#291 - Parte 1: Por que você confunde intensidade com conexão nos relacionamentos
Por que algumas relações fazem você sentir um frio enorme na barriga enquanto outras, mais tranquilas, parecem "sem química"?
Neste episódio do Psicologia na Prática, Alana Anijar explica por que podemos confundir intensidade emocional com conexão e como imprevisibilidade, ansiedade e ciclos de afastamento e aproximação podem aumentar aquilo que sentimos por alguém.
Usando Ross e Rachel e Monica e Chandler, de Friends, como analogia, você vai entender a diferença entre química, intensidade, intimidade e segurança e aprender a observar o que realmente sustenta uma relação saudável.
Mesmo que você nunca tenha assistido à série, esse episódio é para você.
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- A confusão entre intensidade emocional e conexão em relacionamentosFrio na barriga·Química·Paixão
- A analogia de Friends para entender relações intensas versus estáveisRoss e Rachel·Monica e Chandler·Friends·Relações saudáveis
- A distinção entre intensidade e intimidade em relacionamentosQuímica·Paixão·Compatibilidade·Idealização
- A imprevisibilidade do afeto e o reforço intermitente nos relacionamentosAnsiedade·Reforço intermitente·Psicologia comportamental
- A diferença entre alívio e felicidade em ciclos de tensão e reconciliaçãoCiclo de tensão e alívio·Reconciliação·Instabilidade emocional
- A paz como tédio e a busca por intensidade em relações tranquilasQuímica nos relacionamentos·Insegurança·Disponibilidade emocional
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Você já conheceu alguém e em pouquíssimo tempo sentiu que aquela pessoa mexia com você de um jeito completamente diferente? Você pensa nela durante o trabalho, espera uma mensagem, sente aquele frio na barriga quando sabe que vai encontrar, conta pras amigas, pros amigos ali que fazia tempo que não sentia uma coisa tão forte por alguém e parece existir uma química ali seria até difícil de explicar. Agora pensa em uma outra experiência, tá?
Você conhece alguém, gosta da conversa, existe atração, a pessoa demonstra interesse, você sabe que ela quer estar com você, ela não desaparece, não faz você passar o dia tentando interpretar uma mensagem, não deixa você constantemente se perguntando o que que tá acontecendo, sabe? Você se sente bem perto dela. Só que depois de algum tempo começa a aparecer uma dúvida: será que eu realmente tô apaixonado por essa pessoa? Porque eu não sinto aquele frio na barriga, tá tudo tão tranquilo.
Você já ouviu falar disso?
Talvez você já já tenha experimentado isso, já tenha vivido exatamente essa contradição. Uma relação que fazia muito mal, talvez, mas que você se sentia extremamente atraído, sentia emoções muito intensas ali. E talvez uma outra que era mais tranquila, mas que fazia você se perguntar se tava faltando alguma coisa. E é justamente sobre essa confusão que eu quero conversar com você hoje, porque eu escuto muita gente relatando esses dois casos.
Então vamos lá. E aí, minha gente, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Psicologia na Prática. Eu sou Alana Nijá, sou psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, mestre em ciências do desenvolvimento humano. E eu tô aqui todas as terças-feiras com um novo conteúdo para te ajudar a construir uma vida mais leve, com mais clareza emocional, mais inteligência emocional. Então, para começar, se você tá me assistindo pelo YouTube, já aproveita para curtir esse vídeo, para se inscrever no canal.
E se você tá me ouvindo pelo Spotify ou outra plataforma de streaming, lembra de seguir o podcast aí, avaliar com 5 estrelas se você gosta do meu conteúdo. Isso me ajuda muito. A chegar a cada vez mais pessoas. Agora então vamos voltar para esse assunto. A gente falou, começou aqui falando dessas duas situações que eu trouxe no começo, porque existe uma razão para uma relação que nos deixa ansiosos, inseguros, confusos, e essa relação conseguir às vezes parecer muito mais intensa do que uma relação onde existe segurança.
A gente usa muito a intensidade das nossas emoções como uma evidência da qualidade ali daquela conexão. Se mexeu muito comigo, então deve ser muito especial. Se eu não consigo parar de pensar, eu devo estar muito apaixonada. Se eu tô com medo de perder, porque eu amo muito essa pessoa. Se o meu coração dispara quando chega uma mensagem, nossa, é porque tem muita química aqui. Só que existe um problema: o nosso corpo, ele pode ficar extremamente ativado tanto diante de algo que a gente deseja muito quanto diante de algo que nos deixa inseguros.
E nem sempre é fácil a gente separar essas experiências, porque esse frio na barriga pode acompanhar uma paixão maravilhosa, Mas a ansiedade também pode dar frio na barriga. Pensar muito em alguém pode acontecer porque você tá muito apaixonada, mas também pode acontecer porque você nunca sabe quando aquela pessoa vai aparecer de novo. Sentir um alívio enorme quando alguém te manda uma mensagem pode parecer ali uma felicidade, mas talvez você tenha passado as últimas 6 horas ali angustiada porque achou que aquela pessoa tava se afastando de você.
E aí é por isso que uma pessoa ela pode dizer, nossa, eu nunca senti uma coisa tão forte por alguém. E ela pode estar absolutamente certa, né? Ela realmente nunca sentiu algo tão intenso. A pergunta é: intensidade do quê? Porque intensidade emocional e conexão não são sinônimos, tá? Essa distinção, ela é uma das coisas que eu quero explicar muito aqui, explorar bastante com vocês nesse episódio. Para fazer isso, eu vou usar ao longo da nossa conversa dois relacionamentos de uma série que provavelmente você conhece e que eu amo de paixão, minha série favorita da vida, tá, que é Friends.
Muitos de vocês conhecem, não sei se todos gostam de Friends. É, eu tenho 31 anos, mas a minha mãe é mais da geração ali de Friends mesmo. E ela tinha as VHS, depois os DVDs de todas as séries. E eu cresci vendo com ela e assisto até hoje com meu marido. É a nossa série conforto assim para relaxar. Eu já sei até as falas de cor. Mas vamos lembrar, se você não conhece, tudo bem, eu vou te explicar aqui. Mas se você lembra do Ross e da Rachel e da Mônica e do Chandler, dois casais da série, tá?
Então assim, se você nunca assistiu, calma, tá? Fica comigo. Nenhum desses personagens você precisa conhecer aqui pra entender esse episódio, tá? Eu vou usar os comportamentos desses dois casais só como analogia pra duas formas muito diferentes de viver uma relação. De um lado, então, a gente tem o Ross e Rachel. Um relacionamento que é marcado por muita atração, mas também por muitas idas e vindas, por ciúmes, por separações, por reconciliações, pela dúvida recorrente sobre se os dois realmente ficariam juntos no final, né?
Então tem eles de um lado e do outro lado a Mônica, que é irmã do Ross, né? Tem a Mônica e o Chandler. Então é uma relação que começa ali de uma maneira muito menos dramática, né? Começa com uma amizade e vai se transformando em uma parceria mais estável, na qual os dois ali constroem intimidade, compromisso, atravessam problemas importantes juntos. E tem uma pergunta interessante aqui quando a gente coloca esses dois relacionamentos lado a lado, que é: qual parece mais apaixonante?
Talvez qual daqueles dois relacionamentos você escolheria pra viver? Talvez a resposta não seja a mesma, né? Isso diz muito sobre uma coisa que a gente aprende desde cedo, que o tipo de amor que é interessante de assistir nem sempre é o tipo de amor que é saudável viver. E os filmes e séries nos ensinam muito sobre isso, né? Porque a gente assiste lá uma série tão envolvente, um amor tão cheio de intensidade, E aquilo na vida real não se sustenta.
Nem na série, muitas vezes, né. Porque em praticamente qualquer grande história romântica existe um obstáculo, uma separação, alguém que não pode ficar com alguém, uma terceira pessoa envolvida, uma dificuldade enorme, uma espera, uma perda, uma reconciliação. Isso faz sentido porque uma história precisa de conflito, né. Se duas pessoas se conhecessem no primeiro episódio, conversassem sobre o que elas querem, construíssem uma relação saudável, passassem 10 temporadas ali resolvendo todos os conflitos de forma super madura...
Essa série não teria muita graça de assistir, né? Talvez a audiência não ficasse tão ansiosa ali pelo próximo episódio. A incerteza, ela é ótima pra ficção. O problema começa quando a gente acredita que ela também é necessária pro amor da vida real. Porque aí a gente pode olhar pra uma relação tranquila e pensar: Poxa, sem graça, né? Não tem química. E olhar pra uma relação que nos deixa ansiosos, inseguros, constantemente tentando descobrir o que a outra pessoa sente.
E aí a gente pensa: Nossa, nunca tive uma conexão assim. Pode ter existido conexão, mas também pode ter existido uma quantidade enorme de ativação emocional, de ansiedade misturada nela. E para entender por que que isso aumenta essa sensação de paixão, a gente precisa falar de uma coisa que acontece quando o afeto de alguém é imprevisível, tá? Existe uma razão psicológica para aquela mensagem que chega depois de horas ali de ansiedade parecer muito mais poderosa do que uma mensagem que você já sabia que ia chegar.
E é aí que a intensidade começa muitas vezes a se confundir com conexão. Então agora eu quero que você imagine uma situação, tá? Você tá conhecendo alguém e no começo essa pessoa parece muito interessada. Ela manda mensagem, pergunta sobre o seu dia, diz que adorou te encontrar, faz planos para o próximo fim de semana. Você começa a se envolver ali, só que de repente alguma coisa muda. As respostas ficam mais espaçadas, a pessoa parece mais distante.
Você percebe, mas não sabe por que que isso tá acontecendo. E aí começa aquela investigação mental de: será que eu falei alguma alguma coisa? Será que ela perdeu o interesse? Será que ela conheceu outra pessoa? Será que eu demonstrei interesse demais? Você abre o WhatsApp, não tem nada. Você deve, você continua ali pensando e esperando, você tenta trabalhar, tenta se distrair, mas a tua atenção continua presa naquela conversa até que o teu celular toca.
E aí tem uma mensagem ali: poxa, desculpa o sumiço, a minha semana tava uma loucura, quando que a gente vai se ver? Percebe que naquele momento ali a tensão diminui, você relaxa, você tem uma sensação enorme de alívio, até aquele frio na barriga. E algumas horas Depois vocês se encontram, a conversa é ótima, existe ali desejo, carinho, proximidade, e você volta para casa pensando: nossa, eu gosto muito dessa pessoa. E até você pode gostar mesmo.
O ponto é que existe um outro processo acontecendo ao mesmo tempo, que é o nosso cérebro, ele presta muita atenção naquilo que é imprevisível. Esse é um princípio bastante conhecido na psicologia da aprendizagem. Quando uma recompensa ela acontece sempre da mesma maneira A gente aprende um padrão. Mas quando essa recompensa ali, ela aparece de forma imprevisível, a gente tende a continuar atento, tentando descobrir quando ela vai acontecer de novo.
Na psicologia comportamental, isso ajuda a explicar o poder do reforço intermitente. A gente tem falado disso em alguns episódios aqui, até quando a gente falou de apostas, de jogos de azar e tudo mais. Relacionamentos, eles são muito mais complexos, né, do que experimentos de laboratório, claro. Mas esse princípio, ele nos ajuda a entender melhor essa alternância entre proximidade e afastamento. E o quanto que isso prende a nossa atenção.
Então, quando você não sabe quando alguém vai te responder, quando você não sabe quando que o afeto vai vir de novo, você verifica mais, fica mais atento. Quando você não sabe se a pessoa tá ainda interessada, você fica observando mais os sinais. Quando você não sabe quando que você vai receber carinho de novo, aquele carinho, ele pode ganhar um peso enorme quando ele aparece. A incerteza, ela aumenta a vigilância. Você tá comigo aqui?
Presta atenção nisso, tá? Quanto mais você fica monitorando aquela pessoa, mais espaço ela ocupa na sua cabeça. E aí parece, começa a aparecer uma associação muito fácil da gente fazer, que é: se eu penso tanto nessa pessoa, eu tô muito apaixonado. Pode até estar, mas pensar muito em alguém não mede a qualidade de uma conexão. Às vezes você pensa muito naquela pessoa porque existe uma questão ali em aberto que a tua mente está tentando resolver.
Isso fica ainda mais confuso quando a gente alterna momentos muito ruins com momentos muito bons. Então pensa um casal que passa 3 dias brigando. Aí os dois ficam super mal ali, um ameaça terminar, o outro chora. E aí eles param de se falar. Aí depois vem a reconciliação, eles conversam, se abraçam. Às vezes até tem ali um momento de intimidade. Aí eles dizem que se amam e prometem que agora vai ser diferente. A diferença emocional desses dois momentos é gigantesca.
Você saiu da angústia pro alívio, pro prazer. Da ameaça da perda para uma proximidade, da incerteza para uma confirmação. É claro que aquilo vai parecer muito mais intenso. E existe uma frase que eu quero que você guarde aqui, que é: alívio também pode parecer felicidade quando você passou tempo suficiente num estado ali de tensão. Isso ajuda a gente a entender por que que algumas pessoas descrevem determinadas relações dizendo: olha, quando a gente tá bem é maravilhoso.
Eu acredito nessas pessoas, provavelmente é maravilhoso mesmo. Mas pra gente avaliar uma relação, a gente não pode olhar só pra intensidade dos momentos bons. A gente precisa olhar pra todos os momentos, pro padrão inteiro. Porque existe uma diferença entre uma relação que proporciona boas experiências, bons momentos. E uma relação em que os momentos bons funcionam como um alívio pros momentos ruins. E aqui, o Ross e a Rachel são uma analogia interessante, voltando lá no exemplo, tá?
Mesmo que você nunca tenha assistido Friends, pensa. Simplesmente num padrão que é o seguinte: duas pessoas que se gostam muito, mas passam por aproximações e afastamentos, passam por outros relacionamentos, passam por ciúmes, conflitos, por reconciliações. Então, pra quem tá assistindo, cada reaproximação do casal ganha uma força enorme, né? Porque a gente conhece aquela história ali da separação que veio antes. Então você passa os episódios esperando aquilo acontecer.
E aí, quando eles ficam juntos, você fala: Ai, finalmente eles ficaram juntos! Essa estrutura funciona maravilhosamente numa série. Só que na vida real, gente, viver permanentemente num estado de expectativa por estar junto, por viver um bom momento, pode ser muito desgastante, tá? Então a gente precisa perceber isso. Toda relação passa por altos e baixos. Pessoas podem se afastar, se reencontrar. Os casais enfrentam crises, conflitos.
Isso faz parte da intimidade. Mas o problema é quando a instabilidade se torna ali quase que o combustível para aquela relação. Então vocês precisam quase que se perder para voltar a sentir que se amam, né? Precisa terminar para daí querer estar junto, né? Quando a reconciliação é sempre maravilhosa, mas ninguém consegue construir uma estabilidade ali entre uma reconciliação e outra. Quando as maiores demonstrações de amor só vem depois de ameaçar, né, quase terminar, quando quebra pau, briga quase termina, ai, daí agora a gente fica bem, a gente se ama, e aí vem os melhores momentos.
Não dá para viver assim, né? Quando você só consegue sentir segurança depois de ter sentido muito medo, né? Nesse ponto vale a pena você se fazer uma pergunta ali, né? Quanto dessa intensidade que existe entre vocês nessa relação vem desse ciclo de tensão aqui, alívio que eu falei, né? E quanto vem da da própria relação. Então existem essas duas coisas que podem coexistir. Você pode amar alguém e viver uma dinâmica que aumenta a ansiedade.
Você pode ter um desejo ali e também uma insegurança. Você pode ter carinho e imprevisibilidade. Pode existir uma conexão verdadeira dentro de uma relação que não funciona bem. E a gente precisa encarar essa realidade, reconhecer isso é muito importante porque evita uma conclusão que muita gente tira, que é: se eu sinto tudo isso, então essa pessoa só pode ser o amor da minha vida, não posso perder essa pessoa por nada, né? Então a intensidade do sentimento, ela não pode ser a resposta para se aquele relacionamento é para ser ou não, né?
Essa intensidade, ela mostra que aquilo tá provocando uma resposta emocional muito forte em você. E aí, para você descobrir se existe uma relação ali que vale a pena construir, a gente precisa observar outras coisas. A gente precisa observar reciprocidade, a compatibilidade, né, a consistência da relação, a capacidade hoje de vocês de conversarem, de se respeitar, se os valores são compatíveis, como que vocês atravessam os conflitos, e principalmente como que você se sente quando não tem nenhuma crise acontecendo, tá?
Isso aqui é super importante, gente, presta atenção, porque algumas pessoas descobrem algo bem desconfortável, tá, quando finalmente entram numa relação mais estável. Elas sentem falta da intensidade. Eu já ouvi isso milhares de vezes, de amigos, de pacientes. Não necessariamente a pessoa sente falta da relação anterior, mas sente falta daquela intensidade, da expectativa, da adrenalina, da sensação de conquista. E é aí que uma relação tranquila pode começar a ser interpretada como uma relação sem química.
E aí, agora eu quero entrar exatamente nisso aqui com vocês, tá? Por que que pra algumas pessoas a paz pode parecer tédio quando o amor, ele sempre veio até então, né, acompanhado de ansiedade? Existe uma frase que aparece com bastante frequência quando alguém começa a se relacionar com uma pessoa que é mais disponível emocionalmente, mais tranquila de se relacionar. Então é tipo, eu já ouvi várias vezes: Ai, ele é incrível, uma pessoa incrível, me trata bem, eu gosto de estar com ele, mas eu não sei, parece que falta alguma coisa.
Você já falou essa frase? Eu acho importante a gente levar essa sensação a sério, tá? Porque pode realmente estar faltando alguma coisa, pode não existir uma atração suficiente E aí não dá para forçar a atração, né? Não dá para você empurrar uma relação com a barriga e desperdiçar o tempo da outra pessoa só porque a pessoa é legal, tranquila e te trata bem, né? Você pode conhecer uma pessoa maravilhosa e simplesmente não se apaixonar por ela.
Isso acontece todos os dias, tá? Então ser emocionalmente disponível não torna alguém automaticamente interessante para você, mas existe um padrão que precisa da nossa atenção, que é quando você percebe que as pessoas que mais despertam o teu interesse são justamente aquelas que também mais despertam a tua insegurança. Isso aqui é muito importante. Quando alguém demonstra muito interesse, você perde o interesse. Quando alguém é difícil ali de acessar, você fica fascinada.
Quando você sabe que a pessoa gosta de você, parece que a graça diminui. Mas quando você não sabe exatamente o que ela sente ali, você não consegue parar de pensar nela. E aí, quando você precisa conquistar, existe aquela emoção. Aí, quando você conquista, alguma coisa muda. Se isso acontece com você com frequência, vale a pena investigar o que você aprendeu a reconhecer como uma química nos relacionamentos. Porque a gente não chega nos relacionamentos adultos como uma folha em branco ali.
Muito antes do teu primeiro namoro, já teve milhares de experiências de proximidade, de afeto, de rejeição, de cuidado, de conflito, abandono. De segurança, de reconciliação. Tem os padrões que a gente aprende não só na nossa vida como na televisão, né? Então a nossa história, ela vai construindo expectativas sobre como as relações funcionam. E essas expectativas, elas não ficam só na nossa cabeça, né, como lembranças ali. Elas vão influenciando mesmo aquilo que a gente tá percebendo, aquilo que a gente tá esperando dos outros, a maneira como a gente reage quando alguém se aproxima.
Então se ao longo da tua história o afeto e a imprevisibilidade, eles apareceram muitas vezes juntos, uma relação muito previsível vai causar um estranhamento. É natural. Se você precisou conquistar atenção, você pode ter aprendido a associar essa conquista com interesse. Se você viveu relações em que você precisava ficar monitorando muito o humor da outra pessoa, você pode ter se acostumado a prestar atenção em pequenos sinais.
E aí, se as tuas experiências amorosas, elas foram marcadas ali por muito dessa inconstância de aproximação, de afastamento, É super, assim, esperado até que você construa essa ideia de que o amor, né, significa ali que você tem que ficar correndo sempre atrás de alguém. Isso não quer dizer que você conscientemente queira sofrer. Na maioria das vezes, ninguém olha pra uma pessoa emocionalmente indisponível e pensa, nossa, que ótimo, né?
Encontrei alguém que vai me deixar ansiosa, vem pra cá. Não é assim. A experiência, ela costuma ser, assim, muito sutil, né? Você sente aquela química, aquela curiosidade, um desejo, uma vontade enorme de Ser escolhida por aquela pessoa. E aí aparece alguém diferente. Você manda uma mensagem e a pessoa te responde. Não tem joguinhos ali, né? A pessoa demonstra interesse. Você consegue dizer o que sente pra ela, ela te diz o que ela sente.
Você não precisa ficar decifrando comportamentos. Não existe aquela sensação constante de que você precisa fazer alguma coisa pra manter o interesse dela. E aí, de repente, sobra um espaço que antes era ocupado pela ansiedade. Você não precisa mais pensar tanto, ficar monitorando, conquistando tanto, se preocupando. Porque pra alguém que tá acostumado com relações intensas, essa redução de ativação pode ser interpretada como uma redução até do sentimento.
Então assim, puts, eu não penso nele o dia inteiro, eu não fico louca esperando uma mensagem, eu não tô sentindo aquele desespero pra gente se encontrar. Então acho que eu não gosto tanto assim dessa pessoa. Mas olha como esse raciocínio pode ser enganoso. Porque talvez você pense menos naquela pessoa Justamente porque não existe um problema pra tua mente ficar tentando resolver o tempo todo. Você sabe que ela gosta de você, você sabe que ela vai te responder, você sabe que vocês têm um próximo encontro marcado, você sabe que uma pequena discordância não significa que vai estar tudo prestes a acabar.
Isso libera espaço mental e é tão bom, gente. Essa relação ocupar menos espaço na tua cabeça não significa menos espaço no teu coração, nem menos espaço na tua vida. Na verdade, existe algo muito saudável em conseguir amar alguém e continuar existindo, continuar trabalhando, continuar encontrando seus amigos, tendo interesses próprios, fazendo planos que não envolvem aquela pessoa, dormindo sem precisar analisar a última conversa, né, passar algumas horas sem olhar o celular e sem transformar isso numa ameaça para o relacionamento.
Segurança também é poder baixar a guarda, né. Tá aí, talvez aqui a Mônica e o Chandler, eles ajudem a gente a visualizar essa diferença. Se você nunca assistiu, então continua aqui pensando, tá? São dois modelos que a gente tá comparando. A Mônica e o Chandler, eles não começam como aquele casal que parece destinado ali pra viver uma grande história de amor desde o primeiro episódio. Eles já se conhecem, já são amigos. A relação vai ganhando importância conforme eles começam a construir.
Isso não elimina os problemas. O Chandler, ele tem dificuldade ali com compromisso em vários momentos da série. A Mônica tem as suas próprias inseguranças, expectativas. Eles enfrentam esses conflitos que são importantes ali. Mas a tensão da relação não depende o tempo inteiro de um deles desaparecer pro outro voltar, sabe? Isso permite que a intimidade apareça de um outro jeito. Na amizade, no humor, na convivência, na sexualidade.
Na capacidade de conhecer as vulnerabilidades um do outro. Nos planos de construir uma vida juntos. E principalmente na maneira como eles enfrentam juntos aquilo que eles não conseguem controlar. Talvez seja menos emocionante, né, assistir duas pessoas construindo ali confiança do que assistir duas pessoas quase se perdendo um do outro, depois correndo uma atrás da outra no aeroporto e tudo mais. Como quem viu a série viu aí até o final.
Mas a gente tá falando aqui da vida real. E na vida real você provavelmente não vai querer ali precisar de um aeroporto a cada 6 meses pra confirmar que alguém ama você. Então existe uma diferença importante entre uma relação emocionante e uma relação emocionalmente instável. Uma relação saudável pode ser emocionante. Eu considero que o meu casamento, a minha história, foi emocionante, é emocionante. Pode existir paixão, desejo, aventura, novidade, sexo, surpresa, espontaneidade.
Segurança não precisa transformar duas pessoas em colegas, em amigos. Aliás, esse é um outro erro que a gente comete, é de colocar a paixão e a segurança como se fossem opostos. E não são, pelo menos não deveriam ser. Você pode construir uma novidade dentro de uma relação estável, você pode continuar desejando alguém que você sabe que vai estar ali amanhã ainda, você pode viver experiências novas com alguém em quem você confia, você pode sentir um frio na barriga sem precisar sentir medo.
A diferença é que a relação não precisa ameaçar a tua segurança para produzir emoção. E isso muda muito, tá, a pergunta que a gente faz quando a gente encontra alguém. Em vez de você perguntar só se aquela pessoa mexe com você, vale a pena você acrescentar: o que que exatamente essa pessoa desperta em mim? É desejo? É admiração? É curiosidade? É uma vontade de conhecer? Ou é uma insegurança, um medo de perder, uma necessidade de aprovação, uma vontade de provar que eu sou suficiente?
Porque todas essas experiências, elas podem ser intensas, mas elas não significam a mesma coisa. E aí existe uma distinção que eu considero ainda mais importante, que é paz e tédio também não são a mesma coisa, tá? Tédio é você não encontrar interesse naquela relação, não sentir curiosidade pela pessoa, não desejar proximidade, não admirar, não encontrar uma troca, uma novidade, uma conexão. Agora, a paz é você poder sentir tudo isso sem viver num estado permanente de ameaça, sabe?
É você gostar de alguém sem precisar sofrer para perceber o quanto gosta. É sentir saudade sem desespero. É você desejar sem precisar perseguir, sabe? É ter conflito sem acreditar que cada discussão ali vai colocar o relacionamento em risco. É você saber que existe um vínculo mesmo quando nada de extraordinário tá acontecendo. E talvez essa seja uma das transições mais difíceis para algumas pessoas, né? Porque muitos têm que aprender que a relação ela pode continuar sendo importante quando ela deixa de ser urgente, quando essa sensação passa, né?
Porque quando você passou muito tempo confundindo essa urgência com amor, a tranquilidade ela acaba parecendo uma ausência de sentimento, né? E aí tem pessoas que pensam, nossa, tá, acabou o amor, eu não sinto mais aquele frio na barriga. Também você tá há 10 anos com a pessoa, você não vai mais sentir um frio na barriga, mas você vai sentir outras coisas, né? Isso então nos leva para essa distinção fundamental desse episódio.
Se a intensidade ela não prova conexão e se a tranquilidade não significa falta de amor, o que que diferencia então uma conexão realmente profunda de uma relação que só provoca emoções muito fortes? É disso que eu quero explorar agora aqui com vocês, tá? E provavelmente esse episódio vai ter duas partes de novo, tá? Então a gente já tem tanta coisa para falar aqui que eu vou deixar uma segunda parte para a próxima semana. Então se você tá gostando desse conteúdo, já coloca aí nos comentários que você quer a parte 2, tá?
Porque a gente vai ter que ir com calma aqui para não atropelar os assuntos. Então assim, vamos falar agora sobre intensidade não ser intimidade, tá? A intensidade então ela não é suficiente para dizer se a relação ali, se existe uma conexão. Mas então o que que é suficiente para dar esse veredito? Eu acho que uma das confusões mais comuns é isso, né? Acontece porque a gente usa como sinônimo essas palavras. Química, paixão, intensidade, intimidade, compatibilidade, conexão.
Então você pode ter algumas delas sem ter outras. Pode existir uma química, por exemplo, sexual ali enorme entre duas pessoas que não conseguem conversar sobre nada, absolutamente nada importante. Pode existir paixão entre pessoas com projetos de vida completamente incompatíveis. Pode existir uma intensidade emocional gigante em uma relação na qual ninguém se sente seguro ali. E também pode existir carinho, compatibilidade, segurança em uma relação em que o desejo desapareceu ou não existe.
Por isso, você avaliar uma relação só pela pergunta de o que que eu sinto por essa pessoa não é suficiente. Você precisa de uma outra pergunta muito importante, que é: o que que a gente consegue construir a partir daquilo que a gente sente? Porque sentir é uma coisa incontrolável, acontece dentro de você. Agora, um relacionamento acontece entre duas pessoas. Então você pode amar profundamente alguém e essa pessoa não conseguir oferecer pra você aquilo que você precisa dentro de uma relação.
Eu sei que é triste, mas acontece. Pode existir uma história maravilhosa ali entre vocês, mas vocês podem não conseguir construir um presente saudável juntos. Pode existir um desejo, como eu falei, mas vocês não conseguem confiar um no outro. Então a gente precisa reconhecer isso, por mais difícil que seja. Tá? Justamente porque a gente foi ensinada a acreditar, como eu falei, que esses sentimentos fortes devem então bancar a relação toda ali, resolver o restante, né?
Aquela coisa, ah, mas a gente se ama tanto. E talvez vocês se amem tanto, só que o amor sozinho não ensina automaticamente duas pessoas a conversarem, a terem valores compatíveis, não cria maturidade emocional, né? Não faz ninguém respeitar o limite ali um do outro. Não vai transformar aquela pessoa indisponível emocionalmente em alguém disponível. Não vai garantir que duas pessoas consigam construir juntas o tipo de vida que elas desejam.
Uma relação, ela precisa de sentimento, mas ela precisa também de muitas outras coisas, muitas habilidades relacionais. E é aqui que a intimidade começa a se diferenciar bastante da intensidade. A intensidade pode surgir muito rápido. Você conhece alguém numa sexta-feira e duas semanas depois você sente que nunca viveu algo parecido e já estão namorando, já querem morar junto. Mas isso não significa que vocês construíram intimidade.
A intimidade precisa de tempo, precisa de vivência juntos, né? Depende de você conhecer o outro. Você precisa descobrir quem que aquela pessoa é quando ela tá brava, quando ela tá frustrada, como que ela reage quando você discorda dela, o que que acontece quando ela recebe um limite, como que ela lida com um não. Será que ela consegue assumir responsabilidade quando ela erra? Será que ela consegue ouvir algo que ela não gostaria de ouvir sem transformar aquilo numa guerra.
Você precisa descobrir se aquilo que ela fala combina com aquilo que ela faz. E ela precisa descobrir tudo isso sobre você também. Porque intimidade não é você saber a comida favorita de alguém, você conhecer todos os traumas dela, passar uma madrugada contando segredos. Isso pode produzir ali proximidade, pode ser significativo. Mas intimidade, ela é construída também na experiência repetida de você perceber, olha, Eu posso ser conhecida por você sem eu precisar deixar de ser quem eu sou pra continuar sendo amada.
Isso leva tempo, gente. Talvez seja por isso que as relações muito intensas no início, elas consigam produzir essa sensação tão poderosa de intimidade antes da intimidade realmente existir, né? Porque é aquela coisa, nossa, a gente passou a madrugada conversando até 4 da manhã, contei coisas pra ele que eu nunca contei pra ninguém, a gente passou um final de semana inteiro juntos, foi incrível, a gente tá pensando em viagens, falando de casamento, filhos, se conhecem há um mês.
Né? Mas a gente já tem essa sensação de que essa pessoa me conhece como ninguém. Mas vamos lá, vocês ainda não atravessaram quase nada juntos, tá? Ainda não sabem como que o outro reage, né? Como tudo isso que eu falei ali é muita coisa que a gente precisa aprender. Isso leva tempo, tá? Reparar uma mágoa, né? Ainda não viram ali se as promessas que foram feitas, né, vão ser cumpridas ou não. E talvez aqui tenha uma diferença importante entre os dois modelos de relacionamento que a gente tá usando ao longo desse episódio, tá?
O Ross e a Rachel, eles têm uma história enorme. Existe afeto, existe atração, existe uma ligação ali que atravessa praticamente toda a série. Então eu não acho interessante reduzir a relação deles aqui dizendo que não existia amor ali. Claro que existe, né? Assim, do que a gente vê na série. Mas grande parte da força desse casal, na narrativa deles ali na série, tá justamente na pergunta: sobre se esse amor vai conseguir se transformar em uma relação que funciona ou não.
Com a Mônica e o Chandler, é diferente, né. O que começa ali sem essa grandiosidade vai ganhando profundidade conforme os dois vão acumulando experiências juntos. E existe esse detalhe na relação que eu acho muito interessante. Eles conhecem versões pouco idealizadas um do outro. Porque a Mônica e o Chandler são amigos há muito tempo. Então eles conhecem as inseguranças um do outro. Ela conhece, por exemplo, as dificuldades do Chandler.
Ali com comprometimento nos relacionamentos, a forma dele usar o humor para escapar de situações desconfortáveis, as limitações dele. E o Chandler também conhece ali a Mônica para além da imagem idealizada de uma parceira. Ele conhece a necessidade de controle dela, a competitividade, as expectativas, as inseguranças. E ainda assim eles vão aprendendo a construir uma relação com a pessoa real que tá na frente deles. Isso é muito diferente do que se apaixonar principalmente pelo que alguém representa para você.
Porque outra armadilha da intensidade é que ela facilita muito a idealização. Então quando a gente tá muito envolvido emocionalmente, a gente pode preencher aquilo que a gente ainda não conhece sobre o outro com expectativa. A pessoa demonstra uma qualidade, a gente imagina outras 10. Existe ali uma conversa muito maravilhosa, a gente começa a imaginar então uma compatibilidade que ainda não foi testada. A gente sente uma conexão muito forte e aí começa a construir mentalmente uma história inteira.
Só que relacionamentos não acontecem com aquilo que alguém pode se tornar, acontece com aquilo que a pessoa consegue oferecer hoje. Então isso aqui é uma outra pergunta bem importante para avaliar a conexão nos relacionamentos: é, eu gosto da pessoa que existe na minha frente ou eu gosto da relação que eu imagino que a gente poderia ter se algumas coisas mudassem ou se fossem como eu imaginei? Muita gente tá apaixonada pelo potencial de uma relação ou pelo potencial de uma pessoa.
Ah, quando ele tiver mais preparado, quando ela superar essa fase, quando ele aprender a se comunicar, quando ela tiver pronta para assumir um relacionamento, quando as coisas se acalmarem. A vida tá acontecendo, gente, no intervalo entre aquilo que existe e aquilo que a gente espera que exista um dia. Uma conexão profunda exige ali um contato com a realidade, você começar a enxergar a qualidade, os ver defeitos, descobrir as incompatibilidades, frustrar expectativas, perceber que aquela pessoa não vai preencher todas as tuas necessidades e que mesmo assim existe algo ali suficientemente bom, digamos assim, recíproco, compatível com o que pode ser construído.
Isso é muito menos intoxicante do que a idealização, só que é muito mais sustentável. Por isso eu gosto de resumir essa diferença de uma forma simples assim, ó: A intensidade, ela responde quanto que essa pessoa mexe comigo. E a intimidade, ela responde quanto a gente consegue conhecer um ao outro de verdade e continuar construindo a partir disso. Então assim, gente, falamos muita coisa. Esse episódio, ele foi um episódio muito— eu trouxe muita consciência pra gente aqui sobre por que que essas relações mais emocionantes, intensas, mexem tanto com a gente.
A gente falou sobre a diferenciação, né, de intensidade pra vínculo, pra conexão. Conexão, a diferenciar, né, a intensidade emocional de uma relação necessariamente saudável. Então, olhando para tudo isso, eu quero que você faça uma reflexão. Olha para você, para os relacionamentos que você já construiu, para o relacionamento que você tá construindo, e se pergunta se você tem conseguido enxergar a relação com clareza sobre o que ela é, o que ela faz você sentir, o que vocês estão construindo juntos, tá?
Me conta nos comentários se eu te ajudei, se te fez pensar. E eu quero muito que a gente continue essa conversa, porque no próximo, na próxima parte, no próximo episódio, a parte 2, a gente vai falar então sobre como construir na prática uma relação que é tranquila, que é saudável, que tem conexão sim, mas que consegue sobreviver ao tempo, tá? Lidando com os desafios, passando da fase da emoção, do frio na barriga, e conseguindo construir algo mais duradouro.
Então fica aqui comigo, semana que vem a gente continua esse assunto. Se você tem dúvidas sobre o que eu falei hoje, dá tempo de você mandar aqui nos comentários e eu colocar no próximo episódio pra gente conversar mais. Um beijo e até a próxima!