Dia 70 na Austrália | “Isso é conversa de quem trabalha na CIA…”
Relato da minha décima semana na Austrália:
- O que é ser Doorman;
- Necessidade de despertar a criatividade para manter o cérebro ocupado;
- Trabalhar com uma colombiana cheia de mania.
Diogo Rodrigues
- Trabalho como DoormanRotina e matemática do trabalho · Interação com colegas asiáticos · Necessidade de criatividade para passar o tempo · People watching e observação de clientes · Confusão com o papel de segurança
- Encontro com segurança misteriosoAparência e comportamento do segurança · Conversa sobre trabalhos anteriores · Teorias sobre a profissão do segurança
- Trabalho em bar de rugbyInteração com colega colombiana · Dificuldade com pronúncia de 'J' em inglês · Discussão sobre a pronúncia de 'enjoy'
com muita energia, com muita carinha, o grande Diogo Rodrigues!
Finalmente sentado, finalmente. Por que é que eu estou a dizer isto? Eu não sei se vocês sabem, mas agora passam a saber, uma semana de segunda à sexta, ok? Aqueles 5 dias, são 120 horas total, ok? Se não sabiam, é fácil, 24 vezes 5.
E se nós tirarmos 8 horas por noite, que é o tempo que eu passei a dormir, restam 80 horas. Dessas 80 horas, durante a semana, eu tive 31 horas e meia de pé. 31 horas e meia. Seguidas. Ok, não foi seguidas, vá, dividi por 5 dias. Porque agora estou com este trabalho novo, como doorman, que é literalmente ficar de pé em frente a uma porta.
não há mais nada a fazer, infelizmente. Pode acontecer, tipo, as lojas terem um assalto, o que eu agradecia, porque era alguma emoção, mas até agora ainda não aconteceu. E a pessoa tem que ficar lá de pé, portanto, 7 horas por dia, com 30 minutos de descanso. Pai, isto está a ser muita matemática, não vale a pena. Mas... E durante essas 7 horas...
Opa, é ridículo porque para já não tens ninguém com quem falar. Na maioria das lojas são asiáticos a trabalhar e eles falam entre si e vocês não sei se estão a perceber o que é ficar sete horas por dia ou ouvir chinês ou japonês ou coreã, mas é...
É como se ficassem 7 horas a ver o Squid Game. É exatamente a mesma coisa. Não se percebe nada. Absolutamente nada. E os asiáticos têm este problema que é... Eles não sabem expressar emoções. Eles não conseguem. Isto não é racismo. É o que é. Eles não sabem. E então eles estão sempre com a mesma cara. Estão sempre com a cara trancada. Tu falas com eles. Tu podes dizer, olha, foi um bebê atropelado. Ou tenho aqui um pastel de nata para ti. A reação deles vai ser a mesma.
Eles não sabem o que é emoções.
E então é mesmo difícil trabalhar com eles porque, sei lá, parece que estão em piloto automático. São pessoas sem sal. Pronto, acabou aqui a parte do racismo, mas é verdade, é o que é. E depois, portanto, eu estou na maioria das lojas sempre parado. Eu não posso ter fones, eu não posso estar a mexer no telemóvel. É mesmo uma cena que te obriga a estar contigo próprio com os teus pensamentos. E eu não sei se gosto disso.
É uma introspecção constante. E depois é assim. Tu estás lá sete horas, tu tens que arranjar coisas para pensar, tens que arranjar coisas para fazer, para passar o tempo. Porque do nada parece que passou tipo 40 minutos, tu olhas para o relógio e passaram três. A pior cena que tu podes fazer é olhar para o relógio.
e depois é assim estás lá esse tempo todo quando vais para os 30 ou 40 minutos de almoço esses 40 minutos parecem 12 passa mesmo rápido e enquanto estás lá tens mesmo que arranjar coisas para fazer eu dei por mim no primeiro dia fazer as tabuadas todas de cabeça para passar o tempo
Eu acho que a do 8 e a do 6 são as mais chatas. Mas, já, passas... Tu tens que arranjar coisas para fazer. Tipo, jogas ao stop sozinho. Começas a fazer os teus tops de... Sei lá, eu comecei a fazer tops... Top 4 de filmes de comédia, séries de comédia, atores... E quem é que quer saber destes tops? Ninguém. Absolutamente ninguém. E eu estou a fazer só para passar o tempo.
para passar o tempo, ou se um dia o Pedro Silva e o Guilherme Fonsegui me convidarem para o Private Joke, também pode funcionar. Mas é que aquilo é mesmo ter que arranjar alguma coisa para fazer.
Tu tens que arranjar coisas para fazer, tens que ser criativo. É mesmo arranjar maneiras de passar ali o tempo. Depois começas a fazer imenso people watching, começas a ver as pessoas na rua, começas a ver as pessoas que vêm à loja, porque é interessante, eu estou... Esta semana estive só em lojas de relógios, e...
Estive numa que eram relógios de uma marca muito exclusiva e com relógios que eram caros e eu gosto de ver as pessoas que entram Para já muitos asiáticos também, muitos asiáticos, pirosos
Malta que vem com bolsinhas penduradas ao pescoço que parecem inessesseres da Louis Vuitton Com bonequinhos pendurados, tipo lá, bubus É horrível, é ué piroso, sapatos gigantes, roupas histéricas É mesmo estranho Depois houve uma vez que vieram lá três indianos mais novos do que eu Pareciam mesmo ser adolescentes
e vestidos com fato de treino, estavam com um bocado mau ar e eu fiquei a pensar, como é que estes três rapazes têm, o que é que eles fazem para ganhar dinheiro? Será que estão metidos na cripto, estão aqui com o dinheiro dos pais, têm o franchise mais conhecido de chamuças lá na india, não sei, não sei.
É curioso pensar o background e tentar pensar no background destas pessoas. E depois uma coisa que eu acho absurda, a malta acha que eu sou segurança. Eu, com a minha carinha, tipo, o que é que eu vou segurar ali? Eu não sei porque é que pensam que eu sou segurança. Eu se calhar faço pause de segurança, mas eu não sei como é que eles olham para mim e pensam, se calhar não vamos assaltar este sítio.
Ah não é, eu não sou segurança, eu sou o lap portas, porque é destas lojas, as portas só abrem com um comando, então o meu trabalho é literalmente usar o comando para abrir e depois para fechar as portas, dizer bem-vindos, não sei o quê, responder a qualquer questão que eles possam ter, que eu não sei as respostas, mas invento. E é basicamente esse o trabalho.
Eu acho que as últimas horas são as piores, em que já estás a sentir os pés, já estás a sentir as costas, mas é ué tranquilo. Eu só espero mesmo que haja um assalto, haja qualquer coisa, qualquer coisa de emocionante tem que acontecer. Na sexta-feira eu tive imensa sorte que eu estava numa loja virada para a rua, quer dizer, são todas, mas virada para a boa rua principal, ou seja, está sempre a acontecer coisas e apareceu um sem-abrigo.
que do nada começou-se a despir, começou a despir a roupa toda, a dançar, a dar cambalhotas, e tipo, foi entretenimento, foi bom, para as pessoas que estavam na rua não foi bacana, mas para mim foi ótimo. Passou um outro sem abrigo, eu quando sou uma pessoa assim com mesmo muito mau aspecto, mesmo muito mau aspecto, eu não posso deixar entrar na loja, tenho de dizer, olha isto é com marcação, e claro, essas pessoas nunca têm marcação.
E vem um, eu estou a vê-lo a vir na direção da loja, mas não abre a porta, ele vem só até à porta, que é de vidro, e mostra-me a língua e vai embora. O que eu agradeço, é mais emoção, não me importo muito.
Ah, e é assim, todos os dias tem uma espécie de um segurança, tipo segurança more, que de manhã, no início do turno, dá-nos uns walkie-talkies, que é para nós, Deus quer que aconteça, avisarmos se acontecer alguma coisa dentro da loja. Ele dá-nos uns walkie-talkies de manhã e depois nós à tarde temos que lhe dar de novo. E este tipo tem um ar mesmo de óculos escuros, bigodão, está sempre vestido de preto.
E é... É misterioso. Ele é bem misterioso. É meio... Parece que não tem muitos amigos. Não é uma people's person. E ele é sempre bué seco. Não sei o que. E no outro dia, estava só eu e ele a falar. Ele começou a meter conversa. Tipo, ok, está a sair dentro da casca. E estava-me a contar cenas. Tipo, tinha trabalhado na Malásia e assim. Ele estava a partilhar coisas. E eu perguntei-lhe... ...
Ah ok, mas o que é que tu fazes? Ah, tenho vários trabalhos. Já fui... Já fui talhante, já fui... Entregador de... Pá, não sei. Já conduzi o... Ai, camiões! Sendo assim. E eu, ah ok, mas então neste momento só fazes isso? E ele, não, não, tenho outros trabalhos. E eu, ok, e o que é que fazes? E ele, é tudo que precisas de saber. Que tenho outros trabalhos. Ah?
E eu digo-lhe, bem, isso é a brincar, isso é mesmo conversa de quem trabalha na CIA. E ele, tu não precisas saber mais nada. E fica trancado e não fala mais. Bem, depois ele, sempre que eu lhe entrego o walkie-talkie, uma cena bem estranha, ele é assim, vai ser aqui, depois à tarde está sempre, eu entrego-lhe o walkie-talkie, é tipo, toma, até amanhã. Mas ele quer sempre conversar. E então eu entrego-lhe o walkie-talkie.
Oh, how was your day? Como é que foi o teu dia? Tipo, como se não tivesse sido um arrogante gigante de manhã. Como é que foi o teu dia? Ah, foi bom. E depois ele tem sempre... E pronto, ok. E o teu. E ele tem sempre a mesma resposta. Ah, mais do mesmo. Parece que perde energia ali do nada. E depois diz-me sempre uma cena que só depois desse dia é que eu achei meio estranho que é, ele diz-me sempre, quando eu me despeço Ok, get home safely. Tipo, chega a casa em segurança.
E eu ao principio não... sei lá, é uma cena estranha de se fazer, pelo menos nós não temos o habit E depois já ficou a parecer tipo, olha vê lá se não te acontece nada, campeão
Epá, não sei, foi uma vibe meio estranha E ele mudou completamente Quando começou a dizer É tudo que precisas de saber O resto é confidencial Portanto, ele ou é Um espião Ou uma espécie de assassino contratado Ou alguém que vai aparecer num documentário Da Netflix daqui a dois anos Vão ver, e eu vou-vos dizer
Ontem fui trabalhar também no estádio para mais um jogo de rugby. Desta vez consegui ver o jogo. Vá lá. Estava num tipo, o que eles chamam, island bar. Era ali um bar no meio do... Que só servia bebidas, infelizmente por isso não pude trazer comida. Só que irritou-me um bocado. Estava a trabalhar com uma rapariga, uma colombiana, que ela até parecia querida no início.
Mas depois, eu não sei se vocês já ouviram uma alça cuja língua nativa é espanhol a falar inglês. Eles têm boa dificuldade ou só não querem saber e não dizem o J. Tipo Jack, eles dizem Yek. Just, eles dizem Yes-te.
É uma cena deles. E a rapariga, sempre que dava uma cerveja, ela queria dizer enjoy e dizia enjoy. Enjoy. Here's the beer. Enjoy. Eu acho piada. E adiante estamos ali num momento. Adiante estamos ali num momento. Boa, adiante.
estamos ali numa parte em que não temos muitos clientes e eu digo-lhe ah olha eu acho imensa piada como os... a malta que fala espanhol ao falar inglês não diz bem os jotas e ela como assim? e eu... os jotas? tipo vocês não dizem bem os jotas quando estás a dizer enjoy tu dizes enhoi e ela enhoi sim, estou a dizer o jotas eu
Não, não, mas não, tipo, não se ouve bem o Jota, olha como eu digo, enjoy. Tu dizes enjoy, e ela, enjoy, sim, está bem. E eu, pá, não estás a perceber.
Tu não estás a dizer o J, compreendes isso, a letra, tu não estás a dizer. E ela, não, não, estou sim, enhoi. E pá, e é, o que é que tu estás à espera que eu te diga? Tu não estás a falar bem, e está tudo bem, não há problema, é engraçado, é divertido, mas aceita. Aceita só que estás errado. E ela, não, não, enhoi, estou a dizer bem, é assim que se diz. E eu, não, não é.
Não é. Se calhar na Colômbia é assim que se diz. Se calhar nos outros países. Mas não está certo. O J lê-se Enjoy. Ok? E ela... Mas eu estou a dizer isso. Enjoy. Pronto. Ok. Caga. E fui à casa bem. Ela parecia mesmo bacana e irritou-me imenso. Não sei porquê, pá. É mania. É mesmo inervante. Estás a dizer mal. Aceita que estás a dizer mal. E segue em frente.
É o que é. Malta, muito obrigado por ouvirem. Muito obrigado por continuarem desse lado. E até um próximo. Isto é material.