Estamos fritos?
O ano de 2025 foi o terceiro mais quente de sempre e na Europa caracterizou-se por temperaturas acima da média, em terra e no mar, tempestades e ondas de calor. Dados e alertas que fazem parte do agora divulgado Estado Europeu do Clima, do programa Copernicus e da Organização Meteorológica Mundial.
Alice Fonseca, da organização ambientalista WWF, comenta o relatório e alerta para a tendência da subida das temperaturas para valores preocupantes. Diz que é preciso investir na adaptação mas sem esquecer a redução das emissões de gases com efeito de estufa. E considera que ainda é há tempo para controlar o clima esquizofrénico.
Fernando Pacheiro
Alice Fonseca
- Mudança climática e denominações de origem na EuropaTemperaturas recordes na Europa · Aumento de fenómenos climáticos extremos · Novo normal climático · Concentrações de gases com efeito de estufa · Limite de 1.5 graus de aquecimento
- Fidelidade vs. Adaptação de obrasNecessidade de adaptação aos impactos · Importância da mitigação e redução de emissões · Soluções baseadas na natureza · Foco político na adaptação
- OceanografiaPerda de gelo na Gronelândia e glaciares europeus · Subida do nível médio das águas do mar · Subida das temperaturas no oceano · Ondas de calor no Mediterrâneo e Atlântico · Impacto nos recursos pesqueiros e economia costeira
- Restauração de praias e serviços ambientaisImpacto do aquecimento marinho nas pradarias marinhas · Captação de carbono pelas pradarias marinhas · Pradarias marinhas como amortecedor de cheias · Pradarias marinhas como berçário de espécies de peixe
- Crise ClimáticaImpactos das alterações climáticas na biodiversidade · Perda de biodiversidade e crise climática como crises gêmeas · Restauro da natureza
- Transformação da economia portuguesaCríticas às propostas do governo · Falta de foco em soluções de base natural · Necessidade de recursos para municípios · Foco em recuperação pós-crise vs. investimento estrutural
- Variabilidade ClimaticaAdaptação à imprevisibilidade · Preparação para extremos climáticos
No ano passado, o terceiro ano mais quente de sempre, em quase toda a Europa as temperaturas estiveram em cima da média e no mar atingiram-se temperaturas nunca antes registadas. Vem este a propósito do relatório que foi agora divulgado sobre o Estado Europeu do Clima, feito pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, do Programa Copérnicos e pela Organização Meteorológica Mundial. Fala das tempestades das cheias, mas também da diminuição brutal dos glaciares.
e das terras cobertas de gelo, mas falo também das ondas de calor sem precedentes na Europa, e das chuvas e frios, enfim. Alice, vamos falar do tempo? Sim.
A Alice Fonseca é licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais, é especialista em Psicologia Social e Ambiente e é técnica de Clima e Políticas da WWF. Está aqui comigo a propósito do relatório. Eu sou o jornalista Fernando Pacheiro e este é mais um Lusa Extra, um podcast da Agência Lusa. Lusa Extra, um podcast da Agência Lusa.
Alice, olhando para isto tudo, especialmente para os dados aqui em relação à Europa, porque o relatório é sobre a Europa, nós estamos a fritar? Sim, pode-se usar esta expressão. As temperaturas estão, sem dúvida, a subir. Mas mais do que a subida das temperaturas e também o aumento dos fenómenos climáticos extremos, o que o relatório nos diz é que nós estamos, sem dúvida, perante um novo normal climático.
Ou seja, estamos numa nova era de instabilidade climática, em que os extremos vão ser cada vez mais frequentes e isso tem que nos levar a repensar as coisas, algo que já deveríamos ter feito antes, porque ao ler este relatório e como eu já trabalho nesta área há algum tempo...
O que nós vemos não é nada de novo, ou seja, o fenómeno agrava-se e cada vez torna-se uma questão do presente e não do futuro, mas o relatório diz algo para o qual os cientistas já muito alertam.
Mas os cientistas alertam, mas as pessoas parecem que ainda não ouviram os cientistas. Há aqui uma coisa, para além do relatório, que é muito preocupante. Há um dado lá no final que diz que as concentrações de gatos com efeito de estufa continuaram a aumentar. Nós estamos alegremente a serrar o galho no qual estamos sentados, basicamente. É isto, não é? Exatamente, sim, sim, sim. Ou seja, o relatório alerta-nos muito para a necessidade de adaptação.
Mas para nós termos capacidade de nos adaptar aos impactos das alterações climáticas, temos de mitigar, e mitigar numa escala com a velocidade e na escala necessária. E não é isso que temos vindo a fazer. Aliás, as concentrações de CO2 estão a aumentar.
e o planeta como um todo está cada vez mais perto de ultrapassar 1.5 graus de aquecimento face aos níveis pré-industriais e este é o limite definido pelo Acordo de Paris, ou seja, estamos cada vez mais próximos de ultrapassar este limite e parecemos não querer...
pôr o pé no travão e fazer repensar a forma como vivemos e como a sociedade funciona à escala necessária para travar e evitar o pior, no fundo.
Há aqui uma, não sei, mas parece-me que às vezes nos discursos dos políticos há uma, e é lógico que haja, que é necessidade de nos adaptarmos às alterações climáticas, mas não se está a dar demasiada importância à adaptação, que é importante, está bem, mas mitigar, lá está o que a Alice dizia, temos é que reduzir as emissões, porque senão vamos estar a adaptar-nos sempre e não vamos ao lado nenhum, vai ser cada vez pior.
Temos que fazer ambas as coisas, porque mesmo que nós consigamos mitigar na escala necessária e respeitar este limite de 1.5 graus, já vão haver impactos, até já estamos a vivê-los hoje, não é? Ou seja, a adaptação tem que acontecer na mesma.
Mas as duas coisas têm que andar a par e passo, mitigação e adaptação, ambas as coisas. Talvez a nível político seja mais fácil focar a adaptação, sobretudo usando mais das mesmas soluções, que muitas vezes são soluções cinzentas, baseadas em mais infraestrutura e não olhar para a natureza, porque isso acaba por entrar na mesma dentro do chamado business as usual.
mas ambas as coisas são necessárias, sim. Tenho ouvido nos últimos anos, por exemplo, o Sérgio Geraldo da ONU já tem dito que a janela está a fechar-se e temos pouco tempo para combater estas alterações climáticas de uma forma mais séria.
A minha pergunta, a propósito do que estava a dizer, a janela não se fechou já? Isto já não é... Se calhar este discurso de temos que agir porque a janela está fechada, se calhar já se fechou, já não há nada a fazer.
Ainda há algo a fazer, mas sem dúvida que as alterações climáticas já não é um problema do futuro, é uma realidade do presente. E como eu disse, o limite de 1.5 grau já está perto de ser ultrapassado, aliás estima-se que vai ser ultrapassado em uma década, ou seja, muito mais rápido do que inicialmente previsto.
De qualquer forma, nós na WWF Portugal consideramos que o esforço tem que continuar a ser em limitar esta ultrapassagem deste limite ao mínimo possível, ou seja, quanto menos graus ultrapassarmos os 1.5 melhor e quanto menos tempo tivermos nesta ultrapassagem melhor, porque assim aumentamos as nossas chances de continuar a conseguir viver como conhecemos, ou seja,
Sem dúvida que a janela está perto de se fechar, mas ainda é possível fazer algo e pronto, o que é preciso é que os políticos ouçam que é algo que não têm estado a fazer até o momento, sem dúvida. E é, vocês nas agências ligadas ao clima, nas organizações ambientalistas, não se sentem um bocadinho às vezes fraudados? Não sei se é defraudados, mas...
Falam, falam, mas depois os políticos parece que não ligam a importância nenhuma, só pensam na economia, enfim, e vemos isso. Se calhar mais agora até do que viemos há 10 anos atrás. Não é um bocadinho... Sim, por vezes pode ser desmoralizador, mas também é nas alturas mais difíceis em que a nossa mensagem menos é ouvida que mais necessidade há de a dizer, não é?
E, por outro lado, não deixamos de fazer projetos, mais na hora até do restauro da natureza, que têm um impacto concreto no terreno e que nos dão alento a nós e também às vezes às comunidades e às pessoas que trabalham connosco, nomeadamente no domínio do restauro da natureza.
que também tem alguma coisa a ver com o próprio relatório, que nos fala sobre os impactos das alterações climáticas na biodiversidade e como as duas coisas são, estes dois problemas, perda de biodiversidade e crise climática, são duas crises gêmeas e que se reforçam mutuamente. Então, às vezes com estas ações no terreno, cá em Portugal, de restauro...
que são muito concretas e num sítio concreto, nós estamos a conseguir construir resiliência para este problema que é global, ou seja, também é uma das fontes de alento que nós temos.
Ali, sem relação ao relatório, uma das coisas que falo lá é sobre as temperaturas muito acima do normal no norte da Europa. Na Noruega chegaram quase aos 35, em Frosta, que julguei ali mais ou menos a meio da Noruega, um bocadinho mais abaixo, 34,9.
Em Portugal, ao contrário, o ano até foi úmido, tivemos uma série de tempestades e tal. Não estou a falar das deste ano, que elas estão mais na nossa memória, mas no ano passado houve duas, pelo menos, a Martinho, por exemplo, logo em março, e depois a Cláudia, depois mais tarde.
Isto está um bocadinho fora do normal que a Europa viveu. Nós estamos a... isto é um novo padrão. Se calhar vamos ter um ano agora, um destes dias em que praticamente não vai chover.
Às vezes este fenómeno das alterações climáticas e os seus impactos é contraintuitivo, ou seja, à escala global nós temos uma subida das temperaturas, mas a nível mais local ou nacional não é obrigatório que a tendência seja sempre de aumento das temperaturas e por isso às vezes pode haver estes fenómenos.
aparentemente contraditórios de que, apesar do globo estar a aquecer de uma forma geral, em Portugal registam-se temperaturas mais baixas. Mas o que é sempre presente é a maior ocorrência de extremos e esses extremos serem cada vez mais imprevisíveis. E com essa questão de o ano passado ter sido um ano mais úmido...
Também é isso que vemos. E depois os fenómenos autoalimentam-se. Ou seja, tivemos um inverno mais chuvoso, mas que depois se seguiu imediatamente de um tempo seco e quente e isso levou a um crescimento rápido da vegetação, que depois desidratou e deu combustível para incêndios de grandes dimensões, como vimos em agosto.
Ou seja, às vezes estes fenómenos que são contra-intuitivos não deixam de ter sempre esta marca de mais extremos e mais fenómenos que têm consequências de grandes dimensões, como é o caso dos incêndios. Portanto, temos que nos esperar sempre para a seca.
Sim, ou seja, com as chuvas que tivemos também este ano, de grande intensidade, não devemos de todo ficar na segurança de que agora teremos sempre água e não nos preparar também para a seca.
Em relação ao gelo, a Grunlandia perdeu 139 mil milhões de toneladas de gelo. Os glaciares da Europa baixaram todos, enfim, a quantidade de gelo que tinham. Isto tem implicações no mar, isto não tem, aparentemente, não tem nada a ver connosco, mas tem, nós estamos, sendo um país ribeirinho, isto tem implicações no mar, na subida das águas. Devemos preocupar-nos também com isto.
Sim, com a subida do nível médio das águas do mar, que sendo nós um país costeiro, com muitas infraestruturas na zona costeira, sem dúvida que nos devemos preocupar com isso, e também com a subida das temperaturas no oceano. O relatório também fala, por exemplo, da ocorrência de ondas de calor no Mediterrâneo.
que, apesar de Portugal não estar diretamente na costa do Mediterrâneo, não deixam de afetar aqui a costa do Atlântico também, e os recursos pesqueiros, a economia costeira, ou seja, tudo isto tem um certo efeito bola de neve, digamos assim. As temperaturas no mar foram, no ano passado?
Foi as mais altas já registradas aqui na nossa zona. Isto tem implicações também nas algas? Sim, sim. Um tipo de ecossistema que é altamente afetado por isto são as pradarias marinhas, que prestam diversos serviços de ecossistemas, por exemplo, na captação de carbono, ou seja, também reduz a nossa capacidade de mitigação na adaptação, porque as pradarias marinhas também ajudam muito.
como amortecedor da subida do nível médio das águas do mar, das cheias, e, por outro lado, as pradarias marinhas são locais que funcionam como um berçário das espécies de peixe e que são essenciais para mantermos os nossos estoques para a pesca.
Ainda há poucos dias foi apresentado o programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência a propósito de... vai dar tempo ao mesmo, a propósito das tempestades, enfim, decorrentes das alterações climáticas. Este relatório devia ter sido uma oportunidade, ou foi, ou está a ser, ou vai ser uma oportunidade para um país mais amigo do ambiente, ou como é, que leitura é que faz das propostas do governo?
Para nós ficou aquém do esperado, no sentido em que para nós termos uma adaptação eficaz e custo-eficiente, nós temos que apostar muito nas soluções de base natural, ou seja, usar a natureza como um aliado central nesta adaptação.
E não é isso que nós vemos neste programa. Não foi colocado o foco devido na nossa perspetiva nessa dimensão das soluções de base natural e nas questões do restauro da natureza. Por outro lado, também é muito importante dotar os municípios que estão no terreno a construir esta resiliência climática.
de recursos para efetivamente conseguir implementar os seus planos de ação climática e essa também não é uma questão que é devidamente focada neste programa. Ou seja, achamos que este tipo de políticas ainda estão muito focadas numa recuperação pós-crise e não numa perspectiva de investimento estrutural para uma adaptação a longo prazo.
Muito bem, Alice, só mais uma perguntinha. O tempo aparentemente está bipolar. Um dia temos 10 graus, sobe 10 graus de um dia para o outro, depois 10. Temos que nos habituar a que um dia estamos a assar e no outro dia estamos a morrer de frio?
Sim, a imprevisibilidade é o que nos espera no futuro e quer a nível individual, quer a nível das políticas públicas para o futuro, é com essa previsibilidade que temos que contar e é para ela que nos temos que preparar, sem dúvida. Ficamos assim. Obrigada. Obrigada. Uma produção da Agência Lusa, disponível em lusa.pt e nas plataformas de podcast.
WWF