Teresa Ricou: “Não quero que o Chapitô seja uma instituição, no dia que acontecer... não sei. Assusta-me. 40 anos depois acredito que ainda é um projeto”
Nasceu em Praia de Granja em novembro de 1946. Filha de mãe brasileira e de pai português que nasceu na Suíça, foi sempre uma criança com muita energia, fruto da mistura da família. É conhecida por todos como Teté, criadora da maravilhosa personagem da mulher palhaço. Viveu em Angola, partiu de casa dos pais aos 16 anos e andou pelo pelo mundo a viver e a sonhar com a arte. Esteve por Londres, trabalhou em restaurantes, lojas e aprendeu o que a criatividade pode fazer pela felicidade dos outros. Pelas ruas de Paris, de saias e nariz vermelho, animava quem passava. Na Hungria frequentou uma escola de circo e só voltou a Portugal depois do 25 de Abril. Numa antiga prisão de mulheres, criou o Chapitô onde há mais de 40 anos que prova que a integração social através das artes e ofícios é causa que podia fazer do país um lugar de melhor. Teresa Ricou, Teté, é a convidada do novo episódio do Geração 40 conduzido por Júlio Isidro. Ouça aqui
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Júlio Isidro
Teresa Ricou
- Criação e filosofia do ChapitôIntegração social através das artes · O espaço físico do Chapitô · O Chapitô como projeto em construção · Apoio empresarial e fundos europeus
- Formação artística internacionalExperiências em Londres · Vivências em Paris e a personagem Mulher Palhaço · Formação em circo na Hungria · Participação no Maio de 68
- A vida de Teresa Ricou como artista e ativistaExperiências com o circo e palhaços · Trabalho com jovens em situação de vulnerabilidade · Participação na Revolução de 25 de Abril · Colaboração com Luciano, o palhaço · Encontro e trabalho com Arrabal
- Infância e juventudeExperiências em colégios internos · Vida em Angola com o pai médico · Rebeldia e desejo de autonomia
- Experiência pessoal com o filmeCurso de cinema cubano · Participação em filmes de Arrabal · Trabalho com Emmanuel Riva · Filmagem do espetáculo de Popov
- Cultura e SociedadeA importância da criatividade e da transformação · Crítica à sociedade de consumo · O papel da cultura na união das pessoas · A evolução da tecnologia e da inteligência artificial
mandaste-me fazer uma fotografia. E eu trouxe o melhor possível, por ter trazido outras. Eu já sou muito antiga, tenho 80 anos. Vou fazer. Tu és mais velho que eu, 81. Está bem, ok. Todo o respeito. Agora, esta fotografia é uma fotografia com uma amiga minha, a Holguinha, em Silva Porto, nas Áfricas Profundas lá. E a filha do governador que se ocupava de mim, me ia visitar aos fins de semana em Silva Porto, onde eu estava no Colégio São José de Coloni.
E por isso eu era uma pessoa muito enriqueta, muito curiosa, muito curiosa e tal. E a minha curiosidade era de tal maneira que o meu pai não aguentava mais e estava sempre interna. Não era que nem interna, por vários colégios de freiras.
em Silva Porto, Nova Lisboa, Moçambes Sada Bandeira, por aí fora e pronto estava a tentar estabilizar os colégios que já estavam a organizar, para no final de tudo ao fim de 80 anos faço eu uma escola para jovens indisciplinados como eu era já vamos falar disso, esta é a fotografia
Eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta como eu. Como é bom, meu Deus, morar, assim, no primeiro andar, a cantar o hino do céu.
Chama-se Maria Teresa Madeira Ricu, nasceu em Praia da Granja no dia 12 de novembro de 1946 e todos a tratamos por Tete. Antes, muito antes de criar a maravilhosa personagem da Mulher Palhaço, acompanhada da sua galinha Mariana, a Teresa viveu em Angola, partiu do caso dos pais aos 16 anos e andou pelo mundo a viver e a sonhar com a arte.
Em Londres, à procura da sua autonomia, trabalhou em restaurantes, lojas, aprendeu e apreendeu o que a criatividade pode fazer pela felicidade dos outros. Nas ruas de Paris, já de saias e nariz vermelho, animava quem passava. Sentiu e vivenciou o maio de 68, onde a palavra de ordem era a imaginação ao poder. Na Hungria, frequentou uma escola de circo, ela que já vinha de cursos de formação na escola de mímica de Jean-Jacques Lecoq.
ou de cinema no Museu de Loma. A sua vida estava definitivamente marcada pelas artes circenses. Aconteceu o 25 de Abril e Teresa volta a Portugal porque a hora era de acreditar na liberdade. Não era fácil aceitar no mundo do circo uma mulher palhaço, como também se fechavam portas aos palhaços já velhos. Tete teve a sorte de encontrar Luciano, o rei dos fastudos, e forma-se uma parelha de diferentes, tão iguais.
De uma volta ao país, os bairros carenciados ficam mais alegres durante a dinamização cultural e Tete sonha em ir mais longe. Percebeu que a integração social através das artes e ofícios era uma causa que podia fazer do país algo de melhor. E nasce numa antiga prisão de mulheres, o Chapitou, onde há mais de 40 anos a Tete tem dado a sua criatividade num espaço onde se tem o prazer de olhar o Tejo e conviver com gente do Castelo e Santa Catarina.
A jovem rebelde e livre que dá a mão aos jovens que precisam de amor e futuro. Diz ela, a vida é uma guerra cheia de lutas. Como entretendo com meus passos, cheio de cores, me aconchego o pensamento. Vai ser uma conversa sem palhaçadas, mas de certeza com algum riso. Eu sou o Júlio Luís Hidro e esta é a Geração 40. Os meus convidados nasceram nos anos 40 e cresceram com os racionamentos e a sombra da Grande Guerra.
Passaram de um país fechado a uma Europa aberta. Assistiram ao avanço da tecnologia e hoje são testemunhas do advento da inteligência artificial. O mundo mudou muito. Mas terá mudado muito para melhor. É isso que vamos tentar perceber neste podcast. Bem-vindo à Geração 40.
Maio é o mês do coração, o momento ideal para cuidar do seu. Sabia que o colesterol alto é um inimigo silencioso. Não avisa, mas tem impacto na nossa saúde. É um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, a primeira causa de morte em Portugal.
Já conhece o Danacol. Contém esteróis vegetais que ajudam a reduzir o colesterol em apenas duas a três semanas. Um por dia, de forma simples. Não espere para cuidar do mais importante, o seu coração. Tenha uma alimentação equilibrada, faça exercício físico e se tem colesterol elevado, tome um Danacol por dia. Fale com o seu médico e consulte a embalagem do produto. Cuidar do coração não tem de ser complicado. É só um Danacol por dia, de forma fácil.
E até, vamos começar a conversar, já há bocadinho davas a deixa, dizendo que estavas em colégios internos porque eras um bocadinho desestabilizadora. É só isso ou era muito mais? Mas estabilizadora era instaladora de outras animações.
Porque o teu pai era um extraordinário dermatologista que estava em África a combater a lepra e por aquilo que eu sei, tu até fazias animações para os estudos dos irmãos. Também, também. Como é que aconteceu essa vocação para animar os outros?
Não, quer dizer, para já sou uma pessoa bem nascida e agradeço muito à minha família ter maturado, porque realmente a minha rebeldia ultrapassava fosse o que fosse. Porque uma pessoa estar instalada para mim é uma coisa que me incomoda, uma pessoa muito instalada. E por isso, quer dizer, eu acho que tanta coisa que vai à volta e uma pessoa está sempre a olhar e a ver como é que está o ambiente e o que é que é e tal.
comprar feito é uma coisa que eu não faço porque faço tudo, não é? aliás tu sabes o que é que é porque tu foste também um homem um homem das manualidades do teu aeromodelismo quer dizer que foi uma coisa assim extraordinária na época ainda do FAOJ havia o FAOJ aí por meio
E tu tinhas uma garagem onde tinhas os teus Que tu manuseavas Eu também sou uma pessoa das manualidades Aliada exatamente À recriação De qualquer um dos objetos Um objeto não tem que ser só aquilo que é Mas pode ser muito mais coisas do que aquilo que é
De maneira que eu sou uma criadora nata, porque não sou uma académica, sou uma inventora, estou sempre a inventar coisas e a transformar e a fazer. E para que o mundo pule e avance, porque senão o mundo fica ali estabilizado, não tem graça nenhuma, não é? Por isso é que a sociedade de consumo também tinha que ter pensado mais nessa estabilização, mas deixou que cada um fizesse o que eu queria fazer.
Mas por isso, a coisa de estabilizar ir a um centro comercial e ter tudo igual, eu não sei comprar lá, não sei comprar um centro comercial. Eu gosto mais de ir ali à loja do bairro e de escolher e falar e conversar e ir fazendo também. Porque eu não estabilizo, eu instauro, é uma outra perspectiva daquilo que está estabilizado.
E ainda bem, portanto, quer dizer, o convívio com agentes de Santa Catarina e do Castelo, por exemplo. Sim, a associação que começa exatamente em minha casa, na minha cozinha, onde eu os instalei em minha casa, e passou a ser um centro de apoio, um espaço de criação e de organização daquilo que vem a ser o chapitou no Castelo de São Jorge. Por isso é que se chama-se em Santa Catarina, Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina.
Porque exatamente começa num espaço que é uma casa, onde era bastante grande, porque era uma casa comunitária, e por isso onde a cozinha fazia parte era a cantina, onde havia algumas salas, uma sala de trabalho, salas de apoio, salas de acolhimento, enfim. De maneira que tudo isto é para ser transformado. E foi, e tem sido. És uma transformadora. Sim, transformar, é. Qual foi a primeira vez que viste um espetáculo de circo?
Tens memória disso? Não, tenho, tenho. Foi exatamente lá pelas terras do Norte. Eu estou nascida no Norte, ali assim perto de Espinho. E era para onde passavam naquela época os circos mais pequeninos. E era a entrada deles nas aldeias, enfim, nas terras mais pequenas. Com os chapitosos.
Com uma tenda que se chama em francês chapitou. Mas nós chamamos a tenda de circo, não é? Mas ele efetivamente em francês chama-se chapitou. E eu resolvi brincar com essa palavra e transformá-la em português e pôr-lhe um chapéu em cima do O. Chapitou.
lá está a transformação de uma palavra francesa a portuguesa o francesismo a portuguesado pronto, e por isso via nessa altura chegavam às terras anunciavam nas ruas
e tal, e lá estava a chegar o circo e tal, dando atenção, hoje não sei o que é espetáculo, o circo, e tal, tal, tal e eu ouvia aquilo e ia logo a correr ver onde é que eles iam instalar e tal, de maneira que eram circos muito bonitos, pequeninos e enfim, naquela altura era era uma coisa assim
Mas ainda estavas muito longe de imaginar que irias dedicar a tua vida ao círculo. Não, eu gostava sempre de ser uma nómada, de um lado para o outro, porque o meu pai também o era, com a lepra, não é? O meu pai foi especialista e trabalhou, e foi a pessoa que se encarregou mais da erradicação da lepra em Portugal, naquela altura, nas colónias.
porque o meu pai era português, da origem suíça, mas, e a minha mãe era brasileira, e por isso esta é uma mistura também ali assim de gente que também dá assim uma certa energia, não é? As culturas, quando elas se misturam, é maravilhoso, não é? E é isso que Portugal tem que aproveitar cada vez mais. Estamos na época dessas misturas, cada vez mais. Mas então, o meu pai era, e eu apanhei muito isso do meu pai, que hoje estávamos num sítio, nós vivíamos na África mais profunda de todas, não é?
porque naquela altura a lepra ainda era contagiosa, de maneira que o meu pai ia para os morros onde estavam localizadas a parte da lepra e junto com a parte dos missionários faziam-lhe assim uma comunidade e nós com a nossa família atrás do meu pai, que acompanhámos sempre o meu pai, também vivíamos nessa coisa. Nem que andava um bocado terra em terra, já estava dentro do meu ADN.
E que depois eu tinha que animar, porque, quer dizer, tratar com uma doença tão complicada naquela altura, era o Covid daquela altura, mas era uma coisa verdadeiramente complicada, era o resultado de muita miséria do mundo, né? No mundo.
E então, quer dizer, nós tínhamos que animar, enfim, aquela população ali isolada nos morros e eu aproveitava sempre para fazer ali assim certas brincadeiras e tudo isso. E ajudava muito o meu pai nesse sentido e também ajudava os leprosos. E havia uma cultura artística e musical na tua família?
Não muito, não muito, por acaso não muito, não muito. O meu avô, o meu avô Rico, era um homem também dedicado um bocadinho à investigação, mas gostava muito de estar à mesa sentada e a fazer construções, e trabalhava muito com o papel e fazia muito.
brincadeiras e construções com brinquedos reinventava também uma cultura francesa que é realmente um bocado diferente da portuguesa, não é? e eles vinham um bocado, eles tinham um bocado esse background e pronto, quer dizer por isso não tinha muita gente de músicos na minha família nem de grandes artistas mas era uma família muito democrática, obviamente outro
E aos 16 anos deixaste. E aprendíamos a ser para a história do piano, não é? O piano ia falar francês, naquela altura era... Todas as meninas tinham que saber. Exatamente. Falar francês ia tocar piano. Pois então. E porquê que aos 16 anos a menina rebelde resolve deixar a casa dos seus pais?
E parte para Londres. Pronto, tudo isto é uma história, também da passagem do meu pai, quando sai do isolamento da lepra e começa a tentar incluir os deprodes na cidade. E já estávamos a caminho de Luanda, em África, e por isso o meu pai, como funcionário público que era...
e sobretudo dedicado a uma causa, era um funcionário público com causa, que é fundamental, porque há funcionários públicos que não têm causa, estão lá a ganhar o trabalho dele no TETERGAM. Ora bem, há a precisa de ter uma causa na vida, e o meu pai tinha essa causa. Primeiro que era incluir os leprosos na cidade, e assim fez, construiu a leprosaria em Luanda.
onde eu colhi o papo, e por isso nós estávamos lá, e, portanto, eu já estava com 16 anos, e já tinha saído dos colégios, já tinha feito o quinto ano dos liceus, já tinha ganho um prémio de consolação, o que eu conseguia ganhar de prémios era consolação. Consoladas porque eu tinha saído e tinha feito bom trabalho, e já está. Eu não chateava mais ninguém. No meio daquela hora recebiste.
E por isso já estava um bocado cansada daquilo. E queria ir à minha vida começar a ter autonomia. E autonomia faz-se financeiramente também, não é? E da primeira que fui ganhar o meu dinheirinho. Ganhavas o teu dinheirinho em Londres? Não, não, não. E comecei em Luanda, exatamente. Fui descobrir exatamente o laboratório onde o meu pai trabalhava nessa altura. Ah, colava as etiquetas nos medicamentos. Exatamente. Era a Pfizer, a Pfizer.
a Pfizer, e por isso eu fui-me lá oferecer ao senhor coisa, ao diretor e tal, que por acaso hoje em dia ele está cá e é escritor de livros, que é engraçado ele descobriu-me aí nas redes sociais, mas então
E fui e lá estava eu. E depois quando o meu pai percebeu que eu estava lá atrás, ele ficou assustado, se eu estivesse a fazer algo mais nele ou assim, eu estava muito bem comportado, até que depois logo de colar as etiquetas, depois eu estava a ser convidada para ir para secretariado.
Mas eu aí, quer dizer, já não tinha assignando formação e tudo aquilo, mas a coisa estava muito bem. Mas tiraste externo da teleografia também. Não, exatamente, aprendi da teleografia. Externografia, não é? E da teleografia, pois. Exatamente, e da teleografia.
E depois, mas depois, não sei lá como é que foi, que a gente veio-se embora, meu pai acabou também a sua estadia nas Áfricas nessa matéria, depois viemos para Portugal, e quando eu cheguei a Portugal, das Áfricas, vindo assim num mundo assim brutal, muito grande, toda a África é um horizonte assim inacabado, não tem fim, eu cheguei a Portugal, à dieta terra onde eu vi os circos pequeninos.
E aquilo era uma coisa assim pequenina, ali fechada e tal. Não se podia falar, não se podia olhar, não se podia mexer, estávamos ali assim. Aquilo era bonito até. Muito frio, muito frio, muito frio, muito frio, muito frio. E tal. E de maneira que eu disse ao meu pai, era melhor eu ir ali para Londres, por causa que... Portugal estava pequenino para ti. Aqui estava pequenino, estava pequenino. E a nossa imaginação não cabia lá dentro.
E de maneira que eu aí, disse ao meu pai, queria estudar inglês e ele mandou-me a ir para Londres, onde estavam também amigos meus, que eu já sabia.
enfim e trabalhaste em restaurantes, em lojas e depois fui para Londres e fui até com com alguém que era amigo do meu pai um escritor, não me lembro quem era e depois fui para Londres e encontrei os meus amigos lá e pronto, e lá também fui lá para os colégios para aprender para aprender inglês e tal e depois rapidamente comecei a trabalhar na rua porque é na rua que eu estou bem né
E por isso não é que eu estou bem E no meio é que fui trabalhar nos cafés E nas rojas a vender A vender roupa E vendia coisas e onde circulava Muita malta artística Que era em Kings Road Kings Road era mítico naquela altura Foi, naquela altura era Era um ponto de referência Era o ponto de encontro de muita malta das artes
E pronto, fui com o Paço de Arcos, fui com o Paço de Arcos, o escritor. O Eugênio, não, não sei se era o Eugênio. E depois mudas para Paris. Não, e depois de Londres estive lá ainda há alguns anos, e foi uma coisa assim muito interessante e tudo aquilo, era uma terra também naquela altura de grande cultura, não é?
não, então ainda é para lá eu vi o primeiro concerto dos Beatles ainda não eram Beatles foi em Trafalgar Square porque Trafalgar Square pintava-se na rua no chão e por isso como hoje são os grafites naquela altura era no chão que se pintava com giz, com giz de couro e não sei o quê
E a dada altura passavam por ali muito certinho E aí de repente passam também os Beatles Cada um de um lado Mas sem Sem qualquer tipo de intenção A não ser fazer música E depois mais tarde, mais tarde vem assim os Beatles Eu disse, epá, a malta já se encontrou Não sei onde, passava por lá muita gente
1962, para aí. E depois também tive, enfim, circulei ali sempre muita coisa, na hora da moda também, com a Jim Sherimpton, com a Twiggy, a Twiggy, que era pequenina, mas depois faziam-lhe a fotografia de alto para baixo, e ela ficava muito grande. Era muito engraçado. És contemporânea da mini-saia também, da Mary Grant. Exatamente, exatamente.
Também usavas minissaya. Completamente, completamente, completamente. Não, aquilo era muito ousado também na altura. Mas era só em Londres é que a gente conseguia estar, realmente assumir um bocado dessa vontade. E então, pronto, sim, pois... E a transição para Paris, como é que foi?
Não, para Paris foi muito mais tarde. Depois disso ainda passei pela TAP e tudo isso. Hoje foste aos pudeiros da TAP. Depois ainda fui ver os jogos de futebol em Londres. O primeiro World Cup de futebol. Ah, sim, 1966. Estava lá eu com o Eusébio. Eusébio, os coreanos, vi aquilo tudo. Porque eu estava exatamente a fazer de guia turística em Londres. Exatamente com os... Por causa do World Cup, com brasileiros. Com o grupo brasileiro.
e depois acabei por entrar também numa parte turística e tinha bilhetes para vender. Então estive a vender os bilhetes para o World Cup e onde eu tinha bilhetes para toda a malta portuguesa e todos fomos ver os jogos à minha conta, por isso oferecido, obviamente, e então vimos tudo na primeira fila.
Viu o World Cup todo na primeira fila. Então era o Eusébio a chorar, o Torres, o Torres, aquelas pernas muito grandes que ele tinha, que era muito engraçado, porque era tudo gente que sabia de futebol. E eu estava ali assim a curtir aquela cena, os coreanos pequeninos ganharam tudo.
E depois vim embora para Portugal, passado esse tempo com esse dinheiro que eu ganhei, porque eu ganhei depois muito dinheiro, a fazer isso lá em Londres. E depois viemos para Portugal, o Zé Magra, o Zé Magra, dos automóveis. Mas tu tinhas um automóvel muito especial com o qual passeavas para o país inteiro, eram dois cavalos, não era?
Os dois cavalos, exatamente. Mas nessa altura em Londres eram os minis. Minis, sim. Os minis e os minis. Os minis. O Carlos Monjardino, que era o homem ligado à parte das mecânicas, de automóveis, não sei o que tal, engenheiro, engenheiro mecânico, e tal, e então tinha o mini. Então depois nós viemos, depois eu vim para Portugal com eles.
mais de um domingo de Sanogueira, também uma quantidade de gente, no Mini. E viemos para Portugal, depois cheguei a Portugal, e também contei. E chego a Portugal e encontro uma amiga minha, que também tinha estado comigo em Londres, a Maria João Campos, e que me convida para ir para a TAP. Ah, eu depois fui para a TAP, fui para a TAP, ganhei logo os concursos, não sei o quê, não havia muitos concursos. Era eu na TAP, eu, era a Tita Balsemão e a Maria João Calçada Bastos, a mulher do Ricardo.
E a Zé Belreis Éramos assim um grupo de jovens Muito giros Quanto tempo é que estiveste no top? Estive lá uns 3 ou 4 anos Mas depois fizeram-me na rua porque também eu era muito curioso Queria saber muita coisa A Mico Então mas porquê que a gente faz este briefing Às 6 da manhã? E como é que era aquilo? Eu era um bocado incomodativo Ainda sou hoje em dia É para destabilizar um bocado Mas para depois construir outras coisas Então
E então, de maneira que ainda estive na TAP. E depois é que foste para Paris, não é? E depois então, da TAP, andei para ali, depois casei-me, depois fiz muita publicidade, ainda em Portugal. Mas aos 20 anos, por aquilo que eu sei, já estavas em Paris, nas ruas de Paris, a fazer já números de...
Não, mas depois eu fui ter a Paris. Com o teu filho, com o teu filho. Pronto, mas depois eu fui ter a Paris porque, porque exatamente eu tive que desaparecer de Portugal rapidamente, não é?
porque essa minha destabilização incomodou muita gente, como seja o people ali todo das PIDs, da PID, não é? Da PID. E no meio daquilo trabalhava muito cá fora na rua, ali no Parque Eduardo VII, Cachodré e não sei o que e tal. Em paralelo com o que eu era muito gira e fazia muita publicidade. Eu ganhava muito dinheiro também, não é?
e por isso a Maria Nove Franco, que era uma grande amiga minha, e que, pronto, e fomos encontrando. Naquela altura havia toda uma tortúria artística e cultural, e malta de chegada ao cinema, não sei o que e tal, e fomos encontrando, e por via da publicidade, que eu me candidatei exatamente, eu encontrei o Fonseca Costa, o António Pedro.
enfim, toda a malta de cinema e de maneira que foi engraçado porque pronto criou-se ali assim uma empatia muito grande entre todos nós e quem fazia a grande parte disso que me convidava a dada altura além da Maria Nova Franco era o Orlando Costa Orlando Costa que era um grande era um dos grandes copywriters, não é? na altura e de maneira que eu era muito engraçado era engraçado, era giro e tudo e de maneira que eu ganhava aquilo tudo então
e também era que andava ali de um lado para o outro e uma das coisas que eu fazia, o dinheiro que eu ganhava, depois eu investia ali assim nos miúdos, nos miúdos da rua e tal, que não tinham não sei o que, não tinham... E depois fiquei ali assim à livraria na fronteira, o Marquês de Fronteira.
E onde encontrei o Fenhais, o Mortágua, esse pessoal assim, enfim, que era uma alta ligada às políticas mais, pronto, mais políticas mesmo. E eu era uma pessoa do social, não é? Eu era para a inclusão social e eles deram para a política de coisas. E foi giro, juntaram-se as duas partes.
E de maneira que eu comecei a agitar muito em Portugal com a parte dos miúdos do Castoré, que eram os Ardinas. Sim, sim, sim. Mas com muito frio, pé descalço, com os saquinhos ali assim e tudo, e não podia ser aquilo, não podia ser e tal. Depois já nem contávamos ali assim muito no Parque Eduardo VII, onde o meu filho aprendeu a andar com aqueles jovens.
que vinham ali assim do bairro do Cruzeiro, lá de cima da ajuda e tal. E eu andava sempre inquieta com aquilo tudo. Até que eu organizei uma série de atividades, junto dessa livraria, que era do Eduardo, não sei como é que ele se chamava também, e eu tinha lá uma coisa que era um sótão que eu dei o nome de Casa da Criança.
casa da criança. E pronto, e estas coisas começaram, Portugal é pequenino e começou a mexer com outras coisas e tal, e a dada altura eu estava ligada aí com a parte do Padre Fulcidade, e assim uma série de grupos também de ex-padres, não é? Como o Fainhaes e outros, o Vilaça, o Carlos Cardoso, enfim, tudo, que eram onde estavam localizados ali assim na ajuda.
ali assina e tal, tinham lá uma comunidade e eu, entretanto, eles deram-me uma garagem para eu fazer trabalho com os miúdos de rua, em vez de estarem a vender jornais e estarem ao frio e aí a coisa começou também, e aí telefona uma dada altura e a PIDE já andava atrás deles apanhou uns e iam-me apanhar a mim
Mas eu fui avisada e nesse dia, à noite, partia para Paris, com o Seixas Santos e com a Luísa Neto Jorge. Pronto, e fomos para Paris, depois de uma grande estadia em Portugal, e com muito sucesso. Onde vendia jornais, vendeste jornais de rua. Tudo ria muito bem em Portugal, nessa altura, e tive muito sucesso e fui muito feliz. E depois fui para Paris, continuar a vida, tentando encontrar um mundo um bocadinho diferente, e foi diferente. E estiveste na Carte do Chorri de Vonsen, não é? A tirar cursos de mímica.
Depois cheguei a Paris e fui-me encontrar com a Maria Cabral. Maria Cabral que estava lá, já estava na Jacques Lecoque.
E que foi co-apresentadora do programa juvenil comigo na RTP. Ah, pois isso imagino. Não tivemos muitos, mas quer dizer, mas eu segui-te bastante, porque tu eras para nós, eras o nosso ídolo, não é? Agora, mas tem piada hoje estar aqui contigo, para mim é uma coisa assim, espetacular, porque há muitos anos que a gente se vê, mas não se toca, não é? Nem se está à frente da frente. Mas eu acompanho muito a tua vida, Julinho, incluindo a história do Vilar de Mouros.
Exatamente, agora estamos em 1971. Há-nos lá chegar, porque depois eu volto a Portugal. E aí que depois de... Volto a Portugal, enfim, o mal de tudo, já não se é muito bem. Mas em Paris foi uma chegada muito grande, bem acolhida, com o Nuno, o Dono Eitido Riso, e a Maria Belo, e a... Que depois voltariam para Portugal, depois do 25 de Abril.
Mas mesmo assim em Paris foi assim a minha grande universidade. E foi aí que nasceu propriamente a Teté? Foi, foi aí. Foi um país que me acolheu, o Nuno Bragança. O Nuno Bragança, com quem eu estive. Enfim, que me acolheram muito em Paris na altura.
e a Maria Bel também, que estava junta com ele, e Jorge Martins, e uma quantidade de gente que estava por lá, enfim, muita gente. E de maneira que eu senti muito bem acompanhada, muito acarinhada, e Paris é uma terra de cultura, é um país onde a gente chega, é uma terra, aqui é um país, não é sequer uma capital, aqui é um país.
em comparação com o Portugal agora. Mas onde a cultura é a rainha, não é? E eu realmente fui rainha ali assim. Porque eu queria fazer uma coisa que pouca gente gostava de fazer, que era pintar a cara e animar a malta. Tu pintavas a cara na rua. Eu pintava a cara na rua e pronto, e fui-me transformando e fui encontrando este personagem da Teté por via da Ariane Mousquine, no Teatro de Soleil.
Exatamente. Em Vansene. Exatamente. Onde eu também acabo por frequentar a Universidade de Vansene, na parte do cinema também. Aliás, tiraste um curso de cinema cubano também. Cubano, exatamente. Onde eu encontrei várias pessoas muito interessantes, do qual ainda sou hoje próxima.
e aí o Jean Russo também porque na Cinemateca que nós também frequentávamos com o Langlois era um ponto de encontro assim maravilhoso o equivalente aqui assim ali ao Vavá era um bocado o equivalente ao Vavá um ponto de encontro lá está, porque a cultura estava sempre muito presente havia muito esta comunicação direta sem ter telemóveis pelo meio mas era uma comunicação direta e participaste num filme do Arrabal também e aí
Não, e depois estou apanhada pelo Barrabal, enfim, eu depois vendi jornal na rua também, porque havia que sobreviver, e eu não tenho preconceito nenhum em fazer qualquer tipo de trabalho. Fazia ali em Pesa em casa do Novaes Teixeira, que era um grande cinéfilo, cinéfilo exilado também da Guerra de Espanha, português, no entanto, e amigo também do António Pedro Vasconcelos, que foi assim uma grande figura, foi um grande amigo meu, muito próximo, muito próximo.
e o Fonseca Kikost e dessa gente toda, toda uma gente que estava também parte deles estava em Paris nessa altura e de Meira que eu acabei por ir frequentar por via do Misé de Lome em França a parte já do audiovisual que já ele estava a trabalhar não era com computadores era com máquinas mas não era com máquinas de cinema já eram cinemas enfim
não sei como é que se chamavam aquelas máquinas mais especializadas aprendeste a editar editar e a história também da parte do cinema e telegráfico e ficámos muito próximos e de maneira que ali já estava um grupo de gente muito interessante e em paralelo com isso que a gente não ganhava dinheiro eram cursos gratuitos e de maneira que vendia jornal ao mesmo tempo era o Internacional do Tribuno muito inspirada no Abusuflo do Abusuflo, exatamente Amém
com a Gintziberg e com o Belmondo, exatamente em Paris. E eu quis viver aquele personagem, de maneira que eu vi-me a vender jornal em Champs-Élysées e no Perra e depois à noite em Pigal, de maneira que eram públicos diferentes e eu fazia também muito dinheiro, fazia muito dinheiro, porque eu ganhava num lado, ganhava no outro, ganhava no outro e depois ia comer crepes com o meu filho, quando ele esteve lá comigo, que ele não esteve sempre.
Iaíamos comer crepes ali assim, lá para não sei onde. Para a Contre-se Carpe. Contre-se Carpe. Sabe os seus níveis de colesterol? Dana Cole e a Fundação Portuguesa de Cardiologia convidam-no a vigiá-lo, pois só têm um coração. O colesterol alto é um inimigo silencioso que se acumula nas artérias e se não for reduzido pode continuar a acumular-se. Dana Cole contém estróis vegetais que reduzem o colesterol em apenas 3 semanas. Se tem colesterol elevado, fale com o seu médico. Mais informações na embalagem do produto.
Em 74, consta que está a acontecer uma revolução em Portugal e vens imediatamente. Mas ainda aí, deixa eu dizer, ainda aí é que eu encontro o Arrabal. Porque ao lado dos Santos e Elisir onde eu estava, era exatamente o estúdio de som do Bonfantim.
Eu conheci isso tudo porque já tinha estado lá com António Pedro Vaz Conselhos e com Fonseca Costa e não sei quem. Eu já conhecia esses backstates todos do cinema. E de repente passava por mim todos os dias um homem pequenino, assim muito feioso, mas muito engraçado, uma figura assim muito carismática.
e tal, e comprava-me sempre o jornal, e eu estava lá com o meu filho, às vezes que estava lá comigo, num guarda-chuva assim, lentejano grande, ali a protegida, e fazia ali o meu cantinho, e estava ali com a minha banca de jornais, e comecei a conhecer muita gente, também ali na rua, e tal, e tal, e coisa. E quando morre o Novaes Teixeira, que era muito amigo do Arrabal, já me tinha dito, olha, se tivesse de vez algum problema, vais ter com este meu amigo, espanhol, o Arrabal.
e tal, e vê lá, ele pode estar a trabalho no cinema, fazer qualquer coisa e tal. Aquilo ficou. No dia em que ele morre, eu voltei com ele ao hospital, em Danfair, então quem é que eu encontro? O homem que eu via todos os dias a vender jornal, que era o Arrabal. Eu digo assim, olha que tem piada, e ele disse, a gente já se conhece. Eu disse, pois, então conhecíamos do longo da rua, em San José Nizé.
E então eu disse, eu sou muito amiga do Novas Teixeira, e ficava aí uma grande amizade. E participaste do filme? E depois ele convida-me, eu peço de trabalho, e ele disse, de um dia para o outro. Então fui para lá trabalhar com ele, com o Gangster do Cinema Francais.
Então, lá, com ele, ele era o realizador, não é? Eu disse, epá, muito bem. Da primeira vez que eu percebi o que aqui era realmente um verdadeiro sindicato, aquilo era um sindicato sério, não é? Mas, quer dizer, eles aparecem em grande, em molho, no platô, para saber dos trabalhadores, estava tudo legalizado. E eu logo que vi aquilo, apanhei um susto e escondi-me logo na casa de banho.
E quando eu vou sair, encontro os homens. Ele disse, então eu vou e tal. Eu disse, não, eu não tenho nada. Eu tinha já o meu cartão de vigilada política, né? E quando eu mostro o meu cartão azul, cartão blanc, eles disseram, ah, bom, então aí protegem-me.
protege-me, é realmente um sentido... Eu senti-me tão protegida, estava a fugir de uma coisa que eu estava irregular em Portugal, não na França. Na França era absolutamente assumido aquilo e protegido. E pronto, e por isso, eu comecei então a fazer o trabalho como acompanhava a Emmanuel Rivá, que era a mulher que tinha feito Hiroshima Mon Amour.
que era uma grande atriz, uma mulher fantástica, e eu acompanhava e fiz-lhe o guarda-roupa dela. E depois fiz mais outras coisas, que eu fazia, eu sou um bocado de faz-tudo, não é? Eu sou mesmo faz-tudo de profissão, não é? A propósito de faz-tudo, quando chegas a Portugal, em 74, consegues uma situação perfeitamente, digamos...
de sonho, encontrar o palhaço que todos nós vimos durante anos e anos e anos no Coliseu, que era exatamente o célebre Luciano. Pronto, então, eu exatamente, ligando a história tem toda uma certa ligação, porque, quer dizer, eu do sindicato que eu percebi o que é que era o verdadeiro sindicato, eu fico como... aprendi, fiquei, gravou. Então, quando eu venho para Portugal depois da Revolução, quando sou avisada de...
Mas nessa história do Arrabal Aconteceram uma quantidade de coisas Eu fui buscar Emmanuel Rivá Isto era o sindicato ainda Emmanuel Rivá é desafiada Para fazer uma cena Uma cena erótica No filme, não estava escrito no guião
e ela disse, não está escrito, não vou fazer e era uma cena, não sei o que dá e ela estava já protegida pelo tal do sindicato, e aquilo foi um burrice ali complicado, e eu estava ali ao lado, e eu vi e percebi, e ela prevê falar comigo, e eu disse, olha, mas eu vou arranjar quem faça isso, então vou exatamente a Pigalle encontrar o Marie France, que era um travesti, travesti
não era trans ainda, era travesti, que era muito parecida com a Cláudia Cardinali. E trago-a para apresentar ao Arrabal. Ela não quis ver outra coisa, ficou muito contente, e ela vai fazer então o papel de mulher que o Arrabal queria que fosse a Emanuel a fazer.
De Obrou e Manuel. Exatamente, de Obrou e Manuel. E aquilo ali assim foi, quer dizer, correu muito bem, e eu também fiquei muito satisfeita por ele e por mim, e não sei o que e tal. E tudo isto era, tu vais fazendo na vida o teu relacionamento com as pessoas, não é? Isso é uma grande escola, mais do que a academia, não é? E se tu soubeste viver disso, como por exemplo estava aqui assim hoje a falar contigo, quer dizer, é um grande prazer estar aqui assim, bom, contigo.
E agora com o Luciano. E então, quando eu venho para Portugal, depois de ter percebido o que era a Revolução e ter participado nos primeiros passos da Revolução, quando eu decidi depois daquilo que aconteceu lá e sou informada pela minha prima, que estava na rádio, que era a Ed Rico, que trabalhava na rádio lá no Porto, e avisa-me às cinco da manhã. E ali já arrumei logo um comitê todo, na minha casa, que também era uma casa comunitária.
e lá a coisa, então lá fomos com o Mário Soares, que estava lá, que eu tinha estado com ele, era muito próximo do Mário Soares, também estava exilado, e então eu digo assim, então e agora como é que a gente faz? Eu fui lá ter com um grupo de gente, que estava lá em São Michel, então damos de entro para Portugal.
Então já estavam a ver quem aqui ia no autocarro, quem aqui ia de avião e não sei o que e tal. Mas aqui já estava ali assim uma grande confusão, quem ia primeiro, quem ia depois, não sei o que e tal. E eu era uma rélde ali assim, uma coisa, mais uma e tal. Eu disse, está bem, ok, então vocês vão discutindo isso e eu vou-me embora. Peguei a minha carrinha e venho-me embora com meus companheiros lá de França, que por acaso eram até gente ligada ao cinema também.
e viemos então 24 horas eu a guiar na carrinha Volkswagen nessa altura era a Volkswagen o 2 cavalos vem mais tarde e então lá viemos nós para ir fora e entrámos em Portugal sem lenço nem documento, como diz Caetano mas com um cartão de refugiada
e foi assim uma grande... Como é que a gente tenta? Entramos com os cravos na mão, que eles nos deram, mais uma vez fomos bem acolhidos. Começa a revolução, um bom acolhimento. E viemos, e eu nessa altura, então, começo-me a preparar para ficar em Portugal, tinha decidido, eu vou para Portugal, quero fazer a revolução. E uma das coisas que eu fiz era ir ao sindicato, ir ao sindicato, ver, enfim, se me davam trabalho, se queriam que eu fosse trabalhar, porque eu já vinha com alguma experiência de França, não é?
e quando chego lá disse assim, a senhora para pintar a cara não há aqui muita coisa não talvez a senhora para contrucionismo para trapézio e coisa e tal eu disse não, era mesmo para pintar a cara isso aí está mais complicado e tal, é bom, paciência bom, aliás o meu amigo Solnado já me tinha dito isso, vai para a França porque aqui assim não tens sorte
e eu lá fui para a França quando voltei, continuou a atenção aí estava ao lado o Luciano estava aí à procura de fazer um trabalho já ele tinha 70 e tal anos eu lembro-me dele, eu era pequenino ia vê-lo ao Coliseu que era o chefe dos faz-tos seus malcriados seus malcriadeirões oh oh oh e tal
E estava ele ao meu lado, no sindicato, e eu olhei para ele e disse assim, ó Sr. Luciano, se o senhor também está com problemas, eu posso juntar o meu problema ao seu e fazermos aqui a nossa bandeira. Pronto.
E assim foi, ele, bom, se estás disponível, estás interessada, eu disse, não, eu estou interessada por causa que é a minha profissão. Bom, daí nunca mais nos separámos, começámos a treinar e aceitámos então o trabalho e começámos a treinar onde? Na fábrica de cervejas da Almeida de Reis. Almeida de Reis, exato.
E que estava abandonada, ainda está hoje abandonada, 50 anos depois, com tanta falta de habitação, não é? Bom, conclusão, lá fomos eu e o Sr. Luciano, eu carregava as coisas do Sr. Luciano, com todo o prazer, e tal, e lá fomos nós, e lá comecei a tratar da vida do Sr. Luciano, porque eu, além de tudo o resto, também sou uma produtora, no final das contas, não é?
Então lá fomos e começamos a fazer, fizemos a ocupação da comuna, na altura foi a ocupação da casa da comuna ali na Casa de Corna Rosa, Exato, Praça de Espanha, e outras coisas, e fizemos muita animação com a CGTP intersindical, lá estava eu a fazer a animação daquilo tudo e tal, e o Sr. Luciano às vezes ia, outras vezes não ia, enfim, conforme.
Mas eram coisas que eram mais de implicação social do que propriamente dar trabalho ao Sr. Luciano. Mas arranjei muito trabalho para o Sr. Luciano e acompanhei-o até ao final da vida dele, com todo o prazer, porque ele acaba por morrer num belíssimo hospital, e, quer dizer, eu fiz questão de lhe dar essa... E a propósito de grandes palhaços, se tu tiveste o prazer... E então, com o Sr. Luciano, quer dizer, ainda é ele assim, no Coliseu, aquilo tudo, e não sei o que está. Sim, desta volta a Portugal.
Mas com o Popov também estiveste por duas vezes. Não, mas pronto. E depois fui-me especializando e por isso quando fui-me especializando no circo, andei com os circos durante muitos anos, com vários circos, e com o seu Luciano. E eu estava muito contente, porque finalmente uma pessoa com aquela idade, como é que volta outra vez a ter...
a sua vida ativa, não é? Naquilo que ele gostava de fazer. Porque o Luciano, sabes que ele era de onde? Ele era da imprensa nacional. Ele era paquete da imprensa nacional. E como é que ele finalmente acaba de se realizar nesta atividade de circo, não é? Como palhaço. Palhaço não, chefe dos faz-tudos do coliseu. Exatamente. Ora bem.
Mas fala-me do Popov também. Não, e depois eu cá para encontrar o Popov, porque depois fiz várias coisas, com essa minha profissão, animação e várias coisas, e uma das coisas foi que propus ao conservatório fazer um workshop, uma formação na área do clown e dos palhaços.
Claro, não é o branco e o palhaço faz tudo, sou eu, é o pobre. E então eu organizei isso. E quando eu organizei isso, já estava conhecida no meio, a Associação Portugal-Urso, Portugal-União Soviética, ainda na altura, convida-me para eu fazer o acolhimento do circo, o primeiro, o internacional, o circo internacional da escola, a primeira escola de circo internacional da União Soviética.
E eles convidam-me para eu fazer o acolhimento desse circo. E nesse circo quem estava? O Popov, que era aquilo que eu imaginava, nunca imaginava ter contato com ele direto. E olha, ali estava. Bom, e então eu estava no conservatório, e já estava a movimentar aquilo tudo também, e então lá fui fazer o acolhimento, não falavam língua nenhuma, só havia uma pessoa que falava em inglês, e eu falava em inglês obviamente com essa pessoa, porque o resto era tudo, não se falavam outra língua, só falavam russo, não é?
E então eu lá estive, e estive a dar um apoio imenso ao Popov, em Portugal, até que depois ficámos muito próximos, e eu do conservatório acabo por pedir licença e conseguir uma filmagem na totalidade do espetáculo de circo. Naquela altura não se podia filmar espetáculo de circo, porque cada um dos artistas era o seu segredo.
o seu segredo, o seu número. Não podia haver televisão, porque senão o número era... Olha lá tu, hoje em dia, com estas redes sociais todas, já não há privacidade, nada, nem dos números. Está tudo já... A surpresa, a magia do circo foi-se. Pronto.
Foi-se para bem ou para o mal? Não sei, isso é outra amada. Não interessa, não interessa. Agora, eu fico com o Popov, muito amiga dele, depois faço todo um animo, todo um encontro com todos os artistas de circo portugueses e os artistas de circo russos, naquela altura, que foi muito engraçado, porque pronto, exatamente na casa da União da Portugal.
E no meio deste encontro todo, é pá, a gente faz isso muito melhor que aquilo, por causa que a gente é que sabe fazer e por causa que não é preciso vir para cá os artistas. Eu disse, pronto, está certo, companheiros, vamos lá e tal. E o Papa, felizmente, não percebia nada.
E ria-se muito, ria-se muito, e eu, calada ali assim também, mas foi assim um sufoco, foi assim uma grande, foi uma grande stress, foi um grande stress, e aquilo lá passou e o Pau Pau ficou encantado, porque ele fez a maior festa lá, ele próprio, que não falava nada, nem portavia nada, e eu ali assim, estressada, porque estavam todos a dizer, olha, pergunta aí ao senhor se ele dá o salto mortal, não sei o... Eu digo, não, com calma, tá amigos, vamos com calma, porque isto aqui, somos todos amigos, e tudo isso e tal, e tal, e tal. Bom, qual que é isso aí?
O Pau Pau ficámos próximos. Eu fiz esse filme, ele deu-me licença para filmar esse espetáculo todo, que é a primeira coisa que eu tenho, é essa coisa gravada. E então fui buscar na escola de cinema, do conservatório onde eu estava, e juntei a escola de música, de dança e de cinema.
desse meu workshop de circo vem dar isso no conservatório então levo o Zé Cunha que eu tinha conhecido no filme do António Pedro Perdido por 100, Perdido por 1000 onde eu também trabalhei trabalhei e amei foi tudo maravilhoso
e vou buscar o Zé Cunha que eu já conhecia e ele ficou todo contente e dei-lhe aquela oportunidade de ter a primeira pessoa a filmar uma coisa de circo. Então andaram comigo essa equipe toda. E então faço o filme do Popov, ele vai-se embora, corre o monte, sei o que e tal, eu perco o filme, perco o filme da mão, perco o Zé Cunha, nunca mais vi, não sei o que é que foi e tal, e depois andei atrás do filme não sei quantos anos para ver se conseguia apanhar. E depois...
O conservatório mudou, muita coisa aconteceu e tudo isso, e a revolução ia se instalando e tal. E depois há um dia qualquer em que eu peço ao João Pinto, que era o do som, vai ao conservatório e vê se me apanhas isto. Porque eu preciso desse material. Eu fiz esse material. E ele vai e rouba esse filme. Rouba esse filme, essas imagens e tal, essas caixas que lá estavam e tal. E eu acabo por montar o filme cá fora.
Ali assina no Instituto de Tecnologia Educativa Ora bem, mas... E o Zé Cunha, entretanto, morre O Zé Cunha, que tinha sido o ator do filme de António e Pedro que eu tinha que dizer, morre, acaba por não mexer no filme e quem o faz acaba por ser eu E tens o filme guardado E tenho o filme guardado E então, depois vou encontrar o Popov, anos depois muitos anos depois, na Alemanha na Alemanha, fazer parte do júri E eu então mostro-lhe o filme dele E aí
E ele ficou assim, e três dias depois, ele morre sentado na cadeira a ver a televisão. Ponto final. A história do Popov. Agora vamos chegar ao Chapitou. Tu estacionaste a tua carrinha vermelha em Santa Catarina e disseste, é aqui que eu vou fazer o Chapitou. Surgiu o Chapitou em 1981, não é? Pronto. Estamos, portanto, a fazer 45 anos de Chapitou. Neste momento, qual é o balanço que tu fazes dessa obra de 45 anos de total dedicação?
É sim, é uma grande surpresa para mim eu ter conseguido fazer aquilo com muita gente à minha volta, com gente muito boa nessa altura. Tem 120 colaboradores neste momento, não é? Neste momento são 90, tenho 90. 90. 90 colaboradores. Pronto, era toda uma geração, a nossa geração, uma geração de ouro, não é? De ouro, de ouro, de ouro.
de ouro por lapidar, por lapidar, porque já morreram, não é? Mas deixaram o ouro para a gente depois fazer o que ainda cá está. Agora, eu quis fazer em Portugal aquilo que eu aprendi em França, no Teatro Soleil, na Maison de Jeanne de la Culture em França, toda essa minha aprendizagem de vida tinha que ser aplicada numa realidade que era Portugal, que não havia, não havia cultura nesse sentido.
E a integração social através das artes. E a integração social também e eu realizar a minha parte artística. De maneira que, como é que eu fazia tudo aquilo, foi muito difícil, muito difícil, muito difícil. Ainda consegui realmente fazer muita coisa como artista antes de chegar ao Chapitó, com gente que eu consegui também sensibilizar muito para as artes do circo, na área do teatro, na parte da dramaturgia.
do espetáculo, não sei o que é tal, Fernando Heitor, Ricardo Pais, Pires, enfim, Nuno Carinhas, gente que aderiu muito a esta minha expressão artística, que o teatro não tem este trabalho que nós temos de corpo, como tem o circo. E eu vinha com esse trabalho todo.
De maneira que coisa, eu comecei a perceber que podia ser importante, eu consegui realizar-me artisticamente durante um determinado tempo, depois fui para a Alemanha também, andei com o espetáculo Correio Mundo e com o Sr. Luciano, então já tinha feito cá e já continuava a fazer.
E então, a dada altura, pronto, quer dizer, eu na Alemanha acabo de ganhar um grande prémio, também ganhei muito dinheiro também com isso, e sempre a querer aplicar isto para o social. E quando eu venho para Portugal, quando começo a estabilizar o meu Portugal, fazendo o trabalho nos bairros, que era a parte da autodidização e da animação,
Eu também trabalhava no Coliseu à noite, na hora que a imprensa começou a falar muito sobre mim e como é que era e o que é que era. E depois que eu dizia, durante o dia estou ali no bairro do Cruzeiro, se quiserem estou lá e tal, não sei o que. Depois foi a Francisca Ruda, depois eu pus a malta do cinema, meus amigos a fazerem cinema para os miúdos lá na Francisca Ruda, o Francisco Costa arranjava não sei o que e tal. O Gerar Castelo Lopes dávamos filmes.
um escrevia e depois eu pensava o filme. Bom, tudo isso era. E então, a dada altura, conheço com essa comunicação na imprensa, na certa altura era a imprensa, era jornal, e nós sendo reconhecidos pela parte da imprensa escrita, aquilo era um luxo, não é?
E então, a dada altura, sou chamada pela Madelana Perdigão para apresentar esse meu trabalho, se eu quisesse, a um grupo de gente que está interessada nesta parte da educação. Eu disse, bom, está bem. Era ela e era a Manela e Anas.
Eu disse, está bem, ok. Só Carlos Barroco, faz-me e faz favor este dia por ama dessas imagens que havia muita gente atrás de mim e fazia as imagens minhas dos bairros, que eu também tenho para isso. Que eu estou, honestamente, a tentar escrever um livro. Vamos lá ver se eu consigo. E então, e quando eu vou para a Globem, que é de falar sobre o meu trabalho de rua...
com qualquer tipo de pretensão à educação, mas já com sentido educativo, estavam quem? Estavam uma série de juízes na plateia a assistir e tal e tal. Bom, eu apresentei aquilo tudo e as pessoas gostaram muito e realmente, pronto, é interessante fazer aquilo. Era interessante na altura.
E eles depois vieram falar comigo. Era o doutor Juiz Leandro, Lobrinho Lúcio, Menezes Pimentel, Menezes Barbosa, toda essa, da Justiça. Eu disse, é lá, isso daqui está, a coisa está grave e tal, está muito bem. E então, sim senhor, muito bem, eu estou disponível para fazer isso e tal. Depois eu dizia assim para o doutor Leandro.
ó, doutor Leandro, então, eu era Teté, nessa altura ele estava lá com a Teté. Diz, ó, doutor Leandro, é engraçado, o senhor doutor Leandro, eu estou a conhecê-lo, de algum lado. O senhor lembra-se de uma senhora que se chamava Teresa Rico? E aqui também. Ah, isso é uma coisa muito complicada, foi um caso muito complicado. Ah, está certo.
Então, como é que era? Pois, isso foi um caso muito complicado. Está bem. Então, está tudo certo consigo e está bem. Muito bem. Então, olha, está-me a convidar para eu fazer um trabalho com quantos miúdos, eram cento e tal miúdos, nos centros educativos.
que vou parar o chapito, tem que ter a história. Centro educativos. Quantos miúdos é que tu já... Centro e tal, naquela altura, isto há 45 anos. E agora? Agora estão menos, estão menos, estão mais distribuídos. Mas então, eu disse ao doutor Leandro, olha doutor Leandro, essa pessoa sou eu própria.
Ah, senhor, não me diga. Agora não estou pintada, sou a própria Teresa Rico. E aquilo ali foi um bocado complicado, porque eu tinha ficado sem tutela do meu filho, estás a perceber? Porque eu não era uma pessoa normal, que era muito, muito, muito complicada, e que era muito estabilizadora, era tudo aquilo.
Era muito rebelde, enfim, tudo isso. Eu disse, está certo, e está, e pronto, conclusão. A coisa ficou para ali assim, eu disse, que irá bien, que irá la dernière.
Exatamente. Conclusão, eu vou para os centros educativos, aceito aquilo, era para ser convidada para ser funcionária da justiça, eu disse, funcionária pública não é possível, porque eu não tenho esse condão, mas posso partilhar e posso participar e tenho muito gosto e tatatatatatá. Vou parar os centros educativos, que eram os antigos reformatórios.
E eu disse, olha, mas como eu não estou, o meu compromisso convosco, a minha colaboração, muito bem, agora o vosso compromisso comigo então vai ser arranjar em um espaço para eu poder treinar, para não estar mais na rua, que eu treinava muito na rua e não sei o quê, nos jardins, animava muitos jardins e tal. E ele disse, ah, então está bem. Então puseram-me à disposição todo o património que a justiça tinha.
E eu andei em Lisboa à procura. E eu quando encontrei o Chapitou e disse é aqui que eu vou ficar. Para cá tinha sido o tribunal onde eu tinha... Eram as Mónicas. Exatamente, que eram as Mónicas. E tinha sido o tribunal de reinserção social. Era o tribunal de nós. Portanto, passados estes 45 anos... E eu aí, a Capcá com o Chapitou...
Acabe começar a fazer, a delinear o projeto educativo e artístico do Chapitou, com uma quantidade de gente, Paulo Freire, António, muita gente aqui assim ligada à educação, obviamente, tudo isto é como um impulso meu, mas com a participação académica de muita gente. E passados estes 45 anos, o teu balanço é positivo?
E sobretudo aí assim eu tive, balanço positivo é, balanço positivo é estar construído, não é? Quer dizer, agora tive sobretudo um grande apoio da parte empresarial. A parte empresarial para mim foi fundamental, porque eu comecei aquilo com o meu próprio dinheiro, com o meu próprio investimento.
que eu tinha da minha família, do meu pai quando desapareceu e minha mãe também, e eu apliquei exatamente àquilo. Depois não chegava e comecei a trabalhar, e eu como estava com um bom nome na praça, um bom nome artístico da Alemanha, a Sociedade da Corte aceita o meu pedido de apoio empresarial e eu levo o nome deles atrás de mim na minha turné e ir pelo mundo.
E eles acabam por fazer a obra do Chapitou. Aquilo estava abandonado, não havia nada, nada, nada, nada. São 80 mil contos na altura. E então, depois, então, a seguir, vem o Fundo Social Europeu.
que eu faço também uma candidatura, já que é um grupo de gente que estava comigo, faço a candidatura, ganho esse projeto também com a Europa, porque não havia nenhum projeto onde ligasse a educação, a cultura, a inclusão social, a parte empresarial e a parte da economia social. Como é que eu fazia dinheiro para manter aquilo, que é o que está a acontecer agora. E por isso, o Chapitou está há 45 anos neste momento.
Tem a escola profissional, que o Roberto Carneiro reconheceu como tal, foi na altura em que ele propôs as escolas profissionais. Eu faço ali artes e ofícios, faço parte das artes do espetáculo artístico, circo e a parte dos ofícios, serralharia, carpintaria, cenografia, figurinos, adreços, que complementa a parte artística. De maneira que faço a parte da alfabetização, a parte da escola oficial.
a parte da cultura e neste momento estou com a parte empresarial à beira de estarmos próximos, mais próximos ainda, e com a parte da economia a funcionar e um espaço aberto a público e chama-se o Chapitou. 45 anos.
Estou satisfeita, porém estou preocupada. Mas ouvi dizer que estavas com saudades de pintar a cara e que não te queres retirar sem voltar a fazer a TT. É verdade? Gostava, tinha muito gosto nisso. Agora não sei se vou a tempo, porque Portugal é muito lento e eu sou muito rápida.
Não sou rápida para a cova ou rápida para pintar a cara, mas não rápida para deixar aqui o que não está construindo ainda. Eu ainda estou, o projeto já pintou, é um projeto em construção, um projeto em desenvolvimento. E continua a ser um projeto, um movimento. Não quero que a coisa se instale como instituição. Instituição já me assusta um bocadinho, que é o pivo já está tudo sentado ali e a coisa. Agora, essa preocupação de organização administrativa é muito complicada, não é? Dá-me muitos amargos de boca.
e estou muito satisfeita porque acho que como é que eu consegui fazer aquilo? Eu já nem sequer percebo muito bem como é que foi, mas sei que foi feito e que está feito. E que tu tens que ler muito mais vezes também tens e que continuo a fazer toda uma programação muito completa aliás agora vamos ter o 25 de Abril temos o uma vez por ano, todos os meses de maio que é este que vai começar agora
que é um mês dedicado às mulheres, e são só mulheres palhaças, todas elas já saídas deste meu percurso longo, não é? De 80 anos. Vou fazer agora 80, tu tens 81 e eu tenho 80. E então, o chapitão está feito e tem uma circulação boa, não está falido, mas está com fragilidades, tem que continuar, e Portugal espera bem que se ponha. Isto quando eu fui feliz na Revolução, quero continuar a ser feliz agora.
neste trajeto de 50 anos de 25 de Abril, não é? 52 anos de 25 de Abril? Exatamente. Eu acho que é um património a cultura que nós temos, que tem que continuar aqui assim na ordem do dia e não estou a ver, porque as pessoas esquecem que a cultura é aquilo que nos une a todos, não é? É a grande argamassa naquilo tudo.
Muito obrigado, minha querida. É isso. E eu termino com uma frase tua. Aparecemos-nos a amar, aparecemos-nos a ser solidários. Muito obrigado. Pronto. Pronto.