SOB PRESSÃO: ATÉ ONDE AGUENTAR É SAUDÁVEL?
Olá!
Como vai você? Tudo bem?
Como tem sido seus dias por aí?
Hoje, nosso papo vai ser sobre pressão, perseverança e depressão. Temas que a gente acha que tem clareza sobre, mas, te garanto: sempre temos algo mais a observar e aprender para não nos tornarmos parte dos índices crescentes de adoecimento emocional que nos cercam.
Como já falei aqui, este Clube nasceu com o propósito de nos despertar e capacitar a lidar primeiro com as nossas dificuldades, conflitos e traumas, cujas dores e consequências comportamentais impactam diretamente nossas relações familiares e geracionais.
Passo boa parte do meu tempo atenta a informações comportamentais e creio, que, ainda que você não se debruce sobre isso da mesma forma que eu, facilmente entende como temos enfrentado situações absurdas envolvendo crianças, adolescentes e suas relações sociais e familiares. Nada disso acontece de forma gratuita.
Desde que começamos a super validar sentimentos, temos visto o quanto perdemos em saúde emocional. Por acaso você já parou para se perguntar por que isso acontece?
Esse cenário também é fruto de como temos sido moldados por pressões com as quais lidamos todos os dias e que cobram seu preço dentro dos nossos lares, impactando diretamente na conexão profunda entre pais e filhos.
O QUE ISSO TEM A VER COM A SUA SAÚDE EMOCIONAL
Como adultos, independente de sermos mães ou pais, sabemos que a vida é repleta de conflitos e muitas das nossas dificuldades emocionais e comportamentais tem sua base em nossas relações familiares. Isso é geracional, sabemos. Tanto que o conceito de nos educarmos quanto aos nossos sentimentos e emoções permanece em alta. Há psiquiatras, psicólogos, especialistas comportamentais, educadores socioemocionais, gurus e personas diversas abordando o tema amplamente.
Independente a quem você dá mais crédito nesse sentido, uma coisa é certa:
Existem dados que apontam dois extremos opostos: de um lado, a ausência de atenção parental empurra crianças e adolescentes para a busca de pertencimento em grupos de risco, especialmente online, onde encontram acolhimento que não tem em casa.
Do outro lado, o exagero oposto: pais que superprotegem e evitam qualquer desconforto para o filho também abrem brechas danosas. E não sou quem diz, pesquisas confirmam associação entre superproteção parental e maiores índices de ansiedade e depressão. Entre a ausência e o excesso, o que parece faltar é o mesmo: limite com presença.
Não estou especulando. Estou afirmando: se os dois pontos de partida começam na forma como estamos lidando com a próxima geração, o que não estamos vendo a nosso respeito?
Como lidar com esse cenário?
É importante que você possa olhar primeiro para si e compreender como está a sua saúde emocional. Se estamos bem e saudáveis, se nosso olhar está atento a ler corretamente nossos sentimentos, ambientes e contextos, tendemos a formar a próxima geração com mais saúde emocional real.
E por mais óbvio que seja a conexão dos indicadores de bem-estar - como satisfação com a vida, esperança e moral - com a nossa qualidade de vida emocional, é fácil observarmos que é exatamente nesses mesmos lugares que, gradualmente, vamos sendo derrotados quando precisamos lidar com as pressões do dia a dia.
É quase como um desdobramento natural: pressão gera reação, seja ela silenciosa ou explícita. Ela pode vir de diversas fontes, e, a forma como lidamos com ela vai definir a nossa capacidade de administrá-la e colocá-la no seu devido lugar.
Vem entender melhor isso!
PRESSÃO É ESTRESSE?
Sim, é.
Anos atrás, tentando descobrir alguns desconfortos físicos, tive que fazer uma bateria de exames. E ao fim, o diagnóstico foi estresse. O médico foi categórico: para ficar bem eu precisaria entender como lidar com meu estresse.
Mas havia um problema maior: eu não sabia o que era estresse. De fato, só descobri isso 10 anos depois quando o estresse ignorado se tornou fator decisivo para que eu desenvolvesse distimia - identificada somente após mais 2 anos de observação médica em busca de compreender dificuldades emocionais e cognitivas que eu já não podia mais ignorar.
Sim, a distimia - hoje tecnicamente chamada de Transtorno Depressivo Persistente (TDP) - pode ser desenvolvida ao longo da vida. E, embora algumas pessoas tenham uma predisposição genética ou traços de personalidade que as tornam mais vulneráveis, ela não é necessariamente algo com que a pessoa nasce. O estresse crônico e prolongado, especialmente quando ignorado por anos, é um dos principais gatilhos para o seu desenvolvimento.
Histórias como a minha, continuam a acontecer em escala crescente apesar de todos os alertas, informações e ações preventivas que temos disponíveis hoje. A minha história não é uma exceção, e por isso trabalho continuamente para que outras pessoas não tenham que lidar com as mesmas dificuldades e desafios que, hoje, se tornaram déficits permanentes na minha vida por falta de atenção e conhecimento.
Talvez você esteja aí pensando: Mas, como assim você não sabia o que era estresse?
Todos nós vivemos sob algum tipo de pressão. Parte dela é saudável e fundamental para o nosso desenvolvimento. Outra parte, pode ser destrutiva, seja a curto, médio ou longo prazo. Mas essa linha divisória, entre o que nos constrói ou nos destrói, por vezes é tênue, e pode ser ignorada sem sequer nos darmos conta. Ninguém escolhe desenvolver burnout, ansiedade ou depressão, contudo nossas escolhas diárias, às vezes pequenas e aparentemente inofensivas, podem sim nos levar a desenvolver esses mesmos problemas.
Eu te explico:
A pressão saudável funciona como um motor propulsor que nos faz crescer. Ela vai nos dando entendimento sobre o mundo e como devemos nos posicionar diante dele.
Um novo desafio no trabalho, uma mudança de cidade ou país, o nascimento de um filho ou um projeto desafiador, um problema pessoal inesperado, um concurso disputado, encarar um vestibular ou uma competição esportiva, são exemplos de situações que geram pressões naturais da vida. Pressões que nos ensinam a lidar com desafios e geram experiências importantes para o nosso amadurecimento emocional.
Coisas que nos tiram da zona de conforto e nós, fisiologicamente falando, fomos feitos para dar conta delas. Nosso corpo tem um sistema de resposta ao estresse que foi desenhado para ser temporário e funciona assim:
Quando surge o fator estressante, nosso cérebro, de forma positiva, mobiliza energia para enfrentá-lo (a chamada alostasia). Aumenta o foco, melhora a cognição e até amplia a satisfação quando o resultado é alcançado.
Tarefa concluída, quando essa pressão passa, nosso cérebro desliga esse sistema e retorna ao equilíbrio. Naturalmente cíclico e eficiente.
Repito: liga sob pressão, desliga quando ela termina.
Entretanto…. quando esse ciclo não termina e permanece ativo, sem nos dar folga, eis o que acontece:
Nosso cérebro, para dar conta, terá que funcionar em modo sobrecarga. Sem descanso, o dano chega. Esse é o famoso estresse crônico. Nele, sentimos que as demandas do ambiente superam completamente ou continuamente os nossos recursos para dar conta delas. O dia termina e essa sensação permanece, assim como no dia seguinte e no outro, e no outro….
Essa pressão, pode vir, por exemplo:
Do trabalho excessivo - aquele que acumula porque é incabível em 24 horas;
Da pressão para bater metas inviáveis;
Do fazer o seu trabalho e o do outro, até mesmo dentro de um relacionamento amoroso;
De ignorar a necessidade de descanso saudável - inclua aqui a falta de sono adequado;
De tentar dar conta de tudo de forma perfeita…. e outras tantas coisas que de tão normalizadas na nossa rotina já nem parecem mais excessos.
E assim, na grande maioria das vezes, a maior pressão se esconde nessas ações tão cotidianas que nem dimensionamos mais a proporção real do desgaste porque, na nossa mente, estamos fazendo o que precisamos fazer para dar conta da vida.
Estamos mesmo?
Quando uma tragédia, um luto, ou algo sobre o qual não temos controle gera pressão, às vezes é mais fácil compreendermos sobre como lidar com isso do que com pressões que permitimos e, até validamos como necessárias para o nosso sucesso.
RESILIÊNCIA
Sem conseguir nos parar, nosso cérebro começa a gerar sinais físicos como alertas que tentam chamar nossa atenção. Assim como aconteceu comigo, a saúde física sentiu o baque, e, ao ignorá-la, fui gradualmente esgotando minhas reservas emocionais a ponto de alterar a minha própria química cerebral, me levando a distimia.
Quando falamos sobre reservas emocionais, não podemos esquecer que emoções e sentimentos seguem em desenvolvimento constante, não importando o nosso nível de amadurecimento pessoal.
Apesar de falarmos muito a esse respeito, à medida que temos validado nossa atual cultura de performance, a forma como temos feito isso, criou um ciclo de comparações sem precedentes. Ao mesmo tempo, aprendemos que lidar com a pressão e ser resiliente são habilidades importantes no atual mercado de trabalho.
Mas eu te pergunto:
E a perseverança?
Nos empurra para a resiliência ou nos torna escravos da pressão?
Precisamos incluir a perseverança nessa história porque facilmente a confundimos com a resiliência. E é aqui que mora o perigo, porque a perseverança pode ser tanto aliada quanto vilã.
Existem estudos científicos sérios e bem validados que nos mostram como a perseverança tem um teto, um limite saudável, e quando não o respeitamos transformamos perseverança em pressão capaz de nos machucar feio.
Para entender melhor, tenha em mente que:
Perseverança é a continuidade da vontade diante de um objetivo, apesar dos obstáculos encontrados, do cansaço ou da tentação de desistir. É sobre sustentar o esforço ao longo do tempo, mesmo quando o caminho é difícil mas previsível, ou seja, você sabe o que precisa fazer, só precisa continuar fazendo.
Resiliência é a capacidade de se reorganizar depois de um golpe, uma ruptura, uma perda. Sabe quando algo quebrou, ou nos golpeou e atingiu em cheio a trajetória esperada? Não é apenas continuar, é saber se recompor, recalcular a rota e seguir adiante sem permitir que aquilo que te derrubou possa te parar. A resiliência nos torna imparáveis.
Eis uma forma simples de ver a diferença. Imagine que você está correndo uma maratona:
Perseverança é a força para cruzar a linha de chegada mesmo quando, no km 35, você já sente as pernas pesadas, o cansaço e o desconforto do esforço. É você contra você. A linha de chegada está ali na frente, persevere e você a cruzará.
Resiliência é força para se levantar depois que, no km 25, alguém te derrubou. Seu joelho agora está ferido, ele sangra, mas você sabe que dá para terminar, então, nada disso te impede de levantar e retomar seu objetivo. Ninguém vai te parar.
Percebe? A resiliência é inteligente, sabe avaliar e se recompor na trajetória sem perder o foco. A perseverança é manter-se firme.
Elas se complementam, mas não se substituem. Alguém pode ser extremamente perseverante mas ter pouca resiliência. E o inverso também acontece: há pessoas que se recuperam rápido de adversidades, mas têm dificuldade em manter o esforço constante em algo de longo prazo.
Quando as confundimos, o que acontece? Acabamos ignorando o fato de que a resiliência é um mecanismo de proteção que nos convida a nos reorganizar cognitiva e emocionalmente após as adversidades.
Se em uma maratona, alguém te derruba, você fere o joelho e não percebe que seguir em frente vai comprometer sua lesão, perseverar vai te expor ao risco de nunca mais correr. Nesse cenário, resiliência é saber que a sua história não termina ali. Você vai se recompor, se fortalecer e voltar à pista pronto para vencer. Porque resiliência é a capacidade de retornar a um estado pleno de funcionamento mesmo após um estresse ou trauma.
CONECTANDO AS PONTAS
Saber avaliar com clareza o que nos exaure, nos estressa e queima a nossa saúde cognitiva, emocional e mental é urgente nos dias de hoje. Pessoas psicologicamente resilientes desenvolvem um alto senso de compromisso pessoal e equilíbrio profissional, aliado a um maior senso de controle e abertura às mudanças e desafios da vida.
Ou seja, quanto mais alto o nível de resiliência diante de situações negativas, maior também será a capacidade de lidar com a ansiedade, a depressão, burnout ou estresse.
Da mesma forma, quanto menor a capacidade de resiliência de alguém, maiores são suas chances de sucumbir às pressões que a cercam, tornando essa pessoa mais vulnerável à ansiedade e à depressão.
Ficou claro?
Resiliência é ativo fundamental para a prevenção da sua saúde emocional.
Não dá para ser resiliente sem saber avaliar o cenário no qual estamos imersos.
E, seja de forma positiva ou negativa, sabe onde é que primeiro aprendemos sobre resiliência? Dentro de casa!
A simples forma como observamos nossos pais e avós reagirem à vida, ou nos contarem suas histórias já é uma forma de aprendermos como lidarmos com as dificuldades que vamos encontrar. Em casa, a forma como os pais se portam em situações de pressão impacta diretamente em suas relações familiares.
A pergunta que fica é:
COMO VAI A SUA RELAÇÃO COM A RESILIÊNCIA?
Se você não sabe ao certo, comece por aqui:
Quando algo inesperado acontece ( tristeza, raiva, perda, decepção, medo…) e gera um forte impacto como você reage?
Agora, o mais importante:
Segundo a American Psychological Association, resiliência é um processo, e não um traço fixo, o que significa que pode ser cultivada e treinada ao longo da vida. Portanto, se você chegou até aqui e percebeu que apesar da sua perseverança, sente-se sob pressão e entende que precisa tornar-se mais resiliente, saiba: resiliência é treinável.
Procure identificar as pressões que tem roubado a sua paz, o seu tempo de descanso e lhe desgastado física e mentalmente. Não normalize os excessos. Você não é o seu trabalho, nem suas dores, nem seus fracassos.
Você é alguém que pode e deve olhar para si mesmo de forma mais honesta e escolher como vai lidar com as dificuldades que te cercam hoje. Reconheça seus limites e, se preciso, peça ajuda. Desconecte-se do que for preciso para se reconectar com quem precisa, a começar, com você mesmo.
O simples fato de você estar conosco, já é por si só um investimento de tempo em autoanálise. Não esqueça: a boa mudança chega quando somos nós que resolvemos mudar.
Todo o nosso conteúdo é feito com muita curadoria e carinho, para que nesses 20 minutinhos juntos aqui, você possa refletir um pouco sobre como podemos agir de forma preventiva e ativa para a sua saúde emocional e da sua família.
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Obrigada pela sua companhia!
Nos vemos em breve!
Até lá!
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