Episódios de Rogério Bezerra | De 180 milhões a reconstrução

QUANDO QUISERAM COMPRAR MINHA EMPRESA

04 de maio de 202612min
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A proposta de compra mudou completamente a forma de enxergar o negócio.


 Neste episódio, compartilho como entendi o valor da empresa e o que isso mudou na estratégia.

Participantes neste episódio1
R

Rogério Bezerra

HostFundador da Baby Roger
Assuntos3
  • Estratégia de Compra e VendaEntendendo o valor da empresa · Processo de aquisição por escritórios de M&A · Estratégia de aquisição da Hipermarcas · Valuation de empresas por múltiplos de EBITDA · Due diligence e identificação de riscos · Impacto da organização interna na venda
  • Valorização da empresa e estratégiaFoco no lucro em detrimento do faturamento · Importância da marca e cultura empresarial · Ser substituível como dono para vender a empresa · Organização e transparência para valorizar o negócio
  • Jornada Pessoal ProfissionalA descoberta do valor da própria empresa · A importância de se cercar de pessoas experientes · Conselhos para empreendedores sobre organização e riscos
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Um dia eu recebi uma ligação, era um escritório de fusões e aquisições. Eu nem sabia o que era isso. E aí a pessoa me explicou, olha, nós somos um escritório, trabalhamos com prospecção, aquisição de empresas, nós estamos nesse momento representando a Hipermarcas.

E a gente está buscando empresas no segmento que tenham fit com a empresa e que poderia servir para hipermarcas. Nossa, naquele momento eu não sabia nem o que pensar, né? Tudo que eu tinha visto sobre empresas, venda de empresas, que eu pensava que...

só existia para empresas enormes. Eu estava ali naquele momento conversando com uma empresa sobre a possibilidade de vender a minha empresa. Aí eu perguntei, como é que funciona? Não, queria marcar uma reunião pessoalmente com você para te explicar como é que funciona, para a gente ver se faz sentido. A Hipermarcas, naquele momento, estava adquirindo bastante empresas, já tinha adquirido umas duas empresas no meu segmento.

e ela ia, de acordo com o escritório, continuar adquirindo, até não sei que momento, mas ela ia continuar comprando empresas. E eu marquei a reunião presencial com ele. Para quem não me conhece, eu sou o Rogério Bezerra, fundador da Baby Roger. Esse é o capítulo 11 da série Jornada Empreendedora.

E hoje eu vou falar do dia que eu descobri que a minha empresa tinha valor. Foi um dia realmente surpreso para mim, não tinha noção disso. Então a Hipermarcas, até hoje, talvez uma das empresas mais agressivas que eu já vi na minha vida, no bom sentido.

Entre 2008 e 2011, comecinho de 2012, ela deve ter adquirido cerca de 40 empresas. Dentre delas, várias no segmento de descartáveis, que era o meu segmento. E o meu telefone tocou, marquei a reunião presencial para entender. Até então, você via na televisão, via na revista, mas pessoalmente...

Eu não fazia nem ideia que a minha empresa poderia realmente ter um valor. Naquela época, a gente já tinha duas fábricas bem posicionadas, uma empresa em Pernambuco, atendendo o norte e nordeste, e a daqui em Varzé Paulista, atendendo o sul, sudeste e centro-oeste.

A empresa lá com todos os incentivos e a empresa aqui organizada, nesse momento já super formal, não totalmente organizada, mas já estava muito organizada, já estava totalmente regular. Então já dava para ter uma conversa nesses níveis. Embora eu tinha me preparado para crescer, mas para ser honesto nunca tinha passado pela cabeça que a empresa podia ser vendida. E naquele momento...

Recebi a pessoa conversando, ele falou assim, Rogério, funciona da seguinte forma, eu vou conversar com as empresas que possam fazer sentido para hipermarcas, vou analisar, vou te pedir os dados, leva os dados para eles, eles vão chegar para você e falar assim, olha, de acordo com esses números, a gente está disposto a pagar X.

E aí você fala se faz sentido, você toca para frente, não tem muita margem para brigar no preço, mas o preço te garanto que vai te alegrar. Na época, a gente devia faturar já em torno de 100 milhões de reais por ano. Devíamos ter um EBITDA mais ou menos de uma geração de caixa, de uns 10 milhões por ano. Considerando que as empresas no meu segmento giravam em torno de um múltiplo de 10 vezes o EBITDA,

que gerava no ano, isso queria dizer que a empresa devia valer entre 100 e 120 milhões. Falei, meu Deus do céu, imagina a possibilidade de vender a empresa por 100 milhões. Então ele falou, bom, vamos lá. Então a gente vai trabalhar com múltiplo, eu levo os números, e naquele momento eu não tinha noção como é que funcionava, mas com o passar dos dias eu fui entendendo como é que funcionava.

você vender uma empresa. Isso não é com base em achismo, venda de empresa. Tem critério, tem regra, e quando você entende isso, você consegue ajudar os seus números. Por exemplo, uma empresa fatura 100 milhões, tem 10 milhões de EBITDA, vale em torno de 100 milhões, aproximadamente. Coincidentemente, o mesmo número do faturamento anual.

E aí eles vão lá e vão analisar. Tem uma auditoria que chama do Diligence, que vem, eles contratam uma consultoria, vem dentro da sua empresa para poder olhar tudo, para poder validar todos os números que você falou, se fazem sentido ou não.

Então, eles vão olhar lá, você tem aqui, sei lá, 300 funcionários. Dos 300 funcionários, você tem 20 funcionários que são PJ. E aí, como é que eles agem? Ah, se você tem 20 funcionários PJ, em tese, todos podem entrar com uma ação ao mesmo tempo. Poderia gerar um valor de não sei quanto, por exemplo, de 2 milhões de reais.

Então, se a empresa vale 100 milhões, vão combinar o pagamento, se é parcelado, seja lá como for, e vão separar numa conta que chama de escro os valores para a prevenção de possíveis riscos. Por exemplo, esse de PJ. Aí eles vão colocar numa conta e falar assim, olha, a gente vai deixar 2 milhões nessa conta e a cada ano a gente libera, por exemplo, 200 mil reais.

Durante cinco anos, esse dinheiro fica preso parte dele até o último ano, para se tiver qualquer ação, o dinheiro já está lá para poder resolver. Então, tem vários detalhes, esse é um detalhe, só para vocês entenderem como é que funciona esse processo de venda de empresa. Isso se alongou por muitos meses, porque uma venda de empresa normalmente demora de oito meses a um ano e meio, em média isso.

Às vezes um pouco mais e raros casos menos que isso. Mas é mais ou menos o tempo que leva para a venda de uma empresa. E você não consegue trabalhar. Eu, pelo menos, não conseguia trabalhar. Fiquei super iludido com a possibilidade de vender a empresa e você fica com dificuldade de focar. Demanda muito trabalho, tipo organizar a empresa. Não organizar mais para vender, mas só o processo.

Você já tem que arrumar muito mais os dados para poderem serem auditados, você validar os próprios números que você está falando, tudo que você fala você vai ter que mostrar e provar, não vai ter o que fazer. Sabe aquela burocracia que você evita, que acha frescura, registrar marca, contrato com fornecedor, contrato com cliente, acha que é bobagem, você tem uma contabilidade organizada.

Mas na hora que você pensa na possibilidade de vender a empresa, tudo isso que você não se preocupou vai depreciar o valor do seu negócio e você vai perder muito dinheiro. Como é que a empresa que vai adquirir precifica o risco? O que ela faz? Ela coloca lá numa conta. Você tem 10 funcionários sem registro, provavelmente os 10 vão entrar na justiça, os 10 vão ganhar e vão ganhar o valor máximo. É assim que ela pensa.

Ah, se você tem uma pequena parte ou média parte por fora, vai vir uma fiscalização, vai te multar no máximo, vai estimar no máximo, vai dar errado com certeza e vai ter que pagar. E assim ela vai somando e vai virar uma conta.

enorme, aí ela vai separar um valor falando que é de escro para suprir esse tipo de risco e o dinheiro vai ficar preso. E, obviamente, que tem outros problemas, né? E se vier uma fiscalização, não vai ser com o cuidado que você teria, muito provavelmente vai falar, precisa fazer, autue aí que a gente vai pagar e está tudo certo.

Então, se você não quer correr esse risco, é preferível que você tenha o devido cuidado de ter um processo lícito, transparente, averiguável, que tudo isso vai valorizar a sua empresa e você vai ter chance de ganhar muito mais.

É óbvio que durante esse período do primeiro telefonema, eu não sabia, obviamente, nada, nunca tinha pensado nisso, não sabia nem que dava para vender a empresa. Mas conforme o andar da carruagem, conforme os meses foram passando, você vai entendendo como é que funciona, os porquês, né? Se você tira um prolabore alto, não compensa porque diminui a rentabilidade da empresa, então é preferível você...

tirar um prolabore menor, menor que eu falo também, você não pode fazer um negócio de mil reais, não existe isso, porque você não vai conseguir contratar um profissional por mil reais. Por outro lado, se acharia por 10 mil, não adianta você colocar 20, porque você vai diminuir o valor da sua empresa. Então é preferível você fazer um prolabore de mercado e retirar via dividendos.

distribuição de lucros é o melhor caminho porque se você tirar o dinheiro por distribuição de lucros você não vai afetar o valor da sua companhia e consequentemente isso tudo vai no final mais dinheiro para você então você vai aprendendo vai desenvolvendo

Vai fazendo e é lógico que se cercar de quem você pode se aconselhar, né? Eu, se eu tivesse tido a oportunidade nessa época de conversar com alguém que tivesse passado ou vendido a empresa ou passado pela possibilidade de vender a empresa.

você entra muito melhor numa negociação e faz a coisa muito mais certa. Mas eu, particularmente, no meu entorno, como eu, ninguém sabia nem que era possível vender uma empresa, quanto mais passar pelo quase vender como nós passamos. O conselho que eu dou é você se cercar de pessoas que fizeram mais que você ou que estão onde você gostaria de estar.

Registre a marca, organize a contabilidade, meça os riscos que você vai correr, porque mesmo que você não esteja pensando em vender sua empresa, é uma possibilidade e este cuidado só vai valorizar, você não vai perder nada.

O que eu aprendi? Que o faturamento alimenta muito mais o ego do que o bolso. Porque quando eu falei para vocês que a empresa é calculada por um múltiplo de EBITDA, se sua empresa fatura 100 milhões, gera 10 milhões de caixa, e o múltiplo do seu segmento é 10 vezes, sua empresa vale 100 milhões. Agora, se você fatura 100 milhões, gera 1 milhão de EBITDA.

Com múltiplo de 10, ela vale 10 milhões, ela não vale 100 milhões. Então você tem que se preocupar com lucro. Não adianta você só focar no faturamento que não vai resolver o seu problema. Em relação ao esqueleto no armário, é preferível você mesmo tirar e organizar do que esperar que alguém faça isso por você. Não compensa, é melhor você fazer.

É melhor você medir o que tem valor. Marca é o que tem valor na sua empresa. Produtos todo mundo faz, todo mundo copia. Agora, a cultura de uma empresa, o posicionamento da marca, como o consumidor se identifica com o seu produto, isso é o que diferencia uma empresa das outras.

Uma empresa que não pode ser vendida, ela te escraviza, né? Você precisa possuir a empresa, não a empresa te possuir. E se você tem uma empresa que você se vangloria, que você é insubstituível, saiba que muito provavelmente isso vai impedir de você vender sua empresa. Porque uma multinacional, uma empresa maior, não tem como.

adquirir a empresa se o dono não puder ser substituível. Por isso que grandes empresários, lógico que ele é importante na empresa, mas ele não se faz insubstituível porque senão ele vai ter que morrer abraçado com a empresa.

E isso não é inteligente no mundo dos negócios. Isso não vai valorizar o seu equity em hipótese alguma. Vai depreciar, não tenha dúvida disso. No próximo episódio, eu vou falar para vocês o que aconteceu quando a Hipermarcas parou com as aquisições que ela vinha fazendo no mercado.