Episódios de Olhos nos Olhos

José Raposo

01 de maio de 202630min
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Nasceu e viveu em Angola, mas construiu a carreira em Portugal. A mãe arranjou-lhe uma entrevista para bancário, mas para nossa sorte escolheu ser ator. Conversamos Olhos nos Olhos com José Raposo.

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Assuntos3
  • TeatroInfluência do pai ator amador · Visitas ao teatro e à revista · Coincidência com Fernando Mendes
  • Experiências de InfânciaRecordações da infância em África · Mudança para Luanda · Animais selvagens e natureza
  • Profissão de ator e estrelismoEntrevista para bancário vs. teste de ator · Dom e trabalho na arte · Início no Haddock e revista · Transição para o drama no Trindade
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O meu próximo convidado nasceu e viveu em Angola, mas construiu uma carreira em Portugal. A mãe arranjou-lhe uma entrevista para bancário, mas para a nossa sorte escolheu ser ator. Tornou-se um dos mais talentosos portugueses atores e é muito acarinhado por todo o público. Atualmente está em cena com a peça Cheque Mate, mas no tabuleiro do jogo, que é o palco, sempre foi rei. José Raposo, em Olhos nos Olhos. Boa tarde.

Bem-vindo, Zé. Obrigado, muito obrigado. Muito obrigada. São muito bonitas palavras. Muito obrigada. São muito bonitas. Muito obrigada. Bonita é a tua carreira e a sorte que nós temos de te ter em Portugal e connosco, porque não me esqueço de ter recebido agora vários atores e quase todos eles acabam por falar em ti como sendo uma referência. Portanto, acredito que seja também motivo de orgulho. Muito obrigado. Mas, se voltarmos lá atrás, Zé, tu nasceste em Angola. Sim, nasci. E viveste em Angola até que idade?

No Dundo, na Lunda, que é no interior onde eu nasci, até aos 5 anos de idade. E depois os meus pais foram para Luanda, e em Luanda estive até aos 13. Portanto, na altura em que se deu a revolução, etc. E mais tarde toda a gente foi para Portugal. Mas o que é que melhor recordas da infância?

É assim, todas as pessoas que nasceram ou viveram em África, seja em que país for, trazem recordações maravilhosas do quê? Todos nós sabemos do clima, da luminosidade, do cheiro, de coisas muito específicas daquela zona do planeta, que é mágica, não se explica, só indo lá. Já lá voltaste.

quer dizer, já voltei à África, concretamente à Angola não, e não por opção. Foi porque, não calhou, sei lá, eu andava sempre a prometer aos meus filhos, à João, à Sara, a toda a gente, temos que ir, temos que ir, temos que ir, mas mais prometidos profissionais que eu fui. Por exemplo, fui a Moçambique fazer um filme.

E a Maia, adorei estar em Moçambique durante quase um mês. Mas foi por motivos profissionais. Mas lá foi, lá está, lá estive. Tem sido sempre por trabalho. Não dava, para o ano vamos, para o ano vamos, para o ano vamos. Só por isso é que ainda não voltei. Mas foi uma infância feliz? Foi felicíssima.

Foi porque foi no mato, foi com a natureza pura e dura, graças a Deus. E o meu pai era contabilista e ia fazer os pagamentos aos trabalhadores, portanto, às sanzalas, aos sítios onde eles viviam, e portanto, atravessava com um jipe as matas e, acima de tudo, a ideia que tenho é dos animais.

selvagens, macacos, etc. Há sim umas vagas ideias que ainda tenho de tudo isso. Depois, Luanda, diferente, é uma cidade maravilhosa, geograficamente uma coisa única. E de Luanda, sim, tem muitas referências visuais. Já eras mais velho também. Sim, sim. E quando eras mesmo pequenino, ou até mesmo já em Luanda, até aos teus 13 anos, há sempre aquela coisa que se pergunta às crianças, que é, oh amor, o que é que queres ser quando fores grande?

Sim, claro. Olha, eu queria ser o taxista ou o camionista. Sempre, dizia sempre, porque achava que eram pessoas que conheciam.

muitas outras pessoas conheciam o mundo e tinham essa possibilidade de ter outros contactos e conhecer muitas terras, imagens, etc. Tinha um bocado essa ideia. Depois percebi que, sim senhor, é pedido, mas é muito duro. Mas o teu primeiro contacto com o palco, com o teatro e com a representação foi em Angola ainda. Os teus pais levavam-te ao teatro?

Sim, o meu pai era ator amador. O meu pai tinha paixão do teatro. E então isso, claro, me incentivou muito. E depois cá, quando os meus pais vieram, nós fomos viver para outra banda. São rapazes da outra margem. E então vivi na Cruz de Pau, nas Paivas, e o meu pai levava-me à Almada.

ao grupo de Campolide, principalmente, a ver um reportório fantástico, com atores fantásticos, aquele grupo na Academia Almadense, ainda onde eles tinham a sede. E, rapaz, foi maravilhoso quando tivesse contacto direto. O meu pai também ia muito à revista com a minha mãe, ao Parque Meia-era, eles gostavam muito.

É natural. Há uma história engraçada, lembrei-me agora por causa disso, o meu pai, a minha mãe, quando eles eram solteiros, fizeram amizade com o Vítor Mendes, o pai do Fernando Mendes. Exatamente. Fizeram amizade com ele e com a Lídia, com a esposa. Mas ainda eram os quatro solteiros e eram amigos, por acaso, em solteiros. Mas não tinha nada a ver com o teatro. Elas trabalhavam as duas na Singer e eles, portanto, eram os namorados e encontravam-se todos.

Depois, mais tarde, eu e o Fernando viemos a estrear, mais ou menos com a mesma idade.

e só nos conhecemos aí. E foi muito engraçado esta coincidência toda. Isto porque o meu pai ia ver o Vítor, o meu pai e a minha mãe iam ver o Vítor, quando o Vítor começou a fazer revista, e nós éramos pequenitos, e os meus pais vinham cá, pelo menos uma vez por ano, à metrópole. E aí iam sempre à revista, claro. E lá conviviam com o Vítor, com a Lídia.

Acho engraçada esta história, esta coincidência. Eu e o Fernando somos muito amigos e também tem muito a ver com essa ligação dos nossos pães. Já estava escrito que iam ser. Exatamente. É verdade que aos 18 anos a tua mãe, preocupada com o teu futuro, te marcou uma entrevista para bancário na Caixa Geral de Depósitos. Sim, isso é uma história já muito falada, porque ela ainda hoje diz que ele podia ter ido para a Caixa Geral, mas pronto. Hoje em dia tinha uma boa forma, tinha sido diretor se calhar, sabe-se lá.

Não, mas a minha mãe tinha essa. É aquela preocupação que os pais têm com estas vidas artísticas que podem ser instáveis, não sei o quê. Pronto, isso é um lugar comum. E isso passava também pela cabeça da minha mãe. E realmente ela marcou uma entrevista e eu, no dia da entrevista, fui direto à DOC fazer o teste. Ou seja, tu não saíste na Caixa Geral de Depósitos e foste para o Martimuniz? Exatamente. Foi mesmo assim. No mesmo dia. Mas a sabias bem para onde ias.

Sim, sim, sim. Eu queria, claro que queria. Eu gostava de ver teatro, achava que tinha esse dom, porque é preciso ter-se um dom. Não é só trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, como toda a gente diz. Não é bem assim. É preciso trabalhar, mas depois de se saber que se tem esse dom, em relação a qualquer arte. Isso tem que nascer com as pessoas. E depois sim, desenvolvê-lo, trabalhando, claro que sim.

Mas eu imitava os políticos, imitava as figuras conhecidas. Era muito por aí, na escola. Achavam muita piada porque eu imitava bem essas figuras. Era mais isso. E depois, quando fiz o teste do ad hoc... Foi o Francisco Nicolson. Foi o Nicolson. Entre 50 candidatos, fiquei eu lá. Foi uma coisa na minha vida única, extraordinária. Foi assim que eu comecei.

Mas tiveste a certeza naquele dia que era aquilo que querias? Ou já tinhas antes?

Tinha antes, tinha antes, que queria muito ser aquilo. Agora, eu estriamo no Haddock, de facto, numa peça infantil, o Teatrinho, encenada pelo António Feio, porque o Francisco Nicholson é que me escolheu, não é? Na seleção daquilo. Mas depois havia uma peça infantil logo ali em cartaz, que ia estrear, e era o Feio que encenava. O António estava a fazer as primeiras encenações com os infantis do Haddock.

E depois à noite era a companhia de revista, que se fazia revista. Eu comecei nesse infantil, chamava-se o Teatrinho. E quando acabou?

Depois fui para a revista, para a entrega à becherada, era o nome da revista à noite, portanto fiz a peça infantil e a da noite, e depois em 1982, em fevereiro, março, por aí, abril, não sei, acabou, e eu disse, pronto, olha, foi uma viagem muito gira, mas fico para aqui, com certeza.

E o António Feio, passado uns dois meses, disse que ali no Trindade eu ia fazer uma coisa que já não faço. Estão a precisar de umas pessoas para, no público, dizerem só umas coisas. Defiguração especial. Não pode ser. Vou já. E no Trindade reconheci também uma realidade diferente. Era um drama, era o processo de Jesus, a peça. E, portanto, passei da revista para ali e fiquei a conhecer.

outro universo dentro do mundo da representação e muitos colegas também maravilhosos que me acolheram e que depois a Maria José, uma das minhas mestres a Maria José, grande atriz grande encenadora, grande mulher de teatro viu em mim, houve um ator que teve que se ir embora e ela lhe disse deixa lá o rapaz fazer aí o papel experimenta lá

Eu fiz e fiz o Filho Pródigo, foi um papel que me deu um prazer enorme. E que mudou a tua vida. Sim, também mudou. Portanto, estás a ver Francisco Nicolson, Maria José, quando falamos dos mestres, não é? Eu tenho sempre o receio de me esquecer de alguém, porque foram várias pessoas que passaram pela minha vida no teatro e que me influenciaram muito enquanto ator e enquanto homem, enquanto pessoa.

Parece aquela expressão da mão de Deus, sempre por baixo de um menino, não é? Exatamente, é verdade. Era sempre no momento em que mais precisava de estar lá alguém que te podia ajudar. Acho que tivesse a sorte. Sim. Também é preciso sorte. Também é preciso sorte, concordo contigo. E tudo o resto na vida. Foste conquistando duas pessoas ao longo da tua vida no palco, é certo, mas se tu olhares para a tua vida a extra palco, toda a gente te reconhece, um coração gigante e uma cabeça sempre no ar. Completamente.

Qual é o teu pior defeito? É isso mesmo, eu sou muito despistado, impressionante. Pronto, há a história toda, mais uma vez, vou falar nisso, deixar o meu filho na minha alhada, não é bebê? Na minha alhada? Na minha alhada. Conta-me dessas. Então, eu e a Maria João, o Miguel era bebê, e a Ana Alcofa, e nós íamos para o Porto para fazer uma comédia com o Camilo de Oliveira. E no carro ia também o Luís Alberto e a Natália de Souza. Éramos quatro adultos, portanto, não fui só eu e o João.

E fomos almoçar à minha alhada, no caminho para o Porto. Quando íamos embora, o bebê, a João Dijalda está aqui, o bebê, deixou-o em cima da mesa e foi à casa de banho. Numa mesa mais próxima da casa de banho. E eu e o Luís Alberto e a Natália fomos falando, fomos para o carro. Ela saiu da casa de banho, pensou, pronto, e levou o bebê. Não viu, foi também para o carro.

E arrancámos, o que é gravíssimo. Entraram notas que era de forma. Arrancámos sem o bebê. O carro arrancou, passava uns segundos, o Miguel, o bebê, o bebê, o bebê, o bebê, pronto, lá voltámos a tepar, imagina, não é?

Mas lá estava, em perigo. Lá estava, não o trocaram por nenhum leitãozinho, nada, ficou... Lá estava o Miguel inteiro. Tu tens uma paixão gigante pelos teus filhos. Tenho, tenho, tenho. É a razão da minha vida. Eu acho que qualquer pai, qualquer mãe... Saudável. É evidente, tem como...

principal da vida, os filhos, não é? É óbvio, isso nem me passa para a cabeça de outra forma. Os meus ricos filhos, o Miguel e o Ricardo e a Lua.

com grandes diferenças de idades, como toda a gente sabe. E é muito engraçado porque os meus netos, que são outros meus amores, óbvio, são mais velhos que a minha filha. Portanto, é uma tia mais nova que os sobrinhos. Mas acontece cada vez mais. Sim, claro, claro. Não é por aí. O facto dos teus filhos maravilhosos, que tenho a sorte de receber muitas vezes aqui no programa também, de pessoas incríveis que eles são essencialmente, terem seguido a profissão dos pais,

Não é que te orgulhe mais ou menos do que se eles tivessem sido bancários, como o pai deveria ter sido, aliás. Mas é quase o cumprir de um destino, não sei. Sim. Sim. Imagina, se eu amo esta profissão...

Faz todo o sentido que eu fico super orgulhoso e muito feliz por eles também a terem seguido. E a amarem, porque é preciso de facto ter um amor muito grande, uma paixão muito grande. Porque é uma profissão muito complicada, muito instável, muito... É preciso gostar-se mesmo muito, muito, muito disto para aguentar os momentos mais complicados. O que é que é mais difícil?

O mais difícil é quando não estamos a trabalhar, quer dizer, é quando estamos à espera de um tufemema. Já te aconteceu? Ah, claro que aconteceu. Então, no início, foi Jesus. Eu e a João, durante muitos anos... Eu só comecei a fazer televisão, por exemplo, depois de 10 anos, estar a fazer teatro, não sei o quê. Hoje em dia, a malta nova...

Começa pela televisão. Começa logo, onde é que é casting-nos, onde é que não sei o quê. Oh, filhos, tem que... Tem que penar um bocadinho ainda. Tem que penar um bocadinho, isto não é assim. Como diziam os antigos, o mais difícil são os primeiros 20 anos. Depois, pronto, já se começa a ser-se ator ou atriz. Portanto, isto não é assim. Esta coisa da fama repentina não é uma coisa muito jeitosa. Acreditem que não é.

As pessoas têm que aprender muito, muito, muita coisa antes disso. Ou seja, começar pelo fim, quase. É o que acontece hoje em dia. Exatamente. Porque a fama é uma consequência do nosso trabalho, que é uma exposição pública, não é? Exatamente, obviamente. Só isso. Mas só isso mesmo? É só isso. Porque estamos expostos, as pessoas veem-nos e pronto.

gostam ou não, e aí há uma apreciação natural. Agora, no teatro, as tábuas, o palco, é o ABC do ator. É aí que se aprende tudo. Porquê? Para já. Porque tem-se tempo para estar ali a ensaiar uma peça, durante um mês ou dois, e as coisas são muito mais aprofundadas. Depois, porque se tem, quando se está a fazer a peça, tens o público e há uma reação.

natural, lógico, espontânea. Ou riem, ou choram, ou seja o que for, há esta ligação com o público. Isto não acontece nem na televisão nem no cinema. Porque é assim. Não estou a dizer que nós exercemos em todas essas áreas a nossa profissão. Certo, mas é diferente. Mas é diferente. Não é por acaso que é a raiz aquela.

Exatamente, portanto, sem passarem pelo palco, não é a mesma coisa, não podem sentir o que nós sentimos quando fazemos teatro. E depois é lá que se ouve os melhores conselhos, que se vê como é que os outros, que são experientes, os mais velhos, como é que fazem os tempos, as reações, a interação, a contracena, que é fundamental, a generosidade, que é uma coisa super importante.

nesta arte, porque senão a coisa não resulta no seu todo. Isto é um trabalho de equipa, claro. Até mesmo o monólogo é um trabalho de equipa, não é? É, sem dúvida nenhuma, porque tu tens que ter, portanto, luz, o som, todo o ambiente do teatro e eu tenho ainda por cima mais uma ajuda, que é o auricular.

Sim, esse é o teu... Vamos aproveitar para fazê-lo já. Nós dizemos sempre aos nossos convidados para trazer um objeto, ou mais que um que sejam importantes na sua vida, e o José Raposo decidiu trazer uma mala. E eu pensei, olha, ou vai viajar ou é o objeto dele. O que é isto?

Isto é um auricular. Este, por acaso, já acompanhou-me durante anos e anos. É um auricular que, pronto, há alguém que tem este microfone. Não vou estar para aqui antes de manchar isto tudo, mas pronto. Com o microfone e com esta aparelhagem toda que está aqui, que são cabos e...

e receptores, emissores, não sei o quê, liga. Este microfone já foi a Angola. Já, já tem... Isso é de 1822, acho eu. E aqui, esta coisa, não sei se conseguem apanhar isto. É a RAC, pronto, onde está todo o sistema onde se liga. E depois há uma pessoa que está...

atrás do pano ou lá fora, a dizer-me o texto por microfone. Eu tenho aqui no ouvido uma coisinha... Um auricular. Aliás, que está muito em voga hoje em dia falar de auricular. Está. No teu caso, só pronto mesmo palavras ao ouvido. Exatamente. Mas é assim, sabes que há muito preconceito em relação a isto. Muitos e muitos colegas dizem... Mas não decoras o texto. Não decoras o texto, eu não sou papagaio. Digam-me o que disserem. Isto foi uma descoberta maravilhosa. Me aconteceu porque...

Ao ter o texto aqui, é evidente que eu primeiro ensaio, não é? Eu leio o texto, vejo tudo, portanto sei qual é o contexto. Mas não tens medo de esquecer da deixa para a outra pessoa, não é? Tens sempre alguém que te possa ajudar. Exatamente. E a mim dizem mesmo o texto todo, porque o ponto, antigamente, pronto, suprava, dizia as primeiras palavras para depois a pessoa continuar.

Eu, além de me superar, ainda sopram-me tudo. Digam-me tudo, não tenho problema absolutamente nenhum. Enquanto me estão a dizer, eu processo a coisa em relação à interpretação. E isso é que faz muita confusão à mesma parte dos atores. Como é que tu estás a ouvir e estás a dominar a cena em relação às intenções, às inflexões?

Eu consigo, eu consigo. É a tua maneira de trabalhar, não é? É, mas eu acho que é mesmo uma questão só de... Talvez pegue a moda, ou seja lá. Eu acho que ajudava muito os atores, mas se não quiserem, o problema é deles. A mim ajuda muito, porque me disponibiliza para todas as outras ações que são necessárias para um ator. E porque o texto não precisa estar ali a fixar o autor. Está aqui? Eu sei mais ou menos, claro, obviamente.

Porque, como eu digo, nós ensaiamos. Mas depois, ao dizer-me aqui, é uma segurança incrível. Pois, acredito que sim. Estou disponível para as outras coisas. Para tudo o resto. Exato. Portanto, pronto, é o meu... Até o objeto de eleição. Diziam que o cão era o melhor amigo do homem. Não, isto é que é o melhor amigo do homem. Não, exato, sim. E tens a dizer que arranjaram um mais pequenino. Já tenho. Olha o meu. Pois, já tenho. Já tenho um que nem se vê.

Põe-se aqui. É este. É este, este também não se vê. Exatamente. Eu tenho um assim. E fica maravilhoso. Qual é que foi o maior golpe que a vida teve?

Golpe? Ui, essas perguntas profundas. Não sei, há vários, todos nós, obviamente. Todos nós temos umas golpes, geralmente tem a ver com as perdas, obviamente. E são as pessoas próximas. O meu pai é João, obviamente.

Aliás, até tem a ver golpe, estávamos no golpe de sorte, foi o grande último trabalho da João, toda a gente sabe. E colegas também, como o Nicolau, se eu vou falar em nomes, o Armando, o Maria José, as pessoas que acima de tudo me inspiraram, que eram referências também para mim.

Eu acho que esses são os maiores golpes que a vida nos prega, no sentido negativo, as perdas. E depois como é que se vai vivendo com a saudade? Pois, é isso mesmo, vai-se vivendo. Vai-se vivendo porque a vida continua. A vida continua e isto não faz sentido se nós nos apagarmos.

por causa das perdas. Sofremos, porque somos humanos, obviamente, mas depois existem outras coisas. Olha, existem os filhos, por exemplo, para amar, para continuar a ter alguma razão de existir. Existe o teatro, que eu amo. Existem os colegas, os amigos, existe tudo isso. Isso continua, não é? Um dia seremos nós a desaparecer e outros sofrerão. O chamado é a vida.

A tua relação de amor profundo com a Sara também já dura há muitos anos. Já, lá vão. Eu às vezes digo um ano ou dois a menos, tenho que pensar duas vezes. Até lá que vai chegar a casa. 14. 14 anos. 14. E na altura também foi um escândalo nacional. Ah, sim. As idades. Porque são 27 anos de diferença, etc.

Para ti, que és um cabeça no ar, há de ter passado como um vento com alguns momentos mais complicados, mas para a Sara há de ter sido mais complicado. Como é que vocês vão gerindo também a vida de um e de outro, que são os dois atores, os dois com muitas pessoas à volta, que as pessoas gostam, com os holofotes e com os olhares e sempre em cima, e seguiram sempre o vosso caminho?

Ó Tânia, é assim, amamo-nos, ponto. O resto me interessa nada. As pessoas que pensam o que quiserem, sei lá, nós... Acho que ao fim de 14 anos, se calhar, aqueles que diziam não sei o quê, se calhar aquilo até... aquilo é mesmo a sério. Mas não me interessa nada o que as pessoas pensam ou não pensam. É a nossa vida e... Eu nunca entendi esta coisa das pessoas criticarem relações.

O que é que as pessoas têm a ver com isso? Cada um tem a sua relação, cada um tem os seus sentimentos. Nós amamos-nos, estamos há 14 anos, temos uma filha linda. A Sarah é uma atriz fantástica e estamos em cena os dois. Já estamos os dois em cena juntos há...

Vai fazer quase dois anos e tal, porque fizemos a peça anterior juntos. Trair e coçar. Trair e coçar é só começar. Foi um ano e meio e agora estamos nesta, do Cheque Mate. E, portanto, estamos muito próximos, o que é ótimo. Por isso, dizer o quê? É o amor.

Ai, ai, ai. Como diz a música. Tu estás à frente da Casa do Artista, que é uma casa de todos nós, na verdade. Eu sou sócia. Não é que não me tenhas puxado a roupa toda no Parque Meia Era, até eu me tornar sócia naquele dia do aniversário. Mas foi a melhor coisa que fiz, de facto. Portanto, agradeço de teres assistido. Obrigado. A Casa do Artista, enfim, toda a gente a conhece. Mas...

Tu estás a lidar, e há pouco, quando estava a estudar, o programa estava a pensar um bocadinho nisto. Tu és ator, és jovem ainda, mas estás a lidar com pessoas que já tiveram a tua idade. E não foi assim há tanto tempo quanto isso, quando nós pensamos assim. E agora estão na casa do artista e já não estão a trabalhar, e já não estão em palco, e provavelmente continuam a sonhar com os tempos áureos de tudo isso. Tens medo da velhice? Tens medo de já não conseguir fazer aquilo que amas mais?

Não. O que eu tenho é muita pena que neste país não se dê o valor exato aos mais velhos, porque não se dá. Este país não é para velhos, como diz o filme.

E ali há o exemplo disso, que há muitas pessoas que ainda estão perfeitamente disponíveis, aptas, com as suas faculdades todas, e não os chamam porque são velhos, só por isso. É uma coisa mesmo que tem a ver com este país, concretamente. Nós vamos aqui ao lado da Espanha, basta ir aqui à Espanha.

E eles dão um valor aos mais velhos, um valor incrível, inclusive até os elevam a determinado patamar, têm esse respeito por eles, fazem com que eles tenham participações especiais. Aqui não. Ainda ontem estávamos a falar nisso, eu e uns colegas, que, por exemplo...

Já houve em novelas casos de que davam uma série de cenas para um ator com cerca de 70 ou 80 anos e a pessoa, claro, ficava aflita porque já tem outras limitações. Portanto, deveria ter que se ter esse cuidado.

de pegar nesses atores mais velhos, pô-los a trabalhar, porque ainda por cima o público adora. Pois adora. As pessoas gostam, meu Deus, as pessoas gostam de ver, pelo carinho que a idade nos faz ter por eles, pela experiência e pelo talento, porque são os nossos mestres, são as nossas referências. Portanto, como é que essas pessoas são postas de lado? E eu falo isto e falo das televisões, que não os convidam, nos próprios teatros.

claro que há uma exceção ou outra mas regra geral não se dá trabalho a estas pessoas que sabem muito mais do que nós todos juntos e isso é uma coisa muito estúpida, estranha sei lá o que é que é de chamar mas acontece aqui em Portugal porque não é em todo o lado não é em todo o mundo, não venham com essa coisa é em todo o lado, não, não, não é

O exemplo das novelas... Não, Espanha, Brasil. Espanha, Brasil, Venezuela, etc. Estão lá os velhotes muito bons, todos. Não, e já para não dizer que há mulheres a apresentar programas de televisão aos 70 anos, em vários países da Europa. Aqui em Portugal, apesar de tudo, acho que já começa a mudar. Ainda assim, o importante é dizer que, já que falamos de talento, também tu inspiras uma geração, duas, três, a tua e até pessoas mais velhas. Olha aqui.

Minha mãe conhecia alguém que poderia fazer uma entrevista na Caixa e foi no mesmo dia em que estava marcada essa entrevista que eu fui ao teatro fazer a audição ou ad hoc.

O meu pai foi ator amador durante muitos anos, gostava muito de teatro, era um amante de teatro e, portanto, sempre me apoio incondicionalmente nesta minha opção. Pensa lá bem, pensa lá bem, pensa lá bem, se não sabes o que sentes, pensa lá bem, pensa lá bem. O palco é a nossa casa, é a nossa base, é o ABC de tudo em relação à arte representar.

Acordei agora e vamos começar o espetáculo. Está em evidência. É trabalhar, trabalhar, trabalhar. Na revista, que eu amo, aquele género de teatro que é... Eu nunca vou perceber qual é o preconceito em relação àquilo porque é um espetáculo muito difícil e maravilhoso. Parque Maher, vem...

Parque Meir. Parque Meir, em frente.

Acho sempre um pouco hipócrita aquela atitude de ah, eu sou ator, mas é para o meu filho, não, por amor de Deus, tu não sigas isto, mas porquê? Se nós amamos esta profissão, se nós gostamos, porquê é que não queremos que os nossos filhos a sigam? Nessa peça do Isto é que me dói, eu fui produtor com ela. Sara nunca tinha feito teatro e, portanto, estreou-se. Foi, além de marido, o padrinho do palco dela.

Não gosta da solidão, mas não se deixa abater. Quer trabalhar, quer estar com os amigos, quer fumar o seu cigarrito. Vamos fazer uma novela do Caraças!

Sejam bem-vindos ao grandioso Circo Paraíso!

Todos os géneros podem ser bons dentro do seu género. Eu acho que o ator é isso. O ator tem que experimentar tudo. O que é que eu vou fazer? Eu sou assim?

Uau. Muito obrigado. Gostaste? Ah, pá, muito bonito. Grande sequência, há coisas ali. Lá está, a gente fica assim, aquilo, aquilo, aquilo. Mas é uma montagem maravilhosa, parabéns. Sim, foi o Zé Tiago que editou e é pesquisador. Zé Tiago, muito obrigado e depois quero uma coisa destas para mim. Eles enviam. Se tiverem a tua cabeça no ar, talvez para o ano. Obrigada, Zé Raposo. Eu é que agradeço. É sempre maravilhoso estar contigo, porque tu...

Tu encantas as pessoas que vêm aqui. A sério, o teu profissionalismo, a tua bondade, que eu sei, tudo isso. Eu sei que não é para falar de ti, mas tem que se falar. Pronto, já está. Tu és uma mulher extraordinária. Vou-te pôr no pause. Não me interessa. Pause. José Raposo.