PARA SER FELIZ INVISTA EM RELACIONAMENTOS
Olá, tudo bem?
Como está você? Como se sente? Está feliz ou triste, chateada ou animada?
Como vão seus relacionamentos? Você está feliz em relação a eles?
Sabemos que relacionamentos são importantes, mas, me diga: que impacto você acredita que os nossos relacionamentos tem na nossa felicidade? E na saúde? Tanto física quanto mental.
Para entendermos melhor como relacionamentos são poderosamente influentes em nossas vidas, e porque a solidão é tão ameaçadora quanto o álcoolismo ou o tabagismo, vamos voltar ao século passado!
HARVARD, 1938
Era 1938, e a Universidade de Harvard dava inicio a uma proposta ousada de pesquisa: acompanhar 268 alunos do segundo ano do Harvard College e 456 meninos moradores de bairros desfavorecidos de Boston. Dois grupos de idades distintas e classes sociais completamente diferentes.
Preste atenção nesse recorte:
No 1º grupo os estudantes do Havard College tinham em média 19 anos, eram jovens brancos e foram selecionados por seus reitores por serem considerados bons e honestos. E sim, eles representavam uma parcela privilegiada da sociedade americana.
Já no 2º grupo estavam adolescentes, com idades entre 11 e 16 anos, também brancos, selecionados por Sheldon e Eleanor Glueck, professores da Faculdade de Direito de Harvard ( ela, também assistente social), que estavam interessados em estudar a delinquência juvenil. O objetivo deles era descobrir como algumas crianças, nascidas em famílias desfavorecidas e problemáticas, à medida que cresciam, conseguiam permanecer em bons caminhos de desenvolvimento pessoal.
Naquela época, pesquisas comportamentais focavam em observar o que “dava errado” no desenvolvimento humano. Era tempos sombrios, em meio a Grande Depressão e pré 2ª Guerra Mundial. Portanto, era também disruptivo propor observar 724 pessoas para compreender melhor como a vida se desenvolveria, naturalmente.
Na década de 70, Havard transformou os dois grupo em um só. Com o tempo a pesquisa ampliou muito o seu alcance, incluiu esposas e filhos. O recorte de gênero foi equilibrado. O de cor não, pois em 1938 Boston era um cidade onde 97,4% da população era branca, e, ainda que consideremos alguns aspectos de miscigenação ela vem de base caucasiana.
Ao longo desse tempo, os pesquisadores observaram aspectos de saúde física e mental que iam muito além das análises clinicas para que pudessem analisar outras dimensões da vida. Até porque, para compreender como se constrói uma vida, era preciso mapear como esses jovens lidariam com responsabilidades, como constituiriam famílias, como foi chegada da paternidade, o amadurecer, o envelhecer… E ainda, como lidariam com os triunfos e fracassos em suas carreiras e casamentos… como tudo isso seria vivenciado através das diversas fases da vida.
O mais incrível? Até hoje esse estudo segue ativo! Agora acompanhando os filhos da segunda geração, suas famílias e até os filhos de seus filhos. Ampliando o olhar também para a observância do legado geracional.
O que eles constataram nos dão lições surpreendentes!
RESULTADOS
O estudo descobriu que as pessoas que permaneceram mais saudáveis e viveram mais tempo eram as pessoas que tinham as conexões mais fortes com os outros, pois a qualidade dessas conexões tinha um impacto positivo direto em sua saúde e bem-estar.
Agora observe:
Na saúde física, boas relações significavam que os participantes eram menos propensos a desenvolver doenças cardíacas, diabetes ou artrite. Em suas vidas sociais, as que eram mais amplas e com maior atividade social, resultaram em um início mais tardio e taxas mais lentas de declínio cognitivo. E ainda: o estudo até descobriu que as pessoas casadas viviam mais (uma média de 5 a 12 anos a mais para as mulheres e de 7 a 17 anos a mais para os homens).
Outro destaque é que, curiosamente, os participantes ficaram mais felizes à medida que envelheceram. Assim, a partir da meia-idade, percebeu-se que eles:
* Prestavam mais atenção às informações positivas do que às informações negativas;
* Se lembravam do passado de forma mais positiva;
* Se tornaram mais seletivos sobre como passavam seu tempo,
* Saboreavam cada vez mais o momento presente.
A explicação de Robert Waldinger, atual diretor do estudo, para essa tendência foi:
“Quando sentimos que o tempo é limitado, o bem-estar emocional se torna uma prioridade”.
Quando a primeira rodada de participantes estava na casa dos 80 anos, os entrevistadores perguntaram o que eles gostariam de ter feito diferente e do que estavam mais orgulhosos. E aí:
* Os homens responderam que gostariam de não ter passado tanto tempo no trabalho, mas sim com as pessoas com quem se importavam.
* As mulheres responderam que gostariam de não ter se preocupado com o que as pessoas pensavam delas.
* Para ambos os sexos, suas conquistas mais orgulhosas tinham a ver com relacionamentos. Os participantes estavam orgulhosos de serem um bom pai, uma boa mãe, parceiro(a), amigo(a) ou mentor.(a)
E aqui vale um adendo: em um outro estudo sobre Segurança do vínculo afetivo com o cônjuge na terceira idade, derivado dessa mesma pesquisa de Harvard, os pesquisadores descobriram que:
* Mulheres que se sentiam firmemente ligadas aos seus parceiros estavam menos deprimidas e mais felizes em seus relacionamentos dois anos e meio depois da sua primeira mostra de avaliação; elas também tinham melhores funções de memória do que aquelas com conflitos conjugais frequentes.
* Para homens e mulheres, maior segurança foi associada simultaneamente com maior satisfação conjugal, menos sintomas depressivos, melhor humor e conflitos conjugais menos frequentes. Maior segurança previu níveis mais baixos de afeto negativo, menos depressão e maior satisfação.
Em resumo, mais de 8 décadas de estudo constataram que:
Relacionamentos próximos, mais do que dinheiro ou fama, são o que mantêm as pessoas felizes ao longo de suas vidas. Esses laços protegem as pessoas do descontentamento da vida, ajudam a retardar o declínio mental e físico, e são melhores preditores de vidas longas e felizes do que classe social, QI ou mesmo genes.
Essa descoberta provou ser verdadeira em toda a linha entre os homens de Harvard e os participantes do centro da cidade.
Em uma outra entrevista ao site da McKinsey & Company, Robert Waldinger, ao ser perguntado se uma carreira profissional significativa é capaz de produzir a mesma felicidade que um relacionamento significativo, respondeu:
Não pode. É diferente. Há muito a ser dito para a realização se o que você está fazendo é significativo para você. O que descobrimos é que os emblemas de realização não fazem as pessoas felizes. Tínhamos pessoas que eram CEOs, que ganhavam muito dinheiro ou que se tornaram famosas. Essas coisas não se relacionam com a felicidade.
Claro que, à medida que alcançar coisas que são importantes para você é algo gratificante, isso faz diferença no bem-estar. Ainda assim, o que descobrimos é que as pessoas que eram mais felizes não estavam isoladas, elas sabiam equilibrar trabalho e vida pessoal.
Já as pessoas viciadas em trabalho, que não prestavam a devida atenção aos seus relacionamentos, eram algumas das pessoas mais tristes em nosso estudo e estavam cheias de arrependimento quando chegavam na casa dos 80 anos e pedíamos que olhassem para trás em suas vidas.
Essas descobertas afetaram tanto o Dr. Waldinger que ele declarou publicamente que decidiu ouvir sua própria pesquisa. Como resultado disso, em vez de trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, passou a investir mais tempo em sua família e nas pessoas que lhe eram mais próximas. Inclusive, passou a entrar em contato intencionalmente com seus amigos dizendo que estava pensando neles, convidando-os para passear ou jantar.
Ao fazer isso, ele mesmo passou a afirmar que, embora estivesse orgulhoso de seu trabalho, percebeu que sua maior fonte de satisfação não eram os prêmios acadêmicos que havia recebido, mas, em vez disso, viver e manter conexões vibrantes com os outros.
O QUE O ESTUDO NÃO PROVA?
Ele não afirma que relacionamentos garantem felicidade, mas que a forma como nos relacionamos é parte fundamental do que denominamos felicidade.
Ele não diz que precisamos estar casados para sermos mais felizes. Ele nos convida a compreender o que são vínculos profundos e nos mostra que relacionamentos conflituosos, fundamentados em relações adoecidas, nos adoecem emocionalmente (por vezes até, fisicamente).
Ele também não nos torna reféns de experiências ruins, nem mesmo dos traumas da vida. Pelo contrário, nos mostra que é possível recomeçarmos e termos esperança em um futuro melhor. Especialmente quando temos pessoas com quem podemos caminhar juntos.
DE FATO
O que ele nos prova é que:
Ninguém está feliz o tempo todo.
Dinheiro soma quando gera segurança suficiente para uma vida na qual as pessoas possam a se sustentarem sem preocupações quanto a si mesmas e suas famílias. Quando o dinheiro passa disso ( desse recorte sustentável), não agrega valor quando o assunto é felicidade.
Felicidade requer investir em relacionamentos.
As pessoas que estavam mais satisfeitas em seus relacionamentos aos 50 anos eram as mais saudáveis aos 80 anos.
Bons relacionamentos não protegem apenas nossos corpos; eles protegem nossas mentes
Em tudo isso, o que mais me impressionou foi ouvir Robert Waldinger afirmar categoricamente que:
“Bons relacionamentos não precisam ser suaves o tempo todo. Alguns de nossos casais octogenários podiam discutir um com o outro dia a cada dia, mas enquanto sentissem que poderiam realmente contar com o outro quando as coisas ficaram difíceis, essas discussões não afetaram suas memórias.”
COMO ISSO SE TRADUZ EM NOSSAS VIDAS?
Afinal, se a qualidade dos relacionamentos importa e se baseia em vínculos próximos, confiáveis e satisfatórios, pensa comigo: porque em meio a tanta informação sobre autoconhecimento, educação emocional e discursos politicamente corretos nos tornamos uma sociedade tão sofrida emocionalmente?
Em tempos em que nossas vidas entraram num padrão de comparação e medição de valor através, principalmente hoje , de redes sociais que nos isolam mais que conectam, uma outra pergunta precisa ser feita:
Em que definições de felicidade temos acreditado?
Quanto aos casamentos, namoros ou qualquer outra forma de relacionamentos afetivos,
Em que tipo de relacionamentos temos investido?
E, à medida que sabemos que nossos filhos aprendem mais pela forma como nos comportamos do que por nossas palavras, vale questionar:
Como nossos relacionamentos estão impactando a vida dos nossos filhos?
Como nossas decisões de hoje terão impacto emocional em nossos netos e bisnetos?
O que o estudo de Harvard faz ao acompanhar as mudanças nas relações, no trabalho, na saúde e na adaptação ao envelhecimento, é nos ajudar a compreender que:
As trajetórias humanas são construídas ao longo do tempo, a longo prazo, com erros e acertos, mudanças e recomeços.
Outro ponto que vale nossa atenção é que mesmo cientes de que as experiências da infância podem, e repercutem na vida adulta. Isso não significa que a infância determine de forma irrevogável o futuro de uma pessoa.
Mais do que isso:
O desenvolvimento humano não termina na infância. Aqui estamos nós, todos os dias podendo aprender com nossos erros e acertos.
Portanto, em meio a tantas justificativas reais sobre as dificuldades que temos vivenciado como sociedade, sobre as falências afetivas que nos cercam, para muitos talvez a melhor dica seja:
Recomece se preciso for.
IMPORTANTE
Ao responder, sinceramente as perguntas acima, você estará mapeando como tem investido em seus relacionamentos mais pessoais. Assim como podemos ligar para um amigo ou amiga para dizer que lembramos deles, que estamos com saudades e queremos marcar um café. Por vezes, nos nossos relacionamentos mais íntimos, também precisamos verificar se quem está ao nosso lado está bem, se precisa sair para tomar um café ou quem sabe se precisa apenas do nosso olhar mais atento.
Se somos nós quem precisamos disso, as perguntas acima farão ainda mais sentido.
Invista na construção de relacionamentos dispostos a vínculos profundos, são eles que nos tornam família. E família é o lugar onde nossas imperfeições se encontram e onde encontramos lugar para nos tornarmos nossas melhores versões.
Atenção é uma das formas mais básicas de expressar nosso amor a quem amamos.
POR FIM,
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Até a próxima!
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