Corrida pelo fim do uso de combustíveis fósseis
Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, trata dos temas mais relevantes sobre Meio Ambiente e mudanças climáticas. A coluna vai ao ar às 6ªs, 7h45, no Jornal Eldorado.
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Márcio Astrini
Raíssa
- Sustentabilidade e combustíveis fóssilFim do uso de petróleo · Quebra de tabu sobre dependência de petróleo · Ações práticas para diminuir dependência · Resgate da ciência para políticas públicas · Criação de painel científico no Brasil (USP) · Próxima conferência em Tuvalu e Irlanda
- Redução de DesmatamentoDiminuição aparente na perda de florestas tropicais primárias · Comparativo com ano atípico de incêndios (2024) · Volume assustador de desmatamento global (4,3 milhões de hectares em 2025) · Países com maior desmatamento (Brasil, Indonésia, Colômbia, Peru, Congo, Malásia, Papua Nova Guiné) · Redução do desmatamento no Brasil nos últimos três anos · Desmatamento ilegal no Brasil (90%) · Disponibilidade de terra aberta no Brasil para produção de alimentos
- Estratégia do Irã para aumentar custos da guerraAumento do preço do petróleo e seu custo global · Lucro das petroleiras com a crise · Recorde de exportação de óleo cru e gás liquefeito pelos EUA · Aumento de lucros de companhias como a BP · Indignação com lucros em meio a conflitos e aquecimento global
Planeta Eldorado, com Márcio Astrine. Nossa voz e nosso olhar aqui de olho no clima no Planeta Eldorado. Oi, Astrine, bom dia. Bom dia, Raíssa. Boa sexta-feira de feriado. Bom dia aos ouvintes.
Bom, a gente tem falado aqui nas últimas colunas sobre a conferência lá de Santa Marta na Colômbia. Acabou essa semana a conferência dos países que foram para lá para tentar desenhar um plano para o fim do uso do petróleo, dos combustíveis fósseis. O que dá para dizer dessa reunião? Que avaliação você faz?
Olha, o pessoal saiu de lá bem empolgado, viu, Raíssa? Uma ministra, inclusive a ministra de Clima da Holanda, que era uma das que estava ajudando a organizar o evento, ela disse que foi uma reunião dos dispostos, dos que fazem acontecer no mundo, e que o que eles estavam querendo lá é que esse grupo que se reuniu cresça ainda mais.
Só para resgatar para os ouvintes, a gente está falando de uma conferência que chama-se Conferência de Santa Marta, que foi um encontro que durou cinco dias, terminou anteontem, mais de 60 países. E o objetivo era exatamente esse, traçar um plano para diminuir a dependência do uso de combustíveis sócios no mundo, principalmente o petróleo. Essa conversa toda começou no Brasil, aqui na COP30, na COP de Belém.
Depois que o governo brasileiro, lá no comecinho da COP, ele fez uma provocação ali, o Lula fez um discurso inaugural, fez uma provocação, um pedido para o mundo, para que esses roteiros para eliminar a dependência do petróleo acontecessem. Essa conversa, Raíssa, ela sempre foi meio que proibida entre os países, um tabu. Mas agora a gente vive um mundo onde essa análise...
sobre petróleo e essa dependência, ela começou a ganhar um outro perfil. Além do problema climático, nós estamos discutindo também o problema geopolítico. Está todo mundo buscando uma forma de blindar suas economias desses solavancos causados pelas crises do petróleo, que são constantes. Então, esse encontro, que é de clima, ele acabou ganhando essa carona da crise global. E seja pelo motivo econômico ou climático, esses países foram lá, se reuniram.
E parece que foi tudo muito bom. Eu vou destacar aqui pelo menos três coisas positivas que me disseram em avaliações diferentes sobre o que aconteceu. A primeira é exatamente essa quebra do tabu. O que antes era um assunto evitado virou um assunto inevitável, que é como que você diminui a dependência de petróleo.
O segundo é porque essas conversas, elas não ficaram ali se os combustíveis sócios ou petróleo precisam ser eliminados, mas de como, quais são as atitudes práticas para isso acontecer. E o terceiro é porque eles resgataram a ciência, a ciência tadinha, essa daí tão escanteada nesses últimos tempos.
por negacionismo, trampes da vida. Ela foi recolocada ali num lugar de centro para orientar políticas públicas, inclusive foi criado um painel científico que vai ser hospedado aqui no Brasil. A sede do painel científico que vai dar subsídios para esse grupo de países, mais de 60 países, vai ficar hospedado aqui no Brasil, na USP. Agora os países têm uma tarefa, Raíssa, que é fazer os seus planos nacionais, porque antes de você fazer um plano para o mundo,
você tem que ter pelo menos um plano para o seu país, para você tirar o discurso do papel e colocar na prática. Então foi uma conferência e um encontro realmente muito bom e o pessoal gostou tanto, Raíssa, que eles já até marcaram um próximo, que vai ser em Tuvalu. Vai ser Tuvalu e a Irlanda como cospedeira. Sabe onde é que é Tuvalu? Onde é? Vamos lá.
Tuvalu é uma ilha, na verdade é uma formação de oito pequenas ilhas ali na Oceania. Tem 11 mil habitantes Tuvalu, é um país. Com 26 quilômetros quadrados de tensão, é metade do tamanho de Osasco. Só para a gente ter uma ideia, bem pequeno mesmo, não sei nem como é que vai caber ali a próxima reunião.
E Tuvalu tem uma coisa importante, saber que Tuvalu, ela tem o ponto mais alto, e Tuvalu tem cinco metros acima do nível do mar. Tuvalu é um país que está sendo engolido pelo aumento do nível dos oceanos, então é um lugar simbólico para fazer um encontro, para falar de clima. Agora acho que eu me lembrei, é aquele país que está correndo risco de desaparecer mesmo, é ele mesmo.
É, teve até um vídeo na internet do primeiro ministro Tuvalu falando virtualmente, numa audiência de clima, e ele está com água pela canela. Ah, sim. Houve água pela canela. Eu vi. Eu vi esse vídeo. Bom, mas enfim, na Colômbia essa discussão, a discussão principal foi essa aí do petróleo, mas a gente tem outro problema ambiental.
que é o desmatamento. Tem também até um relatório que saiu essa semana, dizendo que o desmatamento de florestas no mundo diminuiu. Mas é para comemorar isso?
O desmatamento é um baita de um problema. O petróleo e combustíveis sócios são três quartos do problema do aquecimento do planeta. Desmatamento é praticamente o resto. E esse estudo, ele saiu essa semana, ele foi feito por uma organização que é bastante respeitada, a WRI, nesses levantamentos sobre florestas no mundo. Eles fizeram esse levantamento junto com a Universidade de Maryland.
E o dado é que a perda de florestas, tropical primária, florestas tropicais principalmente, diminuiu 36% entre 2024 e 2025. E é aparentemente um número bom, mas ele é bom na superfície, porque diminuído o desmatamento é sempre positivo. Mas quando a gente analisa o problema que ainda existe, aí a história fica bem diferente. Primeiro porque o comparativo...
dessa diminuição é com 2024, um ano totalmente atípico, incêndios florestais recordes, principalmente por conta de um elninho muito forte que a gente teve. Esse efeito, inclusive, pegou muito aqui no Brasil, não sei se você, Raíssa, lembra, mas a gente teve em 2024 rios na Amazônia que secaram, incêndios totalmente fora de qualquer padrão. Então, essa diminuição de 36% da perda florestal, ela é boa.
Mas ela só fica boa primeiro em relação ou em comparação ao ano que foi muito ruim. E o segundo ponto é que mesmo diminuindo, o volume de desmatamento que existe no mundo ainda é um negócio assustador, inacreditável. Só para a gente ter uma ideia, o mundo perdeu, só em 2025, 4,3 milhões de hectares de floresta. Isso equivale ao seguinte, a cada minuto...
Cada minuto que se passa, a gente perde 11 campos de futebol de florestas desmatadas. É um negócio realmente assustador. E são vários os países que têm floresta tropical. O Brasil é o que tem maior quantidade, mas a gente tem Indonésia, Colômbia, Peru, Congo, Malásia, Papua Nova Guiné. São muitos outros países, todos eles desmatam, todos eles desmatam muito.
O Brasil reduziu bastante o desmatamento nos últimos três anos, a gente cortou praticamente pela metade, então muito desse número de redução que foi mostrado se deve também ao Brasil, mas mesmo assim a gente ainda desmata muito aqui, são cerca de um campo de futebol por minuto, 5 mil quilômetros quadrados.
por ano e 90% desse desmatamento é ilegal, para piorar ainda mais essa conta. E a gente faz tudo isso, Raíssa, sem precisar, porque o Brasil tem terra aberta, já desmatada.
mais do que suficiente para a gente dobrar, por exemplo, a produção de comida sem derrubar mais floresta. Esses dados são inclusive dados oficiais da própria Embrapa. Então, eu diria o seguinte, quanto existe desmatamento, mesmo que ele diminua de um ano para o outro, essa conta, ela sempre vai ser uma conta de derrota, uma conta de perda de floresta onde não precisava ter e é uma conta negativa no fim das contas, mesmo com a diminuição, no Brasil e também no mundo.
Bom, Astrine, você sempre procura encerrar aí a nossa coluna com alguma notícia boa. Tem ou não tem essa semana, hein? Ó, positiva, eu vou te dizer que eu já até gastei um pouco ali no começo, falando da Colômbia. Mas eu tenho uma para fazer a gente se revoltar um pouquinho, pode ser? Vamos lá. Então vamos lá. É um cálculo, viu, Raíssa? Um cálculo dos custos da guerra.
dos Estados Unidos, essa guerra que está acontecendo no Irã, de quem tem prejuízo com a guerra, quem lucra com a guerra. Foi uma matéria do Guardian que saiu esses dias, é um cálculo feito com dados do Banco Mundial, foi feito pela Oxfam e por uma outra organização que se chama 350.org. Resumo, o aumento do preço do petróleo custou ao mundo entre 600 bilhões e 1 trilhão de dólares até agora.
600 bilhões de dólares e um trilhão de dólares até agora. E é uma conta que pode até ficar mais cara, porque eles não calcularam ali o prejuízo com fertilizantes, produção de alimentos e tudo mais. E a gente tem o outro lado da história, que é quem ganhou com essa crise toda. Os Estados Unidos ganharam muito. Eles bateram recorde de exportação de óleo cru e gás liquefeito.
E as petroleiras foram as campeãs de quem mais se deram bem com essa situação toda de aumento de preço de barril de petróleo. Só para a gente ter uma ideia disso daqui. Só algumas companhias ali, algumas americanas, meia dúzia de companhias, elas vão lucrar esse ano quase 3 mil dólares por segundo em 2026. A companhia de petróleo inglesa, que chama BP,
ela dobrou, só nesses três primeiros meses de 2026, ela dobrou os seus lucros em relação ao ano passado. Então, só para a gente se revoltar um pouquinho, esses dados aí mostram que enquanto tudo no mundo fica mais caro com a guerra, as pessoas são bombardeadas, aquelas cenas, enfim, lamentáveis, o mundo esquenta com a queima do petróleo, tem gente que está feliz aí e lucra muito com tudo isso.
para a gente ficar um pouco indignado nesse feriado dia a dia de trabalho. Importante também, os senhores da guerra lucrando. Esse é o Márcio Astrine, que é secretário-executivo do Observatório do Clima, e a sexta está aqui com a gente na coluna Planeta Eldorado. Obrigado, bom fim de semana. Bom fim de semana, até sexta que vem.
Elo