tem essa coisa do falar diferente. Na verdade, o povo soteropolitano tem um falar diferente, inclusive, do povo baiano.
De outras regiões, porque a Bahia é muito grande. É, mas é porque cada região tem a sua característica. No caso do Sotteropolitano especificamente, a gente tem algumas coisas, alguma forma de falar, que são...
extremamente diferentes de qualquer outro lugar. Isso veio dessa coisa cultural, dessas manifestações, dessas misturas, desses processos. Sim. Claro que o que é mais raiz, digamos assim, tem mais a ver com as...
As manifestações, as origens das nossas raízes, matriz latina, matriz africana, matriz dos povos originários e tudo. Hoje, com a globalização, a gente está cada vez mais com, digamos assim, expressões idiomáticas mais globalizadas, mais universais. Tem gente falando massa em tudo quanto é lugar. A massa era nossa, né? Era só nossa.
Então a gente vai vendo isso, né? Mas com certeza, a língua, aliás, já disse Caetano, né? A língua é a minha pátria. Sim. Então a língua, o jeito de falar, é sempre expressão de uma cultura. Onde eu estou é onde eu falo. Onde eu estou tem a ver com o que eu falo e como eu falo. E como fala.
E dentro da igreja, o senhor vê essa diferença em gírias e igrejeiras? Porque a gente fala igrejeiro, né? As gírias dentro da igreja têm essa diferenciação de acordo com a regionalidade? Ou quando a gente chega... Porque quando a gente chega em outros lugares que a gente vê igreja, o rito é todo igual da igreja.
Existem expressões idiomáticas. Eu não falaria gíria, mas tem a ver com idioma. Claro que as expressões têm a ver com idioma, não com gíria, mas com as diferenças idiomáticas mesmo. Idiomáticas. Olha aí, com as diferenças idiomáticas. Padre Manoel Filho, gente.
Houve mudanças de como o povo se comporta em relação à devoção popular mesmo, desde lá do começo, da época da elevação até agora? Sim, porque é cultura. E a cultura se constrói, se reconstrói, se desconstrói. Ou melhor, ao contrário. Se constrói, se desconstrói, se reconstrói. Então, por exemplo, e o Espírito Santo também. O Espírito Santo age.
Então ele traz novidades, traz elementos novos, traz novos carismas. O tempo muda. Então como um dia surgiu os franciscanos, outro dia o franciscanismo, outro dia surgiu o beneditino, depois, enfim, também vai surgindo movimentos. E isso reflete no jeito de estar na igreja, no jeito de ser na igreja também.
Então, nem sempre é fácil aceitar as mudanças, as mudanças geracionais, mas a gente faz parte, contanto que não mexa no que é essencial. De fato, aí, Santo Agostinho sempre, né? No essencial, radicalidade, no relativo, liberdade, em tudo, caridade.
Em tudo caridade. Não podemos esquecer nunca isso. Nunca da caridade e nunca do essencial. O relativo é relativo. É isso aí. Padre, o senhor falou aqui sobre muitas devoções que Salvador tem e que foram de Portugal. Tem essa questão popular que tem da cultura indígena e africana. Existe alguma devoção que seja unicamente de Salvador?
Que tenha nascido aqui, que você fala? Que seja própria daqui. É porque agora já ganhou o mundo, né? Mas que tenha nascido aqui.
Eu acho que todas as grandes devoções nossas nasceram assim. O que não nasceu é a origem da devoção. Bem, a gente vai ter uma devoção. O pessoal na Osíd, nas obras sociais de Irmã Dulce, em torno ali do santuário, está mergulhando nessa descoberta da espiritualidade de Santa Dulce, gerando, por exemplo, o docismo. Sim. Então, o docismo...
Com o passar dos anos, à medida que isso for amadurecendo e que esse mergulho for sendo aprofundado, vai virar mais até do que uma devoção, uma espiritualidade autenticamente. Porque não existe nada autenticamente de um lugar no âmbito da fé católica, porque é universal. Sim. Então, você sempre vai encontrar as raízes. Um pedacinho em algum lugar.
no universal. Então, quando Santa Duz fala do amor, quando Santa Duz... Enfim, imagina. Mais até do que religioso. Mas expressões de devoção, então são... Aí sim.
Existem peculiaridades na expressão de uma devoção. Quer dizer, a forma como a Bahia tem devoção à Nossa Senhora da Conceição é diferente de como a Sergipe, que a padroeira também na Nossa Senhora da Conceição tem. Ou ao Bom Jesus. Existe devoção ao Bom Jesus. Há pouco tempo atrás eu fui conhecer...
lindíssima a devoção ao Bom Jesus, interessante, Bom Jesus dos navegantes é muito forte no Rio São Francisco, nas cidades que... Então, eu fui conhecer a devoção em próprio A, até a imagem, não é do crucificado como aqui, é aquela imagem de Jesus assim, em pé, assim com a mão.
Então, Jesus que acalma o mar, né? Sim, eu entendo. Então, você veja, até a iconografia, até a expressão artística é diferente. Então, isso vai, no essencial, a devoção, finalmente, a Jesus.
Tem título, é sempre isso, mas a forma de objetificar, de objetivar, a forma de manifestar varia aqui e em todos os lugares. Em todos os lugares, sim. A devoção à Nossa Senhora da Boa Viagem.
que não tem exatamente esse nome, na história dos navegantes. Sim. Em Porto Alegre é grandíssima, com profissão marítima, com tal e tal e tal. Então, são devoções com...
características próprias. Sim, então a nossa aqui, específica Boa Viagem, Boa Jesus dos Navegantes, é específica daqui. A galiota, as formas, e tal, e tal, e tal, é assim todo mundo, entendeu? Só se festeja Santa Bárbara do jeito que se festeja. É a mesma devoção à Santa Bárbara no mundo todo, mas a forma como se festeja na Bahia é só aqui.
como é única também a forma como se festeja... Senhor do Bom Fim. Não, e Santa Bárbara em outros lugares. Em outros lugares, sim. Entendi. Perfeito, padre. Agora, só para a gente encerrar, na prática, especificamente, como é que a devoção nos ajuda hoje a ser igreja missionária, acolhedora, uma coisa que o senhor sempre defendeu em sua trajetória e vai trazer para a gente hoje.
Ah, não, claro, claro. O espaço das devoções é sempre o espaço de acolhimento, né? Sob todos os aspectos, a religiosidade popular, uma das, digamos assim, se a gente for ticar características da religiosidade popular, está ali acolhimento, né? Está ali alegria, é outra característica.
Está ali cultura, está sempre ligada à cultura. Encontro. Encontro, a cultura do encontro. Então, essa característica da acolhida, do encontro, é sempre muito própria, é sempre muito característica do estar junto, pessoas que se encontram, estão juntos para celebrar. Isso é muito forte, é muito característico.
Maravilha, padre. Muito obrigada pela sua presença. Eu que agradeço pela oportunidade. E o senhor sempre bem-vindo aqui, tá? Muito obrigado. Gente, encerrando agora o nosso podcast Salvador Igreja Mãe do Brasil. Mais um episódio maravilhoso aqui com o padre Manuel Filho. E a gente continua aguardando vocês. Todo dia 25 a gente está esperando vocês no próximo episódio aqui na Rádio S.A.C. da Bahia. Até lá.