#293 - É ansiedade, depressão ou estresse? Como entender o que você está sentindo
Por que algumas relações fazem você sentir um frio enorme na barriga enquanto outras, mais tranquilas, parecem "sem química"?
Neste episódio do Psicologia na Prática, Alana Anijar explica por que podemos confundir intensidade emocional com conexão e como imprevisibilidade, ansiedade e ciclos de afastamento e aproximação podem aumentar aquilo que sentimos por alguém.
Usando Ross e Rachel e Monica e Chandler, de Friends, como analogia, você vai entender a diferença entre química, intensidade, intimidade e segurança e aprender a observar o que realmente sustenta uma relação saudável.
Mesmo que você nunca tenha assistido à série, esse episódio é para você.
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- A confusão entre sintomas de saúde mental e experiências humanas esperadasdificuldade de concentração·irritabilidade e cansaço·alteração no sono·normalização do sofrimento
- A diferença entre tristeza e depressão como quadros clínicosdepressão não é só tristeza·perda de interesse e prazer·conjunto de alterações·pensamentos de morte
- A importância da avaliação profissional e quando buscar ajudadiagnóstico diferencial·origem não exclusivamente psicológica·impacto no funcionamento·não esperar o limite
- A distinção entre ansiedade e estresse e seus impactosestresse como resposta a demandas·ansiedade como antecipação de ameaças·contexto importa na avaliação·ansiedade não é um diagnóstico único
- Esgotamento emocional e burnout: diferenças e causassensação de estar esgotada·burnout como fenômeno ocupacional·diferença entre burnout e depressão·responsabilidade pela recuperação
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Você acorda cansada mesmo depois de ter dormido. Durante o dia percebe que tá mais irritada, que coisas pequenas ali começam a incomodar mais do que antes. A tua cabeça parece cheia o tempo todo, mas quando você precisa se concentrar ali em alguma coisa, é como se não conseguisse organizar os seus pensamentos. O trabalho exige mais esforço, você começa a recusar alguns convites porque não tá com energia. Chega o fim de semana e tudo que você quer é ficar em casa sem precisar conversar com ninguém, resolver mais nada.
Em alguns momentos ali você sente uma angústia difícil de explicar, em outros talvez uma tristeza, em outros não sente exatamente uma tristeza, é mais uma falta de vontade, um cansaço, uma sensação de que você não tá funcionando como você costumava funcionar. E aí começa a tentar entender o que que tá acontecendo, né? Será que eu tô deprimido? Será que eu tô ansioso? Será que eu tô muito estressada? Será que eu preciso descansar?
E quanto mais você pesquisa, mais confusa pode ficar, porque abre um vídeo ali sobre ansiedade, aí se identifica com vários sintomas. Depois encontra um conteúdo sobre depressão, também se reconhece. Lê sobre esgotamento emocional e pensa: nossa, exatamente isso! E existe uma razão para essa confusão. Muitos problemas de saúde mental compartilham vários sintomas. Então, dificuldade de concentração pode aparecer em quadros depressivos, ansiosos, em períodos de estresse intenso.
Alteração no sono também, a irritabilidade, o cansaço, a tensão, dificuldade de tomar decisões, a mudança no funcionamento. Tudo isso pode aparecer em vários contextos. Então, sentir um sintoma não é suficiente para descobrir o que está acontecendo. E isso é especialmente importante hoje porque a gente nunca teve tanto acesso à informação sobre saúde mental. Isso trouxe muitas coisas boas, né? As pessoas falam mais sobre terapia, elas reconhecem sintomas que antes eram ignorados, elas conseguem encontrar explicações para experiências que durante muito tempo foram tratadas simplesmente como fraqueza, como falta de vontade.
Mas existe um efeito colateral aí. A gente começou a aprender o vocabulário ali da psicologia antes de aprender necessariamente como utilizar isso com precisão. Uma semana extremamente difícil vira, ai, tô deprimida. Uma preocupação vira ansiedade. Um período de muito trabalho, né, mais cansativo ali, vira um burnout. E ao mesmo tempo, alguém que tá há meses perdendo interesse pelas coisas, se isolando, dormindo mal, tendo dificuldade de funcionar, pode continuar dizendo, ah, eu tô só cansada, daqui a pouco passa.
Então a gente tem dois riscos acontecendo ao mesmo tempo, de transformar as experiências humanas esperadas em transtornos, mas também de normalizar um sofrimento que tá precisando de atenção. E é justamente no espaço entre esses dois extremos que eu quero construir esse episódio. E aí, minha gente, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Psicologia na Prática. Eu sou Alana Nijá, sou psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, Mestre em Ciências do Desenvolvimento Humano, e eu tô aqui todas as terças-feiras com um novo conteúdo para te ajudar a construir uma vida mais leve, com mais clareza emocional, mais inteligência emocional.
Vocês viram que eu mudei a vinheta, né, do início, veio agora um pouquinho depois. Que que vocês acharam? Então aproveita esse tempinho aí. Se você tá me assistindo pelo YouTube, já curte aqui esse vídeo, se inscreve no canal. Você tá me ouvindo pelo Spotify ou por outro streaming, segue o podcast, avalia aí com estrelas. Você sabe que isso é muito importante para esse conteúdo chegar a mais pessoas, então tira um minutinho aí para fazer, tá bom?
Então vamos lá, hoje eu quero ajudar você a entender melhor essa pergunta que aparece muito no consultório, tá? E também muito nas redes sociais, que é: como que eu sei se o que eu tô sentindo é ansiedade, é depressão, é estresse, ou é simplesmente a vida acontecendo, né? Uma reação a uma fase difícil aqui da minha vida. Eu já quero deixar uma coisa clara desde o começo: esse episódio não é feito para você terminar com o diagnóstico, tá?
O diagnóstico, ele exige uma avaliação muito mais cuidadosa do que qualquer vídeo ou podcast conseguiria fazer. Os sintomas, eles precisam ser compreendidos, tá, em conjunto ali dentro de uma história, considerando a duração, a intensidade, a frequência, o contexto, prejuízo e até outras condições ali que podem produzir manifestações parecidas. O que eu quero fazer é aumentar a tua capacidade de perceber o que tá acontecendo com você.
Porque tem uma diferença grande entre não se autodiagnosticar e entre ignorar os próprios sinais. E quanto melhor você aprende a reconhecer esses sinais, mais cedo você consegue perceber quando alguma coisa precisa de um cuidado, de uma atenção. Então assim, eu acho que um bom lugar pra começar é a gente corrigindo aqui juntos essa ideia que se tornou muito comum nos últimos anos, que é: Sentir uma emoção desagradável não significa necessariamente você tá diante de um transtorno mental.
Então, gente, a tristeza faz parte da vida, o estresse, ansiedade. Se você perdeu alguém importante, é esperado você sentir tristeza. Se amanhã você vai apresentar um projeto importante no trabalho, é normal sentir ansiedade. Se você tá passando por uma semana com muita demanda, com problemas familiares, com poucas horas de descanso, é esperado que que o nosso corpo responda com estresse. Essas respostas não são defeitos do nosso organismo.
A ansiedade, por exemplo, envolve ali um sistema importante de antecipação, de preparação diante de possíveis ameaças. O estresse, ele mobiliza recursos para responder às demandas. A tristeza, ela também cumpre funções psicológicas. Ela aparece naturalmente diante de perdas, de frustrações, de acontecimentos difíceis. Então, uma vida emocionalmente saudável não é uma vida em que você consegue eliminar essas experiências. O problema começa quando a gente usa só o nome da emoção para tentar entender ali se existe ou não um problema de saúde mental.
Então, se eu tô triste, então eu tô deprimida. Se eu tô ansiosa, então eu tenho um transtorno de ansiedade. Clinicamente, a pergunta ela precisa ser muito mais ampla: há quanto tempo isso tá acontecendo? Com que frequência? Qual é a intensidade? Existe um acontecimento que ajuda a compreender essa reação? Ela diminui quando a situação muda ou continua presente? Quando isso tá interferindo o teu sono, né, o teu trabalho, os estudos, teus relacionamentos, o teu autocuidado, aí é uma bandeira vermelha.
Pensa numa pessoa que tá muito ansiosa porque tem uma entrevista de emprego amanhã. Ela passa o dia preocupada, ela sente o coração acelerar quando ela pensa na entrevista, demora um pouco mais pra dormir naquela noite. Ok, é esperado. Agora, pensa em alguém que passa boa parte da semana antecipando alguma coisa ruim que ela acha que pode acontecer. A preocupação muda de assunto ali o tempo inteiro, é difícil de controlar, o corpo permanece tenso, o sono tá prejudicado, ela já começou a evitar situações por causa disso.
A palavra ansiedade pode aparecer nas duas histórias, mas isso não significa que a gente tá diante do mesmo fenômeno. Então o mesmo vale para a tristeza. Uma pessoa ela pode passar alguns dias triste e depois de alguma frustração importante ali, né, e ainda ela pode conseguir se interessar por outras coisas, ter momentos de prazer, trabalhar, perceber que aquela emoção oscila ao longo dos dias. Em um quadro depressivo a gente precisa olhar para um conjunto muito maior de sinais, tá, a forma como esses sinais também evoluem ao longo do tempo.
A perda de interesse ou prazer, alterações de sono e de apetite, redução de energia, dificuldades cognitivas, um sentimento de inutilidade, culpa, né? Então esses sintomas, eles podem fazer parte do quadro, e nem todas as pessoas que têm depressão elas vão apresentar exatamente a mesma combinação. É por isso que um sintoma isolado não fecha diagnóstico. Eu quero tomar cuidado para que você não escute tudo isso e conclua o contrário, né?
Ah, então eu só deveria me preocupar se eu preencher os critérios para algum transtorno. Não é isso, tá? Você não precisa esperar o sofrimento atingir um nível extremo para você cuidar da sua saúde mental. Se alguma coisa mudou de maneira importante no teu funcionamento, se você percebe, percebe, né, que você tá sofrendo há algum tempo, você tá ficando cada vez mais difícil fazer as tuas atividades, que antes eram possíveis ali, se as tuas estratégias habituais já não estão dando conta, isso merece a tua atenção.
Às vezes uma avaliação profissional vai identificar um transtorno, mas em outras situações a pessoa ela tá atravessando ali um período de sofrimento importante sem preencher critérios para um diagnóstico específico. Nesses dois casos existe uma pessoa precisando compreender melhor o que tá vivendo. Então antes de perguntar qual transtorno eu tenho, Alana, Pode ser mais útil você começar por outra pergunta: o que mudou em mim? Há quanto tempo isso está acontecendo comigo?
E quanto isso está afetando a minha vida? Essa pergunta vai acompanhar a gente daqui pra frente, porque agora que a gente estabeleceu essa diferença, a gente pode começar a separar algumas experiências que são confundidas o tempo todo, tá? Eu quero começar por duas palavras que muita gente ainda usa como se fossem quase sinônimos, que é a tristeza e a depressão. Então vamos começar aqui pela depressão, porque tem uma ideia que a gente confunde muito ainda, que é: a depressão seria basicamente uma tristeza muito forte.
Isso faz com que algumas pessoas olhem para alguém com depressão e pensem: ah, mas ela não tá com depressão, ela sai, trabalha, conversa, dá risada, como que ela pode estar deprimida? Não era para ela tá muito, muito triste, chorando, né? A própria pessoa pode pensar: eu não tô triste o tempo todo, então não deve ser depressão. Só que a depressão não é definida simplesmente pela quantidade de tristeza que alguém sente. Quando a gente avalia um possível quadro depressivo, a gente olha para um conjunto de alterações.
Uma delas pode ser o humor deprimido, mas existe especialmente uma mudança que é a perda do interesse ou do prazer em atividades que antes eram significativas. Então a pessoa percebe que as coisas começam a perder a graça, encontra os amigos mas não sente a mesma vontade de estar ali. Faz uma atividade que sempre gostou, mas não parece, não consegue se envolver ali. Conquista alguma coisa e percebe que aquilo produz muito menos satisfação do que produziria antes.
Também pode aparecer alterações, como eu falei, no sono, no apetite, redução de energia, dificuldade de concentração, de tomada de decisão, sentimentos intensos de culpa, de inutilidade, mudanças na atividade psicomotora. Pensamentos relacionados à morte, no caso mais grave. Isso ajuda a entender por que duas pessoas com depressão podem ter sintomas muito diferentes. Uma pode estar chorando frequentemente, que é aquele caso clássico assim que a gente imagina, né, e ter dificuldade até para sair da cama.
Outra continua trabalhando, conversando com as pessoas, mantém a tua rotina ali, ou parte dela, mas está fazendo tudo isso com um esforço gigante, enorme. E perdeu parte da capacidade de sentir interesse e prazer. Por isso, funcionar não significa necessariamente estar bem. Ao mesmo tempo, a gente precisa tomar cuidado com outro extremo, né? Passar por alguns dias de tristeza, querer ficar mais quieta depois de uma decepção, ou então ter menos energia durante uma fase difícil que você não tá conseguindo dormir direito.
Talvez você tem filhos pequenos que acordam à noite. E isso não significa automaticamente depressão, tá? Tristeza, ela costuma ter relação com aquilo que a gente tá vivendo. Ela pode ser intensa, inclusive muito intensa, sem que isso por si só configure um transtorno. É por isso que numa avaliação a gente não olha só para quanto que a pessoa tá triste. A gente precisa entender todo o conjunto de sintomas, há quanto tempo eles estão presentes, como que eles estão evoluindo e quanto que eles estão interferindo negativamente na vida daquela pessoa.
E aí existe um sinal que merece uma atenção nossa, que é quando aparecem pensamentos recorrentes sobre morte, ou então vontade de desaparecer, sensação de que seria melhor não estar aqui, ou seria melhor não acordar, né? Até pensamentos de fato de tirar a própria vida. Isso precisa ser levado a sério. A pessoa não precisa esperar ter certeza de que faria algo desse tipo, né? Ou chegar numa situação extrema pra falar sobre isso e pra buscar ajuda.
Essa é uma das razões pelas quais aprender a reconhecer mudanças no nosso próprio funcionamento é tão importante. Essa autoconsciência, essa autopercepção. Porque a depressão não começa necessariamente no dia em que alguém não consegue mais levantar da cama. Às vezes, antes disso, a pessoa já vinha percebendo que tava se isolando mais, dormindo diferente, perdendo interesse pelas coisas, funcionando com cada vez mais esforço. Deixando de se reconhecer na própria rotina.
Então, quanto mais cedo essas mudanças são percebidas, mais cedo a gente pode investigar o que tá acontecendo. E aí existe um outro lado ali, um outro grupo de sintomas que costuma gerar bastante confusão, principalmente porque acontece no corpo, tá? Preocupação constante, tensão, irritabilidade, dificuldade de desligar, aquela sensação de estar sempre no limite. E surge uma dúvida daí muito comum: isso é ansiedade ou eu tô simplesmente muito estressada?
Então, ansiedade e estresse podem se parecer bastante. Nos dois casos, você pode ficar mais irritada, dormir pior, sentir tensão muscular, ter dificuldade de concentração, perceber que a tua cabeça não consegue desligar. Só que existe uma diferença aqui que ajuda a começar a organizar essa experiência, tá? O estresse, ele costuma aparecer quando o organismo precisa responder a demandas. Então você tá com prazo apertado no trabalho, problemas financeiros, uma rotina sobrecarregada, alguém da família precisando de cuidado, ou tudo isso ao mesmo tempo.
Então teu corpo e a tua mente começam a mobilizar recursos para dar conta. Em algum nível isso é esperado, né? O problema é quando essas demandas são intensas ou prolongadas demais e os recursos para lidar com elas começam a ficar insuficientes. Então você termina um dia cansada e já acorda pensando no que precisa resolver. Fica mais impaciente, o sono piora, começa a cometer erros que normalmente não cometeria. Coisas pequenas passam a exigir um esforço enorme.
E na ansiedade, uma característica bem, assim, presente é a antecipação da ameaça. A tua mente começa a trabalhar em cima do que pode acontecer. E se eu não der conta? E se alguma coisa der errado? E se eu perder meu emprego? E se eu passar mal? E se essa pessoa me deixar? E aí o problema ainda pode nem ter acontecido, mas o organismo começa a responder a essa possibilidade. Só que essa distinção não significa que o estresse acontece só quando existe um problema real e a ansiedade quando o problema tá na nossa cabeça.
Isso seria uma simplificação ruim aqui. Uma situação real de estresse pode gerar muita ansiedade, e uma pessoa que já tá ansiosa pode perceber as demandas cotidianas ainda como mais difíceis de administrar. Então os dois processos podem acontecer juntos e eliminar um ao outro. Por isso, mais uma vez, o contexto importa. Se você tá atravessando um mês muito difícil no trabalho, se você percebe que fica muito mais tensa justamente nos dias de maior demanda, existe uma informação importante aí.
Agora, se a preocupação tá presente em várias áreas da vida, Se é difícil de controlar, se ocupa grande parte do teu tempo, continua interferindo no sono, na concentração, nos relacionamentos, nas tuas decisões, a gente precisa olhar com mais cuidado pra essa ansiedade, tá? E tem um outro ponto importante, tá? A ansiedade também não é um diagnóstico. Existem diferentes transtornos relacionados à ansiedade e ao medo. Pausa pra água.
Mas esses diagnósticos têm características diferentes. Uma pessoa ela pode ter preocupações excessivas sobre diversas áreas, outra pode apresentar crises de pânico, a outra pode ter um medo muito específico e começar a organizar a vida ali para evitar esse medo. Então dizer, ah, eu tenho ansiedade, isso diz muito pouco clinicamente, tá? A pergunta continua sendo: como que isso aparece? Há quanto tempo? Em quais situações? Com que intensidade?
E qual é o impacto que tá tendo na tua vida. E agora falta uma experiência que se mistura bastante com tudo que a gente conversou até aqui, tá? Porque, gente, algumas pessoas não se descrevem como tristes, nem ali que passam o dia preocupadas, mas elas dizem assim: ai, eu só tô exausta, parece que eu cheguei no meu limite. E aí que a gente precisa conversar sobre esgotamento emocional, também sobre uma palavra que até ficou um pouco clichê nesses últimos tempos, que é o burnout, tá?
Eu quero falar sobre essa experiência que pode ser confundida tanto com a ansiedade quanto com a depressão, que é a sensação de estar completamente esgotada. A pessoa costuma descrever mais ou menos assim: eu não tô exatamente triste, eu não tô exatamente ansiosa, só não tenho energia para mais nada. Ela já acorda cansada, começa o dia já pensando em tudo que precisa resolver e percebe que as tarefas que antes eram simples passaram a exigir um esforço enorme.
Fica mais irritada, menos paciente, tem dificuldade de concentração, sente que nunca consegue se recuperar completamente. Isso pode acontecer depois de períodos prolongados de estresse. Então, quando a gente passa muito tempo respondendo a demandas sem espaço suficiente para recuperação, o corpo e a mente começam a mostrar sinais dessa sobrecarga. E aí é que existe uma distinção importante, e porque uma essa palavra começou a ser usada para praticamente qualquer estado de exaustão, tá?
Porque na CID-11, a Organização Mundial de Saúde classifica o burnout como um fenômeno ocupacional e não como uma condição médica. Ele tá então relacionado ao estresse crônico no trabalho, que não foi administrado, tanto a sensação de exaustão, um maior distanciamento ali mental do trabalho, sentimentos de negativismo, de pessimismo relacionados ao trabalho, uma redução da eficácia profissional. Então o burnout não é simplesmente um estar cansado assim, ai, tô cansado para vida.
Não, uma pessoa que passou meses talvez cuidando de um familiar doente pode estar esgotada, profundamente esgotada. Alguém que tá atravessando um luto, uma crise financeira, uma série de problemas familiares também pode chegar num nível ali de exaustão. Esse sofrimento é real, merece cuidado, mas não recebe o nome de burnout, né? Pelo menos não na classificação oficial. Essa precisão, ela importa porque ajuda a gente a entender o que que tá adoecendo aquela pessoa e que mudanças precisam acontecer.
Também ajuda em uma diferenciação que pode ser bastante difícil, que é no burnout e da depressão, porque os dois podem envolver exaustão, desânimo, Dificuldade de concentração, até perda de prazer. Mais uma pergunta importante aqui para avaliar, entender a diferença é se esse sofrimento, aonde que ele começou, tá? Onde ele começou e até onde ele se espalhou? No burnout, ele tende a estar mais concentrado ali na relação da pessoa com o trabalho.
Já na depressão, as alterações de interesse, de prazer, vão atravessando várias áreas da vida. Então a pessoa deixa de se interessar pelo trabalho, mas também pelos hobbies, pelo relacionamento, pelo autocuidado, por atividades que antes eram importantes para ela. Isso não significa que exista ali uma fronteira perfeita, tá, gente, entre tudo isso. Uma pessoa com burnout pode também ter depressão, ansiedade ou outras condições, outros transtornos.
É justamente por isso que o diagnóstico diferencial exige uma avaliação muito cuidadosa. E aí tem um ponto que eu considero muito importante quando a gente fala de burnout, que é: a gente não pode colocar toda a responsabilidade pela recuperação sobre a pessoa que adoeceu. A psicoterapia, ela pode ajudar a identificar os padrões de autocobrança, de perfeccionismo, de dificuldade de estabelecer limites, medo de decepcionar as pessoas, crenças ali que associam o valor profissional, o valor pessoal ao profissional, à produtividade.
Mas também pode ajudar no desenvolvimento ali de assertividade, né, de estratégias mais saudáveis para lidar com a demanda. Então a terapia ela ajuda isso, mas a terapia não controla os fatores externos, né, uma jornada excessiva de trabalho, metas impossíveis, falta de suporte de equipe, condições precárias de trabalho. Então se parte do adoecimento tá na relação entre a pessoa e o ambiente profissional, esse contexto profissional também precisa entrar na análise.
Por isso, quando alguém diz, ah, eu tô esgotada, a pergunta não deveria ser só, como que eu faço essa pessoa aguentar mais, né? Se tornar mais forte pra aguentar a paulada aqui do trabalho. Não é isso. A gente precisa compreender o que que tá produzindo e mantendo aquele esgotamento e quais mudanças são possíveis. E isso vale pra tudo o que a gente conversou até agora. Porque o cansaço, a dificuldade de concentração, as alterações no sono, a perda de energia, isso apareceu aqui em vários momentos desse episódio, né?
Isso nos leva a uma questão fundamental pra gente entender a saúde mental. Por que que os mesmos sintomas podem aparecer em problemas tão diferentes? Então, se você pesquisar lá, né, no ChatGPT, estou cansada, irritada e não consigo me concentrar, ele vai encontrar várias possíveis explicações. É justamente por isso que uma avaliação psicológica, psiquiátrica, não funciona como um teste da internet, né, que você marca ali os sintomas e recebe um diagnóstico no final.
Um profissional precisa compreender o padrão completo. As perguntinhas que eu fiz para vocês: onde, quando que isso começou? O que que tava acontecendo na vida dessa pessoa? Os sintomas surgiram juntos ou em momentos diferentes? Apareceram em determinadas situações ou atravessaram praticamente todos os contextos da tua vida. Há quanto tempo esses sintomas apareceram? Teve alguma mudança importante na forma como você funcionava antes?
E quando tudo isso tá— quanto que tudo isso tá interferindo no teu trabalho, nos teus relacionamentos, no teu autocuidado, na tua vida cotidiana? Essas informações, elas vão ajudar a construir hipóteses e fazer algo muito importante na saúde mental, que é o diagnóstico diferencial. Porque quando duas condições compartilham ali sintomas parecidos, o profissional precisa então investigar qual explicação descreve melhor essa tua experiência, tá?
E às vezes a resposta não vai ser só uma. Uma pessoa pode estar passando por um período de estresse intenso e também apresentar um transtorno de ansiedade, pode estar deprimida e ansiosa, pode ter um quadro relacionado ao trabalho e ao mesmo tempo apresentar sintomas que já se espalharam para outras áreas da vida. Por isso, em saúde mental nem sempre existe uma única palavra capaz de organizar tudo o que alguém tá sentindo. E aí, gente, ainda existe um outro cuidado importante, que é: nem todo sintoma que parece psicológico necessariamente tem uma origem exclusivamente psicológica.
Porque alterações, como a gente falou, de energia, sono, concentração, humor, também podem estar associadas a condições médicas, a medicamentos, uso de substâncias e até outros fatores. Então, dependendo daquilo que aparece durante avaliação, pode ser necessário investigar também outras possibilidades, tá? Então vamos voltar comigo para a pessoa que abriu esse episódio, aquela pessoa que sabe que alguma coisa mudou. Ela tá cansada, tá dormindo pior, tá mais irritada, com dificuldade de concentração, sem a mesma disposição de antes.
Ela abre a internet e encontra ali ansiedade, depressão, estresse, burnout. Depois de tudo que a gente conversou, percebe como seria difícil escolher uma dessas palavras, um desses diagnósticos, olhando só para os sintomas? O objetivo dela não precisa ser descobrir sozinha qual diagnóstico explica perfeitamente o que ela tá vivendo. Ela pode começar observando algumas coisas muito mais concretas. Há quanto tempo que ela tá assim, né?
Isso tá piorando? Quais áreas da minha vida isso tá impactando? E o que eu deixei de conseguir fazer? Quanto isso tá interferindo na maneira como eu vivo? Então você não precisa chegar no consultório dizendo, olha, eu tenho isso, eu tenho aquilo. Você vai chegar dizendo, eu não tô me reconhecendo, eu parei de fazer coisas que eu gostava, minha cabeça não desliga, eu tenho dificuldade para trabalhar, eu não consigo descansar, isso tá acontecendo há semanas e não tá melhorando.
Isso, gente, já oferece informações super importantes para começar uma investigação mais cuidadosa ali. Você não precisa saber o nome do que você tá lidando, do que você tá passando, para ir lá e buscar ajuda. E essa é uma das mensagens mais importantes desse episódio, porque se você não precisa chegar com um diagnóstico pronto, você precisa se perguntar: em que momento eu deveria procurar ajuda profissional? Tá, muita gente tem essa dúvida.
Depois de tudo que a gente conversou, é muito importante responder isso. Em que momento o que eu tô sentindo deixa de ser algo que eu que deveria apenas observar e passa a ser algo que merece ajuda profissional. Eu gosto de começar dizendo que você não precisa esperar descobrir isso com certeza absoluta, tá? Alguns critérios podem ajudar você perceber o quanto tá sério o negócio ali, que você precisa buscar ajuda, né? Mas você precisa analisar primeiro o tempo.
Uma reação emocional ali que pode aparecer diante de uma situação difícil, ela pode diminuir conforme os dias estão passando, e aí tudo se resolve. Agora, se o teu sofrimento tá persistindo por semanas, continua voltando, parece estar se intensificando, então vale prestar atenção. O segundo é o impacto no teu funcionamento. Você continua conseguindo trabalhar, estudar, cuidar de você, manter os seus relacionamentos, realizar as atividades importantes?
Ou você tá percebendo que coisas que antes você fazia agora estão ficando mais difíceis? Às vezes essa mudança aparece de forma muito concreta. Você começa a faltar ao trabalho, para de responder os seus amigos, abandona as atividades que você gostava, a casa começa a ficar bagunçada, difícil de cuidar, tomar banho, preparar uma refeição, sair da cama parece tão difícil, exigir tanto esforço, tá? Então nem sempre o prejuízo é tão evidente, tem gente que continua fazendo tudo, vai trabalhar, cuida dos filhos, responde mensagens, aparece nos compromissos e por fora tá parecendo tudo ótimo.
Só que essa pessoa tá usando praticamente toda a energia que ela tem para conseguir manter esse funcionamento. Isso não é sustentável. Por isso, não olha só para o que você tá conseguindo fazer, tá bom? Você precisa observar também quanto que tá te custando fazer as coisas que você precisa fazer. Um outro sinal importante é perceber mudanças relevantes em relação à pessoa que você costumava ser. O teu sono mudou muito, teu apetite, você tá se sentindo mais isolada.
Então todas essas coisas que a gente já citou aqui é importante Você perceber, você começou a evitar situações por medo? Tá recorrendo cada vez mais a álcool, a outras substâncias para você conseguir lidar com o que você tá sentindo? Então tudo isso são informações que merecem ser levadas para uma avaliação. E aí existe um grupo de sinais que exige ainda mais atenção se você começar a ter pensamentos daqueles que eu falei, né, de sensação de que eu quero desaparecer, era melhor que eu não tivesse aqui, eu queria dormir e não acordar.
Pensamentos recorrentes de morte, tá, pensamentos de tirar a própria vida. Gente, isso precisa ser levado a sério, tá? Você não precisa esperar que exista um plano concreto ali, né, uma situação concreta para que você busque ajuda, tá? E quando existe risco imediato da pessoa se machucar, uma dificuldade de se manter em segurança, a prioridade é buscar atendimento de urgência e não ficar sozinha de jeito nenhum. Fala pras pessoas ao teu redor que você não tá bem e que você não pode ficar sozinha, tá bom?
Se possível, seja clara: eu não estou bem, estou tendo esses pensamentos, eu preciso de ajuda, não me deixa sozinho, tá? Também quero falar aqui com quem tá ouvindo tudo isso e pensa o seguinte: ah, mas o que eu tô sentindo não é tão grave assim, Alana. O sofrimento psicológico, ele não precisa atingir o pior estágio para justificar você buscar ajuda. A gente procura um profissional justamente para entender o que está acontecendo, avaliar os riscos, identificar os fatores que podem estar mantendo aquele sofrimento e aí decidir qual que é o cuidado mais adequado.
Então pedir ajuda cedo também é prevenção. E talvez esse seja um dos recados, uma das mensagens mais importantes que eu gostaria que você guardasse nesse episódio. Tá? Que você não precisa esperar chegar no limite. Tem uma frase que eu escuto com muita frequência quando a gente finalmente chega na terapia, que é: Ah, eu acho que eu deveria ter procurado ajuda antes. E quando você pergunta por quê, por que essa pessoa demorou muito tempo, ela fala: Ah, eu achei que ia passar.
Eu achava que eu ia conseguir resolver sozinha, tinham pessoas passando por coisas piores do que eu, porque eu ainda tava trabalhando, fazendo as minhas coisas. Eu achei que eu não tava tão mal. Eu pensei que eu podia esperar mais. Só que a terapia não precisa começar quando a tua vida já tá insustentável. Você pode procurar um psicólogo porque você percebeu que você não tá tão legal, porque existe um padrão aí que tá se repetindo, porque você tá sofrendo mais do que você gostaria, porque as tuas estratégias habituais já não estão funcionando tão bem quanto funcionavam antes, e você tá querendo entender melhor o que que tá acontecendo com você.
E uma boa avaliação não deveria começar tentando encaixar você rapidamente num diagnóstico. Tá? Ela começa tentando compreender a tua história, os teus sintomas, né, a evolução desses sintomas, que áreas da tua vida foram impactadas. E a partir daí a gente consegue pensar em hipóteses e principalmente em tratamento. Porque receber um diagnóstico, quando existe um diagnóstico, não é o final, o ponto final da conversa ali, né? O diagnóstico ele precisa ajudar a orientar o cuidado.
E eu faço questão de falar sobre isso porque na minha clínica, na Psique do Futuro, a gente tem uma preocupação muito grande com a psicologia baseada em evidências. A gente tem psicólogas especialistas em diferentes demandas de saúde mental e a gente busca oferecer tratamentos orientados pelas melhores evidências científicas disponíveis. A gente leva em consideração também a experiência clínica do profissional, as características, a necessidade daquele paciente, as preferências dele.
Então, se durante esse episódio você percebeu que algumas dessas mudanças estão acontecendo com você e você gostaria de conversar com um profissional, o QR code vai estar aparecendo aí na tela, que leva diretamente para nossa clínica, tá bom? Você pode entrar em contato com a nossa equipe, a gente vai te ajudar a encontrar uma psicóloga adequada para aquilo que você tá vivendo. Então, eu quero terminar voltando àquela pergunta que deu nome para o episódio, tá?
É ansiedade? É depressão? É estresse? É burnout? Depois dessa conversa, eu espero que você tenha percebido que existem diferenças importantes entre essas experiências, tá? Também existe muita sobreposição entre elas. E que você tentar encontrar sozinha o rótulo perfeito pode fazer você perder de vista a informação que é mais importante, que é como que você tá vivendo, como você tá se reconhecendo, se percebendo. Você consegue continuar fazendo as coisas que são importantes pra você?
Você tá ainda conseguindo encontrar prazer? Descanso, conexão na tua rotina? Ou você tá sentindo aí algum tempo que algo mudou, que você tá tentando fazer um esforço cada vez maior para continuar funcionando como antes? Você não precisa saber qual diagnóstico exatamente você tem, tá? Às vezes o primeiro passo é conseguir reconhecer com sinceridade que você não tá bem, não tá bem como costumava estar, e que você quer entender, né, o que que tá acontecendo com você.
Tá? Isso já é suficiente para começar essa conversa. Se tem uma mensagem que eu gostaria que você ficasse desse episódio, especialmente em um momento em que a gente tá falando tanto sobre conscientização sobre saúde mental, é essa: não espera o sofrimento se tornar insuportável para considerar que ele merece cuidado. Saúde mental também se constrói quando a gente aprende a perceber nossas mudanças, quando a gente leva os nossos sinais a sério.
E quando a gente busca ajuda antes de chegar no nosso limite. É isso, minha gente. Conta aí nos comentários se esse episódio te ajudou. Busca ajuda. Eu espero muito te ver lá na minha clínica, ou seja com outro profissional, mas ver vocês buscando ajuda, fazendo terapia, isso é meu maior objetivo com tudo que eu faço aqui no podcast. Então um beijo grande, a gente se vê na próxima semana.