Episódios de Notas de uma travessia

Libido Dominandi: Quando o poder quer dominar a alma — Notas de uma travessia #13

01 de maio de 202623min
0:00 / 23:07

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Participantes neste episódio1
B

Bárbara Galvão

Host
Assuntos4
  • Libido DominandiDomínio da consciência · George Orwell · Eric Vogelin
  • Controle e Manipulação
  • Bolhas de realidade
  • A vontade de ter razão
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Olá, você está ouvindo a Newsletter só no Rivotril, porque desistir dá muito trabalho. Eu sou Bárbara Galvão e esse é mais um podcast Notas de uma Travessia, episódio 13. Antes de continuar, quero agradecer aos novos ouvintes no Brasil e no exterior, especialmente no Iraque. Porque, se não sou gente no Iraque ouvindo a gente, tem brasileiro lá.

E a todos que nos acompanham pelo Spotify, Apple Podcasts e TuneIn Radio. Eu vigiando as estatísticas aqui para saber quem é que está vendo a gente, né? Vendo não, ouvindo, quer dizer. Deixa eu ver minha cola aqui. Cadê minha cola, produção? Quem dera se tivesse produção, né? Aqui é tudo sozinho. Antes de começar, vamos ler a minha nota que eu escrevi.

Para o momento, notas de sobrevivência. O título que eu dei foi A vontade de ter razão. Nossa, quantas vezes a gente não tem a vontade só de ter razão, né? Pois é, estava meditando sobre isso. Essa semana, porque aconteceu um caso aí, e eu fiquei pensando na situação. Caso com a pessoa aí, e aí eu fiquei pensando, né? Essa pessoa está...

Com vontade, por não. E eu falei para vocês, tem uma coisa que a gente quase não percebe. Nem sempre a gente quer entender. Às vezes, a gente só quer estar certo. Quando essa vontade entra em jogo, a gente começa a ajustar tudo para confirmar o que já pensa. Ignora o que incomoda, simplifica o que é complexo e evita...

Qualquer coisa que possa abrir dúvidas. Parece pequeno, né? Mas é assim que o pensamento vai se fechando. E quando isso acontece, a gente já não está mais buscando a verdade. A gente só está defendendo uma versão confortável da realidade. Não posso falar nomes, mas eu ofereço esta notinha para você.

Que está me ouvindo? Talvez não. Provavelmente não. Mas aí teve um caso. Ah, não vou falar. Mas teve um caso aí. Na minha vida pessoal. Que eu fiquei pensando, né? Refletindo sobre isso depois. E resolvi escrever essa nota. Né? E meditando sobre isso. Eu comecei a...

elaborar, vamos dizer assim, né? E eu comecei a passar assim, que parece muito com uma vida assim, meio que a figura de linguagem, a imagem que me veio à mente, foi assim um self-service, uma vida de self-service. Sabe quando você vai no self-service, no restaurante, você vai escolhendo o que você gosta, aí você ignora tudo que você não gosta, não te agrada, você só pega o que é gostoso.

Aí você pega lá a tete com lasanha e batata frita. E às vezes aí o prato fica aquela bagunça, né? Nada faz sentido. Não combina nada com nada. Mas tudo bem. Eu não estou preocupado com equilíbrio. Nem com arronia. Você só quer comer as coisas que te agradam. E na vida, às vezes a gente faz exatamente a mesma coisa. A gente vai passando.

colhendo só as ideias que confirmam o que a gente já pensa, ignora as coisas que incomodam, evita as coisas que nos desafiam, pula aquelas coisas que exigem mudança e vai montando esse palco de realidade. E se você parar para olhar, não faz muito sentido. Porque nada combina.

É tipo peixe com lasanha e batata frita. Não faz sentido nenhum. Mas a gente come com pão. E na vida é a mesma coisa. Chegou. Não funciona. Né? Mas não, porque eu acho gostoso. Dá uma sensação boa. E no fim, é isso que a gente está buscando, não é verdade? Eu sei o que eu estou falando. Porque além da experiência que eu tive, recente, eu já te disse muitas vezes.

É assim A gente quer mais é conforto mesmo A gente quer conforto E aí começa um movimento Assim, influencioso, né Que às vezes é difícil perceber Depois que a gente entra na fila do céu certo E a gente vai pulindo das coisas que não encaixam Das verdades mais duras Das coisas que exigem revisão E aí

da realidade, quando ela não bate com aquilo que a gente queria, porque é mais fácil ajustar a percepção do que encarar o que está ali. E aos poucos, assim, meio que sem perceber, né? A gente começa a viver dentro de uma versão filtrada da realidade. Uma versão, assim, mais confortável, mais conveniente.

Só que menos verdadeira. E isso vai assim, se fechando. É como se a pessoa fosse entrando numa concha. Uma concha feita... Como é que eu vou dizer? Uma concha feita de pequenas escolhas. Aí é pequenas concessões, pequenos... Ah, isso eu prefiro não ver. Eu não contei a história da mulher? Que se recusou a ler o livro que eu emprestei para ela.

Contei isso, sei lá, dois, três podcasts atrás. Ela se recusou o livro, porque ela não queria ver a solução do problema dela. Era a solução que ela não queria ver, porque a solução às vezes da trabalho, né? Ela ia ter que revisar algumas coisas na vida dela, ia ser desconfortável, né? Encarar algumas coisas, ela não queria ver, ela leu o íntimo e devolveu o livro. Ela não queria, ainda me chamou de louca.

E essa concha, se a gente se mete, vai ficando cada vez mais abertada. E o horizonte vai diminuindo, a consciência vai se esfreitando, até que chega um ponto que não tem mais abertura. A pessoa está fechada ali dentro, vivendo num mundo que não existe. Um mundo artificial.

Mas que para ela é o mundo. É o mundo dela. Ela criou aquela bolha ali. É o mundo dela. E não adianta tentar mostrar outra coisa. Essa pessoa que recusou o livro, ela está vivendo numa bolha. Ela criou uma bolha para ela. Ela não quer ver. Ela não quer ver nada mais. Ela se sentou ali dentro e ela não quer ver. A única coisa que ela quer é que ninguém escure a bolha. E aí acontece uma coisa estranha que eu percebi também.

Não basta deixar que a pessoa fique quieta lá na bolha dela, vivendo lá no mundo fantástico, no país das maravilhas dela, não. Não basta. Parece que essa pessoa também precisa de validação. Ela precisa que os outros entrem junto na doidice dela, na bolha dela.

Ela precisa que a gente aceite, que a gente confirme, que a gente aplauda, entendeu? E se a gente não entra na bolha, na doidice dela, a gente é que está errado. Você é que está problematizando, você é que está incomodando. E é aqui que começa a ficar inquietante, porque isso não é só sobre o outro. É uma tendência humana.

Essa vontade de manter tudo sob controle, mesmo que o controle seja, assim, uma ilusão. Essa vontade de encaixar a realidade dentro do que a gente consegue suportar. Porque ela leu o índice lá do negócio, ela viu que ela não ia aguentar aquele negócio, aquele, sabe, encarar aquelas verdades, encarar aqueles temas, e ela recusou.

Porque ela só quer aquela realidade que ela consegue suportar. Não, eu não consigo suportar isso, eu quero viver aqui no mundo de Alice. Alice no País das Maravilhas. Não é? E é uma tendência que a gente tem. De viver assim, só no que a gente consegue suportar. Em vez de se abrir para a realidade como ela é.

Talvez seja aí que começa aquela coisa mais profunda, que não aparece de uma vez, mas vai acontecendo aos poucos, que o pensamento vai se fechando e a pessoa vai ficando cada vez mais presa, não por alguém de fora, mas por aquilo que ela mesma construiu. Ela vai ficando presa. E aí quando você pergunta tudo isso, como a gente viu até aqui, nos podcasts anteriores, sobre linguagem...

pensamento, realidade, começa a andar para entender como que esse tipo de coisa pode chegar tão longe. E quando você olha em volta, você já está lá, preso e nem sabe como se foi parar em tal situação. Não é incrível isso? Essa foi a minha reflexão de hoje para esse momento, notas de sobrevivência. Muito interessante.

que aconteceu uma coisinha de nada assim e deu essa nota enorme. Mas vamos que vamos. Notas de uma Travessia de hoje, episódio 13, a estrela da noite, fala sobre libido dominante. O título que eu dei é Quando o poder quer dominar a alma. A gente ainda está falando do livro do...

em 1984, do George Orwell. Ao longo da leitura de 1984, várias coisas me chamaram a atenção. A Nove Línguas, que foi o primeiro episódio, Pensamento Crime, O Mundo Tessado, onde a realidade parece cada vez mais controlada, foi o episódio 02, mas tem um momento do livro em que algo fica ainda mais claro e também mais inquietante, mais pavoroso.

Isso aqui já aponta para uma coisa que o Eric Vogel chamaria de espreitamento do campo do real. Quando a realidade deixa de ser algo aberto e vira algo assim, administrado por dentro. Entendeu? É quando aparece uma pergunta, a pergunta inevitável, afinal, o que o partido realmente quer? A princípio, a resposta parece óbvia.

Poder, controle político, manutenção do regime. Mas, em certo ponto da história, acho que lá para o fim, eu vejo isso muito lá para o fim, quando o Winston já é capturado. Percebe-se que isso ainda não é suficiente para explicar o que está acontecendo. O partido não quer apenas que as pessoas obedeçam.

Ele quer algo mais profundo. E isso é muito claro na cena, quando o Winston é capturado e eles levam ele lá para o quarto 101, que é o número. O quarto branco, o quarto 101, alguma coisa assim. Ele quer algo mais profundo. Quer que elas acreditem. Tanto que ele já entrega tudo, fala tudo e eles ainda continuam naquela tortura que não acaba.

Por quê? Porque eles querem que ele acredite. Olha só que loucura. Querem que elas passem a encerrar o mundo exatamente como o partido encerra. Por isso elas ficam tanto perguntando as maluquias, quanto é 2 mais 2, e eles querem que seja 5, e querem que ele responda 5. Um modo é disso, aquilo, né? Aquela cena. Continuando. Querem que a própria consciência humana A loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é a loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loveda é loved

seja reorganizada de acordo com a ótica do sistema. E esse ponto é central em Vogelin. E a gente está o tempo inteiro fazendo uma referência cruzada de George Orwell, no livro 1984, com os livros do Eric Vogelin. Por isso que eu estou sempre trazendo o Vogelin aqui. Quando a política deixa de ser só uma organização externa,

e passa a disputar a estrutura interna da consciência. E é isso que estão fazendo. Eles querem colonizar a consciência do personagem aqui em 1984. Enquanto eu li essas partes do livro, eu lembrei novamente de Eric Vogelin e de uma expressão que aparece nos seus estudos sobre o poder. Libido dominante. Literalmente, significa a vontade de dominar. Mas não só.

É dominar territórios, instituições, não é só isso não. Prata-se de uma vontade mais radical. É uma tentativa de submeter a própria vida interior do ser humano. Não é o domínio do corpo, nem o domínio do comportamento. É o domínio da percepção, do modo como a realidade aparece para alguém. Olha só que coisa maligna.

E nesse ponto, o que 1984 descreve parece ser justamente a forma extrema dessa vontade de domínio. O partido não se satisfaz em controlar o comportamento externo das pessoas. Ele quer reorganizar aquilo que acontece dentro da consciência. Não basta que o Whinton obedeça, não basta que ele tema o poder. É preciso que ele veja a realidade da maneira correta.

Isso é da maneira definida pelo partido, e mais do que isso, é preciso que ele aceite interiormente essa realidade. O Roglin fala muito disso, como uma espécie de inversão. Não é mais o sujeito se ajustando ao real, mas o real sendo forçado a se ajustar a uma ideia. Talvez seja por isso que a repressão descrita por Orwell seja tão minuciosa.

Não se trata apenas de eliminar inimigos políticos. Trata-se de transformar pessoas até que já não exista dentro delas nenhum ponto de resistência. Quando se olha o livro para esse ângulo, muitas das peças começam a se caixar. A nova língua já começa reduzindo o campo do pensamento. Reduzir a linguagem lá em Vogelin é reduzir também o alcance da experiência possível.

da pessoa. O pensamento crime vigia aquilo que ainda escapa. A manipulação da memória reorganiza o passado e tudo converge para o mesmo objetivo, tornar possível o domínio completo da consciência humana. Nesse sentido, o poder descrito por Orwell não quer apenas governar o mundo social.

Ele quer moldar a própria maneira como os seres humanos percebem a realidade. Talvez seja isso que torna 1984 tão perturbador, mesmo tantas décadas depois de ter sido escrito. O livro não descreve apenas uma tirania política. Ele descreve a tentativa de dominar algo muito mais profundo. Lendo o romance...

depois de ter passado pelas reflexões de Eric Vogel, fiquei com a impressão de que George Orwell, através da ficção, ele estava mostrando o que acontece quando a vontade de poder se estende até esse limite extremo, como se a ficção estivesse encostando exatamente no ponto onde a filosofia começa a ficar sem metáfora suficiente.

quando o poder deixa de querer só governar os homens e passa a querer formar o interior deles. Talvez seja esse o ponto mais inquietante de toda essa travessia por 1984. Porque nesse momento a política deixa de ser apenas uma disputa por poder externo e começa a se transformar numa disputa pela própria consciência humana. E por que não dizer pela própria alma?

Eles estão disputando a alma humana. E aqui Vogelmann diria algo muito próximo. Quando a política tenta ocupar o lugar da alma, ela deixa de ser política e passa a ser uma forma de deformação da experiência do real. E talvez, olhando tudo isso assim em conjunto, a nove línguas, o pensamento crime, o mundo fechado e essa vontade de domínio que atravessa o interior do ser humano,

O que fica no final de 1984 não é apenas a história de um regime. É uma sensação de deslocamento mais profundo. Porque Orwell não está apenas falando de política no sentido comum. Ele está mostrando, através da ficção, o que acontece quando a realidade deixa de ser algo que se descobre e passa a ser algo que se impõe. E aqui...

As ideias de Erich Vogelin ajudam a perceber uma chamada que não aparece de forma explícita no romance. Você não vê isso. E você não leu Erich Vogelin. A sensação de mundo fechado não é só um efeito narrativo. É uma experiência humana possível. É possível o ser humano viver assim. Não é só um personagem lá que faz isso no livro. É possível viver assim.

Eu expliquei, contei o caso da mulher lá, do livro. É uma consciência que vai perdendo a abertura. Ela vai perdendo espaço de pergunta. E vai aos poucos se fechando, junto com o próprio modo de ver o real. E talvez por isso, 1984, continue tão perturbador. Há uns três ou quatro, pode ser. Quando eu comecei a falar de 1984, eu comentei.

Eu estava no Subsec, passando no meu feed, e aí vi a capa do livro lá, e alguém estava falando sobre 1934, eu entrei, fui ler os comentários, teve muita gente que estava extremamente perturbada com o livro, hoje em dia. Entendeu? No início do mês. Isso, não foi assim, muito tempo atrás. Não conseguiu terminar de ler o livro, não conseguiu chegar nem na metade do livro, de tão perturbador que ficou.

Então é um livro perturbador. Até hoje. Não porque descreve um futuro específico, mas porque encosta num mecanismo que não depende da época. A possibilidade da realidade ser reduzida a algo pesado e do ser humano dentro disso já não perceber que existe um lado de fora.

E talvez seja aqui que essa travessia de 1984 se encerre. Não é uma conclusão, mas é uma passagem. Porque o que fica não é uma explicação, é uma percepção. Percepção de uma possibilidade de existência. Dá para se viver dessa forma. E isso é o que mais toca. Existem pessoas hoje que vivem assim. Não é incrível?

Bem, com esse podcast, a gente termina de falar do livro de 1984. No podcast que vem, a gente vai passar para outro livro. Mas foi uma travessia muito especial, porque foi completamente diferente. Eu já tinha lido esse livro várias vezes, mas foi...

Depois de ter lido Eric Vogelin, essa travessia foi completamente estranha de todas as outras vezes que eu já tinha atravessado. Bem, se esse conteúdo fez diferença na sua vida, você pode apoiar o projeto de várias formas. Pode ser um assinante gratuito no Subtech, pode contribuir com qualquer valor. Os links estão na descrição. Esse apoio ajuda a manter a pesquisa e a continuidade do projeto. Foi muito bom estar com vocês aqui hoje.

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