Rogerio Nagai: a voz dos SOBREVIVENTES de Hiroshima: ARTE, Memória e Perdão
O que o arte pode nos revelar sobre as maiores tragédias da humanidade — e, ao mesmo tempo, sobre esperança, perdão e transformação?
Neste episódio que encerra a 2a temporada do podcast Amo Japão, conversamos com Rogério Nagai, ator, diretor, produtor cultural da Nagai Produções e idealizador de projetos corajosos, que trazem ao público histórias reais marcadas pela guerra, memória e superação.
Formado pelo Teatro-Escola Macunaíma e com trajetória em TV, cinema e teatro, Nagai encontrou um propósito profundo ao se aproximar dos "hibakusha", os sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima.
A partir dessa convivência, nasceu o impactante espetáculo “Os três sobreviventes de Hiroshima”, que trouxe ao palco os relatos reais, em primeira pessoa, de quem viveu uma das maiores tragédias da história, com a participação emocionante de Takashi Morita, Junko Watanabe e Kunihiko Bonkohara.
Esse primeiro espetáculo levou a uma jornada de provocação e reflexão sobre o poder da arte para iluminar episódios tenebrosos de nossa história, como o Holocausto e os horrores da guerra. Mesmo enfrentando dificuldades de patrocínio e produção, Rogério segue com o firme propósito de não permitir que essas histórias permaneçam em silêncio.
Na conversa, ele compartilha:
- Os primeiros passos no teatro e a descoberta da vocação artística
- O encontro com os sobreviventes e o impacto dessas memórias
- O poder do perdão diante de traumas profundos
- A reflexão sobre o “legítimo pai da bomba atômica”
- A peça com os sobreviventes do Holocausto
- A história inspiradora de Chiune Sugihara, o herói que salvou milhares de judeus
- O filme “Alma Errante”, sobre Takashi Morita
- E como os valores da cultura japonesa influenciam sua jornada
Uma conversa profunda sobre memória, identidade, arte e propósito, e sobre como podemos honrar a luta dos sobreviventes de Hiroshima e defender a cultura de paz, neste mundo em permanente conflito.
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- Projeto "Os três sobreviventes de Hiroshima"Encontro com os sobreviventes (hibakusha) · Impacto dos relatos dos sobreviventes · Desafios de produção e patrocínio · Takashi Morita · Junko Watanabe · Kunihiko Bonkohara
- A importância da arte e do teatroArte como ferramenta de transformação e esperança · Teatro como meio de autoconhecimento e superação · Impacto emocional da arte no público
- Trajetória artística de Rogério NagaiInício na área de TI e mercado corporativo · Descoberta da vocação artística através do teatro · Experiências no teatro amador e intervenções urbanas · Formação no Teatro-Escola Macunaíma · Transição para a carreira de ator profissional
- A história de Chiune Sugihara e o visto para a vidaChiune Sugihara, diplomata japonês · Contexto da Segunda Guerra Mundial e fuga de judeus · Emissão de vistos para salvar vidas · Desobediência às ordens do governo japonês · Yukiko Sugihara e o livro "Passaporte para a Vida"
Olá pessoal, tudo bem? Bem-vindos ao episódio que está encerrando a segunda temporada do podcast Amo Japão. Gente, nosso mundo hoje, ele tá em guerra. A gente liga a televisão e vê notícias de conflitos no mundo, no Oriente Médio, e a gente pensa assim, aonde vamos parar? E o nosso convidado de hoje, ele trabalha justamente com a paz, com a cultura da paz, transformar o mundo pela arte, trabalhar a esperança.
Espero que vocês também fiquem muito inspirados com essa conversa com o meu amigo, diretor, ator, produtor cultural, Rogério Nagai. Obrigada, Rogério, por ter vindo hoje. Obrigado, Vossélica, pelo convite. Fiquei bastante feliz e ilusongeado. Faz muito tempo que a gente não se encontra, mas muito obrigado pelo convite. É verdade, você está correndo muito, né?
Eu também, na verdade, assim, por incrível que pareça, eu não era da área artística, né? Eu não tenho ninguém na família que era da área artística. Mas embora trabalhando com comunicação, né? Meu avô foi muitos anos político, né? Nos anos... Ali nos anos 70... 60, 70, 80. Ele foi praticamente quase a vida dele toda político.
E minha mãe é professora de história, então, portanto, pessoas que tinham o hábito de falar, de se expor em público, mas nunca artistas. Então, eu costumo dizer assim que eu fui a primeira ovelha negra da família, desgarrada, que foi seguir pela área das artes. Mas eu comecei, na verdade, na carreira com TI, né? Trabalhei em grandes corporações, vim do mercado corporativo. Uau!
E aí, ao longo do tempo, foram acontecendo as coisas, né? Eu sou de Santos, fiz faculdade de TI, né? Enfim, e aí na faculdade tinha um grupo de teatro. E eu era uma pessoa, não sei se posso dizer assim, tímida, mas eu era um pouco reservado, né? Eu não gostava muito de me expor, de... Enfim, com pessoas que eu não conhecesse. E aí, sabe quando você tá naquela fase assim, 20 anos, você fala assim, ah, eu quero entrar num grupo aí pra poder...
me sentir pertencente a algum grupo. Acabei passando na faculdade, descendo a escada, tinha um cartaz lá em Santos, escrito assim... E para quem não conhece você, você pode se apresentar um pouquinho? O Tepe, que é o Teatro Esquimental de Pesquisa da faculdade. Estavam procurando estudantes universitários que queriam fazer parte do grupo.
Aí eu passei pela primeira vez, olhei o cartaz e falei assim, puxa vida, que interessante essa chamada. Mas sabe quando você fica uma pulga atrás da orelha e fala assim, ah, o que é isso? Você nunca tinha entrado no teatro, nunca tinha pisado no teatro. Eu nasci em Mogi das Cruzes, em 79. Morei um tempo em Mogi, fui para Suzano, meu avô morava em Suzano.
E eram cidades, assim, na época, né? Eram cidades pequenas, com uma comunidade japonesa grande, porém não tinha teatro, assim, não tinha cinema, né? Assim, Suzano, pra você ter uma ideia, né? Uma loucura, né? Não tinha shopping na época que eu morava lá. E não tinha cinema e nem teatro. Hoje já tem, né? Teatro, tem cinema, tem shopping, enfim. Então, assim, eu não tinha ninguém na família artista e não tinha contato. Então, a primeira vez que eu tive contato no teatro...
Foi em Santos. E tinha já desde a década de 60, 50, 60, um grande movimento, né? Muito forte de teatro amador de Santos, né? E aí eu vou pra Santos, então, em 92 mais ou menos, né? Embora eu já passava férias lá. Eu vou pra Santos, morar em Santos. E lá, então, eu tomo, assim, contato, né? Com essa vida cultural de Santos, tudo. E aí eu fiz faculdade, tudo.
E aí eu fui pisar na primeira vez no teatro, através da faculdade, nesse grupo que eu entrei, pisando, só que não pra assistir, pra apresentar. Então comigo foi muito louco, porque foi o inverso, né? Pode-se dizer que a maioria das pessoas vão pra assistir uma peça pela primeira vez, na plateia, o meu não. O meu se deu ao contrário, né? Foi pisando no palco. Você já começou no palco. No palco, exatamente. E ganhou um prêmio, inclusive, né?
Ganhei prêmio também. Uau! Foi acontecendo essas coisas. Então eu comecei, aí eu me formei na faculdade, aquela pulga ficou atrás da orelha e falei, o que é esse negócio? E fui lá fazer o teste.
Foi fazer o teste sem ter a mínima noção do que seria, do que aconteceria, quem eu ia encontrar. E aí tinha várias pessoas, vários universitários de vários cursos. Eu era o único de exatas. Com a cara e a coragem. A cara e a coragem. Acho que eu tinha 20 anos.
Quando eu piso no Teatro Municipal de Santos, foi uma cena bem curta, uma cena de 15 minutos, que era o Festival de Cenas, isso foi acho que no ano 2000, nossa, como passa o tempo, 26 anos atrás, né? E era muito louco, assim, porque as coisas na nossa vida, elas vão acontecendo de forma, assim, muito, acho que, não sei se por acaso, ou destino, não sei, as coisas acontecem, muitas vezes acontecem coisas engraçadas com a gente, né?
Eu tava super nervoso, imagina, né? Nunca pisei no teatro pra primeira vez e apresentando, né? E eu tinha tido algumas experiências com esse grupo antes, fazendo teatro assim na rua, dentro de ônibus, que é pior ainda, porque você tá do lado das pessoas, né?
Eu lembro, por exemplo, de uma vez que a gente foi apresentado no Mercado de Peixe em Santos. E aí tinha uma cena que era um monte de atores, atrizes assim, né? A gente cantava algumas canções do folclore popular, né? Enfim, das cantigas, né? E aí era uma festa praticamente, porque o nosso figurino era todo colorido, né?
E a gente se apresentava. E na verdade, assim, como era uma coisa inusitada, né? Pra cidade, na época, saiam em todas as mídias, né? Então, saiam em jornal, na televisão. Então, as pessoas já sabiam que a gente ia se apresentar. E ficavam esperando, assim, de repente ser contempladas dentro do ônibus, assim, do nada. Porque a gente não entrava fantasiada. A gente entrava com uma roupa normal. Tá.
E assim, em determinado momento, assim, um dos atores batia um sino, era deixa pra, como se fosse o terceiro celular no teatro. A gente começava a colocar a indumentária toda, né? Colocava um... E assim, aquilo começava de uma certa forma a energia, que daqui a pouco o ônibus todo estavam cantando a música. Nossa, cantando junto. Cantando junto, e as pessoas se emocionando, sabe? E assim, eu falei, caramba, isso é teatro, isso é o poder da arte, né?
Sim, é muito poderoso, né? É muito poderoso. Eu lembro até hoje, que me marcou muito, né? Que eu tava cantando assim.
Quando eu olho pro lado, tem uma mulher, devia ter uns 60 anos de idade, mais ou menos. Ela chorando, cantando junto, ela pega e me abraça, assim, passa a mão na minha cabeça e começa a fazer carinho, assim. E eu nunca vi aquela mulher, não sabia quem era, entendeu? Então eu falei assim, puxa, que legal, né? Isso é a arte, assim, indo nesse lugar, né? Do sentimento, do coração, né? Da emoção, né? É, da emoção. Que bonito. E a gente se despedia das pessoas, tirava o figurino e saia do ônibus, né?
Aí dávamos tchau, acabava a cena, as pessoas ficavam dando tchau, crianças ficavam mandando beijo, né? Enfim, né? Então era muito, era uma...
Era uma intervenção que a gente fazia muito singela, né? Muito forte, singela, né? E aquilo mexeu muito comigo. Eu novinho, né? Com 20 anos de idade. Então, essa experiência que eu tinha antes de pisar no palco. Tá. Né? Como pisar no palco é uma relação diferente, né? Porque você não tem, assim, a proximidade do público. Mas tem a questão também da exposição, que é muito grande, né? Porque todas as luzes em cima de você, né? Aquele silêncio absoluto.
No teatro municipal. No teatro municipal. Lotado, né? De gente. Lotado. Sua mãe tava lá.
Minha mãe não tava nesse dia, ela foi no Sesc, né? Mas enfim, aí eu fui pra lá, porque eu fiquei com medo de lhe chamar ela, porque vai que eu passo vergonha até dar tudo errado. E acabei ganhando o prêmio, né? Por isso. Não por isso, né? Pela performance toda, como ator revelação, né? Uau! Quem diria? É, então, pois é, quem diria? Porque assim, foi um vexame, na verdade, né? Do ponto de vista técnico, né? Mas acabou dando certo que eu ganhei um prêmio.
A partir daquilo que eu ganhei esse prêmio, eu pensei assim, puxa vida, acho que eu vou começar a estudar um pouco mais de teatro, né?
Eu nem imaginava ser ator, profissional, viver disso, né? Enfim, tava super feliz, formado, recém-formado, trabalhando com TI em grandes empresas, né? Trabalhava aqui em São Paulo já, morava em Santos. Final de semana era uma diversão fazer teatro. Sequer imaginava isso, né? Mas o prêmio não fez eu mudar pra eu trabalhar com isso. Mas sim pra poder investigar mais o que é teatro. Tá. O que é esse lugar que você toca as pessoas sem conhecê-las? As pessoas se emocionam, né?
E me transformou também. O teatro, eu costumo dizer que ele me transformou muito. O teatro, a arte, ela me salvou. Ela...
Foi no teatro que eu tive a possibilidade de rir de mim mesmo sozinho. Eu nunca tive essa oportunidade, né? A gente, quem você sabe, né? A gente é, muitas vezes, a gente é criado num sistema meio, bastante às vezes, vertical, né? Onde, de repente, o pai ou o avô manda na casa. Você obedece. Você obedece, não tem possibilidade de demonstrar muito seus sentimentos, suas opiniões. Eu venho um pouco dessa linha, né? Um pouco dessa linha dura de criação.
Muito sério, né? Muito sério. E para o homem demonstrar sentimento é uma questão de fraqueza. Nossa, que louco o teatro, que louco a arte. A gente possibilita rir do outro, rir de si mesmo, entender. Entender o mundo melhor. Entender o mundo que a gente vive, nos compreender, porque a arte tem esse lugar muito forte do autoconhecimento. Sim.
E aí eu pensei, então, eu quero estudar mais, sabe? Eu quero realmente ver o que é teatro, estudar as linguagens, né? História do teatro, a arte. E vim pra São Paulo, então, pra poder... Eu fiz Macunaíma, né? Tira-se com a Macunaíma. Vim estudar profissionalmente pra ter conhecimento apenas e me aprofundar mais, né? Sim. E as coisas foram acontecendo. Eu acabei entrando pro Macunaíma.
Acabei pegando todos os protagonistas nas montagens do teatro. Uau! Já tinha uma carga, uma experiência um pouco já do Teatro Amador de Santos, né? Que era bem forte, bem tenso. Até hoje é, né? E aquilo me deu, então, uma base pra poder começar a ser protagonista, experimentar, trabalhar mais esse lado do ator. E acabei me formando também. Fui trabalhar, trabalhava paralelamente com o teatro e com o TI.
E aí em 2005 foi um divisor de águas, que eu peguei, eu saí da área de TI e investi mais na carreira de ator. E aí as coisas começaram realmente, aí começaram a acontecer, né? Fiz duas participações em novela, fiz muito teatro, fiz vários comerciais, né? Alguns de muito destaque, fiz filme, enfim. E aí comecei a trabalhar mais lá. E aí tudo mudou quando eu conheci os sobreviventes, né?
Pois é, então. Conta pra gente como é que você ficou conhecendo os sobreviventes ou quando esse assunto começou a tocar o seu coração? A gente tinha um projeto que começou uma iniciativa de dois atores, que é o Ricardo Oshiro e o Henrique Kimura. Dois queridos. Eles tinham um projeto que eles queriam colocar a Nikkei em cena.
não sabiam como colocar, mas queriam colocar Nick Cage em cena. A gente se conhecia vários artistas, atores e atrizes Nick Cage, vários trabalhos que a gente já fazia, né, de comerciais, filmes, algumas coisas assim, a gente já se conhecia de vista alguns mais chegados. E aí, eles tiveram essa ideia
No primeiro momento eles convidaram a Alice K, né? Que é professora da ECA da USP, de Artes Cênicas. A princípio parece que não estava muito interessada no assunto. E aí parece que um dia, coincidentemente, eles estavam... Não sei se era uma palestra, uma peça de teatro. Que eles sentaram os dois juntos. E coincidentemente a Alice sentou do lado. E aí eles começaram a conversar, né? E aí surgiu então a retomada desse assunto.
Esse projeto de trabalhar e colocar ali que existe. E ela falou assim, nossa, eu tô com essa mesma ideia, né? E juntaram, então, assim, as três cabeças pensantes. Começaram, então, a chamar outras pessoas. Me chamaram. Chamaram o Ulisses Sakurai, né?
Então a gente começou esse projeto que chamava Travessias em Conflito, lá do B da Imigração Japonesa no Brasil. Tá. Isso foi em? Isso foi em 2012. Esse projeto, ele tinha por objetivo colocar histórias de Nikkeis em cena, mas de forma que era muito autêntico. Tinham cenas potentes, viscerais, mas que também fossem um lugar que mostrasse que o Nikkei...
não é esse olhar da época que era muito estereotipado, desse Japão muito imaginado, esse Japão feudal, exótico. Sim, idealizado. É, idealizado. A gente queria um outro lugar, a gente queria mostrar que nós, niquês, temos sim nossas ascendências, porém nós somos brasileiros como qualquer outra pessoa. Completamente. E era um projeto muito importante na época, que foi aprovado na Lei de Fomento ao Teatro.
E nos possibilitou então ter essa verba, esse recurso, pra montar esses espetáculos. E a gente ficou então um ano pesquisando todas as temáticas da imigração japonesa, os assuntos não contados, e era um projeto bem legal, era muito legal, porque a gente trouxe vários temas, vários assuntos, desde o caso Shindoremei, sabe o que aconteceu lá no interior paulista, até casos mais recentes do fenômeno pop.
Nossa, a gente trouxe muitos assuntos. E nessa época, então, surgiu a possibilidade de trabalhar com sobreviventes. Porque a minha avó de Hiroshima, ela veio pra cá antes da guerra. Ela veio na década de 20, acho que em 26, se não me engano, ela veio pra cá. Bebezinha com seis meses de vida.
E Hiroshima era um assunto que eu sempre quis trazer no palco. Minha mãe é historiadora, professora de história. Eu li muito sobre a Segunda Guerra. As pessoas falam assim, ah, eu sou especialista na Segunda Guerra. Eu falo, ah, não sou especialista, eu sou um profundo conhecedor, porque eu estudo a Segunda Guerra Mundial desde os 12 anos de idade. Então, eu conheço bastante coisa. Mas assim, os livros de história, quando você fala da Segunda Guerra, Hiroshima e Nagasaki e a participação do Japão na Segunda Guerra, de forma muito breve.
Se fala muita coisa da Alemanha nazista, dos campos de concentração, Itália, tudo na Europa.
Mas na Guerra do Pacífico, ela se fala pouco. Então, e quando se fala, mostra mais o final da guerra, com as duas bombas atômicas e acabou, né? Sim. E mostra muito fotos assim da bomba, né? Daquele grande cogumelo que se forma. Mas é interessante, não se mostra muito das vítimas, né? Não se mostra muito. Mostra muito foto da Hiroshima arrasada, mas eu mostro das vítimas. Sim, do lado humano, né? É, do lado humano não se mostra. Então era nesse lugar, sabe? Nesse olhar, que eu queria trabalhar.
Então eu pensei assim, na época, né? Pensei assim, puxa vida, acho que eu vou trabalhar com filhos ou netos de sobreviventes. Eu não tinha ideia. De Hiroshima. Não tinha ideia que tinha sobreviventes ainda. No Vivos, quanto mais no Brasil. E é como a vida é muito irônica, né? Porque eu moro ali na Vila Mariana, né? No Mirandópolis, sob o distrito da Vila Mariana.
Do lado do meu bairro, que é na saúde, existia a Associação dos Sobreviventes, de Hiroshima e Nagasaki, próxima à rua Urânio. Olha só que ironia, né? Eu fiquei imaginava disso, que eles estavam muito perto de mim ali. Na época eu estava ligado ao Hiroshima Kenjinkai, e aí foi no Hiroshima Kenjinkai que eles falaram. O antigo presidente, na época, do Hiroshima, falou assim, olha...
Você tá perto da Associação dos Sobreviventes. Eu falei, nossa, existe? Eu falei, é, existe. Tem vários ribacuchás lá, né? Ribacuchá é o sobrevivente da bomba toda. Eu falei, sério? Eu falei, é. Vai lá falar com eles, conhecer eles. Eu falei, poxa, agora que eu vou conhecer a própria fonte, né? A origem, né? Não vou mais trabalhar com filhos e netos, né? Trabalhar com eles. Érica, quando eu chego lá, minha vida é outra... Mudou, né? Mudou muito, assim. É um ponto quase zero, praticamente, porque...
Eu chego lá na associação, primeiro que eu chego na associação, eu não falo japonês, né? Então assim, eles falam português, mas tem preferência pra falar pro japonês, né? Aquele jeitinho deles, né? Então assim, eu chego na associação sem ter... Um jovem. É, um jovem lá, eu acho que devia ter 30 e poucos anos lá, né?
Um jovem ator tentando colocar eles em cena sem falar japonês e sem ter o mínimo de conhecimento de como eles eram. Como eles iam reagir a isso, né? Eu chego na associação, então, lá, né? Tentando ver se vai dar certo isso.
E era um projeto pra dar tudo errado. Tinha todos os fatores pra dar errado. Questão da idade deles, né? Porque eu não sabia se eles iam poder fazer o espetáculo, entrar em cartaz, viajar, enfim, né? Não sabia como que tava a saúde deles. Não é questão pela idade, mas pela saúde, né? Eu não sabia se eles queriam falar sobre esse assunto. Eu não falo japonês. Um ator que vai lá pra pegar e colocar no palco. Quem é? Quem sou eu, né?
Na fila do pão, né? E eu pensei assim, tem tudo pra dar errado. Inclusive, eu fui...
Num próprio grupo, né? No nosso próprio grupo de teatro, tinha uma pessoa, não vou ver o caso, mas falou assim, olha, se eu fosse você, eu desistia, não fazia esse projeto. Porque, cara, isso não vai dar certo. Você não fala japonês, esses caras são já de idade, entendeu? Desiste, cara, isso não vai dar certo. Mas aquilo bateu de certa forma pra mim como um desafio, sabe? Eu pensei, acho que... Se eu fosse você, eu desistia, eu não fazia esse projeto. E você conseguiu, né? E eu fui falar com eles.
Quando eles começaram a falar, eu me apresentei, né, tudo, assim. Eu falei que eles iam fazer teatro no primeiro momento, né? Sim. Falei que era um pesquisador. Você foi de coração aberto. É, eu falei assim, eu sou um pesquisador e eu tô aqui pra entrevistá-los pra um projeto. Fiquei quieto, né? Aham. Eu queria saber realmente primeiro se eles tinham tino, né, pra poder falar, né? A gente tem mais uma visão meio equivocada que o Nikkei, ele é tímido. Mas há uma diferença entre o tímido e o reservado.
Há uma diferença. E eles não eram tímidos, eles são reservados. E aí assim, eles já são palestrantes. Já descobri isso. Eles já foram pra mais de 50 países dando palestras, contando a história deles. Falei, opa. Então quer dizer, pelo menos a questão de se expor e timidez não é um caso. Nem reservado. Então eu falei, bom, agora quero saber realmente a história. Pelo amor de Deus. Eles começaram a falar. Eu perco em dias separados pra conversar com eles.
Eu chorava litros, assim. Sabe? Eu não conseguia... Eu tinha que resistir ao máximo, ficaria. Porque eu nunca tive contato, assim... Porque, assim, uma coisa é você ler livro. Ah, sim. Uma coisa é você ver um documentário. Outra coisa é você ouvir e ver da própria boca eles falando. Sim, de quem viveu isso, né? É impactante. Não tem, assim... Sabe, quem tá nos assistindo aqui tem que ver esses relatos. Porque é outra coisa. É uma energia que vem que a câmera não consegue passar.
Sabe? E quando eu tive contato com essas narrativas, com eles falando... E quando eu tive contato com essa narrativa, com eles falando...
É, eu fiquei duas semanas chorando todos os dias. Eu perdi o apetite. Eu tinha pesadelo todos os dias, sabe? Eu tinha ânsia de vômito. Minha taca sem gastrite de tal forma que eu... Você tava somatizando isso. Eu tava, sabe, não tinha como aquilo. É porque mede com qualquer ser humano. Só que eu ia psicopata, sabe? E aquilo mexeu de tal forma comigo que eu pensei assim...
Calma, vamos respirar. Sim. Eu sou um profissional que estou aqui. Tem que ter um pouco de distanciamento, né? Tem que criar coragem para ter esse distanciamento, porque senão eu vou fazer esse trabalho. Sim. Sabe? É que nem um médico. Não dá para operar se o cara tem, né? Sei lá, tem um problema, alguma coisa ali, né? Eu pensei assim, bom, aí quando eu tomei, reprogramei meu cérebro para isso, eu comecei então a analisar de forma mais profissional, não deixar me envolver muito e comecei a trabalhar com eles, né? Uhum.
Mas assim, aquilo me transformou por quê? Em vários sentidos. Primeiro porque eu era uma pessoa que eu reclamava muito da vida. Eu era muito ranzinza. Então assim, qualquer coisa eu reclamava. E qualquer coisa era motivo pra não ir trabalhar. Às vezes, você vai estar com dor aqui nas costas. Ah, acho que eu não vou trabalhar hoje não. Tô com dor nas costas. Aí você, ai, tô com dor de cabeça. Aí a dor de cabeça daqui aumenta, potencializa assim.
Depois que eu vi eles, eu falei, caramba, quem sou pra reclamar, entendeu? Sim. Esses caras perderam tudo, perderam família. Viram pessoas derretendo.
Viram pessoas carbonizadas, agonizando, sabe? Pessoas com os olhos pendurados, vivos ainda andando para ir para cá. Crianças gritando mãe, água. Sim, e não podia tomar água, porque se você tomasse aquela água, você morria também. Você morria na hora, sabe? Pessoas derretendo, literalmente derretendo, sabe? O Bucurara mesmo fala que via vários ossos, assim, pessoas... A senhora Junco fala que pessoas carregando um pedaço de intestino, sabe?
Imagina, é o inferno. Eles realmente viram, conheceram que foi o inferno na pera. Sim, viveram de perto o inferno, né?
E assim, quando eles falam isso pra mim, eu falei, cara, quem sou pra reclamar da vida, entendeu? Eu sou um privilegiado, né? Somos. E aquilo eu falei assim, puxa vida, e... Aí o primeiro impacto foi esse, né? Aí eu tomei várias porradas, né? A porrada na cara e só no estômago, né? Era de lá e de cá, né? Aí eu falei assim, aí a segunda porrada foi... Eles mesmo com a idade deles, né? Porque assim, todos tomaram chuva negra. A terrível chuva negra, né?
Radioativa. Então quem tomava chuva negra tinha expectativa de dois anos de vida só.
Então era uma sentença de morte. Você tomava chuva negra e você ia morrer. E esse processo de eles virem pro Brasil também é a segunda porrada, né? Que foi assim. Morita San, ele acabou a guerra. Ele tava muito próximo da bomba atômica. 1.300 metros. Ele era policial militar, né? Ajudou as pessoas. Ajudou várias pessoas. Foi arremessado 12 metros de distância. Tomou chuva negra. Depois desenvolveu leucemia. Ele já tava casado com uma criança... Um casal de filhos pequenos. Quando ele recebe diagnóstico da leucemia...
O vizinho dele, acho que foi um vizinho, se não me engano, falou assim, meu, você tá ferrado, cara, você vai morrer. Em dois anos você vai morrer. Aí ele ficou preocupadíssimo, né? Ele pensou assim, caramba, eu aqui jovem, 25 anos. Sim. Uma esposa. Como receber uma sentença, sim. Imagina você com um casal de filhos pequenos, crianças de 5 anos lá. Aí o vizinho falou assim, olha, já que você vai morrer, se eu fosse você ia pro Brasil.
É Brasil, mas onde fica isso? Nem se onde fica. É, eu escutei falar que o Brasil é uma terra tão abençoada que cura até câncer.
E ele acreditorou essa ladainha e veio pro Brasil com essa esperança de se curar e ter uma vida. E não é que aqui realmente ele se curou do câncer, né? Milagrosamente o câncer desapareceu. O Bunkurara já foi um processo diferente, né? Ele tinha 5 anos de idade.
A mãe e a irmã nunca foram localizados corpos. Ele narra o momento que foi com o pai procurar, a mãe e a irmã. Uma criança de cinco anos, imagina, né? Vendo vários corpos, enfim. Ele na peça é o momento mais forte, né? Que ele relata as memórias dele com cinco anos, porque ele tem lapsos de memória. E são lapsos muito fortes, né? Eu diria que é o cume do espetáculo, né? Nesse momento, tem gente que sai durante a peça e não consegue ficar.
Tem gente que cai de zabe e choro. Soluçar. Tem gente que causa revolta. Tem gente que causa, enfim, várias coisas. E também pra mim, na estreia desse espetáculo, foi muito forte. Quase que eu acabo com o espetáculo ali. Porque também, quando ele começou a relatar, eu sentia uma energia tão forte vindo da plateia.
Que todos choravam ao mesmo tempo. E chorava e vinha essa energia. Como se fosse uma avalanche de emoção. E vinha essa força. Eu bati assim. Eu estou quase chorando aqui. Agora eu vou chorar mais ainda. É muito poderoso. Então assim. Então aí o que acontece? Ele conta isso no espetáculo. E aí ele não achou a mãe e a irmã. Não pôde dar um enterro digno para a mãe e para a irmã.
E ao longo do tempo ele sofre muitos processos de saúde, problemas de saúde. Esses processos que a bomba atômica já causa, que é pensada e programada para isso.
Ele com... Na adolescência, na infância, ele pega tuberculose. Tem que faltar na escola. 18 anos, ele tem diagnóstico de problema no coração. Então, o médico falou assim, olha, toma cuidado. Você vai ter problema cardíaco com 18 anos. Então, o que ele achou? Bom, tomei a chuva negra. Tive tuberculose na infância. Estou com problema cardíaco aos 18 anos. Eu acho que eu vou viver no máximo até 30 anos. Bom, se eu viver até os 30 anos, pelo que eu passei, já está ótimo. Então, eu quero sair do Japão, eu quero conhecer outro país. Sozinho.
Se não me engano, eu acho que tinha 18 anos. Ela escolheu o Brasil. Ela escolheu o Brasil porque era o único lugar que tinha chance para emigrar. Não conhecia o idioma, não conhecia ninguém aqui. E ele veio com 40 dólares no bolso, com uma mala, sozinho.
Então, assim, esses caras foram muito corajosos, sabe? Eles foram, assim, muito fortes, sabe? Sim. Porque ele falou que ele veio pra cá, não conhecia ninguém. Veio no Porto de Santos, pegou carona, aí foi parar num caminhão. Como boia-feira, foi parar lá no Paraná, no interior. Aí trabalhou em lavoura, trabalhou em várias coisas, né?
E depois virou radialista, reconstruiu a vida, hoje está muito bem financeiramente, casou e mora aqui em São Paulo. E dá palestras ao redor do mundo, quem não se imaginava que ia dar o volta ao mundo falando sobre isso. Virou um mensageiro da paz. Da onde vem essa força, né?
Então assim, esses relatos, né, eu pensei assim, caramba, né, meu, quem sou eu pra reclamar disso? E outra, eles não ficaram, eles podiam estar curtindo a vida, sabe, eles podiam estar ou reclamando, ou táxi. Sim, eles podiam estar com o coração cheio de ódio, de rancor. De ódio, ou não fazer nada, ficar em casa na televisão e viver a sua vidinha normal, como a maioria vive, né. E aí tomei mais uma porrada na cara, porque foi essa questão de que
Eles não ficaram reclamando, não ficaram com o onde. Pelo contrário. Eles potencializaram isso como uma missão de paz, superação e amor. E fé na humanidade. Sim, resolveram fazer alguma coisa, né? E aí eles fizeram uma promessa entre eles, que enquanto eles estivessem vivos, eles iam continuar isso até morrer. Aí aquilo mexeu tanto comigo, eu falei, puxa, não é possível, cara.
É possível que esses senhores aqui estão fazendo isso, né? Eu falei, não, isso aqui tem que ser divulgado, tem que ser levado pra mais pessoas. Aí eu lembro até hoje que na primeira cena, quando a gente fez a primeira estreia do espetáculo, eu fiz um juramento pra eles perante o público, que enquanto eu estivesse vivo, eu ia me engajar com eles nessa missão e ia continuar com a peça, né? E essa peça, assim, até hoje, são 12 anos de espetáculo, desse projeto.
Essa promessa eu tô cumprindo até hoje, vou cumprir até morrer. Tínhamos uma perda, infelizmente, né? Seu Takashi mori, tá, aos 100 anos. Ele esteve conosco até os 98 anos na peça. Até o último momento que ele conseguia andar, que ele quase não conseguia andar, o Ricardo Oshiro carregava ele. Foi no Teatro João Caetano. 98 anos ele participou da peça.
E agora eu coloquei o Ricardo Chiro, né, pra fazer o papel do Takashi Murita. A gente usa o Murita em vídeo. Sim. Pra preservar a memória e a missão dele, né. Pra que mesmo ele, lá onde ele esteja, ele continue a mensagem dele, a voz dele, a história dele sendo propagada nessa missão que a gente tem nesse espetáculo.
E os dois já estão aí, né? Sou Boncurara, se recuperou, graças a Deus, de um câncer no ano passado, né? Temos espetáculos marcados pra esse ano também. A senhora Junco também firme e forte inteira aí. Você leva eles pra todo canto, Rogério. É, não sei se é eu levo ou eles me levam. Imagina, gente, eles são velhinhos. A senhora Junco tá com 86, né? A senhora Junco tá com 84. E a senhora Junco tá com 101 agora, né? Em março ele faz... É dia 4 de março, se não me engano. Acho que ele tá ali com 101 anos, né?
Aí eles estão, sim, quando você vai buscar eles de manhã pra pegar a van e fazer o espetáculo em alguma cidade, eles estão super felizes.
Olha, eu diria que de todos os espetáculos que eu trabalhei com atores, não atores, eles foram sensacionais. Eles são os que dão menos trabalho, são os que eu mais me devirto. Sim. Curiosidade, né? Porque a gente gosta muito de curiosidades. Aham. Principalmente os bastidores do teatro. Eu sou bom currara e eu aprendo muito com eles. Ah, isso. Eles me dão uma lição de vida e profissionalismo de várias formas. A gente tava apresentando em Curitiba, no Festival de Teatro.
Não, foi na segunda vez. A gente teve a primeira vez em Curitiba, no Festival de Teatro, em 2016.
Foi um sucesso tremendo. 2017. Foi um sucesso tremendo. Arrebatador. Festival. A gente retornou no ano seguinte. 2018. A gente fez um SESI lá na FIEP. E tava um frio. Um frio tremendo. A gente foi... Estava 4 graus. Tava 4 graus em Curitiba. Aquele frio tremeu.
Lotado o teatro de Curitiba, né? Acho que eram 660 lugares. Estavam 620 poucas pessoas no teatro. Sem patrocínio nenhum imenso o teatro. Lotado. Aquele filho de 4 graus. Durante o espetáculo, eu vejo o seu bom quarto fazendo assim, ó. Lá na Cuxia. Antes de entrar. Aí eu olho assim, fecho. Que coisa estranha, né? Aí acontecendo a peça, tudo. Detalhe, né?
Algumas semanas atrás, a esposa dele é pianista. Ele tentou levantar um piano pra trocar de lugar lá o piano. Já tinha mais de 80 anos, né? Nisso que ele levanta o piano, ele cai. Porque a coluna dele faz assim, ó. Quebra. Então, assim, só que duas semanas atrás. E tínhamos a apresentação marcada em Curitiba. Com os ingressos vendidos. Meu Deus. Então, assim, o que é que acontece? Ele tava à base de remédios, fortíssimos, casador. Tava com um colar cervical aqui na coluna.
e remédio. Não reclamou um momento de dor. Não reclamou. Não falou nada de dor. Aí ele tava fazendo assim na peça. Achei estranho assim, né? Aí depois, quando acabou a peça, ele falou, tá tudo bem, meu cara? Ele falou, é, tá tudo bem, mas eu tô com febre. Ele tava com febre de 40 graus.
Ele tava com dor na coluna, ele tava com dor de cabeça Ele tava com febre de 40 graus e não tava reclamando Fazendo a peça da mesma forma que ele sempre fez E no final a pessoa tirando falta com ele, feliz da vida E fazendo, entendeu? Aqui eu não aguentei Na hora dos aplausos eu falei isso Gente, queria compartilhar com vocês aqui Com vocês na plateia O que aconteceu aqui, contei essa história
E aí eu falei, mocoara, mostra que você tá com a coluna cervical, o pessoal acreditar, ele levantou a cabeça, entendeu? O pessoal foi ao delírio, começou a aplaudir, sendo aberto, entendeu? Porque imagina, né? Essa entrega é maravilhosa, né? É inacreditável. É a missão. Eles encaram como missão de vida mesmo, entendeu? Eu acho que é por isso, talvez, seja o segredo do que estão aí, bem, né? Se recuperando de câncer, vivendo, fazendo, né?
E aí aquilo foi mexendo de tal forma comigo, sabe, que... Toda vez que eu lembro eu falo pra eles, olha, tô aqui no palco com vocês, ao público de testemunha, mais de duas testemunhas, portanto. Promessa, prometendo pra vocês novamente que enquanto estiver vivo, vocês também a gente vai estar nessa, apresentando esse espetáculo. Então se não é por dinheiro, sabe, não é por ego, não é por vaidade, não é por sucesso. Sucesso é bem relativo, né.
É por realmente missão, amor, a diferente humanidade. Propósito, né? Propósito, é o Ikigai, né? O propósito deles é esse. É eles estarem vivos pra poder fazer isso num dia seguinte. E eu tenho acompanhado eles, então, ao longo desses 12 anos. 12 anos.
Indo em escolas fazer palestra pros jovens, espetáculo. Lançamento de livro deles. Se o Júnior tá escrevendo um livro também vai lançar. Ai, que bom. Se o Boncora também tava escrevendo, parou, talvez. Agora volte também a escrever. Somorita já tem livro, né? Sim, sim. Então, assim, eu tô junto com eles sempre que pode, né? Lançando com eles, às vezes tomando um café com eles também.
Sim, e a peça é bonita porque ela é um biodrama, né? Então mistura a história real de cada um dos sobreviventes e também tem algumas criações de fatos da vida deles, que é muito interessante. Tem a parte artística do taiko também que você coloca, né? A parte do origami. Você pensou em cada símbolo pra criar essa peça?
Foi pensado em cada símbolo. Alguns símbolos a gente não usa mais, né? Por exemplo, a peça sofreu 18 tratamentos. Ela teve 18 versões do roteiro diferente, né? Aí que quando chegou na 19ª a fala assim, agora chega, né? Parou, né? Então assim, no comecinho tinha uma cena que eles faziam Ikebana. Você tá me vendo? Porque a Sra. Junko era a professora de Ikebana no Japão.
Então eu falei, pronto, né? É muita coisa que eles fizeram, né? Então você é professora de Ikebana, é com certificado, né? Tudo no Japão, não sei o que lá, porque diz que só poderia dar aula com esse certificado nessa escola. Você faz uma prova. É, tem várias linhas de escolas de Ikebana, né? Falei, pronto, já sei, então. Você vai... Vou criar uma cena que você vai dar aula de Ikebana pro Bunkohara e pro Morita. Isso lá na primeira...
Numa das primeiras versões da peça, né? Porque os dois nunca tinham feito Ikebana. Nossa! E ela nunca tinha feito Ikebana depois que veio pro Brasil.
Então, ali era uma oportunidade ali no teatro dela fazer aqui no Brasil pela primeira vez e eles também. Então, virou um evento. E eu falava isso pro público, pro público acreditar. Ah, é mentira. Ela falou, é verdade. E eles faziam, ela dava aula, né? Às vezes dava bronca, né? Em japonês, né? Eles faziam a Ikebana, né? Aí teve um dia lá na apresentação que a Ikebana que sua mãe tá feita, ela caiu.
Ali falou uma coisa de japonês lá pra planta, assim, tudo no risado. Mas essa cena, ela dava muito trabalho, né? Porque tinha que se preocupar com a logística, né? Eram vasos pesados, né? Água, flor. Depois eu tirei ao longo do tempo essa cena. Então teve cenas que saíram, teve cenas que foram colocadas. O taiko, ele só entra em 2018. Antes não tinha taiko.
Hoje ele virou uma quase super produção, né? Em Curitiba nós colocamos 42 músicos em cena. Foram dois grupos de taiko. É quase uma orquestra aí. Se não, uma orquestra inteira. Então a gente sempre quando vai para as cidades, a gente faz questão de não levar o nosso grupo de taiko, que a gente tem em parceria. A gente faz questão de contratar o grupo da cidade local.
Primeiro pra promover os artistas locais. Segundo pra divulgar a arte do taiko na cidade. Sim. E terceiro pra que esses jovens, muitas vezes, desse taiko tenham contato com os sobreviventes. Sim, conheçam a história, né? Porque eles vão ser a última geração que vai ter contato com eles, né? As gerações culturas não vão ter contato com eles, infelizmente. Sim. E é o que você falou, uma coisa é ver, ler no livro, outra coisa é você conversar com o sobrevivente de Hiroshima e Nagasaki, né?
Teve um caso no Taekô, né? Taekô foi bem interessante, porque Taekô teve uma apresentação, a gente fez mais de 60 apresentações, tá? Ao longo desses dois anos, desses 12 anos, em várias cidades do Brasil, né? Eu acho que foi em Tatuí. Teve duas cidades que foi bem forte, assim, uma foi em Tatuí, que foi um grupo de Itapetininga que foi apresentar, porque Tatuí não tinha... Eu acho que, eu não lembro se Tatuí não tinha grupo Taekô, o grupo Taekô tava tocando em outra cidade. Então foi um grupo de Tatuí. E a outra foi em...
Piracicaba. Não, acho que foi presente pro Dente, se não me engano. Um dos... Uma das pessoas, né? Do grupo de Taiko, um dos artistas. Ela chorava tanto. Era tão forte que ela não conseguia fazer. Ela não conseguia tocar o Taiko. E o Taiko, ele é tocado antes de começar as narrativas deles, né? A peça começa com o Taiko abrindo o espetáculo.
Ela não conseguia fazer, porque teve um ensaio antes e ele começou a falar. E ela não tinha noção, ela nunca tinha ouvido falar que as pessoas começavam a derreter a pele. Quando ela tava na coxinha, ela começou a chorar, ela zabou. E ficou assim até o final do espetáculo. Ela não conseguia entrar pra tocar. Nossa. Alguns entravam, choravam, né? Porque você viu, a gente faz a cena que as pessoas começam a caminhar derretendo, né?
Com os olhos saltados, carregando o intestino, tudo. E aí uns começavam a chorar de verdade, né? Com essa coisa.
Teve uma outra cidade que a pessoa começava a se emocionar no taiko. No taiko já começava a chorar. Sim.
Porque é o que eles amam fazer também, né? E transmitir esse sentimento. Então, assim, eu diria que é muito mais que um espetáculo. As pessoas já falam isso, né? É muito mais que um espetáculo. Ele é um... Não dá pra explicar o que é. Acho que tem que ver mesmo. É transformador. É uma mistura de sentimento, de raiva, revolta, esperança, de fé, de superação, de resiliência. A gente fala sobre perdão na peça.
né? Então eu fui montando assim um roteiro que fosse as coisas mais importantes, sabe, que eles falavam, né? O perdão também é uma cena muito forte, né? Porque eu vou dar spoiler aqui, mas enfim. O perdão, por exemplo, é uma cena que eu coloquei e virou em cena, né? Virou uma cena porque a Sra. John, que ela tinha me contado há muitos anos atrás, que ela tinha recebido um convite pra ir pros Estados Unidos, né? Eu falo dos Estados Unidos agora, né?
Enfim. E ela ficou muito receosa de ir pros Estados Unidos, porque ela nunca tinha ido pros Estados Unidos.
E ela foi chamada, foi convidada pra dar palestra, falando uma história dela de vida, numa, eu acho que era uma faculdade, se não me engano, pública. Ela ficou meio receosa, assim, de sofrer algum tipo de bullying, né, retaliação, assim, enfim, né, ser vaiada, enfim, é um negócio dela, né, então. Mas ao mesmo tempo, no coração dela, ela tinha essa missão que ela precisava ir, né. E ela pegou, ela foi, então, né. Sozinha pros Estados Unidos. Nossa, que coragem.
Chegando lá, ela foi, né, deu a palestra, disse que o auditório é lotado, né, lotado, né, de estudantes, gente lá da cidade também. Foi contando a história de vida dela, como ela conta na peça, né, toda a história de vida dela. Ela era uma criança, só de um que tinha dois anos, quando tinha uma bomba atômica, né. Ela achou que ela ia morrer também, que recebeu a chuva negra, né, mas ela tinha dois anos que recebeu a chuva negra, né, extremamente radioativa.
Ela começou a contar a história de vida dela, e aí quando acaba a palestra, o pessoal se emocionado, começa a bater palma, tudo. Lá na última fileira,
Tem um senhor já, de idade, avançada. Ele levanta da última plateia, da última poltrona, última fileira, na plateia e começa a caminhar, assim, tremendo, chorando. Extremamente emocionado, né? E ele, ela contando isso pra mim, né? Ele para, assim, na frente dela e fala perdão pra ela. E ela olha aquilo, assim, pra ele e começa a chorar, né? Porque, imagina, né? E aí ele fala, assim, pra ela, né? Com uma pessoa do lado traduzindo, né? Porque ele tava falando em inglês pra ela. Falando, assim, perdão.
Pelo que nós, americanos, fizemos com vocês. Eu te peço perdão em nome da humanidade. Perdão. Ela começou a chorar também, né? E os dois chorando, se abraçaram, enfim. E as pessoas em volta começaram a chorar também, né? Porque foi um momento muito forte, né? Sim. E aí ele foi assim, aos poucos, se acalmando assim, né? E aí, o que ele contou pra ela aqui na juventude? Ele era militar do exército americano e tinha ido pro Vietnã. Matou a gente no Vietnã.
Então você vê assim, o lugar que está esse espetáculo, né? De uma pessoa que era um militar, treinada para não ter sentimentos, para ser uma pessoa dura, né? Muitas vezes até assassino, porque você vai matar pessoas ali, né? Enfim, treinado para ser militar, para ser soldado. Não cabe numa guerra... Obedecer a ordens. Obedecer a ordens. Numa guerra não cabe sentimentos ali, né? Não cabe compaixão.
É uma pessoa que sensibilizou, entendeu? Ele caiu em prancha, ele pediu perdão pra ela. Então, assim, aquilo, eu falei, caramba, meu. Teve isso? Ela falou, teve. Isso vai virar uma cena. Entendeu? Não posso deixar isso passar batido. Vai virar cena do espetáculo. E virou uma cena do espetáculo. Tão forte, tão quanto.
Não posso dizer isso mais, mas tão forte quanto. E as pessoas se emocionam nessa parte também. Tem gente que se emociona mais nessa parte porque toca na pessoa, acessa coisas de perdão. Muito forte às vezes com a questão familiar, do pai, da mãe, enfim, que seja, do irmão. E às vezes toca mais nisso do que outra coisa. Tem gente que se toca mais.
É na questão da Sadako, por exemplo, uma criança com 12 anos da história do Tsuru. Tem gente que se emociona mais nessa parte. Tem gente que se emociona mais na parte do... Quando o seu bolo narra, né? O momento que ele vê as pessoas derretendo. Tem gente que se emociona muito com a Sora Junco. Começa a falar das pessoas carregando um destino, criança chorando lá, criança se desfazendo, sabe?
Então é por isso que eu digo que é muito mais um espetáculo. Ela vai acessando várias camadas ali, sabe, da humanidade, que ele vai dissecando. E coisas engraçadas também, né? Porque essa pessoa tem uma falsa visão também, de como não conhece, né? Uhum. É...
É interessante, né? Porque, por exemplo, o espetáculo, apesar de falar assim, os três sobre eventos de Hiroshima. Então, pelo próprio tema, você já fala. Bom, só vai vir desgraça por aí, né? Só que você que vê o espetáculo, você vê tem momentos super engraçados na peça. Muito engraçados, né? Uma vez tinha um assessor, não vou falar que o canal, mas enfim, a pessoa... É um canal super grande aqui de televisão aqui no Brasil. E aí o assessor teve conversa de um, conversa com o outro, caiu na boca dele, que tinha três sobre eventos da bomba atômica.
A monitora viva ainda. Tinha três sobre eventos da bomba atômica fazendo peça aqui no Brasil. O cara falou, nossa, uau!
Já tinha saído na capa da Folha de São Paulo, de vários jornais, né? Enfim. Hoje é um projeto que, graças a Deus, reconhecido internacionalmente, né? Saiu na NHK várias vezes, saiu no principal jornal de Portugal, o Diário de Notícias de Lisboa. Já concedi entrevista pra rádio da França e Paris, enfim. Então, o projeto já tá hoje conhecido, né? Não no mundo inteiro, mas em alguns veículos já importantes. E aí tem coisas engraçadas, né? Do espetáculo. Por quê? Porque no momento que eles vêm pro Brasil...
É um choque de cultura, né, naquela época. Nós estamos falando aí de anos 50, 60, né. Então, assim, eles não tinham conhecimento nenhum do que era, né. Então, tem momentos engraçadíssimos com eles que aconteceu na vida, né. Que eu falei, ah, não, não é possível. Aconteceu isso, aconteceu. Eu falei, ah, não. Vai virar a cena de... Tem que colocar. Tem que colocar e virou. Virou a cena, a assalto da loja, por exemplo. Aquela cena do assalto da loja é muito engraçada.
É muito engraçada. A assalto da loja, você sabe que é o assalto da loja? É curioso, né. Tem gente que não acredita. Muitas pessoas viram e falaram pra mim, imagina, o senhor dessa idade aí, o senhor desalmoço assaltante. Eu falei, é verdade.
Pois é, faixa preta de judô, né? Então é isso E sabe que a minha lembrança do Morita San É de ir na loja dele, na sukiaki E ver ele sentadinho lá no caixa Sempre muito bonzinho E nessa época, Rogério, eu não fazia ideia de...
De quem ele era, de todo o trabalho que ele fez. Porque ele iniciou um movimento junto com os outros sobreviventes, né? Pra buscar os direitos dessas pessoas. Buscar o tratamento médico. Então ele representou tantos sobreviventes e fez um trabalho tão maravilhoso que as pessoas não conhecem. Não conhecem. Tem gente que almoçava muito lá, né? Na mercearia deles.
E essa questão que fala muito na peça do perdão. Porque eu não sei se... Se eu vivesse uma situação dessas, eu não sei se eu conseguiria ter o coração cheio de amor, de esperança, de paz, como a de um ko sam, bom ko hara samurita santem. É muito... É da gente pensar mesmo. O que é a nossa vida?
Eu acho que o perdão é uma coisa muito louca, porque ele bate para as pessoas de diferentes formas. E tudo que a gente enxerga na vida, o nosso pensamento, está muito coisas relacionadas à nossa criação e como os valores que é transmitido, porque é cultural.
E não só isso também, mas é uma somatória, né? De como que a gente enxerga a vida também, né? Porque também não quer dizer que você, num ambiente hostil que você é criado, eu fui criado num ambiente muito hostil, né? Não quer dizer que você vai se tornar uma pessoa também, principalmente violenta, né? Hostilizar as pessoas também. Você pode com isso potencializar para o inverso também, né? Então, por exemplo, eles viveram uma situação de hostilidade muito grande, né? E eles potencializaram isso através...
das palestras que eles dão, né, trabalhando essa questão de acreditar, de ter fé na humanidade, passar para gerações, para os jovens, para que isso nunca mais se repita, né. O Japão de hoje é um Japão totalmente diferente da Segunda Guerra Mundial, né, é totalmente diferente. Importante dizer porque governo vai, governo vem, né, e o que sobra é a população, o que sobra é a cultura, é a fé nas pessoas, né. O Japão se reconstruiu de tal forma que é inacreditável do que era, de um país totalmente bélico, né, te fazendo guerra para o outro lado, né.
De matando coreanos, matando chineses, matando todas aquelas outras pessoas da região da Ásia, com uma ideia megalomaníaca, aliado sim, não é importante dizer isso, que estava aliado a Hitler, estava aliado a Alemanha nazista e a Itália fascista. Então assim, o Japão de hoje é totalmente diferente. É um Japão que a gente gosta, é um Japão que a gente quer ver.
E assim como a gente quer ver também o Brasil, né? A gente quer ver um Brasil totalmente transformado, né? Um Brasil de paz, né? Assim como eu quero ver também... Quero ver um Irã também diferente. Quero ver um Estados Unidos diferente também, né? Às vezes pode ser utopia, pode. Mas é bom acreditar, porque se eu não estaria fazendo essa peça. Sim. Senão não tem sentido eu fazer a peça junto com eles, né? Então a gente tem que ter fé.
Não é em governo, sabe? Eu acho que tem que ter fé realmente nas pessoas, na humanidade. Porque também governos caem, governos mudam. Ideologias caem, ideologias novas surgem também. E é muito louco assim, porque a questão do perdão, né? Só pra concluir essa questão do perdão. O perdão é muito pessoal, né? O perdão não é a coisa que você... Porque perdoar o outro, na verdade, primeiro, é com relação a perdoar a si mesmo, né? Se você não perdoa a si mesmo, tem como perdoar o outro, né?
Então é muito louco isso, né? Porque é muito fácil falar ah, eu perdoei outro, né? Realmente perdoou o outro, né? Então assim, não é nessa questão deles, é nessa questão de perdoar os Estados Unidos pelo que fez, né? Porque é impossível você falar de perdão quando você são civis e crianças atingidos, né? Tem uma mãe ali que desapareceu, né? Então esse perdão que ele deixa claro, se o Albuquerque fala, não é, tô perdoando os Estados Unidos.
Eu acho que é mais pela questão da fé na humanidade, sabe? Essa geração de estadunidenses que estão vindo dessas jovens, dessas crianças.
Que muitas vezes não tem a mínima ideia do que seus governos estão fazendo. O Japão mesmo não tinha a mínima ideia. A população não tinha a mínima ideia do que era a guerra. Do que era a segunda guerra mundial. Quem define é a alta cúpula das forças armadas. E a população sofre por causa disso. Então é aquela coisa que você falou. Recebe no ordem. O soldado recebe no ordem. Não sabe nem pra onde está indo. O que vai fazer. Nem sabe qual ideologia que está defendendo.
Então é... Eu acho que é muito mais com relação a si mesmo. O que é o perdão do que... Falar que perdoa o outro é fácil. Mas antes de perdoar o outro tem que perdoar a si mesmo.
Com certeza, e agir pra isso, né? E aí essa pesquisa que você fez foi se expandindo pra outras peças. Foi. Aí eu criei um projeto, né? Começou a ter muito sucesso, pode-se dizer que assim, né? E aí eu falei assim, puxa vida, começou a impactar muita gente, né? Então acho que eu vou começar a fazer uma pesquisa, um projeto, vai virar um projeto, que se chama Sobreviventes pela Paz, né? Então a minha ideia foi colocar também outros sobreviventes.
de grandes genocídios ou guerras, né? Pra trabalhar esse lugar da sensibilização, mostrar que não se tem numa guerra vencedores, só tem vencidos. Todos perdem. Sim, todos. Todos perdem, não tem esse negócio que ganhou. E por quê? Porque os maiores, as vítimas são crianças, mulheres e idosos. São as principais vítimas das guerras. Então todos são perdedores, a população, toda a nação perde com isso. Então eu decidi, então...
Aí virou um outro espetáculo, né? Virou o Legítimo Pari Bomba Atômica, que é com atores. Fala todos os bastidores da bomba atômica, projeto Manhattan. Com atores... Niqueis. Niqueis, né? Niqueis pra fazer papel de europeus. Europeus. Um faz o Ricardo Schirer, acho que deve ser o primeiro ator Niquei a fazer o Einstein. Então eu queria também falar sobre representatividade, falar sobre essa questão de que nos olham, né? Muitas vezes...
de forma muito estereotipada, a mulher extremamente vulgarizada, sensualizada, a interna gueixa, o homem interno samurai. Então eu queria romper com todos esses estereótipos e colocar realmente, fazer um questionamento, sabe? E coloquei então, decidi colocar todos os atores Nikkeis nessa peça, num edital, foi o Prêmio Zé Renato, passamos com nota máxima no Prêmio Zé Renato em 2018, primeiro grupo Nikkei.
No projeto foi aprovado, no edital foi aprovado. Montamos o espetáculo, ficamos oito meses em cartaz, até hoje aí também a gente é um pai, fizemos Sesc, fomos indicados a prêmio. E aí surgiu então nessa pesquisa a segunda fase da pesquisa, que nós estamos atualmente hoje, que é o Holocausto. Então nós ganhamos um prêmio do PROAC em 2021, em 2022 eu montei uma peça.
Com sobreviventes do Holocausto também. Mas foi uma curta temporada. Curtíssima. Bem curtíssima. Eram para ser três sobreviventes. Um deles foi o Andor. Estava com 94 anos, se não me engano. Infelizmente faleceu quatro meses antes da peça. Estava louco para fazer o espetáculo. Enfim. O Andor foi bem interessante. Porque o Andor...
Ele era quase um murita, assim, versão judeu, né? Porque o Andor foi o único brasileiro sobrevivente do Holocausto. Todos os outros sobreviventes dos campos de concentração e de extermino eram de outras nacionalidades. O Andor era o único brasileiro nato. Porque o Andor nasceu aqui no Brasil, né? O pai, ele era húngaro.
pai e a mãe hungra, se não me engano, e o pai dele trabalhava, o pai dele era engenheiro, trabalhava numa fábrica, numa indústria que era multinacional. E ele foi transferido para a Índia, ele ficou um tempo lá, e aí quando acabou o contrato do pai dele, o pai dele decidiu visitar os avós na Hungria.
Ele foi para a Hungria. Quando vai para a Hungria para visitar os pais, para ficar um tempo lá, os avós dele, explode a Segunda Guerra porque o Hitler invade a Polônia. A Alemanha invade a Polônia e fecha as fronteiras. E o Andor foi proibido de sair da Hungria, fechar as fronteiras. Só que o Andor era judeu. Embora não congregasse, ele era de família de judeus. Descobrem que ele é judeu, ele é pego. O pai desaparece.
A mãe e ele vai pra campo de concentração, foi pra Auschwitz, Birkenau. O Andor tinha 12 anos de idade. Foi pra Auschwitz. Em Auschwitz, ele se despede da mãe. O último momento que ele vê a mãe foi a mãe dele dando tchau pra ele e entrando numa câmera de gás. Então pra você ver uma criança de 12 anos tendo essa cena. Imagina o que passou na cabeça dele. A gente não imagina isso. Imagina você com 12 anos vendo sua mãe indo pra uma câmera de gás, cara.
E aí o soldado nazista fala pra ele, ó, sua mãe tá entrando ali, vai sair pela chaminé, dando risada. Então assim, ele vê essa crueldade toda. Lá em Alchivites ele vê brigas por pedaço de pão. Ele tem um livro, né, inclusive, que ele fala sobre isso. Ele vê pessoas se matando ali. Pessoa comendo carne humana. Teve cara que começou a comer carne humana, tamanha fome.
E ele vê, e aí ele fala, isso aqui é um inferno. Ele tinha pulgas pelo corpo inteiro, coçava, tinha feridas, né? Passava fome, sede, emagreceu, não sei quantos quilos. Definhando praticamente. Aí ele chegou, ele falou assim, não dá mais, não aguento. Ele começou a correr pra se atirar na cerca. Eletrificado.
Quando ele está correndo para se atirar na sequela eletrificada, ele para, porque ele lembra, a mãe dele já tinha sido executada, né? Ele lembra da mãe dele falando assim, do Brasil, contando o Brasil, das histórias. Aí ele para, entendeu? É como se a mãe dele desse um recado para ele ali, né? Será que você pode dizer isso, né? E aí ele não se suicida, ele para, sobrevive ao... Ele passou por seis campos de concentração.
Meu Deus. E aí ele é colocado num trem, no vagão, e os soldados nazistas deixam ele lá pra morrer. Quando ele... Os soldados americanos, né, entram na... Na Auschwitz, na Polônia ali, ele parece que ficou vários dias ali no vagão. Quando ele abre o vagão, eles olham ali esses sobreviventes, né, dos campos ali, alguns já mortos, em estado de decomposição, outros bem magos, bem... E aí
E aí o Ander falou que ele nunca viu soldados chorarem como criança. Começaram a jogar barra de chocolate, essas coisas. Então o Ander falou assim, você tem que fazer parte desse espetáculo. Ele falou, vou fazer. Assim como sobre eventos de Hiroshima, ele falava, nunca quero mais que isso se repita pra mais ninguém. Nem pra pior pessoa da face da terra. Infelizmente a gente teve essa perda dele, descobriu um câncer, o Ander. E ele faleceu quatro meses antes do espetáculo.
Aí eu convidei depois a Marika Gidale, que é fundadora do Balé Estágio. Foi lindo. Uma belíssima de uma dançarina. Ganhou todos os prêmios que você possa imaginar de dança aqui no Brasil no exterior. Vai receber, se não me engano, agora também uma comenda do governo da Hungria. Coloquei ela e coloquei o Yoshua Stru, que hoje deve estar com mais de 90 anos também. E ele é romeno, a Marika é húngara. E eles conseguiram montar o espetáculo lá.
E da mesma forma, quando eles viram um jovem Nikkei querendo montar o espetáculo, o que eles falaram? Eu acho que é uma... Eu já tinha referência dos sobreviventes, né? Já tinha falado pra eles tudo. Alguns deles já viram... Ah, eles já tinham assistido. Já tinha assistido o próprio Yoshua ali, viu? Tem até foto dele com a Astora Junco, né? E... Então eles toparam, assim, pela questão de que acho que pela missão também de que, sabe, de compartilhar essa história. Hoje a gente vê no mundo, infelizmente, um antissemitismo.
Não vou dizer voltando, porque o antissemitismo sempre existiu. Ele ganhando força cada vez mais, sabe? Tanto que essa questão, às vezes, de guerras, da questão também de Gaza, agora Irã também, né? Então, vira e mexe o fascismo, o neonazismo, ele é muito perigoso e ele sempre mostra seus tentáculos, suas garras. Sempre dá um jeito de voltar, né? E às vezes, muitas vezes, sem a gente perceber. Na maioria das vezes, sem perceber.
Como aconteceu na Alemanha também, sem perceber, as pessoas já estavam dentro do nazismo.
Então eu costumo dizer que sempre a saída não cai pela guerra, a saída não cai por imposições, sempre pela democracia, sempre pelo discurso, pela paz, nunca pela força.
Com certeza. Então, aí continuando. Esse projeto, então, começou com Hiroshima, né? Hiroshima e Nagasaki. Virou uma peça com sobreviventes, Biodrama. Os três sobreviventes de Hiroshima. Aí virou uma segunda peça, que é o legítimo paribomba atômica, com atores, uma dramaturgia. Aí, Holocausto, que é a segunda pesquisa, né? Virou a primeira peça, que era sobreviventes do Holocausto, que eram eles. E aí virou a segunda peça, com uma dramaturgia com atores, que é desobediência.
Eu estava há um tempo querendo montar já uma segunda peça desse tema, né? Eu estava pesquisando tudo. E aí, o Murilo Dias César, que é o marido da Akemi Sakurai, o Murilo, ele é autor da peça do Legitimo Paramu Batômica. Ele leu, ele conseguiu ter acesso a esse livro que chama Passaporte para a Vida.
Que é da viúva do Shuni Sugihara, que é Yukiko Sugihara. É um livro que teve uma tiragem baixíssima, teve uma tradução com pouquíssima tiragem aqui no Brasil. Se não me engano foi no Ipaki, se não me engano. Não existe mais nesse jornal. Foi no Ipaki que ele fez a tradução. Virou um livro. Ele comprou no Sebo, raríssimo assim. Ele falou assim, Rogério, você precisa ler esse texto aqui, esse livro aqui. Aí eu já tinha ouvido falar do Shuni Sugihara, por incrível que pareça, na comunidade judaica.
Porque a comunidade Nikkei não conhece muito essa história. Não conhece. Shuni Sugihara foi um diplomata japonês que na Segunda Guerra Mundial, o Japão mandou ele pra Lituânia. Ele passou por várias regiões ali, né? Passou pela União Soviética, passou pela Finlândia, Europa, e acabou parando na Lituânia. Na Lituânia...
Olha só a história dele, vou resumir aqui. Ele foi para a embaixada da Lituânia, ele era embaixador japonês. Quando a Alemanha invade a Polônia, os judeus ficam desesperados e começam a correr a pé. Eles foram para a Lituânia. Por quê? Porque a Lituânia não fazia parte ainda da União Soviética, mas a Lituânia, se você não é no mapa, ela é fronteira com a Polônia. Fica assim, Polônia, Lituânia e União Soviética. Na época União Soviética.
Então a União Soviética não podia ir, porque era extremamente antissemita, né, não podia entrar. E eles foram então pra Lituânia, porque pro Oeste é Alemanha impossível. Não tinha como ir pro Norte também, porque Norte já é, se não me engano, acho que é o mar, né, o mar báltico, né. Então eles foram pra Lituânia. Chegaram na Lituânia, foram pra Embaixada Japonesa. E começaram a se aglomerar na Embaixada Japonesa, né.
E aí o que acontece? Um frio, imagina a Lituânia, um frio, desgraçado, abaixo de zero, mulheres, crianças, idosos, todo mundo se aglomerando lá. Não podia voltar, porque se voltasse pra Polônia, a morte não acerta. A única refúgio era lá. Foi pra Lituânia. Chegando na Embaixada Japonesa, a única esperança deles era conseguir um visto. Porque com esse visto eles iam cruzar a União Soviética, chegar no Japão, do Japão eles iam pra se salvar pra outros países.
Quando o Shio Nisugihara olha aquilo pela janela, começa a aglomerar um monte de gente. E ele pergunta, o que vocês querem, a gente quer ver isso, e falam pra ele, né? Ele era um cara espetacular. Muito novo e conseguiu ser aprovado. Falava seis línguas. Falava russo fluente, entendeu? Ele tinha uma carreira brilhante pela frente.
Ele estava na embaixada japonesa com a esposa, e se não me engano com três filhos, um deles faleceu. E aí o que acontece? Ele chega na embaixada com aquele monte de gente, refugiados, e ele fala assim, meu Deus, o que eu faço? Ele vai tentar entender. Aí ele entende que a Alemanha tinha invadido a Polônia, eles são judeus, estão querendo visto para não morrer. Ele pega, liga para Tóquio.
pra ver o que ele faz, né? Se ele concede o visto, se ele pode dar o visto, ele não podia dar o visto sem autorização, né? E aí, no princípio, no primeiro momento, ele toca e nega. Fala, não dá visto. Espera um pouco mais, nisso que ele espera, começa a vir mais gente, porque mais gente tava vindo refugiada. Ele liga num segundo momento, passando alguns dias, liga. Tóquio nega de novo. Começa a vir mais gente, ele liga pra terceira vez, pra Tóquio. Tóquio fala, não dá visto pra essa gente. Aí ele entra em desespero.
Ele fala assim, tem gente que tá passando fome ali, morrendo, no frio. A esposa, o pessoal da embaixada começa a dar comida pra eles, a sopa, pra tentar ver se eles sobrevivem um pouco.
Aí ele chega pra esposa, como uma mulher é fundamental na vida do homem, né? É fundamental. Dá até um assunto pra falar, porque várias mulheres fizeram, não vou falar fizeram parte, mas estavam junto com os homens em momentos tão decisivos, porque o homem acho que sem um suporte, né? O feminino, se olhar essa sensibilidade feminina, não seria nada, né? Ele chega pra esposa e fala assim, o que eu faço?
Porque ele sabe que se ele desse o visto, ele ia ser demitido. Ele ia acabar com a carreira dele, né? Se o Japão descobrisse. Mas o que é isso? Se os nazistas descobrissem que ele estava salvando os judeus, provavelmente ele, embora tenha essa questão da imunidade diplomática, não sei, vai saber, porque naquela época o bicho estava pegando. Tempo de guerra, né? É capaz de pegar o cara e mandar para campo de concentração, enfim, executar ele e a família dele todinha.
Então era um risco que estava correndo, muito grande. E ao mesmo tempo um impasse, né? E aí ele fala para ela, o que eu faço? O que eu faço?
E ela fala assim, faz com o seu coração mandar. E aí ele começa, escondido, emitir visto. Foi o livro que mais me emocionou, mais mexeu comigo. Eu vou falar porquê. E aí ele começa a emitir visto sozinho, escondido, no porão da embaixada.
O processo de emitir visto era muito demorado, porque você tinha que registrar num livro, passar por outro livro, carimbar. Imagina. Entendeu? E isso demorava muito. Demorava cerca de, não sei, acho que uma hora, talvez. Quando ele percebe que esse processo demorava pra salvar as pessoas, ele parou de registrar isso. Ele vai ver pra poder acelerar o processo, pra salvar mais vidas. Ai, meu Deus. Quando ele chegou na contagem de 6 mil, ele parou de registrar. Então, estima-se que ele salvou mais de 6 mil vidas.
Ele chegou a emagrecer tanto que ele chegou no limite de morte. Várias vezes. Na exaustão. Na exaustão. Várias vezes a esposa conta isso num livro, né? Que ela acordava da noite e madrugada, ela colocava a mão assim na cama e ele não estava lá. Ela descia no porão, ele estava só com uma luz de vela, emitindo vistos madrugada. Ele dormia duas horas por noite. Quando dormia.
E ela preocupada, ela levava algum lanche pra ele e falou assim, se você não vai dormir, vai descansar, você precisa descansar. Ele falou, não, preciso salvar vidas, salvar vidas. Então aquela mesma cena que tem o famoso filme de Schindler, que no final ele cai em lágrimas, né? Que ele começa a olhar e fala, esse dente de ouro podia salvar 10 vidas, esse anel que podia salvar é a mesma coisa do Tio Nesuviara, entendeu? Sim. Só que o que mais me incomove é que o Schindler é um personagem muito também complexo.
Sim, um pouco romanceado, né? É romanceado, mas ao mesmo tempo também, ele era do Partido Nazista. Sim. Mas o Schindler, ele utilizava a mão de obra dos judeus nas suas fábricas. Então é muito controverso. O Thune não, o Thune, ele perguntava várias vezes pra ele depois. Por que você fez isso? Ele falou, porque era justo. Só salva a vida porque era justo, era o que era certo a fazer, que era humano. Sim.
Então quando eu leio aquele livro assim chorando, eu falei, caramba, toda vez que eu leio esse livro eu choro de novo. Eu falo assim, caramba, como é que eu não conheci essa história, entendeu? Sim, porque como não é falado, né? Como as pessoas não sabem. Aí parece que tem um filme, né? Que fizeram, não teve muito sucesso, né? Em Hollywood, parece que fizeram um filme lá.
É uma grande produção. E aí fui pesquisar. Aqui no Brasil nunca tinha montado uma peça, não conheço esse livro. Aí um, na época, quem me contou essa história foi um... Hoje ele estava em Israel, começou a guerra e foi embora para a Austrália, que é um ex-curador do Memorial do Holocausto, né? Um grande amigo, inclusive. E aí ele me contou essa história. Quando ele me contou essa história, eu fui pesquisar, né? Falei, caramba, meu. E aí recebo o livro do Murilo.
Eu falei, não é possível, cara, é sinais aqui, eu vou ter que montar essa peça. Vou ter que montar. Aí ganhamos o Fomento, 100% dos atores em cena. E aí eu faço o Shunisugiharu, faço o Diplomata, a Beatriz de Aferra faz, a esposa dele é o Kiko, Ricardo Shiro faz vários personagens e a Carla Yoshoka também. E aí tivemos algumas apresentações, a gente tá vendo se volta com esse espetáculo, chama-se Desobediência, porque ele desobedeceu as ordens do governo japonês.
salvou mais de 6 mil vidas. Tem uma passagem do livro Belíssima, Belíssima, que me emociona muito. Eu vou tentar falar aqui sem me emocionar, né? Porque é muito difícil, porque é muito, muito linda essa história. Peraí que na peça a gente não conseguiu colocar isso. Quando ele começa a emitir vistos, o governo japonês descobre. E ele manda ele parar de fazer isso e fechar a embaixada, porque também a União Soviética já ia invadir aquela região, enfim. Ele desobedece várias vezes a ordem do governo japonês e começa a emitir visto.
O governo japonês descobre que ele desobedeceu, não fechou a embaixada e manda soldados, espiões, pra fechar e prender ele. Ele descobre que tava vindo gente pra fechar a embaixada e prender ele e ele escapa. Ele vai pra um hotel na Lituânia, em Kalnass, que é a antiga capital, hoje é Vínus, né? No hotel ele começa a emitir mais visto, porque ele é uma máquina de emitir visto pra poder salvar gente. E aí o que acontece? Descobrem que ele tá no hotel, foram na embaixada e não tava, descobriu que tava no hotel, foram no hotel pegar ele. Ele descobriu que tava vindo pegar ele e foge de novo.
Vai pra um trem, porque mandaram ir pra Alemanha. Morrendo de medo, porque ele achou que a Alemanha tinha descoberto, que iam prender eles lá na Alemanha, mandar pra campo de concentração. Imagina o medo desse homem, dessa mulher, dessas crianças. Sim, de família, com as crianças. E ele vai. Eles entram na estação do trem pra ir pra Alemanha. Imagina a Alemanha. Fogo no olho do furacão. Eles entram na estação do trem. Um monte de refugiados judeus atrás deles.
Ele emitindo vistos. Ele se pendura na janela do trem em movimento, dando visto, dando visto, jogando passaporte. As pessoas jogando passaporte pra ele. O que ele conseguia pegar, catava no ar. A esposa também, ele dava o visto, jogava de volta, de volta. Uma jovem joga pra ele um passaporte, ele pega, consegue dar o visto pra ela e joga de volta. E o trem já em movimento, ela consegue correr, cata o passaporte dela, cai no chão de joelhos. Ela agradece ele e fala...
Espero que a gente se encontre um dia. Deus te abençoe. Nunca vou esquecer desse momento. Entendeu? Que a sorte eu acompanhe. Enfim, fico muito grata por ele, por esse momento. Porque aquilo salvou a vida dela. Ele vai pra Alemanha, enfim, acontece tudo isso. Vai pro Japão, demitem ele. Pois é. Sem nenhum tipo de honraria. Sim. E ele teria uma carreira brilhante, né? Tinha uma carreira brilhante. Ele foi, inclusive, um pouquinho antes de voltar pro Japão.
Ele é preso na União Soviética. Ele achou que ele ia morrer. Ficou quase um ano preso. Num campo de concentração na União Soviética. Pra piorar tudo isso ainda.
volta pro Japão e demitido do governo. E cai no ostracionismo. Ninguém sabe quem ele é. Aí ele vai fazer pequenos trabalhos, né? Vai trabalhar como tradutor, fazendo bicos lá. Aí depois, quando surge o Estado de Israel, uma pessoa, um rapaz, que era jovem na época, era parte do governo, descobre que ele tá vivo, foi fazer uma homenagem pra ele, plantaram uma árvore, o Yad Vashem, que é o Museu Memorial do Holocausto em Jerusalém, faz uma homenagem pra ele, só que ele não pôde vir porque tava muito doente. No ano seguinte dessa homenagem ele morre.
Aquela jovem da estação de trem, que jogou o passaporte, que agradeceu ele de joelhos e a família dele, olha só quem essa pessoa é. Essa mulher, ela vai para os Estados Unidos. Entendeu? Ok. Beleza. Shuni morre. A esposa, Yokiko Sugihara, escreve um livro, que é esse Passaporte para a Vida. Tem tradução para algumas línguas, né? Acho que para o inglês também deve ter.
E ela começa a dar palestras em algumas universidades, lá no Japão. Veio aqui pro Brasil. Teve aqui, eu não sei se ela veio uma ou duas vezes. Se não me engano, acho que eu vi duas vezes. Ela teve também em uma delas. Tem algumas vídeos no YouTube. Ela teve no Hebraica. Fizeram uma homenagem, tudo isso aqui. E aí convidaram ela pra ir pros Estados Unidos. Eu não sei que ano que é, mas isso tá num livro, né? Ela foi pros Estados Unidos.
Lá nos Estados Unidos, ela foi dar uma entrevista, uma palestra lá. Que nem sobre eventos fazem, né? Conta a história dela com o Shihune, o que ele fez. Pra não deixar esquecer, né? É. Então fizeram um evento, a comunidade judaica lá nos Estados Unidos fez um evento lá. Acho que era em Nova York, uma cidade grande, né? Com muita comunidade judaica em peso lá. Quando termina a palestra, vem uma senhora, já de idade, falar com ela. Se apresentando pra ela.
Chorando a mulher, falando com ela, tudo. Falando assim, eu sou aquela jovem que estava no trem, correndo. Joguei para o seu marido o passaporte. Eu só estou aqui graças a você, seu marido. Sim, graças a vocês. Nesse momento, desce toda a família dela. Nossa. De filhos, netos, bisnetos, entendeu? Todos se ajoelham para Yukiko Sugihara, em agradecimento.
E ela fala, só existe essa família aqui Graças a você e seu marido Entendeu? Aí eu começava a ler aquilo E eu falei, não é possível É muita emoção Vai ter que criar uma peste ato
E aí surgiu então essa peça chamada desobediência, que é lindíssima, que infelizmente a gente não consegue ainda colocar novamente, por vários fatores, um deles é essa questão que essa guerra está muito polarizada no mundo. Infelizmente o pessoal está associando aos judeus, a esse governo de Israel, enfim. Então tem várias questões. E aí surge então essa peça. Então segunda fase do holocausto, surge a sobrevivência do holocausto, surge essa peça com a desobediência. E agora a terceira a terceira
fase, digamos assim, não sei se é a terceira fase. Você tá falando um pouco mais de coisa leve agora, né? Aí veio passos, né? Veio passos porque alguns anos atrás o Edson Cameda tinha falado pra mim assim, olha, assistiu um dorama aqui, né? Na época eu não podia falar dorama, né? Usava o termo errado, dorama, agora já que drama, né? Porque dorama é japonês, né? Que drama é coreano. Você assistiu um dorama aqui, tal de navilera.
Na época eu tinha preconceito, né? Sim. É, esse negócio de doramos, aí coisa, uma montaçuca, aí é coisa adolescente, sabe o que? Isso aí, um papo furado tá sempre de mim, não. É muito romântico. É, eu sou de fazer coisa forte. Imagina, né? Preconceituoso aí, né? Sim. E o que é essa história do Navileira? Então, aí o que acontece? Sem querer, eu tava querendo assistir um dorama, assim, eu falei, ah, quer saber? Eu vou ver um dorama pra ver, né?
Pra ver se realmente vem esse preconceito meu. Olha só como a vida prega várias peças de teatro. Ah, prega. O primeiro dorama que eu assisti foi Navileira. Ah.
Não tinha associado com o que tinha me falado isso há muito tempo. Tipo uns dois anos que tinha falado pra mim. Assistiu na VF. Meu Deus do céu, cara, que que é isso? Que que é isso, cara? Mocionei com o Dorama, cara. Foi nossa, a história de um senhor que se aposenta, não sabe o que vai fazer da vida e vai fazer o que? Balé. Vai dançar. O antigo sonho dele de juventude que ele não fez porque precisava sustentar a família, né?
E ele trabalhou como carteiro durante vários anos na Coreia do Sul, né? Se aposentou e foi dançar balé. Por quê? Porque ele começou a visitar os amigos. Então tava tudo assim, pessoal, já de idade avançada, uns tava em asilo, outros morrendo. Aí tinha um rapaz, um amigo dele, isso num drama, né? Num do que drama? Que era, ele fazia barcos, passou a vida dele todinha trabalhando como barcos. E o sonho dele era vir velejar esse amigo dele.
Morreu sem realizar o sonho dele. Só que ele se matou, esse amigo dele. Quando ele foi visitar ele na semana seguinte... É, então. Ele foi visitar e o amigo dele contando. Eu fazia barcos, meu sonho era velejar. Eu nunca vi velejar no mundo. Na semana seguinte, quando ele vai visitar esse amigo, ele se matou, esse amigo dele. E aquilo mexeu com ele. E ele falou, caramba, é melhor eu fazer o que eu sempre quis. E vai parar num estúdio de dança.
E aí, enfim, não vou dar spoiler porque as pessoas têm que ver esse dorama aí. Enfim. E aquilo mexeu comigo. Eu falei, meu Deus do céu, que forte, que potente, né? Que bonito. Que bonito também. Que poético, né? Ao mesmo tempo, é forte, é poético. Acho que nem os sobreviventes também tem essa questão, né? Essa peça, né? Sim. Eu falei, não, acho que eu vou...
Fiquei pensando assim, matutão, depois a peça, enquanto passava os detridos assim, eu fiquei, quem que eu vou chamar pra ser? Já tava tudo arquitetando, já falei, quem que eu vou chamar pra ser? Deixa eu ver, porque assim, a ideia não era fazer uma adaptação, a ideia era fazer um inspirado, né? Então, eu pensava, pelo menos, ter uma pessoa que tem que ser um ator, Nikkei, e que soubesse dançar.
É que nem sobrevivente, tinha tudo pra dar errado, né? Achar um ator 60 a mais, 60 a mais, niquei e que sabe dançar. Tô ferrado, né? Fiquei pensando assim, tá embaixo do meu nariz, Edson Camida, ele fazia na época balé no Teatro Municipal. Era 60 a mais, hoje tá com 67, né? E nunca tinha protagonizado uma peça. Peguei o telefone pra ele e falei assim, Edson, assisti um negócio aqui, cara.
que é do caramba, não vou falar a palavra não aqui, é do caramba. Ele falou, o que que é? Eu falei, você vai ser o primeiro protagonista na sua vida. E aí eu chamei pra ele em uma reunião, eu conversei com ele, ele falou, caramba, isso é o que?
Ficou super empolgado, aí chamamos, precisávamos de um ator mais jovem, que também fosse Nikkei, amarelo, dançasse, a gente só tinha metido em rascada, né? Aí chamamos o Kai Mutai, artista excelente, ótimo. Foi uma maravilha, um prazer trabalhar com ele, com todos, inclusive. Aí fomos pesquisando aqui e lá, chamamos ele, adoro a ideia, só que não, vamos fazer isso aqui. Chamamos a Emília, que a gente já tinha trabalhado no Fomento, né?
Quando era em 2012, 2013. E montamos o Passos, que é livremente inspirado, esse aqui é drama. Pegamos terceiro lugar no Fomento.
O ano retrasado, ano passado montamos a peça Tivemos palestras sobre a questão do Oitarismo, que é o preconceito com pessoas 60 a mais Trouxe especialistas Pra falar sobre essa questão Tivemos oficinas de teatro pra pessoas idosas 60 a mais com a Keila Fouke
Ela foi dar teatro pra pessoas numa casa de acolhida no centro. Ai, que lindo. Tinha de tudo. Tinha pessoas aposentadas, pessoas moradoras de rua, assim, que ficaram, meu Deus, tem que vir mais vezes aqui. Então foi um projeto lindo, sabe, que impactou muita gente. A gente estreou no Teatro Itália em agosto, né, e onicamente no mês de agosto, a mesa bomba, né, a gente estreou no mês de agosto no Teatro Itália com sucesso arrebatador, colocando cadeiras extras, sabe, porque vieram pessoas, amantes de K-drama, vieram pessoas, muitos idosos também.
E aí foi isso, a gente ficou em agosto no Teatro Itália, em setembro fizemos fábrica de cultura, aí acabou o fomento, aí voltamos com a circulação do Legitimum Paramabatona, que está em turnê. Agora esse ano, já em janeiro, fizemos, fomos convidados para fazer um Sesc e Berigui, fizemos lá, e agora nós estamos negociando também com outras unidades para levar essa peça.
Conversando também com possíveis patrocinadores. Porque é uma peça que fala, não fala de preconceito, né? Embora tenha uma questão da esposa dele. Ela fala assim, você vai dançar nessa idade, entendeu? Então a gente comete muitas vezes o etarismo, né? Sim, sem perceber. Sem perceber. Às vezes a própria pessoa comete o etarismo, né? Ela mesma. Então a gente põe esses elementos na peça, não como...
pra jogar a peça pra baixo, pelo contrário, pra potencializar. Sim, pra refletir, né? Pra refletir, porque depois ela transforma o personagem. A personagem percebe que ela cometeu talismo, né? O próprio jovem que ensina ele a dançar, porque assim, aí ele vai dançar. Ele vai se inscrever no manual de dança. A esposa é contra, né? A esposa fica meio assim. E esse jovem que vai ensinar ele, ele tá em crise de carreira.
Não sabe se continua ou não. Trabalha como outra coisa pra sobreviver e tem o sonho de ser bailarina profissional. Sim. Aí o que acontece? O professor dele manda ser
Professor desse senhor. Então você vê aí uma diferença de intergeracional, de idades. Um jovem de 23 anos vai ensinar um senhor de 70 a dançar. E um ensina o outro, né? Acaba um ensinando o outro, entendeu? Porque o preconceito do jovem diminui totalmente. Passa a ter admiração pelo seu senhor. E essa indisciplinação, ele é muito indisciplinado esse jovem, o outro tem disciplina. Então eles ensinam um ao outro.
Se complementam. Acabar sendo quase alterado um do outro. E nessa... Todas essas nuances, né? Essa amarração dessas histórias é um sucesso, porque tem romance, tem um pouco de romance na peça. Tem as pessoas choram, as pessoas riem. É uma peça que ela é muito pra cima, ela termina num ato, não vou dar spoiler aqui pra falar como ela termina, ela termina de forma muito legal, sabe? É...
Tem a questão feminina na peça, tem até a questão, a esposa dele, não vou falar também o que acontece aqui, mas ela se liberta de algumas coisas lá, no passado que ela teve, e aí mostra uma outra personagem, então cada personagem, ele dá uma mudança de chave assim, muito grande, que é muito legal. E acho que isso foi o sucesso.
da peça, porque teve gente que assistiu o Dorama e falou, nossa, o K-Drama, nossa, mas a peça é muito melhor. A gente ficou sentindo longeado nisso, porque é uma... Embora não seja um K-Drama muito visto, ele é uma das obras-primas, né? Claro. Da Netflix. Mas é... Não é muito visto porque não é um romance, é um drama, né? Mas a gente ficou muito longeado, né? A gente falou, nossa, fica melhor que o K-Drama. Teve gente que não viu o K-Drama e falou assim, nossa, agora eu quero ver o K-Drama, né? Então tem essa também. E tem gente que não viu o K-Drama e gosta também, né?
Então é um sucesso, assim, arrebatador. A gente espera que a gente consiga pavar pros sinhos, né? Claro. Através da Lei de Sentidos. E levar pro Brasil inteiro, porque ela fala de muita coisa também, sabe? Ela fala principalmente, eu acho que da esperança também, da fé em si mesmo, porque ele... Esse personagem dele é muito legal, porque ele vai... Ele vai combater no preconceito.
Da própria família, às vezes. E dele mesmo, assim. Dentro dele. É. E ele vai, assim, com a força, com a coragem dele, ele vai com medo, mas ele vai, sabe? Vai se afirmando. É. Da mesma forma que tinha tudo pra dar errado a peça dos sobreviventes, né, de Hiroshima, deu muito certo. Uhum. É. E acho que isso também tem um pouco do personagem, do pensamento dele, sabe, desse, do passo do Aurélio, né, que ele é coisa de, ah, não sei se vai dar certo, mas eu vou.
Porque essa matrícula que ele faz num curso de dança é pra resultar numa apresentação.
de dança no final, entendeu? Então é... Ah, fala de família, sabe? Fala de... É uma peça muito bonita, sabe? As pessoas gostaram muito e acho que essa a gente realmente acertou. Não que as outras a gente não acertou, mas em termos de leveza, delicadeza, de... Tem coisas muito engraçadas na peça também. Acho que a gente acertou muito ali em Passos.
Que lindo. E eu ia comentar também que você, além de ter essa relação próxima que você tinha com o Morita Sam, você também teve a oportunidade de interpretar ele, né? O Joel, que é um cineasta, né? Ele é incrível, né? Ele é incrível. O Joel foi um machado também, porque o Joel, a filha do Morita, me apresentou o Joel há muitos anos, né? E aí ele tava pesquisando já, né? Falar, não, tô pesquisando aqui, tô fazendo uns filmes aqui.
Só que o Joel é muito assim, né? Ele é muito humilde, ele é muito sucinto, né? Então você nem percebe o que ele tá fazendo.
Aí sabe quando você tá, eu fui em uma associação há muitos anos atrás, ele falou, eu falei, ah, conversei, não dei muita trela assim, né? Aí daqui a pouco ele me liga lá um, foi acho que ano passado, se não me engano, um retrasado, acho que foi ano retrasado. Ele falou assim, ó, vou fazer um filme aqui, quero que você faça Morita. Falei, nossa, que honra, né, fazer Morita. Ele falou, é, vai ter um filme aqui que eu falei, caramba, meu, tem essa também?
E aí foi muito louco, assim, porque foi uma experiência que esse filme, o Morita participa também. Então foi a última aparição pública do Morita antes de morrer.
e tava de cadeira de roda já, ele participa eu faço Murita, jovem com uniforme e contrariando com ele então foi uma despedida o filme é um capricinista, é verdade o filme foi uma despedida dele, que eu fiz com ele participa da história de Junco também, do filme
participa grandes artistas, também Toshita Naka, participa a Emily Sugai, né, e ficou muito bonito. O filme, ele... Ficou lindo. Ele ganhou o Proac, né, o ano passado, ele estreou aqui em São Paulo, e foi muito louco, assim, porque a vida, como eu te falei, ela prega peças, que a gente não pode imaginar, né, não pode imaginar. E quando eu morava em Santos, fazia teatro amador,
E eu vinha muito jovem pra cá com 20 anos, né? Uhum. E... Lembra que eu te falei? Você que imaginava ser ator, né? Sim. E eu vim assistir muita peça aqui. Porque aqui é o celeiro, né? Do teatro. No Brasil também, né? Eu vim assistir peça aqui, assim. Aí eu vinha muito aqui nesse teatro do João Caetano. Ali na Bordes Lagoa, né? Na Zona Sul.
E é um teatro que eu adorava. Eu adoro esse teatro, né? Sim. Ele é muito... Você já apresentou várias vezes lá, né? Escuta só. Eu assistia lá. Eu assistia peças lá. Grandes peças assistia lá. E eu olhava aquilo. Imagina, 20 anos de idade, né? Jovem assim. Eu falei, nossa, que delícia esse teatro. Sabe quando você tá num lugar que você sente em casa? Sim. É um lugar bem gostoso mesmo. Sabe quando... Aquele lugar que você fala...
Você parece casa da avó. Aquele dor. Que você sente pertencente àquele lugar? Sim. A energia lá é muito boa. E eu fiquei assim. Eu falei, ai... Quem sabe um dia eu apresento aqui, né? Será um sonho apresentar nesse lugar. E eu apresentei lá com sobreviventes.
Inclusive lá foi a primeira peça que eu apresentei, foi com Sobreviventes. Então aquilo me mexeu muito, me emocionou muito, né? E aí o que acontece? Por que pra falar isso também? Porque quando eu fiz o filme do Murita, foi uma dádiva, né, pra fazer esse filme. Pavilhão japonês, né, Vigapuera, lugar lindo, maravilhoso, que eu gosto muito também.
E aí quando nessa época que eu era novinho, eu assistia as peças aqui em São Paulo, eu ia muito no Cine Sesc. Que eu adoro esse lugar. Sabe? É uma pena que você vê cada vez mais teatros e cinemas de rua sendo fechados. É verdade. Ou indo pra shoppings. É uma outra relação. Essa relação de rua é bem diferente.
E aí o que acontece? Eu adoro esse teatro. Esse cinema, né? Eu adoro esse cinema. Não só pela programação que eles passam, mas pelo ambiente, sabe? Daquela cafeteria lá antes de chegar no cinema. Dá pra você tomar um vinho lá na parte do barzinho que é dentro do cinema. Eu não vi nenhum cinema que tem um barzinho dentro do cinema. Convida, você escuta o filme, vê o filme, né? Tomando um vinho, comendo alguma coisa lá no café, enfim.
E aí eu assistia muito filme de Cine Sesc. Muito. Eu saí de Santos pra vir passar um posto de filme de Cine Sesc. Eu falava assim, caramba, meu.
Cara, meu sonho é estrear um filme aqui mesmo. Mas sabe quando você fica assim? Aham. Você mesmo nunca vai acontecer isso, imagina. Você tá louco, né? Um filme eu participando aqui no Cine Sesc, imagina. Nikkei ainda, tô Nikkei. Imagina, né? Eu ficava aqui sonhando, né? Sonhando com esse dia, né? Aí eu ficava sonhando com esse dia. Aí o Joel me chama pra fazer o filme, fiz o filme. Aí passa algum tempo lá e ele fala assim, ó, vai ter uma estreia só pra convidados. Aí já tá finalizado, tá pronto o filme?
E eu não quis ver o filme na... Na ilha? Não, na ilha não. Na ilha ele me chamou também. Não lembro se ele me chamou, mas eu não quis ver. Inclusive, quando a gente gravava, dá pra você ver às vezes as cenas. Eu não quis ver. Eu não vi a cena da Emily Sugai, eu não vi a cena do Otoshi Tanaka. Eu não queria ver, porque eu queria ver só o final. Pra ser, assim, surpresa. É, sabe? Elemento surpresa. Nossa, eu ia ser muito curiosa, eu não ia conseguir ver.
Não, eu ia segurar a minha ansiedade. Aí o que acontece? Quando ele fala que tá pronto o filme, já fiquei super curioso, né? Sim.
Eu falo, ah, beleza, onde que vai ser a estreia? Ele falou, então vai ter uma estreia só pra convidados? Vai ser na Sinisesc. Eu falei, puta merda, cara. Que maravilhoso. Sinisesc. Então, quando eu tô começando a sonhar coisas maiores, pra poder realizar, porque...
Eu sonhava, apresentava o Tiago João Caetano, consegui. Sonhava com o Sinicés, consegui. Não porque eu fui atrás. Foi acontecendo as coisas assim. É porque você tá no caminho certo, Dan. No caminho do propósito, da verdade, da sua missão. É, não sei. Aí o que acontece? Aí teve esse Sinicés, que é o filme. Ele foi selecionado pro Festival de Los Angeles. Passou em Los Angeles.
Foi pro Japão. Eles acabaram de voltar do Japão, né? Passou em um festival, foi selecionado pro festival de Hokkaido. Passou lá. E parece que eles também fizeram depois Hiroshima, Nagasaki. Nossa! É. Que emoção. Inclusive com os Shibakushas. Nossa! Com os sobreviventes que eles assistiram, né? E agora me parece que ele vai pra França também, parece que foi selecionado.
Então, assim, eu tô sonhando pra ir pra Cannes, entendeu? Eu quero ir mais pra Cannes. Não ganhar, né? Porque também seria sonhar muito alto, né? Mas o fato de conseguir ser sonhado pra Cannes já seria excelente, né? Claro. Teve um filme amarelo que foi um dos pré-indicados. Foi um dos pré-indicados, né? Pro Oscar também, né? É, foi pré-indicado. Foi na shortlist, né? É. Então, assim, é uma vitória muito grande, né? Pra nós de case, pro movimento.
E no mais agora, com essa questão vira e mexe de guerra acontecendo, uma escalada de uma guerra com proporção maior, tem uma ameaça vira e mexe nuclear. O Japão já falou que está começando a discutir essa questão de ter bombas nucleares. É preocupante. Você viu a própria Paquistão, a Paquistão-India é uma potência nuclear. Teve ano passado um conflito entre eles na divisão, do vira e mexe na Cachimira também.
Agora a Arábia Saudita já pediu para que o Paquistão também forneça armas nucleares para eles. A França acabou de falar também que vai começar a distribuir as bombas atômicas na Europa para começar a rearmar também ali. Os gastos já vinham de uns anos para cá aumentando militares nucleares. Então muito mais agora.
Então, assim, e quanto se faz com relação às outras iniciativas do inverso? Pra se trabalhar a cultura de paz? Nenhuma. A gente não vê iniciativas ou se vê, são pouquíssimas, sabe? De pessoas que estão tirando dinheiro do próprio bolso, ONGs, com pouquíssimo orçamento. Então, é pra se trabalhar a cultura de paz, a sensibilização não se tem pra fazer armas, sim, né? Então, é bem preocupante. Muito preocupante. Isso, inclusive, fere a carta da ONU.
Vê a carta da ONU da extinção do desarmamento nuclear, que foi assinada e ratificada por vários países, inclusive o Brasil também ratificou essa carta. E está aí agora, o país rasgando essa carta. Os Estados Unidos já rasgou há muito tempo, junto com a Rússia. Então eles estão começando a fazer armas nucleares e que realmente não se sabe o que vai acontecer.
Porque, embora hoje nenhum país ataque o outro nuclearmente com bombas, mas eles estão começando a usar bombas em proporção menor, ligeiramente radioativas. Sim. E outros experimentos com bombas bacteriológicas, armas químicas, como foi usada na guerra do Iraque, como foi usada na guerra, até um pouco antes, na guerra do Vietnã, também se começou a usar. Na Síria se usou muito essas armas, muitas delas não foram divulgadas também.
Então, assim, o mundo tá muito louco, né? Tá virado de cabeça pra baixo. Muito conturbado, né? E é nisso que a gente tem que realmente fortalecer mais essa peça. Sim, a cultura do paz. Exatamente. Sim. E quando a gente vai falar, assim, de valores, né? Como esperança, resiliência, perdão. O que você mais gosta na cultura japonesa e que você acha que é importante que a gente preserve?
pergunta mais fácil, Elika. Os valores eles mudam, né? De pessoas pra pessoas, né? Sim. Eu acho que uma das coisas que eu vou falar por mim, né? Que eu fui criado muito assim, eu acho que é eu acho que a questão do respeito aos mais velhos, sabe? Eu acho que isso foi muito assim e valores assim da minha família que que eu não abro mão, que são inegociáveis, uma delas é honestidade. Sabe? É...
E a honestidade tá ligada muito, acho que à traição, sabe? Então, por exemplo, se eu me comprometo a alguma coisa, você pode ter certeza que eu vou dar minha palavra. Minha palavra, eu não volto atrás. Posso sofrer várias consequências por causa disso, mas eu não volto atrás. Então, eu acho que a honestidade e o respeito aos mais velhos, acho que foi por causa disso que eu nunca pensei nisso. Acho que essa conversa nossa tá sendo muito boa por causa disso, porque tá caindo várias fichas que eu nunca pensei.
Talvez o respeito aos mais velhos foi por um motivo de eu ter trabalhado também com sobreviventes. Com certeza.
Porque eu costumo dizer que eu não precisei ter paciência com eles. Eles que tiveram paciência comigo, na verdade. Sim. E quando eles encontraram você, eles também se encontraram, né? Encontraram um caminho pra realizar um sonho deles.
É verdade. O Subunkwara o Murita uma vez falava em japonês. Eu não falo japonês, né? E aí o que acontece? Você já sente, né? É. Presente. E aí o que acontece? Quando eles falaram, aí um falou assim, isso aqui, isso aqui, japonês. É, Rogério, isso aqui, isso aqui. Eu falei, é que vocês estão falando de mim aí, né? Aí eles falaram assim, não, é o seguinte, o Murita, acho que foi o Murita o Bunkwara.
que falou assim, não, porque quando a gente fazia palestra a gente impacta muitos jovens, muitas pessoas. Só que com a peça a gente impacta muito mais. Sim. Porque é emoção. Porque é emoção, porque eles cantam, eles dançam na peça.
E a arte transforma as pessoas. Transforma, ela impacta muito forte. Você sai do teatro maravilhado, Rogério. Então assim, eles falaram isso pra mim. Impactado com essa força. Aí eu me emocionei muito assim, na hora eu não me emocionei porque eu não posso, eu tenho que manter a postura perto deles, né? Ah, né, de japonês, né? É, mas assim, me emocionei depois, porque eles falaram assim pra mim, a gente aprendeu muito com você.
Eu pensei assim. Como é que eles aprenderam comigo? Os caras têm mais de não sei quantos anos de vida pela frente. Carregam uma carga dramática de vida. Primeiro que assim, uma pessoa que tem 80 anos, não dá pra você comparar com uma pessoa que tem 30, desculpa. Porque o que ela viveu ali, não dá pra se comparar com uma pessoa que 80 viveu.
Entendeu? Sim. E o que eles passaram, as experiências que eles tiveram em vários países, com pessoas relatando, emocionadas, porque eles... Meu, os caras vieram pra cá desengenados pelo médico, tinham dois anos de vida de expectativa, achavam que iam morrer. Se curaram de câncer. Entendeu? Perderam a família inteira, amigos, viram pessoas derretendo. Entendeu? O que esses caras estão aprendendo comigo? Eu contraio o que eu estou aprendendo com eles, entendeu?
Aí eu falei, é por que vocês aprenderam? Aí eles falaram isso, né? Com o teatro, eles nunca tinham feito teatro na vida, né? Nunca tinham feito. Eles nunca tinham imaginado que seria possível isso. Eu nem falei pra eles. Quando eu falei que vocês vão fazer teatro, porque assim, eu tinha entrevistado várias pessoas, né? Na associação tinha na época que eu fui lá conhecê-los, em 2012.
Tinha 116. Hoje tem acho que 40. No Brasil inteiro, né? Em São Paulo tinha, na época, 96, 90 e poucos sobreviventes. E aí o que acontece? Quando eu chego na associação, tinha mais ou menos uns 13, 14 que participavam mais ativamente. Então eu tive muita sorte, Erika. Eu tive uma benção de recebê-los de mão beijada, porque eu recebi três que já eram palestrantes. Só que o meu desafio era convencê-los, né?
a fazer teatro, né? Por isso que eu não falei no início. Eu falei, sou pesquisador, eu tô aqui, ó, pra... Você vai conquistando aos pouquinhos. É, quando eu falei que precisava... Aí eu falei, não, esses daqui mesmo. Aí eu aplicava um questionário de 80 perguntas, o Biodrama. 80 perguntas, sugério? Tadinhos dos audiçãs. Só que esses 80 perguntas não é no mesmo dia, porque às vezes não dá tempo, né? Às vezes faz 30, 40, passa pro outro dia.
Que nem aqui, você se emociona, você chora, você fica lá, eu ficava lá 5 minutos pra me recuperar, então vai, né?
80 perguntas. E às vezes nessas perguntas você faz uma pergunta e fala, peraí, como é que é essa história aí? Conta direitos aí. Ah, você ia descobrindo e puxando. É, puxando, né? Então assim, eram 80 perguntas, o básico, do biodrama, que se aplica. E aí dessas 80 perguntas, depois eu vou estudar em casa sozinho pra ver o que pode virar uma cena aqui que não pode e experimentar. E experimentar porque às vezes não funciona, né?
No palco, né? Então, mas acho que foi por causa disso. Porque acho que teve essa questão do respeito, eu caí com esses três.
que eles, a peça já tava pronta praticamente. Eu só fui, eu fui um condutor apenas. Foi um maestro que tava ali com os grandes artistas. Sabe quando o maestro pega aqueles grandes artistas e fala meu Deus, o que eu tô fazendo aqui? Por que eu preciso estar aqui? Não preciso estar aqui. Entendeu? Aí só vou fazer isso então, ó. Vou fazer isso porque aí os artistas tocam sozinhos. E foi assim. E aí a gente foi tocando isso.
Então eu tive assim, tive uma benção de receber eles na vida, porque minha vida me transformou muito, em todos os sentidos. E aí eu pensei assim, como me transformou, vai transformar outras pessoas. Com certeza, transforma. E aí retomei então em 2016.
E aí foi no Hiroshima King Jinkai. Que lindo. Aí saiu na capa da Ilustrada da Folha, gente pra fora do teatro, Drauzio Varela foi assistir a peça, foi o Carlos Moreno, aquele eterno garoto de propaganda da Bombril, né? Foi assistir. Sim, impactando outros públicos, né? Outros públicos, né? Pessoas que eu não imaginava. Chegando a mais pessoas. É, imagina, Drauzio Varela, sou fã do cara, imagina o cara tá na plateia, né? Nossa.
E aí, gente pra fora, assim, o Hiroshima King Jinkai, saindo gente pela janela quase, sabe? Uma loucura. Assim, cada vez mais...
Trazendo gente, gente pra fora do teatro. A gente teve muita felicidade, sabe, Erika? Nesses 12 anos. Foi indicada o Prêmio Governador de Estado de São Paulo, essa peça. Como o melhor espetáculo, o ano retrasado. A gente teve muitas surpresas, muitas experiências. Eu vou compartilhar com você aqui. Eu sei que o tempo tá muito estourado. O Hiroshima tava lotado. A gente tava apresentando a peça. Quando acaba a apresentação...
As pessoas muito emocionadas, né? E aí tinha... Vem um senhor com a família. Esse senhor, ele vem pra abraçar a gente chorando. E ele fala assim, olha, queria agradecer a vocês que, primeiro, essa peça mexeu muito comigo. O que vocês passaram aqui não tá escrito. Ele começou a chorar, né? Aí ele fala assim, olha, desculpa, eu tava me emocionado porque eu descobri há duas semanas atrás que eu tô com câncer no pulmão.
Eu acho que eu tenho pouco tempo de vida. Eu já estava pensando em várias coisas já. Mas depois que eu vi a peça de vocês, vocês contando o que aconteceu com vocês, isso aqui não é nada. Isso aqui não é nada. Eu vou me curar desse câncer, eu vou fazer o tratamento, vou fazer cirurgia, e eu vou estar aqui assistindo essa peça todos os dias que vocês deram na plateia, na primeira fileira.
E aí ele operou, ele operou, se curou e passou a assistir a peça sempre também. Então se a gente faz a peça com sobreviventes, né? Esses sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima, que é uma peça que você vê assim, histórica, né? Mas aí atinge cada outra camada de várias pessoas, né? O cara tava com câncer, aí ele fez a relação dele do câncer do pulmão com sobreviventes. E vai transformar cada pessoa de uma maneira única. Ele falou assim, agora eu tenho força, vocês também deram força pra vencer esse câncer aqui. Falei, caramba, meu. Está indo.
Que poderoso, né? A arte, realmente. E pras pessoas que quiserem acompanhar o seu trabalho, como que elas podem fazer, Rogério?
A gente tem o Instagram e o Facebook, né? É Nagaiproduções, N-A-G-A-I, Nagaiproduções. A gente posta lá todas as apresentações, próximas palestras, cursos, oficinas. A gente vai agora pro Rio, né? Do dia 21, 25, em maio. Lá no Teatro Firjan, no centro do Rio de Janeiro. E depois, dia 18 de junho, o dia da migração japonesa. Muito simbólico, a gente vai fazer em Aracatuba, na Associação Nipo.
Associação Nipo de Arasatuba nunca fez nenhuma... Eles são maravilhosos. Eles nunca fizeram nenhum evento em comemoração ao dia da imigração japonesa. E esse dia vai ser... Essa apresentação vai ser exatamente no dia da imigração na Associação Nipo através do Sesc de Arasatuba. Que lindo.
Bom, pessoal, espero que vocês também tenham se emocionado com todas essas histórias que eu conversei com o Rogério. Acho que o nosso desejo é um mundo em paz, que essa cultura de paz realmente seja mais incentivada no mundo. Que todos estejam bem. Muito obrigada pela torcida nessa segunda temporada. E a gente se vê na próxima temporada do podcast Amo Japão. Obrigada, pessoal. Beijos.