Centro Nacional de Cultura - 80 anos
- Desenvolvimento CulturalContexto histórico pós-Segunda Guerra Mundial · Fundadores: Afonso Botelho, António Siabra, Gastão da Cunha Ferreira · Primeiras ideias e modernidade no CNC
- Francisco Sousa Tavares e a definição do CNCDefinição do centro como humanista, autônomo e criativo · Ligação de Gonçalo Ribeiro Teles à revista Cidade Nova
- Fundadores do Jornal 57 e debates políticosReunião dos fundadores do Jornal 57 · Debates monárquicos e ideia democrática · Apoio a Humberto Delgado e ao Bispo do Porto · Aventura da Livraria Moraes e Círculo do Humanismo Cristão
- Primeira fase do Centro Nacional de CulturaPonto de encontro de jovens artistas e intelectuais · Participação de Almada Negreiros e Sara Afonso · Grupo de teatro e a peça 'A Caixa de Pandora' · Exposição de arte moderna · Mudanças de sede
- Revisão e Acompanhamento SemanalImpulso de Helena Cidade Moura · Convidados como oradores · Criação das revistas 'O Tempo e o Modo' e 'Concilium' · Novos caminhos na criação e crítica literárias
- Programas de TV e comédia brasileiraCriação da Casa da Comédia · Peça 'O Marinheiro' · Encontro com escritores brasileiros
- Estatutos e Cursos no CNCAprovação de estatutos com Gonçalo Ribeiro Teles · Cursos sobre a saudade com Afonso Botelho · Conferências de Adelfim Santos e Gabriel Marcel
- Relação entre cristianismo e políticaNascimento da resistência cristã
Foi há 80 anos. Em 1945, a 13 de maio, o Centro Nacional de Cultura foi fundado por Afonso Botelho, António Siabra e Gastão da Cunha Ferreira, vindos de uma peregrinação a Fátima. Passava uma semana sobre o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. Desde o primeiro momento, as ideias novas e a modernidade estiveram bem presentes no CNC.
E o centro tornou-se, no Largo de São Roque, ponto de encontro pioneiro de jovens artistas, escritores, pessoas do teatro, defensores à vana letra do meio ambiente e da fidelidade às raízes, com os olhos postos no futuro.
Sara Afonso foi a primeira mulher no centro, graças à participação de Almada Negreiros. Este e Fernando Amado fizeram do tempo novo a regra e o princípio. E, sem cuidar das naturais vicissitudes de um grupo que ganhou direitos de alforria, sonhando uma cidade nova, notamos que depressa foi o desejo de ar fresco e de liberdade de espírito que prevaleceu neste grupo de jovens monárquicos que desejavam usufruir de uma necessária liberdade.
Tudo começou logo em 1946 com um grupo de teatro que levou à cena a Caixa de Pandora, com Fernando Amado, Rui Sinat e João Maria Bravo e Vasco Futscher Preira. Houve uma rádio de curta duração, mas foi muito importante uma auspiciosa exposição de arte moderna com Almada, António da Costa, Eduardo Viana, Carlos Botelho, António Lino e Cândido Costa Pinto.
Nesta primeira fase, o centro andará com a casa às costas, sucessivamente na Rua da Horta Seca, na Rua do Ataíde e na Rua do Loureto 42, primeiro andar, até 1952, à altura em que assenta armas e bagagens na Rua António Maria Cardoso, número 68. Era presidente da direção, João Camosa Saldanha.
São aprovados os estatutos com Gonçalo Ribeiro Teles. Têm em lugar cursos sobre a saudade, com Afonso Botelho, a que se seguem conferências marcantes de Adelfim Santos e Gabriel Marcel. Presidem aos destinos do CNC Adriano Vaz Pinto e António Siabra. Até que, a partir de 1957, a figura marcante passará a ser Francisco Sousa Tavares, que se afirma contra todo o conformismo.
Foi ele quem primeiro definiu o centro como humanista e um lugar de autonomia e de criação, de liberdade e de inteligência. E Gonçalo Ribeiro Teles ligou a revista Cidade Nova à natureza e à terra. Para a realização de sessões e conferências, à falta de cadeiras, usavam-se cestos de vime.
Em 1954, o grupo de teatro leva à criação da Casa da Comédia, centrada no grupo Fernando Pessoa, com a peça O Marinheiro, que realiza em 1962 a memorável turnê no Brasil, onde encontrou Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles.
Sousa Tavares e António Alçada Batista marcam por essa altura decisivamente o CNC, num sentido personalista, democrático e constitucional. Lourdes de Castro faz com José Escada a sua primeira exposição organizada pelo centro.
No CNC, reúnem-se os fundadores do Jornal 57, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Afonso Botelho, Orlando Vitorino e António Quadros, num tempo em que também se ouve a heterodoxia de Eduardo Lourenço.
Dos debates monárquicos, bastante acesos, passa-se à ideia democrática com a candidatura de Humberto Delgado, em 1958, o apoio ao Bispo do Porto, a reflexão sobre o dever social dos cristãos, em que pontua o facto de António Alçada Batista ter comprado uma pequena livraria jurídica que se abalança a ganhar dimensão. A aventura da Livraria Moraes e do Círculo do Humanismo Cristão.
O Conselho Vaticano II e o tema da abertura democrática põem o centro no coração dos temas atuais e necessários. Em 1961, realizam-se as conferências de quinta-feira sob impulso da nova Presidente da Direção, Helena Cidade Moura. São convidados como oradores o padre Manuel Antunes, o padre Joel Serrão, Virginia Rau, Vitorino Magalhães Godinho, Rui Belo, Adérito C. das Nunes, Davido Maron Ferreira, Luís Francisco Rebelo.
Alçada Batista cria, a partir de 1963, as revistas O Tempo e o Modo e Concilium. A ação começa na consciência. A consciência pela ação insere-se no tempo. Assim, a consciência procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo. Proclama a fórmula de Pedro Taman.
João Benar da Costa, Alberto Vaz da Silva e Nuno Bragança apontam caminhos novos na criação e na crítica literárias. De Agostina a Jorge de Sena, há novos valores a considerar. Nasce a resistência cristã com Nuno Bragança, José Pedro Pinto Leite e João Benar da Costa. O início da Guerra de África e a invasão de Goa suscitam reações contraditórias, mas a exigência de liberdade torna-se premente.
Depois do fecho da Sociedade Portuguesa de Escritores, pela atribuição do prémio a Luandino Vieira pelo romance Luanda, Sofia de Melbrainer assume a presidência e torna o centro um lugar de resistência intelectual. Perfeito é não quebrar a imaginária linha. Exata é a recusa. E puro é o nojo.
Henrique Martins de Carvalho exerce as funções de Presidente da Assembleia Geral, onde se manterá até 1974. Coincidindo com as crises académicas e com a presença marcante no CNC de Sofia de Melbrainer e Francisco Souza Tavares, jovens universitários tornam-se presença assídua.
Jorge Stampaio, António Rei, Jaime Gama, José Luís Nunes, Eduardo Prado Coelho, Gastão Cruz, Fiamas, Paz Brandão, Nuno Júdice, Jorge Silva Melo, Luís Miguel Sintra. Com a presidência de Francisco Lino Neto, realiza-se o primeiro Encontro Nacional de Críticos de Arte. Contesta-se a Guerra do Vietnã. José Manuel Galvonteles presida ao Centro e Joana Lopes é membro da direção. É o Marcelismo.
Jorge de Sena vem falar. Na Sociedade Nacional de Belas Artes organiza-se o ciclo Lusitânia-Coavadis. Há cargas policiais e detenções. Há dirigentes presos e o debate democrático é vivo e intenso, com Sousa Tavares a regressar à presidência. Vemos, ouvimos e lemos.
Não podemos ignorar, diz Sofia, numa Vigília de Cristãos na Igreja de São Domingos. E nada pode ficar como Dantes. Em 1970, António Alçada Batista e Nuno Teutónio Pereira trazem para o centro a Associação para a Liberdade da Cultura, presidida por Pierre Emmanuel. Entre nós, sob a designação de Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias, tem um papel muito importante.
Entre 1970 e 1974, António Alçada Batista, José Cardoso Pires e João de Freitas Branco assumem rotativamente a presidência do Centro Nacional de Cultura, cabendo a João Benar da Costa a função de secretário permanente.
É um momento de contradições e perplexidades. Se Nuno Teutónio Pereira é preso, Veiga Simão, o novo ministro da Educação, constitui uma comissão de cultura onde se encontram membros do CNC. Mas a Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos também aqui funciona clandestinamente.
Um dia, Frei Bento Domingues é convocado para a PIDE e diz que na rua António Maria Cardoso só conhece o Centro Nacional de Cultura. É a democracia que começa a afirmar-se. A liberdade de imprensa é defendida como essencial. Há cursos livres sobre temas proibidos. Realizam-se os jornais falados. Uma sessão com José Afonso é proibida e acaba em carga policial.
Em 25 de abril de 1974 chega a democracia. Sofia escreve. Esta é a madrugada que eu esperava. O dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo.
Francisco Sousa Tavares está, em 25 de abril de 1974, no Largo do Carmo, na primeira linha da defesa da liberdade, como sempre estivera. É o primeiro civil a falar publicamente. A legalização dos partidos políticos faz o CNC interrogar-se. José Augusto França, à frente dos destinos do centro, instala aqui o Departamento de História da Arte da Universidade Nova e permite a sobrevivência.
José Régio inspira o novo tempo. Davam grandes passeios aos domingos. Helena Vaz da Silva assume a presidência do CNC com a direção da Raiz e Utopia entre 1977 e 2002, plena de entusiasmo e de novíssimas ideias. Inicia-se uma nova fase de debates, de percursos, de mil projetos sobre o património cultural e sobre a presença portuguesa no mundo.
António José Saraiva e Eduardo Lourenço fazem da liberdade de pensamento um exercício de crítica e de recusa de lugares comuns. A psicanálise mítica do destino português e os filhos de Saturno desenvolvem-se como sinais de controvérsia e diálogo. A educação, a ciência, a cultura, as artes são poderosos fatores mobilizadores. Jovens cidadãos sobre rodas.
os portugueses ao encontro da sua história, o património cultural como realidade viva. As bolsas de jovens criadores e criar lusofonia ligam-se ainda à formação nos temas europeus, no turismo cultural e nos roteiros patrimoniais. Os Caminhos de Fátima constituem uma iniciativa no âmbito dos roteiros do turismo religioso que o CNC tem coordenado, sob a inspiração de Gonçalo Ribeiro Teles.
O Centro teve ainda a responsabilidade das Jornadas Europeias do Património do Conselho da Europa e aqui nasceu e concretizou-se a Convenção de Faro do Conselho da Europa sobre o valor do património cultural na sociedade contemporânea, assinada em 2005, ratificada e em vigor desde 2011.
Guilherme de Oliveira Martins, 2002-2016, e Maria Calado, desde 2016, assumiram a presidência do CNC. A partir de 2012, a quando da realização do Congresso da Europa Nostra em Lisboa, no Mosteiro dos Jerónimos, com a presença dos Príncipes das Astúrias, foi instituído com a Europa Nostra o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do património cultural, cuja lista de premiados é a seguinte.
Cláudio Magris, Oran Pamuk, Jordi Saval, Eduardo Lourenço e Jean Plantureux, Plantu. Wim Wenders, Bethany Hughes, Fabiola Gianotti, José Tolentino Mendonça, Anne-Therese de Kersmaker, Oksana Linive, Jorge Chaminet, Thomas Struth e Maria João Pires.
Em 2025, teve lugar a 13ª edição do Disquiet, encontros internacionais organizados em parceria com a DZANK Books, do Michigan, Estados Unidos da América, com uma centena de escritores norte-americanos em diálogo com escritores portugueses. A iniciativa nasceu sob a inspiração da memória do poeta Alberto Lacerda, invocando o livro do desassossego de Fernando Pessoa e Bernardo Soares.
Ao celebrar 80 anos de vida, o Centro Nacional de Cultura constitui, pela continuidade e pela presença marcante, um exemplo que merece evocação e que tem merecido reconhecimento. Recebeu vários prémios e medalhas, sendo a mais recente a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa. Entretanto, em diversas ocasiões, o CNC foi condecorado com importantes ordens portuguesas.
Em 1995, a Ordem do Infante Dom Henrique. Em 2005, a Ordem da Liberdade. E já em 2025, a Ordem de Santiago da Espada, pelo mérito das suas atividades. Centro Nacional de Cultura. 1945-2025. 80 anos. Uma porta aberta para o futuro.