Episódios de Psicologia na Prática

#292 - Parte 2: Por que você confunde intensidade com conexão nos relacionamentos

15 de setembro de 202634min
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Por que algumas relações fazem você sentir um frio enorme na barriga enquanto outras, mais tranquilas, parecem "sem química"?

Neste episódio do Psicologia na Prática, Alana Anijar explica por que podemos confundir intensidade emocional com conexão e como imprevisibilidade, ansiedade e ciclos de afastamento e aproximação podem aumentar aquilo que sentimos por alguém.

Usando Ross e Rachel e Monica e Chandler, de Friends, como analogia, você vai entender a diferença entre química, intensidade, intimidade e segurança e aprender a observar o que realmente sustenta uma relação saudável.

Mesmo que você nunca tenha assistido à série, esse episódio é para você.


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Participantes neste episódio1
A

Alana Nijá

HostPsicóloga
Assuntos5
  • A diferença entre intensidade emocional e conexão em relacionamentosintensidade emocional·conexão·Friends·Ross e Rachel·Monica e Chandler
  • Diferenciando conexão saudável de ativação emocional intensa em relacionamentosconexão saudável·ativação emocional·idealização·espontaneidade
  • A importância da convivência e resolução de conflitos em relacionamentos saudáveisconvivência·conflito·segurança·intimidade·John e Julie Gottman
  • Estratégias para construir relacionamentos maduros e sustentáveis além da intensidade inicialmaturidade emocional·paixão·segurança·estabilidade
  • Como a imprevisibilidade e os ciclos de tensão e alívio afetam a percepção de intensidadeimprevisibilidade·tensão e alívio·ansiedade
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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ANAlana Nijá

E aí, minha gente, sejam bem-vindos a mais um episódio do Psicologia na Prática. Eu sou Alana Nijá, sou psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, mestre em ciências do desenvolvimento humano, e tô aqui toda terça-feira com mais um episódio para te ajudar a construir uma vida mais leve, com mais inteligência emocional. Se você tá me ouvindo aí pelo YouTube, lembra de deixar seu like, lembra de se inscrever no canal e também no Spotify, outro streaming que você esteja me ouvindo aí.

Dá para você avaliar o podcast, dá para você me seguir aqui para receber sempre que mais um episódio sair. E hoje a gente vai dar sequência, vai ser a parte 2 de um episódio que começamos a falar semana passada. Mas não se preocupa se você não ouviu, você pode ir lá, claro. Recomendo até que você ouça primeiro aquele episódio da semana passada, depois venha para esse. Mas se você caiu nesse também, continua ouvindo aqui porque eu vou fazer um resuminho e você vai com certeza conseguir entender muito do que a gente vai falar aqui hoje, tá?

A gente começou então semana passada a falar sobre por que que relacionamentos intensos emocionalmente normalmente nos deixam com essa sensação, né, de que tem muito mais amor envolvido do que aqueles que têm mais paz ali, que o nosso coraçãozinho fica mais tranquilo. Você já sentiu mais química justamente com as pessoas que te deixavam mais inseguras? Às vezes uma pessoa aparece, mexe profundamente com você, provoca aquela sensação de que, meu Deus, eu nunca senti algo assim por ninguém.

E aí você pensa o dia inteiro naquela pessoa, espera mensagem, sente frio na barriga, interpreta aquela intensidade toda como um sinal de uma conexão extraordinária. Só que a gente viu semana passada que intensidade emocional e conexão não são a mesma coisa. Então nesse episódio a gente vai continuar falando sobre por que essa imprevisibilidade pode aumentar a nossa tensão, a nossa ansiedade dentro dos relacionamentos. Por que algumas pessoas estranham relações mais tranquilas?

E como a gente pode diferenciar paixão, química, intimidade, segurança? Então, ao longo do episódio, desde a semana passada, a gente tá usando também dois casais de referência aqui de Friends. Se você gosta de Friends, assim como eu, você vai saber quem são. O Ross e a Rachel e a Mônica e o Chandler. Então, um relacionamento marcado ali por idas e vindas e o outro que foi construído de uma maneira mais estável. E você não precisa ter assistido, tá, a série, pra acompanhar essa reflexão aqui.

A gente vai seguir então entendendo hoje por que que pensar muito em alguém não significa necessariamente você amar mais, e como que os ciclos de tensão e alívio podem aumentar a tua sensação de intensidade ali, porque que a paz às vezes é confundida com tédio, tá? E a gente vai falar aqui de quais características também que ajudam a construir mais intimidade, porque talvez a pergunta mais importante— eu falei isso semana passada, tá?— não seja quanto essa pessoa mexe comigo, mas sim o que que a gente consegue construir a partir daquilo que a gente sente, tá?

Então, dando sequência ao assunto, vamos começar falando aqui o que que acontece quando o frio na barriga daquele início de relacionamento, ou daquele relacionamento que me desperta muita intensidade emocional, o que que acontece quando isso encontra a vida real? Porque até aqui a gente falou bastante sobre o começo da relação, atração, expectativa, imprevisibilidade, intensidade, aquela sensação de que existe uma coisa muito especial acontecendo.

Só que existe um momento em que praticamente todo relacionamento muda, né? A novidade diminui com o tempo. Vocês já conhecem as histórias ali um do outro, já sabem mais ou menos como que é a rotina. A mensagem de bom dia continua sendo gostosa de receber, mas já não produz aquela mesma expectativa das primeiras semanas ou meses. O encontro ali de sexta-feira deixa de ser um acontecimento extraordinário e começa a fazer parte da vida.

E aí começa uma fase que eu considero muito mais reveladora do que o início de qualquer relacionamento, que é: agora vocês precisam descobrir se vocês conseguem transformar esse sentimento em uma convivência. É até fácil se sentir conectado com alguém durante um jantar maravilhoso, né, numa viagem, ou uma madrugada conversando sobre a vida. Agora é muito mais difícil você preservar essa conexão quando você tá cansada, quando o outro tá irritado, Quando o outro tá cansado também do trabalho, estressado com alguma coisa, quando existem contas pra pagar, decisões pra tomar, famílias pra administrar, filhos, expectativas diferentes, necessidades que inevitavelmente vão entrar em conflito.

É nessa hora que aquela pergunta lá do bloco anterior, que a gente falou lá no último bloco do episódio passado, tá? Essa pergunta foi: o que acontece quando aquilo que eu preciso entra em choque com aquilo que você precisa? Tá? Porque relacionamentos saudáveis também têm conflito. Essa é uma ideia muito importante da gente falar aqui, né? Porque existe muito uma fantasia romântica assim de que duas pessoas muito compatíveis não brigam, quase não brigam.

E não é assim, né? Duas pessoas diferentes vão discordar, vão frustrar uma outra, vão interpretar as situações de maneiras diferentes, vão ter necessidades diferentes em algum momento. Uma vai querer conversar quando a outra quer ficar quieta. Uma quer proximidade quando a outra precisa de espaço. Uma vai considerar uma coisa importante e pra outra aquilo não é nada, é algo pequeno. Então o conflito por si só não diz que alguma coisa esteja errada.

O que começa a dizer muito sobre aquela relação é o que vocês fazem quando o conflito aparece. E aqui eu quero voltar pra Mônica e pro Chandler. Tem um momento de Friends que eu acho muito interessante pra essa conversa. Quando o Chandler e a Mônica, eles têm uma das primeiras brigas ali quando eles estão juntos, O Chandler imediatamente interpreta aquilo como uma possível ruptura, término. Pra ele, uma briga significava que o relacionamento tava acabando.

E aí a Mônica precisa parar e explicar pra ele que os casais brigam, né, que eles não estavam terminando. Eles podem estar irritados um com o outro e continuar juntos. Parece uma cena de comédia, né, e é naquele caso, mas tem uma ideia psicológica bem importante ali. A segurança não é ausência de conflito. Segurança também é você descobrir que o vínculo consegue sobreviver ao conflito. Pensa na diferença que isso produz, tá? Se toda discussão parece uma ameaça de término, você não— você vai acabar evitando conversas difíceis para manter a relação.

Você entra ali, começa a ficar tateando, né, para proteger o relacionamento. E aí qualquer discordância ganha um peso enorme. Você começa a medir as palavras, evitar os assuntos difíceis. Você pode ceder pra encerrar ali a discussão. Ou pode até reagir de uma maneira muito intensa. Porque sente que precisa resolver tudo naquele momento. E aí agora, quando existe uma experiência repetida de vocês podendo discordar, ficando irritados.

Mas aí vocês conversam, resolvem, continuam juntos. O conflito, ele começa a ocupar outro lugar. Ele continua sendo desconfortável, porque é, mas deixa de ser uma ameaça constante para aquela relação. E isso é intimidade sendo construída, não naquele momento perfeito em que vocês concordam sobre tudo, mas quando vocês descobrem que vocês conseguem continuar conectados mesmo sendo duas pessoas diferentes. Tem uma pesquisa do John e Julie Gottman sobre relacionamentos que ajuda bastante a gente entender isso.

?Voz B

Conflito.

ANAlana Nijá

Uma das contribuições importantes desse trabalho foi justamente colocar, deslocar na verdade, a pergunta de casais felizes brigam ou não, para observar como os casais atravessam os conflitos. E existem formas de discordar que preservam o respeito, a abertura, a possibilidade de reparação. E existem padrões que vão corroendo a relação, né, como a crítica constante, como desprezo, como a ficar na defensiva o tempo todo, como o fechamento emocional.

Então pensa como isso é diferente desse nosso termômetro inicial, né? No começo a gente tava falando da pergunta de o quanto de química existe entre nós. E aí depois de um tempo, talvez alguma das perguntas mais importantes seja: eu consigo trazer um problema para essa pessoa? Ela consegue me ouvir sem transformar aquilo em algo, um ataque pessoal? Eu consigo ouvir que eu magoei a pessoa sem precisar passar ali 20 minutos provando que eu sou uma pessoa boa?

A gente consegue pedir desculpa um para o outro? A gente consegue mudar um comportamento depois de uma conversa? Existe curiosidade pelo que o outro sente, pelo que ele tá vivendo? Ou toda discussão precisa sempre terminar com um vencedor e um perdedor? Porque é muito possível, tá, ter uma química ali, como a gente falou no outro episódio, uma química extraordinária com alguém. E aí tem uma capacidade péssima de resolver problemas.

E aí, com o tempo, a segunda coisa, né, que são os conflitos, começa a importar muito mais para a qualidade da relação. E aqui o Ross e a Rachel também são uma analogia interessante, porque eles se gostam, existe ali atração, existe uma história, existe um desejo de ficar juntos. Só que alguns dos conflitos mais importantes entre eles rapidamente deixam de ser apenas sobre o problema original e passa a envolver ciúmes, insegurança, acusações, os dois na defensiva, interpretações sobre a intenção um do outro.

E aí um exemplo mais óbvio, né, que quem conhece Friends com certeza vai lembrar daquele we were on a break. Nós, a gente tava num tempo, a gente tinha dado um tempo na relação ou não. Independente de qual lado você escolheu aí nessa discussão, você sabe que essa questão, né, acaba se transformando em algo muito maior. A discussão deixa de ser apenas sobre o que aconteceu e passa a envolver muita coisa, muita mágoa, versões diferentes ali da mesma história, né, e a necessidade de cada um de provar que tá certo.

E isso é muito real, isso acontece. Muitos casais não ficam presos porque o problema inicial ali era impossível de resolver. Eles ficam presos porque durante a tentativa de resolver o problema, eles criam novos problemas. Uma pessoa traz uma mágoa, a outra se defende, a outra aumenta o tom porque não se sentiu ouvida. E aí a outra sente que tá sendo atacada e contra-ataca. Então aparece uma coisa que acontece 3 anos atrás e depois outra.

Em 20 minutos, ninguém mais tá falando sobre aquilo que começou aquela conversa. Agora os dois estão tentando provar quem machucou mais o outro. E existe algo muito perigoso nisso, que é: quando o conflito vira uma ameaça, a reconciliação também pode ficar muito intensa, né? Passar horas ou até dias brigados. O medo de perder a relação, a distância começa a aumentar. Até que finalmente vão lá, conversa, chora, se abraça, diz que se ama.

E aí vem de novo aquela sensação de alívio, né? Que a gente tanto falou no último episódio. Então isso acaba reforçando exatamente esse ciclo que a gente não quer reforçar. Então, a crise produz distância, a reconciliação produz proximidade. A proximidade depois da ameaça parece muito intensa. E aí, sem perceber, o casal pode começar a depender dessas rupturas pra voltar a sentir conexão. Por isso, uma relação saudável não precisa só saber se reconciliar depois de grandes crises.

Ela precisa aprender a evitar que toda frustração vire uma grande crise. Isso é muito menos cinematográfico, digamos assim, né? Porque às vezes significa você perceber que você foi grosseiro e dizer, olha, desculpa, deixa eu reformular aqui a frase. Significa você conseguir dizer, olha, eu entendi o que você quis dizer, mas não foi assim que eu me senti. Significa você fazer uma pausa quando os dois estão alterados e retomar a conversa depois.

Significa reconhecer, olha, Nessa parte você tinha razão. Significa você não usar uma vulnerabilidade que a pessoa contou pra você como uma arma durante uma discussão, né? E aí você conseguir estar ali com raiva e ainda lembrar que existe alguém do outro lado que você ainda ama. São comportamentos pequenos repetidos centenas de vezes que vão construindo uma sensação muito importante de a gente pode ter um problema sem transformar um ao outro no problema.

E essa é uma das diferenças mais importantes entre intensidade e segurança. Na intensidade, cada conflito parece uma prova do tamanho do amor. Na segurança, o conflito começa a ser tratado como algo que duas pessoas precisam aprender a atravessar. E é por isso que eu gosto muito daquela diferença que a gente tá falando aqui dos casais de Friends, porque com Ross e a Rachel, durante muito tempo era aquela pergunta: será que eles vão conseguir de ficar juntos.

Mas com a Mônica e o Chandler, em determinado momento, essa pergunta não existe mais. Eles estão juntos. Então surgem problemas muito mais parecidos com os problemas da vida adulta, né? Casamento, carreira, dinheiro, expectativas, filhos, frustrações, planos que não saem como eles imaginavam. E aí a questão passa a ser: como que a gente vai lidar com isso juntos? E aqui, né, tem muita maturidade nessa mudança, porque chega um momento que você para de precisar de provas constantes, né, de que aquela pessoa te escolhe.

E aí você começa a observar como que você consegue construir a tua vida ao lado daquela pessoa. Isso são coisas diferentes. Uma grande declaração pode emocionar você ali durante um dia, mas a maneira como alguém conversa com você durante 10 anos constrói um relacionamento. Uma reconciliação ali pode dar um frio na barriga, mas a capacidade de reparar Pequenas rupturas vai construindo confiança. É quando alguém corre atrás de você, né, quando percebe que vai te perder.

Nossa, é uma enorme prova de amor, né? Mas alguém cuidar da relação antes de precisar quase perder também é uma forma de amor. E na verdade, na vida real, é isso que é sustentável. Então por isso que quando a gente pensa em conexão, a gente não pode olhar só para aquilo que acontece nos momentos extraordinários. A gente precisa observar o cotidiano. É no cotidiano que você vai descobrir se tem espaço pra você ser você, se existe respeito quando vocês discordam e seu amor continua presente, quando ninguém lá tá vivendo uma cena de filme.

E aí, vamos então pra uma parte bem prática aqui. Se o frio na barriga não é suficiente, se intensidade não é intimidade, e até casais que se amam podem viver relações muito ruins, como que a gente diferencia uma conexão saudável de uma relação que só tá provocando ali emoções muito fortes. É isso que eu quero te ajudar a observar agora, tá? Como a gente diferenciar conexão de ativação emocional. Então, depois de tudo que a gente conversou até aqui, talvez você tá pensando: tá, Alana, mas como que eu sei o que que tá acontecendo comigo?

Como que eu sei se eu tô vivendo uma conexão profunda ou se essa pessoa simplesmente tá despertando emoções muito intensas em mim? Eu já quero começar dizendo que não existe um teste simples para isso, tá? Não existe uma pergunta que você responde e aí descobre se é amor ou Pode até ter um teste na internet, mas ele não é 100% ali certeiro, né? Porque inclusive essas experiências elas aparecem juntas. Então você pode amar alguém e sentir muito ansiosa dentro daquela relação.

Você pode ter uma conexão que ao mesmo tempo é uma dinâmica que te faz mal. Mas existem algumas perguntas que ajudam a gente a sair um pouco da intensidade do sentimento e olhar para a qualidade da relação que tá sendo construída. A primeira, bem simples, tá? Você pode anotar se tiver com caneta e papel aí ou nas notas do celular. É: quando você pensa nessa pessoa, aparece mais vontade de estar perto dela ou mais medo de perdê-la?

Essas duas coisas podem parecer parecidas, mas não é. Você pode passar o dia pensando que alguém— pensando em alguém ali porque você tá com saudade, porque deseja a companhia dela, né? Porque gosta de estar junto, mas você também pode passar o dia pensando na pessoa porque tá tentando descobrir se ela ainda gosta de você. Por que que ela não me respondeu? Será que eu fiz alguma coisa? Será que ela tá se afastando? Será que ela conheceu alguém?

Então, nos dois casos, aquela pessoa ocupa um espaço mental grande que a gente falou na outra, na outra, no outro episódio, né? Só que por razões completamente diferentes. Uma outra coisa que eu te daria como uma dica para observar Tá? É o que que acontece quando você recebe atenção. Você sente principalmente alegria por estar perto daquela pessoa, ou você tá sentindo um enorme alívio porque por alguns instantes finalmente você não tá sendo rejeitada?

Lembra do que a gente conversou sobre tensão e alívio? Esse é um bom momento para você observar isso. Se você passa horas angustiada esperando uma mensagem, quando ela finalmente chega, uma parte dessa experiência tá vindo simplesmente da redução da ansiedade, tá? Isso não invalida o que você sente, mas te ajuda a entender melhor o que que é esse sentimento, o que que compõe esse sentimento. Também vale você observar o quanto você consegue conhecer a pessoa real, sabe?

Porque relações muito intensas, elas favorecem esse processo de idealização. Então você conhece alguém, tem muita química ali, as conversas são maravilhosas, e aí rapidamente começa a imaginar tudo que vocês poderiam viver juntos. Mas quanto você realmente conhece essa pessoa? Você conhece o comportamento ou você conhece principalmente as promessas? Você conhece como ela é hoje ou tá muito envolvida com quem você acredita que ela poderia se tornar?

Essa diferença é muito importante. Às vezes, quando alguém diz, olha, aí eu nunca tive uma conexão assim, o que existe é uma mistura de conexão real com uma quantidade enorme de expectativa. A pessoa se apaixona por aquilo que já existe e por tudo aquilo que ela imagina que ainda pode existir. Ah não, ele tem dificuldade de se entregar, de se comunicar, mas eu sei que ele vai melhorar. Ele ainda não quer estar num relacionamento porque ele terminou uma relação de muitos anos, mas eu acho que ele tá começando a se abrir.

Aí ele some às vezes, mas quando a gente tá junto ele é completamente diferente. Eu já ouvi isso muitas vezes, viu? De clientes, de amigas. Aí ele disse que não sabe o que quer, mas eu sinto que existe uma coisa entre a gente muito forte quando a gente tá junto. Você percebe como que aos poucos você pode começar a construir uma relação muito mais com potencial do que com a realidade? E uma relação saudável, ela consegue sobreviver ao contato com a pessoa real, né?

Aquilo que a gente falou de conhecer os defeitos, de se frustrar até com que a gente conhece do outro, vai percebendo incompatibilidades, as fantasias do começo vão embora, E ainda assim você consegue olhar para aquela pessoa e pensar: eu gosto de quem você é, não só do que eu imaginei que você fosse, né? Tem coisas que eu conheci que são até melhores do que eu imaginava, e outras que não era bem o que eu imaginava, mas eu entendo que é uma pessoa real aqui na minha frente.

Então isso é muito importante, tá? E aí uma outra pergunta aqui para você se fazer é: você consegue ser espontânea dentro dessa relação? Porque essa é uma coisa que muda muito, tá? Quando a gente tá constantemente preocupado com a possibilidade de perder alguém, a gente começa a performar no relacionamento, a gente começa querer administrar ali a própria imagem, pensar antes de mandar uma mensagem, não parecer interessado demais, evitar falar sobre alguma coisa com medo de demonstrar fraqueza ou de afastar o outro, fingir que algo não incomodou, aceitar coisas que normalmente não aceitaria, tentar parecer mais interessante ou mais tranquila ou menos exigente, menos complicada.

E sem perceber, uma parte enorme da tua energia começa a ser usada para garantir que a outra pessoa continue gostando de você. Isso não é intimidade, tá? Intimidade exige um nível ali de segurança para você se sentir conhecida, é você poder dizer, olha, isso me incomodou, é você conseguir pedir uma coisa para alguém, é você poder discordar, mostrar tuas inseguranças, admitir que errou, é você conseguir ser você, engraçada, estranha, cansada, irritada, vulnerável.

É não precisar apresentar o tempo inteiro a versão de você que acredita ali ser a mais fácil de amar. E aqui parece mais uma coisa que eu quero que você perceba, tá? Quem você tá se tornando dentro dessa relação. Isso é uma das coisas mais importantes aqui, porque às vezes a gente fica tão preocupado tentando entender o outro que a gente esquece de observar o que que aquela dinâmica tá fazendo com a gente. Você tá mais segura nessa relação ou mais insegura?

Você tá conseguindo continuar vivendo a sua vida ou você abandonou tudo para acompanhar o ritmo ali da relação? Você tá mais próxima das pessoas que você ama ou tá cada vez mais isolada? Você consegue se concentrar no trabalho? Consegue dormir? Consegue cuidar de você? Consegue manter as tuas relações, suas amizades? Os teus limites estão mais claros ou você tá negociando as coisas que eram importantes para você antes? Você gosta da versão de si mesma?

Que tá aparecendo aí durante essa relação? Essa pergunta pode ser muito importante, tá? Pode trazer muita informação, muito mais do que o quanto eu gosto dessa pessoa. Porque alguém pode despertar esses sentimentos enormes em você, só que tá fazendo você passar ali meses vivendo numa versão de si mesma que você mal reconhece. Eu observaria também uma coisa que parece pequena, tá, mas que diz muito. O que que acontece Quando nada tá acontecendo, quando não tem briga, quando não existe ameaça de término, quando ninguém tá com ciúme, quando não tem um grande evento, quando não existe uma grande reconciliação, vocês não estão viajando, não estão de férias, não é fim de semana, não existe nenhuma declaração extraordinária, é uma terça-feira comum, vocês estão cansados, jantam, conversam, talvez assistam alguma coisa, cada um faz um pouco das próprias coisas ali.

Como que é tá com essa pessoa quando a relação não tá produzindo nenhum pico emocional? Existe ainda carinho, humor, curiosidade, admiração, companheirismo? Vocês gostam da companhia um do outro? Porque uma vida é construída muito mais nas terças-feiras comuns ali do que no aeroporto correndo atrás da pessoa que tá indo embora. E talvez justamente aí a gente lembra da Mônica e do Chandler, né, como uma Um casal que tão ali no dia a dia, né?

Eles não são um casal perfeito, eles, né, têm os seus conflitos. Mas boa parte da relação deles existe fora de grandes acontecimentos. É na amizade, no humor, no cotidiano. Eles conseguem simplesmente estar juntos ali. E é isso que muitas vezes a gente dá pouca atenção quando a gente fala de amor, né? A gente se pergunta se aquela pessoa ainda nos dá frio na barriga. Mas a gente deveria se perguntar: eu gosto de dividir a vida com essa pessoa quando eu não tenho nenhum frio na barriga?

Construir uma relação, gente, envolve uma quantidade enorme de momentos muito comuns. E existe muito valor nisso quando a gente compreende tudo isso que nós estamos conversando nesses episódios, tá? Agora, falando de uma questão que é bem desconfortável, que muita gente evita pensar, tá? Pensa naquela relação que mais provoca ou provocou intensidade em você. Tá? E imagina o seguinte: se você retirasse toda a incerteza daquela relação, o que que sobraria?

Imagina que amanhã você tivesse certeza de que aquela pessoa gosta de você, ela não vai desaparecer, não existe ninguém disputando ela com você, você não precisa provar nada, não precisa conquistar, nem correr atrás, nem interpretar mensagens, nem viver tentando descobrir o que ela sente. A pessoa simplesmente olha para você e diz: olha, eu quero estar aqui, eu escolho construir isso com você. O que que aconteceria com teu interesse, com teu desejo, com a tua curiosidade, com admiração?

Vocês teriam assunto? Vocês teriam valores compatíveis, projetos que fazem sentido? Você ia continuar querendo conhecer aquela pessoa? Essa pergunta ajuda muito a separar duas coisas que podem estar misturadas ali, que é o tema central desses episódios, né? O desejo pela pessoa e o desejo de finalmente ser escolhido por ela. Tá? Então às vezes a gente passa tanto tempo tentando conquistar alguém que a conquista vira o relacionamento.

E aí quando finalmente consegue aquilo que queria, descobre que, putz, tem pouco a ver aqui nós dois, né? Tem pouco o que fazer depois dessa conquista. E é por isso que uma relação segura pode exigir um tipo diferente de maturidade emocional. Você já não precisa gastar aquela energia tentando garantir que a pessoa fique, Mas agora você precisa aprender a ficar, a construir intimidade, a construir essa relação madura que a gente quer construir e a maioria de nós quer viver.

Então, pra gente finalizar, depois de entender tudo isso, como que a gente faz, né? Já que a gente percebeu tudo isso nesses episódios, o que que eu faço agora com isso? Se eu percebi que as relações que mais mexeram comigo também foram as que mais me deixavam ansiosa, como que eu começo a mudar esse padrão? Então assim, o primeiro passo é justamente parar de usar só a intensidade emocional como um critério para decidir se uma relação vale a pena ou não.

Não existe nada de errado, tá, em querer sentir paixão, frio na barriga. Eu não tô defendendo que você tenha que escolher uma pessoa só porque ela é segura, gentil, disponível. Relacionamentos amorosos envolvem também o desejo, a atração, a curiosidade. Você precisa gostar daquela pessoa, tá? Deixa isso bem claro. A mudança aqui tá em ampliar o teu termômetro. Então, para além do sentimento, você começar a olhar para se aquela relação funciona, né, se existe tudo isso que a gente falou: reciprocidade, consistência, interesse, admiração, valores, tudo aquilo que a gente falou.

Isso tudo você precisa começar a usar como termômetro também. Então, uma coisa é o tamanho da emoção que você, que alguém desperta em você, outra coisa é a qualidade da relação que vocês estão construindo com essa emoção. E aí um segundo movimento que pode ser desconfortável, mas é você aprender a dar tempo para as relações que não produzem aquela explosão emocional imediata. Então aqui eu quero tomar cuidado com essa ideia, eu não quero que você entenda que você precisa ficar insistindo numa relação que você não sente nada, não é isso, tá?

Você não precisa continuar saindo com alguém durante meses tentando se convencer de que você gosta daquela pessoa só porque ela é ou parece ser emocionalmente saudável. Mas também você não precisa concluir tão rapidamente que a ausência daquela ansiedade significa ausência de química. Até porque a química às vezes ela pode ser construída, né? Às vezes você conheceu alguém ali, viu 3 vezes a pessoa, e você já tá comparando aquela pessoa com aquela experiência da relação anterior que te deu todos aqueles fogos de artifício.

Calma, é uma comparação injusta, né? Até porque A relação anterior teve a história anterior, teve, né, aquela, todo o combo que não necessariamente vai ter agora. Essa pessoa nova, ela é praticamente uma desconhecida. Algumas conexões começam com uma intensidade muito grande, enquanto outras vão, sabe, construindo ali conforme você vai conhecendo, tendo confiança, admirando, criando intimidade. E aí talvez a Mônica e o Chandler aí de novo seja uma analogia que Eles não são apresentados ali pra gente na série como duas pessoas que passaram anos olhando uma pra outra e pensando, meu Deus, esse é o amor da minha vida.

Bem pelo contrário, eles eram amigos durante anos ali, nunca tinham nenhum tipo de envolvimento. A relação deles nasce dentro da amizade que já existia e vai ganhando uma dimensão ali que eles não esperavam. Então, aos poucos, aquilo se transformou. Eu gosto desse exemplo porque ele lembra uma coisa que a gente esquece às vezes, tá? Nem todo amor importante chega fazendo um barulho. Alguns vão começar com uma sensação diferente, outros vão ficar ali durante um tempo até você amadurecer o que que você tá sentindo pela pessoa.

Então não diga um não imediato para quem não te deu uma intensidade emocional de cara, tá? O terceiro movimento é você aprender a criar emoção sem precisar criar instabilidade. Existe uma diferença entre uma relação segura e uma relação acomodada. Uma segurança não significa você fazer sempre a mesma coisa, parar de demonstrar desejo, deixar de flertar, abandonar a tua individualidade, transformar o relacionamento ali numa coisa super administrativa.

Os relacionamentos de longo prazo, eles também precisam de novidade de vez em quando, precisam de curiosidade, de experiências compartilhadas, de espaço individual. Precisam também de intimidade sexual, de brincadeira. Precisam daquela sensação de que mesmo conhecendo alguém há anos, ainda existe uma pessoa ali inteira, né, que você não terminou de conhecer. Você pode viajar para um lugar novo, experimentar uma coisa diferente, pode surpreender a pessoa, podem ter projetos separados, podem continuar cultivando interesses diferentes próprios ali, podem criar situações em que vocês se vejam de fora, ali fora dos papéis automáticos da rotina.

Percebe a diferença? Você não precisa criar insegurança para criar emoção. Você não precisa provocar ciúme, não precisa ameaçar ir embora nem desaparecer para o outro sentir saudade. Não precisa de briga, gente, para ter uma reconciliação maravilhosa depois. Existe ali uma quantidade enorme de vida que pode acontecer dentro da segurança. E talvez exista ainda um quarto movimento aqui para a gente encerrar, que é você aprender a tolerar o fato de que um relacionamento saudável não vai manter você em estado de euforia o tempo inteiro.

Nenhum relacionamento consegue fazer isso. A paixão, ela muda, o corpo se habitua à presença do outro. O que antes, lá no início, né, só um dedo ali se tocando na mesa já era motivo para um frio na barriga, isso vai necessariamente, em algum momento você vai se sentir natural, normal estando perto da pessoa, do corpo dela. Existem semanas incríveis e semanas absolutamente comuns, meses absolutamente comuns, uma vida comum. Existem períodos com muito desejo, em outros períodos em que o trabalho, os filhos, o cansaço, a saúde, problemas da vida ocupam mais espaço.

Isso não significa que o amor acabou. Uma das maiores armadilhas é a gente usar a intensidade como um termômetro e aí começar a interpretar qualquer redução ali de intensidade como uma evidência de que existe uma coisa errada na relação. Nossa, eu não sinto a mesma coisa que eu sentia 6 meses atrás. É claro que não, vocês também não são as mesmas duas pessoas que se conheceram lá há 6 meses. A pergunta não precisa ser só se você sente ainda a mesma coisa, mas pode ser o que que esse sentimento está se tornando, né?

Então talvez exista menos obsessão e mais intimidade, menos fantasia e mais conhecimento um do outro, menos necessidade de impressionar e mais liberdade, menos medo de perder e mais confiança, tranquilidade. Isso não é uma versão inferior, de amor ou de relação. Isso na verdade é uma versão mais construída dele, tá? Então, minha gente, eu sei que foram dois episódios intensos, de muita reflexão aqui, mas eu queria muito que você saísse dessa série, né, desses dois episódios, entendendo muito mais a forma como você se relaciona, as sensações que os relacionamentos despertam em você, e sabendo diferenciar intensidade emocional de conexão.

Eu espero que isso possa te abrir possibilidades para de repente se relacionar com pessoas que você descartaria e que seria um erro descartar, e que você possa também olhar com mais verdade, encarando relações que talvez você tá levando tempo demais, encoberto ali por uma intensidade emocional que parece ser tudo que você deseja, talvez não seja. Então Reflita, converse com amigos, conversa com seu parceiro sobre tudo isso que você ouviu aqui.

Escreve o que que ficou para você e me conta nos comentários se fez sentido, se eu te ajudei de alguma forma. Se você não assiste Friends ainda, fica essa dica: vai assistir porque é muito bom. E é isso, gente, um beijo, obrigada por me acompanhar até aqui. A gente se vê no próximo episódio. Até semana que vem!

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