Ciência, Política e Gnosticismo — Erik Voegelin — Notas de uma travessia #14
Se esse conteúdo faz diferença na sua vida, você pode apoiar o projeto de várias formas. Você pode ser um assinante gratuito no Substack clicando no botão abaixo
Receba o podcast gratuitamente no seu e-mail cadastrando aqui
Para quem estiver no exterior e quiser fazer uma contribuição o link é o do Buy Me a Cofee
Pra quem tá no Brasil nada mais prático que usar o Pix. A chave é o e-mail notasdeumatravessia@gmail.com podendo contribuir com qualquer valor — até 5 reais já faz diferença.
Esse apoio ajuda a manter a pesquisa e a continuidade do projeto.
Get full access to Notas de uma travessia at bartyra.substack.com/subscribe
Martira Galvão
- Ciência, Política e GnosticismoErik Voegelin · Revolta contra a realidade · Intelectual iluminado · Salvação dentro da história · Mentalidade que torna projetos políticos possíveis
- Pit stop na vidaViver no automático · Dificuldade de lidar com o que é dado · A importância de parar para ajustar · Logística de mudanças com responsabilidades
- Religiões PolíticasMovimentos políticos como religiões · 1984 de George Orwell
Olá, você está ouvindo a Newsletter só no Ripotril, porque não está fácil para ninguém. Eu sou Martira Galvão e esse é o podcast de Notas de uma Travessia, episódio 14. E antes de continuar, quero agradecer aos novos ouvintes no Brasil e no exterior, especialmente na Ucrânia.
E a todos os que nos acompanham pelo Spotify, Apple Podcasts e TuneIn Radio. E antes de começar, vamos ao momento Notas de Sobrevivência. O título é Quando é hora de fazer um pit stop na vida? Eu fiz essa nota porque eu cheguei à conclusão que eu fiz um pit stop radio. E teria me beneficiado mais se tivesse feito antes.
Então, com isso que eu escrevi, vou ler para vocês, hoje eu estou com um pigarro terrível, de vez em quando, vale a pena parar e se perguntar, como foi que eu vim parar aqui? Não para se julgar, mas para não ir no automático, porque o automático não parece um problema no começo, você só vai seguindo, decidindo, repetindo,
E que em algum ponto, a pergunta volta. Só que mais difícil de ignorar. E aí eu fiquei pensando, e eu tenho a impressão de que a gente quase nunca percebe esse momento. Porque a gente está no automático, então a gente vai indo, indo, indo. E porque também a vida foi ficando muito rápida. E a gente aprendeu a funcionar dentro dessa rapidez.
resolver o que aparece, dar conta do que precisa ter feito, e seguir em frente. E aos poucos, esse jeito de funcionar, começa a se espalhar para tudo. E a gente começa vivendo automático. E são mil e uma demandas simultâneas. Então, a gente decide rápido, a gente aceita rápido, e a gente vai fazendo o que dá, o que aparece, o que funciona naquele momento. Enquanto está funcionando, a gente não mexe.
o time que está ganhando, a gente não mexe. Quem é que é besta de mexer? Não mexe. Só continua fazendo. Se o dinheiro está entrando, se a rotina está andando, se está dando para viver minimamente, a gente segue. Claro, quem é que faz diferente? E aí eu fui refletindo nisso e o problema é que quando a gente não para, a gente não revisa. Estou falando da nossa vida.
A gente não revisa a vida. A gente não olha para o caminho que a gente está fazendo. A gente não pergunta se era isso mesmo. Assim, no sentido de que... Se era isso mesmo que a gente queria fazer. Aí a gente não ajusta. A gente só continua. E continuar é muito fácil. Você não precisa decidir muito. Você não precisa encarar muita coisa. Você só vai.
E às vezes, olhando de fora, assim, parece que está tudo bem, né? Mas por dentro começa uma coisa silenciosa, assim, uma distância de onde você está e onde você talvez quisesse estar. E tem aquele ditado que eu me lembro agora, que fala assim, mais ou menos uma coisa assim, eu não vou lembrar exatamente as palavras, mas é mais ou menos assim, para quem não tem destino, qualquer lugar está bom.
só que se você não para, você nem percebe essa distância. E aí que entra essa ideia de fazer um pit stop. Não é assim parar porque deu tempo, nem porque está tudo resolvido, é parar para ajustar. Antes que o caminho se fixe demais. Quanto mais tempo você passa sem revisar,
mais você se prende naquele caminho que você foi fazendo. Mais as escolhas vão sendo construídas em cima disso. Eu já fiz isso de outra forma. Eu tinha 18 anos com a mochila, fui. Era leve, era só eu. Não tinha muita logística para pensar. Não tinha outras pessoas para considerar. Era só pegar a mochila e ir. Se desse errado, eu ajustava. Se eu quisesse mudar, eu mudava.
Era muito mais fácil naquela época. Hoje eu olho para isso e vejo como é que mudou, como é que é diferente. Porque com o tempo a gente está criando estrutura, responsabilidade, vínculos, escolhas que vão se somando. E eu não estou dizendo que isso é ruim, mas muda completamente a logística de qualquer mudança. Não é que depois não dá.
Mas não é mais leve, não é mais simples, não é mais tão fácil de mudar. É um trabalho monumental. Porque inclui agora um monte de variáveis. Antes era só eu e a mochila. Era muito mais fácil, agora não. Tem família, tem filho, tem um monte de coisa. E talvez seja por isso que essas paradas importam. Porque quando você ajusta cedo...
Você ajusta leve. Quando você deixa para depois, você ainda dá para ajustar, claro. Só que aí já vem com um peso. Fica mais difícil, mais complicado. Então, talvez o ponto não é esperar dar errado. Não é esperar travar. Não é isso que eu estou querendo dizer.
Quer dizer, criar as paradas antes, antes de acumular demais, antes de se afastar demais. Porque quanto mais cedo você percebe, mais espaço você tem para se mexer, para manobrar, igual carro, né? Quanto mais espaço tem na vaga, melhor para você se mexer. E depois de certa idade, ter espaço de manobrar vale ouro. Quanto maior a vaga...
mais fácil você sair com o carro, não é? Então, essa é a reflexão de hoje para o Notas de Sobrevivência, ok? Só lembrando que se você quiser contribuir com esse projeto, os links estão na descrição, porque eu também quero fugir do Brasil, e você, brasileiro, parceiro, pode ajudar com isso também. Bem, vamos continuar.
Agora eu vou passar para... Hoje tem livro novo, hein? O livro de hoje que a gente vai começar se chama Ciência Política e Gnosticismo, do Eric Vogelin. Mais um livro que eu tive que ler em inglês. O livro já é difícil. Não tem em português. Eu tive que ler em inglês no Kindle, porque não achei também versão física para comprar. Mas vamos que vamos. Consegui ler o treino.
Faltas de uma Travessia, número 14. Vamos lá. Quando eu terminei a leitura de religiões políticas, eu fiquei com a sensação estranha. Não é exatamente a sensação de ter entendido tudo. Muito pelo contrário. Era como se alguém tivesse acendido uma luz num canto do mapa.
que eu ainda não conhecia muito bem. E é curioso, como algumas leituras não fecham nada, né? Elas abrem. Você pensa que você resolveu uma coisa, mas só que o negócio, em vez de te responder, te dá mais perguntas. Eles não dão resposta. Eles mudam o lugar de onde você olha. E, às vezes, isso é muito mais desestabilizador do que entender qualquer coisa. Bem...
A ideia de que certos movimentos políticos podem funcionar como religiões me pareceu, ao mesmo tempo, perturbadora e estranhamente familiar. Como se aquilo explicasse alguma coisa que eu já vinha percebendo no mundo, mas ainda não sabia nomear. Que antes disso, pelo menos para mim, né?
muitas coisas pareciam só opinião ou cultura, ou até algo específico no contexto que eu estava. Se algo estruturado, e de repente começa a aparecer um padrão. Bem, naquela altura da leitura, essa intuição ficou assim, meio suspensa no ar. Como quando você percebe algo, mas ainda não consegue sustentar aquele direito, você vê, mas não sabe exatamente o que você viu, né?
Então aí apareceu 1984, de George Orwell. Lembrando que isso aqui não aconteceu linearmente, né? Teve outros livros aqui no meio, mas assim, para fins didáticos, eu tirei esses livros, pula, pula essa. Porque fica mais fácil se a gente pula para 1984. E aqui foi onde a coisa começou a sair do plano da ideia e ganhar a forma concreta.
E ali, aquela ideia começou a ganhar corpo de um jeito muito mais concreto. No romance, não se tratava mais apenas de uma hipótese filosófica. Era uma sociedade inteira organizada em torno de um sistema que pretendia controlar tudo. A linguagem, a memória, o passado e até o próprio pensamento das pessoas. É um livro muito abusado, né?
a ideia, quando você vê isso numa narrativa, fica mais difícil de ignorar, porque não é mais um conceito, é um mundo funcionando naquele nível. Era como se a realidade tivesse sido substituída por um mecanismo. E essa imagem, ela é a porra, porque não é só manipulação, é substituição.
como se o contato direto com o mundo real fosse trocado por uma versão mediada, organizada, controlada. Aquilo que ficou ressoando na minha cabeça por um tempo. Eu sou daquelas que fica ruminando, né? O livro não termina quando termina. Eu continuo pensando naquelas coisas. Então, aquele negócio ficou ressoando na minha cabeça por um tempo.
Não como uma resposta, mas assim, como uma inquietação. Aquele negócio rodando lá na minha cabeça. Até com algum momento dessa travessia, né? Eu encontrei um outro livro, do Vogler, Ciência, Política e Gnosticismo. E aqui a coisa aprofundou. Se o religião e o político já estavam pesadas, agora então eu fiquei mais doida. Porque não é mais só sobre o que acontece.
mas sobre o que torna isso possível. E ali eu comecei a perceber que ele estava tentando responder uma pergunta um pouco mais profunda. E no fundo, é a pergunta que começa a aparecer quando você já não está satisfeito só em descrever o fenômeno. Porque se em religiões políticas ele mostra como certos movimentos políticos assumem formas quase religiosas, aqui nesse livro. Obrigada.
que eu estou começando hoje, ele tenta investigar algo anterior a isso, que é o tipo de mentalidade que torna esses projetos possíveis. Ou seja, não é só o sistema lá fora, é algo na forma de olhar, de interpretar, de se relacionar com a realidade. O que leva alguém a acreditar que a realidade precisa ser substituída por um sistema?
Essa pergunta muda tudo, porque ela sai da crítica externa e começa a encostar numa possibilidade humana. Toda possibilidade humana é que é possível, numa pessoa real, ser assim, existir dessa forma. Durante essa leitura, três ideias me chamaram especialmente a atenção. Três pontos.
que começaram a organizar aquilo que antes estava mais difuso, mais espalhado. A primeira é algo que Vogelin descreve como uma espécie de revolta contra a realidade. A recusa em aceitar o mundo tal como ele é.
com seus limites, suas imperfeições, seus conflitos, e a tentativa de substituí-lo por uma ordem construída pela mente humana. Nossa, isso é super atual. Isso aqui é mais próximo do dia a dia do que parece. Não é só algo de grande sistema, é um movimento que começa pequeno. A dificuldade de lidar com o que é dado. Gente, isso aqui está em tudo quanto é lugar hoje em dia, gente.
com o que não se empaixa, com o que não obedece ao que a gente gostaria. Quem é que identifica isso aqui? Tem alguém que não identificou isso aqui ainda? A segunda é a figura do intelectual iluminado. Sempre tem um iluminado. Aquele personagem que acredita ter descoberto o segredo da história e que, por isso, se sente autorizado a reorganizar a sociedade inteira segundo um plano.
E essa figura também não aparece só em grandes líderes. Às vezes ela aparece em escala menor, na certeza absoluta, na sensação de que agora eu entendi tudo. Mas quem é que não... Nossa, está cheio de intelectual iluminado por aí hoje em dia, cheio dos planos, de querer mudar tudo. Super atual também. E a terceira é talvez a mais ambiciosa de todas.
A tentativa de construir uma salvação dentro da própria história. O paraíso na Terra é o mito mais queridinho de todo mundo. A salvação dentro da própria história. O paraíso na Terra. Como se fosse possível realizar aqui no mundo uma espécie de redenção política definitiva. Aqui a coisa ganha um peso maior.
Porque não é só organizar melhor as coisas aqui. Não, é resolver tudo. É eliminar o conflito, é a tensão, é a imperfeição, é tudo. O pacote é o combo completo. Essas três ideias apareceram para mim quase como pistas. Fragmentos de um diagnóstico que eu ainda estava tentando entender. Não como uma teoria pesada, mas como sinais de que havia algo mais profundo sendo articulado.
E é exatamente isso que a gente vai fazer nos próximos episódios. Vamos voltar nesses pontos com mais calma, não para fechar, mas para olhar melhor, porque, nossa, a gente é digno de olhar melhor, porque tudo isso aqui é atual, atualíssimo. E cada um desses pontos, a revolta contra a realidade, o intelectual iluminado e a promessa de uma salvação terrena vai ser descompactado com um pouco mais de calma.
Um deles, por si só, já daria muito mais do que um episódio. Não como uma aula de filosofia política, mas como um trecho dessa travessia. Tentando compreender que tipo de mentalidade pode levar a sociedade inteira a acreditar que é possível reconstruir o mundo do zero. Talvez, no meio disso, perceber que essa mentalidade não está só lá fora.
É uma possibilidade humana, e muito humana mesmo, e que está em voga. Então, por isso que eu me interessei demais por esse livro, e principalmente por esses... Tem várias outras coisas no livro, né? Mas, assim, o livro é extremamente complicado de entender, mas como esses três pontos estão, assim, bem...
bem atuais, foram os que eu consegui testar dessa vez. O resto fica para uma próxima leitura. Mas esses não teve como, assim, passar desapercebido, né? Então, eu vou dar atenção para esses. E esse foi mais um episódio de Nota de Uma Travessia. E se eu fosse você, eu continuava com a gente, porque esse é só o primeiro episódio sobre ciência.
Política e Gnosticismo do Eric Rogli. E tem muita coisa boa vindo aí no próximo episódio. Sacou? Então, se esse conteúdo faz diferença na sua vida, você pode apoiar o projeto de várias formas. Você pode ser um assinante gratuito no Substack ou contribuir com qualquer valor pelos links que estão na descrição.
Esse apoio ajuda a manter a pesquisa e a continuidade do projeto. Foi muito bom estar com vocês aqui hoje. Se esse conteúdo faz sentido, compartilha. Isso ajuda pra caramba a gente. E não se esqueça, os novos episódios são sempre às sextas-feiras, às 18 horas. A gente se encontra lá. Fui!