DRAUZIO VARELLA - Imprevista #13
Neste episódio do Imprevista, Joana Treptow recebe Drauzio Varella para uma conversa profunda sobre saúde, comportamento e os desafios da vida moderna. O médico e escritor compartilha reflexões sobre envelhecimento, rotina, ansiedade, relações humanas e a forma como a sociedade lida com o tempo e a morte.Ao longo do episódio, Dráuzio também comenta experiências marcantes da carreira, histórias vividas na medicina e os aprendizados acumulados ao longo de décadas acompanhando diferentes realidades do Brasil.
🟠 TRANSAMÉRICA AGORA É TMC 🟠
- Trabalho voluntário em presídios e humanizaçãoMotivações iniciais para o trabalho em presídios · A importância do convívio com o diferente · A perspectiva médica sobre julgamento e atendimento · Histórias individuais e a pluralidade humana
- Expectativa de vida e mortalidadeRevolta diante de mortes evitáveis · A certeza absoluta da morte · O direito de definir o fim da vida · Eutanásia e suicídio assistido
- Consequências Clínicas no BrasilEndemias rurais e doenças infantis no passado · Mudança demográfica: envelhecimento da população · Doenças crônicas na medicina moderna · Acesso à saúde e desigualdade social
- Exercício Físico e SaúdeInício da corrida aos 50 anos · Corrida como prova de vitalidade e antídoto contra o envelhecimento · Benefícios da corrida para a saúde mental · Corrida como estilo de vida e disciplina
- Empatia e SolidariedadeOrigens da sensibilidade e empatia · Responsabilidade social e devolução do conhecimento · O impacto da comunicação na democratização da informação
- Sofrimento físico e mental na sociedade modernaDiferença entre sofrimento físico e mental · Aumento da solidão e isolamento social · A necessidade de pertencimento e grupos sociais
- Relacionamentos FamiliaresA importância do exemplo na criação dos filhos · Presença paterna em momentos difíceis · Impacto da separação e guarda compartilhada · A relação pai-filha como construção profunda
- Humor e saúde mentalA importância de não se levar a sério · Crítica à certeza excessiva e insegurança mascarada · A figura tradicional do médico autoritário vs. médico como arquiteto
- Juventude e LiberdadeA extensão da adolescência na sociedade moderna · Comparativo entre gerações: melhorias e desafios · Otimismo em relação ao progresso social
- Relacionamento amoroso e segurança emocionalO amor como fator de bem-estar e saúde · A busca por um parceiro e os desafios emocionais · Critérios para a manutenção de relacionamentos
Sem filtro, sem script. Imprevista, podcast original TMC, com Joana Trepto. Olá, seja muito bem-vindo, bem-vinda ao Imprevista, um programa de entrevistas que não é sobre respostas prontas, é um podcast sobre caminhos. Aqui a gente não parte de um roteiro fechado, parte, acima de tudo, da curiosidade.
É sobre escolhas, é sobre dúvidas, sobre contradições, tudo aquilo que não cabe, muitas vezes, na versão pública de uma história. Meu nome é Joana Trepto, todas as quintas-feiras eu chego aqui com um episódio novo do Imprevista e o nosso convidado de hoje é muito especial.
Para apresentá-lo, quero dizer que tem gente que passa a vida tentando entender os outros, mas também tem gente que faz disso um compromisso, quase que uma inquietação permanente. O nosso convidado escolheu estar onde a vida mostra suas camadas mais duras, nos lugares onde muita gente evita olhar. Nos hospitais, diante da doença. Nos presídios, diante do erro. Na Amazônia, no mundo afora.
diante do abandono, diante da desigualdade, na comunicação que é tão plural, precisa ter cuidado, responsabilidade em tantos lugares. E sempre com o mesmo ponto de partida, a curiosidade pelo ser humano, sem pressa de julgar, com disposição para escutar. Mas talvez o que mais diga sobre o nosso convidado de hoje não seja só o fato dele estar nesses lugares, mas sim também o fato dele se aproximar.
das pessoas, o jeito como ele se aproxima das pessoas, a insistência que tem em ver a humanidade, onde muita gente só vê rótulo e na capacidade de estar presente de verdade quando alguém está mais vulnerável, quando alguém mais precisa. Médico, escritor, comunicador há 30 anos, alguém que passou a vida tentando entender o outro e no caminho ajudou tanta gente, a gente a se entender também. Com a gente aqui, Drauzio Varela. Muito obrigada.
Muito obrigado, Jornal. É um prazer estar aqui com você. Drauzio, aqui a gente sempre tem acesso a fontes privilegiadas que nos trazem informação sobre os nossos entrevistados. E a nossa fonte é uma pessoa que convive com você desde que nasceu e que nos trouxe muita informação. Ela disse que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, você é uma pessoa que tira sarro de você mesma, que ri muito, é piadista, você não se leva tão a sério. Houve algum momento em que você percebeu...
que o humor era necessário para sobreviver ao que nós vemos e você vê todos os dias? Jana, eu acho que sempre foi assim. Eu não gosto muito dessas pessoas que se levam a sério, que se colocam de um jeito como se fossem superiores e tal, porque todos nós temos diversos lados. Tem momentos que você acha que o que você está fazendo é muito importante. Tem momentos que você acha que está sendo ridículo.
Tem momentos que você acha que não está legal, que você está fazendo tudo errado. E eu acho que você tem que ter essa visão crítica de si mesmo. Porque isso também aproxima você das outras pessoas.
Tem momentos que você se acha ridículo, que você não sabe o que está fazendo? Não é que eu não saiba o que estou fazendo. Não na prática. Eu tenho consciência de que estou agindo de forma ridícula. Isso acontece, é claro que acontece.
No dia a dia, assim, agora com as redes sociais, o que nós mais vemos são pessoas tendo muita certeza de se seguras, de como elas são impressionantes. Eu sou especialista nisso, eu sei muito sobre aquilo. As pessoas querem se mostrar. Isso daí, para você, não é o caminho. Não é o caminho. Não é assim que eu sou, não é assim que eu fui criado, de jeito nenhum. Ao contrário.
eu sempre estou cheio de dúvidas e sempre tenho um pouco de desconfiança de pessoas que têm tantas certezas assim. Porque quando você chega perto delas, muitas vezes você sente que aquela certeza toda é, na verdade, uma defesa e uma forma de mascarar a insegurança.
Porque todos nós temos inseguranças, muitas inseguranças, muitas vezes, e você não pode perder essas características, porque senão você fica desumano no sentido de perder a humanidade. Se você tem certezas o tempo inteiro, está falando para os outros, impondo regras e tudo, você se afasta das pessoas verdadeiras.
Mas você é uma referência para o Brasil inteiro. Imagino que você seja reconhecido em qualquer lugar onde você vá. Você realmente é muito familiar. E a figura do médico sempre foi, talvez um pouco mais no passado, ligada a uma credibilidade, a uma autoridade, a uma seriedade. Você está propondo que não é necessário ser assim. Você foge um pouquinho? Sempre fugiu desse caminho mais tradicional? Sempre, Joana. Sempre.
Eu fui formado aqui em São Paulo, na Universidade de São Paulo. E naquela época, estamos falando de quase 60 anos atrás, ou de 60 anos atrás, os médicos eram os donos do saber.
E eles consideravam os pacientes pessoas ignorantes que deviam obedecê-los. Então ele dizia, olha, você ia ao médico, ele te examinava, examinavam naquela época, hoje é uma coisa mais difícil. Mas eles examinavam.
Pegava um receituário, você sentava ali e você vai tomar esses medicamentos aqui, vai tomar esses remédios. Escrevia com garranchos que você não entendia.
O farmacêutico é que ia decifrar aqueles hieroglifos que ele fazia. E você não podia discutir. Você tinha que fazer o que ele mandou. Se você voltava depois para a consulta, ele dizia, mas também você não fez o que eu te mandei fazer. Não é que eu te sugeri, eu te mandei fazer. Então esse papel autoritário do médico ficou no passado.
O médico é como um arquiteto. Você pensa o seguinte, você vai fazer uma casa. Você aceitaria que um arquiteto dizer, olha, a tua casa vai ser assim, assim, assim, tantos quartos, a sala vai ser aqui, o banheiro ali? Claro que não.
Ele senta com você e diz o que você quer. Como é que você quer a casa? Quantas pessoas vão morar lá? De que maneira? Para que você vai usar a casa? Você recebe muita gente? Quer dar festa na casa? Enfim, todas as suas necessidades, ele vai tentar tecnicamente, porque ele conhece a técnica, a forma de satisfazê-las.
E a medicina tem que ser a mesma coisa. Você vai ao médico, você diz, olha, eu estou com problema X. Não existem duas pessoas iguais. Os organismos são diferentes, os desejos são diferentes, o estilo de vida é diferente. Uma solução para o seu caso não serve para outro que tem exatamente a mesma doença, o mesmo problema, mas uma vida que não é igual à sua.
Então, o que mudou na medicina moderna, o que é? É o médico que chega e diz, olha, no seu caso, na sua situação, nós temos as seguintes soluções, temos os seguintes caminhos. E a partir daí, esse caminho é discutido com aquela pessoa. Porque você pode dizer, olha, eu tenho que...
fazer tal tipo de tratamento que me obriga a fazer fisioterapia cinco vezes por semana. E aí você diz, eu não tenho condição. Como é que nós vamos entrar nesse acordo aqui, para que você possa fazer a fisioterapia mais adaptada à vida que você leva?
Então, nesse sentido que eu digo que o médico parece uma função parecida com a do arquiteto. Ele vai ver as suas necessidades e conjuntamente vocês vão decidir qual é o tratamento mais adequado.
Quando você pensa com todas essas mudanças na medicina, na sociedade, no comportamento das pessoas, na forma de consumo, de hábito das pessoas, quando você olha lá para trás, quando você decidiu fazer medicina, suas convicções, seus desejos, seus sonhos, e aí você olha hoje como as coisas estão, por onde você percorreu. Você conseguiu corresponder à sua própria expectativa? Superou? Foi totalmente diferente? Qual é o balanço que hoje você consegue fazer?
Eu não consigo nem comparar, Joana. Não consigo nem comparar. Quando eu me formei, o problema do Brasil, os problemas médicos brasileiros, eram as epidemias que corriam pelo interior, as endemias rurais. Endemias rurais o que eram? Era esquistossomose, doença de chagas, malária, verminose. Essas eram endemias rurais.
O Brasil era um país rural. Eu me formei em 1967, portanto eu fiz medicina durante a década de 1960. E as endemias rurais, os pacientes vinham do interior, do Brasil afora, dos mais longínquos recantos do país, e desabavam no Hospital das Clínicas aqui de São Paulo, onde eu fiz internato e a residência, como todos os meus colegas da época. Então, esses eram os problemas.
Eu vi gente morrer por áscares, que é a popular lombriga, um verme que formava novelos no intestino, obstruía o intestino, e a pessoa acabava, se não fosse atendida e operada rapidamente para se obstruir, podia morrer, e muitos morriam.
Eu vi criança morrer com insuficiência respiratória, sufocada por novelos de áscarys, porque o áscarys tem uma fase do ciclo biológico dele, que ele migra pelos órgãos. E pode chegar na traqueia. Então, sufocava a criança. Eu vi duas ou três crianças perderem a vida assim.
Então, era uma medicina completamente diferente de hoje. A grande massa da população era de crianças. Hoje, a faixa da população que mais cresce é que está acima dos 60 anos. Houve uma mudança, uma reversão da pirâmide, completamente. Então, hoje nós temos as doenças crônicas. É outra realidade muito diferente daquela em que eu me formei.
Já que você falou sobre morte, morte de crianças, você passou toda a sua história, vida, carreira, trajetória, convivendo com a finitude de perto. Ainda convive. A morte, em algum momento, te assustou? Ver criancinha morrendo por causa da doença que poderia ser revertida, por falta de estrutura. Essas coisas que a gente olha e fala, nossa, não precisava.
Em algum momento a morte foi uma questão para você? Sempre, claro. E nunca me assustou, mas me revoltou muitas vezes. Esse exemplo que você deu das crianças. Olha, no Hospital das Clínicas, a gente passava pelo pronto... Todos os internos residentes da área de clínica passavam pela pediatria, pronto-socorro de pediatria.
São Paulo, naquela época, era uma cidade muito menor do que é hoje. Mas era uma cidade que estava recebendo uma quantidade muito grande de imigrantes. Cada vez que tinha uma seca no Nordeste, eles vinham para São Paulo. Porque aqui tinha emprego. São Paulo estava crescendo, os prédios sendo construídos na cidade. E tinha emprego para todo mundo.
Você passava na frente das obras, eles punham uma coisa de madeira, onde eles iam encaixando, introduzindo umas tábuas que vinham. Precisa-se de carpinteiros, azulejistas, toda obra tinha uma lista de...
de empregos para as pessoas. E os que não tinham, que saíam da lavoura, não sabiam fazer nada na construção civil, eram admitidos como serventes. Então, se tinha um servente de pedreiro, era o que? Buscar as pedras, buscar os tijolos, trazer as ferramentas e tal. Ele ia aprendendo e subir. São Paulo virou uma cidade nordestina, a maior cidade nordestina do país. Onde iam morar essas pessoas?
Iam morar na periferia. A periferia de São Paulo, nos anos 60, 70 e até 80, foi inchando. Porque cada um ia lá e construía um barraco. E passava a viver ali sem água encanada, sem saneamento básico. Então, o que acontecia com as crianças? Elas se contaminavam, tinham diarreia, desidratavam.
E a dificuldade de levá-las para o centro da cidade, não tinha metrô, não tinha linhas de ônibus regulares em muitos lugares e tudo. A dificuldade para chegar no pronto-socorro do Hospital das Clínicas, que era um dos raros locais onde elas seriam atendidas, muitas vezes chegavam em uma condição muito debilitada. Às vezes chegavam em choque, chocadas. E você ficava ali, elas ficavam...
Tinha um lugar no Hospital das Clínicas que ali tinha umas caminhas, nem era cama, eram umas coisas de madeira assim, com um colchãozinho em cima, uma pequena grade, e a mãe ficava sentada numa cadeira ao lado da criança.
E essas crianças tinham que ser hidratadas. E a gente ficava... era uma quantidade absurda. Você estava tratando de uma criança aqui que estava grave e morria uma que estava atrás de você. E o sofrimento daquelas mulheres que ficavam ali, quando morria uma criança, todas choravam.
Todas choravam. Depois caía um silêncio e as coisas iam voltando ao normal. A gente chegava a perder três, quatro crianças num plantão de 12 horas. Você imagina. Eu saía do hospital absolutamente revoltado. Como é que é possível a gente conviver com essa tragédia que atinge tanta gente?
Isso, felizmente, essa realidade foi mudando, mudando hoje, quando morre uma criança, fica todo mundo chocado. Então, esse impacto dessa morte, por falta de atendimento, por falta de condições sociais, foi muito importante na minha carreira, porque me deu mesmo uma visão geral de que em que país nós vivíamos na época.
Eu imagino, deve ser muito difícil a vontade de querer salvar e socorrer e resolver. Não há estrutura, não tem como chegar a todos. Mas isso me leva a um questionamento. A medicina, havendo condição, havendo estrutura, salva vidas. Mas também há casos em que não. Então a gente tem uma ideia de controle de vida que pode ser contraditória, controversa.
Até que ponto é que nós conseguimos controlar a vida? Acho que a gente controla muito pouco. Controla muito pouco. Porque qual é a única certeza absoluta que você tem na vida? A morte. Que você vai morrer, não é? Não há outra certeza absoluta. Tudo pode acontecer e pode não acontecer também. A gente é cheio de dúvidas. A morte não.
A gente tem muita dificuldade de conviver com essa realidade, não é? Todo mundo fala, claro, um dia eu vou morrer. Mas é um dia muito distante, sempre. Que nunca vai chegar. Que nunca vai chegar. Que nunca vai chegar. Tenha você 20 ou 90 anos, não é? Mas a gente procura não pensar nisso. E ao contrário, a gente tem que pensar.
Porque é o período que nós estamos aqui na Terra. É esse, nasceu, você não era nada antes. Depois que você morrer, você vai ser o que a tua imaginação quiser. Mas que existe um limite, existe. Às vezes eu vejo... Desculpa. Às vezes eu vejo gente dizendo assim, ah, mas a vida, se for só isso...
Aí não vale a pena. Só isso. Você nasce, cresce, se alimenta. Tem prazeres a vida inteira. Não estou falando do prazer sexual só. Estou falando do prazer, sei lá, de entrar embaixo do chuveiro, um dia que está muito cansado, e ver aquela água quente, gostosa, relaxante.
O prazer que eu estou tendo falando aqui com você. E eu com você. O prazer do que a gente vai comer no almoço. A vida é cheia de prazeres. Você sabe que uma vez tinha um funcionário lá, um carcereiro na detenção, no Carandiru, o senhor Araújo. O senhor Araújo é um negro forte, atarracado, assim. E um homem que tinha tido uma vida muito dura.
Ele, além de trabalhar na cadeia, que é um trabalho difícil, ele chegou a perder três filhos no mesmo ano. Crianças, de doença. Dois tinham, acho que, oito ou nove anos, um tinha doze. Esse que tinha doze estava brincando, jogando basquete sozinho numa tabela com um cesto que ele tinha e caiu morto por uma hemorragia cerebral.
E ele era um homem muito experiente, conhecedor da vida. Tinha amadurecido no meio dessas tragédias todas. E um dia eu cheguei na cadeia, ele tinha almoçado e estava sentado ali naquele pátio interno do Carandiru, que chamava Divinéia. E eu fui falar com ele. E aí começamos a conversar. E eu disse para ele, Araújo, você é um homem feliz, não é? Ele falou, ah, doutor.
A vida sabendo levar é uma festa. E eu fiquei com essa frase na cabeça, porque é uma frase de alto conteúdo filosófico. Sabendo levar. Pode ser uma tragédia também, se você não souber levar. E a festa, o conceito de festa, eu acho que é um conceito precioso. Porque é uma festa no total se você sabe levar.
E essa festa um dia acaba. E você, uma coisa que eu defendo agora, assim, até politicamente, você tem que ter o direito de definir qual é a hora que você quer sair da festa. Eu ia falar com você sobre isso, é um assunto delicado. A morte é um tabu. Tabu maior ainda é você desejar morrer.
até uma dificuldade de algumas pessoas conversarem sobre morte com a família. Eu já falei com a minha família que se eu morrer, eu gostaria que isso, isso, isso acontecesse. Eu tenho 32 anos. Quando você começa essa conversa, viram para você e falam assim, ah, pelo amor de Deus, para com isso. Mas eu tenho o direito a ter os meus desejos ouvidos. E é uma questão cultural. Aqui não se fala disso. Mas outros países têm discussões avançadas.
Não só sobre eutanásia, sobre suicídio assistida, sobre morte assistida, quando a pessoa está com uma condição de saúde muito frágil, vulnerável e não deseja mais viver. Como é que você enxerga essa escolha? Olha, eu faço parte de um movimento, de uma associação chamada Eu Decido. Que pretende que você tenha esse poder de decisão.
Porque se eu te perguntar se você quer viver muito, você vai dizer que sim. Se a segunda pergunta for a qualquer preço, você vai dizer que não. Na verdade, ninguém quer ficar jogado numa cama sem poder sair, dependendo de todos para tudo.
Uma sonda nasogástrica, uma sonda urinária, tomando soro o dia inteiro. E muitas vezes você quer reconhecer as pessoas que você mais ama, mais amou no caso. Mas ninguém quer viver assim. E no entanto, nós temos uma legislação do Brasil.
que não tentem encaminhar esse problema. Ninguém quer viver a qualquer preço. Todo mundo quer viver, máximo e tal, mas enquanto estiver bem. E nós temos que pensar nisso, especialmente agora, com a população envelhecendo, especialmente agora com esse aumento brutal do número de casos de demências, em que você vai perdendo completamente a condição de conviver com os outros.
Traus, nós estamos falando de doenças, de condições que agravam a saúde física. Mas a dor, o sofrimento, ele pode matar? Claro que pode, porque você tem dois grandes tipos de sofrimento. Nós temos o sofrimento físico causado por um problema claramente definido.
Sei lá, um tumor que provoca compressão em alguns nervos, que provoca dor. Um tumor que se espalhou para os ossos e provoca dor. Isso é um tipo de sofrimento. E você tem o sofrimento mental. São os males da alma, que hoje cada vez mais frequentes. E esses, num certo sentido, são até piores.
Eles não são tangíveis. É, porque você não tem um diagnóstico claro, você não consegue dizer, eu faço tal exame e vejo que você está numa depressão profunda. Não existe esse exame.
Você tem que se basear nos dados clínicos e esses são muitas vezes subjetivos. Um grande problema para você pode não ser problema nenhum para mim e vice-versa. E a sociedade que nós vivemos hoje, essa forma de viver, é uma forma de viver nova.
As gerações que nos antecederam não passaram por esse tipo de experiência. Morar em cidades grandes, fechados em apartamentos, todos nós, uma vida que foi ficando cada vez mais solitária. Você hoje, para visitar seus pais, você precisa escolher o dia da semana, porque pode levar uma hora e meia para chegar na casa deles. As cidades cresceram muito.
Hoje ninguém mais tem amigos de infância. Os amigos de infância se espalharam pelo país e às vezes por vários países. A tendência da gente é ficar sozinha, cada vez mais sozinhos. Mas nós somos animais gregários. Como é que nós sobrevivemos, Joana?
Nós descendemos de quem? Daqueles primatas que viviam na parte central da África, ali, Etiópia, aquela região, que de repente começaram a descer das árvores que faltava alimento e eles tiveram que andar.
Pelas savanas. E andavam, e aí foram adotando a posição bípede. E animais pequenos. Você pega esses hominídeos que você encontra nos museus, eles são assim, tem o quê? 80, 90 centímetros. Como os pigmeus. São esqueletos débeis. E nós éramos, os nossos ancestrais mais distantes, eram animais muito fracos.
A África até hoje tem leão, tem tudo quanto é bicho. Você imagina naquela época, qual era a chance de sobrevivência? Zero. Por que eles não foram eliminados? Porque eles souberam formar grupos. E aí, em grupo, sim, em grupo conseguiam se defender.
Então, a formação do grupo é essencial, foi essencial para a sobrevivência da espécie humana. E a seleção natural fez esses grupos chegarem até nós. Por isso é que chega um sábado, está sozinha em casa, liga para uma amiga, não pode sair, liga para um amigo, viajou.
E você fica deprimida por causa de um sábado que você ficou sozinha. A gente não sabe ficar sozinha. A gente gosta de estar enturmado. A gente gosta de estar acompanhado. Você falou sobre essas mudanças da modernidade, da sociedade. Nós nunca tivemos o que nós temos hoje. Eu queria saber qual você acha que é o maior mal da juventude? Hoje? Bom.
Primeiro, você entendeu o que é juventude. A adolescência hoje é muito longa. A geração anterior, a minha, não havia adolescência. Eu nasci num bairro operário, no bairro do Brás, e ali a rotina qual era? O menino chegava aos 14 anos, parava de estudar. Não interessa onde ele estava, parava de estudar e ia trabalhar nas fábricas.
No interior, o Brasil era um país agrícola ainda naquele tempo, um menino de sete anos ganhava uma enxada menorzinha e estava trabalhando ajudando a família. A menina, já antes até, começava a cuidar dos irmãos mais novos e ajudar a mãe nos cuidados com a casa e no preparo da comida. Não havia adolescência.
Adolescência é um fenômeno moderno. A minha geração foi a primeira a ter adolescência, a poder estudar, a poder chegar na universidade, quando as condições permitiam. E essa geração...
criou os filhos de uma outra forma. E houve uma melhora da situação econômica do país muito grande. O Brasil ainda tem muita dificuldade, mas quando você compara com o passado, não remoto de 200 anos, mas o passado imediato dos anos 1950, 1960, uma melhora muito grande.
E aí, nós começamos a ter adolescentes. Hoje, a adolescência é considerada dos 14 aos 25 anos. Não. Os 25? Aos 25 anos. É considerada adolescência.
Para alguns, até aos 40, 45, que moram na casa dos pais, reclamam da comida, da roupa lavada. É uma mudança muito grande. Então, seria a falta de independência um grande mal da nossa sociedade? Eu acho que não. Eu acho que você, quando a gente fala essas coisas, a gente se baseia nesses exemplos.
Menino que está aí, 40 anos de idade, é um homem feito e tal, e ainda depende dos pais para sobreviver, não trabalha, ou enfim, não consegue viver sozinho, se arrumar na vida. Mas a maioria não é assim. A maioria está aí trabalhando, lutando, fazendo as coisas. O mundo caminha para frente, João. Às vezes a gente pega esses exemplos e acha, ah, não, no meu tempo, eu não gosto disso.
Eu não falo no meu tempo. O meu tempo é hoje. Com o seu tempo também é hoje. Eu não gosto por quê? Porque a memória é traiçoeira.
A memória edita, a memória tira as memórias ruins e deixa só as boas. Eu vejo o pessoal, os velhos da minha geração, falando, não, São Paulo naquele tempo era uma maravilha, você andava pela cidade tranquila. É, andava, era tranquilo, nesse aspecto sim. Ninguém te assaltava na rua, ou era muito raro acontecer.
Em compensação, era uma pobreza maluca. O bairro que eu nasci, onde eu vivi até os 10 anos, o pessoal dizia que quando o pobre come frango, um dos dois está doente. Porque frango era uma especiaria. Na minha casa tinha frango uma vez por mês. Hoje você vai a qualquer lugar na periferia mais pobre e tem acesso a frango todo dia.
As mudanças foram muito grandes. E eu acho que, no total, nós estamos melhores. E a juventude atual está melhor do que a minha juventude foi. Nós éramos sexistas, machistas, tínhamos preconceitos sexuais terríveis.
As mulheres e os homens que eram homossexuais sofriam o diabo, até violência física, era normal. Você imagina, compara isso com hoje. Hoje você, não que as mulheres tenham igualdade com os homens, estão longe disso ainda, mas não se compara ao passado. Você está aqui trabalhando hoje.
No passado, você estaria em casa, cozinhando para os filhos e para o marido. A vida é muito diferente da vida da minha mãe, da minha avó, com toda certeza. Nós estamos caminhando para frente. É mais devagar do que a gente gostaria. Você é muito otimista, Drauzio. E a sua empatia, ela transborda na sua forma de falar, ver o mundo. Como você analisa as questões, de onde vem essa sensibilidade? De onde vem?
essa tendência que você persiste em alcançar de ver a outra pessoa como humanidade? Como ela é? Eu acho que tem dois aspectos aí. Um, esses primeiros anos da vida são muito marcantes. Você guarda memórias de quando você tinha 8, 10 anos. Os primeiros anos são anos fundamentais.
E eu passei esses anos num bairro operário, minha família morava num quarto, e eu passei a vida jogando bola na fábrica de frente de casa. E ali eram cortiços, o Brás era todo formado por cortiços, com imigrantes que vinham especialmente da Itália, de Portugal e da Espanha. Então vivi essa realidade.
Eu sei exatamente como viviam aquelas pessoas, quais eram as dificuldades que eles tinham e como era difícil a vida naquele tempo. E eu gravei isso para sempre. Eu pude estudar, mas pude estudar por quê? Não porque eu era um menino brilhante, nada. Era um moleque igual aos outros. Eu pude estudar porque meu pai...
Tinha dois empregos, trabalhava até meia-noite e dizia, meus filhos vão estudar. Se eu não tivesse tido esse pai, aos 14 anos eu estava na fábrica. Não teria chegado nem perto de onde eu pude chegar depois. Então, eu guardei isso como uma responsabilidade.
À medida que eu fui adquirindo conhecimento numa área como a medicina, que é onde há tantas carências, eu sempre achei que eu tinha uma obrigação de devolver para os outros uma parte do que eu aprendi, pelo menos. E foi isso que me norteou na profissão o tempo inteiro. Não que eu tenha conseguido fazer grandes coisas, mas eu procurei seguir esse caminho.
Mas ser reconhecido pelo que você faz, pelo impacto que você tem na vida das pessoas, por levar tanta informação, democratizar a informação que é difícil, que é cara, isso não é um grande feito? Olha, grande feito, não sei se é grande o feito. Mas, na verdade, isso, à medida que eu fui vendo também que isso tinha um impacto social, eu fui ficando...
cada vez mais animado em fazer. Porque depois, o que aconteceu? À medida que eu comecei a me meter nessa coisa de comunicação, de falar, começou no rádio. E na época, quando a AIDS surgiu aqui, que era uma coisa pavorosa, morria todo mundo. E eu fui sentindo que isso tinha um impacto social. Em nenhum momento, sinceramente mesmo, em nenhum momento eu falei... Então... Então...
Eu sou... Olha o que eu estou fazendo. Não, ao contrário. Foi aumentando a responsabilidade. E depois, quando veio a televisão, a TV Globo, que me deu acesso a falar para o país inteiro, a responsabilidade foi ficando cada vez maior. Chegou um momento que eu disse, olha, nunca foi dado a um médico as oportunidades de comunicação que me foram dadas.
Você tem uma rede de televisão que te dá um programa do domingo à noite, como é o Fantástico, que está aí no ar há 60 anos, e dizer, faz o que você quiser. Fala sobre saúde do jeito que você achar melhor. Então, isso te dá uma responsabilidade muito grande. E depois a internet, a mesma coisa. Então, essa posição em que você...
pode usar os seus conhecimentos e transmitir para os outros, isso te dá uma, não só te dá, claro, te dá uma recompensa, mas te dá uma responsabilidade muito grande.
Uma responsabilidade muito grande e foi uma dedicação muito grande também. Inclusive, com esse compromisso que você estabeleceu para você mesmo, você entrou em lugares que a sociedade tende a não querer entrar e para onde a sociedade tende a não querer olhar. E são lugares que...
tornam questões complexas muito simples, certo ou errado. Você dedicou a sua vida, boa parte dela ainda dedica, a cuidar de presos e presas, a ir ao sistema penitenciário de forma voluntária, olhar pelas pessoas, e eu diria que você vai bem além da questão física da saúde.
Você, aqui temos a informação de algo que a sua filha disse, né? Que eu achei que é muito interessante. Você não humanizou os presídios. Você humanizou as pessoas. Isso é uma questão muito maior do que estar preso. Estar cumprindo pena, né?
Olha, eu tenho um pouco de dificuldade de tirar conclusões desse tipo que a minha filha tirou. Ela já fez isso por você. É claro, é minha filha. Mas você sabe, eu entrei nessa história de cadeia por razões que não tiveram nada a ver com o humanismo. Eu...
Eu, em nenhuma razão política, nada disso, não gosto de bandido. Fui educado dentro de padrões muito rígidos de honestidade e tudo. Mas eu, de moleque, no Brás, era cheio de cinemas.
cheio de cinema. Escrevi um livrinho chamado Nas Ruas do Brás, um livro infantil que me deu muitos, tem me dado muitas alegrias, porque as crianças escrevem cartas de vários lugares do Brasil, é adotado em escolas e tudo. E nesse livrinho eu pus que o Brás tinha, sei lá, 10, 11 cinemas, era um bairro operário e tinha cinema para tudo que é lado.
E durante muito tempo eu encontrava um senhor, um homem da minha idade, naquele tempo, que dizia, você esqueceu do cine Oberdun, você esqueceu do cine Brás Politiama, sei lá. Então, nós tínhamos essa... E tinha uma irmã da minha avó, não, um primo da minha avó, que era gerente de um cinema que existia na rua João Teodoro, que é uma das ruas mais importantes do Brás. Chama a Cine Rialto.
E ele, à tarde, porque naquela época os filmes eram proibidos até 10 anos, até 14 ou 18 anos. E à tarde, ele me deixava entrar no cinema. E eu assistia filmes que eram proibidos na época. Até 14 anos, até 18 ele não deixava, mas depois de 18 ele não deixava. Mas até 14, e eu assistia um filme.
que é um filme do Burt Lancaster, chamado Força Bruta. Em inglês é Brute Force, é o mesmo nome. Se achar esse filme um dia, veja, porque é um filme que se passa numa cadeia, eles planejam uma fuga. E é um filme tão interessante, eu fiquei letrizado na cadeira quando eu vi esse filme. Você imagina, eu tinha sete anos.
Depois que escrevi esse livro, A Companhia das Letras, que edita os meus livros, me conseguiu uma fita, cassete na época, uma fita desse filme. E eu assisti, assisti com a minha mulher. Eu lembrava de tudo, Joana, tudo. Eu sabia frases do filme. Você imagina o impacto que ficou isso com uma criança de sete anos de idade.
E a partir daí comecei a ver filmes de cadeia. Sempre gostei de ver. E até hoje eu gosto. Até hoje eu gosto. Quando tem um filme de cadeia, se eu estou passando na televisão, vejo, eu paro. Nem vai até as duas da manhã, eu fico até as duas da manhã. Porque tem esse gosto de ver filme de cadeia. Quando veio a epidemia de AIDS, eu comecei a fazer um trabalho no rádio, na antiga Jovem Pan, que era AM naquele tempo, que era dirigida...
o diretor de redação era um gênio da comunicação chamado Fernando Vieira de Mello, que hoje é nome de um túnel da Rebouças, ali embaixo. E eu comecei a fazer isso e me pediram, uma senhora que tinha uma TV em Santa Catarina, a Dona Maria Odete Brandalice, ela chamava, quis fazer um vídeo, me pediu sobre AIDS.
E eu disse para ela, tudo bem, só que se eu puder andar nos lugares onde o vírus está se disseminando. Não, o senhor fica à vontade. E eu então fui para a casa de detenção. Eu queria mostrar o que estava acontecendo nas cadeias, que ninguém tinha noção do que estava ocorrendo.
A imprensa chamava a AIDS de peste gay. Parece que era uma coisa que só dava em homossexuais, o que era um absurdo. Não existe uma doença sexualmente transmissível que poupe um dos sexos. Qual é? Que só dá em homem ou que só dá em mulher? Claro que essas doenças se espalham universalmente. E aí eu passei o dia inteiro lá na detenção.
E fiquei muito impressionado. Uma enfermaria de AIDS era uma tragédia medieval. Ficavam os doentes morrendo naqueles catres ali, trancados. Uma coisa pavorosa. Mas tinha aquele ambiente de cadeia. Os guardas com as metralhadoras. O portão que, quando você entra, bate. Estou em outro mundo agora. Essa batida do portão é um sinal de que eu saí do mundo no qual eu vivia.
Passou aquilo, a gente passou um dia gravando lá, e eu fiquei com essa coisa da cadeia na cabeça. Não conseguia pensar em outra coisa. Toda hora me vinham aquelas imagens. Estava atendendo um doente, eu lembrava do preso, eu lembrava do guarda na muralha, o tempo inteiro assim. Eu fiquei... Deve ter tido um impacto tão grande que a minha mulher uma hora falou, você está acontecendo alguma coisa, está tão calado, você nunca foi calado assim. E aí eu falei, olha, se eu estou tão...
Então, tocado por essa experiência, eu vou chegar mais perto. Tem alguma razão em mim que considera isso uma coisa muito importante e que se eu deixar de viver, eu talvez me arrependa no futuro.
E aí comecei esse trabalho a partir dessa história. Às vezes as pessoas me diziam depois, não, esse trabalho maravilhoso que você faz, você é religioso. Não, não se trata de nenhuma justificativa. A justificativa que eu tenho é de que eu achei que eu tinha que chegar perto desse mundo. E a minha profissão favoreceu essa chegada. Foi a minha profissão que possibilitou.
E através do exercício da minha profissão, atendendo os doentes e tal, é que eu acabei andando a cadeia inteira e sendo respeitado pelos presos, como até hoje eu sou. E é uma maravilha isso, você está exercendo a sua profissão, está fazendo as coisas que você gosta de fazer, e ao mesmo tempo esse trabalho está sendo reconhecido, esse reconhecimento pelo trabalho que você faz.
É uma recompensa muito grande, é o que nos mantém. E esse reconhecimento parte de quem? Parte das pessoas que a sociedade considera escória e tranca para viver, para separar da gente.
Bom, se você não foi para os presídios pelo humanismo, o trabalho que veio em decorrência disso, do Drauzio, pessoa com curiosidade sobre como é a vida de um presidiário, Drauzio, médico, que chegou até os presídios pela medicina e por exercer essa função.
você conseguiu, no final, humanizar as pessoas que lá estão. Você tem trabalhos importantíssimos, eu trouxe aqui alguns dos livros, você tem trabalhos que falam exclusivamente dos homens, das mulheres, no encarceramento. Quando você chegou lá e você foi tocado pela vida daquelas pessoas tão...
no aspecto individual mesmo, que eu acho que é o que você traz no livro. Você conta histórias de cada uma das pessoas, você lembra de histórias, você lembra de aspectos específicos. Como foi para você isso? Você escrever sobre isso e ser tão atrelado ao seu trabalho nos presídios? Joana, a tendência nossa...
é a gente se abrigar entre os demais, que são semelhantes a nós. Você vai sair com seu marido, seu namorado e vai jantar fora com um casal de amigos.
Eles são jornalistas, são pessoas que você conhece há muito tempo, eles têm as mesmas preferências políticas, as mesmas preferências sociais, uma condição financeira mais ou menos parecida. Você está certa de que naquele jantar não vai acontecer nada de desagradável. Ninguém vai falar uma coisa grosseira, você conhece as pessoas.
Isso dá segurança para a gente. O convívio com os nossos semelhantes, ou os nossos iguais de preferência, é um convívio seguro. Mas ele é empobrecedor. Se você só convive com os que são iguais, você vai ficando sempre do mesmo jeito, porque você não tem contato com o contraditório, não tem ninguém que cheque os seus valores, não tem ninguém que leve uma vida completamente diferente da sua.
E é isso que nos enriquece. E o que eu encontrei nas cadeias foi isso. De repente eu conheço um cara que é ladrão. Ladrão. E ele te conta um assalto que ele fez, no qual ele tomou dois tiros. Você...
Você alguma vez tomou tiro? Alguma vez você convida um amigo para jantar, que ele te conta o que aconteceu no assalto e o que aconteceu com ele depois de ter levado esses dois tiros? Isso vai enriquecendo a vida. Eu vi uma palestra uma vez nos Estados Unidos de um dos pais da inteligência artificial. Esse cara chegou...
Era um encontro de altíssimo nível. Tinha vários prêmios Nobel lá e tudo. Ele chegou com um copo. Pegou o copo e pôs em cima da mesa. Virou para o primeiro da... A pessoa sentada na primeira fila. Eram todos médicos e ou pesquisadores. E disse para ele, o que é isso aqui? Falou um copo. O cara riu. Falou, o que te lembra um copo?
copo para beber água. Aí pegou o outro e falou, o que o copo te lembra, esse mesmo copo? O cara diz, ah, lembro que eu gosto de tomar vinho no copo.
E ele foi assim perguntando de um em um. Um disse, eu lembro que eu cortei a mão quando bati o copo na pia e cortei a mão. E ele diz aí, você não... Cada um tem o conceito de copo aqui. E por isso que você não pode procurar a verdade nas coisas, que cada um tem a sua verdade. Isso foi uma coisa que me marcou muito.
porque você não tem que procurar o verdadeiro significado, porque o verdadeiro significado não existe, ele depende da sua interpretação. E o raciocínio, e é verdade, porque o que é o raciocínio mais completo?
É aquele que analisa todas as possibilidades. Você olha para o copo, o que é esse copo? Bom, posso pôr água, posso pôr vinho. Se eu bater na pia, ele quebra e pode me machucar. E assim, quanto mais informações você tiver, mais elementos você tem para entender.
As realidades. E a cadeia me deu isso. Esse convívio com essas pessoas. Porque na verdade as paixões humanas são limitadas. O cara diz, não, ali são todos animais. Aqui também somos todos animais.
vegetais é que a gente não é, muito menos minerais. Você não pode tentar equalizar as pessoas todas, porque elas são muito diversas. As paixões são as mesmas. Você tem amor, ódio, ciúmes, raiva, carinho. As paixões não é porque você está presa que você muda o repertório de paixões.
Isso é muito interessante. Há valores que eu aprendi na cadeia que eu não encontrei nunca na sociedade aqui fora. Mas, por exemplo, você disse agora há pouco que você não gosta de bandido. Ninguém gosta de bandido.
Mas você gosta das contradições humanas de aprender com a pluralidade da vida humana. Quando você conhece uma pessoa que ultrapassou ali algum limite de uma régua moral, aquilo te atinge? Ou você não olha pelo aspecto moral? Aí entra a profissão. Eu não estou lá como funcionário da cadeia. O trabalho é voluntário.
Segundo, eu sou médico. Não cabe ao médico julgar os seus pacientes. Não cabe, não é papel do médico. Vamos pegar uma situação oposta. Eu sempre tive clínica particular e clínica grande. Chega um homem de gravata, trabalha na Faria Lima. Pode ser um criminoso. Pode ser um grande criminoso até. Muito maior do que os que estão lá atrás das grades. Eu não pergunto.
Eu não pergunto, eu mando ele tirar a camisa, tirar a roupa, eu examino, prescrevo. Eu não quero saber da vida dele, eu não fui treinado para isso. Isso é para os juízes, juízes é que julgam. Os advogados é que são treinados para lidar com esse tipo de julgamento. Ao médico não cabe.
O médico tem que atender as pessoas, independente de quem elas sejam. Então você não pode usar esse raciocínio que você usa para o consultório, não me interessa o que esse cara faz na rua, não me interessa o que ele faz para viver, eu tenho obrigação de tratá-lo. Chega na cadeia, por que você não faz isso? Só porque aquele é pobre e o outro está bem de vida?
Impressionante. Drauzio, tome um golinho de água, porque hoje eu vou fazer uma coisa que eu nunca fiz. Claro, a nossa produtora está aqui, eu estou tomando ela de surpresa, ela está tomando um susto aqui. A gente tem 53 minutos de conversa, normalmente o imprevista, já, 53 minutos, normalmente o imprevista é um programa de uma hora de duração, porque passa na rádio e a gente tem o horário fechado a cumprir, mas também temos no nosso canal do YouTube, TMC News BR, que dá para ver com imagem e tudo mais. Eu vou fazer o seguinte.
Eu vou encerrar o programa da rádio agora. E como tem muitos assuntos que eu ainda quero falar com você, como, por exemplo, seu documentário, a sua vida fitness, as suas corridas, maratonas, eu vou continuar essa conversa aqui no nosso canal do YouTube. Então, se você está nos ouvindo no Dial, na TMC, no rádio, e ficou interessado ainda na nossa conversa, vai lá assistir no TMC News BR, no Imprevista, aqui com Drauzio Varela.
Então, seguindo, eu ainda queria falar sobre essa questão das vulnerabilidades, sobre a humanidade. Sua filha nos disse que você é um ótimo ouvinte. E eu acredito que isso seja uma característica que talvez esteja em desuso. As pessoas gostam de ser ouvidas, mas ouvir demanda paciência, calma, tempo. Você aprende?
a não julgar quando você realmente escuta alguém? Esse é o momento? Eu acho que depende. Às vezes estou conversando com uma pessoa e eu acho que ela é mau caráter. Eu acho que nem é a intenção de julgar, mas eu sinto isso e acabou. Estou julgando. O que eu acho que você não deve julgar é quando você está exercendo a profissão de médico. Você está atendendo um doente.
O teu compromisso é com a saúde dele, com o problema médico que ele tem. Nessa hora, isso não é hora de julgamento. Você pega um... Olha o que acontece normalmente. Um cara está assaltando transeuntes, aí toma um tiro, vai para o hospital. Chega no hospital, precisa ser operado imediatamente porque a bala pegou nos órgãos internos. Ele não pode falar, não, não opero, porque esse cara não merece estar vivo.
Isso é antiético. O cara não pode fazer isso de jeito nenhum. Mas você, numa situação dramática como essa, de um tiro, você faz. Você diz, não, vamos operar e acabou. Não é problema meu. Por que não faz isso quando você faz um atendimento clínico? Você cuida de você como você cuida dos outros? Por exemplo, terapia. Você faz terapia? Não faço.
Não faço. Não que eu não acredite, imagina, coisa mais importante. Mas eu...
Lá, venho de uma época em que a terapia não era uma coisa tão comum. Fui vivendo assim. Nunca senti essa necessidade mesmo, sabe? Eu acho que se tivesse feito psicanálise, etc., eu estaria numa situação melhor hoje. Mas agora eu acho que está um pouco tarde para mim. E não tem também nada aflitivo que me leve, sabe? Uma angústia, depressão.
Sou um pouco ansioso, mas sou ansioso de um jeito contornável. Como é que a sua ansiedade se expressa? Aí eu fico sempre preocupado com o horário, sabe? Não era assim quando eu era jovem. Você chegou bem cedo hoje. É, chego em todo lugar cedo. Quando eu vou para o aeroporto, então você não imagina.
Eu chego duas horas antes, vai chegando perto. E você vai para o aeroporto de Guarulhos, então, saio quatro horas antes. Minha mulher briga comigo até. E nas corridas, no dia de corrida, você fica ansioso? Bom, e todos ficam. Todos os corredores? Todos os corredores ficam. Especialmente corridas longas, como as maratonas, que você não tem segurança nenhuma de que você vai chegar, né?
42 quilômetros, pode acontecer o diabo no caminho. Todos ficam ansiosos. O que tem sido a corrida para você? Tem um movimento muito grande das pessoas começarem a correr. Existem modas, mas há modas que são saudáveis. Você mexer o seu corpo e ser inspirado por outra pessoa, mexer o seu corpo é uma moda saudável. Como é que tem sido a corrida na sua vida? Você fez um documentário recentemente sobre isso.
Olha, eu comecei a correr com 50 anos. Eu fui fumante, como a maioria dos idiotas da minha geração. Eu também fui. Eu fumei 19 anos. Eu fumei 13. Mas eu parei, como você. Eu também parei. Mas aos 50 anos eu corri a primeira maratona. E corri numa época que ninguém corria.
Aqui em São Paulo, se corria na rua, as pessoas mexiam com você. Onde vai? Está fugindo da polícia. E era muito raro.
A primeira maratona que eu corri foi em Nova York. Está no filme que foi feito pelo pessoal da Júpiter. Foi em Nova York, 1993, o ano que eu fiz 50 anos. E corri a maratona porque eu decidi que aquele seria um jeito de provar para mim mesmo que eu não estava ficando velho.
Naquela época se considerava um homem de 50 anos já velho. 60 anos velho. 70 anos, velhíssimo. Todo mundo morria antes. E 80? 80 ninguém chegava. Alguns chegavam, claro, mas eram muito poucos. E aí a primeira maratona que eu corri...
Tinha 13 mil corredores em Nova York. Tinha uma maratona em Nova York, mas em Boston, nos Estados Unidos. Acho que tinha mais uma ou duas. Na Europa também. Ninguém corria naquele tempo. A medicina, nos anos... Quando eu me formei, os médicos diziam para os homens e mulheres com mais de 50 anos para não fazer esforço. Diziam, faça repouso. Não exagere. Para esperar a morte chegar? Esperar a morte.
Porque eles achavam, a medicina achava que se você mantivesse o corpo parado, os órgãos se desgastariam menos. Imagina, é um absurdo. Isso virou um paradigma.
Inverteu, não. Hoje você opera o abdômen de manhã, quando chega tarde, o médico chega lá e te põe a pontapé para fora da cama. Porque a gente sabe que o movimento é essencial. Então tinha pouca gente que corria. Para mim me ajudou muito, porque eu senti que uma corrida longa assim impunha um estilo de vida.
E aí eu me apeguei a esse estilo de vida. Porque você precisa treinar, treinar muitas vezes. Você tem que sair à noite, você tem treino no dia seguinte, você volta mais cedo. Você não bebe ou bebe pouco. Você se controla melhor, você não engorda. E tem muitas vantagens que eu consegui. E além do que ser um ansiolítico e um antidepressivo potente.
Eu falava isso nos anos 2010, 2000, por aí, para os meus colegas psiquiatras. Eles diziam, Drosma, não tem uma evidência científica de que quem corre tem menos depressão ou que a corrida ajuda a controlar a depressão. Hoje está cheio de trabalhos provando isso. Onde é que a gente pode assistir o longa? No YouTube.
Está no YouTube esse longa, tem um resumo geral aí da minha vida e a importância da maratona no meu dia a dia. E é muito interessante. Então quem está nos assistindo no YouTube é só esperar terminar aqui.
procurar ainda no YouTube, vai ficar um tempinho sentado a mais, mas depois vai se mexer e aí, né? Vai se sentir muito preguiçoso com o cara velho desse jeito. Vai se hidráulico, varela, por três horas depois vai correr.
Drauzio, para a gente encerrar, eu queria falar com você sobre a tua família. Sua filha falou que você sempre foi uma pessoa muito presente, principalmente nos momentos mais difíceis, mais vulneráveis da vida dela. É muito doce ouvi-la falar isso. No momento em que ela teve questões na vida pessoal, como todos temos. Isso é o papel do pai ou é algo que vai além do papel do pai?
Eu não sei. Você cria filho com exemplo. Não adianta você chegar para a sua filha e dizer, ah, filha, você não pode beber, você está bêbado, ou chega bêbado em casa. Você não cria filhos com palavras. Essas palavras têm que ter uma consonância com o seu comportamento. Meu pai ficou viúvo com 33 anos.
Minha mãe morreu com 32, deixou uma filha de 7 anos, eu com 4, meu irmão mais novo com 2. E ele foi pai e mãe a vida inteira. Controle, eu não lembro enquanto, depois ele casou mais tarde, mas passou muitos anos, ele sozinho com a gente. Nunca vi meu pai sair um sábado à noite ou um domingo, ele passava o fim de semana com a gente. Trabalhava a semana inteira e estava com a gente.
Sempre presente. Mesmo trabalhando das oito horas da manhã até meia-noite, ele estava presente. E ligava, telefonava, controlava a gente. E era duro com a gente. Eu cresci sob essa influência. Eu me casei. Eu tinha perto de uns 27, 28 anos. Tive duas filhas. E depois o meu casamento acabou. Depois de um tempo, acho que 11 anos no total.
as coisas ficaram complicadas, nós começamos a nos desentender com mais gravidade, e a gente se separou. Eu sofri muito essa separação, não por causa da relação com a minha ex-mulher, porque já tinha sido desgastada no decorrer desse tempo, mas porque naquele tempo não tinha guarda compartilhada como hoje.
E eu não me conformava, eu tinha duas filhas pequenas, uma tinha oito, outra seis anos. Eu não me conformava que eu ia ter que viver longe delas. Meu desencontro não era com elas, era com a mãe delas. Desculpa. Aí entrei, fiquei muito triste mesmo, mas eu procurei o tempo todo estar mais próximo que eu pudesse delas. Então, por exemplo, eu levava elas para a escola todos os dias.
Elas estudavam muito perto de casa. E eu saía de outro lado da cidade, passava lá para buscá-las e para deixá-las na escola sem nenhuma necessidade, mas para estar próximo delas. E fiz isso até elas entrarem na faculdade. Aí uma entrou na USP, outra entrou em Santo André, aí não tinha condição mais de fazer isso. Aí elas passaram por conta própria. E a gente manteve isso.
Até hoje, eu tenho uma filha que trabalha e mora nos Estados Unidos, eu falo com ela todos os dias. Na maior parte dos dias de manhã e à noite. Duas vezes por dia. Às vezes é só para dizer, tudo bem aí, tudo bem, tchau, um beijo, durma bem. Mas, sabe, se tem filho, filho é uma coisa que...
a relação mais profunda que você deve construir, não é? Nem sempre as pessoas conseguem, nem sempre é fácil fazer isso, não é? Mas essa é uma relação que você tem que estar mais... E pra pai? Você ter filha? Pro pai?
É o máximo, né? Só se você não soubesse relacionar com ela de jeito nenhum. Aí vai procurar uma terapia. É, aí sim. Aí sim. Drauzio, para a gente encerrar, depois de te ouvir durante todo esse tempo, o amor é um dos remédios mais potentes para a nossa saúde? Eu acho que sim. Porque quando você tem uma fase de procura,
Você é solteira, você quer sair, quer conhecer uma pessoa legal. E você... Isso toma muito tempo.
Você fica empenhada nessa história por muito tempo e muitos desencontros. E um impacto emocional grande. O coração é atingido por essas... De repente você conhece um cara que você acha legal. Esse cara é o cara que eu estava procurando. E de repente dá tudo errado. E aí começa de novo. Vai dando um cansaço.
Você tem que investir muito tempo nessa fase. Quando você encontra uma pessoa com quem se dá bem, você se dá bem, com quem você está vivendo legal. Não que não tenha problema, sempre tem. Mas no total está bem. Você está melhor com aquela pessoa do que sozinha. Isso eu acho que é o critério fundamental. O casamento, a união que você faz com uma outra pessoa.
é porque você vai viver melhor desse jeito do que do jeito que você vivia antes sozinha. Porque quando você vai viver de um jeito que é pior, aí não tem por que existir essa relação e muito menos a união. Em compensação, quando você tem uma relação harmoniosa...
Pô, sobra tanto tempo para o resto, né? Fica tão... A vida fica tão mais rica, não é? E mais leve. Muito mais leve. Um ajuda o outro, né? Não fica um criando problema para o outro. Que muitas vezes as relações são mantidas assim, não é? Sim. Qual é a regra geral? Pega a geração anterior à sua. Quantos casais você conhece que se conheceram, casaram, tiveram filhos ou não tiveram, e viveram bem e continuam vivendo bem hoje?
É uma minoria, não é? É. Às vezes você olha e fala, nossa senhora, que sai faísca dessa relação dos dois. E conseguir esse nível de entendimento é privilégio de poucos.
Muito bem, Drauzio, muito obrigada pela conversa. É muito enriquecedor falar com você. A forma como você é acessível, como você fala de forma fácil, para tudo, para todos, sobre qualquer assunto, é algo que nos faz ganhar muito. Então, toda a sua vida, todo o seu trabalho, nos dê um presente como sociedade, como país, como povo.
obrigada por essa dedicação, sou mais uma das suas fãs, tenho aqui todos os livros, já já você vai autografar trouxe só três, que é pra não parecer que eu sou fã demais, né, que a gente tem que ser um pouquinho blasé hoje em dia, né, é o mínimo então tenho aqui carcereiros tenho carandiru, tenho prisioneiras obrigada por tudo, pela entrevista e por tudo de forma geral
Eu que agradeço, viu, Jônia? E agradeço especialmente as suas palavras tão carinhosas. Esse foi mais um Imprevista, dessa vez com um tempinho extra necessário. Se eu pudesse, eu ficaria aqui mais tempo, mas infelizmente a nossa produção não deixa. Até a próxima quinta-feira, sempre às quintas-feiras, às 11 horas da manhã, aqui no nosso canal do YouTube, entrevistado novo no Imprevista. Tchau.
Sem filtro, sem script. Imprevista. Podcast original TMC. Com Joana Trepto.
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