A Arte da Cerveja: Barrel Aged There Is No Dana (Metallic Red Wax) da Mortalis Brewing Company
Beer Review
Hair Beer Brasil
- Barrel Aged There Is No DanaComposição e ingredientes incomuns · Processo de envelhecimento em barril · Equilíbrio de sabores e texturas · A cerveja como forma de arte culinária
- Mortalis Brewing CompanyProdução de cervejas extremas · Narrativa e experiência do consumidor
- Cervejas ArtesanaisCervejas Double Pastry · Fronteiras entre cerveja e sobremesa
Ok, vamos desvendar isso. Imagina só pegar pasta de amendoim, marshmallow e nibs de cacau, sabe, enfiar tudo num barril de carvalho por dois anos e tirar um líquido escuro com 12% de álcool.
É, não é exatamente uma receita básica. É. E 12% é uma potência maior que muito vinho tinto encorpado por aí. Nossa, com certeza. E hoje a nossa missão é mergulhar fundo nas fichas técnicas e anotações sobre essa bebida que é, assim, altamente incomum. A gente está falando da Barrel Aged Dairy Snow Dana na versão Metallic Red Wax.
Da Mortales Brain Company, exato. E o nosso objetivo com essa análise de hoje é tentar entender a química, né? A lógica por trás de ingredientes tão improváveis. Porque olhando os dados, fica claro logo de cara que não é uma produção tradicional. E para quem não acompanha tanto essas tendências mais extremas, esse rótulo Double Pastry é meio que o limite da cerveja de sobremesa.
Quase uma confeitaria pesada em forma líquida, né? E lendo as especificações, o que me deu o primeiro choque real foi a base. Porque 12% de álcool não é pouca coisa. A levedura geralmente sofre muito em ambientes assim. Sofre bastante. Chega num ponto que ela simplesmente para de trabalhar. Então, criar essa base já exige tipo um controle absurdo.
Sim, mas o que mais chama atenção é o que eles fazem depois. Eles pegam esse líquido super forte e trancam em barris da marca Buzzard Roost por exatos 24 meses. Dois anos inteiros. E é crucial a gente entender o porquê disso, sabe? Como esse processo funciona. Esses barris da Buzzard Roost são tostados por dentro. Então, durante esses 24 meses, a madeira meio que respira.
Ela expande e contrai com temperatura, certo? Exatamente. Nisso, ela vai sugando a cerveja para os poros do carvalho e devolvendo líquido cheio de compostos químicos. Isso extrai taninos super intensos, umas notas de vanilina, fumaça e um amargor profundo. É quase uma agressão calculada à bebida.
Mas peraí, um tempo longo assim, tipo trancado na madeira, não corre o risco de destruir a cerveja? Como assim destruir? Quero dizer, absorver tanta madeira e o caráter do barril por dois anos, não transforma a stout em algo muito mais parecido com um destilado puro?
A identidade original não desaparece no meio disso tudo? Bom, desapareceria completamente se a cerveja não fosse tão densa, sabe? É por isso que os 12% são tão necessários ali. A base precisa ter essa estrutura bem pesada justamente para não ser engolida pela madeira.
Ah, entendi. É o grande truque de química culinária dessa receita, na verdade. A cervejaria precisa construir essa fundação incrivelmente tânica, seca e amadeirada para conseguir suportar o que vem logo depois.
E aqui é que fica muito interessante, porque depois de extrair todo esse amargor por dois anos, o processo de condicionamento inclui adicionar os nibs de cacau, o marshmallow e a pasta de amendoim. Que parece um contrassenso absoluto, né?
Totalmente. Como que a pasta de amendoim entra nisso? A gordura do amendoim é super famosa por destruir a retenção de espuma em qualquer cerveja, tipo a inimiga número um. É a inimiga número um, sem dúvida. Trabalhar com o amendoim exige umas técnicas bem rigorosas de extração ou então lavagem de gordura para não arruinar de vez a textura do líquido. Nossa, imagino o trabalho.
Mas o grande trunfo mecânico aqui é justamente o equilíbrio dos opostos. Se o marshmallow e o amendoim entrassem numa receita de cerveja comum, o resultado seria um doce muito enjoativo. Imbebível, praticamente. Mas a gente tem aqueles taninos ásperos, né? O amargor extraído dos dois anos no barril que você mencionou. Isso. Eles agem como uma âncora, sabe? O amargor da madeira e a força do álcool servem tipo como uma faca que corta todo esse açúcar excessivo.
Uma engenharia de sabores pura. E, bom, olhando os números, o risco compensou muito. O banco de dados mostra que ela tem uma nota impressionante de 4,51. Uma nota altíssima. Demais! Isso com 107 avaliações e 120 consumos únicos registrados. E o detalhe continua em produção ativa.
Mas entender essa química faz muito sentido. Só que com essa carga imensa de doçura, eu fico pensando. Pensando no limite técnico da coisa.
É, será que não cruzamos uma linha aí? Do ponto de vista puramente técnico mesmo? Isso ainda é cerveja ou virou só uma sobremesa alcoólica líquida que usa o malte de desculpa? Olha, se a gente analisar o cenário da cultura artesanal de hoje em dia, essa fronteira do que é ou não tradicional já foi borrada de propósito faz tempo. Faz sentido.
As cervejarias modernas não vendem só um líquido fermentado, sabe? Elas entregam uma experiência, uma narrativa completa. Tanto que na ficha oficial do produto, a descrição da mortales é literalmente a seguinte. Quando está batalhando contra um antigo deus sumério, é melhor não ficar com sede.
Uma referência excelente aos filmes dos anos 80, lutando contra aquelas entidades mitológicas. Isso ilustra muito bem a intenção de tudo. Com certeza. Porque quem procura uma bebida com marshmallow, amendoim e uma cera vermelha metálica no gargalo, tipo o nome Metallic Red Wax, indica que não está atrás de uma bebida refrescante comum. Está comprando a piada, o absurdo, toda a história por trás.
Eu consumo elevado ao nível do entretenimento gastronômico mesmo. A complexidade de todo método acaba justificando a brincadeira no rótulo. É, e isso deixa a gente com algo bem interessante para pensar no final das contas. Lá no início da nossa análise, a gente comparou a força desse álcool à potência de um vinho encorpado.
Sim, a gente fez esse paralelo. Mas quando a gente vê os criadores combinando microbiologia super avançada, anos de envelhecimento na madeira, técnicas pesadas de extração de gordura e ainda envelopando tudo isso com referências da cultura pop,
Fica a reflexão. Será que a produção de cerveja parou de tentar ser apenas a prima rústica do vinho e se tornou, na verdade, a forma mais ousada, caótica e livre de arte culinária de vanguarda que a gente tem hoje?
E assim chegamos ao final de mais um episódio do Beer Review, um podcast da Hair Beer Brasil. Aqui, exploramos o universo das cervejas artesanais, com histórias, curiosidades e experiências que tornam cada gole especial. Beer Review, Hair Beer Brasil. Se você curtiu, siga o podcast na sua plataforma preferida para não perder nenhum episódio. Compartilhe com amigos que amam descobrir novos sabores e histórias.
Beba menos, mas beba melhor. Até o próximo episódio e... Saúde!
Buzzard Roost
Barril de carvalhoMortalis Brewing Company
Barrel Aged There Is No Dana (Metallic Red Wax)