Episódios de Histórias Para Inspirar

Aventureira Marielle e o dia da fotografia, por Marco Mendonça

04 de maio de 20267min
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Marielle é uma menina orgulhosa do seu cabelo afro, até ao dia em que alguém lhe diz que, para a fotografia na escola, tem de o pôr lindo e arranjado. Será que há alguma outra maneira mais certa de ser bonita?

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Participantes neste episódio1
M

Marco Mendonça

Narrador
Assuntos3
  • Cabelos naturais e identidadePressão social para adequar o cabelo · A beleza da diversidade capilar · Marielle · Maria
  • FotografiaExpectativas e ansiedade · Regras da professora
  • Renovação de EsperançaNovos ares e liberdade · Vila Esperança · Lisboa
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Histórias para inspirar. Olá, meu nome é Marco Mendonça e vou ler o livro Aventureira Mariel e o Dia da Fotografia. A Mariel acordou com uma alegria imensa. Era o seu primeiro dia a viver na encantadora Vila Esperança, no sul de Portugal.

Em Lisboa não tinha muito espaço, mas agora podia brincar livremente e jogar futebol sem partir nada. Saltou da cama, vestiu-se, engoliu o pequeno almoço e voou para a rua para se encontrar com o primo Narciso. Juntos iam explorar a linda vila construída em formato de croissant, a comida favorita dos dois.

Estavam os primos a lambuzar-se congelados e a descansar à sombra, depois de uma manhã de exploração, quando uma criança se aproximou. Tinha um cabelo liso que lhe batia nas orelhas e um lindo sorriso. Olá, Narciso, cumprimentou a criança, olhando atentamente para a Marielle. Quem é? Olá, Maria. Esta é a minha prima Marielle. Mudou-se para cá e vai ser da nossa turma, disse o Narciso, entusiasmado.

A Maria esboçou um sorriso que a Mariel retribuiu. Que bom! Então já sabes que na segunda-feira é o dia da fotografia. Fotografia? Perguntou a Mariel, confusa. Sim, o primeiro dia de aulas é o dia da fotografia. É muito divertido. Vamos todos bem arranjados, disse Narciso, sonhador. A Mariel sorriu com a ideia, mas antes de poder responder, a Maria antecipou-se. Vais adorar! Se quiseres, posso ir contigo arranjar o cabelo.

Arranjar o meu cabelo? Perguntou a Mariel, confusa. Sim, para ficar bonito, arranjado e cheiroso para a foto. A Maria sorriu. A Mariel encolheu os ombros e correu até ao lago, para tirar o gelado derretido das mãos. Os outros seguiram-na e puseram-se a tirar pedras à água, para ver quem conseguia, até à hora de ir para casa, fazer com que a pedra saltasse mais vezes à superfície.

Mais tarde, ao jantar, a Marielle não conseguia parar de pensar no que a Maria tinha dito. Até aquele momento, sempre pensara que os seus pompons lhe ficavam muito bem. A mãe e o pai queixavam-se dos buracos que a Marielle fazia na roupa enquanto jogava a bola, mas diziam que ela tinha o cabelo mais lindo da família. A cada garfada, mais perguntas surgiam. Por que é que os caracóis dela não eram bonitos?

O cabelo estava tão lavadinho e ela gostava tanto do cheirinho. Por que a Maria tinha dito aquilo? Depois do jantar, já deitada, a Mariel pôs o seu plano em prática. Ficar bonita. Quando lavava o cabelo, ele ia para baixo. Portanto, se conseguisse que o cabelo ficasse assim, liso, tal como o da Maria, então ficaria bonita. Agarrou na escova e numa garrafa de água e pôs-se em frente ao espelho.

A Mariel escovou e molhou, escovou e molhou. Mas os seus caracóis acabavam sempre por voltar ao mesmo sítio. No dia seguinte, a guerra continuou. Agarrou em todos os ganchinhos, molas e elásticos que encontrou para tentar manter o cabelo em baixo, porém nada parecia resultar. A Mariel desistiu.

Na manhã a seguir, saltou da cama como uma mola. O primeiro dia de aulas tinha chegado. A Mariel vestiu o seu equipamento de futebol favorito e pôs um gorro para tapar o cabelo. Ao vê-la, os pais espantaram-se. Mariel, filha, para que o gorro? Está calor lá fora? Riram-se.

Eu gosto, mamã. Dá-me estilo, mentiu a Mariel. Ao chegar à escola, Mariel conheceu a professora e os seus novos colegas. Todos tão bonitos e bem arranjadinhos, despedindo-se dos pais. A Mariel despediu-se da mãe e do pai com um abraço muito forte e uma lágrima no canto do olho. Quando chegares a casa, vais ter um croissant à tua espera, disse o pai, choroso, enquanto a mãe o obrigava a sair da escola.

Meninos, nada de chapéus, gorros ou outros acessórios que tapem a cara, a menos que seja por motivos religiosos ou culturais, disse a professora entusiasmada. A Mariel começou a tremer. Não podia esconder o cabelo. Toda a gente ia ver quão feio era. E não ia fazer amigos. A professora notou que algo estava errado e perguntou o que se passava.

Posso tirar a foto com o gorro, professora? Perguntou a Mariel, baixinho. Mas porquê? Perguntou a professora, bem-vinda. É que tenho um cabelo muito feio e não quero que ninguém o veja, sussurrou a Mariel. Toda a turma abriu a boca de espanto.

Por que dizes isso, Mariel? Perguntou a professora, espantada. A Maria disse que eu tinha de o pôr bonito, cheiroso e arranjado para a fotografia. Depois reparei que caracóis como os meus nunca aparecem na televisão, nem nos livros. Deve ser porque são feios. A Mariel chorava.

Mariel, o cabelo faz parte daquilo que nós somos e da nossa história. Mas não é a única coisa. Somos muito mais que o nosso cabelo. Alguns cabelos são muito encaracolados, como o teu afro. Outros têm caracóis mais soltos. Outros têm jeitos. Há cabelos lisos, com rastas, como as minhas.

E alguns são carecas, como o meu pai, que interrompeu um colega a rir. Podíamos ficar aqui o dia todo a falar de diferentes cabelos, disse a professora. Mas temos uma fotografia para tirar. Lembrem-se de que o cabelo pode ser uma forma de expressão de cada um. Uma extensão da nossa imaginação. Independentemente do género e da idade. Podes ter o penteado que quiseres, Mariel. Desde que te sintas feliz e confortável.

O que me dizes? Estás pronta para a tua foto? Perguntou a professora. Sim, respondeu a Mariel. Muito feliz por ver cabelos tão diferentes, mas tão lindos à sua volta, incluindo o seu. É verdade. O meu afro é grande, demora a pentear, mas é lindo de arrepiar.

Todos se riram e, um a um, de sorriso estampado no rosto, tiraram a foto da escola. Felizes num dia que a Mariel recordaria como o melhor primeiro dia de escola de sempre. Da autora Nuna e da editora Nuvem de Letras.

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