O Entregador de Pizza e o Astronauta — O Que as Crianças Sabem e Que Nós Esquecemos
📖 Baseado no livro "Introdução ao Conhecimento Logosófico", capítulo "Fundamentos de uma Ética Superior".
Partindo da observação de que crianças escolhem profissões sempre ligadas a servir os outros, Ronny reflete sobre como os adultos perdem essa clareza de missão e passam a gastar energia disputando "razão" em desentendimentos cotidianos. Ele conecta essa reflexão à metáfora da própolis (episódio anterior) para propor que a verdadeira blindagem da felicidade está em deslocar o centro de vida de fora para dentro de si mesmo.
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- Felicidade Interior· SociedadeBlindagem emocional·Centro de gravidade interno·Conhecimento logosófico·Vida interior vs. exterior
- Infancia e Vocacao· EducacaoProfissões infantis·Desejo de servir·Astronauta·Entregador de pizza·Lixeiro
- Perda da Clareza de Missão· SociedadeEgoísmo na vida adulta·Disputa por razão·Desentendimentos cotidianos
Oi, é o Roni, tudo bem? Eu tava chegando à conclusão aqui que eu acho que a gente esqueceu quem a gente queria ser. Eu sei, eu tô falando a gente, né? Tô te incluindo, mas tá bom. Mas talvez, acho muito difícil que cada um de nós não se encontre um pouquinho nisso, sabe? E aí a proporção vai variar, claro. E o que que a gente queria ser? E eu não tô falando da profissão, lógico, claro que não, porque isso em geral, né, tem um valor circunstancial.
Nenhum de nós encontrou na profissão o significado real da vida, né? Embora muitos encontram na profissão a oportunidade de servir a um bem maior, né? Isso é muito legal, porque servir a si mesmo é óbvio, todo mundo, né, todo mundo tá preocupado em servir a si mesmo. Mas servir a um bem maior, né, tem algumas profissões, inclusive algumas escolhas, né, que favorecem muito isso. E não é à toa que quando a gente é criança a gente quer ser o quê?
O que que a gente quer ser quando crescer? Perguntar para uma criança o que ela quer ser é descobrir alguma face dessa disposição nata de querer ajudar, né, o conjunto da humanidade, querer servir. Nenhuma criança vira e fala assim: ah, eu quero ter uma carreira de sucesso para ter muito dinheiro e viver uma vida folgada e cuidar da minha família e ter todos os bens que eu quero só. Não, nenhuma criança fala isso. As crianças, a gente quando era criança falava o quê?
O que que você queria ser quando você era criança, quando crescesse, né? Eu acho que tem uma variação que é assim, ó, o conjunto dessa variação de possibilidades indica muita coisa sobre algo que a gente esqueceu. Porque assim, criança quer ser o professor, né, professora, ou médico, ou bombeiro, ou astronauta. Ou eu tinha um filho que queria ser entregador de pizza. Mas qual que era a concepção na cabeça dele, né, na mente dele?
Qual que era a concepção sobre entregador de pizza? Ele queria entregar pizza para todo mundo porque ele gostava muito quando a gente pedia pizza. Quem não gosta? E E ele fica, eu acho que ele ficou com essa impressão de que assim existe alguém que vem e entrega as pizzas, né? Então assim, puxa, quer coisa mais legal do que você proporcionar essa felicidade de receber pizzas, né? Então eu, foi a forma como eu entendi o que quando ele expressou que queria ser entregador de pizza, né?
Tem um amigo meu que queria ser lixeiro. Mas veja, nada disso é porque o aspecto que se tá pensando na infância é o aspecto financeiro da profissão. E quando é uma coisa meio diferente que nem essa, né, entregador de pizza ou lixeiro, não é, não é por causa da vida de luta, de dificuldade que essa profissão, esse trabalho ocasiona. É porque a criança vê naquilo um valor muito elevado de servir ao outro. Porque é um trabalho, né, de servir aos demais.
Ele é tão claro como ser lixeiro, que é quem garante, né, que a gente mantenha a cidade limpa. É assim, vou te falar, quando a gente olha para essas, para esse detalhe, essas nuances, fica claro que quando a gente é criança Seja qual for, eu acho que assim, 99% das profissões que as crianças falam que querem ser tem a ver com um objetivo maior, nunca tem a ver com um objetivo egoísta. Lógico que depois o tempo vai passando e por algumas razões a gente vai perdendo essa referência.
Aí quando eu era adolescente, lá com 12 anos mais ou menos, tinha acabado de chegar no Brasil o McDonald's. Era o primeiro fast food, na verdade não era o primeiro, mas era o mais conhecido. E aí eu lembro que eu, quando experimentei, entendi o que era, aí eu queria, meu sonho era ser funcionário do McDonald's, mas na verdade não tinha nenhum objetivo de servir nada. Aí já era na adolescência, já era objetivo egoísta assim, é que eu achava que quem trabalhava no McDonald's podia comer à vontade tudo que tinha lá dentro.
Essa era a minha visão de que que era trabalhar num restaurante, né? Tipo assim, tá tudo liberado. Então era objetivo extremamente egoísta. Então eu, e eu no meu caso, quando era criança, eu queria ser astronauta, né? Mas eu queria desvendar esses mistérios do universo. Na verdade, eu queria desvendar os mistérios da criação, né? Eu queria responder as questões mais elevadas que mais inquietam a humanidade. Queria descobrir, né, maravilhas e voltar para contar para todo mundo.
Engraçado como não é à toa, né? Essas coisas não são assim um negócio desconectado com a nossa existência. Quando a gente analisa assim bem detalhado, ou pelo menos a gente coloca os olhos de volta e foca atenção, a gente pode identificar esse sinal claro de que na infância há uma, há uma clareza. É muito engraçado de pensar, é curioso de pensar isso, né? Como é que as crianças, naquela condição ainda bem inocente e ingênua em relação à vida, a vida, né, Na verdade, mais inocência do que ingenuidade.
Como é que elas têm uma clareza sobre uma, sobre a missão da existência? E depois a gente como adulto, em geral jovem, adulto, perdeu essa referência. Muitos mantêm, né, e muitos vão lá seguir as profissões que queriam, mantém essa referência, mas assim, no dia a dia da vida a gente acabou, a gente acaba perdendo a o que tá por trás de tudo isso. Porque mesmo quando a gente tá numa profissão que serve aos demais, a gente vê que a maioria acaba adotando uma posição na vida, uma posição egoísta na vida, né?
E egoísmo não é não ajudar os outros. O egoísmo é essa impressão equivocada, essa compreensão equivocada de que o mundo gira ao redor da gente, de que a gente tem sempre a razão, de que a gente precisa ter sempre a razão, né? E aí há causas, sim, à vontade para problemas, para discussões, para desentendimentos. Depois a gente mergulha na vida e acaba, acho que, entrando nessa, nesse molde, né? É o conceito de vida que a gente acabou absorvendo, é um molde.
De que diz que assim, a gente tem que cuidar do nosso, e inclusive não só financeiramente, mas que a razão é como se fosse um bem escasso. A gente discute pela razão a vida inteira, quase. Discute com quem a gente ama, discute com quem a gente mal conhece, discute com quem a gente não conhece, né, às vezes, porque todo mundo quer ter razão. Como se o objetivo da vida fosse ter razão. Olha que doideira que é isso! Parece absurdo, né, quando eu falo assim, e é mesmo.
Mas quando eu olho para minha vida, eu falo, puxa, quantas milhares de vezes na minha vida eu não discuti porque eu queria ter a razão? Ou se não é a razão, a gente, né, assim, se desentende por quinquilharias. Não é à toa que depois a gente como conjunto, né, de seres humanos acaba guerreando, acaba se matando. Veja, a causa do caos que a gente vive, e não é de hoje, né, não é um problema atual, é um problema que vem há milênios, é que a gente se desentende por tanta coisa sem valor que depois as consequências são óbvias.
Ou seja, há um desvio na causa, há um desvio na concepção. A concepção do que que é a vida e do que cada um de nós deveria estar fazendo, vivendo, como deveríamos estar vivendo, é a causa de muitos problemas. Por isso que eu acho que a gente esqueceu mesmo o que a gente queria ser, e não era profissão. Essa era essa clareza que a criança, cada um de nós, né, quando criança tinha, já teve, de que é preciso encontrar uma missão É preciso encontrar, ou é preciso reconhecer em si mesmo a predisposição para uma missão que é muito maior do que cuidar apenas de si.
E você vê que criança não tá preocupada em ter razão, né? Cada uma vive no seu mundo, às vezes ali com seus pensamentos, seus amigos imaginários, e nenhuma criança quer impor à outra a sua razão. Às vezes quer tomar o brinquedo da outra, porque a gente tem essa parte instintiva também que a mente ainda está se formando, não consegue lidar bem com isso. Mas são efeitos ou são sinais claros de várias realidades do ser humano que na infância já se manifestam.
Mas tirando essa parte do brinquedo, a razão não é motivo de discussão. Nenhuma criança quer impor à outra a sua forma de entender, de pensar. O único desentendimento em relação à brincadeira, às vezes, né? E aí, como é, e aí a gente vê que é a hora que a gente diz que vai se esquecendo do que se quer ser, né? Quando se quer para si aquele, aquilo que acha que vai fazer cada um feliz e que o outro vai tirar. E isso a gente se repete, isso a gente repete isso durante a vida, né?
A gente acha que se eu não lutar pela razão é como se eu fosse perder a felicidade, ou como se a felicidade tivesse em ter razão. Que felicidade é essa em ter razão? Nenhuma, né? Não faz sentido isso. Mas a gente às vezes luta, briga, leva às vezes a briga longe, porque a gente talvez acredite que a felicidade está em ter razão mais do que o outro. Chega a ser surreal essa afirmação, mas infelizmente é. Eu vivi essa realidade, sei lá, mais de mil vezes, com certeza, na vida, com certeza mais de mil vezes.
Porque às vezes é uma discussãozinha, né, só uma troca de farpas. Num dia, no outro, ou é aquele olhar, né? Aquelas são sutis às vezes as manifestações do instinto querendo, né, toda hora ter razão mais do que o outro, querer, não quer abrir mão da própria razão. Então eu tô falando isso para dizer o seguinte, ou por conta da seguinte reflexão: no episódio anterior eu tava falando da própolis, né? Dessa camada de defesa, dessa blindagem, né, que a colmeia, as colmeias de abelha produzem e cuidam, né, e preparam para colmeia.
No nosso caso, existe essa, assim, essa, vamos dizer, é uma possibilidade que a gente tem, que é de e recordando os momentos felizes da vida que a gente já viveu, já conquistou, e tudo que a gente já conseguiu ser, que por um lado é uma força, né, uma capacidade, de certo modo é uma blindagem, né, em relação ao que acontece de negativo, de, vamos dizer assim, ruim, né, ou que a gente, alguém faz com a gente, fala com a gente. Por outro lado, A outra forma da gente se proteger do mal, ou evitar, né, que o mal afete nossa vida, ou evitar perder as energias por conta das circunstâncias, das alternativas, das pessoas, enfim, daquilo que tá fora do nosso controle, fora da gente, é ter consciência de que A nossa conduta de fato deve ser uma conduta em que a gente exalte o que há de mais nobre em cada um de nós e não exaltar o que há de mais inferior, né?
Que é o que acontece quando a gente começa uma discussão, ou a gente se permite cair numa discussão, numa disputa, né, por razão ou por qualquer assunto que E a coisa típica, coisa do dia a dia, né? Desentendimentos nos mais variados níveis por qualquer coisa. O que que é essa? Quando a gente cai nessa armadilha, né? Eu de vez em quando caio ainda, acredite, logicamente. Quando a gente cai nessa armadilha, é como se a gente realmente esquecesse de tudo, a ponto de condensar como se a vida fosse aquele fato, aquela circunstância, aquela, aquele ponto de vista, né?
E pior, a nossa razão deve ir constantemente superando os seus julgamentos. E aquilo que a gente julgava ou entendia, né, como ou assim, com uma compreensão mais perfeita, já foi superada ao longo da nossa vida quantas vezes? Se a gente mesmo vai superando a nossa razão, ou seja, se a nossa razão vai superando as compreensões, os julgamentos que faz, e vai entendendo as coisas de uma forma melhor e mais ampla conforme a vida vai passando, as experiências vão passando, por que que a gente chegou a brigar Por razões que depois a gente mesmo superou, né?
E isso eu tô falando só para recordar o seguinte: ser feliz, para ser feliz, a gente vai precisar encontrar esse ponto, esse centro de gravidade dentro de nós, em que a felicidade não pode estar dependendo desses fatos diários em que vai se disputar razão, compreensão, formas de ver a vida, de entender como é que se realiza uma tarefa, como é que se deveria realizar tal coisa. Fulano fez ou não fez o que eu queria, como eu queria, enfim, ou mandou fazer e eu não gostei porque eu não quero fazer assim, sei lá, qualquer coisa.
A felicidade da vida se ela fosse estar nessas coisas do dia a dia, era para viver uma vida infeliz mesmo. E talvez a gente viva parte da vida, né, infeliz, descontente, porque a gente perdeu a referência, como eu falei, não só do que a gente queria ser do ponto de vista da existência, mas a gente perdeu a referência do que que é a própria vida, aonde que é para viver mais, né? Para viver mais fora de si mesmo ou é para viver mais dentro de si mesmo?
Aí você tá perguntando, ah, legal, Roni, mas como é que faz isso, né? É sobre isso. Todo o conhecimento logosófico, na medida que eu posso entendê-lo, né, que eu já entendi, na medida que eu consegui compreender até agora, ele é voltado exatamente para mim, não só para mim, né, mas para cada um de nós voltar-se exatamente para essa vida interna, porque essa é a grande solução de proteção, de blindagem da felicidade e da vida quanto a tudo que vai se alternando, mudando, quanto a todas as pessoas que de alguma maneira possam afetar ou querer afetar a nossa felicidade.
Essa blindagem, essa defesa, essa proteção, ela reside exatamente nessa— é uma colocação nossa em relação aonde nós vamos viver a vida. Nós vamos viver a vida fora de nós ou a gente vai se colocar dentro de nós mesmos? Pode parecer esquisito, né? Eu não tô nem dentro nem fora, tô aqui, ó, o meu corpo aqui. É óbvio que eu não tô falando da colocação física, tô falando o seguinte: o ponto de observação, o ponto de reflexão, o ponto de comando, né, da vida vai estar, vai seguir estando fora de nós mesmos ou cada vez mais para dentro de nós mesmos.
E para dentro não é isolados, mas é numa posição em que o que está fora não é determinante para aquilo que se vive dentro de si mesmo. É uma posição de independência. Você percebe a diferença? Porque a sensação que você— ah não, se eu tiver dentro de mim, tô mais isolado. Não, não. Tiver mais dentro de si mesmo como ponto de observação, de comando da vida, é um ponto de, é um lugar de mais liberdade, porque é um ponto de, é mais próximo daquilo que tá ocorrendo dentro do mundo interno de cada um.
É um ponto em que é muito mais favorável viver a vida observando os movimentos internos independente ou em relação ao que acontece fora de nós, do que viver a vida tentando controlar os eventos, circunstâncias e fatos que vão nos afetar todo dia. É preciso reencontrar aquela missão, é preciso reencontrar aquela Aquela imagem clara que a criança tinha de que a vida não ia ser nada, nada que tivesse valor circunstancial. A vida seria uma missão muito maior.
Essa missão é a grande chave para mim, recordá-la, né, me aproximar dessa missão. Viver mais de acordo com aquela sensação da infância, com reconhecendo agora com conhecimento qual é essa missão, né, que não é viver para fora de si, sim para dentro, né, para poder realizar esse processo, essa superação, essa evolução com despertar da consciência. Essa grande missão que é realizar, né, na vida uma obra de bem, é para mim uma chave de conduta, né, que de fato transforma completamente a vida, independente das alternativas que a vida diária apresente.
O conhecimento logosófico está à nossa disposição exatamente para realizar virar essa chave e realizar isso dentro de cada um. Boas reflexões, fique bem, até o próximo episódio.