Conversa com Nutricionista - Marina Cavalin @guriadainsulina
Neste episódio converso com a Marina Cavalin, que está presente no instagram como @guriadainsulina, tem diagnóstido de diabetes tipo I desde os 10 anos de idade e tem hábito de praticar atividade física de alta intensidade. Conversamos sobre diagnóstico, dia-a-dia, cuidados, importancia do acompanhamento especializado continuado.
- O diagnóstico de diabetes tipo 1 na infância e a importância de reconhecer os sintomasdiabetes tipo 1·perda de peso·sede excessiva·urinar muito·glicosúria
- A escolha pela nutrição e a comunicação sobre diabetes no Instagramnutrição·Guria da Insulina·comunicação·pandemia
- A prática de atividade física de alta intensidade e o controle glicêmicocontrole glicêmico·exercício físico·hipoglicemia·triatlo
- A importância da autonomia e do apoio familiar no manejo do diabetesautonomia·apoio familiar·superproteção
- A importância da atividade física para a saúde geral e mentalsaúde mental·prevenção de doenças·bem-estar·saúde musculoesquelética
- Tecnologias no tratamento do diabetes e o desafio do acessosensor de glicose·bomba de insulina·acesso a tratamento·cetoacidose
O controle glicêmico melhora muito quando a gente pratica algum tipo de exercício físico, mas também bagunça muito dependendo do nível. Exatamente. E o meu pai, ele corre desde quando eu me conheço por gente, assim. Eu tenho muito essa memória de crescer vendo meu pai sair pra correr, assim, 4 vezes na semana e tal. E eu sempre achei aquilo sensacional, que a pessoa com diabetes não pode comer doce. É, eu acho que é esse estigma, sabe, do diabetes.
E é isso, daí a pessoa Ela fica até sem saber como lidar com a situação. Porque ela fala, pô, mas eu tô sendo mal educada em oferecer? Ou eu tô sendo mal educada por não oferecer? Ou eu tô sendo mal educada por falar ou por não falar? Tipo, né, zero maldade. Você enxerga que não tem maldade, mas a pessoa fica perdida. Então assim, né, eu acho que um recado que pode ficar assim, pode oferecer, pode tratar normal. Ela vai administrar, né.
Não precisa ficar esperando a pessoa colocar a bala na boca. Talvez ela pegue a bala e guarde no bolso. Olá a todos. Esse é o Pupimcast, um podcast para falar de saúde em temas específicos, com profundidade, com calma, com quem realmente entende do assunto. Hoje a nossa convidada é a Marina Cavalim. Ela é nutricionista, graduada pela USP, tem uma prática clínica voltada bastante para pacientes com diabetes, é uma pessoa com diabetes tipo 1, faz parte do corpo clínico do Centro de Diabetes de Curitiba e Faz bastante sucesso no Instagram como a guria da insulina, né?
Então até existe uma chance de vocês já conhecerem. Se não conhecerem, olha, é bem interessante e mostra muito para as pessoas sobre a prática de atividades físicas com diabetes também, né? Além de bastante questão de tecnologia no diabetes. Então a gente tá aqui hoje, né? Obrigada primeiro, né, por ter aceitado o convite, por estar aqui.
Obrigada pelo convite, é realmente muito, muito legal estar aqui e poder falar um pouquinho mais sobre condição.
Ai, que coisa boa! Então, né, fala pra gente assim, de repente, se você quiser começar lá no começo, como que foi o teu diagnóstico, como que, né?
Tá bom. Então acho que a primeira questão que a gente precisa diferenciar e explicar é a questão do diagnóstico do diabetes tipo 1, né? Então hoje eu acredito que na realidade o diabetes tipo 1 e o diabetes tipo 2 deveriam ter nomes diferentes, porque é tão diferente, né, o manejo, enfim, o diagnóstico, o tratamento, conto tudo, mas eu fui diagnosticada com 10 anos. E o diabetes tipo 1, né, às vezes para quem não sabe, é uma condição completamente diferente do diabetes tipo 2, que muitas vezes tem relação com hábitos de vida, esse tipo de coisa.
Óbvio que tem fator genético envolvido, mas o diabetes tipo 1 é uma condição autoimune. Então hoje não há nada que nós pudéssemos fazer para evitar, né, esse diagnóstico. Mas eu fui diagnosticada com 10 anos, e é bacana contar sobre o diagnóstico, porque muitas vezes os pais ou responsáveis de crianças que são diagnosticados com diabetes tipo 1 não têm noção de quais são os sinais e sintomas, né, dessa condição. Então, na época, eu perdi muito peso, né, de uma forma muito rápida, assim, acho que em 2 meses eu perdi mais de 8 kg, assim.
Que pra uma criança de 10 anos é muito, né?
Muito, exatamente. E é estranho, né? Você continua com os mesmos hábitos alimentares, mesma rotina, e começa a perder muito peso. E aí comecei com aqueles 4 perder peso, que a gente fala, né, dos sintomas do diabetes tipo 1. Comecei a sentir muita sede, beber muita água e não saciava, e urinar muito também. E aí assim, todos à minha volta, à volta da minha mãe e tal, falavam que é muito normal porque era aquele estirão da criança indo para puberdade. E enfim, mas eu não tava no estirão, eu tava só perdendo peso, né?
Então de certa forma as pessoas acalmavam a tua mãe ao invés de de repente acender ali, né, uma luzinha vermelha e falar: Exato, leva para ver o que tá acontecendo, que isso não é normal. Sim, claro, a gente sabe que ninguém fez isso por mal, obviamente, né? Mas, né, eu acho realmente que isso é muito importante, né?
Porque até hoje ela, quando ela se recorda desse momento, ela fala muito disso. Nós todos achavam que eu era super neurótica porque eu tava muito preocupada, né, com o que tava acontecendo. E todo mundo falava, não, tranquilo, normal. E aí é uma questão que foi muito curiosa, é que começou na época, eu morava em São Paulo, né? E a gente morava, isso me marcou assim na minha infância, a gente morava no 14º andar e não costuma ter muito inseto no apartamento, né, enfim.
E aí começaram a aparecer muitas formigas ao redor do vaso sanitário, né. Então eu tava com uma glicosúria tremenda, né, assim, eliminando muita glicose pela urina. E aí ela foi pesquisar no Google o que era, o que poderia ser aparecer tantas formigas no vaso. E aí Ela viu dessa possibilidade de ter, né, de ser um diagnóstico de diabetes tipo 1, falou com minha pediatra, eu fiz todos os exames. E aí queriam internar, ficou naquele interno, interna.
Só que a gente conseguiu logo uma consulta com endocrinologista e acompanhar, né, já pra começar a me acompanhar e começar o tratamento de fato com insulina. Então assim, foi muito rápido. Acho que foi muito bom eles conseguirem evitar o trauma de ir pro hospital, né, enfim, ficar internado por conta por conta disso. Mas de fato foi um susto, e acho que para todo mundo que não tem contato com diabetes tipo 1 é um susto, né? Não tem ninguém na minha família que tem.
É porque você acaba entrando no mundo desconhecido, né?
Exato.
Porque é uma condição, né? É uma forma de existir, é uma forma de viver que acaba tendo que ter uma série de adaptações, né? Você tá aí mostrando para todo mundo que uma vida completamente plena. Sim, é totalmente possível. Mas sim, não é uma vida com ajustes, né? Não adianta você fingir que não tem nada acontecendo. Pelo contrário, você tem que tomar uma série de medidas para realmente conseguir ter um ritmo muito próximo de pessoas que não têm diabetes.
Exatamente. Então, e é bem isso, porque até quando a gente pensa, não, é, a Marina mostra, já ouvi muito isso, a Marina mostra que dá para ter uma vida normal igual uma pessoa sem diabetes. Não, assim, eu nunca fiz isso.
Não, na verdade Você mostra muito o que, tudo que você precisa fazer.
Tudo que você precisa fazer pra minimamente viver bem com diabetes, assim. Não dá pra romantizar a condição, né?
Não, mas eu acho que é muito incrível isso, né? Porque assim, que nem você falou, foi impactante.
Sim.
Eu acho que toda vez que a gente recebe diagnósticos são impactantes. Sim. Independente, né, se é uma coisa que vai ter resolução, se é uma coisa que não vai ter resolução, enfim, a gente Eu particularmente sempre brinco, eu vou no médico para eu ver que tá tudo bem. Eu quero fazer exame para eu ver tudo bom.
Exatamente.
Eu não quero achar nada.
Exatamente. A gente só quer ouvir isso, sair de lá igual a gente entrou.
Ah, beleza, tem que ir no ginecologista uma vez por ano, mas eu tô pronta para ouvir que tá tudo certo, não quero ouvir outra coisa. Então assim, a gente, né, acho que sempre é um impacto. Daí o diabetes, infelizmente, né, ou felizmente, daí enfim, né, a cultura ao redor ela já existe assim de, nossa, Tudo é diferente. Ah, você não vai mais poder comer bolo.
Exato.
Tipo, tá, né? Isso é outra coisa, né, que a gente também tem que comentar que não é bem assim, né?
Exato, exatamente.
Mas antes até queria comentar que eu tenho uma amiga que ela tem diabetes tipo 1 e aí ela já sabe, já tá adaptada, enfim, faz todo, né, toma todas essas providências e aí ela tem um filho e aí o filho dela começou a urinar mais. E aí ela, mas daí foi realmente muito rápido, porque isso já é a vida dela, né?
Exatamente, já acende uma luzinha.
E aí o que aconteceu? Ela já tinha um glicosímetro em casa, né? Daí mediu, já veio alto, ela fez o diagnóstico, né? Isso sem ser da área da saúde, né? E aí no dia seguinte já começou, né, a tomar as providências assim, mas então assim, é bom, né, que a gente falar um pouco sobre isso para realmente eventualmente atentar, né, as pessoas para que assim, ah, né, Você tem uma criança, você mudou, tem alguma coisa, vale a pena olhar para isso.
Porque imagina, né? Ela fez em última instância o diagnóstico pelo Google por causa das formigas de você.
Exatamente! E é bem isso. Quando a gente tá falando de pais assim que não são da área da saúde, é outra questão, né? A gente não tem noção nenhuma, enfim. Então...
Mas não é tão incomum os pais da área da saúde também não enxergarem certos sinais.
É, né? Não é tão incomum.
Porque você entra numa outra espiral, parece assim, às vezes parece que tá em outro modo de raciocínio. Então sempre é válido, né, a gente reforçar que vale a pena estar atento. Assim, ninguém vai ficar buscando coisa que não existe, mas assim, ah, tem alguma coisa meio diferente, pensar nisso. E assim, né, a partir do momento que tem o diagnóstico, então tá bom.
Sim.
Vamos lá, né?
Exato, exatamente. Eu acho que essa é a parte que realmente foi divisora pra mim, assim. Porque a partir do meu diagnóstico, ainda que tenha sido muito difícil, e é muito difícil, né? Num dia você tá vivendo normalmente, no outro você tem que tomar uma injeção pra tudo que você quer comer. E às vezes, né, não vai conseguir comer, ou enfim, vai ter que lidar com sintomas da hipoglicemia, hiper, enfim. Mas os meus pais, eles sempre deixaram muito claro essa questão de que o diabetes nunca ia ser uma muleta.
Não é o melhor termo, né? Mas assim, nunca seria uma muleta na minha vida. Então ele nunca iria definir, definir e fazer com que você tem que fazer. Exato, fazer com que ele me impedisse, né, de viver qualquer um dos meus sonhos assim. E eu acho que isso fez completa diferença, porque a gente acaba vendo muito, né, os cuidadores às vezes sofrendo pelo diagnóstico, às vezes mais do que a própria pessoa, a própria criança, o próprio adolescente.
E aquele, aquela super proteção, né, medo de deixar a pessoa viver ou de dar autonomia no tratamento. Eu acho que essa é uma etapa muito importante para a gente conseguir desenvolver independência, né?
Porque a infância ela é uma fase de amadurecimento por si só, né? É assim, não só a infância, mas é que a infância é muito intenso, né? Que nem com 10 anos você tava começando a fazer algumas coisas por conta, né? Às vezes ir sozinha em locais protegidos, ficar com pessoas já conhecidas sem os pais, né? São pequenos saltos, né? E daí isso, mas isso é normal. Só que daí de repente, né? Mas eu Eu concordo assim que é importante também que quem tá ao redor não aumente esse peso, né?
Sim, exatamente. E eu acho que na verdade deve ser muito difícil também, né, para quem tá ao redor ver a pessoa ali passando por aquilo, porque às vezes é um reflexo, né, você proteger demais.
Ainda mais quando é filho, né? Porque você como nutricionista deve ver até mais, né? Mas eu tenho paciente que fala, ai, eu cuido, mas aí meus filhos querem me agradar, levam um bolo, Levam um pastel. Aí, como é que a gente vai fazer um café da tarde na minha casa e eu não vou comer o que eles levaram? Vou fazer uma desfeita. Sim, exato.
A comida, ela tem muito esse papel assim afetivo, né? Então acaba sendo mais uma dificuldade.
Então às vezes é das pessoas também, né, todo mundo pensar um pouquinho nisso, né? E às vezes chegar para pessoa e falar: fique tranquilo.
Sim, né?
Exato. Fique tranquilo. Ou vamos levar uma coisa que todo mundo pode comer, ou vamos fazer outra coisa para se Enfim, né?
Exato. E eu lembro que assim, foi bem nessa época de começar a ter festinha do pijama, começar a ter, né, enfim, festas assim mais de adolescentes assim. E a minha mãe, ela sempre às vezes ligava para mãe da amiguinha que ia receber, né, enfim, ou algo do tipo. Mas ela nunca deixou de deixar eu ir, sabe?
Vamos fazer todos os cuidados, mas vai.
Então assim, não, vai dormir na casa da amiga, vai fazer isso, tal. Com os cuidados, mas vai. E aí assim, foi legal, eu lembro muito disso, que eu ia, sei lá, aplicar insulina, fazer contagem de carboidrato, e todo mundo vinha ao meu redor assim pra ver o que que eu tava fazendo. E querendo ou não, era uma forma de educação indireta de pessoas que também nunca tiveram contato com diabetes, né? Então hoje eu olho pra trás e vejo também que tudo isso foi importante assim, né?
E como que foi tua escolha assim por fazer nutrição?
Então, na verdade, eu queria fazer jornalismo. Sempre foi algo que eu pensava em fazer. Mas eu, durante a minha adolescência, eu tive um período muito rebelde com o diabetes, assim. E realmente queria só viver ele ali e deixar ele num quadradinho da minha vida e ponto, assim. Não queria que ele me representasse muito. Tanto é que durante a minha adolescência, quando eu usava já bomba de insulina, saía com algumas amigas e tirava a bomba de insulina pra não me sentir diferente.
Eu tive esse período de revolta, assim. E não me cuidava muito. Sempre mantive um controle glicêmico ali ok, né. Mas não me identificava muito com o diabetes. Ou falar, né, sobre ele, eu tinha muita vergonha, enfim. E aí, no meu terceiro ano do ensino médio Eu estava estudando muito, enfim. E aí, eu não sei, eu tive uma virada de chave de querer começar a me cuidar mais. E aí, eu comecei a melhorar a minha alimentação em questão de composição mesmo do meu dia a dia, da minha alimentação no geral.
E isso começou a refletir muito na minha glicemia, assim, de uma forma bizarra, que eu nunca imaginei que fosse refletir tanto, sabe? Porque às vezes a gente fica muito preso na questão de, ah, é a dose de insulina que importa, é isso, aquilo. Mas a gente não para pra pensar pensar nas outras questões também, né, alimentares, enfim. E enfim, comecei a melhorar muito essa qualidade alimentar. E aí eu comecei a cogitar nutrição assim.
E na época eu fazia balé, e a minha professora de balé ela era nutricionista também. E aí a gente começou a conversar sobre isso tal, e assim mudou completamente, sabe, a minha ideia e o que eu queria. E eu entrei na faculdade falando que eu nunca trabalharia em clínica. Tipo assim, não quero trabalhar em consultório, quero arranjar alguma outra coisa pra fazer.
É, que na verdade é um campo bem amplo mesmo, né?
Exato, né? Tem várias áreas. E só que daí, a partir do segundo ano da graduação, eu entrei pra liga de diabetes que tinha lá no Hospital das Clínicas e Foi assim, eu me identifiquei demais, porque realmente esse componente de você estar falando algo que você vive acaba fazendo com que as pessoas às vezes queiram se cuidar mais, né? Então às vezes eu pensava, nossa, eu posso influenciar tantas pessoas com o diabetes, né, mostrando que é possível ter uma qualidade de vida boa com o diabetes, por que que eu vou para outra área, sabe?
Assim, óbvio, né, tem muitas áreas, a nutrição, tudo mais. Só que daí eu falei, eu acho é isso assim, sabe? E eu sempre levei isso meio que como uma missão minha assim, sabe? Acabou ultrapassando o campo profissional e foi realmente como uma vocação assim, sabe? Então acho que foi basicamente isso. E óbvio, né, eu não deixei de aproveitar as outras áreas da faculdade, estágios e tudo mais, só que o diabetes sempre acabava aparecendo de alguma forma, sabe?
Daí sempre tinha uma pessoa que falava, ah, nossa, tem a Marina que tem diabetes, calma que ela vai conversar com você. Então eu acabava, né, voltando para isso. E aí, e aí foi isso, foi basicamente assim.
E você se considera feliz na tua escolha?
Sim, muito, muito feliz assim.
Não conseguiu fugir do jornalismo porque você tá lá comunicando.
Exatamente, foi bem isso. E depois de muitos anos eu parei para pensar, falei, nossa, é verdade, né? Talvez no Instagram eu ainda estou fazendo de uma forma diferente, mas comunicando, né?
Não, com certeza, né? Porque eu acredito, né, a gente tá aqui hoje porque eu acredito no poder da comunicação, assim, o quanto isso pode modificar vidas. Porque aqui a gente tá conversando, a gente não sabe exatamente em quem vai chegar. Enquanto uma conversa como essa às vezes pode ser a virada de chave de alguém, ou às vezes um estímulo, ou às vezes, ah, poxa vida, meu filho aqui, será que— então, nossa, se isso mudar uma vida, exato, já valeu tanto.
Exatamente. Nossa, eu acredito muito nisso, meu Deus. E acho que foi o principal também motivo para eu iniciar o Guria da Insulina assim, né, que foi na pandemia. E eu comecei a, quando eu tava já cuidando, né, da minha alimentação, tudo mais, eu estava já na graduação, eu falei, cara, eu preciso comunicar de alguma forma tudo que eu vivo, exato, sobre o diabetes. E aí a primeira coisa que aconteceu foi eu criei a o Guria da Insulina, e muitos amigos meus começaram a me seguir e falar, eu não tinha noção assim de 1% do que você vive todos os dias, né?
Pessoas próximas convivendo com você. Mas é aquilo, né? Você não vai ficar falando para o seu amigo finalmente no seu momento de descanso sobre o cálculo de carboidratos, sobre o novo sensor. Tipo, claro que você comenta uma coisa ou outra quando faz parte da tua rotina, né? Não é, né? Mas nem chato é de forma alguma assim, mas é que Às vezes você só quer finalmente pensar em outra coisa.
Não, total, é exatamente isso. E aí eu vi que realmente as pessoas não têm conhecimento nenhum, né, sobre isso. Até semana passada uma guria me falou, cara, eu não tinha ideia nenhuma do que era diabetes tipo 1, e hoje quando alguém fala diabetes, a primeira pessoa que vem na minha cabeça é você. E eu falei, que bom, porque, né, às vezes a pessoa pode falar, olha, segue ela lá e veja, enfim, né. É, então é bem isso que você falou, a gente não tem noção nenhuma da pessoa que tá do outro lado da tela e como isso pode chegar para ela, né?
Realmente eu acredito que às vezes é uma mãe que vai ver e falar, nossa, meu filho tá tendo esse tipo de sintoma, né? Enfim, ou N outras possibilidades.
E eu queria que você falasse um pouco para nós da tua prática de atividade física, como que tem sido isso, né, de você ter o diabetes e de repente você tá num nível de atividade muito maior que a média, enfim, né?
É, então assim, acho que o controle glicêmico, começando pelo básico, né, o controle glicêmico melhora muito quando a gente pratica algum tipo de exercício físico, mas também bagunça muito dependendo do nível. Exatamente. E o meu pai, ele corre desde quando eu me conheço por gente, assim, eu tenho muito essa memória de crescer vendo meu pai sair pra correr assim 4 vezes na semana e tal. E eu sempre achei aquilo sensacional. Mas enfim, nunca, né, não corria junto, tudo mais.
E eu fazia o balé na época, fiz balé por muitos anos. Só que a minha glicemia não eram grandes emoções que eu vivia com a glicemia no balé assim, ela se mantinha um pouco mais estável. E aí, há alguns anos, eu inspirada, né, principalmente pelo meu pai, comecei a correr também. E vi que realmente o controle glicêmico melhorava muito, mas a gente sempre luta com as hipoglicemias, que é o que mais acontece, né, quando a gente tá praticando algum exercício físico, quando não tem muito conhecimento em relação ao que a insulina, né, ativa ali quando ela já tá no nosso corpo, é capaz de fazer num exercício. E só que eu decidi que eu ia levar isso a sério assim.
Então, já que eu vou fazer, vou fazer bem feito.
É, exatamente. E aí, eu comecei a estudar mais sobre o efeito da glicemia, né, no exercício físico. E comecei a perceber que se fosse tudo bem combinadinho e calculadinho, eu conseguiria fazer como uma pessoa normal, né. Então assim, eu consigo fazer um treino tranquilamente se eu acordo de manhã, minha glicemia tá boa, eu faço exatamente o que já é combinado pra fazer e consigo sair pra treinar. E aí, eu vi que eram momentos que eu esquecia muito do diabetes também, né.
Então, acho que esse é um dos motivos, assim, de eu conseguir não focar tanto nele, saber que eu tô fazendo algo que vai refletir pelas próximas 24, 48 horas. E aí, eu comecei a tomar gosto de uma forma, assim, fora do normal. E daí fui indo, né, nas minhas primeiras provas, esse tipo de coisa e tal. E comecei a nadar no ano passado. E aí vi que era também um exercício que eu conseguia esquecer mais ainda do diabetes.
Então, assim...
Né, normalmente a gente tem um pouco de estabilidade glicêmica maior assim durante a natação também. E já que eu tava nadando também, eu falei, por que não pedalar?
Sim, tipo, triatlon tá aí, né? Triatlon tá aí pra gente.
É, exatamente. E aí, enfim, né, encontrei uma assessoria que me acolhe muito bem também, entende a questão do diabetes, enfim. E falei, ok, então eu preciso mostrar isso pro mundo. Porque assim, se já é difícil, né, treinar e conseguir combinar isso na nossa rotina trabalhando, atendendo, enfim, é, com diabetes é mil vezes pior, né? Então acho que é basicamente isso assim. A gente consegue ver a melhora no controle glicêmico, é, para de se estressar às vezes tanto com a glicemia também, porque obviamente é a quantidade de insulina que eu uso diminuiu muito, é tudo assim, né, melhora muito.
E acho que a gente estimula também pessoas a lembrarem que o exercício físico é parte do tratamento, né, é um dos pilares do tratamento. Então, na verdade, assim, atividade física é parte de uma vida saudável, independente de ter uma condição de saúde ou não, né?
Quem já consultou comigo provavelmente já ouviu a frase: sim, você tem que fazer atividade física porque você é uma pessoa, ponto. Assim, né, você tem que tomar água, você tem que comer, você tem que dormir e tem que fazer atividade física porque faz parte da saúde.
As pessoas têm dificuldade de entender isso, né?
É porque pensa que é um a mais, né? Às vezes as pessoas até concordam acordam ali na hora, mas não é aquela coisa assim totalmente digerida assim que tá, né, ali dentro no âmago da pessoa que fala: não, realmente eu preciso fazer atividade física. Não, é se der, ah, se eu achar alguma coisa que eu gosto, ah, né. Então assim, não é negociável na verdade quando a gente pensa em saúde, né.
Exatamente.
Isso assim, prevenção, acho que vale a pena a gente falar assim, né, já que a gente tá no tema assim, tá comprovado, prevenir doença mental, né, que é uma coisa que tem assolado as pessoas atualmente, infelizmente, de forma assim, né, muita gente, muito, de forma muito intensa, né. A gente tá vivendo, a gente olha muito para as telas, olha muito para a questão das redes sociais, mas a gente tem que lembrar que atividade física ela é, né, comprovadamente um fator importante para manutenção da saúde mental.
E daí a gente entra, né, na seara, né, de socialização, dos estímulos bioquímicos, né, uma série de coisas, regulação hormonal, tipo assim, é melhora do sono, tudo, tudo, né? Porque a verdade é que uma coisa tá totalmente ligada na outra, né? Você vai dormir melhor, você vai comer melhor, você vai tomar água, seu intestino vai funcionar melhor. Assim, a gente é um todo, né? Então saúde mental previne câncer, previne doença metabólica, né, hipercolesterolemia, o próprio diabetes daí tipo 2, né?
E daí também acho que vale a pena a gente falar um pouquinho, né, que tem que ser falou bastante assim, nossa, é totalmente diferente. Mas acho que a gente pode explicar um pouco dessa diferença também. Mas então, ó, previne diabetes tipo 2. Assim, é, fora a sensação de bem-estar, que assim quase todo mundo, né, que eu atendo fala, comecei a fazer, tô me sentindo melhor. A própria saúde musculoesquelética, que daí tá diretamente relacionado com a minha prática clínica assim, de às vezes vem lá, ai, tô com dor nas costas, dor no joelho e dor no pé. Ai, faz atividade física?
Não.
Há quanto tempo? Tenho 40 anos. Há 40 anos? Sim. Poxa vida, né? Então assim, é um corpo que não tem nada ali para, né, não tem uma memória muscular, não tem. Então assim, pô, tem que começar.
Não, total. E às vezes a gente vê pessoas também, né, com mais de 40 anos que nunca fizeram nada, começam a fazer e se apaixonam de vez.
Por quê? Mas é porque é bem-estar, é saúde.
Nunca experimentaram isso.
O quanto você se sente bem, Sim, né? Eu também fiz balé.
Ai, que legal!
Eu sou formada em balé clássico.
Ai, que demais!
Pois é, né? É totalmente estranho, né? Uma pessoa que faz ortopedia, assim, né? Mas sim, sim. Muito legal. É, e é interessante porque acaba que, né, como em outras atividades, te dá uma base, assim, né? Para várias outras atividades físicas. E a verdade é que eu nunca consegui ficar sem atividade física. E eu sou uma pessoa que, né, acabei infelizmente tendo estímulo na infância. E enfim, do meu, da minha energia também, eu gosto, adoro, sempre dei um jeito de fazer.
É bem isso. Nossa, meu Deus, porque a gente fica, parece que fica mais cansado quando não faz do que quando faz, né?
Eu fico totalmente mais cansada quando eu não faço, assim, é meio paradoxal na cabeça de quem não vive, mas é exatamente, exatamente. Mas para mim é totalmente isso, eu tenho mais energia quando eu mantenho a minha prática regular.
E é um estilo de vida, né? Eu penso assim, ah não, eu consigo fazer fazer isso hoje porque eu não tenho filhos, por exemplo. Enfim, mas assim, a gente dá um jeito, não é uma coisa que a gente vai abrir mão, né?
Olha, eu corri até os 6 meses da minha primeira gestação.
Isso é sensacional!
As pessoas ficavam chocadas.
Meu Deus, não, essa é a minha meta, literalmente.
Eu sei que tem gente que consegue correr até o final da gestação, mas assim, né, para mim não foi possível. Mas eu não fiquei parada, eu fazia. Inclusive fiz toda uma uma adaptação, né? Tive uma educadora física que foi incrível nesse período, que fez um monte de estímulos. Então assim, foi muito bom para mim. E no pós-parto também nunca parei ali. A gente, ela também foi incrível. A gente fazia os exercícios com o bebê junto. O bebê era o halter.
Total, que legal!
Então assim, para mim faz parte sim de quem eu E é engraçado, né? Às vezes eu tô assim, né, muito agitada, meio nervosa, e hoje em dia até meu marido às vezes fala, vai dar uma corridinha. Tipo assim, para o bem de todos.
Exatamente. Nossa, não, muito legal, muito legal.
E é isso, né? Então a gente que vive isso, a gente tem muita, né, paz de espírito para falar assim, meu Deus, eu quero muito isso para todo mundo.
Exatamente, exato, exato. Não tem muito o que fazer. E assim, é muito legal porque a gente começa literalmente a influenciar as pessoas à nossa volta, né? O meu noivo também não fazia nada. Depois que ele fez a primeira prova de corrida dele, ele falou, cara, é isso que eu quero para mim, sabe? E aí você vai se desafiando. E tem muita gente que fala, ah, mas que besteira, para quê pagar para correr na rua às vezes, de fazer prova, esse tipo de coisa? Mas, gente, a gente paga para fazer tanta coisa besta, sabe?
Aí que tá, mas é besteira assim, daí vamos ver então onde que tá indo o dinheiro dessa pessoa assim, porque Tudo eventualmente é questionável, assim, a forma como você faz, as prioridades que você dá.
Exato.
Que nem eu tenho o hábito de correr.
Sim.
Eu não tenho o hábito de fazer corridas. Ok. Mas, gente, isso, né, isso não quer dizer que eu não acho legal quem faz. Sim, exato. Não quer dizer que eu não tô tendo benefício.
Exatamente.
Né, eu optei por ser assim, ou é o que cabe na minha vida hoje, ou enfim, né.
Exato, exatamente. É, não é assim.
Eu acho que vale a pena também a gente falar assim, porque às vezes as pessoas também falam assim: eu não tolero academia, não gosto de correr muito, eu não gosto. Não, mas calma, não existe só isso, sim, né? Porque também eu acho que tem que desconstruir um pouco a ideia de atividade física igual musculação.
Sim, exatamente.
Porque as pessoas, elas têm muito isso: não, eu não gosto, já tentei, não quero. Mas nossa, existem tantas outras coisas, gente.
E assim, ok, a gente entende, a musculação, fortalecimento é a base para tudo, Ok, mas a pessoa estar fazendo qualquer coisa já é melhor do que ela estar sedentária, né?
Exatamente, porque que nem você tá indo, né, numa linha que você tá testando o teu limite, de certa forma assim, né? Você tá estudando a fundo, você tá fazendo, mas a verdade é que se você fizesse meia hora por dia, isso já traria um benefício gigantesco para o teu controle de tudo, inclusive da glicemia.
Exatamente, tanto é que eu vejo que às vezes eu tenho mais mais dificuldade para manter minha glicemia no alvo fazendo mais exercício em dias que eu tenho duas modalidades para fazer, enfim, né, natação e corrida, bike, enfim, do que se eu fizesse só meia hora. Sim, entendeu? Então realmente é algo que eu estou fazendo e essa é minha escolha, ponto.
Mas a pessoa— mas isso não quer dizer que você acha que todo mundo tem que fazer isso, né? Eu acho que é abrir a cabeça, né? Eu sempre falo, né? Sim, yoga, tem Pilates, são exercícios que respeitam muito os limites do corpo. A própria musculação, na verdade, se você tiver bem assessorado ali, os treinos eles vão desde um treino praticamente fisioterápico ali, sem, né, que se você tá numa condição muito inicial é muito melhor que você comece realmente muito devagar e respeite o tempo do teu corpo. E ou você pode fazer um treino extremamente intenso assim.
Então assim, musculação não é uma coisa, as pessoas acham que é uma coisa só e elas têm estereótipo, né, da pessoa que faz musculação, do ambiente da academia.
Tem que ser uma pessoa que tá definida, que vai ganhar massa. Tem muitos treinos que o objetivo nem é ganhar massa.
Exatamente, exato. Não, e é isso, as pessoas têm essa ideia muito errada do que é o corpo de um atleta, né, do que, de como, ai, precisa ser super definido. Gente, essa ideia é completamente errada, não existe.
Essa cultura ela não veio do nada, né, é uma cultura que vem sendo construída também. Nada contra os corpos bem definidos, Mas é assim, e assim, ah, então tá, eu não gosto de academia. Ah, a caminhada ela já é excelente. A gente sabe, né, que tem que ter o pilar do aeróbico, claro, e tem que ter o pilar do fortalecimento resistido. E aí a gente, né, tem várias formas. Mas poxa, a gente tem arte marcial, a gente tem dança, a gente tem os esportes coletivos.
Sim, total. Até no congresso de diabetes que teve lá, que você também foi lá em Bangkok, né? Não sei se você teve oportunidade de ver a aula que eles deram sobre abriu o esporte para idosos, foi, eles fizeram futebol.
Que legal, eu não vi.
É, então era uma, um local, né, que eles organizaram assim, e eram idosos, e aí jogavam futebol. Gente, muito legal. E daí, óbvio, como era o futebol que eles jogavam? Porque eles sabiam jogar.
Exato.
E aquilo fez um bem tão grande para eles em tantos os aspectos, porque era lúdico, completamente lúdico, completamente divertido. Ah, mas não vai machucar? Bom, depende, né? Depende, né? Se você tá— vocês acham que a dividida de bola deles era uma coisa agressiva? Não, não, é um negócio assim completamente, não, vamos jogar aqui, vamos divertir, vamos dar risada, vamos mexer o corpo. E então assim, resultados incríveis. Então às vezes é uma coisa que as pessoas nem pensam, perfeito.
Nossa, tô com 50 anos aqui, vou jogar futebol. Exato, vou começar a jogar, passa pela cabeça, vou começar a jogar, nunca joguei, vou começar a jogar. Não, mas assim, claro, hoje em dia, né, você teria uma dificuldade assim, né, achar todos os parceiros assim.
Mas assim, é um, mas por que não, sabe?
É abrir a cabeça assim, né? Por que não? Ah, eu gosto de jogar ping-pong.
Ótimo, ok, ótimo. E às vezes as pessoas, elas têm essa questão questão também da musculação, né, ser um pouco resistente, enfim. Mas isso de fazer esportes que são coletivos, né, é um, meu Deus, é um descanso para nossa cabeça, né. Por exemplo, eu tô sempre nadando meio-dia, eu termino de atender, já tô com a minha mala de natação no carro, vou para natação, nado do meio-dia a 1 e boa. E meu Deus, é um, parece que é uma pausa no meu dia assim, sabe, poder conversar conversar, estar ali com as pessoas que eu gostava.
Isso que você nem conversa comigo assim. Você nem conversa comigo assim, literalmente, nos 10 segundos de descanso. Mas é tão bom, gente, meu Deus. E assim, não é, ai, mas eu converso no trabalho.
Assim, mas ótimo, mas é outra coisa.
É outra coisa, exatamente. Então assim, futebol, vôlei, beach tênis, enfim, tem tantas modalidades também, né, que você vai lá, conhece a pessoa, conversa, descontrai. E assim, eu acho que a questão da gente poder reduzir tempo de tela é um principais também assim, né, de questão de importância na prática de exercício. Porque, ai, eu não tenho tempo, tá bom, mas pelo menos, sei lá, uma meia hora por dia você fica scrollando tua tela em rede social. Então é questão de assim você realmente se programar, né?
Mas eu vou te falar assim, da minha parte assim, eu nunca quis ter um personal, por exemplo, porque eu passo o dia inteiro falando com tanta gente, né? Porque na consulta a gente fala, fala, fala, e eu gosto, adoro adoro, sim, mas todo mundo precisa de descanso também, né? E aí, para mim, às vezes é aquele momento assim que eu só preciso pensar se eu tô contraindo o abdômen, se eu tô sentada certo, e contar até 15.
Exato. Não, perfeito.
E também tem dias que tá super corrido e meu WhatsApp tá ali explodindo, e daí às vezes eu falo, não, eu vou responder nos intervalos. Sim. Então pelo menos eu tô fazendo exercício e também tô resolvendo. Sim. Então às vezes é o momento que eu uso para desafogar aquela demanda andando e fazendo atividade física, ou vai numa bike, fica lá respondendo WhatsApp. É isso, eu já não gosto, mas aí é muito pessoal, cada um se adapta de um jeito.
Mas eu tô falando isso porque às vezes até dá uma ideia para alguém assim, sabe? Porque corrida, esqueça. Não, quando eu vou correr, daí eu só tô correndo.
É, não, exatamente. Daí é isso, é você lá em silêncio, tua cabeça, e boa. Mas outras, outras formas de exercício difícil a gente consegue às vezes, né, juntar.
Então é, eu acabo falando, ah, por que isso? Porque acaba que eu me sinto melhor. Sim. E eu falo também assim que a gente tem que ser gentil com a gente também. Tem dias que eu não tô muito 100% porque eu também sou, né, tipo assim, uma pessoa, uma pessoa, exatamente, somos humanos. E às vezes eu tô assim mais me sentindo mais cansada ou saindo de uma virose ou, né, dormir pouco porque, né, tenho filho, tudo, e trabalho. Aí às vezes eu falo, hoje de você treinar o café com leite.
Sim. Aí eu vou lá, normalmente vai tudo, mas assim, mesmo quando eu— mas quando eu já me libero da pressão, já fica mais leve. E às vezes eu vou lá e faço meio treino e falo, não, hoje é isso, é o meu melhor, hoje é esse e ponto. Hoje é isso. E eu acho que mesmo assim é válido, super válido, muito melhor. Eu me sinto melhor, não pela pressão de ter que ir, mas porque realmente me faz bem.
Exato. Mas eu acho que isso a gente vai conquistando aos poucos. Né, na questão do relacionamento saudável com o exercício. Vamos entrar aqui, vamos lá. Mas pior que é, né, porque assim, a gente vai, às vezes a pessoa inicia a fazer algum tipo de exercício, quando ela falta um dia, meu Deus do céu, como se tivesse desandado a maionese, né? Exato. Assim, cara, a gente não é atleta de alta performance, a gente não é máquina, né?
Não é máquina assim. Aí eu não tô bem, que nem eu acabei de sair de uma gripe assim que foi péssima e eu não consegui ir assim treinar basicamente quase semana toda. E ok, porque se eu tivesse forçado, meu corpo teria um tempo de recuperação muito maior, que às vezes eu não conseguiria treinar 2, 3 semanas depois. E não, faz uma semana que eu estou com, né, estava com a gripe e hoje eu tô zerada. Então assim, a gente precisa escutar nosso corpo, entender qual é o momento de parar, de desacelerar, de fazer um treino café com leite e E sempre voltar.
Isso que eu também falo assim, porque às vezes também, às vezes as pessoas, ah, uma planilha, agora eu vou fazer assim, a progressão vai ser assim. Ótimo, não, cada um tem, ótimo, acho bom, mas assim, furou um dia, agora acabou.
É, e gente, não faz sentido nenhum, né? É mesmo que você tá segurando um monte de compra, caiu uma coisa, você vai jogar tudo no chão.
É uma boa, não faz sentido nenhum. Exato assim, tipo, não, então eu não vou levar nada para casa.
Exatamente. Então assim, gente, não Não faz sentido. Então é sempre a gente tentar pensar nisso, né? É um dia que acontece algo e a nossa vida é assim e ponto, né? Não tem muito o que fazer. Então a gente precisa saber voltar para isso. E aí que isso se torna um estilo de vida, né? Não é algo que a gente faz e, ah não, deu errado, larga tudo. Não, isso faz parte da minha vida, não é uma coisa que eu vou largar, né?
E quando, né, você começou assim com a Guria da Insulina, tudo, você imaginou que ia crescer assim? Como é que foi?
Não, acho que assim, eu nunca nunca tive, nunca almejei, ah, sei lá, quantos seguidores, esse tipo de coisa nunca foi muito o meu foco. E também o meu foco nunca foi ser blogueira, assim, não sou. Tanto é que assim, da minha vida pessoal eu compartilho o mínimo possível, assim, às vezes, né, abro algumas coisas, mas é a minha, o meu objetivo sempre foi compartilhar informação de que tivesse uma validade tanto científica quanto uma realidade minha pessoal do que eu estava compartilhando ali, né, que é a minha vida na questão do diabetes.
Mas eu acredito que às vezes isso se desenvolveu de uma forma bacana, né, justamente porque é algo honesto, sabe? Então é basicamente, não é, ai, sei lá, né, bom dia pessoal e tal, coisas fúteis assim, né, tipo só para gerar alguma coisa, para desse tipo de coisa. Exato. Tanto é que já tiveram alguns momentos de correria, tava terminando a graduação e tal, tive que dar um tempo no Instagram. Ok, né, é a vida acontecendo, teu Instagram no teu ritmo.
Exato. Mas é muito bacana porque hoje eu vejo às vezes até algumas marcas grandes assim, às vezes rede de farmácia, indústria farmacêutica, já vieram falar comigo para às vezes fazer alguma colaboração coração. E é um nicho muito específico, né? Então assim, você vê que as pessoas estão buscando influenciadores em diabetes tipo 1. Sim, assim, qual que é a chance?
Não, mas assim, olhando de fora faz sentido.
Sim, e é muito legal.
Assim, existem produtos específicos para isso, né?
Exatamente. E os haters, é, então tem, né? Inevitável, inevitável. Acho que assim Haters até dessa questão de estilo de vida, né, que falam assim: não precisa, por que que compartilha fazer tantos treinos? Já teve gente falando esse tipo de coisa. E assim, não consigo entender, mas ok, é isso. Eu bloqueio muita gente, sabe? Quando eu recebo comentários nada a ver, eu literalmente bloqueio. E pessoas falando que eu não represento pessoas com diabetes.
Isso é um ponto importante. Não representa pessoas com diabetes porque eu tenho acesso a tratamentos que são, que é mais, exato, que pessoas não têm acesso. Então quando eu tava testando lá aquela bomba sem fio também, que agora tá sendo comercializada, no final não deu certo, né, para mim. Mas, ah, mas você tá falando de uma coisa, está mostrando, é muito fácil você ter um controle ótimo quando você tem acesso a melhor tecnologia que está disponível.
E assim, infelizmente eu não tenho controle sobre isso, né? Então eu reconheço como um privilégio e reconheço também como a vergonha que é a falta de acesso a tratamentos dignos aqui no Brasil, ponto. Mas eu infelizmente não consigo fazer algo sobre isso. O que eu consigo fazer é disseminar.
Exato. Eu acho que na medida que você dissemina o saber, de certa forma você tá tracionando as pessoas a também solicitarem.
Total.
Porque Porque assim, tá, eu não tenho acesso, mas eu quero ter acesso. Como eu posso ter esse acesso e buscar?
Exatamente.
Então assim, se eu não conheço, eu não vou pedir.
Sim, exato. E aí a gente vê, né, como as pessoas— porque assim, eu já compartilhei algumas vezes quando eu iniciei o meu tratamento com bomba de insulina, que foi lá um ano depois do meu diagnóstico. Na época, meus pais compraram tudo mais. Depois a gente viu para entrar com uma ação para conseguir os consumos, sim, ação judicial. E quando a gente conta isso às vezes para as pessoas, as pessoas já começam a colocar um monte de impeditivos.
Então assim, às vezes realmente não é a questão, né, da pessoa não saber, ela simplesmente tem preguiça, não quer ir atrás, acha que é muito difícil, que nunca vai conseguir.
Então assim, realmente daí é mais fácil dizer que você não deveria estar mostrando, exato, do que de repente, né, poxa, né. Mas essa questão acho que vale a pena até comentar um pouco da tecnologia no diabetes, né. Acho que assim, acho que nem todo mundo sabe que existe o sensor, né? Sim. Então comentar mais ou menos, né? Quer falar um pouco como que funciona o sensor, de repente?
Então assim, acho que o sensor foi um grande divisor de águas, né, no tratamento do diabetes. Hoje os sensores não são só para pessoas com diabetes, tem também, né, sensores que já são aprovados para quem não tem. Mas ele basicamente é um dispositivo que mede a nossa glicose intersticial. Então a gente fica com o sensor normalmente no braço e de tempos em tempos ali, 5 minutos ou 1 minuto, 2 minutos, ele mede a nossa glicose. Não é o mesmo compartimento que a glicemia, né, capilar, a glicose ali no nosso capilar, que é a do sangue, que é a ponta de dedo que a gente fala, mas a glicose no sensor ela acaba nos ajudando muito em tomadas de decisão porque a gente pega a bomba de insulina ou pega o celular e consegue ver a glicemia ali, né, a glicose a cada tantos minutos, e fazer as nossas decisões ali com base nessas, nessas glicoses.
E consegue também acompanhar as setas de tendência, né, enfim, esse tipo de coisa. Acho que essa é a principal tecnologia que a gente pensa na questão do diabetes. E a gente tem também os sistemas de infusão contínua, que são as bombas de insulina, que elas fazem um papel de aplicação de insulina de forma contínua. E aí, ao invés de utilizar dois tipos de insulina, né, que é a insulina lenta e a rápida, a gente acabou utilizando só a rápida na bomba, e que ela vai ser liberada ali durante o dia todo e a noite toda em pequenas doses, servindo como insulina basal ali, e doses maiores nas nossas refeições.
Então a gente faz a contagem de carboidratos, mas ela que regula ali. Se a gente erra alguma dose, ela consegue dar um pouquinho mais de insulina. Se tem uma tendência de hipoglicemia, ela consegue suspender a administração. Então isso são tecnologias, né, que a gente hoje vê disponíveis aí no Brasil, graças a Deus. Mas é isso, o acesso ainda é precário, né?
Infelizmente não são muitas pessoas que têm acesso, né?
Exatamente.
Mas tá melhorando também, né, o SUS também tá no movimento contínuo de melhora das medicações que tem ofertado, né?
Exatamente. A gente torce, né, que todas as pessoas tenham acesso, mas é algo que é isso, a gente luta.
E também assim, é importante que tenha-se pessoas que sabem lidar com essa tecnologia, né, tanto para demandar como para ensinar outras pessoas, como para mostrar como que funciona. Sim, porque a gente vê pessoas que eventualmente têm acesso à bomba, mas não conseguem se adaptar à bomba. Exatamente. Então assim, nem tudo é para todo mundo, né? Então isso é uma coisa, né, do meu viés cirúrgico aqui, que a gente vive no fim em todas as áreas, né?
A gente não— nem tudo é para todo mundo. Não é porque você tem um diagnóstico que você tem que fazer exatamente da mesma forma. E até engraçado, né, que como, né, o pé de tornozelo de pé, às vezes a gente tem a mesma pessoa e um pé precisa de uma cirurgia um pouquinho diferente da outra. Às vezes a gente usa técnicas diferentes. Por quê? Porque é assim, né? A gente, cada um é um, cada, né, parte do nosso corpo no fim é uma coisa.
Então assim, não vai ser uma tecnologia que vai ser igual para todo mundo. Tanto que, né, na prescrição das medicações não é tudo igual.
Não, óbvio que não.
É bem diferente, na verdade, né? As pessoas elas têm tantas particularidades, mas o que não muda é que precisa fazer atividade física.
Exatamente, independente de tudo.
Não, não me contrariando aqui, estou travada.
O exercício físico vai ter que estar ali, então assim, azar o teu, você vai ter que colocar na vida, não tem jeito. Mas é isso, e assim, é perfeita a sua colocação em relação também ao diabetes, porque muitas pessoas querem colocar a bomba de insulina, vem aquilo, mas assim, às vezes você não no momento do seu tratamento para usar a bomba de insulina, né? Porque as pessoas acham que é uma automação.
Sim.
E assim, não é. Você precisa contar carboidrato igual, você precisa saber contar carboidrato muito bem, você precisa ter a responsabilidade de trocar sistema de infusão ali, né? O conjunto de infusão, cânula, cateter, cartucho, tudo. Então assim, é isso, não é para todo mundo, todo momento, né?
Você já mostrou mais de uma vez o defeito da cânula.
Exato. Você precisa saber lidar com isso, que é o risco de entrar em cetoacidose quando você usa uma bomba de insulina é muito maior. Então você precisa estar atento, vigilante.
Explica aí o que que é cetoacidose para galera.
Bom, basicamente é no diabetes, né, tipo 1, a gente para de produzir insulina. E a insulina é como se fosse uma chavinha ali, né, para glicose conseguir entrar na nossa célula e ser utilizada como uma fonte de energia. Então basicamente quando a gente não tem insulina no nosso corpo, a gente enche ali os nossos vasos sanguíneos de glicose, e a glicose ela não pode ser utilizada como fonte de energia pela célula. É, a partir desse momento, o nosso corpo começa a procurar outras formas de utilizar como fonte de energia, né?
E aí ele começa a quebrar gordura, de uma forma bem básica, né? Só que um dos produtos dessa gordura que é quebrada são as cetonas, né, os corpos cetônicos. Então a gente consegue minimamente ter energia com a gordura, mas a gente gera essas cetonas. E aí a gente começa a ter vários desfechos ali no nosso corpo, de acidificar o sangue e outras complicações, em que a gente pode— é a principal causa de morte no diabetes tipo 1 ainda, né, infelizmente.
Mas a gente começa a ter essas cetonas aumentadas, e isso pode levar a gente a um coma diabético, a complicações que acabam sendo mais imediatas ali por não ter insulina disponível no nosso corpo para ser utilizada. Isso é para uma pessoa com diabetes que utiliza bomba de insulina, acontece de uma forma muito rápida, porque se a gente tem algum problema na administração de insulina ali, algumas horas já são suficientes para a gente ter uma cetonemia.
Né, uma ali, um aumento de cetonas no nosso corpo. Então acho que esse que é o principal perigo da bomba de insulina quando não é monitorada, né. Com a caneta, se a gente aplica uma vez ali no dia a insulina de ação lenta, a gente sempre vai ter insulina circulante ali, alguma coisa vai ter. Então o risco de entrar em cetoacidose é muito menor, de ir para o hospital com cetonas e tal. Então é esse que é o cuidado principal, né, de uma forma bem básica, né, que a gente precisa ter numa numa bomba de insulina.
E muitas vezes isso não está relacionado com hiperglicemia, né? Então às vezes a pessoa pode ter ali uma glicemia alta, que não vai ser a mais alta que ela vai ter, porque às vezes as pessoas ficam muito presas ali no número, não é o que mais importa. E a pessoa pode ter uma glicemia altíssima, mas nenhuma chance de cetoacidose também, porque ela pode simplesmente estar resistente. Então a grande questão da cetoacidose é não ter insulina circulante no nosso corpo, né?
E não uma hiperglicemia super severa. Às vezes eles vêm juntos, às vezes não, né?
É porque a cetoacidose ela tá intimamente relacionada com a incapacidade do corpo de colocar a glicose pra dentro.
Exatamente.
Então, né, independente se tem um nível alto ou baixo de glicose no sangue, não muda muito se simplesmente toda a glicose que eventualmente tiver ali estiver aprisionada.
Exatamente.
Então, é, mas isso é bem importante, né, a gente entender assim. Por isso que não é pra todo mundo, por isso que às vezes, né, precisa passar por essa educação. Exato. E você participa bastante da educação de jovens também, né?
Sim, sim. A gente lá em São Paulo, eu participei bastante da ADJ, que é uma associação que ela educa muito pessoas jovens, crianças, pais, né, com diabetes. Inclusive trabalhei em um acampamento de uma semana, né, com jovens, crianças com diabetes tipo 1. E assim, a grande maioria dos meus pacientes hoje são jovens, são jovens, são jovens.
Exato, eles se enxergam, né?
Exato. Eu acho que tem essa questão da identificação, ainda que eu acredite que a gente não pode confundir assim, não, a questão de eu ter diabetes orientando uma pessoa com diabetes também. Eu não tô lá para falar do meu diabetes, mas isso me dá um pouco mais de empatia, né? E enfim, eu entendo a dor.
Não, e às vezes alguma coisa já para você já muito direto assim, né?
Exatamente.
Ah, eu tive isso, eu tive aquilo. Ah, né, isso aqui eu já sei exatamente o que você tá falando.
Exato, exatamente. A pessoa não precisa se desgastar se explicando tanto, né? Mas é muito bacana porque às vezes a gente vê pessoas assim que às vezes são até mais novas do que eu, né? E ou até da minha idade e tal, e passam comigo, e a gente consegue trabalhar de uma forma muito assim, é óbvio, né, com todas as orientações e tal, mas uma forma descontraída de conseguir até melhorar a aceitação dessa pessoa no diabetes, sabe? De entender, nossa, não é verdade, talvez não seja um fardo tão pesado assim, né? Então é bem bacana.
Eu acho que assim, né, mostrar que toda uma vida é possível e viável, e o caminho de certa forma, né, para chegar nisso também ajuda muito, né? A gente não precisa reinventar a roda todos os dias, né? Tem gente aí passando por tudo isso, né? A gente tem que estar sempre pensando em ajudar. E aqui a gente tem o IPD, né, que é o Instituto da Pessoa com Diabetes, que eu acho super legal também. Não sei se teve oportunidade de trabalhar com eles também.
Trabalhei lá, é um instituto que tem várias ações assim acontecendo ao mesmo tempo, né? Eu tive a oportunidade de trabalhar em um projeto de monitorização contínua. Então a gente colocou o sensor de glicose, né, em crianças até 14 14 anos e acompanhamos as crianças por praticamente um ano, é, com educação em diabetes também. Então a cada troca de sensor que essas crianças tinham, a gente dava uma aula ou de nutrição, ou a psicóloga da equipe dava uma aula sobre psicologia voltada para o diabetes, né?
Então hoje a gente fala que a tecnologia pouco importa se não vem junto com a educação, né? Então era bem isso que a gente fazia e foi muito bacana realmente poder acompanhar o controle glicêmico dessas pessoas melhorando, né, com a ajuda do sensor. Mas o instituto realmente é um ponto assim de referência que a gente tem hoje para pessoas com diabetes aqui no Paraná, né.
E eu acho super legal que eles também têm um trabalho de conscientização das escolas, né, diabetes nas escolas, porque, né, Assim, eu acho que são vários pontos, né? Assim como as famílias muitas vezes nunca tiveram a oportunidade, as professoras também não, funcionários, enfim, porque é assim.
Exatamente. E é muito legal porque normalmente são escolas municipais, né? Mas, por exemplo, tem uma pessoa diagnosticada com diabetes naquela escola, ok. Então a equipe vai dar uma aula né, para todos os alunos daquela sala. Então é muito bacana porque todo mundo entende um pouquinho melhor o que aquela pessoa passa, de uma forma muito didática, né, e assim voltado para crianças normalmente, né.
Então dificilmente essas pessoas não vão ter nenhum conhecido ou familiar sem diabetes, porque infelizmente a prevalência é gigantesca, né, uma a cada 11 pessoas tem diabetes. Então Então assim, a verdade é que tudo, né, que sim, claro, todo conhecimento, né, ele tem um ganho, mas o diabetes, a verdade é que ele se torna muito rapidamente um conhecimento palpável assim, né. Às vezes em casa vai ter comentários até meio distorcidos sobre um familiar que tem diabetes, e aí a pessoa vai entender melhor.
Nossa, isso é um ganho para todo mundo, né. E fora, né, ah, então tá bom, existe esse diabetes que a gente não tem condição de prevenir, que é o diabetes tipo 1, sim, mas tem o tipo 2. Então pessoalmente se acender a luzinha de, poxa vida, né, não é fácil, né? Se tem alguma coisa que eu posso fazer para evitar isso, vou fazer, ou vou estimular meu familiar. Ou, nossa, às vezes é um negócio que a gente não tem a real noção do quanto, né, se dissemina.
Mas eu achei super interessante assim, total, porque eu imagino que diminua o fardo da pessoa com diabetes naquele ambiente também. Porque acho que às vezes as pessoas, não é nem por maldade, mas às vezes vão vir perguntar e perguntar de novo. E daí a história de que não pode comer doce nunca. Aí eu também quero uma bala. Não, você não pode.
E às vezes nem oferece assim, e não é por mal, né? Mas meu Deus, eu cansei de ouvir assim, ah não, ah Marina, ah não, não, desculpa, eu sempre esqueço, eu sei que eu não posso te oferecer assim. E daí fica literalmente esse clima assim, né?
Mas assim, primeiro, né, que você pode comer.
Exatamente. Mas daí é aquele conceito esse conceito sempre mal entendido, né, de que a pessoa com diabetes não pode comer doce. É, eu acho que é esse estigma, sabe, do diabetes.
E é isso, daí a pessoa ela fica até sem saber, sem saber como lidar com a situação, porque ela fala, pô, mas eu tô sendo mal educada em oferecer, ou eu tô sendo mal educada por não oferecer, ou eu tô sendo mal educada por falar ou por não falar, tipo, né? Zero maldade, você enxerga que não tem maldade, mas a pessoa fica perdida. Então assim, né, eu acho que um recado que pode ficar assim, pode oferecer, é, pode tratar normal, ela vai administrar, né?
Não precisa ficar esperando a pessoa colocar a bala na boca. Talvez ela pegue a bala, guarde no bolso.
Exatamente. Mas assim, e é, às vezes as pessoas elas precisam entender a forma de falar com outras pessoas também, né? E é uma coisa muito próxima. Vou até dar um exemplo. Semana passada eu fui comprar um bolo de um menino que eu conheço, que ele faz bolos, ok? E aí eu comprei e assim, eu nem me liguei. Tipo, para mim isso é uma pessoa normal. Né? Só que daí ele me perguntou, ele me mandou uma mensagem depois assim, ah, e você pode comer esse tipo de coisa?
E aí eu falei, posso, né? Sim, é o que eu faço é aplicar insulina para comer. Daí ele falou, mas qualquer coisa? Até uma coisa muito, muito doce? Daí assim, daí eu falei, a questão não é o teor de doçura, eu faço contagem de carboidratos. Então assim, se eu vou comer uma fruta ou um doce é a mesma coisa, né? Eu vou contar o carboidrato disso que eu vou comer. Ele, meu Deus, que interessante, eu não sabia, tal, tal, tal.
Então assim, mas que ótimo ele aprender. Então a próxima pessoa que ele souber que tem diabetes, ele já tem, e ele não vai falar de uma forma— a gente vê que não foi maldoso, né? Ele ficou curioso e resolveu perguntar. De certa forma sentiu liberado.
Exatamente. Então isso é legal porque é bem isso, da próxima vez que ele encontrar uma pessoa com diabetes tipo 1, que muito provavelmente vai acontecer, né, ele não vai às vezes ficar naquela situação assim, não sei o que eu falo, não sei se posso oferecer, enfim. Então é bem bacana.
A gente tá chegando no final, infelizmente foi muito rápido. Tem algum recado final que você gostaria de passar?
Ah, eu acho que, bom, se a gente vai parar para pensar no diabetes, acho que é bem específico, né, dar algum recado, mas eu eu sempre tento pensar que independente das adversidades que a gente tem na vida, a gente consegue tirar algo bom disso. E parece um pouco clichê, mas é muito real. Então acho que esse que é o recado, assim, a gente conseguir enxergar talvez a vida de uma forma positiva, não romantizando, né, mas se dedicar para conseguir tirar coisas boas das dificuldades, porque elas realmente nos moldam e fazem com que nós sejamos quem nós precisamos ser nessa sociedade.
E buscar ajuda e estar junto com as pessoas e compartilhar, que também torna tudo mais leve.
Exato, é bem isso.
Marina, muito obrigada.
Obrigada a você pelo convite, foi muito bom, passou muito rápido.