Episódios de As Histórias da Bíblia

Caim e Abel: a luta de irmãos mais famosa da História

10 de maio de 202637min
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O homicídio de Abel por Caim é uma das histórias mais célebres da Bíblia. Mas porque é que um irmão se voltou contra o outro? O podcast "As Histórias da Bíblia" está de volta para a segunda temporada.

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Participantes neste episódio3
J

João Francisco Gomes

HostJornalista
D

Daniel Nascimento

ConvidadoPadre e professor
J

João Basto

ConvidadoPadre e colunista
Assuntos6
  • João BarradasOrigem e contexto bíblico · Rivalidade e ciúme entre irmãos · O sacrifício e a rejeição divina · O primeiro homicídio · A punição e a marca de Caim · Interpretações teológicas e literárias
  • Violência no MaliOrigens da violência na Bíblia · A tentação e o mal à porta · A escolha e a liberdade humana
  • Propósito de Deus na famíliaConflitos entre irmãos · A fraternidade como projeto ético · Reconciliação e perdão
  • Estudo Bíblico EfésiosA Bíblia como literatura · Silêncios e ambiguidades textuais · Releituras e influências culturais · A leitura infinita da Bíblia
  • A presença de DeusDeus como criador e redentor · A justiça e a misericórdia divina · Deus em diálogo com a humanidade
  • Debate sobre CriacionismoGênesis e os primeiros capítulos · Adão e Eva · A condição humana
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Será que a história da humanidade começa com um conflito mortal entre irmãos? Este é o primeiro episódio da segunda temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador. Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador. E depois de, na primeira temporada, termos percorrido a história bíblica do princípio até ao fim, nesta segunda temporada, com a ajuda destes dois especialistas, vamos, todas as semanas, olhar para algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia.

Neste episódio, vamos olhar para a história bíblica dos primórdios da humanidade, logo nos primeiros capítulos do Génesis, ainda nas páginas da Bíblia que contam os mitos da criação. É lá que encontramos a história dos irmãos Caim e Abel, os dois filhos de Adão e Eva. Uma história de rivalidade e ciúme que acabou em tragédia, escrita para ajudar a compreender a natureza humana e que também ajudou a moldar histórias de irmãos desavindos na literatura, no cinema e na televisão.

Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos. É verdade, as Histórias da Bíblia estão de volta para mais uma temporada. Muito obrigado a todos os ouvintes da primeira temporada e foram muitos. E foram muitos também aqueles que nos encorajaram a continuar. Ora bem, nós na primeira temporada olhámos para a Bíblia do princípio até ao fim, era essa a proposta. Mas desta vez vamos olhar com maior detalhe para algumas passagens específicas dos textos bíblicos.

e vamos tentar conhecer a fundo algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. Mas antes disso, e os ouvintes já perceberam pela abertura que tivemos aqui uma mudança no nosso painel, vamos apresentar o painel desta segunda temporada. Continua connosco o padre João Basto, é colunista do Observador e voz conhecida dos nossos ouvintes. Olá, João. Olá.

E desta vez vai juntar-se a nós o padre Daniel Nascimento. Olá, viva, Daniel. Muito obrigado. O Daniel é padre católico na Diocese de Setúbal, é também professor na Universidade Católica em Lisboa, ensinas grego, hebraico, pentateuco, não é mesmo assim? Isso mesmo, coisas do Antigo Testamento, basicamente. E também estiveste em Jerusalém algum tempo a estudar Ciências Bíblicas e Arqueologia. Isso mesmo.

Muito bem, então é com estes dois especialistas que ao longo desta temporada vamos continuar a olhar para a Bíblia. Mas antes ainda de irmos à história de Caim e Abel, quero partilhar uma novidade com os nossos ouvintes. A partir de agora temos um e-mail, ashistóriasdabiblia.com.br

É para este e-mail que os nossos ouvintes nos podem enviar comentários, perguntas, sugestões. Vamos tentar responder e falar das vossas perguntas e sugestões nos episódios deste podcast. Já sabem, sem qualquer acento, ashistóriasdabíblia.com.br

Ao longo dos próximos 12 episódios, como dizia, vamos olhar para algumas das personagens mais famosas da Bíblia. São protagonistas de algumas histórias que marcam decisivamente a cultura ocidental. E esta semana voltamos até o início da Bíblia para olhar para o primeiro livro, o Génesis. Nós, na temporada passada, falámos de Adão e Eva e do pecado original. Portanto, não vamos voltar a esse início da história bíblica, mas vamos olhar para a segunda geração.

para os filhos de Adão e Eva, os famosos Caim e Abel. Daniel, comece por ti. Esta história surge logo no quarto capítulo do Génesis, depois do episódio do pecado original e da expulsão do paraíso. Queres contar-nos rapidamente o que é que acontece aí? Quem são estes dois irmãos? Sim, então, expulsos do paraíso, Adão e Eva, ou melhor dizendo, o homem.

E a mulher, não esquecer que são personagens representativos da condição humana, Adão, Adame quer dizer homem, Eva, Ravá quer dizer da dor de vida, sublinha-se a maternidade. Então, têm filhos, têm estes dois filhos, Caim e Abel, que são logo caracterizados pelo que fazem. Caim era agricultor, Abel era pastor.

E aí logo vemos que isso também representa aquilo que é a humanidade na cultura do Israel antigo. Estas duas formas de vida dos agricultores que cuidam ali de um campo, que produzem frutos, fruta, legumes, e o pastor que, de forma mais itinerante, vai passando ali por campos. Portanto, de alguma forma...

Estes dois irmãos representam estas duas condições básicas de vida e também os conflitos que vão ter. De facto, aqui vai haver este conflito porque, depois de oferecer um sacrifício, como era habitual nas culturas antigas, esta ideia da ligação com Deus, através da oferta de um sacrifício dos produtos.

da terra, no caso de Caim, nos produtos dos seus rebanhos, no caso de Abel, o texto diz-nos que Deus olha favoravelmente para Abel e não para Caim. Caim fica de rosto abatido e isso leva a um processo de violência contra o seu irmão.

O texto também é relativamente silencioso, é algo interessante também olharmos não só para o que o texto diz, mas para o que não diz, o que nos permite também deixarem aberto estados de espírito e aquilo que pensaria e aquilo que vai acabar por fazer, que é...

convidar o seu irmão a ir para o campo e aí matá-lo. E, portanto, aliás, é um aspecto curioso que estavas a mencionar é que o texto é realmente muito curto, são meia dúzia de parágrafos, ali é um capítulo e que, apesar de tudo, acaba por ter uma importância muito grande na nossa cultura, mas é um texto muito curto que apresenta logo...

Caim e Abel, já como adultos, não sabemos nada sobre a infância, sobre a juventude, são logo o pastor e o agricultor. Depois deste homicídio, João, temos a continuação da história e há um momento, talvez fatal, ali na história que é quando Deus se vira para Caim, já depois da morte de Abel, e lhe pergunta onde está o teu irmão? E a resposta é logo uma mentira.

Se calhar a primeira coisa que gostava de dizer nesta nova temporada é que nós precisamos de reafirmar de novo, nós estamos diante de grande literatura. E aquilo que nós fazemos aqui neste podcast é tentar aproximações àquilo que são textos que estão muito codificados e que são mais infinitos. Aliás, o Dom José Tolentino Mendonça, que se calhar vamos falar um bocadinho mais à frente, tem um livro.

sobre a leitura da Bíblia, que se chama A Leitura Infinita. Nós participámos desta leitura infinita. São Gregório Magno dizia, inclusivamente, que a leitura e a Bíblia crescem com os seus leitores. Portanto, nós estamos a participar deste exercício de crescimento, como, por exemplo,

O Stanley Cavell faz crescer o Hamlet quando o compara à intriga internacional do Hitchcock. Portanto, é este exercício que nós fazemos, não sendo nós, pelo menos eu, o Stanley Cavell. Agora, partindo da tua pergunta...

Essa pergunta de Deus, onde está o teu irmão, que retoma a pergunta onde estás, que Deus também faz a Adão, é uma pergunta que vem na sequência de uma tentativa de Deus de chegar à fala com Caim. Depois daquilo que o Daniel falou, que é o sacrifício em que Deus olha com agrado para o Dabé e não olha para o Caim.

Deus tenta, depois de Caim ficar assim de trombas, realmente de rosto abatido, tenta chegar à fala com Caim, tenta-lhe mostrar que ele pode resolver a situação de outro modo, numa feliz expressão de um biblista de origem francesa, Caim pode se tornar pastor da sua própria animalidade, aquilo que dentro dele parece começar a surgir como um grande monstro interior, mas Caim nunca fala, nunca trata o seu irmão por seu irmão, nunca o trata pelo nome,

E neste extremar de posição em que quem quase não é consumido por dentro, quem responde a Deus que não sabe do seu irmão, portanto, nega-lhe a sua própria memória, nega-lhe o futuro, nega-lhe a presença e chega até a dizer a Deus, sou eu porventura guarda de meu irmão, que é uma forma quase infantil que nos faz entender que Deus até parece que se equivocou na pergunta.

Como uma criança que desarrumou o quarto, o pai perguntou o que é que se passou e ela, mas eu não sei de nada, sou a porventura, este é o meu quarto, sou o que tenho que arrumar. Ou seja, Caim está claramente dominado por alguma coisa que o consome por dentro e que a situação do sacrifício aceita e não aceita acaba por despoltar.

Mas, Daniel, como falavas há pouco desta ideia dos silêncios, a verdade é que nós nunca sabemos porque é que Deus olha favoravelmente para um sacrifício e não para outro. Sim. E o texto sublinha até muito isto que o João dizia da fraternidade.

Cain não diz que Abel é seu irmão, mas o texto diz. O texto repete várias vezes esta ideia de que é irmão. Deus que se dirige a Cain e diz onde é que está Abel, teu irmão. Portanto, aquilo que Cain não quer aceitar, o texto sublinhou várias vezes. O texto é também misterioso nesse sentido porque não há uma explicação clara para esta preferência de Deus.

talvez alguma pista narrativa que possa aqui estar presente é esta ideia de que quem oferece dos produtos que tem, uma oferta genérica, enquanto Abel terá oferecido dos primogénitos, do seu rebanho e das suas gorduras. Portanto, terá oferecido do melhor.

como que deixando de intuir que, de facto, Abel faz uma oferta generosa do melhor que tem, enquanto Cain é mais, enfim, dá uma coisa mais geral. Dá o que lhe sobra. Dá o que lhe sobra, e portanto que a atitude à partida de Cain não seria a melhor. Nós sabemos que depois disto, enfim...

depois deste episódio todo em que Caim acaba por assassinar o irmão, de o levar para fora, para o campo e por o assassinar, Caim acaba por ser expulso por Deus, expulso tal como Adão e Eva também tinham sido expulsos, afastados de Deus e depois obrigado a tornar-se, de certa maneira, um nómado, a andar por ali sem terra.

Como é que nós lemos esta punição de Caim? À imagem daquela de Adão e Eva, esta também é uma punição, mas também uma proteção. Tal como o homem e a mulher são expulsos do paraíso, mas Deus reveste-os com umas túnicas de pele.

Ou seja, não os abandona propriamente sem nada. Aqui também Caim torna-se de certa forma um vagabundo, mas é protegido. Esta marca de Caim não é propriamente uma condenação, mas é uma proteção. Porque ninguém... seria uma espécie de sinal identificativo para que ninguém o pudesse matar. O que o texto diz é que Deus expulsa Caim, depois Caim fica muito indignado. Mas se eu for aqui para o meio do mundo, não tarda, matam-me.

E se estabelece já um grande contraste entre a perspectiva de Deus e a de Caim, porque Caim age com má intenção, ou seja, convida, aqui por meditação, convida o seu irmão a ir para o campo e aí mata-o. E não só esta ideia de que precisou de tempo para fazer isto, mas nos códigos legais, nos textos legais do Antigo Próximo Oriente, de outras culturas vizinhas.

sublinha-se esta distinção entre crimes cometidos dentro da cidade ou fora da cidade. Com esta lógica, dentro da cidade, a vítima poderia gritar por socorro e ser ouvido, e alguém socorreu. Fora da cidade não há ninguém para ouvir. Isto que Cain levar para o campo onde se presume que não há ninguém para ouvir, ainda mais uma, acentua mais esta maldade que está à porta neste diálogo com Deus, que antes deste ato.

O João já referiu, Deus avisa Caim, atenção, o mal está à tua porta, está aí a espreitar, mas tu podes agir de outra forma, tu podes usar a tua liberdade de outra forma, mas Caim cede a algo de mal que está aqui inscrito em si. Nada, há a sensação de Caim de tudo aquilo que tem, a partir da atitude de Deus, só vê aquilo que lhe falta.

Cain não consegue ter uma visão abrangente e real daquilo que tem dentro de si. Aliás, todos nós na nossa vida temos o nosso Abel e os nossos vários abéis. Isso aqui é as pessoas que realmente nós consideramos que são preferidas a nós e com quem temos uma relação difícil. Portanto, esta história de Cain e Abel é a nossa própria história, porque todos nós já tendemos ou tentamos levar alguém para o campo.

para terminar com essa pessoa que parece que nos tira protagonismo, que nos tira atenção. E perante essa atitude de Caim, esta proteção que Deus dá a Caim, impedindo-o de ser atacado e de ser morto, mostra também esta ideia de...

de uma nova oportunidade, de um recomeço, de uma possibilidade. Mesmo o castigo, acho que também nós temos que, se calhar, ver que o castigo aqui não é, mais do que um castigo, é o chamar à realidade, ou seja, se a minha vida é fundamentalmente relacional, se eu mato o meu irmão, eu estou-me a matar a mim próprio, eu estou-me a tornar vagabundo.

E por isso aquilo que Deus faz, até por a questão da esterilidade do soldo, porque Caim como agricultor depois vai ter o seu soldo tornado improdutivo, talvez o que o texto nos esteja a dizer é que sempre que eu mato o meu irmão, aquilo que na minha vida pode dar frutos, e sem querer fazer aqui humilhias ou coisas muito poéticas, tudo aquilo que pode dar frutos não vai dar frutos, porque quando eu mato o meu irmão, se o reconhecimento de mim mesmo não é compatível com o reconhecimento do outro,

o meu sol não vai dar frutos, eu não vou produzir nada e a minha vida vai se tornar um castigo e uma maldição. E há aqui esta ironia. Caim diz que não é o guarda do seu irmão, não tem nada a ver com a vida do seu irmão. E vai para o campo para que a voz do irmão não seja ouvida. Mas a voz de Abel é ouvida por Deus. Que houve a voz do sangue de Abel. E Deus é o guarda de Caim, Deus protege Caim. Portanto, dá-lhe uma nova oportunidade.

E essa imagem literária de Deus ouvir o sangue do irmão. Apesar de Abel, e os nomes como sabemos na Bíblia dizem também muito do personagem, o nome Abel evoca algo que é efémuro, que não tem consistência, que é como uma neblina que passa. Portanto, a vida de Abel é assim, algo que é frágil.

Mas que ainda assim, essa fragilidade é escutada, é valorizada por Deus. Muito bem, nós vamos voltar depois de um curtíssimo intervalo para a segunda parte deste episódio das Histórias da Bíblia. Vamos tentar conhecer melhor esta realidade da história entre os dois irmãos Caim e Abel e compreender as implicações deste conflito entre irmãos na história bíblica e também na história da humanidade. Até já.

O Renato estava apático ele parecia que não estava lá

As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato se abra assassinou Carlos Castro em Nova Iorque. Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Os Ficheiros do Caso Carlos Castro é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador.

É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Último episódio. O júri chegou a uma decisão. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia. A CIDADE NO BRASIL

Segunda parte, as histórias da Bíblia, com os padres João Basto e Daniel Nascimento. E na primeira parte já começámos a conhecer a história dos irmãos Caim e Abela, deles que falamos esta semana. Vamos agora tentar compreender mais a fundo esta história. E, se calhar, Daniel, para isso vale a pena...

começar por olhar para o próprio texto, tenho uma série de perguntas. O que é que nós sabemos sobre este texto? Quem é que o escreveu? Quando é que foi escrito? Sabemos que ele ainda está neste grupo de textos dos mitos da criação, do Génesis. O que é que sabemos mais sobre este texto? Essa é sempre uma pergunta com rasteira para quase todo o Antigo Testamento, no sentido em que é sempre muito difícil dizer quando é que foi escrito, ou quem é que escreveu, ou em que contexto é que surgiram estes textos.

Mas, de facto, faz parte de um bloco de Génesis 1 a 11, estes primeiros 11 capítulos do livro do Génesis, que nos vão falando da criação, ou seja, os textos de criação, não é só Génesis 1 a 3, a criação do mundo, Adão e Eva, também isto é criação. Também aqui vamos ver desta humanidade a ser criada, a crescer e multiplicar-se, a complexificar-se.

E, portanto, este grupo de textos, que é o pórtico de entrada na Bíblia, são os primeiros textos, não são, dizem os pesceivistas, certamente os mais antigos. São fruto de uma reelaboração posterior. Enfim, é difícil dizer exatamente quando. Eu diria que será antes do tempo do exílio.

que tudo isto vai sendo compilado, também ligando algumas tradições diferentes. Nos finais do século XIX falava-se muito destas fontes, destas várias fontes que no livro do Génesis estão muito claramente identificadas, javista, eloísta, sacerdotal, deuteronomista, conforme, digamos, escolas de pensamento.

e este será um texto já vista portanto alguns colocavam isto no tempo mais antigo no tempo da corte de Salomão ou pouco tempo depois disso atualmente tenta-se colocar isso mais tarde mas é preciso relembrar que estes são textos que viajam sim, mas também são textos que viajam no tempo e tradições que vão viajando numa espécie de memória coletiva folclórica e que depois...

só numa altura mais posterior são colocadas em texto. Nós já falamos disso na primeira temporada que era o facto de nada disto ter nascido do nada, portanto há tradições que circulam, não só dentro desta comunidade religiosa como de outras, com que desinfectarem-se mutuamente, portanto também a ideia de um nascimento de um texto puro também é um bocadinho questionável. E estes textos também, de certa maneira da criação, procuram construíлаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаглаг

criar, ou melhor, encontrar um mito fundador que ajude a explicar a realidade que os povos já conheciam. Nós temos esta ideia, às vezes, de olhar para estes textos e dizer que eles nos dizem o que aconteceu efetivamente no passado, como se fosse uma espécie de recriação de um passado a que nós chegaríamos indo atrás na nossa árvore genealógica. E não é assim, não é isso que o texto nos quer dizer. Olha para a realidade...

e tenta, através destas histórias, explicar a realidade. Por exemplo, percebe que os autores deste texto, ao perceberem que existe violência entre os humanos, humanos contra humanos... Claro, que é uma realidade de sempre e tenta-se explicar através disto. De conflitos... E o texto, se olharmos na perspectiva ingénua, só há um homem e uma mulher, Adão e Eva, Deus agora cria-te dois filhos...

depois Caim mata Abel e é expulso e queixa-se que tem medo que alguém o mate. Mas quem? Não há ninguém. E depois a Sir vai ter filhos, com quem? Com quem, claro, poderão dizer. Mas se calhar eram histórias independentes que depois foram unidas de forma mais ou menos artificial.

Mas ainda assim, são também uma espécie de pistas para nós vermos isto de outra forma. Aqui Deus também é o tal velhinho de barbas brancas, podíamos até dizer. Ou seja, esta representação de um Deus que fala, que entra em diálogo, que aparece, que chama Caim, que chama Adão, que caminha pelo jardim do Éder, como vemos em Génesis 3. De facto, é uma ideia muito humana de Deus, que não é ingénua.

mas é representativa de um sentido mais profundo do texto.

O texto parece introduzir também, pela primeira vez, algumas realidades da vida humana, incluindo a agricultura e a pastorícia, claramente, como eram as profissões do Caim e do Abel. Lá está o conflito entre irmãos, a violência de humanos contra humanos. Também depois, com a expulsão de Caim, a ideia do nomadismo, daqueles povos que andavam por ali, pelo deserto, sem casa e sem cidade.

Ao longo dos séculos, João, como é que depois os povos e já depois do Novo Testamento os cristãos, como é que foram lendo este texto? Com que chave de leitura é que o foram lendo?

É assim, claro que a primeira chave de leitura é aquela que mais ou menos indicaste, que é a ideia de que Deus é subversivo, ou seja, nas culturas do Médio e Próximo Oriente, a ideia de que o filho mais velho tinha privados naturais de herança e de bênção, e mesmo até de poder absoluto sobre o que lá.

era algo mais ou menos sagrado e por isso Deus aparece aqui na Bíblia como aquele que inverte e parece ignorar até esta forma sistemática de direito. Nós vemos isso porque Deus, nesse episódio, parece escolher Abel e não Caim. Deus escolhe Isaac em vez de Ismael, de Jacó em vez de Isaú. Um ponto importante que penso que não mencionámos.

Abel era o filho mais novo, era o segundo, foi o segundo a nascer e, portanto, é preferido por Deus em detrimento do Caim. A questão, por exemplo, de David, que é claramente o filho mais novo, que está no campo, que não se apresenta diante do profeta, portanto, Deus parece escolher deliberadamente os últimos, os mais fracos e aqueles que não seriam escolhidos à partida.

Por outro lado, como o Daniel já disse, este texto é de elevada concisão e nós às vezes temos de tentar ler por indícios e aquilo que eu vou fazer aqui é a partir de um biblista belga, André Wéná, não sei se é necessariamente assim que se diz, é Wéná talvez, mas parece-me que este relato é um relato de muitas complicidades e domínios, ou seja...

primeiro nós podemos ver aqui um domínio de Adão para com Eva. O texto parece indicar que Adão conhece Eva e aqui este verbo conhecer tem um nível quase de objetificação da mulher, ou seja, Adão claramente tem uma relação de posse com a sua mulher.

O verbo conhecer é também um verbo mesmo para relações sexuais. Sim, mas a verdade é que há outras palavras na Bíblia que dá para associar a relações sexuais e este verbo conhecer muitas vezes tem esta ligação até à dimensão objetificadora do parceiro, neste caso de Eva.

Posteriormente Eva, para com Adão, também tem uma relação de rejeição. Ela própria assume que o filho Caim é tido com o auxílio de Deus. Portanto, ela parece afastar Adão da ideia de paternidade. E depois Eva com Caim acaba também por ter uma relação um bocadinho obsessiva, porque trata-o logo por homem.

o que colocam logo no lugar do parceiro, de modo que parece que Eva, depois de expulsar o homem que a dominava, agora domina um novo homem que é o próprio filho. Portanto, se calhar o relato acaba por mostrar aqui uma ideia de permanente complexidade, cumplicidade, não complexidade também, mas de cumplicidade entre as personagens que Deus vai tentar destruir.

Ou seja, ao optar por Abelde, o que Deus pode estar a fazer é, de certa maneira, romper com estas relações extremamente tóxicas, como hoje diríamos, extremamente viciadas e totalmente objectificadoras das pessoas em causa. De domínio. De domínio que as pessoas que estão a tentar fazer.

Sim, isso é uma leitura interessante e certamente possível, embora acho que corremos também o risco, às vezes, de uma certa psicologização excessiva, porque os silêncios do texto também nos, de certa forma, permitem isso.

Mas eu sublinharia até... O que é que estes textos nos dizem? O que é que Caim e Abel nos diz? O que é que este texto nos diz? Mais isto. O homem entrega a si próprio, acaba por fazer, acaba-se afastar do caminho certo. Deixa-se dominar pelo mal. Por se voltar contra o irmão.

Já em Adão e Eva vemos isto, já também na história de Noé vemos isto, na Torre de Babel vemos isto, o mal que está aí numa criação que é boa, e Deus criou tudo bom, e criou o homem muito bom. Porquê é que aparece este mal? Porque o homem é tentado, há uma forma de estar aí a bater à porta.

De forma sibilina, subversiva, o mal. Então, Deus, há uma forma de ajudar a corrigir isto. Há um biblista americano, que já morreu, Joseph Van Kansop, que tem um comentário a Gênesis 1 a 11, com o título que me parece muito sugestivo. Creation, Uncreation, Recreation. Ou seja, criação...

isto diz o que Deus faz em todos estes capítulos, no total e em cada uma destas histórias Deus cria, Deus faz aparecer algo esta uncreation seria descriação, destruição diríamos, em português mais correto ou seja, o homem que vai contra aquilo que Deus faz porque come da maçã que não devia comer porque não cuida do seu irmão porque deixa dominar pela maldade porque quer subir a uma torre quer chegar até aos céus e aí

E depois a recreation, a recriação. Deus que dá novas oportunidades, novos caminhos, novos começos. Nesta história marca com o sinal para o proteger. Dá uma nova oportunidade. Fecha-se uma porta, mas abre-se uma janela. Sim, o que o Daniel está a dizer realmente tem o seu sentido, porque nós às vezes tendemos, e hoje tendemos sempre a psicologizar tudo, e às vezes temos que respeitar a concisão do relato.

É para aí uma página da Bíblia inteira, uma página ou duas, não é? Se calhar talvez não seja uma página a quatro, se nós metêssemos todos em Times New Roman 12. No todo da Bíblia é um texto tão minúsculo, mas que assumiu uma proporção cultural. Sim, muito grande. Agora, se calhar uma outra coisa, porque na primeira parte disse que isto é a nossa própria história. Eu acho que todos nós temos esta experiência de que, não sei, aqui na Rádio Observadora, no jornal, isso acontece. Nós temos dois jornalistas e temos um chefe.

Quando o chefe pede ao jornalista A para fazer uma coisa, não quer dizer que o outro não seja competente e que até não goste do outro. Mas nós tendemos logo a achar, se o chefe pediu ao jornalista A, ele gosta mais do outro, é o jornalista preferido, e o texto fala destas tensões, destas nossas vezes.

traumas, compulsões que temos dentro de nós que nos levam depois à nossa própria destruição porque não vemos a realidade com outros olhos. Isto que o Daniel dizia, no fundo, sintetiza um bocado a inspiração que a Bíblia dá até para a literatura, o cinema tudo o que é o storytelling que marca as nossas obras de arte contemporâneas essa ideia de...

estabelece-se uma paz inicial, há uma situação de tensão e voltamos ao happy ending no final, não é? Portanto, até aí vamos ver a vida. Mas, Daniel, este aspecto que o João estava a mencionar agora, apesar de tudo, não deixa de ser...

uma questão problemática. Porquê que Deus, afinal, recusa a oferta de Caim? Precisamente porque é literatura e grande literatura, diz o João, e bem, temos que recusar também uma leitura imediatista e superficial aqui do texto, ir um bocadinho mais fundo, perceber o que é que está aqui em causa e não ler isto como uma reportagem de um acontecimento de há milhares ou milhões de anos.

que, enfim, que alguma literatura tem mais recente. Enfim, por exemplo, lembrar daquela polémica quando o José Saramago e há uns anos publicou o Caim criticando o Deus que aí está representado. Mas acho que temos que olhar de uma forma mais larga para este relato e perceber o que é que está aqui em causa, que é um olhar da condição humana e, certamente, uma percepção de Deus que nem sempre é a correta. Esta ideia de sacrifícios também é algo que é, talvez,

alheio à nossa sensibilidade humana, religiosa, atual, mas é algo que marca todas as culturas antigas. Esta ideia de um sacrifício, ou seja, de uma oferta a Deus, que no caso da Bíblia tem claramente sempre estas duas dimensões, de partilhar a mesa com a divindade.

Eu ofereço uma oferta vegetal de produtos da terra, ou de cabritos, ou de touros, para partilhar essa comida com Deus, por assim dizer. Ou seja, uma parte do animal é queimado e vai para Deus, outra parte fica com o oferente, outra parte fica com o sacerdote.

E também para tentar atrair, de certa forma, a benevolência dessa divindade. E é isso que temos aqui representado. Ou seja, não é justo interpretar isto como a indicação de que Deus aceita o culto de alguns e não aceita tanto o culto de outros?

Sim, quer dizer, eu acho que a narrativa mostra-nos isso de Deus a preferir a de cair. Acho que é mais complexo. Mas isso é um gatilho narrativo para um outro tipo de discurso. Para criar o contexto depois para a transgressão. Sim, ou seja, cá está, às vezes nós nem sabemos se isto até não é um espelho, uma narrativa em espelho.

essas coisas são mais complexas do que propriamente foi Deus que fez, foi Deus que não sei o quê o que o Daniel estava a mencionar aquilo que o Sarmaio vai dizer é que no fundo acusar Deus de ser o autor primordial da injustiça que depois leva à morte de Abel

por causa da recusa Sim, sobre a questão de Saramago recomendo sempre uma entrevista mais do que uma entrevista, uma conversa que na altura o José Saramago teve em 2009 foi publicada no Express no dia 25 de outubro entre o Saramago e o então padre Tolentino Mendonça

É uma conversa muito acesa, a certa altura, acho que o D. Tolentino quase que perde a paciência e pede para... diz lá, José Saramago, deixe-me falar, por favor, porque o Saramago estava numa ideia de que a leitura cristã é uma leitura manipulada, que as pessoas não têm liberdade para ler o texto, que são textos que justificam a injustiça.

E creio que o tempo acabou por mostrar que a posição do D. José Tolentino, sem ele ter pago alguma coisa, sem ter podido encomendar algum favor, é claramente a versão mais correta. Ou seja, a obra que ainda notou de obra de Saramago é um exercício, é uma expressão que o D. Tolentino usa nesta conversa. E mesmo a interpretação que Saramago tem, eu recordo essa expressão do Pato Tolentino, mais ou menos esta ideia de que...

É estranho que o Nobel da Literatura José Saramá, que é alguém tão fino na literatura, nas obras que escreveu, tenha tido uma incompreensão quase cega naquilo que significa a figura de Caim. Aliás, a figura de Caim não foi só em Saramá que influenciou, se nós pensarmos.

com o John Steinbeck, que tem o A Leste do Paraíso, em que ele, de certa maneira, transforma a história de Cain e Abel como a espinha dorsal capaz de nos fazer entender a história dos trabalhadores e do contexto dos trabalhadores americanos. Ou mesmo, há algum estudial, falamos já de Shakespeare, há muita gente ligada ao estudo de Shakespeare que diz que personagens em Shakespeare que nós entendemos

como prefigurações do mal, vou lembrar, por exemplo, do Iago, do Ricardo III, até da Lady Macbeth e do Macbeth, são imagens de Caim, ou seja, esta ideia do homem possuído pelo mal absoluto.

capaz de sair de si próprio e que arrasta toda a gente que está à sua volta para o mal, para a sua estratégia de vingança, de ciúme, de morte, de destruição. Portanto, tudo isto também está influenciado por esta grande história, até do par, por exemplo, do irmão bom e o irmão mau, depois até nos irmãos Caramazzo, isso é muito visível. Portanto, esta história, de certa maneira, moldou a nossa compreensão até da própria ideia de fraternidade.

e de narrativa que temos. E ainda dentro da Bíblia, estamos aqui a olhar para os primeiros capítulos, para as primeiras páginas da Bíblia, mas ao longo da Bíblia vamos voltar a encontrar várias histórias de conflitos entre irmãos. Ainda no Génesis, por exemplo.

Encontramos as histórias de Jacob e Ezaú, por exemplo, depois de José e os seus irmãos, que acabam por vendê-lo aos egípcios, é assim aliás que o povo vai parar à escravatura no Egito. Depois no Novo Testamento, haveremos de encontrar, por exemplo, a famosa história de Marta e Maria, duas irmãs também ali.

em diferendo. Por outro lado, é famosíssima a parábola do filho pródigo no Evangelho de Lucas, em que também encontramos esta oposição entre o filho mais novo e o filho mais velho, o filho mais novo que sai da casa do pai, etc. Esta questão da fraternidade, da irmandade, como o João estava a dizer, e aliás do conflito entre irmãos, acaba depois para atravessar toda a Bíblia.

Sim, toda ela. O João até referiu o John Steinbeck e o Eleste do Paraíso. Também, noutra história, destas que referiste, dos José e seus irmãos, também o grande romancista Thomas Mann, irmão, escreveu uma releitura destes episódios. E, portanto, isto serviu para alimentar também a reflexão da humanidade, dos artistas, dos escritores, sobre aquilo que são coisas da condição humana. Por isso é que uma leitura superficial...

do que é Deus e do que é o homem é um bocadinho errada. Todas estas histórias de fraternidade permitem-nos explorar a nossa humanidade. Na história de José e os seus irmãos acho que vemos muito claramente também esta novela de encontro e desencontro e de crescimento interior dos personagens que vai culminar numa reconciliação.

Não soubeste a questão da fraternidade O Paul Rico, que é um fosso francês Afirmou que na Bíblia A fraternidade não É um projeto ético Não étnico Na Bíblia a fraternidade É um projeto ético

e não um dado da natureza. E parece-me que isto é muito interessante porque, desde logo, mesmo nesta história, a fraternidade surge logo como ameaçada e o grande objetivo da fraternidade é uma escolha. Todos nós também, na nossa vida, acaba por termos esse momento em que, depois de nossos irmãos nos serem apresentados como irmãos de sangue, acabei de quase agredir o microfone, nós depois, a certa altura, temos que tomar uma opção e reconhecê-los mesmo como nossos irmãos.

E às vezes, nós que somos vítimas, a fraternidade na Bíblia talvez aconteça aí, quando a vítima decide não se tornar agressor. E era essa a opção que Caim podia ter tido e pela qual nunca optou. Muito bem, fica por aqui o primeiro episódio desta segunda temporada de As Histórias da Bíblia. Estivemos a olhar para este emblemático conflito entre irmãos, entre Caim e Abel.

E no próximo episódio, na próxima semana, vamos falar de outra personagem muito famosa da Bíblia, primordial, o patriarca Abraão, aquele homem que está na origem das três grandes religiões monoteístas do mundo. Já sabem, como disse no início, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para o nosso mail ashistóriasdabiblia.pt sem acentos em histórias e em Bíblia, portanto ashistóriasdabiblia.pt

Vamos tentar ler, responder e falar aqui das sugestões e comentários e perguntas que os nossos ouvintes nos mandarem. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.

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