África: 9 golpes em 3 anos
Neste episódio, analisamos a escalada da violência no coração da África Subsaariana e como isso afeta a geopolítica global. Você vai entender o que é a AES (Aliança dos Estados do Sahel) — formada por Mali, Níger e Burkina Faso — e como os recentes golpes militares nesses países mudaram as regras do jogo.
Eles expulsaram as forças da França (antiga metrópole) e dos Estados Unidos, prometeram combater o terrorismo com as próprias mãos e trouxeram a Rússia como nova aliada. Mas agora, com o avanço implacável de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda sobre a capital Bamako, o projeto nacionalista e anti-Ocidente da região enfrenta seu maior teste de sobrevivência.
Será que a Aliança do Sahel tem força para vencer os extremistas sozinha ou o rompimento com a ajuda internacional cobrará um preço alto demais? Aperte o play e entenda todas as peças desse complexo tabuleiro africano.
Podcast produzido pelo .pandora educacional
Adriana Zanotto
Varela
- Geopolítica e neocolonialismo na ÁfricaAliança dos Estados do Sahel (AES) · França · Estados Unidos · Rússia · Neocolonialismo
- Golpes militares na ÁfricaCinturão do Golpe (Coupe Belt) · Região do Sahel · Mali · Níger · Burkina Faso
- Jihadismo e grupos terroristas na ÁfricaAl-Qaeda · Jihadismo · Grupos terroristas · Bamako
- Mudanças climáticas e desertificação no SahelDesertificação · Mudanças climáticas · Agricultura
- Recursos minerais e exploração no SahelPetróleo · Urânio · Ouro · Acesso a recursos
- Impacto social e precariedade no SahelPopulação precária · Insurgência revolucionária · Neoimperialismo indireto
- História da ÁfricaGrupo Wagner · África Corp · Guerra da Ucrânia · Interesses russos
Salve, salve, querido ouvinte do Pande News, você que está aqui semanalmente com a gente, hoje é dia 6 de maio, estamos gravando no dia 6, você está ouvindo a partir do dia 7, e eu estou aqui na presença dele, o Onipresente, que hoje estava em Limeira, São Paulo, voltou para Limeira, está aqui.
E você já tem também a sua dose semanal desse jingle ficar na sua cabecinha. Isso. Hoje eu acertei o timing dele, outro episódio eu errei. E aí, gente? Boa noite, boa dia, boa tarde. Foi para São Paulo hoje. Fomos, fomos para São Paulo, né? Sempre... Congresso de Educação. Exatamente. Então tá bom. Se atualizando e é isso.
Então vamos lá, hoje nós vamos viajar um pouquinho mais para o leste do que a gente tem feito, certo? Oeste. Para o oeste? Oriente Médio, né? Não, a gente estava no Oriente Médio, agora vamos mais para o oeste. Não, oeste. Oeste. Oriente Médio, leste a gente vai para a Ásia ali, para a China. Então.
Então a gente vai para a África. Eu falei oeste. Você falou leste. Desculpa. Está gravado. Depois a gente vai ver então. Então está bom. Tudo bem. A gente vai andar para a esquerda. A gente vai andar para a esquerda. Para a esquerda. Nós vamos andar para o oeste. É isso. É.
Vamos dar para o Oeste, porque nós vamos fazer uma escala hoje na África e estamos até conversando de fazer talvez uma mini temporada de África. Até porque a Unicamp, o USP e o Nesp deixaram bem claro que a África é um assunto de interesse deles, vem aparecendo cada vez mais, então é importante que você esteja com esse continente dinâmico, maravilhoso, mais de 50 países compondo esse território todo, com muita história, muito recurso natural e muito...
Problema também, né? Muito problema. Muito problema. Tanto que no nosso briefing de episódio, você me contou que existe um lugar, uma região, quer dizer, da África, chamado Coupe Belt. Que significa o cinturão do golpe. Exatamente. Ou, como você já deve ter conhecido também, a região do Sahel africano. Região do Sahel, só para se localizar, a gente está falando desse ambiente de transição. E você já pode ter aí...
uma interconexão entre a geografia física e a geografia humana de um ambiente ecótono, que ele faz a transição das regiões mais áridas da África, o deserto do Saara, para as savanas mais ao sul, a floresta equatorial da região do Congo. Que palavra você usou? Como é que chama? Ecótono. O que é isso? É uma faixa de transição entre biomas. O Saara está mais ao norte. Perfeito. E as grandes florestas, savana tudo mais ao sul. Isso, exatamente.
Exatamente. Ali a gente tem essa região que tem alguns países...
Que desde 2020, de 2020 a 2023, foram nove golpes de Estado. 2026, né? Não, 23. 23? Até 23 foram nove golpes de Estado. Inclusive com alguns desses países, por exemplo, Mali e Burkina Faso, com dois golpes no mesmo ano. Foi de Burkina Faso aquela história da moça que estava gravando um vídeo e passou o pessoal dando golpe atrás? Exatamente. Exatamente isso. Um militar muito novo assume o poder do país, né?
Mas hoje a gente vai falar de Mali, que sofreu reviravoltas bem interessantes. Então me ajuda aí, geograficamente falando, a gente está no meio da África, um pouco mais para cima? Um pouquinho mais para cima. Sabe a região do chifre africano? Aquela pontinha que a gente estava falando da Somália, né? É justamente essa ponta traçando uma linha reta, né? Se a gente for pensar na África hoje...
A gente pode pensá-la como um triângulo. Aqui a gente tem o chifre do lado direito. E do lado esquerdo ela tem a cabecinha ali, né? Que sai um pouquinho para frente, que nem o Brasil praticamente, né? Então é essa faixa que separa essa pontinha dessa parte maior aqui para baixo. Do meio para cima. Isso. Tudo bem. Entendi já essa região. E você falou que é uma região de transição de biomas. Perfeito. E... E...
Tem alguma relação de estar nesse lugar por ter tanto golpe ou é só uma coincidência azarada? Não é uma coincidência azarada. Até porque essa faixa de transição dá para a gente um terreno muito bom para a exploração de alguns recursos. Até pensando no vestibular, a gente já pode pensar no primeiro impacto, e falando da região do Saio especificamente, puxando mudanças climáticas, essa interconexão de assuntos que os vestibulares gostam bastante no novo estilo de prova deles.
que é a região mais suscetível da África às mudanças climáticas, já que é uma região que está sofrendo um processo de desertificação, essa secura, essa perda de capacidade de gerar vida, essa perda de capacidade biológica. O lugar de primeiro impacto vai ser aí, é isso? Perfeito, exatamente. Um dos, né? Tá.
mas que dá abertura para outros desejos econômicos, principalmente em relação à exploração de alguns recursos minerais. Tem muito petróleo, urânio que a gente encontra também em países como Níger, Mali mesmo, que tem uma reserva de ouro gigantesca. E daí você tem a receita para o caos que a gente veio vendo nesses últimos dias em Mali especificamente.
Você tem potências estrangeiras intervindo, principalmente ocidentais, até esses golpes. E daí a gente já pode puxar um prato cheio, tanto para a FUVEST como para a Unicamp.
Enquanto a Unesp vai estar mais focada ali no aspecto físico, nessa internecção entre a geografia física e humana, mas para a FUVEST e para a Unicamp eles adoram olhar para o passado, para as questões sociais, então a gente pode pensar de um neocolonialismo. Porque o que motivou esses golpes? Foi justamente uma insatisfação de como essas reservas não estavam atendendo a população ou o país.
mas estava atendendo a potências estrangeiras, principalmente França e Estados Unidos. Esses países da região do Sahel foram ex-colônias francesas. Então contavam com forças militares francesas e americanas, indústrias explorando esses recursos, e o golpe vem com esse sinal de desocidentalização. Não queremos mais o Ocidente, a gente toca daqui pra frente, inclusive a luta contra grupos terroristas, que é o grande problema deles hoje.
E olhando para o Oriente, principalmente para a Rússia, com uma ajuda ali na composição das forças perdidas pelos Estados Unidos e França. Então deixa eu tentar entender. Você está me dizendo que... Vamos olhar para Mali, só para ter um foco, para a gente não se perder. Então em Mali, que pode se replicar para outros lugares também, você tinha um tipo de governo que estava muito vinculado...
Há forças externas à África, então em grandes potências, é isso? Ocidentais principalmente, perfeito, exatamente isso. E aí, quem que deu o golpe? Quem tomou o poder? Os militares desses países. Militares locais. Exato. Militares locais que são menos, são independentes dessas forças ocidentais. Sim, sim, exato.
E quem governava? Como funcionava em Mali? Era um presidente, mas esse presidente tinha muita associação com os Estados Unidos, por exemplo? Exatamente isso. Mas era uma democracia?
Entre muitas aspas, né? A gente pode pensar no quesito democracia e na sua definição mais básica. Não sei se a gente pode olhar para um país e falar, nossa, que país democrático. Então não foi o povo que claramente colocou... Como que chamava o cara? Você tem essa... É porque não é um nome muito voltado no nosso vocabulário. Esse cara, então, foi eleito de alguma forma, mas não diretamente pelo povo, não uma coisa... Não, foi diretamente pelo povo.
mas gera uma insatisfação. E a gente sabe que nenhum governo se sustenta sem apoio popular. Tanto é que essa insatisfação chegou a tal ponto da população apoiar um golpe pelos militares.
E vem com um grande apelo popular porque esse golpe vem com um aspecto nacionalista. As reservas são nossas, nós administramos, vamos atender o nosso país, a nossa população, mas a saída dessas potências dá abertura para a entrada de grupos terroristas, que é o principal problema deles hoje. Principalmente de uma vertente jihadista.
Jihadista mais ligados ao Oriente Médio, então, aos muçulmanos ali. Perfeito, porque até é interessante você falar do Oriente Médio, porque a gente tem uma dupla definição do que seria o Oriente Médio. Quando a gente pensa geograficamente, o Oriente Médio, a gente está falando dessa intersecção entre o continente africano, europeu e asiático.
Então a gente está falando ali dos países do Irã, Emirados Árabes, Kuwait e por aí vai. Mas do aspecto cultural, principalmente religioso, ela se estende para o norte da África até essa região do Sahel. Porque tem bastante muçulmano ali também. Perfeito, perfeito. E isso a gente chama até da região do Maghreb, que a gente está falando desses aspectos mais voltados para o islamismo mesmo. E o jihadismo é essa vertente mais radical ainda.
do islamismo que, na definição da palavra, do termo jihadismo, é o uso da força para prevaler as leis islâmicas. E eles não se poupam, eles estão ligados com grupos, por exemplo, como a Al-Qaeda. É um vínculo que eles têm. E eles precisam mover as suas ações, armamentos, munição... Eles quem? Os terroristas ou militar? Os terroristas, através de formas ilegais. E uma dessas formas é justamente a extração desses minérios.
Então a receita que a gente tem até agora é uma força militar que tira militares e empresas ocidentais para administrar o país e seus recursos, que agora tem que lutar para essa administração ao mesmo tempo que lutar contra grupos terroristas que adentraram nesse vácuo, digamos assim, de poder.
para se apropriar dessas minas, para gerar recursos e moverem as suas ações terroristas fora e dentro da África. Mas é óbvio que eles contam com ajuda, principalmente de uma ajuda russa, hoje, principalmente pelo grupo Wagner. Espera aí, posso perguntar? Pode, lógico. Você falou óbvio, por que óbvio? Você falou óbvio que eles contam com uma ajuda russa.
Óbvio que quem conta? O Mali, né? Os militares que estão no poderoso. Então vamos lá. Saiu um governo mais ligado ao Ocidente, entre os militares e os russos estão com essa galera. Exato. Só que tem uma força terrorista dos jihadis pressionando também. Perfeito. Tá tranquilo. Tá tranquilo. Fácil. E os russos entram e você deve lembrar, e aqui a gente já pode fazer uma ponte, inclusive com a guerra da Ucrânia.
Do grupo Wagner, não sei se você vai lembrar disso. Que teve um assassinato, não lembro disso. Isso, porque a gente está falando de um grupo, de uma forma muito simplificada, de um grupo de forças especiais do exército russo, mas de capital privado, teoricamente. Então eles agem na África, hoje inclusive fundando a África Corp, porque eles atuam no território ou forçando treinamento para essas forças militares, munição e armamento, ou às vezes até participando de algumas incursões militares.
Mas não de graça. E o que a Rússia cobra, junto com a ajuda chinesa também, que vem atuando com algumas empresas em diversos países da África, parte da expansão do Santurão e da rota, dessa nova rota da seda da China, é justamente o acesso a esses recursos. Petróleo, gás. Tem um pedágio. É um pedágio. Eu te ajudo, mas eu coço suas costas, você coça a minha, aquela coisa toda. Então o que o impacto... A gente está olhando para o país, mas olha para a situação da população.
Então a gente está falando de uma população extremamente precária. Parece aquele meme, né? Tava ruim, agora tá melhor, agora parece que tá pior. Porque a gente está falando de uma população em uma situação extremamente precária que vive basicamente de uma agricultura. Lembra do começo do episódio. Uma região que está passando por um processo de desertificação. Ou seja, essa prática agrícola... Está com os dias contados. Está com os dias contados. Os recursos que mesmo com a retirada dessas potências estrangeiras, ocidentais,
não são o suficiente e não estão atendendo diretamente a população. Até porque o governo hoje está mais preocupado em combater tanto alguma insurgência revolucionária contra um golpe militar, porque existe prós e contras ali dentro da própria população, como também...
usando de recursos para combater esses terroristas. Porque é louco, né? O discurso, então, do golpe foi vamos tirar essa galera porque esses recursos são nossos. Exato. Mas não está ficando para a população, que é agrícola e está perdendo também esse espaço. Perfeito. Envolvendo mudança climática, nacionalismo, um neocolonialismo, e a gente pode pensar até agora de uma forma de neoimperialismo indireto.
Com uma ajuda estrangeira vinda da Rússia para combater esses terroristas, mas cobrando esse pedaginho de próprio acesso a esses recursos para atender interesses próprios da Rússia, não de Mali ou de outro país africano. Tem um contexto bem complexo aí, mas tem um subcontexto, pensando nos alunos, que a gente tem hoje essa força do privado em grandes movimentos mundiais. Que até é uma coisa que a gente mencionou no episódio anterior, que é o enfraquecimento das instituições. Tchau, tchau.
amplas. Isso, só para contextualizar, aquela história do Elon Musk junto com o Trump no governo norte-americano, né? Exato. As oligarquias, né? Que são essas pessoas do poder privado indo junto com o Estado. Perfeito. Isso cai? Perfeitamente. Principalmente o USP Unicamp. Principalmente o USP Unicamp. É o perfil da prova. Tá vendo, gente? Qualquer coisa o Varela já pode entrar na audiografia aí. Não, tô pronto. Tô pronto a substituição. Se faltar, eu tô pronto. Exato. Deu uma dor de barriga aí.
Faça isso. Vamos ter um varela aí na audiografia. Eu estou impressionado. Tá. Que legal. Então tá bom. Tem um contexto legal. E a meta dos nossos episódios é sempre aquela história do disparador. É só um gatilho. É a manchete. Não estamos dando a manchete. Um panorama geral. Mas é isso que a gente vem batendo na tecla. E que é importante que vocês comecem a praticar lendo as notícias. O que a gente pode relacionar?
O que é essa teia? Porque a geopolítica é, ao mesmo tempo, muito fascinante porque nunca é um fato isolado. Ela está sempre se espalhando. E pode ser um motivo muito bobo, às vezes, que leva uma instabilidade do governo. Por exemplo, uma curiosidade. Vai pesquisar. Tem uma região na Itália que está sofrendo muito por causa da proliferação de pavões. Você tem ideia? Meu papai! Pois é. Mas a gente vai ficar na África, porque a África é certeza de cair no vestibular para você.
Vamos falar mais dela no próximo episódio? Sem sombra de dúvidas. Então vamos lá.
Legenda Adriana Zanotto