Episódios de Psicologia na Prática

#289 - Como saber se ele é narcisista ou apenas uma pessoa difícil

25 de agosto de 202635min
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Você já saiu de uma conversa se perguntando se o problema era você? Já duvidou da sua própria memória, das suas emoções ou da forma como enxergava uma situação?

Nos últimos anos, o termo "narcisista" passou a ser usado para explicar praticamente qualquer relacionamento difícil. Mas será que toda pessoa difícil é, de fato, narcisista?

Neste episódio do Psicologia na Prática, vamos conversar sobre essa diferença e, principalmente, sobre os efeitos que uma relação emocionalmente destrutiva pode ter na sua autoestima, na sua identidade e na forma como você passa a enxergar a si mesmo.

Mais do que tentar diagnosticar alguém, este episódio é um convite para olhar com honestidade para uma pergunta que realmente importa: quem você está se tornando dentro desse relacionamento?


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Participantes neste episódio1
A

Alana Nijá

HostPsicóloga
Assuntos6
  • Impacto de relacionamentos disfuncionais na autoestimaPerda de identidade·Dependência do humor do outro·Autovalidação·Autonomia
  • Recuperação da identidade após relacionamentos tóxicosConfiança na própria experiência·Reconstrução da autonomia·Estabelecimento de limites sem culpa·Vínculos saudáveis·Terapia
  • Diferença entre narcisista e pessoa difícilNarcisismo·Pessoa difícil·Transtorno de personalidade narcisista·Traços narcisistas·Imaturidade emocional
  • O processo de se perder em um relacionamentoAdaptação gradual·Medo da reação do outro·Perda de espontaneidade·Custo de ser você mesmo
  • Reconhecimento do sofrimento em relacionamentosBanalização de diagnósticos·Necessidade de diagnóstico para validação·Comportamentos disfuncionais
  • Por que é difícil sair de relacionamentos abusivosMomentos bons e ruins imprevisíveis·Estímulo intermitente·Diminuição da autoestima e autonomia·Rede de apoio diminuída
Transcrição6 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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ANAlana Nijá

E aí, minha gente, sejam muito bem-vindos ao Psicologia na Prática. Sou Alana Nijá, sou psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, mestre em ciências do desenvolvimento humano, e eu tô aqui toda terça-feira com um novo conteúdo para te ajudar a construir uma vida mais leve, com mais inteligência emocional. Então vamos começar já fazendo você a sua parte, que tá aqui me ouvindo toda semana. Se você ainda não tá curtindo esse vídeo no YouTube aí, por favor, já para um pouquinho, deixa o seu like, se inscreve aqui, porque isso me ajuda muito continuar construindo essa comunidade aqui no YouTube.

E se você tá me ouvindo pelo Spotify também, que temos muitos ouvintes aí pelo Spotify, eu sei que de repente você tá fazendo outra coisa enquanto tá me ouvindo, mas se você puder parar rapidinho e seguir esse podcast para deixar ativado todas as notificações e também deixar a tua avaliação, tem também como você vai avaliar aí até 5 estrelas. Isso vai me ajudar muito também aqui. Obrigada pela tua presença em mais um episódio.

E hoje a gente vai falar sobre um assunto que dá muito o que falar nas redes sociais. Eu decidi criar esse episódio para a gente desmistificar algumas coisas acerca do narcisismo. Então quero começar a te perguntar uma coisa, perguntando uma coisa, tá? Quando foi a última vez que você se sentiu completamente à vontade pra ser você dentro do teu relacionamento, de um relacionamento talvez que você esteja agora ou algum que você já teve anteriormente.

Pensa um pouquinho aí. Quando foi a última vez que você falou exatamente o que você tava sentindo sem medo da reação do outro? Quando foi a última vez que você se expressou ali, expressou uma opinião diferente sem precisar medir cada palavra? Ou então quando você conseguiu colocar um limite sem terminar se sentindo culpada. Talvez você tenha tido uma experiência aí recente de fazer isso e não ser tão bem-vindo. Talvez você tenha sentido culpa de ser você mesmo.

Quando foi a última vez que você pôde ser espontâneo ou espontânea num relacionamento? Porque assim, gente, dentro de uma relação saudável, a gente não precisa deixar parte de quem a gente é de lado para que a relação funcione. Todas essas coisas que eu te perguntei aqui, se isso é algo que é raro de acontecer, difícil de acontecer no teu relacionamento, é uma bandeira vermelha. Num relacionamento saudável, você continua tendo voz, você continua tendo espaço, continua sendo respeitado mesmo quando existem diferenças, mesmo quando existem conflitos, né?

Os conflitos, eles não podem abrir mão do respeito. Mas tem algumas relações que vai modificando isso aos poucos. Você começa a evitar determinados assuntos, depois a pessoa passa a escolher melhor as palavras porque tem medo da reação do outro, começa a pensar duas vezes antes de discordar, prefere engolir algumas coisas porque sabe que aquela conversa vai provavelmente terminar mal. Até que um dia acontece uma coisa muito curiosa: você percebe que você não tá sendo você mesma naquele relacionamento, não tá mais agindo de forma espontânea.

Você tá tendo que administrar o tempo todo a reação do outro, administrando o humor da outra pessoa, administrando os conflitos, as tuas próprias emoções. E aí, sem perceber, você começa a administrar tanto até que você não pode mais ser você mesma, né? Você começa a administrar até quem você pode ou não ser. E aí, o mais difícil é que isso raramente acontece de uma vez. Ninguém acorda em um relacionamento e pensa: nossa, deixei de ser quem eu era, aconteceu agora, hoje.

Não é assim, isso é um processo gradual. Você faz uma adaptação aqui, outra ali, na semana seguinte. Depois você, né, deixa de passar por uma situação ali porque não vale a pena discutir. Aí começa a esconder algumas coisas que vão causar briga. Depois você para de falar de alguns assuntos. E aí quando você olha para trás, você percebe que você passou tanto tempo tentando preservar a relação que que você já não sabe mais aonde que você se perdeu no caminho, onde começou, você começou a se perder de si mesma.

Eu acredito que essa é uma das experiências mais dolorosas que alguém pode viver nesse âmbito de relacionamentos, porque perder um relacionamento dói quando a gente ama, gosta, tem apego. Mas você perder a confiança em quem você é, você se perder de si mesma, dói de um jeito completamente diferente. Nos últimos anos, muita gente passou a explicar experiências como essa dentro de um relacionamento como narcisismo, né? Então muito se fala sobre isso.

Então hoje basta um relacionamento terminar mal, ou então uma pessoa que você se relaciona ter sido egoísta, ou gostar de muita atenção, ou ser um pouco manipuladora ali, né, ou ter dificuldade para reconhecer os próprios erros. E aí a gente costuma rotular atualmente, por conta, né, de muitos conteúdos na internet sendo veiculados sobre isso, a gente rotula: ai, o meu ex era narcisista. Quem nunca ouviu isso? Meu ex era narcisista, minha ex era narcisista.

Mas rótulos mais para os homens do que para as mulheres. Mas será que toda pessoa difícil que você se relacionou realmente é narcisista? Ou será que a gente tá usando um diagnóstico complexo para tentar explicar qualquer relação que nos machucou? Essa é uma conversa importante que a gente precisa ter, porque banalizar um diagnóstico não ajuda ninguém. Só que aí existe um outro risco que me preocupa ainda mais, que é Quando alguém acredita que só pode reconhecer o sofrimento que viveu se conseguir provar que a outra pessoa tinha um transtorno de personalidade como narcisismo.

E isso simplesmente não é verdade. Você não precisa descobrir se alguém era narcisista ou não para reconhecer que aquele relacionamento te fez mal. Ou você não precisa reconhecer que a pessoa que você está hoje é narcisista para reconhecer que ela tem comportamentos disfuncionais que te fazem mal. E é justamente sobre isso que eu quero conversar hoje, não para ensinar você a diagnosticar alguém, mas para te ajudar a responder uma pergunta que, na minha opinião, é muito mais importante, que é: quando você tá nessa relação, né, enquanto você está ali, quem que você tá se tornando dentro desse relacionamento?

Porque a resposta para essa pergunta pode dizer muito mais sobre a saúde da relação do que qualquer rótulo que você possa dar. Então assim, primeiro de tudo é que nem toda pessoa difícil é narcisista. Essa é uma verdade que a gente precisa lidar. Antes de qualquer coisa, existe uma diferença muito importante que eu quero esclarecer com vocês, porque eu vejo muita confusão sobre esse assunto, principalmente nas redes sociais. Nem toda pessoa difícil é narcisista, nem toda pessoa difícil tem um diagnóstico mental ali de um transtorno.

E entender isso é importante tanto para evitar injustiças quanto para compreender melhor os relacionamentos. Existem pessoas que realmente apresentam um transtorno de personalidade narcisista, tá? Esses casos existem, não são só uma lenda, mas são relativamente incomuns, tá? O diagnóstico, ele envolve uma série de critérios específicos que precisam ser avaliados por um profissional qualificado. Não é uma coisa que qualquer pessoa pode detectar tão facilmente, não é algo que possa ser concluído a partir de um vídeo na internet ou de uma discussão que você teve no teu relacionamento.

Também existem pessoas que apresentam traços narcisistas, tá? Então é importante entender isso. Todos nós temos traços de personalidade e alguns podem ser mais egoístas, outros podem ter mais dificuldade para lidar com críticas, alguns são mais explosivos, alguns gostam muito de reconhecimento, outros têm muita dificuldade de admitir erros. Esses traços, eles existem. E eles têm diferentes intensidades, tá? Mas por si só eles não significam que alguém tem um transtorno.

Então esses traços, eles existem em diferentes intensidades, mas por si só eles não significam que alguém tem um transtorno. Mas tem um terceiro grupo que, na minha experiência clínica, talvez seja muito mais frequente, que é o seguinte: são pessoas que simplesmente nunca aprenderam a construir relacionamentos saudáveis. São pessoas que cresceram em famílias, talvez, onde ninguém conversava de verdade, onde os conflitos eram resolvidos no grito, onde pedir desculpas era visto como um sinal de fraqueza, lares em que demonstrar emoção era um motivo de vergonha, ou então pessoas que passaram por experiências muito difíceis, relacionamentos abusivos, abandono, rejeição, violência, e desenvolveram formas bastante rígidas de se proteger, de lidar com o outro.

Elas podem ser pessoas que controlam mais, que estão mais na defensiva, têm dificuldade para ouvir, respondem com ironia quando são confrontadas ali nas suas emoções, invalidam sentimentos do outro, machucam quem tá do lado, né? Mas isso não significa automaticamente que essa pessoa tem um transtorno de personalidade. Isso significa que existem habilidades emocionais e relacionais que essa pessoa nunca desenvolveu. E eu faço questão de dizer isso porque hoje existe essa tendência de transformar qualquer comportamento inadequado num diagnóstico, né?

Então, ah, qualquer tristeza ali, ah, tô depressão. Qualquer ansiedade, a pessoa tem TAG. Não é assim. Na verdade, muitas vezes a gente tá falando de pessoas emocionalmente imaturas, pessoas que nunca aprenderam a lidar com frustração, nunca aprenderam a reparar um conflito, elas nunca aprenderam a regular as próprias emoções. E aí, isso justifica o sofrimento que elas causam? Óbvio que não. Mas isso explica. E aí existe uma diferença enorme entre explicar e justificar, né?

Porque eu entender de onde vem esse comportamento do outro não significa que eu vou aceitar esse comportamento e nem que eu vou ser a pessoa que vai salvar o outro e que vai, nossa, finalmente ensinar o outro a se relacionar bem. Você não precisa entrar nesse lugar. Você também não precisa permanecer em uma relação que te faz mal. Mas você pode sim compreender a complexidade das relações humanas e que existe um ponto em comum entre todas essas situações.

Porque independentemente da pessoa ter um transtorno, dela apresentar traços narcisistas, ou dela simplesmente ter uma forma muito disfuncional de se relacionar, a pergunta mais importante continua sendo outra, que é: como essa relação tá te afetando? Porque às vezes a gente fica tão preocupado em descobrir quem o outro é e a gente deixa de se perceber, deixa de perceber quem a gente tá se tornando dentro daquela relação, como eu falei.

E para mim esse costuma ser o sinal mais importante de todos. Não é o diagnóstico, é o efeito que aquela convivência produz na tua autoestima, na tua autonomia, na forma como você passa a se enxergar. E é exatamente sobre isso que a gente vai conversar agora, porque existem algumas mudanças que costumam aparecer muito cedo nessas relações. E justamente por serem tão graduais, a gente pode acabar passando despercebido. E aí, quando chega num estado, né, quando a gente vê esses casos tão frequentes, né, de relacionamentos abusivos que acabam chegando numa violência física, a gente começa, a gente se pergunta, né, quem olha de fora, como que a pessoa deixou chegar numa situação como essa?

Ou até numa violência verbal, né, num xingamento. E às vezes você percebe de fora e fala, nossa, jamais deixaria isso acontecer. Mas se a pessoa agisse dessa forma, né, repentinamente, logo nos primeiros encontros, muito provavelmente a relação não teria ido para frente. A questão é que as mudanças vão acontecendo tão sutis, e quando a gente menos percebe, quando a pessoa tá dentro desse relacionamento, ela mesma se questiona, como eu vim parar aqui?

E é por isso que eu considero esse episódio tão importante. A gente vai falar sobre o que que começa a acontecer com você dentro desse tipo de relação para que você fique muito atento. Existe uma pergunta então que eu quero que a gente se faça nesse episódio, muito mais importante do que tentar descobrir se alguém é narcisista ou não. Porque se você não é psicólogo, não é psiquiatra, você não precisa dar diagnóstico para ninguém.

Então vamos perguntar o seguinte: quem eu estou me tornando dentro dessa relação? Ou quem eu me tornei dentro da relação que eu estive? Porque relações saudáveis mudam a gente. Elas costumam nos fazer crescer, costumam nos fazer sentir mais seguros, mais livres, mais confiantes, mais amados, mais espontâneos. Isso, se você já esteve numa relação saudável ou está, você vai perceber com muita facilidade que essa relação ela te ajuda a se tornar alguém melhor.

Mas existem outras relações que fazem exatamente o contrário. Elas vão diminuindo a nossa liberdade de ser quem nós somos. E isso dificilmente acontece de uma vez. É um processo. No começo, quase ninguém percebe. A pessoa sente ali, né, que algumas conversas começam a ficar meio estranhas, que alguns conflitos estão terminando de um jeito que não é muito legal, que existe uma sensação ali, né, depois de algumas discussões, de que a coisa passou dos limites.

Só que ainda não tem como nomear, não consegue explicar, mas tem alguma coisa diferente ali. E ruim. Com o tempo, ela começa a perceber que sai das conversas muito mais confusa do que entrou, se questionando sobre quem ela é. Ela tinha certeza do que aconteceu, mas depois de conversar com o parceiro já não sabe mais se foi aquilo mesmo. Ela lembra de uma situação, o outro diz que não foi bem assim. Ela lembra de uma frase, o outro diz que nunca falou aquilo, que ela tá ficando louca.

Ela diz que ficou magoado, o outro responde que tá exagerando. Que é muito dramática. E depois de ouvir isso tantas vezes, algo começa a acontecer ali, que ela começa a deixar de confiar na própria percepção. Isso é muito sério, porque uma das coisas mais importantes para nossa saúde mental é a gente confiar na capacidade que a gente tem de interpretar a realidade. Quando essa confiança ela começa a desaparecer, a pessoa deixa de se perguntar: será que isso me machucou?

E começa a perguntar: será que eu tô exagerando mesmo? Essa mudança, ela parece pequena, mas ela altera completamente a forma como alguém passa a viver num relacionamento. Porque mesmo que você seja uma pessoa muito sensível, que costuma fazer um drama ali com a situação, se você tá num relacionamento saudável, se aquela pessoa te ama, ela não vai te fazer se sentir louca. Talvez ela te relate: olha, isso tá acontecendo com muita frequência, né?

Eu não— não foi a minha intenção, mas se você se sentiu dessa forma, A gente vai trabalhar pra mudar essa dinâmica. Porque eu me importo como você se sente. Então, por mais que as situações, elas possam, né, não serem tão grandes quanto você tá colocando, uma relação saudável nunca vai te colocar nesse lugar de uma pessoa inadequada. Então presta muita atenção nisso. Por mais que você seja a pessoa mais sensível, tá? Não é pra você se sentir uma pessoa ruim, confusa, inadequada, que não sabe o que tá fazendo, o que tá sentindo.

A validação, ela é importante independente do que tá acontecendo. Então, uma coisa que costuma acontecer muito também é a pessoa começar a monitorar o próprio comportamento o tempo inteiro. Pisar em ovos, o famoso pisar em ovos. Ela pensar muito antes de falar, revisar as mensagens várias vezes antes de enviar, escolhendo cuidadosamente as palavras, evitando determinados assuntos, evitar discordar, evitar demonstrar descontentamento.

E não porque seja natural para ela, mas porque ela aprendeu que qualquer conversa pode terminar em uma discussão enorme. Então ela começa aos poucos a se adaptar, adaptar quem ela é sem perceber. Ela deixa de fazer as piadas que ela fazia, para de dar as opiniões, para de contar algumas coisas, começa a esconder os sentimentos, vai ocupando cada vez menos espaço dentro da própria relação. E assim, gente, é claro que dentro de uma relação você vai precisar às vezes adaptar algumas coisas.

Você não vai falar tudo que vem na tua cabeça, não é todo momento que você vai ter uma DR. Você tem que ler o momento também, né? Eu, por exemplo, vou dar um exemplo pessoal. Eu sei que não é qualquer momento que eu vou pegar o meu marido para ter uma DR, para falar de coisas ali que são difíceis dele ouvir. Eu vou escolher um momento apropriado em que nós estamos sozinhos, em que ele está tranquilo, receptivo, e aí sim eu vou colocar as minhas, aquilo que eu quero conversar, de forma respeitosa, de forma que ele vá receber bem.

Essa preocupação no momento e na forma de falar Não é um problema, né? Agora, eu ter muita dificuldade, um super monitoramento super exagerado e com medo envolvido, e quando isso se repete sempre— então vamos ver aqui, né, colocando sobre contexto para você não ficar achando que você tá aí numa relação super abusiva só porque você tá, né, tendo dificuldade de se comunicar. Mas vamos lá, esse detalhe aqui é muito importante que a gente tá falando, tá?

Quase nunca acontece porque alguém disse claramente, ai, você não pode falar comigo, você não pode fazer isso. Mas a pessoa vai aprendendo através da experiência que ser ela mesma tem um custo alto. Então ela vai se moldando até o ponto em que ela própria já não se reconhece mais, já não é mais espontânea. Outra característica muito comum é que a autoestima começa a depender cada vez mais do humor da outra pessoa. Quando o parceiro tá bem, você sente um alívio.

Quando ele tá irritado, fica ansiosa. Quando ele te elogia, ah, então tá tudo bem. Mas quando critica, o mundo desmorona. Sem perceber, o centro emocional da tua vida deixa de estar dentro de você mesma, que é onde devia estar, e passa a estar na reação do outro. É como se o humor da relação fosse decidido só por uma pessoa, e a outra fica passando o tempo todo ali tentando equilibrar, ali tentando manter um equilíbrio. Só que isso é extremamente desgastante, porque você nunca sabe exatamente qual versão da pessoa você vai encontrar, nunca sabe como ela vai reagir, nunca sabe se aquela conversa vai ser tranquila, vai continuar tranquila, ou daqui a pouco vai dar muito ruim.

Então o corpo, ele permanece num estado de alerta, e isso é muito ruim. Viver em alerta constante cansa muito, tá? Então o que que mais me preocupa nessas relações, né? Porque tem uma mudança que para mim é a mais dolorosa de todas, tá? De tudo que a gente já falou até aqui, É uma mudança que não acontece na relação, ela acontece dentro de você. Porque depois de muito tempo vivendo essa dinâmica disfuncional, a pessoa começa a esquecer quem ela era antes do relacionamento.

Eu já ouvi essa frase muitas vezes no consultório, de amigos, de falar assim: olha, Alana, eu olho para as fotos antigas, eu pareço outra pessoa. Eu ria mais, eu tinha amigos, eu fazia planos, eu era muito mais espontânea, eu gostava de coisas que hoje eu nem me lembro. E isso sempre me chama muita atenção, porque relações saudáveis, elas precisam ampliar nossa identidade, elas nos ajudam a descobrir novos interesses, por mais que a gente se transforme, né?

Talvez você tá me escutando e você é mãe, teve um filho, uma filha recentemente, e aí você fala: nossa, mas eu não me reconheço mais, será que é do meu relacionamento? Será que é a maternidade? A gente precisa avaliar todo esse contexto, tá bom? Às vezes outras coisas aconteceram na tua vida também que te ajudaram a parar de se reconhecer. Isso precisa ser colocado em contexto, mas quando a única coisa diferente foi o relacionamento.

E aí você tá aqui marcando um check em várias coisas que eu falei, e aí esse ponto aqui provavelmente é por causa do relacionamento também. É, não é uma causa-consequência, né? Você permitiu que o relacionamento te moldasse dessa forma. A gente não pode também tirar toda a responsabilidade da gente, tá? Então a gente começa a perceber que não somos mais quem éramos, né? E enquanto relacionamentos saudáveis fariam a gente ser novas versões de nós mesmos, novos projetos, novas ideias, mais coisas boas.

A gente se vê ali se transformando em alguém melhor. As relações emocionalmente destrutivas, elas costumam fazer esse contrário que a gente tá falando aqui. Elas vão estreitando a tua vida. Você para de sair, para de encontrar as pessoas, abandona os hobbies, muda a forma de se vestir, muda até a maneira de falar às vezes, muda os sonhos. Não necessariamente porque o outro proibiu, mas porque aos poucos aquilo deixou de caber na dinâmica da relação.

E aí tem uma consequência muito importante disso, que é quando a relação termina, muitas pessoas falam: eu não sei mais quem eu sou. E aí a dor não é mais só de perder o relacionamento, mas é de perder a referência de si mesmo. E por isso que eu gosto tanto de fazer uma pergunta para os pacientes que viveram relações assim, que é: do que que você precisou abrir mão para conseguir permanecer nessa relação? E as respostas costumam ser muito parecidas, assim: ah, eu tive que abrir mão da minha autoestima, da minha paz, da minha liberdade, dos meus amigos, da minha confiança, da minha voz.

Porque muitas vezes a pessoa permaneceu naquela relação, né, e ela foi deixando partes importantes dela pelo caminho. E é justamente por isso que recuperar a identidade costuma ser um processo muito difícil, muito profundo, porque não basta superar o término, é preciso reencontrar quem ficou para trás. Você já viveu um relacionamento assim? Você conhece alguém que passou por isso? Me conta aqui nos comentários, tá? Tem uma pergunta que machuca muita gente, tá?

Talvez alguém já tenha feito essa pergunta para você, ou você mesmo se fez essa pergunta assim: se a relação era tão ruim, se a relação fazia tão mal, por que você não saiu antes? Ou por que você escolheu essa pessoa? E eu preciso dizer uma coisa importante aqui, tá? Essa pergunta parece muito simples de um primeiro momento, né? Eu até, eu poderia me fazer ela ou fazer ela para alguém, mas ela parte de uma ideia muito equivocada sobre como as relações emocionalmente destrutivas funcionam, porque elas raramente começam sendo destrutivas, como eu falei antes.

Se elas começassem assim, quase ninguém permaneceria, porque no início e até no processo existe também carinho, conexão, admiração, promessas. Existem momentos muito bons, e isso é importante de entender, porque ninguém permanece numa relação só pelos momentos difíceis, né? As pessoas permanecem porque também viveram momentos muito felizes, porque conheceram uma versão daquela pessoa que parecia ser boa, amorosa, presente, disponível.

E talvez até fosse. Mas quando essa versão ela começa a desaparecer, nasce uma esperança ali de que ela volte. Então cada pequeno momento bom passa a funcionar como uma confirmação assim, tá vendo? Ainda existe aquela pessoa que eu me apaixonei, a relação ainda pode melhorar, talvez tá só numa fase. Esse movimento é muito estudado na psicologia. Quando momentos de carinho e de sofrimento se alternam de forma imprevisível, o vínculo pode se tornar muito mais intenso, porque a pessoa nunca sabe quando ela vai receber afeto novamente.

É aquele estímulo intermitente. Então, justamente por isso ela continua tentando, ela continua investindo, acreditando. E além disso, tem outro fator super importante que é: ninguém chega numa relação emocionalmente destrutiva completamente vulnerável, mas ela pode sair dela muito mais vulnerável do que ela entrou. Porque ao longo do tempo, a autoestima vai diminuindo, a confiança diminui, a autonomia diminui, a rede de apoio diminui.

E quando tudo isso fica menor, fica muito mais difícil imaginar uma vida fora daquela relação. Então eu gostaria que você pensasse um pouco antes de olhar para alguém e se perguntar, e fizesse esse julgamento, né? Por que que ela não saiu? Talvez a pergunta mais humana seja você perguntar: o que que aconteceu para que parecesse tão difícil essa pessoa sair? Essa pergunta, ela abre espaço para compreensão, né? E a outra pergunta costuma gerar muita acusação, culpa, tá?

Então, se você se identificou com esse episódio, talvez tenha uma pergunta ecoando aí dentro de você, que é: como que eu volto a ser quem eu era antes? E eu queria responder essa pergunta com muito cuidado, porque na maioria das vezes o objetivo não é nem você voltar a ser quem você era, mas é você construir uma versão de si mesmo que já não precise mais abandonar a própria identidade para ser amado. Quem vive uma relação emocionalmente destrutiva costuma acreditar que perdeu a própria essência, mas eu gosto de olhar para isso de uma outra forma, porque a tua identidade não desapareceu.

Ela pode ter ficado escondida aí debaixo de muitas adaptações, né? Você aprendeu a falar menos, a discordar menos, a esconder sentimentos, a pedir desculpa por existir, a ocupar cada vez menos espaço para evitar conflitos. Durante muito tempo, essas adaptações, elas fizeram sentido para você, elas eram uma tentativa de proteger a relação. O problema é que quando a gente repete um comportamento por muito tempo, ele deixa de parecer uma estratégia e começa a aparecer quem a gente é.

E por isso que tantas pessoas acabam dizendo que não sabem mais quem são. Na verdade, elas sabem muito bem quem elas aprenderam a ser para sobreviver naquela relação, mas elas ainda não encontraram, não reencontraram quem elas são quando elas não precisam mais só sobreviver. E recuperar essa identidade é um processo, não acontece num fim de semana. Não acontece depois de um insight. Assim como você não deixou de se reconhecer de um dia pro outro, também não vai se reencontrar de uma vez só, tá?

É um processo, é uma reconstrução. Existem alguns movimentos que fazem muita diferença nesse caminho. Então assim, o primeiro de tudo é você voltar a confiar na tua própria experiência. Então durante muito tempo você aprendeu a desconfiar do que tava sentindo. Naquele processo de ouvir que tava exagerando, que você tava sendo egoísta por colocar limite, que você tava pedindo demais. Então, aos poucos, você deixou de perguntar como você tá se sentindo e passou a se perguntar: será que eu deveria me sentir assim?

Então, primeiro de tudo, você tem que recuperar a identidade, né, buscando ali começar de volta a acreditar na tua própria experiência. Aprendendo a nomear novamente as tuas emoções, reconhecer as tuas necessidades, confiar naquilo que você tá percebendo nas relações. E o segundo movimento muito importante é reconstruir a tua autonomia, porque as relações emocionalmente destrutivas, elas costumam, então, como eu falei aqui, né, vão estreitando ali a tua vida.

Você se afastou de pessoas, abandonou hobbies, adiou sonhos, foi deixando partes da tua vida para depois. Então recuperar a identidade passa por você voltar a experimentar, a retomar as atividades que faziam sentido, conhecer pessoas, se reconectar com pessoas, descobrir os seus novos interesses, criar memórias que não estejam ligadas àquela relação. Porque a identidade também se constrói através das experiências que a gente vive.

E aí o terceiro movimento é você aprender uma habilidade que talvez nunca tenha sido ensinada para você, que é colocar limite sente culpa. Essa costuma ser uma das partes mais difíceis. E assim, ainda que você sinta culpa, esse é um preço muito baixo para pagar, sabe? Pela liberdade, pela paz emocional que você vai ter. Para muitas pessoas, dizer não ativa um medo profundo de rejeição. Mas existe uma diferença muito importante: sentir culpa não significa que você fez algo errado.

Muitas vezes significa só que você tá fazendo algo diferente do que você sempre E aí gera desconforto, naturalmente. Só que o desconforto não é um sinal para você voltar atrás, às vezes é um sinal de crescimento. E existe ainda um quarto movimento que, na minha opinião, faz toda a diferença, que é você permitir que outras pessoas enxerguem quem você realmente é. Para quem passou muito tempo vivendo nessa dinâmica de um relacionamento disfuncional, né, esse hábito de esconder as suas necessidades, minimizar suas emoções, resolver as coisas sozinho, Isso é muito comum.

Então, para você recuperar sua identidade, você precisa também voltar a construir vínculos onde você não precisa se explicar o tempo inteiro, nem ficar provando constantemente que você merece ser amado. Agora, eu preciso dizer uma coisa aqui para vocês que eu sempre falo, tá? Existem feridas que são muito profundas e que não vão ser reconstruídas só com boa vontade, só com conteúdos que você escuta. Quando a tua percepção da realidade foi tão enfraquecida durante muito tempo, quando a tua autoestima foi sendo desmontada aos poucos, quando você já não consegue confiar nem nos próprios sentimentos, é muito difícil fazer esse caminho sozinho completamente.

E é justamente aí que a terapia pode se tornar um espaço tão importante. Não porque o psicólogo vai te dizer quem você é, mas porque ele vai te ajudar a retirar pouco a pouco todas as camadas que foram construídas pra você sobreviver. Então, na terapia, você vai aprender a identificar os padrões que antes pareciam naturais pra você. Você vai aprender a reconhecer crenças que foram sendo construídas ao longo da relação. Vai aprender a diferenciar culpa de responsabilidade, medo de perigo, amor de dependência.

E principalmente, vai começar a experimentar novas formas de se relacionar com você mesmo e com os outros. A terapia não devolve a tua identidade ali de imediato. Ela vai criar um espaço seguro pra que essa identidade possa aparecer de novo. E eu acho isso uma das coisas mais bonitas que acontecem dentro do processo terapêutico. Porque chega um momento em que o paciente começa a dizer assim: Nossa, eu voltei a gostar das coisas que eu gostava.

Eu consegui dizer não. Eu tomei uma decisão pensando em mim, sem me sentir um monstro. Eu comecei a confiar de novo naquilo que eu sinto. Essas mudanças, por mais pequenas que pareçam, elas representam algo enorme. Porque elas mostram que a pessoa deixou de viver só tentando sobreviver. Ela voltou a construir ali uma vida que faz sentido para ela. E se ao longo desse episódio você percebeu que pode ser o teu momento de começar essa reconstrução, eu vou te fazer um convite.

Você tá vendo na tela um QR code para marcar uma primeira sessão na minha clínica, na Clínica Psique do Futuro. A Psique do Futuro nasceu com esse propósito de cuidar de uma mente de cada vez, tornando o mundo um lugar melhor através de mentes saudáveis. Então a nossa equipe tem ali psicólogos especialistas em diferentes demandas da saúde mental, preparadas para oferecer um tratamento individualizado, ético, fundamentado nas abordagens que hoje apresentam os melhores resultados científicos para cada caso.

Porque para a gente fazer terapia não é só conversar com alguém, é ter acesso a um acompanhamento construído a partir do que a ciência mostra ser mais eficaz, respeitando a tua história, suas necessidades, seus objetivos. Então Se essa é você, aponta aí a câmera do celular para esse QR code ou então acessa o link na descrição desse episódio, tá bom? Vai ser um prazer caminhar com você nesse processo de reconstrução. E aí eu quero terminar esse episódio fazendo a pergunta que talvez você tenha se feito, tenha feito até você clicar aqui nesse episódio hoje: como saber se você tá vivendo uma relação com uma pessoa narcisista?

Que foi o tema, né, que te chamou atenção. Depois de tudo que a gente conversou, você já sabe que essa não é a pergunta mais importante, porque tem uma pergunta mais importante que é, lembra, quem eu me tornei dentro dessa relação, ou quem eu estou me tornando dentro dessa relação, tá? Será que eu tô confiando na minha percepção? Eu continuo confiando na minha percepção? Eu ainda consigo expressar as minhas opiniões sem medo? Será que eu ainda me sinto livre para ser quem eu sou?

Ou eu passei a viver tentando prever o humor do outro, evitando conflitos, medindo palavras, deixando parte de mim para trás, Essa é uma das perguntas mais honestas que você pode fazer dentro de um relacionamento, porque relações saudáveis não exigem de você que você se diminua para que elas funcionem. Elas não fazem você caminhar constantemente ali em cima de ovos. Lembra disso, tá bom? Relacionamentos saudáveis, eles também têm conflitos, também têm diferenças, tem momentos difíceis, mas existe uma característica ali que faz toda a diferença.

Mesmo depois de um conflito, você continua conseguindo reconhecer quem você é, você continua tendo voz, você continua tendo espaço e sendo respeitado, tratado com respeito. Então, se ao longo desse episódio você percebeu que algumas dessas experiências fazem parte da tua história, eu quero deixar uma mensagem aqui para você: não transforma esse conteúdo em um teste para diagnosticar alguém, mas transforma ele em uma oportunidade para você olhar com mais honestidade para tua vida, tá bom?

No final das contas, o nome que a gente dá ali para dinâmica importa menos do que os efeitos que ela produz. Você não precisa descobrir se alguém tem um transtorno de personalidade para reconhecer que o relacionamento tá te adoecendo. E também não precisa esperar perder completamente você mesmo nesse processo para decidir buscar ajuda. Quanto antes você compreender esses padrões, mais cedo você pode começar a reconstruir aquilo que tá sendo deixado atrás, porque nenhuma relação saudável vai exigir que você abra mão da tua ideia.

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ANAlana Nijá

Wayfair, every style, every home. Essa foi a mensagem de hoje, esse é o episódio de hoje. Espero ter te ajudado. Me conta aqui nos comentários, envia para amigos, familiares que possam estar precisando ouvir essa mensagem. Um beijo grande e até o próximo episódio do Psicologia na Prática.

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