Cruel Amor - Júlia Lopes de Almeida - cap. 20
Hoje convido você a mergulhar em mais uma obra sensível e envolvente de Júlia Lopes de Almeida, Cruel Amor, publicado em 1908.
Julia nos conduz por uma narrativa marcada por sentimentos intensos, conflitos emocionais e pelas complexidades das relações humanas. Com sua escrita refinada e olhar atento, constrói personagens que revelam as fragilidades, os desejos
e tensões presentes na sociedade brasileira do início do século XX.
Ambientada em um período de transformações sociais e culturais, a obra reflete especialmente a condição feminina, tema recorrente na produção da autora. Em Cruel Amor, os afetos se entrelaçam com as convenções sociais, e o amor surge, muitas vezes, marcado por renúncias, expectativas e silenciosas dores.
Com sensibilidade e elegância, esta narrativa convida o ouvinte a uma experiência íntima e reflexiva, que permanece atual e tocante.
Acomode-se, coloque os fones e deixe-se envolver por Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, aqui no Audiolivros da Aninha.
Boa audição! 🎧📚
Aninha Barros
- Confronto com FlavianoMaria Adelaide desfaz o noivado · Ciúmes de Flaviano · Assassinato de Maria Adelaide
- Consequências do assassinatoReação da mãe de Flaviano · Flaviano assume o crime · Enterro de Maria Adelaide
- Fuga de Ada e EduardinhoEscândalo social · Reação da sociedade · Rui · Coronel · Senador Guidão
- Fuga de Maria Adelaide para MarcosDecisão impulsiva · Rejeição de Marcos · Lealdade de Marcos a Flaviano
- Sofrimento de Maria AdelaideDoença e mutismo · Noivado com Flaviano · Amor por Marcos · Inveja da liberdade de Ada
- Plano de Flaviano para casamentoMoradia compartilhada · Ajuda financeira · Reação de Maria Adelaide
- Visita de FortunataFofocas sobre Ada · Paternidade de Ada · Preocupação com Rui
Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, narração de Aninha Barros. Capítulo 20 Correu depressa por toda Copacabana notícia de que Ada tinha fugido com Eduardinho. No seu giro rápido, a novidade não se esqueceu de entrar na casa de Maria Adelaide. Ela estava engomando perto da janela, enquanto a mãe e a Maria Aurora estendiam roupa no curador.
O céu resplandecia num azul forte e uniforme. Da copa escarlate do flamboyando terreiro, rompia o cicio das cigarras incansáveis. E no fim do gramado, beirando a cerca, todas as árvores pareciam de uma cor mais intensa. Em frente àquele quadro de luz, a Maria Adelaide estava tão desbotada que ninguém diria que fosse a mesma da tarde da procissão.
Os olhos, circulados de violeta, quebravam-se-lhe numa expressão dolorida. As faces cavadas desenhavam-lhe os ossos da caveira. Só os cabelos que voejavam a viração de fora resplandeciam nos seus reflexos de bronze dourado a fogo. A mãe já consultara um médico.
A pequena tivera mais outro ataque, na tarde em que o Flaviano lhes aparecer em casa depois de curado. Agora ele ia por ali a miúde, espreitando os movimentos da noiva que mal lhe respondia as perguntas. O médico receitar uma quantidade de remédios, caixas e frascos que a moça conservava intactos na prateleira do quarto. Andava agora de um mutismo desesperador.
A ninguém revelava o que a consumia. Às vezes chorava, correndo logo ao quarto para abafar os soluços de encontro ao travesseiro. No seu meio rude, Maria Adelaide destacava-se um pouco, conservando as prendas adquiridas no colégio regular cursivo e as quatro operações que exercitava nas contas de casa e nos róis dos fregueses da mãe.
Embora modestas, essas prendas aclaravam-lhe um pouco a inteligência. Movendo as mãos magras sob a tábua de Ingomar, ela revia em mente os gestos de Marcos e a sua figura. Quando sentiu a voz de Fortunata gritando da cancelinha que lhe acudissem, que estava com medo dos cachorros.
Maria Aurora correu abrir a cancela e aquietar os cães. Momentos depois, Fortunata entrava na salinha fazendo farfalhar as saias de chita. Trazia duas cavalas gordas para a comadre. As pescarias andavam de farturas. Só dessa manhã tinham vindo mais de dois mil desses peixes.
E logo sem termos de transição contou as mulheres atônitas a partir da adiada. À noite num automóvel com o neto do senador Guidão. Não sabiam? Pois foi um escândalo terrível. Não se falava em outra coisa. Dona Leonor sapateara de raiva. Havia um reboliço no Ipanema.
De quem tinha pena era do Rui, que impressionável como era, lá estava de cama, ardendo num febrão. O pai não se riria agora, pois de aflito que estava, mal amanhecer o dia já ele batia a porta do doutor, que parecia uma trovoada. Enfim, Rui era moço, o desgosto havia de passar, se ele não entisicasse ou ficasse doido com a mãe.
Rosnava-se que aquele desfecho foi a obra do coronel interessado em afastarada do filho. Mas isso de dizer, dizia-se tanta coisa. A verdade era que o diabo do velhote parecia ter quatro filas de dentes, como cação anequim, a ser ainda mais bravo que uma tintureira. O que mordesse estraçalhava.
Agora não saía da casa do senador Guidão, cheio de mesuras e de bobagens. Até já o tinham visto, construindo um pombal na horta para a presumida da Leonor. Aquela que ainda parecia mais muda que o próprio Pedro.
Esse escapara de ficar embaixo do automóvel em que tinha fugido a vaidosa Ada, toda de claro e de véu, como se fosse uma noiva. Por si, Fortunata não tinha surpresa. Esperara sempre que acontecesse aquilo mesmo, mais tarde ou mais cedo. O diabrete da pequena tinha pinta. Viera como seu fado ao mundo.
olhassem, pelos pecadores ela não seria chorada. Fora sempre ingrata para todos, só querendo saber do espelho e de fitinhas. Tinha muita graça que só por ter aquele palminho de cara, a viborazinha conseguisse entrar na família do doutor Guidão.
Por um lado, estimava para quebrar a castanha na boca da Leonor, dos olhos grandes, grandes, mais cegos, pois não souberam ver o perigo. Rola estava sozinha e teria que chorar. É castigo, murmurou a mãe da Maria Adelaide. Ela não fizeram o mesmo, afinal eram todas umas desmioladas. Quanto a Ada,
Se já não gostava do Rui, foi até bom que fugisse. Melhor era desenganá-lo antes do casamento do que enganá-lo depois. Achava mais leal assim. Ouvindo tal, Maria Adelaide envolveu para a mãe um olhar claro, inteligente. Pousar o ferro no descanso e ouvir a tudo com a maior atenção. Fortunata sabia pormenores.
Dizia-se agora à boca pequena que o coronel tinha confessado ser pai de Ada. Uma história. Ela era muito bem filha de uma italiana de teatro. Que mal se desembarassara da pequena, tinha fugido para outras terras. Agora o pai? Quem poderia imaginar? Ela era uma madama roncando sedas. O coronel, coitado. Sempre foram em adfome.
Um Paraty sem sal. Nesse mundo sempre se via cada coisa. O pior era se Rui morria. O rapazinho era tão franzinho e andava com a cabeça tão cheia de estudos.
Fora visitá-lo, havia pouco. O pai estava com cara de desenterrado. Não a tinha deixado ver o moço, afirmando que ele não tinha nada. Mas na rua encontraram a Antônia, que vinha da boutique e lhe dissera que ninguém dormira naquela noite.
O patrão andara pela casa como um maluco, com as janelas abertas e o gás aceso. E Rui só entrara de madrugada, com os olhos inchados e um tremor de febre tão forte que os dentes batiam. Assim mesmo, Antônia tinha os ouvido questionar. Rui, a princípio, parecia muito zangado com o pai. Mas, sem alarme, o coronel convenceu do que muito bem quis.
E Pedro, mudo, fora despachado logo de manhã com um bilhete de rompimento para a rola. A tia Antônia parecia uma estúpida, mas bem que sabia prestar atenção às coisas. A Adeque já não se incomodava com isso. Aquelas horas estaria repimpada em algum hotel comendo do melhor. Rubião julgava tê-la visto, muito agarrada ao Eduardinho, tomando a barca de Petrópolis nessa manhã. Iam como dois noivinhos.
O Rio é uma cidade muito grande, muito buliçosa, mas ninguém dá um passo que não encontre logo no caminho para castigo uns olhos conhecidos. Se Ada tivesse visto Rubião, havia de ficar passada. A gente de Maria Adelaide percebeu que a Fortunata tinha ido vê-la só para contar as novidades.
E não poupou comentários ao fato durante todo o tempo da conversa. Ninguém gostava de Ada. Um nariz torcido para a pobreza do lugar. E rejubilavam-se com o escândalo que ela fazia arrebentar como uma bomba naquela sociedade mista e laboriosa. Fortunata juntou. O que ela quer são os vestidos de sede em primeira mão. O neto do senador é rico e é extravagante.
Imagine-se o luxo. Com a beleza que Deus lhe deu e as joias que Eduardinho lhe der, Ada vai virar a cabeça de todo o Rio de Janeiro. Engraçado é se a polícia consegue que eles se casem como a Rolinha deseja. Então fica tudo tão bom como tão bom. Se assim for, é que ela há de olhar para a gente por cima do ombro.
Mas o doutor Guidão não é de brincadeiras. E há de saber mover os pauzinhos para que isso não aconteça. Casar? Não ver? Foi uma desgraça. Uma desgraça não, atalhou a mãe de Maria Adelaide. Se eles se gostavam, fizeram muito bem. Que diabo, a vida é um dia. Aquela conclusão atraiu de novo para a mãe o olhar iluminado de Maria Adelaide.
Ela tinha ouvido tudo sem dizer uma única palavra. A mãe era considerada por todos como uma mulher criteriosa. A sua opinião pesava grandemente nas resoluções das filhas. Que reviravoltas teria dado o seu juízo para balançar-se a semelhante afirmativa? Embaraçada nessas reflexões, ela não ouviu as últimas palavras da Fortunata, que tinham despertado gargalhadas ruidosas entre as quatro mulheres.
Aliviada pela transmissão daquela notícia sensacional, Fortunata lembrou-se de perguntar a Maria Adelaide pela saúde do Flaviano. João Cérvolo queixava-se da sua irregularidade no serviço. Ficar aleijado do pé ou já andava com fraqueza? A moça respondeu com duas palavras curtas e secas. Tá bom.
E logo seu rosto se enevoou. Para não a obrigarem a dizer mais nada, tratou de recomeçar o serviço interrompido. Houve um minuto de constrangimento. A mulata percebeu isso mesmo e saltou para outro assunto. Sabiam a melhor maneira de temperar a cavala?
pois era refogada com muitos temperos, sumo de limão e uma pimentinha, que fizessem um escaldado de farinha de mandioca ou um pirão com o próprio molho do peixe e saboreassem tudo depois. Elas já tinham conversado demais. Estava um calor lá fora de assar passarinhos, bonito sol para as lavadeiras, e passassem muito bem, que ainda tinha muito o que fazer em casa.
A palestra da Fortunata fixou-se na imaginação de Maria Adelaide. Ela provava o ato de independência da outra. Para que se há a gente fazer escrava quando nasce livre? Obrigar o coração a mentir? Não será muito mais feio do que atirar-se uma criatura a um abismo? Quando a isso a determine a sua vontade?
Aquela hora em que ela curtia em silêncio tão fundas amarguras, Ada sorriria nos braços do homem escolhido pelo seu amor. Como devia estar linda na sua felicidade? Por que haveria, a suja boca do mundo, de censurar aquele ato tão independente? Entre ela e Ada, quem agiria melhor?
Certamente que não era ela, acovardada sempre em frente da sua situação, prolongando o noivado que a enojava com um pensamento num homem e comprometendo-se cada vez mais com outro, levou uma hora engomando a mesma camisa. As mãos paravam-lhe no trabalho, os olhos seguiam pelo azul do espaço, a visão de Ada correndo para a felicidade.
Como um cão acorrentado a um poste, ela sentia-se coagida na sua liberdade, indignada na sua fraqueza, que lhe não permitia sair daquela ignomínia. A culpa de semelhante matírio não era certamente só dela. Marcos não dava um passo para ir ao encontro da sua aflição. Ela adivinhava o seu amor como se adivinha que vai chover se o céu está carregado e ameaçador.
Ou que o dia vai ser lindo se a manhã está límpida? Quando seus olhos se encontravam a furto, a expressão que trocavam era de tal modo sincera que não lhe podiam restar dúvidas. Ele gostava dela. Ele ardia no mesmo desejo que a consumia como o fogo consome um gravetinho seco.
Sabia a razão daquele inferno. Um pescador não engana outro pescador, seu companheiro. O seu credo é a fidelidade. Vendo que o serviço não ia nem para trás, nem para diante, a mãe de Maria Adelaide tirou-lhe o ferro das mãos e mandou-a girar. Em vez de sair para o quintal, a moça meteu-se no quarto e deitou-se, pensando. Lá fora os cães faziam alarido.
Viria mais alguém contar o caso de Ada? Era o Flaviano. Vinha risonho. Já que nem a mãe nem a futura sogra queriam morar em sua companhia, ele conseguira do carroceiro Mamédia, seu vizinho, com participação na casa. O Mamédia era bem casado. A mulher seria ao mesmo tempo amiga e conselheira de Maria Adelaide.
Vivendo as duas famílias reunidas na mesma casa, as despesas de ambas seriam diminuídas. O outro não tinha filhos. Haviam de se dar bem. Agora era só tratar dos papéis. Ele ia pedir a seu Freitas um dinheirinho adiantado para certos arranjos. Ouvindo a voz do noivo...
Maria Adelaide saltou da cama para fechar a porta por dentro a chave, num tremor nervoso, como se ele a viesse buscar a força, e colou o ouvido ao buraco da fechadura, para não perder uma palavra.
Agora Flaviano perguntava por ela, insistindo por vê-la. Mas a mãe serenou-o. A moça estava dormindo. Desde que tiver o primeiro ataque que lhe permitia aquelas preguiças, aconselhadas pelo próprio médico. Estimava por isso que se fizesse o casamento. Havia quem afirmasse que depois de casada, a filha voltaria a ser a mesma dos dias passados.
E afinal, se tinham de se casar, o melhor seria acabar com aquilo de uma vez. Vendo que nem a própria mãe a defendia, Adelaide recuou até o fundo do quarto e foi sentar-se no ângulo do assoalho, repousando os braços e a cabeça sobre uma canastra velha. E ali ficou largo tempo imóvel.
com os olhos parados na visão sugestiva de Ada, voando para os braços da felicidade. Cada um, por sua vez, tanto a mãe como as irmãs, foram bater-lhe a porta. Ela, a umas não respondia, a outra pedia que a deixasse em paz, queria estar só com seu pensamento. Tudo lhe repugnava agora no Flaviano.
Preferiria morrer a deixar-se enlaçar pelos braços escuros do noivo. Os olhos já lhe ardiam de tanto fixarem a parede nua e caiada do quarto. Que feliz tinha sido Ada em desprender-se sozinha de uma situação enredada e partir para ponto desejado num voo alto. De ave liberta.
Um automóvel, um véu branco, adejando como único adeus. E aí estava outra vida. As horas do dia iam passando numa palpitação lenta e dolorosa. Até o tempo parecia sofrer. Naquele mesmo instante de angústia, o que estaria fazendo Marcos? Talvez pensando nela.
Alguma coisa lhe dizia que o espírito dele andava em perseguição do seu. E como para responder a esse apelo secreto, pôs-se a responder baixinho, com internecida volúpia. Marcos, Marcos. Essa persuasão clareou-lhe a alma com uma esperança.
Por que não faria ela o mesmo que Ada? Os braços de Marcos não se negariam a recebê-la nem se fechariam senão já sobre seu corpo, num amplexo de amor. A mãe intimou-a que abrisse a porta. Era hora do jantar. Maria Adelaide desenrodilhou-se do chão e foi tropegamente para a mesa.
A mãe contou-lhe a resolução do mestiço. Ela nem pestanejou. Instada por uma resposta, disse que fizessem o que quisessem. Estava por tudo. Estranharam-lhe a expressão. Você está doente? Não. Então o que é que tem que estar tão esquisita? Nada.
Ainda sou tola de perguntar, ao menos coma, para não cair aí com algum faniquito. Maria Adelaide comeu. À noite, mal viu deitadas a mãe e as irmãs, pôs-se com o ouvido à escuta. Quando o silêncio foi absoluto, ela levantou-se devagarinho, acendeu a velha e começou a vestir-se com precaução. Tirou do baú a mais bonita camisa.
empapou os cabelos dos seus perfumes, calçou os sapatos dos dias de festa, as suas saias brancas e o seu vestido de caça foram enfiados com extrema cautela, num susto. Não fosse o rumor da goma forte despertar a família mal adormecida, pois anéis, os seus anéis de turco, em todos os dedos.
Amarrou um laço de fita branca na trança, entalou o lenço no cinto e, abrindo docemente a janela, saltou, como o hada tinha saltado para o campo deserto. Os cães correram para ela ganindo aos pulos. Maria Adelaide quietou-os. Colheu as saias e pé ante pé, rodeou a casa e tomou depois afoitamente o caminho da estrada.
Percebia que fechava com aquele ato um período de sua vida. Outra mulher mais decidida, mais forte, ia começar nela outra existência. O anseio que a perturbava, sufocado até então por escrúpulo, ia ter enfim doce termo. Dentro daquela hora cheia de estrelas, da música das ondas e do aroma das plantas, ela colaria sua boca sequiosa à boca de Marcos.
E faria ela mesma a confissão que tanto e tão inutilmente esperava dele. Era a primeira vez que saía sozinha por aqueles caminhos na escuridão. Não tinha medo nem lhe passava pela ideia que em qualquer volta pudesse esbarrar com o noivo. Em todo o mundo não havia senão agora ela e Marcos. A sua inteligência parecia-lhe despertada de um entorpecimento. Era como uma ressurreição.
O exemplo de Ada animava, assegurando-lhe êxito. Ela não era feita de cera, mas de carne e osso, como a outra. Não se sujeitaria a ser só o que Flaviano quisesse. Às onze horas divisou a casa do Marcos.
já fechada na paz do sono. Aproximou-se devagarinho e, batendo com os nós dos dedos na janelinha baixa, sem caixilhos, suspirou colando os beiços à frincha das duas folhas mal ajustadas. Seu Marcos!
A alma da noite palpitava nas estrelas, na viração branda que agitava na treva a folhagem do arvoredo. Intumecia as ondas do mar. Maria Adelaide sentia uma energia estranha. Nada a impediria de ir até o fim. Percebia agora ter vivido sempre sob a pressão de um erro hipócrita, na atonia dos resignados.
antes que acabassem de afogá-la, batendo-lhe com a última pancada de remo na cabeça, brasejaria para aquele porto de salvamento. A reação da sua apatia era tão forte que não experimentava nenhum vislumbre de timidez. E foi até com certa impaciência que tornou a bater com os nós dos dedos na janelinha e a dizer Seu Marcos!
Dessa vez ouviu passos. Depois a voz do pescador, extremunhada, perguntou de dentro. Quem é? Sou eu, Maria Adelaide. Os passos precipitaram-se. Marcos abriu a porta e Maria Adelaide entrou. Olharam-se.
Ele cheio de espanto, ela ousada. Ferido por uma superstição, Marcos aproximou do vulto da moça a vela que ardia numa palmatória de ágata. Não seria uma visão, um aviso de desgraça a que ele pudesse acudir? A moça não pestanejou. Ela tocou-lhe com a ponta dos dedos trêmulos nas mãos impassíveis.
Sentiu-lhe a carne, o calor da vida, e não ousou perguntar nada, sem compreender o que seus olhos viam. Num movimento delicado, de pudor, Maria Adelaide apagou a vela, com um sopro ligeiro, e logo, num sussurro de palavras precipitosas, contou-lhe tudo.
Era bem ela. Fugira do seu quarto para vir ter com ele e ali ficar para sempre, como sua companheira ou como sua esposa, o que ele determinasse. Com tanta força arfava o peito do pescador, tal era sua surpresa e o seu enleio, que a língua lhe negava a articulação das palavras que desejava.
A moça teve de esperar longamente por uma resposta, que parecia estrangulada por um poder superior. Por fim, ele murmurou apenas. Mas a senhora é noiva do Flaviano. Foi como se lhe tivessem aberto o peito e dado com força uma pancada no coração. Maria Adelaide começou a chorar.
Não amava o noivo, nem saberia nunca explicar a razão por que se deixara comprometer assim. A vida tem desses enredos, mas a sua consciência acordara. A quem ela amava era o Marcos. E bem percebia que ele lhe queria também. Ninguém a tinha visto saltar pela janela do seu quarto nem caminhar sozinha por aqueles lugares até ali.
Vinha livremente, por seus pés, e já se arrependia de não ter escolhido a hora do sol, em que toda sua responsabilidade ficasse bem patente. Em frente dela, de braços caídos, olhar chamejante, Marcos contemplava, na penumbra do quarto mal-alumeado pela porta completamente aberta, a pouco e pouco.
a razão ia se lhe aclarando, malgrado a perturbação dos seus sentidos. O desejo impulsionava-o a unir ao coração o vulto branco da moça, por quem vivia a suspirar. Havia tão largos dias, como por um bem inatingível.
Ela ali estava agora, sozinha, alta noite, no seu quarto estreito e solitário. E ele não fazia um gesto para tocar-lhe nem de leve o vestido. Estava só em casa. A mãe saíra para velar um morto. As circunstâncias do acaso favoreciam seu amor. Maria Adelaide suplicou pela verdade.
Ter-se-ia ela enganado? Não a amaria ele? Com a sua linguagem rude, ele disse-lhe que desde uma certa tarde em que vira no Ipanema, não pensava em outra coisa na vida senão nela. E que por sabê-la noiva de um companheiro, um pescador como ele, não se tinha atrevido dizer nada.
Agora sim, logo que o dia alumiasse, ele iria procurar o Flaviano, contar toda a verdade e pedir-lhe que desistisse da felicidade em seu favor. Se a mãe estivesse em casa, já a teria chamado, mas a sua velha estava velando um morto. As lágrimas de Maria Adelaide tinham secado, e ela olhava agora fixamente para o peito de Marcos, mal coberto pela camisa de meia.
Não vá falar com Flaviano. Por quê? Ele é meu companheiro, não posso ser desleal. E a senhora vá-se embora, senão eu fico maluco. Então não quer que eu fique? Não. Quero que entre por essa porta com seu véu de noiva, minha mulher. Então ele aproximou-se dela e repetiu com extrema doçura. Minha mulher.
Maria Adelaide ergueu para ele o rosto à espera do beijo tão profundamente desejado. Marcos fechou os olhos e repetiu uma súplica. Vá-se embora. Amanhã minha mãe irá conversar com sua mãe e eu irei falar com Flaviano. Não. Ele insistiu. É o meu dever. Tenho medo. Medo. Medo de quê? De Flaviano.
Eu me encarrego de tudo. Vá descansada. Adeus. Espere. A noite está escura. Como há de ir sozinha? Assim como vim. Mais triste. Eu queria ficar de uma vez. O senhor não gosta de mim. Maria Adelaide.
Se gostasse, não me mandaria embora. Eu já lhe disse tudo. Não sei falar de outra maneira. Um pescador não pode trair um companheiro. Os outros todos me desprezariam. E a senhora não havia nunca de ser feliz. Flaviano. Maria Adelaide interrompeu com vivacidade. Flaviano é um negro.
É um homem como eu e um pescador como eu. Deus quer a nossa felicidade. Quando o dia clarear, conte tudo a sua mãe. Eu, na mesma hora, irei falar com Flaviano. E de tardinha, Maria Adelaide, já seremos noivos. As palavras serenas de Marcos contrastavam com a expressão iluminada do seu rosto longo, tostado de sol. Volte para casa.
Aconselhou ele ainda. Não quero que me vejam essa hora em sua companhia. Mas não tem medo de andar sozinha por aqueles matos? Não. Eu não tenho medo de nada. Adeus. E ela partiu apressada numa confusão de ressentimento e de ventura. As noites de fevereiro são curtas. Às quatro horas já há claridades de dia. Maria Adelaide pensou nisso quando entrou pelo atalho novo.
junto da toca do machado. De que lhe servir a ter empapado os cabelos de óleo cheiroso e ter posto um anel em seu dedo? Se o Marcos nem ao menos ceder a tentação de a beijar? Era todo de escrúpulos, lealdades.
Que lhe responderia o Flaviano? A essa ideia a moça parou, interrogando a treva com um olhar de susto. O Flaviano estava bem certa, não acederia a outro. O que se passaria então entre os dois? Vagavam no ar pios e aves noturnas e perfumes de mato e flor de fruta. Do jambeiro, do ângulo da estrada, motejou o canto de uma coruja.
Maria Adelaide não era tão tola que não percebesse que o noivo desconfiava já do Marcos. A confirmação agora de uma suspeita não poderia determinar nele um ato de selvageria? Começou a esboçar-se no seu espírito uma cena terrível, em que a paixão indomável do mestiço se vingasse do pescador branco. A essa ideia, a moça interessou-se como nas suas crises de esterismo.
Tinha errado nos seus desígnios. Fora ao encontro da felicidade e só tinha conseguido atirar dois inimigos um contra o outro. Deveria ela ficar impassível ante tal perspectiva? Assaltou a vontade de enfrentar ela mesmo o perigo.
correndo à casa do noivo antes da chegada do Marcos, para lhe dizer toda a verdade dolorosa. Já que se precipitara na aventura, iria até o fim. Marcos esperava pela manhã. Seria preciso que ela falasse ao noivo de madrugada, antes das cinco horas.
Uma espécie de febre ativava-lhe o sangue, determinando-lhe deliberações rápidas. Não valia a pena ir para casa. Mais acertado, era dirigir-se logo para a do Flaviano.
Esperaria no terreiro entre as carroças do Mamed que o dia abrisse os olhos. Perturbava um medo horrível de se achar só com o noivo. Quando se lembrou da mãe dele, a preta velha, sua encarniçada inimiga, que ajudaria a defender-se do amor do filho. Que trágica noite era aquela, que empurrava tantas peripécias nunca antes imaginadas. Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور Míور M
Aquela hora, a mãe e as irmãs, adormecidas no quarto ao lado do seu, se nela pensassem, seria para imaginá-la embaixo das mesmas telhas, na mesma quietação. Nunca em sua vida puseram os pés na rua desacompanhada e agora andava noite alta, sem medo, completamente só, por estradas e ruas desertas, vestida com a sua roupa de festa, como uma doida.
Seu corpo sacudido nos derradeiros tempos por tantos ataques consecutivos e que se endurecia toda a qualquer temor e qualquer dúvida. Agia agora nessa crise de alucinação com absoluta calma. A casa do Flaviano, de paredes cor de barro, mal se adivinhava no escuro, sob a amendoeira enorme e entre um grupo de carroças desatreladas, de varais erguidos para o ar.
Maria Adelaide conheceu o caminho a Palmos. Iria de olhos fechados, serpeando pelos carreirinhos, por todos aqueles atalhos que a tinham levado de casa à escola nos dias de sua infância. A sua aproximação rompeu um coro de latidos dentro da casa do Flaviano. A velha gostava de dormir com seus dois cachorros ao pé da cama.
Maria Adelaide sentou-se na traseira de uma carroça e quedou-se de face para a casa do noivo, ardendo na impaciência de ver abrir-se aquela porta antes da chegada de Marcos. Flaviano tinha lhe contado muitas vezes que a mãe era madrugadora. Ainda havia estrelas no céu e ela já saía à roda da habitação a catar gravetos para acender o fogo.
Maria Adelaide, que tivera sempre por essa mulher uma repugnância instintiva, esperava agora por ela com ansiedade, morta por contar-lhe tudo antes de falar ao noivo, na certeza de que a velha a ajudaria a transpor o perigo. Não tinha sido sempre esse o seu maior desejo? Não sabia toda a gente que a preta daria a própria vida para separar do filho?
Sentimentos e ideias atropelavam-se em Maria Adelaide, cuja inteligência sacudida pelo exemplo de Ada acordava de um letargo longuíssimo, com uma lucidez admirável. Os cães continuaram a latir com tamanha fúria que se levantaram vozes lá dentro, a apaziguá-los.
Eles serenaram por alguns instantes, depois a agitação recomeçou. Intervalada, ora sopitando-se a custo, ora explodindo em latidos reprimíveis. Impassível, com as mãos cheias de pedras falsas dos anéis de turco caídas sobre a caça engomada do seu vestido branco, o seu vestido das procissões,
a moça não desviava a vista da massa escura e mal definida da casa do noivo. Pouco a pouco, seus olhos foram lhe delineando os contornos, a sua forma baixa e quadrada, as suas duas janelas pequenas, sem caixilhos, seguras a paredes mal rebocadas de casa do mato de gente pobre.
Agora divisava já tenuamente a linha do telhado. Cantou um galo à distância, outro mais perto. A viração fez-se mais fresca. Percebi agora duas tumifações no ângulo direito do casebre. Eram dois cestos de cipó-lima pendurados na esquina e ali esquecidos.
A luz vinha vindo suave, mansa, num palor de luar que parecia surgir da terra. Cantavam passarinhos na mendoeira e ainda luziam estrelas no céu. Quando uma das janelinhas se abriu, Maria Adelaide encolheu-se num sobressalto brusco. Flaviano vestia-se para ir à pesca.
Ficará combinado com João Cervulo irem de madrugada para a praia. Ele gritou para a mãe no fundo da casa que aviasse o café. E chegando na janela olhou para o céu consultando o tempo. A sorte desprotegiu os planos de Maria Adelaide. Uma impressão momentânea para isolir os membros. Os olhos alargaram-se lhe nas faces, pálidas. E só por um esforço.
quase sobre-humano, conseguiu erguer-se e caminhar para o noivo. Ela ia toda branca, da luz branca da madrugada. Flaviano correu para a porta e, puxando-a para dentro, perguntou-lhe espantado. Você é aqui a essas horas? Morreu alguém lá em casa? Não morreu ninguém. Eu vim bem cedinho só para dizer que não quero me casar com você. Preciso dizer já, antes de ter pena.
A culpa não é de ninguém. Tenha paciência e procure outra mulher melhor do que eu. Flaviano tremia. De olhos esbugalhados. Ela continuou. Não é de hoje nem é de ontem que eu me arrependi de ser sua noiva. Me faltava coragem para contar aos outros e a você meus pensamentos. Mas chegou a hora. Você está doida?
Não estou, não. Doidice é a gente fazer as coisas contra a consciência. Se eu casasse com você, era para enganar. Não é melhor assim? Flaviano não voltava-se do espanto e sentindo uma nuvem opaca diante da vista, encostou-se às costas na cama como se temesse cair.
A vertigem durou, que dura um relâmpago. Ele estendeu logo os braços, segurou com força nos ombros de Marie, disse, sacudindo-a com brutalidade. Foi Marcos, diabo, que andou te desinquetando, não foi? Fui eu que desinquetei o Marcos. Fica sabendo. Essa noite, antes de vir para aqui, eu fugi para a casa dele e fui me oferecer para sua companheira.
Porque é dele que eu gosto. É dele só. Foi um tolo. Não me recebeu. Disse que um pescador não atraiçou a outro pescador. E que só será meu marido se você não quiser mais saber de mim.
Ele vem cá logo mais para combinar com você essas coisas. Mas eu corri adiante, com medo que ele sofresse alguma desfeita sua. E desde a noite escura que estou esperando ali fora que abrissem a porta, para eu entrar e contar tudo de uma vez. Com um repelão brusco, Flaviano puxou Maria Adelaide para si e unindo ao peito, que arquejava violentamente, bafejou-lhe o rosto.
Repetindo-lhe rente a boca, você é minha. Não, é minha. Aquele cachorro nunca será seu marido, viu? Cachorro é você, largue-me. Pode dizer o que quiser, não me importa. Você agora daqui não sai, é minha, é minha.
Maria Adelaide debatia-se, gritando pela mãe de Flaviano, que assomara a porta do fundo do quarto e assistia impassível à luta tremenda, com os beijos arregaçados numa expressão de desprezo. Pensa que por Marcos ser branco é melhor do que eu? Ele me paga. Você está nas minhas mãos.
Negro. Agora sou negro, mas antes você bem que me queria. Eu não gostava de você como eu gosto de... Cala a boca, diabo. Sou noiva de Marcos. Cala a boca ou te mato. Pode matar, mas é só dele que eu gosto. Ouviu bem? Só, só, só, só.
Era demais. Cego de raiva, Flaviano sacou a faca do cinto e cravou repetidas vezes no coração de Maria Adelaide. O sangue esguichou com o calor de labareda, ondulou num gemido rouco, uma sílaba de queixa e fez-se o silêncio.
A mãe do mestiço entrou então no quarto, apanhou a faca do chão, depois tornou a sair, fechando a porta para rondar a casa no terreiro. Em uma dessas rondas foi à cozinha, lavou a faca, que ainda tinha estupidamente nas mãos, enxugou-a na barra da saia e tornou a sair para o posto de vigia. Eram perto das sete horas quando Flaviano apareceu.
Com os olhos vermelhos muito inchados de choro, ele disse. Se Marcos vier me procurar, diga a ele que Maria Adelaide está na minha cama e que é minha mulher. Acendo uma vela lá dentro. Eu vou dizer à mãe dela para vir fazer o enterro. E depois, inquiriu a mãe numa primeira manifestação de anseio, ele levantou os ombros e saiu sem responder.