Episódios de Psicologia na Prática

#290 - Por que é tão difícil acreditar que você merece coisas boas?

01 de setembro de 202636min
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Por que, mesmo depois de conquistar uma vida melhor, algumas pessoas ainda têm dificuldade de reconhecer que chegaram a um novo momento?

Neste episódio do Psicologia na Prática, Alana Anijar fala sobre psicologia do merecimento, dinheiro, crenças limitantes e mentalidade de escassez. A partir da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), você vai entender como experiências da infância e crenças construídas ao longo da vida podem continuar influenciando sua relação com dinheiro, sucesso, segurança financeira e conquistas, mesmo quando a sua realidade já mudou.

Também vamos conversar sobre adaptação hedônica, dificuldade de reconhecer o próprio crescimento e como desenvolver uma relação mais saudável com dinheiro, sem confundir merecimento com gastar mais.

Este episódio é apresentado por Nubank Croma, parceiro do Psicologia na Prática. O segmento que faz valer sua jornada. Saiba mais.


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Participantes neste episódio1
A

Alana Nijá

HostPsicóloga
Assuntos5
  • A dificuldade de reconhecer o próprio crescimento e as conquistasAdaptação hedônica·Crenças limitantes·Psicologia do merecimento
  • A importância de atualizar as regras financeiras para a vida atualLiberdade financeira·Nubank Chroma
  • A influência da infância na relação com o dinheiro e o merecimentoCrenças sobre dinheiro·Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)·Pressupostos condicionais
  • O descompasso entre a realidade atual e as crenças antigasReforço negativo·Interpretação da realidade
  • A adaptação hedônica e a comparação social nas conquistasAdaptação hedônica·Comparação social
Transcrição5 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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ANAlana Nijá

Eu quero começar esse episódio te convidando a lembrar de uma versão sua de alguns anos atrás, uma versão que talvez estivesse lá começando a carreira, que ainda olhava o saldo ali da conta antes de aceitar qualquer convite e que precisava pensar 2, 3 vezes antes de comprar alguma coisa para si mesmo. É uma versão que sonhava talvez com um salário que hoje você já alcançou, ou com uma estabilidade que naquela época parecia muito distante.

Você provavelmente pensava alguma coisa como: ah, quando eu tiver ganhando melhor, eu vou viajar mais. Quando eu tiver uma carreira mais estável, aí sim eu vou começar a investir mais em mim. Quando eu tiver uma reserva financeira, aí eu vou conseguir ficar mais tranquilo. E aí os anos passaram, você estudou, trabalhou, economizou, abriu mão de um monte de coisas, cresceu profissionalmente, aprendeu a organizar melhor a tua vida financeira, começou a ganhar mais, construiu uma reserva.

Talvez você tenha comprado ali um primeiro apartamento, ou então trocado de carro, começado a investir, ou simplesmente conquistado uma tranquilidade ali que alguns anos atrás você não tinha ainda. A vida mudou. Só que existe uma coisa curiosa que pode acontecer nesse processo: você chega a lugares que você desejou durante anos e continua vivendo como se ainda não tivesse chegado. Então você chega lá em uma loja, entra, gosta de uma coisa, sabe que até poderia comprar, mas pensa: ah não, isso não é para mim.

Pesquisa ali uma viagem, percebe que ela cabe no teu planejamento, mas alguma coisa ainda faz você se sentir ali responsável de fazer aquele movimento. Você pensa em investir em algo que traria mais conforto para tua vida, e aí surge uma sensação: ah não, isso é exagero, né? Ou aquela sensação ali de que aquela escolha talvez comprometeria alguns dos seus outros planos. E aí acontece alguma coisa até mais sutil do que isso, sabe?

Você conquista algo que desejou durante anos, fica feliz por uns dias, mas daqui a pouco aquilo vira normal. O salário que parecia enorme antes agora é o que eu ganho. A promoção vira uma obrigação. A viagem que antes parecia impossível passa a ser assim, foi legal, mas nada demais. A conquista que você imaginava que celebraria durante meses, em poucos dias já foi substituída pela próxima meta. Eu acho interessante porque muitas vezes nós somos muito bons em perceber tudo aquilo que ainda falta, mas muito ruins em atualizar a percepção sobre aquilo que já mudou.

Você olha pra frente e enxerga o próximo objetivo, mas olha pouco pra trás, sabe, pra perceber tudo que você já percorreu. E é aí que aparece uma pergunta que eu quero que acompanhe a gente durante esse episódio: a tua realidade ainda é a mesma ou a forma como você aprendeu a enxergar a própria vida ainda não acompanhou tudo que você construiu? E aí, minha gente, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Psicologia na Prática.

Eu sou Alana Nijá, eu sou psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, mestre em ciências do desenvolvimento humano, e eu tô aqui todas as terças-feiras com um novo conteúdo pra te ajudar a construir uma vida mais leve, com mais clareza emocional, mais inteligência emocional. E esse é um episódio apresentado pelo Nubank Chroma. É o novo segmento do Nubank e parceiro aqui do Psicologia na Prática. Se você tá me assistindo pelo YouTube, já aproveita pra curtir esse vídeo, pra se inscrever aí no canal.

Se você tá me ouvindo pelo Spotify, segue o podcast e avalia aí com 5 estrelas, porque isso ajuda muito esse conteúdo a chegar ainda mais pessoas. E aí hoje então eu quero conversar com você sobre uma palavra que à primeira vista pode parecer um pouco abstrata, que é o merecimento. Quando a gente fala sobre acreditar que merece boas coisas, sabe, é muito fácil a gente levar isso para um lugar muito simplista, como se bastasse você olhar no espelho ali, ficar repetindo: eu mereço, eu sou merecedor, eu sou merecedora, eu posso ter coisas boas.

Só que não é assim, né? Psicologicamente, essa questão é muito mais interessante, muito mais profunda, porque você pode racionalmente saber que você trabalhou muito por algo e ainda assim você ter dificuldade de usufruir aquilo. Você pode olhar para tua própria trajetória, reconhecer tudo que você fez para chegar até ali, mas continuar sentindo que você precisa esperar um pouco mais para se permitir finalmente determinadas escolhas.

Você pode ter uma condição financeira completamente diferente da que você tinha 10 anos atrás e ainda tomar algumas decisões como se você tivesse vendo exatamente aquela realidade. E isso não acontece porque existe alguma parte misteriosa do teu cérebro tentando impedir que você seja feliz, não é nada disso. Acontece porque nós aprendemos regras sobre como o mundo funciona. A gente aprende que Aquilo que significa segurança, o que significa responsabilidade, o que é gastar demais, o que é ser bem-sucedido, o que é coisa para gente como a gente.

A gente aprende quanto a gente precisa ter financeiramente para poder relaxar e até quais desejos parecem razoáveis e quais parecem excessivos, exagerados. E essas regras, elas não surgiram do nada. Muitas delas começaram a ser construídas quando você ainda nem ganhava o teu próprio dinheiro. Por isso, pra entender por que que alguém chega a um novo patamar e ainda tem dificuldade pra reconhecer, a gente precisa olhar pra uma coisa que aconteceu muito antes da tua primeira promoção, do primeiro investimento ou do primeiro salário importante ali da tua vida.

A gente precisa entender como você aprendeu o que que você poderia esperar da vida. Então, para entender por que que a nossa percepção nem sempre acompanha a realidade, eu quero que você pense aqui comigo alguns minutinhos na casa que você cresceu, tá? Como que era o dinheiro ali? Como que ele aparecia nas conversas da tua família? Era um assunto tranquilo ou normalmente vinha ali acompanhado de preocupação? O que que você ouvia quando você queria alguma coisa que custava mais caro?

E como que os adultos à tua volta reagiam quando você precisava gastar mais dinheiro quando eles precisavam gastar mais dinheiro. Muita gente cresceu ouvindo frases como: olha, o dinheiro não dá em árvore, viu? Tem que guardar porque o amanhã a gente não sabe. Isso é muito caro, você não precisa disso. Primeiras obrigações. E eu não tô trazendo essas frases, tá, gente, para dizer que tinha alguma coisa errada necessariamente com elas, tá?

Em muitas famílias elas descreviam uma realidade concreta ali. Existiam contas para pagar, o orçamento era apertado, existia instabilidade, desemprego ou simplesmente uma preocupação muito grande ali em construir segurança. O ponto importante é que a gente começa a aprender sobre dinheiro muito antes de ganhar o nosso primeiro salário. E a gente observa ali, a gente vai aprendendo observando, né? Muito mais do que por aquilo que a gente escuta, é por aquilo que a gente percebe e observa.

Uma criança vai observando ali a reação dos pais quando uma conta chega. Percebe se uma compra ela é acompanhada de prazer ou de preocupação. Escuta o que que os adultos estão dizendo ali sobre as pessoas que têm dinheiro. Aprende quais coisas são consideradas necessárias e quais são vistas como exagero, como um luxo, e quais que parecem pertencer ali a uma realidade muito distante da delas. E aos poucos essas experiências elas vão ajudando a construir algumas ideias sobre como o mundo funciona.

Então Uma pessoa pode aprender que segurança significa ter sempre dinheiro guardado. Outra pode associar responsabilidade a nunca gastar dinheiro com ela mesma. Alguém pode crescer talvez ali acreditando que relaxar assim, ficar tranquilo financeiramente é perigoso, porque é preciso sempre estar preparado para o que pode acontecer. E aí uma outra pessoa pode aprender que determinados confortos, experiências ou lugares simplesmente não são pra gente como a gente.

Você já ouviu falar isso? E essas conclusões não precisam ter sido ensinadas explicitamente, né? Ninguém precisou sentar na tua frente aos 8 anos e dizer: olha, fulaninho, a partir de hoje você vai acreditar que você só pode aproveitar a tua vida depois de ter segurança absoluta. Você não foi aprendendo assim, né? Você foi vendo ali experiências repetidas acontecendo. E na terapia cognitivo-comportamental isso é especialmente importante, por quê?

A gente entende que as experiências que a gente vive, elas participam da construção das nossas crenças, dos nossos pressupostos, das regras que passam a orientar a maneira como a gente interpreta as novas situações. E existe aqui uma diferença importante entre aquilo que aconteceu com a gente e aquilo que a gente aprendeu a partir do que aconteceu. Então, duas pessoas podem crescer em famílias que passaram por dificuldades financeiras e desenvolverem ali relações completamente diferentes com dinheiro.

Uma pode chegar à vida adulta pensando que ela precisa guardar o máximo de dinheiro possível porque ela nunca sabe quando as coisas podem dar errado. E a outra pode construir quase que uma resposta oposta, né? Então, ah, eu passei tanto tempo sem poder aproveitar que agora eu quero aproveitar tudo enquanto eu posso. Então a experiência de origem ela pode ser parecida, mas a interpretação construída a partir dela não. E é por isso que falar sobre a infância não significa procurar culpados, né?

Os nossos pais, eles também tinham uma história deles com dinheiro, também foram pessoas educadas por outras pessoas, vieram de contextos econômicos diferentes e aprenderam as suas próprias regras sobre trabalho, segurança, sucesso. Muitas vezes eles estavam tentando tomar ali as melhores decisões que eles conseguiam com os recursos que eles tinham no momento. É o que a gente sempre fala aqui. E além disso, a nossa relação com dinheiro, ela continua sendo construída depois da infância, né?

Então o teu primeiro salário, uma demissão, uma dívida, uma promoção, uma crise econômica, um negócio que não deu certo, né, um investimento que deu errado, uma mudança ali importante de padrão de vida, tudo isso também pode modificar a maneira como a gente enxerga a segurança. Então o que interessa aqui para a gente hoje é perceber que que muitas coisas que hoje parecem simplesmente fazer parte da tua personalidade ou do teu jeito, na verdade foram aprendidas em algum momento da história.

Então pensa, por exemplo, em alguém que cresceu numa família em que trabalhar era motivo de muito orgulho. Os pais acordavam cedo, chegavam tarde, raramente tiravam férias, valorizavam profundamente a disciplina, o esforço, a responsabilidade. Então essa pessoa ela pode ter aprendido coisas muito boas, né, nesse ambiente. Ela pode ter desenvolvido ali persistência, compromisso, uma capacidade enorme de trabalhar pelos próprios objetivos.

Inclusive essas características elas podem ter sido fundamentais para que ela construísse a vida que ela tem hoje. Ao mesmo tempo, ela pode ter aprendido uma regra muito específica e às vezes rígida de que eu aproveito, vou aproveitar só depois que tudo tiver resolvido. Na TCC, a gente chama esse tipo de regra de um pressuposto condicional, uma fórmula do tipo assim: se isso acontecer, então eu posso aquilo. Essa pessoa, então, ela passa a seguir sem nunca ter formulado aquilo conscientemente.

Só que existe um problema nessa regra específica. Quando ela chega na vida adulta, ela percebe que nunca vai ter esse momento em que tudo está completamente resolvido. Depois de uma meta, tem outra. Depois de uma promoção, existe o próximo cargo. Depois de construir uma reserva, tem mais ali, um novo número que parece ser o mais seguro. Não, se eu já tenho 6 meses de reserva, agora eu tenho que ter 12. Depois de comprar um apartamento, aparece uma outra necessidade.

Sempre tem alguma coisa que ainda poderia ser feita antes de eu finalmente poder me permitir aproveitar. Então a pessoa não sente necessariamente que ela não merece coisas boas. Muitas vezes ela nem usa essa palavra merecimento pra descrever o que tá acontecendo. Ela simplesmente sente que não é a hora. Ela ainda precisa trabalhar um pouco mais, guardar um pouco mais, crescer um pouco mais, resolver mais uma coisa. E aí esse depois vai sendo empurrado pra frente.

Existe outra aprendizagem que eu acho muito interessante pra esse episódio a gente conversar, que é a ideia de que algumas coisas são pra pessoas como nós e outras não. Então imagina uma criança que escuta durante anos que determinado restaurante, ah, é um lugar de rico. Que viajar para determinado lugar não é para gente como a gente, ou que gastar dinheiro com determinado conforto seria um absurdo. Naquele momento, aquilo pode simplesmente refletir a condição financeira da família.

O problema é que uma criança ainda não pensa em termos de contexto econômico, não sabe avaliar essas questões. Ela tá formando uma compreensão sobre quem ela é e sobre o lugar que ela ocupa no mundo. E aí, anos depois, aquela criança cresce, constrói uma carreira, aumenta a sua renda, organiza a vida financeira, né, passa a ter acesso a coisas que antes realmente não cabiam na realidade da família dela. Só que a realidade externa pode ter mudado sem que aquela classificação interna tenha sido atualizada.

E é por isso que alguém pode entrar em um ambiente que hoje ela até consegue frequentar tranquilamente, e sentir uma inadequação, como se ela não pertencesse àquele lugar. Ela pode até ter condições financeiras de fazer uma escolha, mas julga aquilo como: ah, não, isso é demais, isso aqui é uma coisa exagerada, não preciso disso. Pode alcançar um padrão de vida que ela desejou durante anos e demorar para perceber que aquela vida agora também é a dela.

E é nesse ponto que a psicologia do merecimento fica muito interessante aqui, porque O merecimento não aparece só como uma frase consciente de eu não mereço isso. Ele pode aparecer na dificuldade de reconhecer a própria conquista, na necessidade de justificar tudo aquilo que você tá fazendo por si mesma, na sensação de que você ainda precisa alcançar mais alguma coisa antes de usufruir, ou então na facilidade com que tudo que você conquistou deixa de parecer uma conquista e passa a ser tratado como uma obrigação.

E aí nada disso significa que a gente precisa, gente, abandonar totalmente as regras que nos trouxeram até aqui, tá? A responsabilidade continua sendo importante, o planejamento continua sendo importante, economizar continua sendo importante. Então algumas dessas aprendizagens foram fundamentais para construir a segurança que talvez você tenha hoje. A pergunta que começa a aparecer é outra aqui, é o seguinte: as regras que me ajudaram a chegar até aqui Será que elas continuam sendo adequadas para a vida que eu tenho hoje?

Porque uma regra, ela pode ter sido muito útil em um momento da minha vida, mas ela precisa ser atualizada quando esse contexto muda. Então a tua renda pode ter mudado, a tua carreira pode mudar, a vida ao teu redor pode ser completamente diferente daquela de 10 anos atrás. Só que isso não significa que as crenças que você construiu durante todos esses anos mudaram na mesma velocidade. E é sobre esse descompasso que a gente vai conversar agora, tá?

Então agora que a gente entendeu de onde algumas dessas regras podem vir, existe uma segunda pergunta importante que é a seguinte: se a minha realidade mudou, por que que eu simplesmente não consigo perceber isso e começar a agir de acordo com ela? Porque racionalmente você pode saber que você tá num outro momento, você sabe quanto você ganha hoje, você sabe que você construiu uma reserva que antes você não que você tinha. Você sabe que a tua carreira avançou, que algumas escolhas que há 10 anos seriam ali financeiramente inviáveis hoje cabem na tua realidade.

Os números estão aí, mas as evidências, né, embora elas sejam robustas, nem sempre elas são suficientes, né? Mesmo assim, diante de determinadas situações, a tua reação emocional pode continuar sendo muito parecida com a de alguns anos atrás. E na TCC, né, a terapia cognitivo-comportamental, a gente entende isso com mais clareza, porque a gente trabalha com a ideia de que situações que a gente vive hoje não determinam diretamente aquilo que a gente sente e faz.

Entre o que acontece e a nossa reação existe o quê? Quem é ouvinte sabe aqui, existe uma interpretação. E essa interpretação é influenciada pelas crenças que a gente foi construindo ao longo da vida. Então, vamos pensar numa situação aqui bem prática, tá? Uma mulher recebe um bônus no trabalho. Ela já tem ali uma reserva financeira, ela tá com as contas organizadas, ela decide usar uma pequena parte daquele dinheiro para comprar algo que ela deseja há muito tempo.

Só que quando ela tá prestes a fazer aquela compra, vem alguns pensamentos ali: ai, será que eu preciso mesmo disso? Eu acho que eu não preciso mesmo. Esse dinheiro ele poderia estar sendo guardado, e se acontecer alguma coisa daqui alguns meses? E aí, em alguns segundos ali, aquilo que começou como uma escolha possível, passa a produzir uma ansiedade, um desconforto. Ela desiste da compra e ela se sente melhor. Esse detalhe aqui é importante, porque quando ela desiste, o desconforto diminui, e aquilo que reduz o desconforto tende a se repetir.

Na análise do comportamento, isso é o que a gente chama de reforço negativo, né? O comportamento, ele não se mantém porque ele trouxe algo bom, mas porque ele tirou algo ruim. Então, na próxima vez em que uma situação parecida acontecer, ela vai ter a tendência de repetir a mesma resposta. Então, percebe como isso é diferente de simplesmente dizer que a pessoa não sabe aproveitar o dinheiro que ela tem? Existe uma consequência ali psicológica acontecendo.

A situação ativa determinados pensamentos, esses pensamentos produzem uma resposta emocional e a pessoa age para reduzir aquele desconforto. Aí o alívio vem e isso vai ajudando ele a manter o padrão. E tudo isso pode acontecer mesmo quando racionalmente ela sabe que ela poderia ter comprado, que ela poderia ter feito aquela escolha. É por isso que saber algo e conseguir agir de acordo com o que você sabe são coisas completamente diferentes.

Isso não acontece só com dinheiro, tá? Uma pessoa, ela pode conquistar um relacionamento saudável e estranhar ser bem tratada porque ela passou anos ali se relacionando de uma forma ruim. Ela pode receber uma oportunidade profissional excelente e sentir que ainda não tá pronta para ocupar aquele lugar. Ela pode finalmente ter tempo para descansar e continuar sentindo que ela deveria estar produzindo, né? É o mecanismo, é bem parecido.

A realidade mudou, mas as crenças sobre aquilo que a gente pode receber, ocupar ou viver demora para acompanhar essa mudança. Então hoje a gente tá olhando principalmente para como isso aparece na relação com o dinheiro e com as nossas conquistas, mas esse processo ele vai atravessando várias áreas da nossa vida. Existe também um mecanismo aqui importante que é: uma crença antiga ela não desaparece simplesmente porque surgem ali novas evidências.

Muitas vezes a gente interpreta essas novas evidências com as lentes daquilo que a gente acredita. Então pensa em alguém que carrega há muitos anos uma ideia de que eu preciso estar sempre preparada porque as coisas podem mudar muito rápido. Essa pessoa, ela estabelece uma meta então de reserva financeira, ela consegue alcançar essa meta, mas por algum tempo, embora ela sinta alívio, ela começa depois a pensar que ela estaria realmente segura se ela tivesse um pouco mais.

Aí chega esse novo valor e a referência dela muda de novo. Enquanto isso, qualquer informação que confirme ali a necessidade de continuar protegendo, se protegendo, vai ganhando muito peso. Ela vê uma notícia sobre uma crise econômica e aí ela conhece alguém talvez que perdeu um emprego, escuta uma história de uma pessoa que teve um grande imprevisto financeiro e ela pensa: olha, tá vendo? É por isso que eu não posso relaxar aqui, preciso guardar mais dinheiro.

Ao mesmo tempo, isso pode dar ela vai acabar dando muito menos atenção para as evidências da própria segurança, a reserva que ela construiu, a carreira que tá consolidada, os investimentos que ela já possui, as competências profissionais que ela desenvolveu, né, a própria capacidade que ela já demonstrou de enfrentar problemas. Então as evidências existem, o que muda é o peso que cada uma recebe na hora de interpretar. E isso também acontece no nosso sucesso profissional.

Então uma pessoa que passa anos ali querendo alcançar determinado cargo, ela estuda, trabalha, ganha experiência e finalmente recebe a promoção. Só que em vez dela incorporar aquela promoção como uma evidência do crescimento, ela pensa: ai, agora eu preciso provar que eu mereço estar aqui. Então ela trabalha ainda mais, aceita todas as demandas, sente que precisa entregar acima do esperado o tempo todo. A conquista, ela vai rapidamente se transformando em uma nova obrigação, em uma nova cobrança.

E esse exemplo é importante porque mostra como o mesmo acontecimento pode ser incorporado de maneiras completamente diferentes à história que a gente vai contando para gente. Então assim, esse eu fui promovida porque eu cresci profissionalmente, ou então eu fui promovida e agora eu preciso provar que não cometeram um erro. Então eu posso pensar, ah, hoje eu posso fazer essa escolha. Mas de um outro lado, outra pessoa pode pensar: eu posso, mas é melhor esperar mais um pouco.

Percebe? Os fatos, eles podem ser os mesmos, a interpretação muda totalmente a experiência que a gente tem diante dos fatos. E quando a gente fala em atualizar as nossas crenças, a gente não tá falando em substituir responsabilidade por pensamento positivo. Vocês me conhecem aqui, né? Se algo não cabe no teu orçamento, essa informação importa. Se algo compromete uma prioridade sua, isso importa também. Se você prefere investir aquele dinheiro em outro objetivo, é uma escolha legítima.

Agora, se a realidade mostra que determinada escolha é possível para você e a tua reação imediata continua sendo: ah não, isso não é para mim, não é o momento, vale você se perguntar: essa conclusão, ela tá baseada na minha realidade atual ou em uma regra que eu aprendi lá atrás a tratar como verdade? Porque você criar um pequeno espaço ali entre a tua primeira reação e a decisão que você toma permite você olhar para todo o contexto ali e considerar o que realmente faz sentido para você.

Liberdade nesse contexto não significa necessariamente você escolher gastar. Você pode reconhecer que tem condições de fazer alguma coisa e ainda assim decidir que prefere não fazer. A diferença é você conseguir colher a partir do presente. Só que mesmo quando a nossa realidade muda e a gente começa a perceber essa mudança, tem um outro fenômeno ainda que dificulta bastante a gente reconhecer o quanto a gente avançou, que é: a gente se acostuma muito rápido com o que a gente conquistou.

E é por isso que a próxima pergunta é muito importante também, tá? Eu quero que você se pergunte o seguinte: por que que é tão difícil eu reconhecer aonde eu cheguei? Pense em alguma coisa que para você 5 anos atrás parecia muito, muito importante ali. Talvez o salário que você queria ganhar, o cargo que você desejava ocupar, o apartamento que você queria ter, uma viagem que você sonhava em fazer e simplesmente ali poder, sei lá, decidir para onde eu vou ou entrar no supermercado sem precisar ficar fazendo conta ali, calculando cada item antes de colocar no carrinho.

Antes de você conquistar, aquilo ocupa muito espaço na tua cabeça, né? A gente imagina ali como vai ser quando eu chegar lá, acredita que aquela mudança vai produzir uma sensação muito duradoura, né, de realização e satisfação. Só que quando chega, em algum momento ali, passa a parecer normal, vira normal. Na psicologia existe um fenômeno conhecido como adaptação hedônica. De forma simples aqui, Nós temos uma tendência a nos adaptar às mudanças, inclusive às mudanças positivas.

Aquilo que inicialmente produz muita satisfação vai sendo incorporado ali na nossa rotina e deixa de provocar aquela mesma intensidade de alegria, de felicidade. Isso não significa que você deixou de valorizar a tua conquista, mas em alguma medida essa adaptação, ela é importante ali, faz parte do funcionamento humano. O problema aparece quando tudo aquilo que a gente conquistou é rapidamente retirado da nossa lista de conquistas e colocado numa lista de algo básico, comum, sabe?

Você queria ganhar 10 e aí chega aos 10 e começa a olhar pra quem ganha 20. Queria comprar o primeiro apartamento, aí você compra e pouco tempo depois você começa a pensar num apartamento maior. Você queria chegar a determinada posição profissional e aí você chega e imediatamente percebe que tem muitas pessoas acima de você. E a nossa referência vai mudando o tempo todo. A comparação social, ela acelera muito esse processo, né?

Porque você raramente compara a tua vida atual com a tua vida que você tinha aí há 5 ou 10 anos atrás. Você também olha para as pessoas ao teu redor hoje. E aí essas centenas de pessoas que aparecem todos os dias, né, nas redes sociais, que você tem acesso a tantas realidades ali diferentes. Então a tua conquista pode parecer enorme quando você compara ela com o lugar de onde você veio, mas pode parecer muito pequena se você comparar com o próximo lugar que você tá olhando é para as pessoas ao teu redor.

É assim que alguém pode crescer durante 10 anos e continuar com a sensação de estar sempre começando. E isso conversa muito com o que a gente tá falando aqui, com esse papo sobre merecimento. Porque se toda conquista rapidamente se transforma no novo mínimo, quando que você vai sentir finalmente que já possui alguma coisa, que pode usufruir de alguma coisa? A linha de chegada continua andando, né? E aí, quando eu ganhar um pouco mais, quando eu tiver mais dinheiro investido, quando eu conseguir a próxima promoção, quando eu tiver mais tranquila.

E a vida pode acabar virando nesse processo uma preparação permanente para um momento que finalmente ali você vai se permitir reconhecer que deu certo. Por isso tem um exercício simples que eu gosto muito, que é você comparar você com você. Pensa na tua vida 5 ou 10 anos atrás Quais eram as suas preocupações financeiras? O que que parecia caro demais para você? Que experiências pareciam distantes demais? Qual que era a tua renda?

Que tipo de decisão você ainda não conseguia tomar? E agora olha para tua vida hoje, não para a vida de quem tá a dois passos na tua frente, para tua vida. Porque reconhecer que você chegou a alguns lugares não significa acreditar que você, né, chegou a todos os lugares. Você pode continuar querendo crescer, ganhar mais, investir mais, construir novos objetivos. A ambição e o reconhecimento, eles podem e devem coexistir. A questão não é transformar toda conquista em irrelevante, né, no instante em que ela acontece.

Então, quando a gente fala sobre reconhecer as próprias conquistas, se permitir usufruir delas, existe um cuidado muito importante. Isso não significa que você precisa gastar mais. Você pode ganhar muito mais do que você ganhava há 10 anos e continuar preferindo uma vida simples. Você pode ter dinheiro para comprar algumas coisas e decidir investir. Você pode perceber um bônus e escolher guardar o valor inteiro. Nenhuma dessas decisões significa que você tem uma relação ruim com o dinheiro, né?

Então, para explicar o que eu quero dizer aqui, imagina duas pessoas diante da mesma viagem. A primeira gostaria de ir, tem condições financeiras, olha para as próprias prioridades e decide Olha, eu poderia fazer essa viagem, mas eu prefiro usar esse dinheiro em outro objetivo agora. A segunda também gostaria de ir, a viagem cabe no orçamento, existe uma reserva, as prioridades estão organizadas, só que antes mesmo de avaliar qualquer coisa já vem um desconforto: ah, isso é dinheiro demais para gastar comigo, eu não preciso disso.

Então essas duas terminam sem comprar a viagem, elas chegaram à mesma decisão, mas por caminhos completamente diferentes. Na primeira teve uma escolha e na segunda uma regra muito antiga ali decidiu antes que a pessoa conseguisse avaliar o que ela realmente queria fazer. E é nesse sentido que eu gosto de pensar o merecimento. Acreditar que você merece coisas boas não significa acreditar que você deveria ter tudo o que você deseja.

Significa só que você reconhece que você também entra na equação ali das suas próprias escolhas. O teu futuro importa, segurança financeira importa. Planejamento e investimento importam, só que a vida que você tá vivendo agora também existe. Em alguns momentos, escolher conforto vai fazer sentido. Em outros, vai fazer sentido escolher uma experiência. Em outros, guardar dinheiro vai continuar sendo a melhor decisão. Então, o ponto aqui é conseguir decidir olhando para a realidade que você tem hoje.

E eu quero fazer uma distinção aqui importante, porque reconhecer É diferente de ficar ostentando, tá bom? Você não precisa transformar cada conquista numa celebração pública, né? Provar lá nas redes sociais alguma coisa pra alguém ou mudar o teu estilo de vida pra demonstrar que você cresceu. Não é sobre isso. Reconhecer costuma ser muito mais íntimo, tá? É perceber que você, né, você tem possibilidades que antes você não tinha.

É você dar valor pro teu trabalho, as decisões e ao tempo que foram necessárias pra construir aquilo. É você conseguir olhar para uma escolha considerando a vida que você tem hoje e não a vida que você tinha quando você aprendeu aquela regra. Isso também não significa você deixar para trás as características que trouxeram você até aqui. Você pode continuar sendo responsável, planejando o futuro, querendo crescer. Só que agora existe uma informação nova que precisa participar das tuas decisões: a tua vida mudou.

Que ótimo! Eu acho que uma relação saudável com dinheiro passa muito por isso, entender o momento da vida em que você tá agora e fazer escolhas que façam sentido para ele. E foi justamente por isso que eu gostei tanto de ter o Nubank Chroma como parceiro dessa nossa conversa. O Nubank Chroma foi criado pensando em reconhecer os clientes, né, pessoas que chegaram a um novo momento ali da vida e querem que a forma como lidam ali com dinheiro acompanhe essa evolução.

Então ele tem a Caixinha Turbo, que rende 120% do CDI, cartão com 0,8% de cashback, soluções de crédito personalizadas e o NuCell incluso por 6 meses. Então no fundo isso conversa, né, com o que a gente discutiu durante todo esse episódio. Você pode continuar construindo o que você tem construído, pode continuar olhando pra frente sem deixar de reconhecer e celebrar o lugar que você já chegou. E se a gente vai olhar pra esse lugar de um outro jeito, a próxima pergunta é: o que fazer com essa percepção daqui pra frente?

Então, depois de tudo que a gente conversou, eu quero trazer essa reflexão pra prática aqui, pra gente ir finalizando esse episódio. Porque perceber que algumas das suas referências foram construídas em outra fase da vida é importante. Mas o que você faz com essa percepção daqui pra frente? Um bom começo é você prestar atenção na regra que aparece automaticamente nas suas decisões. Então, quando você pensa em fazer alguma coisa por você, qual é a primeira frase que surge?

É: agora não, é muito dinheiro, eu não preciso disso, é melhor guardar, quando eu tiver mais, aí eu faço. Essas frases aparecem rápido e costumam parecer uma verdade absoluta. Você pensa, aceita e segue a vida sem nem perceber que tomou uma decisão. Em vez de tentar combater esses pensamentos imediatamente, vale a pena você investigar de onde eles vêm, sabe? E se eles continuam coerentes com a tua realidade de hoje. Olha pros fatos, pra renda que você tem agora, pras responsabilidades que você tem, pros seus planos, praquilo que você já construiu, pras prioridades que você mesmo escolheu.

Às vezes, depois dessa análise, você vai chegar exatamente na mesma conclusão. Bom, não quero fazer isso agora. Ótimo. A diferença é que você decidiu a partir do presente, não ficou só repetindo aquela resposta que já tava pronta ali há 10 anos. E existe um risco em não fazer essa pergunta, tá? Porque você pode passar a vida inteira esperando esse momento em que finalmente você vai se sentir seguro para fazer algo por você. Sendo que esse momento sempre é adiado, né, pra depois de uma próxima meta.

Então eu quero terminar voltando pra aquela versão sua que eu pedi pra você imaginar lá no começo do episódio. Aquela pessoa que ainda tava tentando chegar a alguns dos lugares que você já tá hoje. Se ela pudesse sentar na tua frente agora e conhecer a vida que você construiu, o que ela enxergaria como conquista? O que ela veria ali como algo extraordinário e que você já começou a tratar como algo normal? Pode ser que ela olhasse para o teu trabalho e pensasse: caramba, a gente conseguiu!

Pode ser que ela fique impressionada, né, com a segurança que você construiu, com as escolhas que hoje você consegue fazer, ou simplesmente com a tranquilidade de não precisar mais se preocupar com algumas coisas que um dia tiravam o teu sono. Então você não precisa transformar a tua vida em uma grande celebração permanente, também não precisa sentir satisfação o tempo todo. Você precisa só permitir que a realidade atual participe da maneira como você enxerga a tua própria história, a tua vida hoje.

Porque algumas regras que te trouxeram até aqui, elas podem não fazer mais tanto sentido hoje, elas precisam ser atualizadas, né? Algumas conquistas que hoje parecem pequenas merecem ser reconhecidas pelo tamanho que elas tiveram quando elas ainda eram só um objetivo. Então, a maior conquista não é chegar, é perceber que chegou. Então quando esse episódio acabar, eu quero que você saia pensando isso essa semana, sabe? A tua realidade ainda é a mesma ou algumas daquelas crenças que você tinha continuam pertencendo a essa vida de você hoje, sabe?

Pensa nisso, pensa nisso e compartilha comigo nos comentários se fez sentido, se eu te ajudei, se eu consegui falar com você e te fazer pensar I didn't like what you said, Odin pauses, about the future. This is the love story of real hinge couple Odin and Edward. Written and read by me, Curtis Garner. Listen to the free audiobook now.

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