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Por Que a Vingança Parece Tão Boa? - PODPEOPLE INVERSO COM DRA. ANA BEATRIZ | Ep. 039

07 de julho de 202650min
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Por que sentimos vontade de nos vingar quando somos injustiçados? E será que a vingança realmente traz alívio?Neste episódio do Pod People Inverso, exploramos a anatomia da vingança sob a perspectiva da psicologia e da neurociência. Conversamos sobre o desejo de retaliação, o impacto emocional do ressentimento, o papel do perdão e por que alimentar pensamentos de vingança pode prender a própria vítima em um ciclo de sofrimento.Também discutimos como o cérebro reage diante de injustiças, por que histórias de vingança fazem tanto sucesso e quais são as consequências emocionais de viver preso ao passado.Um episódio profundo sobre comportamento humano, saúde mental e escolhas que podem transformar a forma como lidamos com nossas dores.

Participantes neste episódio2
B

Bia Santos

HostJornalista
D

Dra. Ana Beatriz

Host
Assuntos3
  • Conflito e vingançaDefinição de vingança · Desejo de retaliação · Impacto psicológico
  • Frequência ilimitada do perdãoLuto sem funeral · Tribunal psicológico · Reparação vs. vingança · Perdão como libertação
  • Formação de Personalidades ViolentasTranstorno de personalidade narcisista · Transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo · Transtorno de personalidade borderline
Transcrição203 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
BSBia Santos

Se você parar no objeto de vingança, vai ter duas perdas, que é parar sua vida, que é incalculável. Se você alimenta a vingança, pensamentos de vingança o tempo todo, você também vai adoecer nesse processo. Ah, eu vou lá na rede social ver com quem que ele tá, eu vou ligar para aquela mulher, avisar quem ele é. Cara, você tá dando um tiro para frente que vai voltar a bala. Psicopata não tá nem aí se você tá achando que ele é bom ou não.

Ele tem um plano, ele vai executar um plano, independente de você. Esse plano for te matar no meio do caminho para atingir um objetivo, ele vai fazer. O perdão não é esquecer, mas é não se deixar mais viver em função daquilo, é não deixar aquela situação guiar a sua vida, sair desse ciclo. Antes de começar, eu queria pedir a todos que estão aqui que se inscrevam no canal, compartilhem o nosso conteúdo e acione o sininho para receber todas as novidades, tá bom?

Que aí cada vez a gente vai poder fazer mais e mais episódios, que vai fazer muito bem para todo mundo. Olá, sejam todos muito bem-vindos a mais um episódio do Pod People Inverso. Aqui você já sabe, eu viro entrevistada, Gabriel entrevistador. Tudo bom?

?Voz B

Tudo jóia, amiga.

BSBia Santos

Vamos lá, o que temos para hoje?

?Voz B

Hoje eu preparei aqui um inverso para você daqueles pessoal gosta, viu?

BSBia Santos

Então vamos lá.

?Voz B

Nossa Senhora, a galera pergunta muito sobre isso. Vamos lá, e eu te faço a pergunta, né? Hoje a gente vai falar sobre a anatomia da vingança. Nossa, olha só para você ver! E a primeira pergunta, né, é por que nós desejamos aquilo que nos destrói, né? Da onde que vem isso assim do comportamento humano?

BSBia Santos

Antes disso, né, o que que é vingança, né? Que é uma retaliação, é uma resposta a algo que a gente julga que nos feriu, né, nos causou dano, seja esse dano individual ou coletivo. E também pode ser algo que a gente imagina como real, ou que a gente faz uma vingança de algo que a gente imaginou. Também tem isso, né?

?Voz B

Tem gente que nem sempre é, nem sempre é real, é imaginado.

BSBia Santos

Pode acontecer da pessoa falar assim, por que você está fazendo? Por que você está falando, está fazendo isso contra fulano? Não, porque eu ouvi dizer que ele falou isso de mim. Quer dizer, a gente tem que ter muito cuidado, mas em geral a vingança é uma retaliação a um dano sofrido, ou individual ou coletivo, ou percebido como dano. Também tem isso, depende da pessoa.

?Voz B

De novo, porque às vezes na cabeça da pessoa foi aquilo, mas na realidade foi outra coisa.

BSBia Santos

Exatamente, a gente tem que estar sempre vendo isso com muita delicadeza. Agora, eu acho interessante, porque se você for ver, existe um autor de novela que é o— ai, meu Deus!

?Voz B

Walter Salles?

BSBia Santos

Não. Walcyr Carrasco. Walcyr Carrasco, as novelas dele, principalmente as últimas, trabalham muito com essa coisa da vingança, do revenge, dessa retomada. Ele já teve uma novela assim, que foi uma cena clássica da Bianca Bim chegando numa festa toda vestida de vermelho, falando assim: é um prazer inenarrável reencontrar vocês, né? Uma pessoa que sofre uma série de injustiças, danos, e volta para se vingar. E agora tá no ar uma novela que é Quem Ama Cuida, que também o personagem principal, se eu não me engano, é a Letícia Colin, tá fazendo uma pessoa que sofre uma série de de danos reais, reais mesmo, e que volta para se vingar.

Então é importante que a gente veja que a vingança ela tá sempre— é, isso foi, eu não me lembro do nome dessa novela, mas eu me lembro da Bianca Bim. Você lembra o nome?

?Voz B

O Outro Lado do Paraíso.

BSBia Santos

O Outro Lado do Paraíso, que foi clássico, né? E eu como observo isso, eu acho muito que essa novela que tá no ar, que é o Quem Ama Cuida, a Letícia Colin que eu acho uma atriz maravilhosa, eu acho que ela vai voltar de vermelho. Pode ser que eu me engane, mas eu acho que não. Ela tá no processo de ainda sofrer os danos provocados pela, pela família de um cara muito rico que foi morto e atribuíram a ela.

?Voz B

Se identificar com pessoas injustiçadas?

BSBia Santos

Claro, claro, porque humano, por exemplo, a vingança ela é uma coisa tipo assim, ah, porque a pessoa se vinga. A vingança tá na história da humanidade, né? Não é algo— todo mundo teve ou terá um desejo de vingança. Por quê? Porque coletivamente nós somos seres sociais. Quando a gente vivia em grupos, né, em grupos mesmo, quando alguém quebrava a confiança, existia uma retaliação. Por quê? Porque aquilo podia prejudicar a sobrevivência do grupo.

E até hoje, quando a gente sofre algum tipo de dano, o cérebro ativa essa questão do pensamento da vingança como uma ameaça, uma ameaça à nossa sobrevivência.

?Voz B

Caramba, quanto tempo depois o cérebro ainda continua.

BSBia Santos

Eu costumo dizer que o nosso cérebro é que nem aquela música do Belchior. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. O nosso cérebro, a estrutura dele de reagir a qualquer ameaça é primitiva, é como se fazia lá. Olha, isso aí é algum artigo que você trouxe.

?Voz B

Então, quando a gente fala da vingança, né, tem estudos sobre vingança. Olha para você ver que legal, e mostra que ela não é só um desvio moral, né? Ela é uma herança evolutiva. Nas comunidades primitivas, a retaliação era a única forma de proteger recursos e garantir a coesão do grupo, a chamada punição altruísta.

BSBia Santos

Eu não sei nem se é altruísta, mas era punir quem traiu para proteger o grupo. Porque se um traidor põe em risco um grupo, ele tinha que ser punido. Sim, então retaliação.

?Voz B

Então isso, em várias sociedades antigas tinha isso, né? Cada uma tinha uma punição diferente, né? Então tinha uns que era crucificado, outros que eram esfolados vivos, tinham, era aquele que era o pecado que não podia Não podia ser feito, não podia ser feito nem se repetir. Então tinha que dar um exemplo para os outros, ó, exatamente, vai trair, olho por olho, dente por dente.

BSBia Santos

Exatamente. E também foi essa sede de vingança, de retaliação, que com o tempo se fez necessário ter um sistema de justiça. Sim, porque senão todo mundo ia começar a retalhar do seu jeito, né?

?Voz B

Todo mundo acha que foi injustiçado, então eu vou fazer justiça.

BSBia Santos

E toda vingança ela é feita numa tomada é de componente emocional muito alto. A vingança, ela começa ali a fomentar com a raiva. Então ela faz um processo que desativa o nosso lobo pré-frontal. O que que acontece? Eu desativo a minha razão, eu fico pura emoção. E na emoção eu posso fazer coisas que depois não tem volta. Então a gente tem que entender que é quando você entra na questão da retaliação, da sede de vingança, você acaba desligando o seu senso racional, o seu controle de impulso. Você pode fazer coisas muito ruins.

?Voz B

E isso você faz de forma inconsciente mesmo na hora da raiva, ou consciente?

BSBia Santos

Não, eu acho que é um mecanismo que tende a acontecer no cérebro. O cérebro se sente ameaçado, você sofreu um dano, ele vai reagir da mesma maneira quando a gente era primitivo. Mas em sabendo disso, desse sequestro cerebral, desse sequestro neurobioquímico, você passa a refletir. Aí você dá meio que um passo para trás, você dá um passo para trás, você já sabe, não sou o que eu penso, é o que eu faço. Então você pode pensar o seguinte: tô pensando isso no calor da raiva, no calor da reação, da retaliação.

Vamos baixar a bola, esperar isso passar. Religar meu lobo pré-frontal, porque senão depois eu posso me arrepender profundamente. Tem aí, né, você colocou o sequestro neurológico.

?Voz B

No mesmo estudo ele já faz alguns pontos, né, que geralmente quando—

BSBia Santos

bonita essa imagem! É, geralmente imagem escura assim, né, mas ali você tem ínsula, você tem núcleo accumbens estriado e você tem pré-frontal. Pré-frontal é que tá menos, tadinho, porque ele tá adormecido, ele tá adormecido porque esses dois estão ativos. É, tá, vamos lá.

?Voz B

É aquilo que você falou agora, né, que você tem que esperar, calma. A gente teve até um universo sobre a raiva, foi literalmente sobre raiva.

BSBia Santos

É o que liga na hora que você tem aquela coisa: fui agredida, fui, fui danificada, fui injustiçada. Primeiro é raiva, e a raiva entra nesse, ela é o combustível, eu diria que ela é o fósforo. É o que acende, é o que acende a vingança, com certeza. Então aí lá no estudo ele mostra, né, que a primeira parte é esse ali no meio, no meiozinho, mais brilhoso, é a ínsula.

?Voz B

Isso, a queimadura, né, registra agressão psicológica de forma idêntica a uma queimadura física. A humilhação dói no corpo.

BSBia Santos

Exatamente isso. É quando você sofre algum tipo de dano, de injustiça, de desmoralização, acende, né, uma coisa dentro do teu cérebro ali nessa região da ínsula que dói ou queima ou arde. Isso é a raiva, né? Então você aciona ali uma coisa de tipo assim: estou em ameaça.

?Voz B

E nesse momento você consegue fazer isso que você falou, que é tipo: opa, não.

BSBia Santos

Mas você consegue entender que tá com raiva.

?Voz B

Entendi. E qual que é o passo para a gente não ir para os outros dois, né?

BSBia Santos

E não vai, você vai de qualquer jeito, não tem jeito. Isso é muito rápido, isso é um instinto de sobrevivência. Aciona o teu instinto, tipo alarme total.

?Voz B

Aí vai para o estriado dorsal, né, que era no núcleo accumbens, o vício lá, o centro da recompensa. Apenas imaginar retaliação libera uma—

BSBia Santos

aí você já tá imaginando, tipo assim, cara, eu vou me vingar, eu vou fazer isso, já me libera uma dose de dopamina grande que me dá, sabe quando você imagina uma vingança? Vou fazer, vou acontecer. Aquilo te dá uma dose de dopamina. E aí o que que acontece?

?Voz B

Imediatamente... E dá pra ficar viciado nisso? Ficar o tempo todo tramando e tudo pra dar aquela...

BSBia Santos

Não sei se é um vício, mas é uma sensação boa. Tem gente que vive querendo se vingar, mas aí eu não acho que não vicia nisso. É porque dá uma sensação boa. Nesse exato momento aí você não consegue, você inibe, você tá no auge da raiva, da reação, você inibe totalmente o pré-frontal e você não tá sabendo lidar com as consequências. Mas isso tem uma duração pouca. Você lembra quando a gente falou da raiva, que era fósforo? Não, era em média de 90 segundos, 1 minuto e meio.

Então você sabe identificar na hora que você ficou descontrolado. Essa é a hora de você parar e tipo assim, calma, calma, não vou agir nessa hora, não vou agir. É a hora de você silenciar, esperar essa descarga de defesa que teu organismo leu passar.

?Voz B

Libera muito cortisol nesse momento?

BSBia Santos

Sempre, porque é a reação do organismo.

?Voz B

Porque é um estresse também?

BSBia Santos

Claro que é um estresse, é uma ameaça, é uma ameaça.

?Voz B

Então tudo que é uma ameaça é um estresse para o cérebro?

BSBia Santos

Com certeza, ele reage com a reação de medo. Com a reação de luta ou fuga. É sempre a mesma coisa. O cérebro é uma, é uma, um sistema maravilhoso, mas ele tem dois mecanismos, dois caminhos muito fortes, que é do medo, né, que reage a qualquer tipo de ameaça, seja física, seja psicológica. Por isso que um cancelamento nas redes é tratado como uma coisa muito violenta para o teu cérebro, se a gente não racionaliza as coisas.

?Voz B

Eu tava vendo aqui, e o cérebro, o cérebro, né, quando ele fica muito estressado nesse instinto de luta ou fuga, é até a digestão do seu estômago fica ruim, né? Tem uma inflamação crônica, tem perda de cabelo, problema de sono crônico.

BSBia Santos

Isso se é crônico, não é na hora. Nós estamos falando aí da hora.

?Voz B

Qual que é a diferença de quando se torna algo crônico e algo de momento? Porque a pessoa fica buscando vingança, o tempo ela fica remoendo isso.

BSBia Santos

Claro, se você começa, se porque Quando isso ocorre, eu tenho que parar e falar assim: calma, vamos lá, vamos ver como eu vou lidar com isso de uma maneira racional para que eu não faça uma cilada e me adoecer. Porque senão você acionou o sistema de luta ou fuga e você vai adoecer.

?Voz B

E se você vai repetindo isso, a gente usa a neuroplasticidade do cérebro de forma errada, né?

BSBia Santos

Errada. Você tá fortalecendo caminhos de vingança. Tanto que você botou no início, achei interessante que você botou assim: por que desejamos o que nos destrói?

?Voz B

Sim, por quê?

BSBia Santos

Porque se você alimenta a vingança, pensamentos de vingança o tempo todo, você vai acionando cortisol, porque para o teu cérebro você tá vingando algo que te causou um dano. Então você vai entrando num estresse crônico. Aí você vai ter tudo isso, entendeu? Que você falou: insônia, alteração de pressão, alteração digestiva, fadiga, queda de cabelo, isso crônico. Mas o que a gente tava vendo ali é uma reação imediata, tá?

?Voz B

Então, só que é aquilo, né, vai tendo várias reações imediatas até cronificar, ou não?

BSBia Santos

Não, você vai cronificando se você continua pensando, mesmo na mesma função de vingança.

?Voz B

Então é isso que é o ponto.

BSBia Santos

Aí, no caso, por exemplo, uma mulher traída que fica o tempo todo, aí vou lá na rede social ver com quem que ele tá, porque eu vou fazer, eu vou ligar para aquela mulher avisar quem ele é, ou vice-versa, ou um homem traído. Cara, você tá dando um tiro para frente que vai voltar a bala. Pode ser até que você prejudique o outro, mas você também vai adoecer nesse processo, não tenha dúvida.

?Voz B

Não vale a pena, né?

BSBia Santos

Não sei se vale a pena. O fato é que É, tá provado que você tá doando saúde. Entendi, é o bom senso, né?

?Voz B

Então a gente vai pegando aqui, ó lá, anatomia do vício, né? O primeiro lá, o gatilho.

BSBia Santos

Por que que fala em vício? Fala em vício porque naquele, no sistema do accumbens ali, o accumbens, o estriado, existe liberação de dopamina quando você começa a imaginar, ai, eu vou fazer fulano vai sofrer. Isso dá uma coisa ao cérebro como se você tivesse reagindo a uma ameaça, dando um troco. Então existe um momento que dá prazer, mas esse momento é um pico e volta, tá? Porque aí depois que isso volta, do mesmo jeito que subiu, ele desce, né?

Exatamente. Nessa hora o pré-frontal tá desligado, a tua razão foi embora. Mas logo depois aquilo passa, dura poucos minutos, e é a hora de você falar: não, não vou fazer nada disso. Não vou fazer nada disso, que isso vai me prejudicar. Eu vou cometer uma coisa que é ilegal, eu posso responder, vou adoecer. Além de você, na vingança, você pode perfeitamente— muitos homens se vingam, feminicídio, muitos justificam isso como uma vingança justa.

Não existe vingança justa, não existe essa possibilidade. Então pode acontecer de você cometer uma besteira que depois não tem volta.

?Voz B

E a gente vendo como é que funciona essa anatomia, né, que é o gatilho, depois a fissura, depois o falso pico e o crash, que é a queda, né.

BSBia Santos

Na realidade, o gatilho é quando você sente que a tua integridade psicológica e física foi ameaçada, é o alarme. A fissura é quando o cérebro busca alívio na fantasia de vingança. Então todo mundo já teve.

?Voz B

Nem sempre é o que a gente quer, é o que a gente vê, né. Às vezes Às vezes é o que a gente quer.

BSBia Santos

Igual, por exemplo, às vezes fantasia, o que te dá liberação de dopamina é a fantasia.

?Voz B

Então às vezes nem é uma vingança, como eu disse, real. Às vezes é só vingança que o meu cérebro, ele vai fazer a fantasia.

BSBia Santos

Isso é humano, ele vai fazer. A questão de você vai executar ou não é outra história.

?Voz B

Aí já é depois desse ciclo?

BSBia Santos

Depois.

?Voz B

Ah, entendi. Já separou na fissura, né?

BSBia Santos

É quando você usa a fantasia e você fala, ah, tá vendo? Olha lá, me vinguei. O cérebro interpreta isso como uma coisa, te dá dopamina, você fica, ah, tá vendo? Fiz a coisa certa. Mas isso é fantasia, tá? O falso pico é quando você já tá no planejamento, né? Aí você vai para o ato de retalhar, de se vingar mesmo, que libera uma dose rápida e efêmera de dopamina, tanto aqui quanto aqui. Tá? E a queda é quando você, essa dopamina do que você vai fazer, do planejamento.

O planejamento aqui você fica: vou fazer isso, vou fazer aquilo. Aqui você tá fantasiando: vou punir. Aqui no falso pico é quando você fala: vou punir fazendo isso, isso, isso.

?Voz B

Já tem até o como que você vai executar aquilo ali.

BSBia Santos

É tipo assim: eu vou me punir. Aqui é: vou me punir assim, assim, assim.

?Voz B

Porque já constrói toda a ideia, toda aqui.

BSBia Santos

Aí você tem uma liberação de dopamina aqui também, na fantasia, e aqui também. A queda é quando essa dopamina que é liberada quando você imagina a vingança, ela evapora, ela saiu, sai. Aí vem a dor, aí a dor retorna, você fala, caramba, tá? E tem, aí vem a razão, né? Aí vem a razão que você fala assim, tá, eu vou fazer isso tudo, legal, e depois?

?Voz B

E o que que vai ser?

BSBia Santos

Eu posso ser filmado, eu posso não sei o quê, fulano sabe que eu tô com isso. Eu vou sumir do país? Ou então, tipo assim, e se eu fizer isso e não conseguir acabar com a pessoa? A pessoa vai... Também vai ter volta.

?Voz B

Ela também pode se vingar.

BSBia Santos

Aí vem o medo, vem a insegurança, vem a razão. Então esse é o ciclo. A gente espera que na queda da dopamina o bom senso e a nossa razão volte.

?Voz B

Entendi. Agora aqui no nosso estudo tem esse gráfico que mostra o paradoxo do vingador, né? Que é a expectativa versus a realidade. Aqui do lado seria a curva de felicidade, de humor, como ele se sentiria quando fizesse ou não fizesse aquilo. Os previsores, que é aquela que eles acham que vão fazer, eles acham que eles vão ficar super feliz.

BSBia Santos

Super, né?

?Voz B

Os não punidores, o que fala, ah, tá tudo bem, deixa pra lá, fica um pouco menos feliz do que ele acha que ficaria. E quem realmente faz dá aquele down. A pessoa fica muito mal, ou seja, ela não fica nada feliz com aquela ação dela.

BSBia Santos

Você acha que as consequências, né?

?Voz B

Você acha que isso é por causa das consequências ou por causa daquela queda de dopamina também que ela tem?

BSBia Santos

Eu acho, pera aí, tem duas coisas. Tem gente que não se arrepende, mas aí a gente não tá falando geral. Vamos falar no geral. O previsor é aquele que tem a ilusão, ele tá no auge da ilusão de que vai que vai punir e que vai ficar bem com isso. É aquela hora que ele tá imaginando, fantasiando como vai ser, libera dopamina.

?Voz B

Mas é porque ele acha que tá fazendo justiça ou ele tá dando troco?

BSBia Santos

Não, não é nada de justiça. O cérebro lê como sobrevivência.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

Ele me agrediu, eu vou reagir porque ele está me impondo um dano. Olho por olho, dente por dente. É o sistema do cérebro. Então ali ele acha que ele vai, só de imaginar, ele vai fazer aquilo, tá felicíssimo, porque ele tá com dopamina, tá? Aquele momento da dopamina. Só que tem que— essa dopamina sobe e desce. O não punidor é aquele que ele é impelido de retalhar, mas ele consegue, tá, esperar essa dopamina baixar e falar: não, não vai valer a pena, não vai valer a pena, tá?

E ele na realidade acaba tendo um grau de satisfação, de felicidade muito maior do que muito maior, não, menor do que o cara imaginou. Entendi, tá? Agora, o que vai, aquele que executa a vingança, ele não conseguiu voltar atrás, dá um passo atrás e falar para ele, um passo na pessoa, ele foi um passo na pessoa, ele não voltou atrás. Aí esse vai pagar a consequência. O resultado: humor hostil, estresse elevado, fixação obsessiva.

Se o cara não consegue, tipo assim, não vou fazer isso, aí ele entrou naquela coisa de ficar planejando, aí ele entrou na obsessividade da vingança, vai viciando, será? Vai viciando, não vício, mas é aquela coisa, ele não sabe mais voltar atrás. Ele alimenta aqueles pequenos picos de dopamina como algo tipo assim, ele passa a viver em função daquilo.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

E é muito ruim porque na realidade ou vai acabar muito mal, ou então ele vai adoecer no processo, ou ele vai pagar as consequências.

?Voz B

Dá para acabar mal nisso, não tem como. A gente tem a parte da mentes da retaliação, né, que é, a gente tem um gatilho, o que que ativa, a tática, o formato do dano e o objetivo oculto, o que buscam, né. Então a gente tem, por exemplo, transtorno de personalidade narcisista, o transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo e o transtorno de personalidade borderline.

BSBia Santos

Aí já é uma outra coisa, né, o que tá sendo inferido aí por esse autor é que existem transtornos mais predispostos à vingança.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

É isso que ele quis dizer. Aí vamos lá, que que ele quis dizer? Que o transtorno de personalidade narcisista tem uma tendência maior à retaliação, mas os motivos são totalmente diferentes, posso garantir isso. Então vamos lá, o gatilho que leva um narcisista é ameaça à autoimagem dele. Então o que que ele fala? Se eu não dou o ibope para o narcisista ou desmascarar um narcisista, ele entra em fúria. Por quê? Porque o narcisista, ele vive de ter pessoas que idolatram, que acreditam em todas as suas mentiras e que fazem ele se sentir uma pessoa maravilhosa.

Exatamente. Então ele não, ele não, não vai para retaliação por um motivo nobre, tá, como era nos homens primitivos. Ele vai porque a imagem dele foi alterada. Então, se você chega para o narcisista e diz: palhaçada, você não é nada disso, tá se mostrando aí, papapá, papapá, você nunca fez nada, tá aí falando que fez, que aconteceu, ele entra em fúria porque você tá magoando a imagem dele, tá causando um dano. Aí, qual é a tática, né?

Humilhação pública e campanhas de difamação. Do momento que você tenta desmascarar abertamente um um narcisista nesse enfrentamento, ele vai fazer uma campanha pública de difamar sua imagem. Caramba, ele vai fazer, ele vai fazer. Ele poderia nem fazer, nem tava no radar dele, mas a partir do momento que você feriu a imagem dele, ele vai contar coisas, vai inventar histórias de você, vai falar coisas horrorosas e vai escolher pessoas que são, lhe são caras, Eles são boas. Então ele vai num amigo seu ou no seu chefe, pá pá pá pá pá, de vingança.

?Voz B

E geralmente essas pessoas, elas, como é que eu vou dizer, elas são desmascaradas facilmente ou não?

BSBia Santos

Olha, o narcisista sim, porque se a gente observar bem, o narcisista ele é tão, ele entra tão grandioso na sua vida que você fala, tem uma coisa errada com esse cara. Se você for pesquisar ele, você acha logo os buracos. Que ele sempre tá difamando alguém, sempre tá alguém que ele perceba que está ameaçando o seu disfarce de cara tão bom, tão maravilhoso, ou mulher tão boa, tão maravilhosa.

?Voz B

E agora uma dúvida, já que você falou caras e mulheres: a mulher, ela disfarça melhor do que um homem? Porque o homem às vezes ele passa mais como psicopata.

BSBia Santos

Não é necessariamente um psicopata.

?Voz B

Qual que é a diferença?

BSBia Santos

Muito grande. O psicopata, ele é narcisista também. O narcisismo é um sintoma já incluído da psicopatia. Todo psicopata é narcisista, mas nem toda— exatamente.

?Voz B

Caramba!

BSBia Santos

Porque para você ser um narcisista, para ser psicopata, ele tem que ser perverso.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

Ele não fica só ali na campanha difamatória, ele vai armar para você.

?Voz B

E aí é onde começa o negócio dos filmes, né?

BSBia Santos

Coisas tenebrosas. Aí até onde ele vai, a maldade que ele tá disposto a fazer para defender a sua imagem, aí você vai ver se ele é psicopata ou não.

?Voz B

Entendi, tá.

BSBia Santos

No caso do psicopata, mas isso tudo, o objetivo dele é restaurar a imagem, a imagem dele, só isso, só isso.

?Voz B

Mas então, mas aí vamos lá, se ele faz essa vingança, ele busca um prazer naquilo, não só de restabelecer a imagem, ele pode ser classificado como psicopata.

BSBia Santos

Mas se ele faz isso só do que ele faz, porque certas maldades só um psicopata faz, com certeza.

?Voz B

Entendi. No caso do psicopata masculino, ele sempre vai para aquelas coisas mais de se destripar, aquelas coisas.

BSBia Santos

Não, esses são serial killer, são os psicopatas graves. Tem outros que vão fazer maldades inimagináveis, mas não vão chegar a matar, tipo sequestrar um filho.

?Voz B

Caramba!

BSBia Santos

Fazer ameaças, entendi. Pedir uma retratação pública para você dizer que se enganou, que não foi nada daquilo, para restaurar essa grandiosidade. Mas é importante a gente colocar que especificamente nesse estudo ele não tá fazendo inferência à psicopatia.

?Voz B

Exatamente. É porque eu fiquei preocupado, que eu falei assim, caramba, então tipo naqueles filmes quando retratam aquilo, ele pode ir lá para o júri e falar assim, ah, na verdade eu fiz em busca de vingança, mas na verdade o cara é um psicopata. Ele não fez isso porque ele fez, né, tipo na emoção, ele fez isso porque ele queria, gostou daquilo, né?

BSBia Santos

Assim, o prazer mórbido Pode haver. O narcisista, a gente tá falando do transtorno mais comum. A retaliação não é a coisa mais comum para o psicopata, não. O que é mais comum é para o narcisista. Psicopata não tá nem aí se você tá achando que ele é bom ou não. Ele tem um plano, ele vai executar um plano, independente de você. Esse plano for te matar no meio do caminho ou fazer algo para você sair do meio do caminho dele, matar sua família para atingir um objetivo, ele vai fazer.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

O narcisista, ele tá mais preocupado com a sua imagem.

?Voz B

É menos pior, né?

BSBia Santos

É menos pior. Mas se for um psicopata narcisista, aí é outra história. Mas aí é só o narcisista, tá? Aí ele também coloca o transtorno de personalidade obsessiva compulsiva. Qual é o gatilho? É a quebra da ordem, da simetria. Do que torna as coisas sair do padrão perfeito. Isso é o problema da retaliação do obsessivo compulsivo. Exatamente. O que que ele faz é, na realidade, uma hipercorreção minuciosa e punição processuais. Quer dizer, ele faz isso, ele vai punir, ele vai se vingar porque você quebrou a ordem e organização dele.

Entendi. É pesado. Quer dizer, não é porque você— porque tirar a ordem de um transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo é bagunçar a vida dele. Então ele pode ter uma mente no sentido de retalhar. Ele quer corrigir aquilo que você bagunçou.

?Voz B

Mas aí tem os graus, né? Porque igual às vezes a mulher, né, o homem vai olhar e fala assim: nossa, minha esposa, ela fica, né, processa quando eu coloco a toalha dobrada errado. Não quer dizer que o seu marido vai se vingar de você que você tirou a toalha dele do lugar.

BSBia Santos

Não, pode, pode fazer uma vingança do tipo, pode uma mini vingança, pode, pode. Tipo assim, não vou falar com ele hoje. Ah, então eu vou fingir que não tô nem aí. É, por exemplo, quantas vezes você, cérebro humano, é o cérebro humano, tipo assim, pô, sabe que eu não gosto daquilo, já pedi para não botar aquela toalha, não sei o que lá, que que faz? Senta, fica calado. É, não deixa de ser, dentro desse raciocínio, uma punição para aquilo que a pessoa sentiu agredida na desorganização do mundo dela, tá?

E que que, o que que é o objetivo? Corrigir o erro e restabelecer o autocontrole absoluto. Ele quer o controle, ele quer as coisas nos seus lugares.

?Voz B

Entendi. A toalhazinha tem que estar lá bonitinha.

BSBia Santos

Exatamente. É transtorno de personalidade borderline, também tem uma tendência à vingança. Por quê? Mas aí é outra coisa, é o medo desesperado do abandono, mas aí é da rejeição.

?Voz B

Mas aí eles se vingam por medo de ser abandonado, mas ele não vai acontecer o abandono por causa disso?

BSBia Santos

Não, mas geralmente se vinga porque foi abandonado.

?Voz B

Ah, não fica com medo de ser abandonado.

BSBia Santos

Retaliação intempestiva e manipulação emocional profunda. Então assim, ao se sentir— agora tem uma coisa, o border ele pode ter esse sentimento real porque foi abandonado ou imaginado. Por exemplo, ele pode estar achando que está sendo traído ou traída, e aí ele faz uma vingança já porque já viu que foi traído.

?Voz B

Entendi. Mas na hora que vai ver, não foi traído, ele sofre de novo, sofre mais ainda. Caramba, tadinha dele.

BSBia Santos

Então assim, fazer o objetivo do boy, fazer com que o ofensor sinta exatamente a mesma dor da rejeição dele. O border, ele leva ao máximo olho por olho, dente por dente. Então assim, se ele acha que você tá traindo, ou se ele sabe que você traiu, ele vai trair na ilusão de que você vai sentir a mesma coisa que ele. Dependendo da personalidade, pode até que sinta, mas em geral não. Por exemplo, se for um narcisista, não vai sentir.

?Voz B

Mas dá para ser borderline narcisista?

BSBia Santos

Não. Se a pessoa que causou a traição foi um narcisista, não vai sentir de jeito nenhum. Não vai sentir. Então, psicopata não vai sentir de jeito nenhum. Sim, mas na hora é um impulso, é uma retaliação intempestiva.

?Voz B

Entendi. Não é que ela acha, o cérebro tem esse mecanismo sem ela querer ou não, né?

BSBia Santos

Precisa ser entendido, precisa ser racionalizado. Para que aquele momento de intempestividade a gente espere ele passar.

?Voz B

Entendi. Agora tem uma frase legal que dentro desse artigo eles colocam, que é o luto sem funeral. Que é o luto sem funeral, vamos lá, que tem até uma imagem na tela que é como se fosse um iceberg, né, que lá em cima, na vista de todo mundo, a vingança e a raiva, que muda o sistema nervoso, a fantasia de retribuir e a ação de ferir de volta. Só que lá embaixo tem o luto, humilhação, injustiça, né? O anseio invisível para que o mundo volte a ser justo, a dor de uma dignidade roubada, uma segurança estilhaçada e um trauma que nunca recebeu validação ou pedidos de desculpa.

Aí tem uma nota de rodapé que é a seguinte, né? A maioria dos desejos de vingança não é maldade pura, é o cérebro recorrendo à raiva porque ela é mais fácil de suportar do que o desespero. Você acha que isso é muito algo mais assim generalizado na população normal que não tem aqueles traços de personalidade que a gente viu no anterior, ou ainda tem neles mesmos?

BSBia Santos

Eu acho que isso é geral. Não, eu acho que isso é mais geral.

?Voz B

Tem isso também de que tipo eles não controlam, né?

BSBia Santos

Porque quando você fala que tem um transtorno específico, a gente tem que ter um outro olhar. Vamos botar aqui como um geral. Eu acho que é isso, né? Tipo assim, A vingança é o que a gente vê ali no primeiro momento, é a raiva, tanto tá vermelho, né? Por isso que eu falei, né, esse é o Walcyr Carrasco, eu tenho certeza que ele vai botar a mocinha para quando voltar para vingança de vermelho.

?Voz B

Ah, porque como se fosse a cor da—

BSBia Santos

porque a raiva é a raiva, é o que ferve.

?Voz B

Por isso você tá de vermelho?

BSBia Santos

Não sei, não, porque representa a cor do episódio. Olha, eu não pensei, mas tudo bem, ótimo, foi inconsciente, ótimo. É aquilo que eu falei, é o fósforo. Né? A raiva é o fósforo que acende a vingança. É nessa hora aí que aquela fantasia inunda o cérebro de dopamina, de uma energia que a pessoa acha que achou a solução. É só fazer isso, vou fazer o outro sofrer, vou restabelecer o que é correto, o que é justo. Quando na realidade justiça não é feita sob forte emoção.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

Então isso é uma ilusão. Por isso que eu acho interessante que tem gente que fala assim, ah, eu nunca me vinguei. Ótimo sinal de que, mas você certamente gente já teve sentimentos ou pensamentos de vingança, porque é humano.

?Voz B

E pegar aquilo que você falou, eu não sou meu pensamento, né? Então aquilo que os pensamentos que você tem na hora da vingança é os piores possíveis.

BSBia Santos

Eu não posso dizer que uma pessoa fala, ai, pensei tanto em me vingar, ah, você é uma pessoa ruim. Não, você não é uma pessoa ruim, você é uma pessoa humana. E um humano que não se deixa controlar pela raiva ou pela forte emoção da vingança, porque Se você não executou, você não fez a vingança. Então você teve o controle, você soube lidar com isso, que é a tal do autocontrole emocional, entendi, que é tão importante.

?Voz B

Então se a gente for parar para pensar, dentro de toda pessoa que tá nesse caminho da vingança, buscando vingar, ela também tem tudo isso aqui, né, que é, como é que eu vou dizer, essa humilhação, essa Não tem esses sentimentos.

BSBia Santos

Na realidade, a pessoa tem um sentimento de que vai restabelecer uma coisa justa, correta.

?Voz B

Mas ela fica deprimida até chegar nisso?

BSBia Santos

Não, não é que ela fique deprimida. Ela acha que ela tá se vingando para restabelecer um dano que lhe foi feito.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

Se é real, se é do tamanho que ela imagina ou não, porque é um mecanismo do cérebro.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

Como a gente viu, era um mecanismo do cérebro de restabelecer o equilíbrio de um grupo. Se alguém traiu, existia uma vingança para restabelecer a segurança daquele grupo. E o nosso cérebro funciona ainda da mesma maneira, só que tem que— hoje nós temos acesso a estudos, entendemos o que ocorre, então nós podemos não cair nessa cilada.

?Voz B

Entendi, entendeu? A gente pensando assim, olhando para imagem, né, que na hora que vamos falar assim, a gente cometeu a vingança, então a gente perdeu o vermelhinho, fica só essa parte de baixo, ficaria toda essa dor que já tava lá?

BSBia Santos

Eu acho que depende. Se a pessoa, ela vai sentir, ó, anseio invisível para que o mundo volte a ser justo. Isso é o que ela tá sentindo.

?Voz B

Aí ela cometeu a vingança, não ficou justo, continua a mesma coisa, ela fica só com essas dores.

BSBia Santos

Eu acho até que ali ela pode ficar, mas ela vai ter que elaborar, que por um bom senso se ela for analisar, ela tá pior do que tava antes. Se ela vai a via de fato da vingança, as consequências podem tornar a vida dela bem pior do que tava.

?Voz B

Ou seja, a vingança nunca é plena, mata a alma, envenena.

BSBia Santos

É, ainda mais num país como o nosso, né, que às vezes a justiça não é justa. Então pode ser que as pessoas—

?Voz B

ótimo ponto, né? Então agora a gente vai falar sobre a democrática linha da vingança e da justiça. Então vamos lá. O que seria vingança e o que seria a justiça, né? Então a gente coloca vingança como o nó e a justiça como a bússola. Então temos aqui o motivador, o alvo, propósito, fim e agência. Então quando a gente pega lá emoção, raiva, ódio, medo e satisfação sádica, então é o que motiva ele. A justiça no caso seria a razão, imparcialidade e ausência de paixão.

BSBia Santos

Imparcialidade, ausência de paixão. É, o que coloca é que a vingança ela é motivada por emoção e a justiça em princípio tem que ser pela razão, né? Isso é a grande diferença, porque tem gente fala assim, muita gente fala assim, não, você tá certo, o que foi feito com você tá errado. Mas a vingança ela nunca é justa porque ela tem uma gama de emoção que se a pessoa for executar vai ultrapassar, vai ultrapassar o limite. Do razoável.

E a justiça, se ela for bem feita, bem organizada, ela dá essa imparcialidade, dá tipo assim: você teve um dano, vamos restaurar o dano, mas de forma justa. Não do tipo: vou— porque tem gente que acha assim, ah, teve um dano, aí a pessoa põe na cabeça que aquele dano vale, sei lá, 3 vidas, 100 milhões de dólares. Não, tem que ter um órgão que diga, tipo assim, olha, vamos para o razoável, vamos ao razoável, fazer a conta aqui, se é isso mesmo, uma razoabilidade.

?Voz B

Lá tava olho por olho, dente por dente, não é olho por cabeça, dente por braço, né?

BSBia Santos

Então, em princípio, a justiça veio para dar uma, uma, desfazer esse nó e tentar estabelecer uma imparcialidade, uma razoabilidade.

?Voz B

Entendi.

BSBia Santos

Porque você, por exemplo, uma pessoa vai pagar para o resto da vida uma coisa, se não é aquilo que você falou lá no começo, né?

?Voz B

Se lá na tribo também tivesse só vingança, vingança, vingança e Punição, punição, punição, não ia ter tribo depois.

BSBia Santos

Não ia ter tribo, exatamente.

?Voz B

E igual a gente busca aqui, né, na parte do alvo, a vingança pessoal ela busca sanar uma ferida narcísica individual, enquanto a justiça ela é impessoal, violação de uma coletividade. Deveria ser, nem sempre é, né?

BSBia Santos

Nem sempre é, mas a gente tem que batalhar para ter uma justiça que seja imparcial, impessoal.

?Voz B

Tem a parte do propósito também, né, que o propósito da vingança é a retaliação, o foco em ferir e causar dano desproporcional, que é o que você acabou de falar, né?

BSBia Santos

Exatamente. Em geral, a vingança, ela quer mais do que fazer um dano, ela quer fazer um super dano, né, motivado por essa reação do cérebro de sobrevivência, de se sentir ameaçado. A justiça não. Se o que se tenta fazer com a justiça é reparar um dano de forma equilibrada, né, e de forma que tenha o equidade também, uma coisa justa, correta.

?Voz B

O que é certo é certo, é o famoso, né?

BSBia Santos

E razoável, né? Porque existe a questão do razoável. A justiça tem que ser razoável. Quando você tem que ser justo, tem que ser justo e razoável. Você não pode imaginar o que você significa que é justiça, entendeu?

?Voz B

Tem a parte do fim também, né, que a vingança termina com um ciclo infinito, que a cada gota, a cada ato, gera uma nova vítima, né?

BSBia Santos

Então É porque se você fica no— não, porque se você não sai dessa coisa da vingança, do pensamento, você vai se viciando naquela coisa de ficar imaginando formas de vingança e como executá-las. Você fica num ciclo infinito, entre aspas, um vício em ficar imaginando situações mirabolantes nas quais você vai resgatar uma coisa, desfazer um dano feito. Então é difícil. Agora, a justiça tenta dar um fechamento nisso. Às vezes falha, no sentido de não ser totalmente correto, mas espera-se que isso seja feito.

?Voz B

Por isso que tem o tribunal, ele é tão, como é que eu vou dizer, complicado, né? Porque tem juiz, júri, é, júri depende do crime.

BSBia Santos

Eu acho até quando tem um júri a tendência é se fazer mais justiça, porque tem as pessoas que não são— o júri é formado por pessoas comuns, não tem aspecto político, é, diminui muito. Por exemplo, você comprar um júri é muito difícil, você subornar especificamente um agente é mais fácil. Não tô dizendo que é uma prática, mas é mais fácil.

?Voz B

Então assim, o júri é o quê, 12?

BSBia Santos

Por isso que a maioria dos crimes não vai a júri popular. Popular, mas porque senão nem daria, seria impossível tanta demanda. Mas o júri popular, ele dá uma, como é que eu vou dizer, uma camada de proteção maior, uma lógica maior de que pessoas que pensem como senso comum possam ajudar a restaurar uma justiça.

?Voz B

E o último seria o agente, né? A gente Seria o, na vingança seria o monopólio, a vítima atua como juiz e carrasco.

BSBia Santos

É, na vingança é interessante, né, que a pessoa ela quer determinar qual é a pena e além disso quer executar essa pena.

?Voz B

Juiz, júri, executor, tudo.

BSBia Santos

E sempre num grau de emoção que esse carrasco é carrasco, né, tipo assim. E na justiça espera-se que ao contrário, você delega isso para árbitro, para juízes e para tribunais neutros, né? Então o agente da vingança é a pessoa, a vítima quer fazer tudo, e na justiça isso é delegado para outras pessoas, para outras pessoas capacitadas de entender. Com certeza, entender e fazer, sair do emocional e para razão.

?Voz B

Agora, Bia, a gente falou tanto de vingança e como que ela mexe com a gente e tudo. O estudo também traz para gente que é a famosa bússola da resolução, né, que começa com o trauma, depois o psicológico, a justiça e o perdão. Como é que você enxerga isso assim?

BSBia Santos

Acho interessante, porque aí tá descrevendo quase que um processo terapêutico para aquelas pessoas que estão absolutamente dominadas pelo ciclo da vingança. Elas estão ali rodando naqueles pensamentos, ruminando como fazer, como executar. Primeira coisa do processo terapêutico, né, libertar do trauma. Mas para libertar eu tenho aceitar, eu tenho que saber o que exatamente tocou em mim. Eu acolho essa dor, eu não minimizo a agressão sofrida, mas eu entendo que aquilo tá dentro de um trauma de desproteção, algo que aconteceu comigo e que tornou isso tão, tão reativo, tão evidente, essa sede de vingança.

Depois, dentro desse processo terapêutico, a gente faz o tribunal psicológico. O que que é isso? Eu consigo imaginar o que seria esse tribunal, no sentido de falar tudo que eu acho que provocou essa sensação, é falar tudo que eu acho que deveria ser feito em relação a isso, estabelecer uma maneira de dizer assim: eu fiz, eu fiz, eu já fiz o tribunal do meu agressor. Literalmente um tribunal, é um tribunal imaginário. A gente deixa como terapeuta aquele, aquele paciente, aquela pessoa falar tudo, o que que ele faria, o que que não faria, porque isso valida a dor e para de ficar aquilo obsessivamente na cabeça dele.

Para o cérebro, ele entende que aquilo foi realizado de alguma forma. Se depois disso eu tenho um compromisso comigo de não ficar voltando nisso, alimentando isso, por quê? Porque se eu ficar eu faço isso dentro do processo terapêutico, mas eu fico seguindo a pessoa na rede social, eu fico, ai, tá vendo, ela tá feliz, ou não, ela não tá feliz, ou ele, ai, já tá namorando. Eu tenho que ter um compromisso comigo, que eu te sinto, claro, eu vou retroalimentando, e a pessoa vive nesse estado horroroso de raiva, de vingança, de planejamento.

Então tem que ser muito claro que a partir daquele tribunal psicológico que eu fiz, eu não vou mais ficar alimentando aquilo. Se assim eu achar que existe uma possível reparação, tem que ser feita, eu vou procurar uma reparação, não uma vingança. Reparação é totalmente diferente. Vou reparar por vias neutras, tá? Procurar um amigo em comum, um amigo, um um mediador, um padre, um terapeuta, né, dentro desse processo, ou então advogado.

Vamos supor, não achei que na minha cabeça, então vai para uma reparação, tem que processar ele, tem que levar para o tribunal. Você não pode ficar parado vivendo em função disso. E no final, perdão. Mas o perdão é tão interessante que o perdão não é perdoar o outro pelo dano que ele te causou. Na realidade, é parar de viver em função daquela situação. É sair daquele ciclo de vingança, de planejamento, que isso acaba adoecendo, não tem jeito.

Então o perdão não é esquecer, mas é não se deixar mais viver em função daquilo, porque se você não faz isso, você não tem perspectiva de futuro.

?Voz B

Que frase forte, né?

BSBia Santos

Não esquecer não é esquecer, é não deixar aquela situação que provocou o sistema de vingança guiar a sua vida, sair desse ciclo, se libertar. Na realidade, o perdão é libertação para você mesmo, para você mesmo.

?Voz B

E depois que a gente passa por essa bússola da resolução, né, que que você pode deixar assim de mensagem, né, de, como é que eu vou dizer, quase que um ombro amigo para essas pessoas que ficam se ruminando, que ficam nessa reparação?

BSBia Santos

É necessário sempre que existe um dano mas ela sempre tem que estar dentro de uma razoabilidade e de uma neutralidade, imparcialidade. Ela não tá na mão de você, que vai ser o juiz e o carrasco. Não existe isso. E também existem danos que são reais, que devem ser reparados, mas em hipótese nenhuma nada justifica a gente parar de viver em função de uma vingança. A gente pode viver na expectativa de justiça, trabalhar para isso, mas não deixar de viver.

?Voz B

No consultório assim, alguma vez você já pegou pacientes que conseguiram ter sucesso na vingança e ficou mal, e aqueles que não, não se vingaram e ficou melhor?

BSBia Santos

Os que não se vingaram, a longo prazo ficaram melhor. Os que se vingaram não conseguiu a paz que queriam.

?Voz B

Pior, né?

BSBia Santos

É porque na realidade, quando você tem um ato muito grave, que é real às vezes, muitas vezes, nada que você faça vai voltar a ser exatamente como era.

?Voz B

Você não vai ser essa pessoa também, né?

BSBia Santos

Você não vai ser o dano causado. Mas o mais importante é se libertar para coisas futuras que possam ser. Porque se você parar no objeto de vingança, você vai ter duas perdas. A primeira, que é real, você teve, e uma que é parar sua vida, que é incalculável. E se a gente tá aqui é para continuar vivendo com justiça, mas não com vingança.

?Voz B

Sabe uma coisa que pessoas que melhoram, né, que não cometem vingança fazem? Clica no link aqui embaixo e curte esse vídeo, porque você vai mostrar que você não é vingativo. Manda para um amigo, para uma amiga, para um parente, para aquele tio que às vezes, né, do pavê para comer te irritou. Manda para ele também, que ele merece ver esse vídeo. Às vezes ele tá precisando perdoar ele mesmo, perdoar o outro. Não se esqueça de clicar no link aqui de se inscrever e no sininho logo do lado, porque toda vez que a Bia entrar ao vivo ou episódio novo, você vai ser o primeiro a ser notificado.

E olha só que legal ser o primeiro a chegar aqui, comentar e colocar no comentário. Inclusive, se você for o primeiro a chegar aqui e comentar, coloca assim: eu cheguei, para a gente ver seu primeiro comentário, que a gente vai deixar fixado aqui, tá bom?

BSBia Santos

É, eu só digo o seguinte: você tem que se Porque a vingança, você pode ficar você preso nesse ciclo que é horrível, de pensamentos muito ruins, que é uma prisão sem paredes, né? É uma prisão de paredes mentais da qual você só sai se você entender como esse mecanismo é processado.

?Voz B

E para você entender, assiste o vídeo completo e tire suas dúvidas aqui nos comentários. Até mais e até o próximo Pod People.

BSBia Santos

Até o próximo Pod People.