Vem aí o Apocalipse?
O último livro da Bíblia é um dos mais célebres e fascinantes, mas também um dos mais mal interpretados. Quem escreveu, e o que significa, o Apocalipse? O último episódio de "As Histórias da Bíblia".
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- Simbolismo numérico no ApocalipseO número 7 como perfeição e controle divino · O número 4 como número cósmico e do mundo · O número 12 ligado aos apóstolos e tribos de Israel · O número 666 e o 'novo Nero' · Risco de fetichismo e superstição com os números
- Sinais do ApocalipseSignificado literal da palavra 'Apocalipse' · Apocalipse como revelação, não fim do mundo · Comparação com o 'fim da história' de Fukuyama
- O gênero literário apocalípticoOrigem e características da literatura apocalíptica · Contexto de crise política, social e perseguição · Exemplo do livro de Daniel · Revelação através de visões e seres sobrenaturais · Animação e conforto em situações de desespero
- O Apocalipse na cultura popularInfluência em filmes como As Crónicas de Nárnia · Referências em Game of Thrones · Uso de símbolos como amuletos e superstições
- Papel do Apocalipse na Igreja NascenteSistema imunitário contra diluição cultural · Reforço da identidade contracorrente do cristianismo
Música Música
Será que vem aí o Apocalipse? Este é o 12º episódio de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador em que estivemos a decifrar o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lindo. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma. Eu sou João Basto, padre e colunista do Observador. Todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, olhamos para uma parte da Bíblia, para percorrer este livro do início até ao fim, e na semana passada estivemos a falar sobre São Paulo e as cartas que escreveu.
Esta semana, no último episódio desta temporada das Histórias da Bíblia, vamos olhar para o último livro da Bíblia. É o Apocalipse. É um dos livros mais fascinantes de toda a Bíblia, mais misteriosos, mas talvez também dos mais mal interpretados. Vamos saber, afinal, que livro é este e se tem alguma coisa a ver com o fim do livro. Estas são as Histórias da Bíblia.
Olá a todos. O Apocalipse é o último dos cerca de 70 livros da Bíblia, se surge no fim do Novo Testamento, depois dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das cartas de Paulo, de que falámos aqui a semana passada, e também de um conjunto de cartas menos conhecidas, de Tiago, Pedro, João e Judas. O Apocalipse parece-me um paradoxo, no sentido em que é possível que seja um dos livros mais famosos da Bíblia.
por toda a mitologia que lhe está associada, mas ao mesmo tempo é capaz de ser um dos livros que é menos conhecido a fundo, no sentido em que é possível que poucas sejam as pessoas que ouvem falar dele e que o tenham verdadeiramente lido.
Como sempre, acho que vamos ter de começar pelo básico dos básicos. Contem-nos lá o que é que precisamos de saber sobre este livro. João, por exemplo, o que é que quer dizer a palavra Apocalipse? Quer mesmo dizer o fim do mundo? É isso que a gente, quando dizemos que vem aí o Apocalipse? Como já aqui há umas semanas atrás falámos, quando falámos da introdução ao Novo Testamento, realmente não. Apocalipse não quer dizer fim do mundo.
Não venha em nenhum filme com zombis nem vampiros. Não venha em o Dwayne Johnson, o The Rock, nem o Brad Pitt a salvar o mundo na World of War Z. Nada disso. Apocalipse, como explica o significado grego desta palavra, o significado literal é revelação. Aliás, é esse o título do livro, Revelação de Jesus Cristo.
Se quisermos uma imagem, vamos imaginar que num casamento a noiva vem com um véu e aquele momento em que o véu é retirado, esse é o momento do Apocalipse. Trata-se de um livro que quer mostrar uma espécie de desvelamento.
não de fim da história no sentido cataclísmico, mas, calhar, sem querer entrar aqui em ideias de ciência política e coisas muito polémicas, trata-se até de uma ideia próxima daquilo que o Francis Fukuyama proclamou quando falou do fim da história. O fim da história no sentido em que, quando a história, o mundo, chega a um ponto não de cataclismo, mas de perfeição ou de ponto reboçado, entre as pessoas, vamos usar outra expressão popular.
Então, e de que é que fala o livro? O que é que está lá escrito? Se calhar, antes disso, ver que se calhar o livro do Apocalipse pode ser lido de várias maneiras, duas leituras possíveis. É, por exemplo, uma forma de catarse, a ideia de que as pessoas viviam de tal maneira dominadas sobre o Império Romano que o Apocalipse funciona como uma espécie de carnaval, ou seja...
Há uma terapia de choque. Efetivamente, o Apocalipse tem uma linguagem que às vezes roça a certa agressividade, mas ao projetar essa agressividade numa espécie de ecrã cósmico, isso permite lidar com uma espécie de trauma e renovar a esperança. Uma espécie de forma de catarse. Há quem também diga que isto é uma forma também de resistência política.
Uma espécie de convite a não se deixar levar por opressão quer do Império Romano, que depois será visto até em algum sentido como a Babilónia, uma imagem, ou até por um certo paganismo reinante dos primeiros cristãos. Se quisermos também outra ideia, a nível de estrutura, nós estamos a falar de um livro que começa...
com aquilo que nós conhecemos como as cartas às sete igrejas. Nós estamos a falar das sete igrejas de Éfeso, Ismirra, Pérgamo, Teatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. A cada carta nós temos o que...
uma caracterização desta comunidade. Temos coisas a favor ou contra. Em algumas comunidades só temos contra, em outras comunidades só temos a favor, mas maioritariamente é um misto entre coisas a favor e contra. Aliás, vem destas cartas aquela ideia de que tu és morno e, portanto, eu quero-te vomitar, que Deus não gosta dos mornos. Deus gosta de quem é sim e de quem é não. Não gosta das pessoas que estão aqui com alguma tibieza.
E depois destas sete cartas, nós vamos passar à ideia das imagens. Isto não me conta propriamente uma história do princípio ao fim, tem um conjunto de imagens, de visões. Talvez as mais famosas sejam a da mulher e o dragão. A mulher vestida de sol que simboliza, de alguma forma, o povo de Deus que sofre as dores do parto para gerar o Messias e o dragão que representa Satanás, a antiga serpente, que com a violência sanguinária e uma certa pretensão despótica ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela
quer destruir e não deixar que esta mulher dê à luz. Temos a ideia do cordeiro e dos eleitos, que através de uma linguagem simbólica fala até daquela ideia dos 144 mil eleitos e que tem aqui de mostrar uma ideia de plenitude. Tem também aquela frase muito comum para quem vai à Eucaristia na altura de todos os santos, os eleitos que branquearam as suas túnicas no sangue do cordeiro.
Temos também a imagem da Babilónia, como já falámos, que se refere inequivocamente à ideia da Roma Imperial, a cidade que rejeita a hipótese do Messias, que em alguns sentidos é retratada como a grande prostituta embriagada não de vinho, mas do sangue dos mártires, e depois a ideia da Nova Jerusalém e do Juízo Final, Nova Jerusalém que é uma espécie de...
uma terra, uma noiva perfeita, na ausência do templo, que o próprio Deus habita para lá da história. A cidade representa a comunhão final e eterna, e é mais ou menos com essa ideia que termina o livro do Apocalipse. Nós já vamos entrar um pouco mais em alguns desses aspectos, mas se calhar vale a pena tentar situar os nossos ouvintes também na cronologia e na autoria deste livro. O livro do Apocalipse é escrito por um João.
Será o evangelista João, por exemplo, é uma pergunta que fazemos, a partir da ilha grega de Pátamos, onde estava exilado já muito perto do final do primeiro século. O contexto em que é escrito é também já bastante complicado. Estamos naquilo que podemos chamar a segunda geração dos cristãos, são discípulos dos discípulos originais.
Há uma série de conflitos que são atravessados pelas primeiras comunidades cristãs, claramente com o Império Romano, com os judeus também entre elas. São comunidades que estão ainda a tentar afirmar uma identidade em contraste com o paganismo e com o judaísmo.
Há claramente o episódio do templo, que foi destruído pelos romanos no ano 70. Estes primeiros cristãos também não são propriamente ainda uma religião organizada, são uns grupos dispersos, unidos por esta ideia de que Jesus era o Messias e com olhos postos no fim dos tempos.
Francisco, em todo este contexto, mais ou menos histórico, conseguimos reconstruir, que livro é que é este? Ou seja, ele é escrito por quem, porquê, com que objetivo?
Talvez começar aqui primeiro com a ideia do género apocalíptico. O João já aqui falou um bocadinho do significado da palavra apocalipse. Falar desta literatura que é anterior ao livro do Apocalipse que temos no Novo Testamento e que vai continuar depois do livro do Apocalipse. Existem outros apocalipsos.
É um estilo que nasce antes de Cristo, provavelmente ali por volta do século III, II antes de Cristo, em contexto de crise política, social e muitas vezes até de perseguição. Eu sei que usamos muitas vezes a palavra crise e trauma para falar da Bíblia, mas se há uma literatura que nasce da experiência de crise profunda e de trauma da perseguição concretamente, é a literatura.
apocalíptica. Vou dar o exemplo do livro de Daniel que tem uma espécie de apocalipse na sua segunda parte do capítulo 7 para a frente. Que é um livro profético. Que é um livro profético do Antigo Testamento, exatamente, o profeta Daniel do Antigo Testamento.
Claramente o livro é escrito durante a perseguição de Antíoco IV, um rei que persegue os judeus ali no segundo século antes de Cristo, e as visões e a esperança que aquelas visões inspiram têm a ver com aquela perseguição. O mesmo se diga aqui com o Apocalipse do Novo Testamento. Não estamos ainda nas grandes perseguições cristãs do século III.
mas já estamos aqui num período de dificuldade e de crise e de alguma perseguição. O que é que é típico deste género em todos os apocalipsos, em toda esta literatura apocalíptica? Trata-se de uma revelação que normalmente tem a forma de uma visão
e que muitas vezes implica uma explicação dada por um ser sobrenatural, seja o arcanjo Gabriel ou Miguel, que aparece ali, há um vidente que vê, as imagens não são claras, aparece uma outra figura, ele faz uma pergunta e esta outra figura sobrenatural esclarece. E o que é que ela esclarece?
Esclarece o desenrolar da história. Visões temos muitas, dos profetas, já falámos sobre isto, mas aqui o centro é esta ideia de que Deus vai intervir de forma decisiva na história e o desenrolar da história vai ter um desenlace. São livros que pretendem, por isso, animar quem está numa situação de desespero.
Certo, confortá-los com a ideia de que estão a sofrer, mas há de haver uma vitória. Temos esta expressão muito portuguesa, levantar os olhos da espuma do dia, mas é isso verdadeiramente. Não há nada além disso nestes livros, a não ser reconhecer que Deus é o Senhor da história. Só para responder à pergunta que tu colocaste, me parece importante.
O Apocalipse de São João. A tradição atribui este texto a São João, ao evangelista São João, que também seria o responsável pelo Evangelho segundo São João.
Muito provavelmente o João, na origem deste livro, que não é o João Basque, aqui está, nem o João Francisco, também não é muito provavelmente o João Evangelista. Seria uma espécie de profeta visionário, eventualmente ligado à ilha de Patmos, que era conhecido destas igrejas a quem ele escreve.
Este profeta, este visionário cristão, não escreveria a estas comunidades, ainda por cima, como disse o João, a maior parte das vezes, a dizer, atenção, isto é bom, mas podiam ser melhores, se não as conhecesse. Portanto, a indicação que temos é uma figura daquela zona que vive no final do século I e início do século II d.C., que escreve estas igrejas e que se considera o depositário de uma revelação particular para elas e para os cristãos todos.
Já agora, como é que se chega a este livro como livro propriamente dito? Portanto, o João no início estava a esclarecer um pouco a estrutura do livro, que tem um conjunto de cartas, depois de imagens. Enfim, logo nessa altura o livro do Apocalipse é uma unidade literária que circula associada aos escritos sagrados? Ou isso é mais tardio que acontece? O reconhecimento do Apocalipse como livro sagrado? Exatamente.
O Apocalipse vai, vamos falar nesse caso sobre isso com um bocadinho mais de detalhe, mas o Apocalipse vai ter muita dificuldade em ser reconhecido como parte do Novo Testamento, sobretudo no Oriente, onde foi escrito. Entrará mais facilmente no Ocidente no cano, na lista dos livros canónicos, do que propriamente no Oriente inicialmente.
É provável, é aliás bastante provável, que aquelas comunidades que receberam este texto e daí este início do Apocalipse serem no fundo cartas dirigidas a sete comunidades diferentes, que essas comunidades provavelmente reconheceram o livro com mais facilidade.
Depois falaremos sobre isto cá com mais detalhe. O livro é exigente, as imagens são exigentes. E inspiraram quase desde o início uma certa dificuldade porque... Como é que é dizer isto? Inspiraram um entusiasmo que é talvez demasiado. Demasiado entusiasmo. E, portanto, as autoridades, as próprias comunidades, sentiram um certo desejo de...
de ter as coisas controladas, isto é, de não ter ali um livro que de alguma forma pudesse gerar ou ansiedade ou pudesse gerar interpretações demasiado erróneas do que é que suceder depois da manhã.
Se quer, há só duas notas mesmo para terminar esta parte. Primeiro é que acho que já entendemos que o livro do Apocalipse é uma espécie de cidadela de grandes enigmas. Cidadela que até é uma imagem utilizada no livro do Apocalipse, mas que não... E eu já falei até da questão do fim da história, até falando de Fukuyama, o Apocalipse não tem...
apenas haver seu futuro. O Apocalipse é uma forma também de descodificar a realidade política e religiosa da época, nomeadamente porque se haviam estas perseguições, muito embora não sejam como Francisco aludiu às perseguições do século III,
a verdade é que os cristais ainda viviam num certo clima de hostilidade. Por parte dos judeus, do Império Romano? Sim, portanto, se calhar aquilo que nós temos aqui na tradição portuguesa, no Estado Novo, de uma espécie de clandestinidade, dizer as coisas sem poder dizer, é o que acontece aqui, por exemplo. Não se nomear o Império Romano, mas utilizar-se a imagem da Babilónia.
com uma forma de perceção da comunidade do que se estaria a falar, ao mesmo tempo que não se nomeava. E, portanto, um livro que recorre muito à imagética, às imagens... Para fugir um bocadinho também a este circuito oficial, clarividente do que se estaria a falar.
E nós vamos falar com mais detalhe sobre tudo isso na segunda parte das Histórias da Bíblia. Estamos no último episódio da primeira temporada das Histórias da Bíblia. Estamos justamente a falar sobre o último livro da Bíblia, o Apocalipse, e vamos continuar na segunda parte a falar sobre este livro. Até já.
Os Ficheiros do Caso Carlos Castro. É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. Ele era até medroso. Se alguém o confrontasse, ele não tinha capacidade até física para enfrentar ninguém. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal.
As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato se abra assassinou Carlos Castro em Nova Iorque. Episódio 5. 52 chamadas não atendidas. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
Segunda parte de As Histórias da Bíblia, com os padres João Basto e Francisco Martins. Esta semana, no último episódio da primeira temporada das Histórias da Bíblia, estamos a falar do último livro da Bíblia, o famoso Apocalipse. E há um aspecto fundamental neste livro, já tocámos nesse assunto na primeira parte, mas agora vamos explorá-lo com maior profundidade. Há um aspecto fundamental e talvez o aspecto mais conhecido.
deste livro, que é assim a sua dimensão simbólica que confere ao livro, pensamos nós, um aspecto misterioso, obscuro, fascinante até para teorias da conspiração. Temos os números, as sete igrejas, os sete seus, as sete trombetas, o simbolismo do número 12, depois há os quatro cavaleiros, há a prostituta Babilónia, a besta, a Jerusalém Celeste.
Tantas imagens mitológicas, lendárias, misteriosas, que realmente criam aqui um universo muito fascinante neste livro e que muitas vezes até nos transporta justamente para aquela acessão que nós temos da palavra apocalipse, que é o fim do mundo. Francisco Martins, porquê tudo isto? Isto tudo faz parte deste estilo literário muito particular.
Vamos começar talvez por dizer que as visões são uma constante na Bíblia, não são só típicas do género apocalíptico.
são muito comuns nos profetas e mesmo fora dos profetas. Nós todos temos, ou já ouvimos falar, seguramente de Jacó e da escada de Jacó, a escada que sobe até ao céu, que tem origem a imensos quadros, os quadros de Chagal, onde tem um escadote, em vez de uma escada, esta escada até ao céu, com os anjos que sobem e descem, e isso é no livro do Génesis, não é nem sequer nos profetas.
Os profetas também têm visões espetaculares. Isaías vê Deus sentado no trono, Ezequiel, a mesma imagem. Nós estamos constantemente nos profetas a ter uma espécie de live streaming do trono divino. Isaías e Ezequiel.
A marca do Apocalipse é que estas visões se concentram no desenrolar da história e no seu desenlace. Já dizíamos isso na primeira parte deste programa. E abundam as imagens de caráter mitológico. Tu referias animais monstruosos, grandes cerimónias, coisas que sobem ao céu e que deixem do céu.
Mas estas imagens mitológicas servem precisamente para ilustrar este desenrolar da história e a luta entre Deus e as forças da opressão e do mal. Não tivemos a ocasião de dizer isto, mas o livro de Daniel tem as famosas imagens da sucessão dos impérios, que são os vários animais, e depois o último animal já é só um corno e desse corno saem mais três, etc.
que inspiraram, por exemplo, a nossa ideia do Quinto Império e a própria história do futuro do padre António Vieira. No fundo, são visões que tentam inspirar confiança e que são profundamente anti-imperialistas. Eu já disse isto aqui, a Bíblia é um livro claramente anti-imperialista, anti-imperial.
Dentro da Bíblia, o Apocalipse é o livro mais anti-imperialista, por excelência, ainda novamente, temos que fazer sempre esta ressalva, ainda colegado muitas vezes deste livro da Bíblia, não terem sido tão anti-imperialistas como na origem. Mas há imensas imagens e símbolos que talvez nos assustem, muitas vezes assustam o Apocalipse.
mas que também inspiraram uma panóplia de tradições e de elementos culturais. O 666, o número da besta, é o exemplo mais típico, mas existem seguramente outros exemplos. E conseguem ajudar-nos a perceber alguns dos símbolos mais famosos que aparecem? O 7 é simples, acho que ainda hoje o 7 é visto como o número da perfeição, não sei por acaso que é CR7 e não CR8 ou CR9.
Portanto, há aqui várias vezes o sete As sete igrejas, os sete selos, as sete trombetas Portanto, há aqui a ideia, claramente De que Deus tem o controle Total da história E que esse controle é perfeito Estás a insinuar que o Cristiano Ronaldo É um jogador apocalíptico Não vou insinuar nada a futebol Gostei muito que ele tivesse começado no Sporting
O 4 é o número cósmico e do mundo. São 4 pontos cardeais. Os 4 cavaleiros do Apocalipse, que representam também os 4 flagelos que atingem a Terra. O 12, há aqui uma simbologia que está muito ligada aos 12 apóstolos, às 12 tribos de Israel. Portanto, há aqui a ideia do povo, de Deus, a casa perfeita para todos os fiéis. Há também o 13,5.
que é a metade de 7, aparece muitas vezes como o tempo limitado, o tempo do mal, como também depois o 6 é visto como o número perfeito que ficou pelo caminho, ou seja, 7 é o número perfeito, 6 é o número que quase chegou lá, que morreu na praia, muito embora esta numerologia...
possa estar ligada às vezes até à dimensão greco-romana, como também à hebraica, porque há quem diga que o 666 é uma espécie de código político para o novo Nero, o Nero que é aqui uma grande também besta neste mundo cosmopolítico em que o Apocalipse é escrito. Portanto, estes números não estão lá por acaso, mas estão porque realmente na mentalidade da época, também na mentalidade do judaico, tinham uma função.
Isto com o João é absolutamente correto acho que o que aconteceu depois na tradição é um bocadinho, deu-se um certo caráter de fetiche a estes números, mesmo o 666 as pessoas acabam de se fixar nestes números sobretudo neste número da besta como se o Apocalipse quisesse elevar este número a um lugar particular não, estes são números e são símbolos que têm uma função narrativa no texto ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela ela
Não é para se fixar nos números e este número agora passa a valer para sempre. Não. Há este risco realmente de fetichismo destes números, quer os positivos, quer os negativos, que é um risco na tradição. Até porque o essencial do livro...
É transparente e foi transparente há dois mil anos, como é agora. Que esta ideia de um triunfo, de um deus, que é maior que os impérios. Isto está ali claro, tirando ao ponto os números. Com símbolos, animais monstruosos ou não, isso está muito claro. Mas há o risco dessa presença dos números e dos números simbólicos no Apocalipse também alimentar uma certa perspectiva...
apagando tudo isto, nós associamos essas ideias a um mundo mais obscuro, hoje ligado àquelas tradições do tarô, etc. Como é que se enquadra dentro de uma perspectiva religiosa, cristã, é isso que dizias, Francisco, ou seja, que eles cumprem uma função narrativa?
no que é relatado no Apocalipse. Esse é o risco, é realmente pensar este número separado desta história tem um valor em si. Isso é o grande risco aqui com o Apocalipse. Para dar um exemplo, façando os dia 7 então sou mais... quer dizer alguma coisa sobre mim, etc. Porque o dia 7 é perfeito. Só para trazer isto um bocadinho mais para este... Eu creio que a cultura...
O cinema, os livros acabaram por quase canonizar estes números. Por si. Por si, os 666. Mas estes números têm uma função narrativa no texto, são símbolos, não são em si próprios o fim da história, são símbolos e servem só para passar esta mensagem. Que Deus é maior que o 666. Exato.
Além dos números, há também outros símbolos. Grande Bancionia. Se quisermos ver como estes símbolos tiveram até uma certa repercussão popular. Não sei se leram, mas se não leram, se calhar houve uma grande geração que viu os filmes das Crónicas de Nárnia.
E não é por acaso que há ali uma personagem que é um leão, que morre num altar em torno de determinadas figuras, que existe uma batalha final em que existe um cabalo branco, já referimos até num episódio, o facto no Game of Thrones, acho que é o penúltimo, não quero ofender nenhum dos fars.
Há uma cidade em ruínas em que há um cabalo branco que se passeia na cidade. Tudo isto entrou na cultura popular, às vezes como forma de narrativa e como código, outras vezes como uma espécie de fetiche por estes números que, sem narrativa, são meramente amuletos e superstições.
O Apocalipse, como temos dito, é o último livro da Bíblia, no fundo é o texto que encerra este período bíblico e nos coloca no tempo que vem a seguir, o tempo dos primeiros cristãos, em que começa a ganhar forma aquilo que hoje se chama a Igreja. João, que papel é que este texto tem nessa fase de transição?
Creio que em duas notas podemos falar de dois papéis, dentro de muitos. Um é, este livro funciona quase como uma espécie de sistema imunitário da Igreja Nascente. Esta é talvez a sua função mais crítica naquela época, como já falámos, estamos de fato numa época de transição, de grande perigo para o cristianismo, onde haveria até o problema dele ser exterminado ou até diluído pela cultura...
da época, e o livro marca claramente ali uma fronteira até intransigente, diabolizando o império, conferindo-lhe a ideia da besta, da nova Babilónia, etc. Acaba por reforçar que a Igreja é algo contracorrente, sem querer fazer concorrência a um famoso podcast e programa desta rádio. Acaba por mostrar que a Igreja é algo contracorrente.
e que não é possível nós dizermos sim a Cristo e sim a Roma ao mesmo tempo, quando dizer sim a Roma era muito importante, ou poderia ser importante, até para garantir bons negócios e paz social. Por outro lado, há também uma transformação. Este livro marca uma transferência de campo de batalha.
Os primeiros cristãos esperavam que Jesus voltasse amanhã, já referimos isso com Paulo, falámos disso várias vezes, até quando falámos da morte de Jesus e da Páscoa do Reino de Deus. Mas o tempo passava e os apóstolos morriam, e o mundo continuava igual, e isso gerava até uma crise de fé, e o Apocalipse, como disse, muda o campo de batalha.
dizendo que em vez de uma vitória militar imediata na Terra, o livro mostra uma espécie de vitória litúrgica no céu. Não é por acaso que na segunda parte existem estas imagens de hinos, cânticos, adoração, o cordeiro, toda a gente em volta do trono, do altar do cordeiro, hinos repetitivos, por exemplo, santo, santo, santo, digno é o cordeiro que foi emulado, de receber o poder e a realeza, a grandeza e a honra.
De certa maneira, o livro introduz a igreja, introduz o leitor numa outra dimensão, numa espécie de grande celebração, porque enquanto o fim não chega, é como se nós cantássemos uma vitória que, para os crentes, de certa maneira já aconteceu, mas que nós esperamos que aconteça também de alguma maneira, de forma definitiva.
Então foi preciso, como dizias, mudar um bocadinho a narrativa. Portanto, o mundo que era para acabar amanhã de manhã nunca mais acabado. Nós celebrámos, de certa maneira, essa vitória, que não é uma vitória militar, mas é uma vitória litúrgica. É uma vitória de uma certa resistência ao tempo e aos modos imperialistas, para retomar isto que Francisco disse, que existem em torno do cristianismo e em torno de nós.
Dissemos logo no primeiro episódio que a Bíblia conta a história total da humanidade. E realmente agora estamos a chegar aqui ao Apocalipse e a ver isso precisamente. Estes cristãos desta geração, no Apocalipse, nestas visões que recebem, recebem numa altura em que já percebem que se calhar o mundo não vai acabar imediatamente a seguir.
recebem esta visão como uma visão que lhes permite olhar para o conjunto da história até ao seu final com a esperança necessária. Se até posso acrescentar, nós falámos disto. Já o Francisco aludiu ao facto de realmente nós podermos, não temos claramente referência de que será o Ivan Jelista João a fazer este livro.
Mas o facto é que este livro mostra que o reino de Deus, como Jesus diz, creio que no Evangelho de São João, não é deste mundo, mas é um reino do mundo. Não é deste mundo, mas é um reino do mundo e que tem uma origem sacrificial. Esta ideia do cordeiro que surge e que tem que ser imolado, o cordeiro que foi imolado é digno de receber alguma coisa, mostra que o reino não é uma espécie de triunfo, mas é um reino que se origina precisamente de um sacrifício, de uma morte e de uma determinada morte.
Eu há pouco na primeira parte já introduzi esta questão por alto. Há uma ideia frequentemente associada ao Apocalipse, que foi escrita, lá está por esta figura, João, a partir da Ilha Grega de Patmos, onde estaria exilado, desterrado, onde estava longe de todo o mundo.
A minha questão é, como é que, Francisco, estes textos, sabemos que a primeira parte então é a parte das cartas mais fácil, mas como é que estes textos escritos a partir de um desterro, de um exílio, foram depois encontrando o seu caminho até se tornarem num livro que hoje integra o cânone da Bíblia, das Escrituras Sagradas?
Esse aspecto da estrutura de que estavas a falar é importantíssimo. O Apocalipse começa com sete cartas. Cartas curtas, que já falámos aqui, e esta estrutura ajudou, no certo sentido, a enquadrar o Apocalipse com o que está imediatamente antes no Novo Testamento, que são as cartas primeiro de Paulo e depois dos outros apóstolos, Tiago, João, Pedro, Judas.
Portanto, as sete cartas ao início do livro do Apocalipse permitiram fazer a transição entre o grupo de epístolas e estas visões do final, do desenlace da história. Portanto, isto teria ajudado também à composição do Novo Testamento, começando com os Evangelhos, com as cartas e, finalmente, na transição para o Apocalipse.
Confirmo e reitero aquilo que já disse, esta atribuição a João Evangelista muito provavelmente é uma atribuição tardia. Isto é um dado importante e não falámos sobre isto nos Evangelhos e vou dizê-lo aqui. Muito provavelmente quem escreveu o Apocalipse chamava-se João. Como quem escreveu o Evangelho de São Marcos chamava-se Marcos. Quem escreveu o Evangelho de Lucas se chamava Lucas.
A tradição depois tentou ligar estes nomes concretos a figuras concretas referidas no Novo Testamento. Mas muito provavelmente estes nomes não foram inventados do zero. Foram pessoas com estes nomes que escreveram estes livros. Isto é um dado importante. Como também já disse, o livro teve alguma dificuldade em ser recebido. Nós hoje temos dificuldade em lê-lo. Na altura as igrejas tiveram dificuldade em recebê-lo.
Mas acabou por entrar como esta peça final da Bíblia. E é interessante porque um livro que teve alguma dificuldade em ser recebido foi colocado numa posição charneira. É o último livro. É a última palavra da Bíblia, num certo sentido.
É como a crónica da última página dos jornais que todos começamos a ler. Mas é um livro que relê a história e que dá um quadro muito poderoso do final dessa história, de uma esperança, no fundo, que não desiluda. É essa a mensagem principal do Apocalipse.
O Apocalipse, como dizias Francisco, termina a Bíblia, acaba a Bíblia. Quando chegamos ao fim do texto, aquilo que encontramos é uma promessa. O virei em breve, o vem Senhor Jesus. Ora, estamos também a chegar ao final deste podcast.
E gostava que ajudassem a perceber como é que esta ideia da Bíblia terminar com uma promessa é lida no universo cristão. Há pouco o João referia bem como no tempo dos evangelhos os cristãos consideravam que o fim dos tempos era a manhã de manhã, mas...
Todos os dias amanhecia um novo dia e o mundo não acabava e, portanto, neste momento, a perspetiva que os cristãos têm sobre o fim dos tempos já não é que é amanhã de manhã. Como é que, enfim, como não veio logo, como se achava nos tempos bíblicos, que lugar é que esta promessa de uma nova vinda de Jesus tem na teologia cristã e também na Igreja Católica?
Isso é uma nota quase perfeita para terminar, porque para responder de maneira direta, sim, esta dimensão é absolutamente central, porque sem esta expectativa, esta ideia que o cristianismo tem de que está à espera de algo, o cristianismo é apenas uma ideologia, até um clube de boas ações, uma filosofia moral, mas essa ideia de tensão permanente do tempo, como nós dizemos de maneira mais encriptada na teologia, um já e um ainda não, é absolutamente central.
Um já ainda não que tem uma concretização, para agora outra vez voltarmos à ideia de anti-imperialismo do texto, de algo que vem descido do céu. Reparemos que a nova Jerusalém que surge no Apocalipse é algo que nasce e que desce do céu e que não é perfeito puramente por mãos humanas, se quisermos depois falar, sei lá, quarto, quinto da célebre reflexão de Agostinho, sobre a diferença entre a cidade de Deus e a cidade dos homens.
Agora, por último, creio que o livro do Apocalipse mostra que o cristianismo é uma religião que tem um sentido e não uma espécie de visão temporal em círculos. Era muito comum no ambiente grego, Nietzsche depois vai retomar isso, a ideia de uma espécie de eterno retorno.
onde nós viveríamos sempre, ou até mesmo a dialética hegeliana, uma espécie de proposta de antítese e síntese permanente. Não, o cristianismo acredita que a história tem um rumo, tem um sentido, como o próprio livro diz, tem um alfa e um omega, e é para aí que o tempo vai. O tempo não regressa atrás. A ideia que agora vamos voltar atrás é uma ideia que não está escrita e pensada no Apocalipse.
Francisco. Só uma nota sobre isto, porque é uma imagem muito poderosa e acho que termina bem a Bíblia. A Bíblia começa num jardim e termina na cidade, na Nova Jerusalém. E isto é uma ideia muito poderosa. Nós não regressamos ao jardim. O cristianismo cria, a partir de Deus, uma nova cidade. E é isso que é a esperança que está inscrita no último livro da Bíblia.
Muito bem, este foi o último episódio da primeira temporada de As Histórias da Bíblia. Ao longo das últimas 12 semanas estivemos a olhar para a Bíblia, de uma ponta à outra, do Génesis até ao Apocalipse, e percorremos toda a história da Bíblia, um dos livros mais fascinantes e decisivos da história da humanidade e também o maior best-seller da história da literatura. Mas não vamos ficar por aqui. Na próxima semana estreia a segunda temporada de As Histórias da Bíblia.
Vamos continuar com o Padre João Basto, mas desta vez vai juntar-se a nós o Padre Daniel Nascimento, biblista e professor da Universidade Católica de Lisboa. E vamos contar as histórias de algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. Até para a semana.
As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.