Cruel Amor - Júlia Lopes de Ameida - cap. 19
Hoje convido você a mergulhar em mais uma obra sensível e envolvente de Júlia Lopes de Almeida, Cruel Amor, publicado em 1908.
Julia nos conduz por uma narrativa marcada por sentimentos intensos, conflitos emocionais e pelas complexidades das relações humanas. Com sua escrita refinada e olhar atento, constrói personagens que revelam as fragilidades, os desejos
e tensões presentes na sociedade brasileira do início do século XX.
Ambientada em um período de transformações sociais e culturais, a obra reflete especialmente a condição feminina, tema recorrente na produção da autora. Em Cruel Amor, os afetos se entrelaçam com as convenções sociais, e o amor surge, muitas vezes, marcado por renúncias, expectativas e silenciosas dores.
Com sensibilidade e elegância, esta narrativa convida o ouvinte a uma experiência íntima e reflexiva, que permanece atual e tocante.
Acomode-se, coloque os fones e deixe-se envolver por Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, aqui no Audiolivros da Aninha.
Boa audição! 🎧📚
Linha Barros
- Cruel Amor - Capítulo 19Dilema de Ada entre Rui e Eduardinho · Conflito com Dona Leonor · Proposta de fuga com Eduardinho · Descoberta da paternidade de Rui · Fuga de Ada com Eduardinho
- Análise de personagensAda e seus dilemas morais · Rui e seu amor idealizado · Eduardinho e sua sedução · Dona Leonor e seu ressentimento · Coronel, pai de Rui, e suas intrigas
- Demissao e ConsequenciasDescoberta da fuga de Ada · Reação de Rui à mentira do pai · Intervenção policial
- Amor, perdão e perseverançaSacrifício em nome do amor · A busca pela felicidade · A força da dignidade pessoal
Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, narração de Linha Barros, capítulo 19. Ada não tornara voltar à casa do senador Guidão, receosa de ter desagradado a dona Leonor. Esperava que chamassem. Havia de chegar a hora em que no chalé do Ipanema precisassem que ela fosse pregar os alfinetes ou pentear os cabelos de uma amiga desajeitada.
No fundo da sua consciência, não achava motivo para o amul da outra, de quem revia todo instante na memória a expressão rancorosa dos seus grandes olhos, dantes sempre postos nela com tamanha ternura. Perceberam que toda a velha amizade de Leonor se transmudaram em aborrecimento naquela noite tão singularmente perturbadora do passeio automóvel. Por quê?
Ela não tinha culpa de que Eduardinho a amasse, nem de que fosse tão audacioso. Tampouco fora ela quem inventara o passeio, nem quem desinquietara ninguém para sair. Se em vez de a comer com os olhos, a Leonor falasse, ela lhe diria isso mesmo.
Estava bem sossegadinha em casa. Ia até escrever ao Rui, quando a foram tentar com rogatórios para o passeio. Não soubera resistir, fora esse seu crime, mais nenhum. E a cada hora que passava, ia se sentindo mais fraca, mais dominada pela sedução daquela noite de vertigem.
O olhar do Eduardinho crestava-lhe na alma todos os sonhos antigos. As contrações amorosas e lentas das suas mãos fazendo-lhe vibrar todas as fibras do seu corpo. Era outra mulher. O grande amor de Rui, tão arrebatado e ao mesmo tempo tão estático.
Dava-lhe a sensação de ser ela um ídolo cuja adoração impunha reverências. Ele vivia a maldizê-la e a adorá-la. De longe, de joelhos, rugindo anátemas ou cobrindo-a de louvores. Pensando nele, seu coração enchia-se de lágrima. Rui era o seu amor, desde menina.
O seu primeiro segredo foi o seu pensamento que a ensinara a olhar para as estrelas, a ouvir o murmúrio das ondas, a querer penetrar os doces mistérios da natureza. Diante dessa grande paixão, ela começava a sentir-se humilhada e pequenina. Por vezes, Rowling encontrou a abstrata, a costura caída nos joelhos, o olhar espalhado numa vaga de sonhos.
As semanas passavam assim naquela inquietação. Dona Leonor não a mandava chamar. Quando antes não passava dois dias sem a ver. Rui andava às voltas com os exames. Recebia dele cartas preocupadas, quase dolorosas.
Eduardinho não lhe deixava a porta, sempre elegante, sempre correto nos seus trajes ingleses, suavemente impregnado de uma essência sutil. Uma manhã, antes de saltar da cama, com os olhos parados para as tábuas brancas do teto, Ada, em quem o sono aquietara os nervos,
Começou mais serenamente a comparar as figuras dos dois rapazes, imaginando o futuro que cada um deles lhe podia oferecer.
Casando-se com Rui, ela, jungida para sempre à pobreza, iria compartilhar as magras roupas do velho implicante, o inimigo feroz de toda sua mocidade, eternamente vestida de chitas e algodões, espiada pelo ciúme do marido e o rancor vingativo do sogro.
Casando-se com Eduardinho, deixaria de usar os restos da Leonor para sortir-se da mesma modista. Moraria em casa à parte, ajardinada, sem dar satisfações dos seus atos a sogros antipáticos e maus. Teria sedas, joias, cruzaria as ruas da cidade em automóveis e carros elegantes. A sua beleza resplandeceria como um astro no céu.
Teria ela o direito de sacrificar tanta felicidade ao cumprimento de uma promessa quase infantil? Rui foi o seu primeiro amor. Ela era o primeiro amor de Rui. E daria tudo por consolá-lo e fazê-lo feliz. Porque a expressão do seu olhar, o timbre da sua voz, o sentido das suas frases, o calor das suas mãos, a doçura do seu sorriso, o calor das suas mãos, o sentido das suas mãos,
Tudo que era dele, que vinha dele, estava profundamente gravado, eternamente gravado no seu coração. Ela amava-o ainda. Sentia que o amaria sempre, mas sem frenesia, com um sentimento que envolvia a saudade e a piedade.
Adia agora em desejos de ir à casa do senador Guidão, abreviar com a sua presença o desenlace de uma situação difícil de sustentar. Afinal, ela assim encolhida em casa, pareceria, aos olhos dos outros, ter medos de criminosa.
Não via razão para ódios. Se Leonor passara do extremo dos seus abraços para aquela sequidão, gostaria de fazer-lhe compreender que a culpa não era sua. De resto, estava convencida de que, desde que a amiga precisasse dela, não tardaria em mandá-la chamar. Mas corriam as horas sem que viesse esperar do convite.
Teria Dona Leonor deixado de frequentar espetáculos e bailes? O Eduardinho, sempre que ia ou voltava da casa do avô, lentava os passos à sua porta e não podia haver olhares mais significativos do que os seus.
Uma tarde, ele ousou mesmo, com o maior desembaraço, encostar-se à janela da salinha da frente. Ela cozia rente ao peitorio. Dona Ricarda, no seu canto, entre o mar encapelado de morins, rodava a máquina silenciosamente. — Por que não tem aparecido lá em casa? — perguntou ele. — Tem-se notado sua falta.
Não tenho podido, muito trabalho. Masinha, essas lindas mãos não foram feitas para o trabalho.
Mas agora reparo, uso um anel de casada. Que é isso tão feio? Ada corou. Foi um presente. Dele? Não. Bote-o fora. Achei outro dia um com um brilhante e não sei o que hei de fazer dele. Trago-lhe-o qualquer dia. Não. Sim, vá amanhã de tarde ao Ipanema, preciso falar-lhe.
Rola apareceu, não houve tempo para explicações. Dentro da cabeça de Ada, ficaram girando ideias e imagens no movimento estonteador. Estavam notando já a sua falta. Logo, a Leonor não estaria zangada. Talvez que a própria dona Delfina a considerasse como uma ingrata. Deveria acreditar no que lhe disseram, Eduardo? Como a receberiam no chalé do Ipanema?
Admirava-se de que Rolinha não tivesse ainda percebido aquele arrufo. Seria mesmo prudente acabar com aquilo? Antes que a mãe soubesse? Mas que pretexto arranjaria ela para se apresentar assim espontaneamente, depois de tantos dias de ausência?
Ao mesmo tempo, as figuras de Rui e de Eduardo alternavam-se, perseguindo-se. Uma risonha e desdenhosa, outra pálida e aflita. E como seria o anel? Talvez parecido com o de Leonor, que iluminava os gestos e poetizava as mãos?
Nessa noite veio uma nova carta de Rui. Era um grito. Era um soluço. Sabia já do outro passeio em um automóvel rente ao Eduardo, da sua convivência. Lembrava-lhe a reputação destróina do outro, que se não fiassem promessas, que a amava para a vida e para a morte era ele. Tivesse cuidado.
O outro era só vaidade, mentira e demais astucioso como um caçador. Se era pelo amor do luxo que ela se deixava tentar, ele faria tudo por dar-lhe luxo igual.
Já o jurar em outra carta, tornava a jurá-lo agora. Seu amor era puro, era toda sua vida passada e era a única esperança do seu futuro. Não lhe fugisse, não abandonasse, não o enlouquecesse. As promessas de Rui enterneciam Ada, sem convencê-la. Onde iria o pobre buscar dinheiro para as ofertas de luxo que fazia?
Por aquele caminho poderia ir até o crime. Arrepiou-se com a ideia de que ele, tão bom, chegasse a qualquer desatino só por amor dela. Molhou a carta de lágrimas. Refletiu que era ao lado desse grande coração que ela encontraria felicidade. Eduardo era o desvario. Rui era o amor. Ficaria para sempre nos braços do seu antigo amor.
Durante toda a noite, revolveu-se na cama, sem poder dormir, fixando-se na resolução de fugir para sempre do Eduardinho e da família Guidão. Toda ela devia ser de Rui, a quem já se prometera desde o lindo raiar da sua mocidade. Voltaria para ele, modestamente e honestamente.
Ele fizera bem escrever-lhe aquela carta tão sentida, tão profundamente verdadeira. Pensando bem, o Eduardinho desgostara com a sua grosseira oferta de joias. Vinha-lhe o arrepio do arrependimento.
voltava para o seu amor antigo como uma andorinha para a primavera. Sabia bem o que esperava. Sacrifício e pobreza. Mas a sinceridade de Rui merecia-lhe aquela abnegação. Depois, se os outros esperavam humilhá-la, perderiam bem o seu tempo. Seria ela quem se afastaria primeiro. Como o dia tardava, ela ansiava por correr ao lindo chalé do Ipanema.
onde tantas vezes se arrastara de joelhos pregando os alfinetes nas saias da amiga egoísta, para lhe dizer um adeus altivo e dissuadir o Eduardinho. Compreendi, enfim, que só a tinham estimado por carecerem dos seus favores, mas que todos se impertigavam agora, só com a simples ideia de que ela pudesse vir a ser da família. A sua dignidade revoltava-se, e a sua dignidade revoltava-se.
decidiu fazer ponto naquele capítulo de faceirice voluptuosa que a ia enredando. No dia seguinte, pediu ao filho de um vizinho que a acompanhasse até a porta do chalé Guidão, recomendando antes à Rola que a fosse buscar uma hora depois, e saiu com um ar tão grave e tão firme.
que Dona Ricarda comentou com estranheza. Que terá ela hoje que está tão diferente? Sim, e é diferente. Resolvida dar um golpe mortal num dos mais risonhos períodos de sua existência. Aquela visita era uma despedida. Diria isso mesmo a Dona Leonor.
Adeus bairros do Ipanema, vestidos de seda, embora já usados por outro corpo mais feliz, passeios alegres em automóveis através das noites veludosas e perfumadas. O seu destino ingrato obrigava a permanecer na sua cadeira de costura, picando os dedos, desperdiçando a beleza de que tinha tão nítida consciência.
ia por suas mãos enterrar a flor da mocidade, por a par de terra pesada sobre o corpo alado da esperança feiticeira. Quando abriu o portão do jardim e despediu o pequeno que a tinha acompanhado, teve ímpetos de correr para trás e voltar, sem dizer uma única palavra para junto da mãe.
Mas aquele movimento súbito de timidez sucedeu outro de resolução. Ouvia a voz de Eduardinho, discutindo alto na sala com outra voz masculina, mais baixa escorregadia. A presença do moço reacendeu-lhe a coragem quase extinta. Subiu correndo os degraus de pedra da escada exterior e vibrou com o dedo firme a campainha elétrica.
Nesse instante, viu através dos vidros da porta passar lentamente do salão para a sala de jantar a figura impassível de Leonor, que voltou para ela o rosto pálido, em que os olhos pareciam ainda mais sérios e mais frios, e sumiu-se sem dar um passo ao seu encontro.
Ada sentiu ímpetos de quebrar os vidros, de ir lá dentro sacudir pelos ombros a amiga. Os lábios tremeram de raiva, foguearam-se-lhe as faces, colada pelo espanto ao patamar da escada. Morta porque o Eduardinho a visse e corrigisse a má criação da outra.
Uns segundos de espera apareceram-lhe uma eternidade. Vibrou de novo, desaforadamente, a campainha elétrica. No acesso da raiva que lhe tumecia as artérias e queimava as pupilas. Veio por fim o criado dizer-lhe, por uma frincha da porta mal aberta, que as senhoras não estavam em casa. E bem instruído, mal acabou essas palavras, fechou a porta e voltou-lhe as costas.
Um frio de neve envolveu Ada da cabeça aos pés, paralisando-lhe momentaneamente a ação. Diante dela, parecia multiplicar-se as portas e os ombros chatos de criados desatenciosos. Segurou-se ao corrimão de ferro, compreendeu que precisava fugir. Desceu a escada cambaleante e trêmula.
Ao sair para a rua, levantou ainda os olhos para as janelas da sala, na esperança de ver assomar a uma delas o Eduardinho. Mas em vez dele, foi a cara escarninha do coronel que ela viu inclinar-se lá de cima sobre a sua miséria. Ele ria-se. Ada fugiu.
A sua consciência confundia a realidade com um pesadelo. A figura odiada do pai de Rui acabara de a desorientar. Tinha-lhe ódio e medo. Um medo de criança por papão negro de telhado. Que lhe haveria de comer a carne e ainda chupar os ossos. Que fazia o malvado naquela casa onde antes nunca ia? Fazia intriga.
O dia é sua desgraça. Não tendo asas para voar, Ada queria correr. Mas os seus passos tornavam-se cada vez mais pesados, recuando na areia quando pretendiam avançar. Receava agora encontrar algum conhecido pelo caminho, supunha levar estampada no rosto a sua vergonha. A confusão aumentou ao sentir que alguém vinha apressadamente no seu encalço.
Esperou a apunhalada nas costas, vibrada pela mão seca do pai de Rui. Mas não era ele. Era o Eduardinho. O moço vinha, indignado. Pedia perdão por todos e com olhos fuzilando lumes, propôs-lhe a fuga nessa mesma noite. Ele esperaria de automóvel na esquina da rua da Nossa Senhora. Às nove horas.
Só saltando por sobre o escândalo, ela seria um dia sua mulher. E ela seria sua mulher. Queria então ver se a tia Leonor não a viria a receber a porta cada vez que pelo seu braço entrasse em casa do avô.
Ada não repeliu a proposta. Tão aceso estava nela o sentimento da vingança. Ele repetia, sinceramente comovido. Essa noite, às nove horas, na esquina da rua da Nossa Senhora, perto daquele terreno que fica aos fundos da sua casa. Não me faça esperar em vão. Amo-a. Adeus. Ada não respondeu e entrou em casa com a cabeça em fogo.
Dona Ricarda e Rola pasmaram de a ver. Que é isso? Você já voltou? Não é nada. E fechou-se no quarto batendo com a porta. Que lhe teriam feito, meu Deus? Sabe, Dona Ricarda, eu ando desconfiada que abria a porta da casa do Dr. Guidão ao coronel. Só me faltava essa desgraça.
Por quê? Dona Delfina disse-me que ele tinha prometido voltar lá, levando um casalzinho de pombos. E ontem Rui me contou que o pai andava escolhendo um terreno no Ipanema por ordem de um amigo. Foi uma mentira que ele pregou ao filho. O terreno que ele procura é intrigar-nos com o agente do senador. Não duvido.
Sabe que eles nos protegem e quer ter o gostinho de tirar-nos a última migalha da boca. Ontem estive, vai não vai para dizer tudo a Rui. Ele anda mofinado, pensa que Ada já não gosta tanto dele como gostava antigamente. E eu talvez devesse mesmo ter aproveitado a ocasião para revelar o segredo do pai. Mas tive pena e fiquei quieta.
Ele tem uma paixão doida por ela. Tenho tanta amizade ao Rui, dona Ricarda, que se penso nessas coisas, até sinto vontade de chorar. Coitado! Tantas vezes o adormeci em pequenino e passeei em meus braços. Era uma criança adorável, mas sempre um pouco pensativa. Ninguém há de dizer que é filho daquele homem.
Fico toda arrepiada quando imagino que Ada também possa ser filha do coronel. Qual que? Ainda outro dia aquela velha cozinheira deles esteve aqui dizendo que o patrão lhe tem perguntado. Nem sabe a quantas vezes. Se conhecer a mãe de Ada. Aquilo foi manha, só para perturbar a sua ingenuidade. Havia de ser comigo.
Quem sabe? Sei eu. Não se brinca assim com uma questão tão séria. Não se brinca quando se tem consciência. Olhe. Ele lá vai, disse Dona Ricarda, apontando para a rua pela janela aberta. Rola olhou. O coronel parecia levado pelo vento e atirando as pernas em longas passadas. Vinha dos lados do Ipanema e corria naturalmente para a casa.
Vai salvar o pai da forca, exclamou Dona Ricarda rindo. Certamente o coronel não ia salvar o pai da forca, mas ardia na impaciência da perversidade por contar ao filho a desfeita porque Ada tinha acabado de passar. Os olhos fulguravam-lhe de alegria. Nunca os seus pés se tinham movido mais depressa, nem menos cansaço sentir o seu peito de quase 60 anos.
Mal entrou em casa, gritou para Antônia. Onde está meu filho? Ao que a velha respondeu entre resmungos. Ainda não veio, não senhor? Começaram logo os passeios pelo corredor, chegadas à janela, aborrecimentos. Onde estaria o menino? Aquela hora, em vésperas de exames, o seu lugar devia ser ali, à mesa, inclinado sobre os livros abertos.
E a apostar que ele abalara para a praia, a ver a pescaria das cavalas, em palestras e intimidades com os pescadores. Aqueles malditos pescadores. Caia para a noite e a tarde, quando em uma das idas à janela o coronel viu, a curta distância, o filho a conversar com o Marcos. Pareciam muito interessados. O pescador é muito alto.
Inclinava-se todo para Rui, que a seu lado afigurou-se ao pai mais franzino. Que diria o diabo do Marcos? Aquela torre de campanário pobre, que assim prendia um moço estudante talhado para outras convivências.
Chegou, enfim, o momento de se separarem e Rui entrou em casa. O pai embaraçou-se tentando disfarçar a sua vontade de desabafo. Queria dizer o que sabia sob um pretexto natural, que empurrasse a confidência sem que transparecesse o propósito que tinha de a revelar. Mas como tal pretexto não lhe acudisse, não lhe acudissem.
Ele disse já sem poder conter a sua impaciência nem procurar rodeios. A filha da Rola passou hoje por uma boa vergonha. Rui suspendeu-se numa interrogação muda e aflita. O pai continuou desviando o olhar para um lado. Foi expulsa da casa do doutor Guidão. É impossível. Eu estava lá, eu vi.
Mas por quê? Por quê? Ora, que grande admiração. Porque o comportamento daquela moça tem se tornado de tal modo escandaloso com o Eduardinho que a dona Leonor, muito sensata, resolveu pô-la na rua para sempre. Hoje ela foi lá. Dona Leonor atravessou a saleta bem devagar diante dos olhos dela, encarou-a de face e mandou dizer pelo criado que não estava em casa.
Oh! Dizem que ela tem tão pouca vergonha que ainda é capaz de fingir que não percebeu nada e voltar lá. Sempre lhe hão de fazer falta os vestidos velhos de Dona Leonor. Mas se isso acontecer, será despedida ainda mais rudimente. É bem feito para gente séria não admitir canalhas em sua convivência.
Ruja não ouvia nada. Latejavam-lhe as fontes. As faces ardiam-lhe ao influxo do sangue revoltado. Levantou-se de chofre, tomou o chapéu do cabide e fugiu para a rua. Sem que o pai tivesse tempo de formular um juízo ou sequer uma hipótese do que se ia passar.
Ele estender a mão para reter o filho. Disse ainda uma frase de súplica, que não foi atendida, porque Rui partia como uma flecha, com a respiração zunindo e os olhos acesos. Seria prudente correr atrás dele até a casa de Rola e trazê-lo por uma orelha como um rapazinho de escola?
Atormentado e arrependido de ter dito tudo assim de repente, o coronel deu alguns passos na rua, mas voltou logo para trás. Era tarde. Rui já não era uma criança. A sua intervenção agora talvez fosse mais desastrosa. Limitou-se a esperar.
Entrou de novo para casa, remoindo rancores com tapeste daquela rapariga. Enquanto o filho, anelante da carreira, entrara como um doido na casa dela. Como as costuras eram com pressa, Rolim e Dona Ricarda estavam ainda toca que toca a puxar pela agulha.
vendo o moço interromper o trabalho assustadas. Ele perguntou logo por Ada, espantado da calma das duas mulheres. Rola explicou. Deve estar deitada. Ela entrou da rua com ar de doente e fechou-se no quarto. Já fui lá duas vezes bater, não me quis abrir a porta. Pediu-me, pelo amor de Deus, que a deixasse sossegada. Está com dores de cabeça.
Mas você agora me põe tonta. Diga depressa, por que é que veio o Kai tão alterado? Ao mesmo tempo que falava, Rola levantava-se espalhando na soalha, agulha, dedal, carretéis. O rosto ficar ali branco, como as camisas que estava caseando. Rua explicou tudo o que ouvira do pai, nervosamente. Vinha afirmar a Ada, mais uma vez o seu amor, e consolá-la da brutalidade dos outros.
A ofensa doer-lhe como um golpe mortal. Se ela o tivesse ouvido, não passaria nunca por aquela humilhação. Que a chamassem, que a chamassem depressa. Faltavam só dois meses para sua maioridade. Ele redobraria desforços no estudo para fazer a sua independência e casar-se. Não bastaria a do seu amor e não estaria ela ouvindo lá dentro a sua voz.
Talvez seu pai tivesse exagerado um pouco, observou Dona Ricarda no seu canto. Sabe que ele é nosso desafeiçoado e não perde as ocasiões de nos deprimir.
Rolinha, eu acho bom você ir falar com Ada. O senhor acalme-se. Afinal, em tudo isso pode haver um pouco de confusão. Há intrigas que ferem, que matam. E afinal, o que são? Mentiras.
Rola sentir o sangue transformar-se em gelo, quando ao bater na porta do quarto da filha a porta cedeu. Dentro não havia luz, mas a janelinha aberta para o terreno inculto da vizinha deixava entrar a claridade tenuíssima de fora. Ada não estava lá. E como não tivesse saído pela porta que dava para a saleta de costura,
Era lógico que tivesse saltado pela janela sobre a galharia das pitangueiras anãs e dos cactos espinhentos. Rola correu à janela, com um pressentimento horrível, e quis gritar pelo nome da filha. Mas a voz prendeu-se-lhe na garganta. Olhou, só viu a escuridão.
Cantavam grilos nos ervaçais e estrelinhas luziam longe, no céu profundo. Voltou para dentro, tateou com as mãos trêmulas as roupas da cama e os vestidos pendurados no cabide, embaixo de uma coxa de ramalhões azuis. Nem junto da parede, nem em cima do colchão encontrou Ada.
Com a mão a tremer-lhe cada vez mais, riscou um fósforo e acendeu a vela do castiçal em cima da mesa. E logo seus olhos viram uma folha de papel ao maço em que Ada traçara no seu cursivo regular. Mamãe, perdoe-me e diga ao Rui que eu não era digna dele.
Não me negue a sua bênção quando eu vier bater a sua porta. Sigo meu destino. Ada. Rolinha apertou as mãos na boca para não gritar. Os cabelos eriçaram-lhe. Arregalou os olhos para o espaço silencioso. Mas logo, vibrando de desespero, voltou espavorida à sala.
Sacudindo no ar o papel escrito pela filha. Era preciso correr, alcançá-la, trazê-la de volta para casa. Ela ia iludida. Era uma criança. Tivessem pena, perdoassem. Mas onde ia buscá-la, senhor? Rui arrebatou-lhe o papel das mãos. Leu e tornou a lê-lo.
sem compreender uma palavra. De tal modo as letras dançavam diante dos seus olhos, que era aquilo. Que quereria dizer aquilo? Foi preciso que Dona Ricarda, impondo silêncio às exclamações de rola, que se debatia pela casa revistando os cantos, ainda duvidosa da verdade, explicasse ao moço. O que o senhor não quer entender é isto.
Ada fugiu com o Eduardinho. A sua dignidade saberá aconselhá-lo melhor do que eu. Só lhe digo que seu pai é um homem forte, sabe fazer as coisas. Console-se com a ideia de que, a crer no que ele disse à Rola, o seu casamento com Ada era impossível. Chegou a hora de dizer as verdades.
Rui tornou-se lívido. Os joelhos vergaram-se-lhe e deixou-se cair inerte numa cadeira. Já Rola, completamente desiludida de encontrar a filha, corria para a rua. Quando ainda Dona Ricarda agarrou pelos ombros fortemente. Fique aqui. Quanto menos barulho, melhor.
Eu vou à delegacia. Há só um mal para que não há remédio. Há morte. Tratemos agora de casá-los. E não aumente o escândalo com seus alaridos. Acostumada sempre a ser dirigida pela amiga, Rola não reagiu e entrou para a casa lavada em lágrimas. Confessava não ter cabeça para nada e só ter um desejo.
O de se atirar ao mar, das pedras da igrejinha. Deparando com Rui, ela estremeceu e os olhos secaram-se-lhe como por encanto. Acudia-lhe energia para defender a filha. Dona Ricarda atirara uma mantilha expressa sobre os cabelos brancos e partira. Eles estavam agora sozinhos em face um do outro. Perdoe, Rui. Ada é uma criança.
Ela há de arrepender-se. Será tarde. Bem me adivinhava o coração que vocês não poderiam ser felizes. Fui cego. Não. Você conhecia-lhe os defeitos. Não os perdoava até. A natureza tem muita força. O amor tem mais. Acredite que ela o amava a você mais do que o Eduardinho.
Os lábios de Rui franziram-se num sorriso. E ele disse com profunda ironia. Ela deu agora uma prova disso. Se você soubesse, meu filho, se você soubesse. Mas em Rui a própria curiosidade parecia morta. O seu orgulho de homem, sacudido por aquele formidável golpe, não fazia pensar senão em si.
Tinha vergonha. Deu um passo para a porta. Rolagarrou-lhe as mãos. Escute, é preciso que você saiba de tudo para poder perdoar. Não ouviu ainda agora Dona Ricarda dizer que chegou a hora das verdades? Ele voltou para ela um rosto estúpido, como de um bêbado. Ela continuou, segurando com as mãos agitadas a sua mão gelada e inerte.
Sabe o que o seu pai me disse naquela entrevista amaldiçoada? Que você e Ada são irmãos. Irmãos? Ouviu? Rui abriu a boca num espanto mudo. Rola continuou. Fazendo rolar as palavras umas sobre as outras, como pedras que se despenhassem fragorosamente das alturas. Era mentira dele.
Era um embuste. Mas eu contei tudo em casa. Contei tudo aqui, nesta sala. Ada ouviu, com certeza acreditou. Como eu tinha acreditado, pobre da minha filha. Ah, eu estou vendo nos seus olhos que você não acredita nas minhas palavras. Pois corra à casa do seu pai. Pergunte-lhe se estou mentindo. Pergunte-lhe em nome de sua mãe, pergunte-lhe. Rola.
Não estou caluniando ninguém, é verdade. Eu nunca diria se não tivesse de defender uma infeliz. Vá, Rui, o seu lugar agora é para sempre longe do meu, acabou-se tudo. Mas em vez de sair, Rui puxou-a para perto da luz e obrigou-a a repetir as palavras do coronel. Sílaba por sílaba. Temia estar ouvindo mal, ser vítima de uma alucinação.
Não havia fim para aquela narração dolorosa que ele interrompia para fazer recomeçar a cada instante. Rola já não tinha forças. Deixara cair os braços e a cabeça sobre a mesa de costura quando Dona Ricarda voltou. A polícia, desconfiada de um automóvel que estivera parado muito tempo rente ao terreno do lado e partira como um raio em direção da cidade, levando a mais uma mulher de véu branco.
Tinha dado todas as providências para capturar os fugitivos. Rui perguntou. Para quê? Ela ama-o. Ele fará dela o que quiser. Quando às onze horas ele saiu para a rua, Rola debruçou-se na janela com medo de o ver partir sozinho naquela escuridão. De que lhe servia amar tantos outros, se não sabia fazer a felicidade de ninguém?
Como se queixasse em voz alta, Dona Ricarda explicou. A bondade excessiva, que perdoa tudo, que não corrige nada, é às vezes mais prejudicial do que útil. Eu bem o disse mais de uma vez. A noite foi de vigília. As duas mulheres não se deitaram, caladas e tristes, como se estivessem velando um morto.
No dia seguinte, mal só rompera, Pedro Muldo apareceu-lhes na porta com uma carta. Rola precipitou-se supondo ir ler notícias de Ada. Mas a carta tinha outra procedência e dizia apenas uma letra firme e seca. Meu pai acaba de negar-me tudo. Rui.
Leia, dona Ricarda, leia! exclamou Rola desesperada. Rui acredita mais no pai do que em mim. Ah, o hipócrita! Devia ter previsto. Rouba-me tudo de uma vez. Dona Ricarda leu e releu a frase em silêncio. E depois disse muito séria. Afinal, quer que eu lhe fale com franqueza? Para a felicidade dele, é melhor assim.
Sempre é seu pai. Deixe lá.