#EP20: Literacia digital, plataformas e democracia: os desafios da comunicação
No #EP20 do ComuniconCast, exploramos as transformações profundas no ecossistema midiático e os desafios da comunicação em tempos de inteligência artificial, desinformação e crise das democracias.
Neste episódio, recebemos as pesquisadoras Egle Müller Spinelli, professora no PPGCOM ESPM e Daniela Oswald Ramos, professora da ECA-USP para uma conversa sobre uma parceria científica que já soma 18 anos. Elas discutem como o foco da pesquisa em comunicação se deslocou dos produtos midiáticos para os complexos ecossistemas digitais na era da IA.
Refletimos sobre o papel da literacia digital na construção de repertórios críticos entre jovens, os limites da liberdade de expressão em ambientes automatizados e as revelações de pesquisas recentes sobre a transformação da esfera pública nas eleições. A conversa detalha, ainda, os bastidores metodológicos, da análise qualitativa ao uso de dados, fundamentais para compreender fenômenos como a violência discursiva e o engajamento político nas plataformas.
Ouça e participe desta reflexão fundamental dos novos desafios da comunicação em tempos de inteligência artificial, o combate à desinformação e os impactos da tecnologia na crise da democracia.
Cássio Martinez
Cissa Matos
Egli Müller Spinelli
- Comunicação CientíficaEvolução da pesquisa em comunicação digital · Convergência de mídias e jornalismo multimídia · Algoritimização do consumo de conteúdo
- Inteligência artificial e desinformação políticaConfiguração do ecossistema midiático com plataformização e IA · Esfera pública programável e automatizada · Impacto da IA na agência humana e na tomada de decisões
- O papel da comunicação e do jornalismo na sociedadePesquisa em comunicação como prática democrática · Contribuição para políticas públicas de educação midiática · Tensionamento de sistemas complexos pela academia
- Comunicação DigitalCombinação de análises qualitativas e mineração de dados · Desafios na coleta de dados em plataformas · Uso de ferramentas como Gefai e NetVis · Adaptação de metodologias à realidade do Sul Global
- Manipulação Política e Marketing EleitoralTransformação da esfera pública em ambiente mediatizado · Uso de affordances por candidatos como Pablo Marçal · Interação entre plataformas digitais e televisão
- Viés algorítmico e problemas éticos da IAEstudos culturais e a análise de algoritmos · Códigos dominantes, negociados e oposicionais · Percepção de affordances e governança de plataformas
Eu acredito que todas as pesquisas na área de comunicação e consumo, a gente está também olhando para um recorte. No final, a gente vai estar olhando competências. Por que eu estou fazendo essa pesquisa? Qual é a contribuição dessa pesquisa? E muitas vezes a contribuição é essa. A gente tem um entendimento melhor dos processos de produção e de recepção. E muitas vezes a gente contribui no final com...
a entrega de algumas literacias, vamos dizer assim, que vai servir de alguma maneira para educar, em algum sentido, dentro da área da comunicação.
Olá, eu sou o Cássio Martinez e você está ouvindo o Comunicomcast, o podcast do PPG com ESPM. No episódio de hoje, vamos refletir sobre o consumo de mídia e sobre os desafios da comunicação na era da IA, da desinformação e da crise da democracia.
Olá, eu sou a Cissa Matos e para essa nossa conversa reunimos duas pesquisadoras que nos ajudam a entender bem esse cenário contemporâneo. Egli Miller Spinelli, professora titular do PPG com o SPM e docente do curso de jornalismo aqui da SPM, doutora em ciências da comunicação pela ECA USP, mestre em multimeios pela Unicamp, e ainda seja feito em variante. Existem variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes variantes
É líder do Grupo de Pesquisa Comunicação, Literacia Digital e Consumo, o CLIC, e coordenadora da Cátedra Maria Aparecida Bacega. Egli é integrante do Grupo Com Mais, sobre inovação e tendências na comunicação digital, e do Grupo Jornalismo Popular e Alternativo.
Ambos da ECAUSB. É membro da rede Alphamed, que é a rede interuniversitária euroamericana de investigação sobre competências midiáticas para a cidadania e está hoje aqui com a gente para esse bate-papo.
acompanhando a professora Egli, Daniela Oswald Ramos, doutora e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA USP, professora de Novas Tecnologias da Comunicação na Sociedade Contemporânea e de Teorias da Comunicação no curso de Educomunicação da ECA USP.
É coordenadora do grupo de pesquisa OBCOM, Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura. É colaboradora do Núcleo de Estudos da Violência. Vice-coordenadora do GT, Comunicação, Mídias e Liberdade de Expressão do Intercom.
e pesquisadora das relações entre plataformas, violência e democracia. Professora Daniela, professora Egli, muito obrigada por fazer parte desse espaço com a gente hoje. Vai ser um prazer recebê-las. Bom, vou começar nossas perguntas direcionando para a nossa convidada, professora Daniela, que tem, obviamente, uma relação muito próxima com a professora Egli.
Ao longo desses 18 anos de parceria científica, vocês acompanharam transformações profundas no campo da comunicação, especialmente no que diz respeito ao ambiente digital. Como essa colaboração entre vocês começou e de que forma foi se estruturando teoricamente dentro do campo e não apenas como resposta a fenômenos tecnológicos e emergentes?
Obrigada pelo convite, Cássio e Cissa e Egli também. Bom, nossa parceria começou quando nós duas éramos docentes em outras universidades.
e ambas no campo do jornalismo. E a Egli sempre trabalhou com questões da televisão e eu com a internet, que naquela época, anos 90 ainda, era relativamente um fenômeno ainda a ser absorvido no campo do jornalismo. E nós duas nos preocupamos, no primeiro momento, com as questões convergentes. Então, acho que a nossa parceria tem muito...
dessa questão de entender um pouco os fenômenos da comunicação digital e do jornalismo mais premenientes de uma época e tentar mapear e entendê-los. Então, começou com a questão da reportagem multimídia que, obviamente, congregava as questões do campo da televisão e do campo da internet em geral e da multimídia. Então, a gente começa...
nesse sentido, teoricamente, trabalhando as questões de convergência de mídias. É isso mesmo. Eu acredito que nesses quase 20 anos de parceria de pesquisa, a estruturação teórica do campo teve que acompanhar as transformações dos processos comunicacionais. Principalmente com os avanços tecnológicos, as pesquisas precisaram avançar na compreensão de um novo campo de estudo.
pautado na comunicação digital e nos últimos anos na comunicação também permeada pelas plataformas digitais.
Então, de um campo de estudos que olhava para a comunicação como via de mão única dos produtores para os receptores, nós passamos a observar um campo de estudos influenciados pela convergência dos meios e também, especialmente, pela interação que foi ganhando protagonismo de muitos agentes que acabam tendo acesso à produção e distribuição de conteúdo.
E isso fez com que qualquer pessoa pudesse hoje ser mídia e ter visibilidade e influência nas plataformas digitais. Então, isso tudo, a gente foi observando nas nossas pesquisas, que faz com que os estudos de comunicação precisem avançar em pesquisas com novos objetos de estudo, o que passa a ser bastante desafiador para as nossas pesquisas.
Eu gostaria de agregar também que, ao longo desses 18 anos, a internet foi se modificando no sentido que... É claro que os algoritmos sempre estiveram presentes no computador e na internet, mas a gente presenciou um fenômeno...
de uma algoritimização do consumo do conteúdo, né? E nosso olhar precisou se desenvolver no sentido de entender como que a gente compreendia esse consumo que está aí, vai ser interligado com a produção, porque a algoritimização vai trazer ciclos, né?
vai trazer uma necessidade de a gente mapear algo não só de uma ponta, mas como as duas pontas se interrelacionam, né? A produção, o consumo e a circulação em si, né? Baseada num cálculo, né? Então, no sentido que em 2000 e...
2006, 2007, a gente não tinha feed ainda, né? Só... E aí depois a gente começa com... Não tinha scroll infinito, né? Não tinha... Nesse sentido do algoritmo ele ser, por excelência, ali, a mediação, né? Que sempre foi, mas não nesse sentido da automatização maior e que agora a gente vê indo para um outro lado ainda.
Perfeito, gente. Vocês falaram sobre essa internet dos anos de 2006, assim, eu lembro, eu era um pouco mais jovem nessa época, mas eu lembro que era uma internet muito diferente, né? Era um modelo de, enfim, de acesso e um modelo de consumo muito diferente, assim, principalmente dos ambientes digitais. Bateu até uma saudade aqui.
Ao revisitar os trabalhos apresentados no início da parceria de vocês, sobre linguagens digitais, formatos jornalísticos, qualidade da informação, é possível perceber uma preocupação com a circulação midiática como objeto central da comunicação.
Vocês diriam que a análise dos processos de produção, circulação e consumo é a espinha dorsal que sustenta essa parceria de longa data? Sem dúvida, Cissa. Eu acho que nossas pesquisas sempre tiveram uma preocupação com a circulação midiática. Ora, olhando para a produção de sentidos...
Ora, olhando também para as práticas e sociabilidades relacionadas aos processos de produção e também de recepção.
Então, mais recentemente, as minhas pesquisas aqui no PPGcom da SPM estão situadas no campo dos estudos da recepção. Mesmo a gente não tendo como separar a recepção da produção, muitas vezes a gente precisa também escolher, porque olhar para os dois campos, por exemplo, quando a gente orienta projetos de pesquisa,
é algo que vai tornar a pesquisa muito ampla, principalmente quando a gente está olhando e orientando projetos de mestrado e de doutorado. Então, é claro que as minhas pesquisas vão no sentido de entender determinados grupos sociais, como determinados grupos sociais produzem sentido.
E aí, a gente muitas vezes escolhe mais trabalhar dentro do campo da recepção. Como essas pessoas, como esses receptores, esses agentes que recebem e consomem, vamos dizer assim, determinado tipo de conteúdo, entender esses processos mesmo de produção de sentido, muitas vezes também entender estruturas de poder relacionadas a essa produção de sentido.
Então, muitas vezes nas nossas pesquisas a gente precisa delimitar qual é o campo que a gente vai olhar. Mas não é porque a gente está delimitando o campo que a gente também muitas vezes não vai para o outro campo. Não é porque a gente está...
olhando só para o campo da recepção, que a gente também muitas vezes não precisa olhar para como está sendo produzido isso também. Porque quando a gente fala que a gente está tendo essa preocupação com a circulação midiática, ora a gente está de um lado, ora a gente está do outro. Então, eu acredito que...
os dois campos se complementam de alguma forma, mas muitas vezes a gente precisa se ater mais a um do que a outro para que a gente consiga também focalizar o nosso objeto de estudo.
Sim, eu diria que com certeza é essa espinha dorsal, né? Que a gente, num primeiro momento, passou a colaborar sem essa reflexão, né? Mas mais por uma proximidade teórica, divisão.
de mundo, entre outros fatores, né, que éramos colegas, mas sem dúvida, eu acho que essa, como a Egli explica, né, que às vezes focaliza em um polo e em um outro, acho que parte da visão, uma visão que eu venho desenvolvendo
Pouco tempo, relativamente, né? Mas diria que aí uns três... Há uns cinco, seis anos, né? Também na disciplina de pós, lá no PPGcom. Eu tinha uma disciplina sozinha, né? Agora eu colaboro com outros professores também. Mas a disciplina de número e algoritmo, né? Que foi a...
Acho que a primeira do MPGcom lá da ECA a usar algoritmo no título, em 2018. Mas entendendo que produção, circulação e consumo constituem um sistema. E aí, do ponto de vista do sistema, a gente sempre vai ter...
esses polos integrados, né? E se a gente pensa na internet como uma máquina cibernética e que essa máquina cibernética, ela vai formar sistemas com outros sistemas fora da internet, né?
por exemplo, com a produção jornalística, com a produção publicitária, com fenômenos e expressões culturais, a gente vai ter, então, sempre um sistema que se forma, então, de input de dados, de circulação desses dados, de output que volta num ciclo. Então, eu costumo usar, às vezes, uma analogia que...
É como se fosse um laboratório e um microscópio. Você vai ter que cortar, fazer lâminas do inseto que você vai estudar para entender melhor como ele funciona no todo. Então, às vezes, a gente faz esse recorte, né? Precisa fazer esse recorte num pólo e no outro para...
conseguir e às vezes conseguir estudar o fenômeno, né? Ou às vezes dar um zoom out, né? Ver o todo pra tentar mapear isso, né?
Então, eu acho que é por aí nesse sentido da análise. E também queria ressaltar essa questão do gancho, do algoritmo, que é, nesses anos, a gente perceber, e aí eu trabalhando com isso lá no PPGcom também, sobre um...
movimento mais específico do algoritmo em relação às mídias anteriores, que é a sua recursividade. Ou seja, os sistemas baseados na internet, eles terão a mediação do algoritmo e essa mediação ela vai sempre voltar para si mesma.
No sentido que o algoritmo sempre tem que voltar os seus cálculos para resolver o problema de input de informação e devolver isso para o usuário. Então, a gente vai mapear os fenômenos de bolhas, enfim, fenômenos novos que surgem, mas desse movimento da recursividade, que é quem sistematiza isso e...
não diria que sistematiza mas que coloca de uma forma teórica filosófica é o Yuki Hui que eu não sei se estou pronunciando da forma certa que
enfim, né, que é um filósofo chinês bom, então eu diria que é por aí muito interessante, Daniela inclusive eu curiosamente acabei de ler o livro do Yuqi Hui, o Tecnodiversidade e achei muito bom e aí na sua fala eu acho que tem vários pontos que se conectam com essa obra principalmente do ponto de vista de pensar uma pluralidade de tecnologias e afins e aí
E aí, pensando um pouco nesse processo que vocês já estão abrindo aqui dessa parceria, eu vou para a nossa terceira pergunta. No percurso que vai dos estudos sobre formatos digitais e sustentabilidade do jornalismo até pesquisas sobre desinformação, violência e normatividade algorítmica, há um deslocamento importante do foco dos produtos midiáticos para o foco dos ecossistemas comunicacionais.
Como vocês interpretam esse deslocamento dentro do campo da comunicação?
Bom, eu posso dizer que com o avanço das tecnologias digitais, o olhar para os processos interacionais ganha força em nossas pesquisas. E observar a comunicação passa a ser investigar ou recortar objetos de estudos, como a Dani disse, olhar as lâminas, gostei disso, e que normalmente se enquadra dentro de um sistema de relações comunicacionais.
Então, quando falamos em ecossistema comunicacional, partimos da premissa da existência de uma ecologia das mídias, que ocorre dentro de sistemas que são definidos conforme objetos de estudo ao qual nos debruçamos. Então, por exemplo, eu oriento pesquisas que olham para o sistema das plataformas de investimento.
Estou aqui com o Cássio, que é o meu orientando, e o Cássio faz esse recorte da pesquisa dele olhando para esse consumo nas plataformas de investimento. E também eu tenho outros orientandos que vão estudar, por exemplo, com o ecossistema das BETs.
outros para o ecossistema da desinformação climática. Então, as pesquisas em comunicação podem ser enquadradas em sistemas, permeados por uma pluralidade de mídias que influenciam a produção de sentido e intensificam relações de poder. Então, a compreensão e entendimento desses processos implica em delinear literacias digitais e midiáticas que possam colaborar com o entendimento de determinados sistemas comunicacionais.
para que possamos atuar como cidadãos críticos. A gente tem muito essa preocupação também, com esse olhar de realmente desenvolver mesmo, como a gente pode desenvolver uma consciência mais crítica e reflexiva através dos resultados das nossas pesquisas.
e para isso a gente passa a conhecer também os nossos próprios direitos e deveres como cidadãos, pensando principalmente para o bem comum da sociedade. Eu acho que as pesquisas, muitas vezes a gente precisa sair das paredes dos muros da academia.
para que a gente possa também olhar para o que está acontecendo no além academia e para esse olhar para a sociedade e tentando também levar contribuições mais concretas mesmo, para que a gente possa também, de alguma maneira, fomentar políticas públicas para determinados setores.
Sim, justamente quando a gente fala em ecossistema, a gente está pensando em sistemas que formam uma ecologia. Então, a gente passa nessa trajetória de colaboração.
de um momento do estudo dos formatos digitais, que é mais uma expressão de um sistema jornalístico de uma determinada época, que continua se desenvolvendo até hoje, mas que outros fenômenos, a partir desse sistema, vão tomando outra dimensão.
Por exemplo, nesse ecossistema de produção jornalística, por exemplo, eu fui também para o lado de entender como a segurança dos jornalistas começou e continua sendo ameaçada nesse novo ecossistema midiático, por exemplo. Então, e aí lembrando que...
Sistemas, eles podem ser orgânicos e inorgânicos, no sentido de... A gente forma sistema com máquinas, no nosso caso. E no caso da comunicação, isso está bastante já desenvolvido, enfim.
faz parte de muitas pesquisas, mas que também a célula no corpo, ela também forma sistema com o nosso organismo, né? Nesse sentido que é... Ou seja, sistemas são composições complexas.
da gente mapear e entender. E aí, mesmo assim, a gente vai entender aquele fenômeno naquele determinado recorte, naquele período, mas que, como a Egli falou, vai contribuindo a formar uma visão, a completar visões.
que possam nos dar mais conta de entender um fenômeno maior. Tem essa característica do nosso campo, que é um campo sempre em movimento. Cada dia a gente acorda e tem um fenômeno novo acontecendo.
novas ferramentas, é quase impossível de mapear essa velocidade, né? Então, acho que esse olhar da gente entender, né, como que se forma esses sistemas e como que eles interagem entre si, nos dá princípios para entender o todo e aí agir, né? Agir na...
na experiência, então a questão da literacia, né? E eu diria até literacia de todos os tipos, acho que em todos os campos cada vez mais, que no final vai ser uma educação para a produção e o consumo da comunicação.
Ouvindo vocês falarem agora sobre o campo da comunicação, enfim, um pouco da história de vocês, me lembro eu lá na década de 90, vivendo o mercado, essas transformações todas, né? Falamos aqui de convergência, de multimídia. Eu vivi tudo isso no mercado publicitário.
E agora eu me sinto tão privilegiada de estar com uma lente acadêmica, porque eu acho que é muito isso que você falou, Egli, a contribuição, né? De que forma que a gente pode, um, entender. Entender todas essas transformações, esses sistemas complexos.
Na minha opinião, quando atravessadas pela tecnologia, a coisa fica um pouco mais complicada. E de que forma realmente a gente pode ter essa missão, com toda a humildade, de educar um pouco?
tentar chegar aí a uma contribuição efetiva para a sociedade, contribuir mesmo para o futuro, né? É isso, muito legal, muito bacana. E pegando um gancho, se isso é nisso que você está falando, eu acho que esse também é um pouco do papel da academia, né?
tensionar esses sistemas complexos, entender ou desvelar de fato o que está sendo proposto ali enquanto assujeitamento dos indivíduos, como os próprios algoritmos, que é um ponto que a gente falou bastante aqui.
Como, de certa forma, a gente compreende esses funcionamentos e o que, de fato, a gente precisa estar por dentro, enquanto sociedade, para que a gente tenha algum mínimo de literacia, para que a gente possa navegar por esses espaços. Eu acho que isso é bastante importante.
E agora a gente está chegando aqui no nosso ponto, talvez um dos pontos mais importantes do podcast, talvez um dos motivos pelos quais a gente decidiu fazer esse programa aqui, que é as nossas conversas sobre metodologia. Talvez quem esteja nos ouvindo ache isso um pouco repetido, mas para a gente é sempre muito importante e acredito que para os alunos que acabam acompanhando o podcast também, porque é um momento de a gente conseguir ver na prática.
porque é um momento, de certa forma, de a gente conseguir ver, a partir do que vocês relatam sobre essas metodologias, como foram as dificuldades para promover certas pesquisas.
E aí, entrando uma pergunta que eu vou fazer, claro, para ambas aqui, vocês podem ficar muito à vontade para responder, pensando um pouco nessas características das metodologias que vocês desenvolvem, elas têm algumas questões marcantes dessa trajetória de parceria, que é uma construção da abordagem metodológica com a combinação, muitas vezes, de análises qualitativas, mineração de dados, uso de bases externas com banco de dados, de imprensa.
e ferramentas como Gefai, NetVis, como essa articulação metodológica contribui para a consolidação de um olhar comunicacional sobre os fenômenos digitais? Essas pesquisas exigiram trabalhar com abordagens metodológicas para olhar para uma grande quantidade de dados.
Isso realmente é um desafio, porque na grande maioria das vezes foi necessário compreender a utilização de ferramentas e recursos que pudessem captar e organizar essa grande quantidade, esse volume enorme de dados que quando a gente vai...
pesquisar mesmo dentro das plataformas, vamos dizer assim, como olhar para dentro das plataformas. Isso é muito desafiador, principalmente porque com o passar dos tempos as plataformas elas foram também vamos dizer assim, fechando, delimitando.
proibindo mesmo que a gente conseguisse entrar dentro dos dados que são gerados ali dentro das plataformas digitais. Então, muitas vezes, a gente teve até que construir ferramentas que pudessem organizar e disponibilizar esses dados de uma maneira estruturada, em uma interface principalmente interativa.
Então, teve alguns projetos, eu acho que a Daniela foi a mais precursora nesse sentido, né? De tentar entrar em contato com equipes multidisciplinares, ir atrás de designers, de programadores.
que pudessem ali também construir uma interface interativa com esses dados que foram coletados, estruturados e tratados, para que as pessoas pudessem, dentro de uma interface construída,
acessar esses dados e ter um conhecimento maior de determinado tema, como foi, por exemplo, no caso das pesquisas sobre violência contra jornalistas, que foi um projeto desenvolvido em parceria com a Dani, principalmente junto ao NEV, que é o Núcleo de Estudos e Violência que a Daniela participa.
Sim, isso foi ficando cada vez mais complexo também ao longo dessas décadas, porque a gente presenciou, justamente a gente presenciou a modificação de uma internet mais baseada da necessidade de uma agência.
do indivíduo sobre a sua navegação. Então, eu decido ir para esse site porque eu cliquei nesse link para uma internet no qual ele fica dentro de um ambiente plataformizado, aí entra o conceito da plataforma, né? Que, enfim, tem os seus significados próprios, né? A plataforma é um lugar maior para você falar, né? Mas com alcance limitado.
ali dentro, né? Enfim, então, essa mudança de uma necessidade de uma agência maior sobre a navegação para um ambiente no qual os links são sugeridos nesse feed, né? E aí você delega, digamos, né? Essa navegação mais para o ambiente em si do que para o próprio indivíduo.
E essas plataformas foram no início, então essa mudança nós presenciamos e depois a mudança de para onde esses dados de navegação estão indo. A mudança qual? Que no início de Facebook e Twitter...
a gente tinha os APIs abertos, né? Justamente essa interface de programação que um programador poderia entrar e retirar alguns dados dali. E isso foi sendo fechado ao longo dos tempos até...
hoje que nós praticamente não temos APIs abertas, enfim, no que era Twitter e se transformou em X, no próprio Facebook, no Instagram, TikTok, enfim, então o nosso olhar teve que começar a mudar e a gente acho que sempre teve um olhar de ir para o empírico, né, em primeiro lugar.
Entender a empiria daquele fenômeno e a necessidade de uma curva de aprendizado que a gente teve também. A gente fez cursos juntas, inclusive, para entender como extrair dados, como fazer grafos. Até para chegar num...
momento agora, recente por exemplo, desse projeto com Neve nós trabalhamos numa equipe multidisciplinar no monitoramento digital das eleições de 2024 com o Núcleo de Estudos da Violência e com o CMAI, que é o Centro de Estudos de Matemática Aplicada de São Carlos da USP de São Carlos também ou seja, com uma equipe de matemáticos também né
que ainda, aqueles dados de 2024 ainda estão sendo trabalhados, porque a gente, então...
nesse projeto, contrata um serviço de monitoramento digital de um software que tem uma marca, enfim, que é proprietário, então a gente passa por um período em que você tem poucos dados disponíveis para mesmo quem domina essa proficiência de programação, extraí-los das plataformas para um momento no qual a gente precisa pagar para...
software, mas que não exclui que os dados coletados desse software passem por outros processos aí de tratamento estatístico, matemático, para correlacioná-lo com, por exemplo, uma pergunta que não seremos nós que vamos responder, mas que está posta aí, que é o quanto o sucesso de um determinado candidato nas redes sociais, nas plataformas, se traduz em voto.
em alguns momentos sim, em alguns momentos não como. E essa equipe, então, com sociólogos, com antropólogos...
Nós, a comunicação, não só nós, mas também outros colegas da Escola de Comunicações e Artes, enfim. Então, realmente, eu acho que essa questão metodológica, né? De quais dados extrair, depende da pergunta de pesquisa que você tem. Da onde extrair, depende da pergunta que você tem.
Uma coisa são as plataformas em geral, outra coisa é o TikTok em si, o Instagram em si, enfim. E outra coisa ainda é como elas se relacionam, como esse ecossistema...
Como é a circulação de um para o outro, um corte, uma live de três horas gera cortes para uma outra plataforma.
ou até mesmo no caso das eleições, que a gente conseguiu ver a interação entre a televisão e as plataformas. E, bom, nessa pesquisa, como a Egli mencionou...
A gente conseguiu ver especificamente no caso da campanha digital do Pablo Marçal como a interação dele nos debates da televisão servia para gerar corte, para circulação no TikTok e no Instagram.
na cobertura das mídias de legado, ou seja, o termo que a gente usa no monitoramento das mídias que já existiam antes da internet. Então, a Folha de São Paulo...
por exemplo, né? E também das nativas digitais como Metrópolis. E daí a gente viu que, ao mesmo tempo que a cobertura dos fatos que ele gerava nos debates, que todo mundo vai se lembrar, abre parênteses cadeirada, é... Eeeeee... Eeeeee...
As mídias jornalísticas não podiam se furtar de cobrir esse fato, ao mesmo tempo que elas cobriam esse fato e tinham audiência e circulação nas plataformas, elas eram atacadas por cobrir esse mesmo fato.
Então, a gente conseguiu aí ver um ciclo de produção e consumo bem específico. É uma loucura, realmente é. E aí, eu pego o gancho de tudo isso que vocês estão falando o tempo todo, né? E voltando à importância da literacia digital cada vez mais.
No campo, justamente, da literacia digital, a gente percebe que é um desafio de transformar competências midiáticas, que são conceituais, simbólicas.
em categorias empiricamente analisáveis. Como vocês pensam que é possível desenvolver metodologias que deem conta da dimensão comunicacional?
justamente dessas competências. Egli. Mais uma vez, a gente fala desse recorte. A gente vai conseguir identificar dimensões de competências conforme as pesquisas que a gente delimita em fazer. A gente pode dizer assim que, quando falamos de alfabetização midiática,
em que olhamos, por exemplo, para a questão de acesso, avaliação e produção midiática e digital, a gente tem ali determinadas competências específicas. Mas, mais uma vez, conforme as pesquisas que desenvolvemos e objetos de estudo que delimitamos, o estudo permite decifrarmos...
dimensões de competências específicas. Por exemplo, pesquisas que envolvem competências para o consumo de conteúdo político por jovens, competências para a literacia de alfabetização para a inteligência artificial, que pode ser tanto no ambiente de trabalho como no ambiente de estudos. Então, as metodologias acabam sendo deliberadas conforme o desenho da pesquisa.
que desenvolvemos no nosso grupo, principalmente, com a Daniela, que a gente tem várias pesquisas, quando a gente começa a recortar qual ecossistema a gente vai olhar, como que a gente vai olhar, como a gente vai conseguir, o que ela falou que é muito interessante, muitas vezes, essa pesquisa exploratória inicial da empiria.
muitas vezes vai direcionar o nosso desenho metodológico. Então, é muito interessante a gente ver isso também. No meu grupo de pesquisa, no CLIC, que é o Comunicação, Literacias e Consumo aqui da SPM, a gente também vai olhando isso. Muitas vezes parece que a gente está fazendo pesquisas que não dialogam uma com a outra, porque cada um vai trabalhar um ecossistema específico.
mas eu vejo a pesquisa cada vez dessa maneira plural mesmo. A gente tem como foco pensar muito nessa questão da educação para a mídia. Então, eu acredito que todas as pesquisas na área de comunicação e consumo, de comunicação, de uma maneira geral, e quando a gente recorta o campo da comunicação e consumo...
a gente está também olhando para um recorte que a gente precisa... No final, a gente vai estar olhando competências. Por que eu estou fazendo essa pesquisa? Qual é a contribuição dessa pesquisa? E muitas vezes a contribuição é essa. A gente tem um entendimento melhor dos processos de produção e de recepção e muitas vezes a gente contribui no final com...
a entrega de algumas literacias, vamos dizer assim, que vai servir de alguma maneira para educar em algum sentido dentro da área da comunicação. Excelente, professora Egli. E você falando sobre essa relação de como a pesquisa também cresce em parceria, eu acho que é algo que...
que é factível mesmo, e aí falando do ponto de vista de um discente, é bem claro esse crescimento da pesquisa em conjunto, seja no grupo de pesquisa, seja muitas vezes escrevendo com um amigo ali, que muitas vezes vai virar um parceiro de pesquisa para outros momentos da vida.
Isso realmente cria um impacto mesmo na nossa capacidade de construir o campo científico junto com os pares. Agora, vou fazer uma pergunta para a Daniela. Daniela, você já falou bastante sobre esse processo da violência, liberdade de expressão em plataformas conectadas com essa ideia do jornalismo?
O que me veio a ideia de pensar que essas pesquisas, elas muitas vezes circulam um processo ali que é um tratamento massivo de dados e ambientes automatizados. Na sua concepção, quais os limites e as possibilidades metodológicas para pesquisa e comunicação conectando esses espaços? Sim.
É interessante, né? Porque eu acho que os limites são muitos, mas as possibilidades também são muitas. Então, eu acho que se trata, em primeiro lugar, de uma delimitação.
E de um controle da ansiedade do pesquisador. Não, porque a gente vê, nossa, esses milhões de dados e eu não consigo chegar neles e como que eu processo, porque para processar realmente uma quantidade de big data, por exemplo, de dados, hoje você precisa de uma LLM, né? Você precisa de desenvolver sistemas específicos de inteligência artificial para tratar milhões de dados. Essas pesquisas existem.
Você precisa de um laboratório de programação para que isso aconteça. Mas elas existem. E há as específicas que vão analisar milhões de shooters, por exemplo, monitorando um ambiente.
Mas tudo vai depender como que uma pessoa, por exemplo, entrando no mestrado, no doutorado, vai dar conta. Ela desse... Então, tudo depende da pergunta.
e de desenhar esses limites e possibilidades, né? Então, o que eu quero dizer com isso? Dependendo da sua disponibilidade também para uma curva de aprendizado, porque tem, a gente está falando de competência midiática, mas tem também aí uma curva de aprendizado para lidar com os dados, né?
E eu queria adicionar aqui uma outra problemática, que são essas ferramentas prontas de monitoramento de perfis ou de palavras-chave que tem no mercado e que são pagas, elas são pensadas com a lógica de mercado, para monitorar marcas. Então, a gente tem que fazer um contorcionismo.
metodológico para adaptá-las às nossas necessidades científicas e acadêmicas, como no caso do monitoramento das eleições. Tem, inclusive, plataformas e serviços que não possibilitam o monitoramento político, porque não querem se comprometer a marca ser associada com um determinado candidato.
Então, olha como vai se somando as dificuldades de acordo com o seu objeto também. Aí, eu queria citar o Richard Rogers, lá da...
que tem um livro já clássico sobre metodologias de pesquisa digital e da necessidade da gente, eu acho que principalmente aqui no Brasil e na América Latina, da gente adaptar...
a metodologia e a extração e tratamento, interpretação de dados de acordo com a nossa realidade, né? De sul global, né? Porque o Richard Rogers, ele tem um material que vai nesse sentido, né? Então, só que como, por exemplo, né? Vou trazer dois exemplos do Obcom que a gente está trabalhando.
atualmente. Um que é um sistema de monitoramento de Google Alerts. Dá para usar o Google Alerts para monitorar palavras-chave? E ela vai nos trazer notícias publicadas na internet, né? Isso é dado?
Como que isso vira dado? Como é que eu avalio esse universo de busca? A gente já está trabalhando aí nesse sentido de delimitar busca, então, por... palavras-chave específicas, de acordo com os nossos contextos de pesquisa lá de liberdade de expressão, censura e liberdade de imprensa, né? Então, isso de um...
De um lado, que é usar uma ferramenta disponível, gratuita, que existe, mas entender os limites e as possibilidades metodológicas dessa ferramenta em específico. E aí a gente pode pensar isso para cada possibilidade que existe de extração e tratamento.
Então, em relação a essa questão dos limites e possibilidades metodológicas, eu queria citar um artigo que a AEG publicamos justamente com esse princípio de mapear a percepção que as pessoas têm das plataformas, que foi um artigo sobre...
Consumo midiático dos jovens no YouTube, né? Que a gente fez um survey para entender se esses jovens tinham uma percepção da algoritimização e qual seria ela, né? Do YouTube, especificamente ali da questão da recomendação. Quanto mais ele... Se ele percebia, quanto mais ele consumia um tipo de conteúdo, esse conteúdo voltava.
E sim, as pessoas pensam sobre o consumo. E aí, claro, o nosso grupo eram os jovens universitários, ou seja, pessoas em início de universidade que tendem também a pensar sobre o seu consumo. Tem esse viés. Mas a gente pensou nessa metodologia justamente para... É...
Olhar por um outro ângulo, por um consumo algorítmico que não chega de forma transparente, mas que sentido as pessoas fazem dele e, na prática, como que elas evitam ou se utilizam dele para o seu consumo. E é interessante, Dani, porque nesse estudo a gente percebeu a existência de uma suposta literacia para as lógicas algorítmicas.
desses jovens. Muitos disseram que sabiam utilizar os algoritmos a seu favor no sentido de interagirem com as plataformas para que ela entregasse suas preferências. Mas questões sensíveis como vigilância, privacidade, segurança de dados e a própria proteção da integridade...
com relação a conteúdos violentos, por exemplo, escapavam de suas percepções. A outra, eu queria citar uma pesquisa de iniciação científica, que faz parte também do que a gente está trabalhando desde o ano passado e esse ano, que é sobre censura algorítmica. Os algoritmos, eles praticam algum tipo de censura ou não? A gente pode chamar isso de censura ou não, né?
E aí a Luísa Alves, que é a iluna de vida de comunicação, que está conosco fazendo essa iniciação científica, ela fez um mapeamento manual no Google sobre pesquisando perfis bloqueados.
e extraiu ali mais de, enfim, mais de 100 inputs, que a gente organiza em uma tabela em Excel, e vai vendo como isso se transforma ao longo do tempo. Então, se você vai buscar retroativamente, pensando que o Google é uma esfera mais ou menos estável, é diferente das plataformas, porque elas são muito dinâmicas. O Google, uma vez publicado uma notícia na internet, o Google vai achá-la de alguma forma.
Então, a gente usou desse mecanismo. E a gente foi vendo que, a partir de 2018, explode o número de casos de perfis bloqueados. E perfis, por exemplo, de pessoas famosas, de algum aspecto das suas vidas pessoais. Então, é curioso entender como e por que vai ser difícil porque as plataformas não te dão uma...
um parecer específico sobre porquê. Ela só fala que há políticas... Uma justificativa, não clara. Isso, mas políticas da comunidade, ferir os nossos princípios, mas qual especificamente e porquê, não se sabe. Existem várias possibilidades.
inclusive a possibilidade de combinação de uma pesquisa mais manual com um tratamento mais automatizado. E aí eu acho que isso depende, não tem uma solução... Vai depender da pesquisa.
Dani, muito interessante esse seu relato sobre as pesquisas. Eu acho que dentro do campo da comunicação a gente realmente tem muitas possibilidades, mas delimitar o objeto muitas vezes é uma dor para o pesquisador fazer esse processo. Bom, agora a gente vai falar um pouco sobre plataformas de desinformação e também sobre a inteligência artificial.
O conceito de ecossistema midiático aparece com força na trajetória de vocês, nas pesquisas. Como ele se configura diante da plataformização e da incorporação de inteligência artificial na produção e circulação de conteúdos?
Então, mais uma vez, depende do sistema que delimitamos na pesquisa a ser observado. Ao olhar para o terreno das plataformas, o ecossistema é bastante complexo, principalmente se tratando dos algoritmos, que são estruturas construídas dentro de um espaço opaco e simbólico, onde, conforme o nosso repertório referencial contextual, conseguimos perceber suas lógicas e intencionalidades.
O mesmo ocorre com a inteligência artificial, onde a todo momento precisamos reelaborar perguntas para compreender se a troca com o sistema está sendo saudável e referenciada, com fontes fidedignas que conduzem a construção de um contexto condizente com os rastros de referências confiáveis.
a plataformização reconfigura o ecossistema midiático na medida que oferece um ambiente mediado numericamente. Então, ela vai...
Agir no sentido da interação com uma sociedade que a gente está vendo agora, com resultados em desenvolvimento ainda, a gente não sabe onde e como isso vai, e ainda mais com...
a integração da inteligência artificial com esses ambientes, ou seja, cognições tomadoras de decisão, orientadoras de raciocínio. Eu gosto muito de pensar no sentido que a Letícia Cesarino, autora,
do Mundo do Avesso, um livro que eu acho bem interessante sobre entender a internet como um sistema cibernético, quando ela fala que o ambiente dos algoritmos somos nós, eles querem nos influenciar. Então, nós influenciamos pouco esse ambiente, é ele que nos influencia, né? E, inclusive, influenciando a nossa forma de pensar.
Então, acho que isso que é, não só a forma de pensar, mas o nosso gosto. Então, por exemplo, delego para o Spotify o meu gosto musical.
Eu estou delegando, em última instância, para a plataforma, em última instância, para o cálculo que ela faz para o meu gosto. Então, ela está fazendo um cálculo para o que eu gosto. E me mostrando nada do que eu não gosto, mas que talvez eu possa vir a gostar. Só para fazer uma analogia que é mais ou menos...
complexa também, mas que vai ficando mais complexa quando a gente vai falando de sistemas políticos, de decisões que vão afetar a vida de milhares de pessoas, a médio, curto e longo prazo, que não só de pessoas, como do planeta, né? Que vai aí, bom, enfim, emergência climática e tudo isso. Que tá tudo interligado, né? Enfim.
Então, a incorporação da inteligência artificial na produção e circulação de conteúdos vai complexificar essa agência humana, eu diria.
É super interessante, principalmente porque dentro dessa dinâmica das plataformas, e aí, assim, de certa forma, mais recentemente, a gente tem essa introdução da inteligência artificial na vida social das pessoas no dia a dia, no cotidiano.
E a gente começa a se deparar realmente com, às vezes, uma ausência de crítica para o uso dessas ferramentas, o que acaba esbarrando em criações de novos conceitos que, às vezes, nem existem, de autores que não escreveram determinados materiais. Bom, Daniela, e nos estudos recentes sobre affordances?
engajamento político, campanhas eleitorais, especialmente no caso das eleições municipais de 2024, o que a pesquisa revela sobre a transformação da esfera pública em um ambiente mediatizado e automatizado?
Conta um pouquinho pra gente aí desse cenário, né? Vocês já até falaram um pouco aí da questão, Pablo Marçal e etc. Sim. Então, no próprio conceito, né, de...
sistema, a gente vê eu lembro que a palavra Fordance eu vi pela primeira vez lá em 2000, início dos anos 2000, né e essa palavra, esse conceito na verdade ele vem da área da psicologia
E também foi trabalhada pelo antropólogo, pelo Baitenson, que é um sistematizador aí da cibernética, cibernética humana, não só das máquinas, né? E que faz parte dessa reunião de conceitos da cibernética, então, né? Que é entender...
que tipo de comportamento aquele sistema favorece. Então, que tipo de interação aquele sistema que forma um ambiente favorece. Então, por exemplo, se a gente pensa um exemplo bem clássico que aparece em vários textos,
é que os peixes formam um sistema com a água, certo? E aí, isso ali vai... Por exemplo, eles vão incidir na...
em ecossistemas de corais e por aí vai. Então, mas qual que é a fórtese desse sistema para o peixe? A água forma esse sistema. Então, para o peixe, essa fórtese é nadar, porque ele consegue nadar naquele ambiente. Já para o ser humano, não. Seria um outro. Então, também vai depender da gente entender e...
E aí, então, a questão da affordance, engajamento político e campanhas eleitorais, entender que tipo de affordances as plataformas, em geral e especificamente, o que a gente mapeou lá em 2024, que foi TikTok, Instagram e Facebook, lembrando que o X estava fora do ar naquele tempo, naquela época, naquele mês, lá por determinação do STF, do Supremo Tribunal Federal.
E o que a gente viu ali, então? O que o sistema favorecia de interação?
era para conteúdos de corte, conteúdos polêmicos. A gente viu emergir naquele período ali o fenômeno que já estava há um tempo na internet, que já dominava todo esse sistema e esse ambiente, que foi o Pablo Marçal que a gente está falando até hoje. Por quê?
É um case que acho que todo mundo esse ano está esperando. Será que vai surgir um Pablo Marçal nas eleições presidenciais? Que é isso, que soube usar essas affordances a seu favor. E mais do que isso, as affordances do sistema, das plataformas, em interação com a televisão.
e ele soube fazer esses sistemas se comunicarem. E aí a gente está falando, então, na transformação de uma esfera pública, lembrando que o Abermans acabou de falecer com 96 anos, que nos deixou esse legado de uma esfera pública ideal. Mas a esfera pública, então, o que seria essa esfera pública em um ambiente mediatizado e automatizado, é uma esfera pública programável.
Não é uma esfera pública na qual o debate sobre a plataforma política, e lembrando que tem o mesmo nome, plataforma política, quando um candidato vai lançar a sua candidatura.
A gente não vê as plataformas privilegiando discussões com base em argumentos, como o Abermans discutia, então, para a esfera pública, com base em argumentos, em decisões racionais, respeito pelo ponto de vista do outro e incorporação desses argumentos para o...
para um desejável desenvolvimento de uma discussão que leve a um consenso, não a um dissenso. Então, como, apesar dos pontos de vista diferentes, podemos conversar com base na racionalidade, com argumentos, em fatos, para chegar a um...
uma visão comum. A gente não vê isso acontecendo, pelo contrário, a gente vê o que se denominou chamado de polarização. E que a gente pode até pensar que a polarização é uma expressão de um zero e um também. É uma expressão cultural de... de um...
Não só, mas que faz parte. Acho que as plataformas não são em si responsáveis por um determinado fenômeno, mas elas fazem parte dessa fabricação, digamos. Então, o que a gente viu é uma esfera pública que é programável, que...
se mostra programável por privilegiar certos interações, certo tipo de interação, ou seja, certas affordances. E é interessante, né, Dani, lembrando aqui, que a gente também utilizou nesse estudo o conceito de esfera pública automatizada, que é o conceito, esse conceito é desenvolvido por um autor chamado Frank Pasquale.
E ele vai sintetizar um pouco isso que a Daniela falou, né? Que a gente tem uma esfera pública que ela é dada por uma seleção algorítmica. Então, isso também tem a ver com o impacto que causa na própria agenda pública e também na própria democracia.
Então, a gente também tem a questão do próprio modelo de negócio das plataformas. O modelo de negócio das plataformas faz com que determinados conteúdos sejam privilegiados. E aí surge esse conceito do Pasquale da esfera pública automatizada, que é algo...
indicado, né? A gente consome, a gente tá a todo momento em contato com pautas que são indicadas pela seleção algorítmica. Isso causa aí um problema sério, né?
do que está formando a nossa opinião pública. Perfeito, gente. E esse exemplo que a Daniela deu sobre os peixes, eu acho que ele tem muita conexão com o que a gente está vivendo, do ponto de vista de tentar tatear mesmo esse processo de construção das affordances nos ambientes digitais. É quase como uma linguagem.
ver pessoas como o Pablo Marçal talvez sendo mais práticos nessa linguagem, como se de fato ele fosse um peixe nesse novo oceano e ele nada melhor que as outras pessoas. É curioso perceber isso. Bom, agora vou direcionar minha pergunta para a professora Egli para falar um pouco sobre os estudos sobre normatividade algorítmica.
E consumo midiático entre jovens. Como, na sua concepção, a comunicação pode contribuir para compreender os efeitos simbólicos das plataformas na formação de repertórios críticos? No campo da comunicação, eu gosto muito de trabalhar com a perspectiva dos estudos culturais. Nesse estudo, por exemplo, sobre normatividade algorítmica, a gente trouxe o Stuart Howe.
para pensarmos o algoritmo. Então, é interessante como a gente recorre aos autores do passado, vamos dizer assim, os teóricos da própria teoria da comunicação, para pensar esses objetos mais atuais, relacionados a essa nossa comunicação digital atual.
Então, uma contribuição desse autor pode ser a leitura dos códigos que ele traz. A gente tem aí, por exemplo, os códigos dominantes, que são aqueles que fazem com que a gente não perceba a influência dos algoritmos e se deixam...
levar pelo interesse das plataformas, né? Quando a gente não consegue perceber aí o que o algoritmo está fazendo com a gente, a gente nem para, né? Para ter essa consciência crítica. A gente também tem os códigos negociados, né? Que são aqueles que conseguem fazer com que a gente perceba pontos favoráveis e negativos e trazer uma relação com as plataformas de uma maneira crítica. E também o terceiro, que seria o oposicional.
que são aqueles códigos que fazem com que a gente não interfira mesmo, não deixe se interferir por esses processos algoritmos, ou criando um afastamento, ou tendo uma literacia crítica, mas assim, muito...
profissional mesmo, vamos dizer, no sentido da gente entender questões operacionais, técnicas e também entender questões cognitivas que fazem com que a gente tenha aí uma percepção mais contextualizada, vamos dizer assim, das plataformas e dessas lógicas algorítmicas. Como, por exemplo, ter a percepção dos affordances, ter a percepção dos desenhos e funcionalidades.
das plataformas, e isso tudo faz com que o engajamento desses usuários se potencialize. E ao se potencializar, a gente passa, por exemplo, a entender melhor questões relacionadas à governança das plataformas.
questões relacionadas a desigualdades que podem ser ocasionadas por esse processo plataformizado, principalmente quando a gente pensa nessa questão das estruturas de poder que se organizam também dentro desse ambiente plataformizado. Enfim, muitas possibilidades de aplicação.
e de reatualização, se a gente pode dizer assim, de algumas perspectivas teóricas que a gente utilizava nos estudos da comunicação mais tradicional e que é possível a gente também ter esse olhar para essa comunicação tão complexa, vamos dizer assim, que a gente tem na atualidade.
Excelente, professora. Acho que também a gente conceber esse horizonte dos estudos clássicos também, dos estudos culturais, e tensionar esses processos para esse momento é super pertinente, principalmente porque a gente está lidando com a matéria-prima que a gente sempre lidou, que é a comunicação e os jovens, numa perspectiva nova, numa perspectiva contemporânea que está sempre em movimento.
Diante da desinformação, da violência discursiva, da automação algorítmica, qual é hoje, professoras, o papel da pesquisa Estrito Censo em Comunicação na construção de políticas, práticas e referenciais teóricos para a democracia? Nada mais atual essa discussão.
Sim, bom, eu acho que a própria existência dessa possibilidade de pesquisa, estricto senso em comunicação, já é uma democracia. Já é, essa própria possibilidade já é uma existência democrática, universitária, né? Mas não só isso, é a...
possibilidade de entendermos esses fenômenos de acordo com o método científico. E como ele é importante para entender justamente, para pensar políticas e práticas.
na manutenção de uma sociedade civilizatória, né? E aí a possibilidade de uma existência democrática.
Eu acredito que a pesquisa em comunicação tem o objetivo de problematizar assuntos que fazem parte do debate público, identificar problemáticas, necessidades e possíveis soluções ou melhorias que possam servir para auxiliar na proposição e fomento, como eu já disse aqui, de políticas públicas e melhorias de processos.
Então, por exemplo, aqui no programa eu coordeno a Cátedra Maria Aparecida Bacega, que é uma Cátedra de Comunicação, Educação e Consumo. Nessa Cátedra, uma das pesquisas que realizamos, ela mapeia e faz diagnósticos de como os professores utilizam mídias e plataformas nas práticas pedagógicas, com a intenção de auxiliar processos relacionados à implementação da educação midiática nas escolas de ensino básico.
que é algo que observamos em pesquisas longitudinais, tanto quantitativas quanto qualitativas, há oito anos. Então, é interessante notar que em 2026 a educação midiática no currículo das escolas vira política pública. E dessa forma as pesquisas se tornam mais importantes para acompanhar essa implementação.
Então, temas que fazem parte da realidade das pessoas são pesquisas envolvidas no estrito senso para que possamos olhar teoricamente e empiricamente, como a Dani disse, com um método, com rigor teórico e metodológico para fenômenos da comunicação que estão aí em constante mutação. Perfeito, Egli. E pensando aqui que é tão fundamental e ainda não seja um atrapalho.
a gente ampliar esse conceito de educação midiática para que a gente possa ter o pleno exercício da democracia, como as coisas estão interligadas, né? E não educação midiática no sentido de aprender ou entender a tecnologia, mas ir além, né?
conceito mesmo de educação. E eu acho que também, Cissa, pensar o espaço público numa lógica democrática feita para as pessoas e que as pessoas possam realmente, a partir dos estudos ou dos tensionamentos que a academia faz, possam refletir sobre os campos que estão interferindo na vida delas. Acho que esse também é um papel importante da academia.
E eu já vou emendar aqui, que faz parte desse nosso bloco aqui de perguntas e que eu acho que ele tem super a ver, dar a opinião de vocês quais seriam então os desafios da pesquisa em comunicação dentro desse contemporâneo que a gente está desenhando aqui, né?
que está conectado às plataformas cada vez mais automatizadas e tensionadas politicamente, que é o que a gente já veio conversando aqui um pouco. Sim, eu acho que um desafio, o reconhecimento, e aí eu acho que isso depende das pesquisas também feitas no âmbito dos mestrados e doutorados, como a gente estava conversando aqui, é pensar...
Como e se haveria desenhos diferentes de plataforma para propiciarem? Então, lembrando da Fordance, uma das traduções que se usa em português é propiciação. Como desenhar ambientes que propiciem mais...
Discussões e não só ataques, no primeiro momento, né? E mais gradações do que um amo ou odeio, né? Como seria esse ambiente? Acho que um desafio a gente propor também, ser mais propositivo nesse sentido, né?
E também pensar numa educação mais holística mesmo, no sentido das novas gerações não só terem mais acesso a literacias midiáticas em si, mas a literacia de por que eu uso cada meio e qual é a orientação ao consumo da diversidade.
de e-mails, porque a gente está, enfim centrados, né, estamos centrados nas plataformas e consumindo através das plataformas mas como que é sair dessa plataforma e ler um livro que leremos talvez numa outra plataforma, num Kindle, que está ligado a Amazon que está ligado a um, os dados que eu leio naquele livro, também o que eu ou...
sublinho ou marco, vai para um cômputo geral, né? Essa passagem é mais ou menos lida. Então, eu estou lendo no livro do Quinto e daqui a pouco eu vejo umas linhas sublinhadas, que já está interferindo na minha leitura, porque eles já estão me falando olha, esse trecho aqui foi mais sublinhado entre os leitores. Esse trecho é importante. Então, vejam, né? A leitura também...
nesse ambiente é impactada, né, pelo consumo de outros, né. E aí, como que as novas gerações, né, porque a gente tem uma memória ainda do que, a gente ainda está tensionando, né, essas plataformas, mas o desafio, acho que é educar para as novas gerações, para uma diversidade de consumo.
e também reconhecer a automatização das plataformas. E eu acho que essa questão que vocês colocam aqui, das plataformas cada vez mais automatizadas, inevitavelmente cada vez mais, inclusive inteligência artificial, como já foi falado aqui.
E eu diria, e tensionadas politicamente, nós reconhecemos que elas são tensionadas politicamente, mas será que 90%, 80% da população reconhece que é tensionada politicamente? Então, acho que tem ainda esse desafio desse reconhecimento.
Perfeito. Era exatamente esse comentário que eu ia fazer. A literacia da reflexão crítica, de parar e pensar. Porque, como você acabou de falar, ler um livro no Kindle é plataformização. As escolas estão incentivando, muitas vezes, ao invés de comprar livros físicos, assinar...
fazer a assinatura nela, já indicam, fazer a assinatura da plataforma XPTO com o livro disponível nessa plataforma. E aí é um caminho sem volta, não tem jeito. Mas por quê? Existe esse tensionamento político? Existem outros tipos de tensionamento? Essa é a discussão que a gente tem que...
levar para as escolas, para a academia, para a universidade, enfim, para o bate-papo do cafezinho ou do boteco, né? É isso. Eu, recentemente, eu tive a oportunidade de conversar com alguns jovens no meu trabalho de pesquisa e eu percebi...
uma certa consciência e aí, entre aspas, porque exatamente o que você falou, Egli, e exatamente o que você falou, Daniela, é uma consciência, mas não é uma consciência. Eles sabem da existência do algoritmo, eles sabem da força das big techs, eles sabem que as plataformas têm intenções financeiras, políticas, não foi muito discutido, mas que eles têm segundas intenções, digamos assim.
Mas nada disso é o suficiente para eles se desconectarem ou para eles deixarem de sofrer ou deixarem de ter a sua ansiedade. Então, acho que a discussão é muito maior. Eu acho que o desafio é olhar para objetos de pesquisa que se alteram no decorrer do desenvolvimento do projeto. Eu acho que isso também é um desafio muito grande, né? Estruturar metodologias que dêem conta de trabalhar com algo que pode sumir das redes, por exemplo. Muito. A qualquer momento.
ou tomar proporções nunca antes imaginadas. Então, muitas vezes requerem esses projetos de pesquisa o que a gente chama de multi-metodologias, que trabalham com pressupostos teóricos e coleta de dados tanto quantitativas como qualitativas.
O que demanda o uso de softwares ou construções de estruturas programadas, como a gente colocou aqui, né? Muitas vezes você tem que programar algo para olhar para aquele objeto de pesquisa, para garimpar na rede uma grande quantidade de informações. Então, é uma dificuldade tremenda, né? Em lidar com a raspagem de dados nas plataformas, por exemplo, pelas alterações e bloqueios constantes.
que, como a Dani disse aqui, que no decorrer do tempo a gente foi vendo nas nossas pesquisas. As plataformas digitais foram bloqueando esse nosso acesso através das APIs. E é interessante falar que agora a gente está estruturando um novo projeto de pesquisa para a coleta de dados nas eleições presidenciais de 2026.
A gente está numa fase inicial de planejamento, porque tudo pode mudar em decorrência das mediações controladas por essas plataformas, o que pode limitar muito os nossos estudos acadêmicos e isso exige da gente esse planejamento constante e sempre atento a essas mudanças, que é algo que...
inicialmente pode estar planejado, e a gente viu isso nas nossas pesquisas anteriores, muitas vezes a gente precisa reconfigurar a rota para concretizar os nossos objetivos iniciais. Então, é um desafio constante, vamos dizer assim, estar envolvido com esse processo de pesquisa em comunicação.
É uma maravilha, gente. Eu estou adorando o papo hoje. Eu sou suspeito para falar porque eles têm tudo a ver com as minhas pesquisas e são assuntos que eu gosto muito. E ouvindo vocês duas falando aqui sobre as pesquisas, acho que amplia essa nossa capacidade de reflexão, que é um ponto também a ser pensado, principalmente.
sobre esse aspecto que a Dani levantou, né, dos jovens nas plataformas, por exemplo, e como a dificuldade de perceber esses processos acontecendo. Talvez a gente ainda vai passar bastante tempo pesquisando isso para garantir que a gente tenha algum nível de conhecimento sobre o assunto.
Mas está tudo muito bom, só que a gente está chegando aqui ao nosso bloco final. E esse bloco é um bloco em que a gente abre para que vocês possam fazer algumas recomendações, que acho que é sempre um momento importante para criar caminhos para essas pesquisas e encontrar outros textos, séries, filmes, o que vocês acharem que vale a pena compartilhar.
Então, vou começar passando aqui pela professora Egli. Qual indicação você deixaria para quem quer desenvolver um olhar mais crítico sobre mídia e informação? Quando a gente pensa em mídia e informação, não tem como eu pensar aqui num sociólogo francês que eu gosto muito, que é o Dominique Vuitton.
Ele tem uma triologia de livros que vai abordar tanto o que ele chama de a comunicação, que corresponde à falta total de comunicação e suas consequências. Outro que vai dizer a respeito da incomunicação, que é a dificuldade das pessoas de se comunicarem. E ele vai falar desse processo da comunicação como negociação.
que eu acho que esses três aí fazem a gente pensar a respeito dessa importância mesmo da comunicação pensando no outro, na comunicação da alteridade.
que tem como propósito mesmo essa questão do diálogo, da troca, da constituição, do argumento, da sedução, que são fundamentos do que a gente chama, que eu acho que é o mais importante, que são os laços sociais.
realmente esse fundamento para a gente implementar cada vez mais essa nossa sociedade democrática, justa, equilibrada. Então, eu indico. São três livros, agora eu estou lendo.
o pensar a incomunicação, mas a gente pensar a comunicação, a incomunicação e a comunicação, com diálogo, com negociação, eu acho que são questões importantes para a gente pensar todos os processos da comunicação, inclusive esse que a gente falou muito agora, que é o que a gente vive intensamente, que é essa sociedade das plataformas. Perfeito.
E você, Daniela, quais seriam as suas sugestões para quem quer compreender melhor tudo isso que a gente conversou aqui, entre elas liberdade de expressão, plataformas e a democracia?
Bom, para quem pesquisa ou quer pesquisar plataformas, especificamente tem um livro escrito por um professor da UFMG, o Carlos Dandréa, que é pesquisando plataformas. Então, esse livro que está em português, a gente tem muito referências também em inglês sobre isso, mas esse...
Em português especificamente, eu acho que é bem básico para entender ali o que está em jogo nessas pesquisas. Também gosto muito do livro da Letícia Cesarino, O Mundo do Avesso, no qual ela condensa outras abordagens em artigos, mas condensa no livro. E que dá um...
Ótimo panorama de entender as plataformas como um sistema e como elas estão agindo e influenciando a política como um sistema. Então, o mundo do avesso já dá um spoiler sobre esse movimento.
Queria aqui também dar uma indicação do nosso grupo de pesquisa, o OBICOM. Publicamos o livro É Censura? Violência Cultural e Liberdade de Expressão no Brasil do Século XXI.
pela Estura Paulos, e, bom, está nas plataformas, aí, Amazon, né, é possível achar, e tem vários capítulos com colaboradores, né, também que falam, por exemplo, do fenômeno do cancelamento, isso é censura, como é que a gente pode dialogar, tensionar o cancelamento como uma possível censura ou não.
censura da multidão, e essa própria expressão violência cultural, que não é bem nem censura nem lembrada de expressão, mas que é um conceito que vem de um sociólogo norueguês, Johan Galtung, que entende que formas de violências não entendidas como violências constituem um tipo de violência cultural. Que eu acho que é bem...
útil mesmo pra gente entender o Brasil, né? Bom, aí eu falaria, vocês falaram em séries, né? Dilema das Redes. Todas as séries recentes sobre fenômenos sociais decorrentes do uso das plataformas, como as séries sobre golpes no Tinder, sobre a Ana, né? É, eu me lembro.
Adolescência, machosfera, enfim, todos esses produções novas dão conta ali de entender fenômenos sociais a partir das plataformas, que não são novos.
Não são fenômenos sociais novos, eles sempre existiram, de uma forma ou de outra, né? Golpe sempre existiu, enfim... Machismo sempre existiu, mas como é que ele é organizado e se transforma numa plataforma mesmo, né? Em si. Enfim, então, recomendaria também esses conteúdos audiovisuais.
Gente, está excelente. Tem muita coisa legal aqui que foi compartilhada. Boa parte dessas séries e documentários eu já assisti. E recomendo também, são ótimos. Bom, queria agradecer a professora Elia e a professora Daniela por compartilhar com a gente esse tempo. Muito obrigado. Compartilhar suas pesquisas, suas reflexões. Estão sempre convidadas. É sempre um prazer receber vocês. Espero recebê-las novamente.
E para você que está nos ouvindo até aqui, não deixe de seguir e comunicar o Cast na sua plataforma de áudio favorita, no YouTube e no Instagram do PPG com SPM. Até o próximo episódio.
O Comunicomcast, em sua terceira temporada, conta com a apresentação de Cássio Martinez e Cissa Matos. Coordenação da professora doutora Eglimuller Spinelli. Produção de Thaís Ortega Pichinin. Roteiros de Isabela Portas e André Sena Moraes. Edição de Gabriel Castro. Gestão de meios e mídias. Mariana Neri, Lucila Campiglia e José Roberto Scarabello Jr. Gravação e edição do Centro de Experimentação Multimídia.
ESPM São Paulo. Apoio Escola Superior de Propaganda e Marketing ESPM São Paulo.