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Cruel Amor - Júlia Lopes de Almeida - cap. 18

02 de maio de 202626min
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Hoje convido você a mergulhar em mais uma obra sensível e envolvente de Júlia Lopes de Almeida, Cruel Amor, publicado em 1908.

Julia nos conduz por uma narrativa marcada por sentimentos intensos, conflitos emocionais e pelas complexidades das relações humanas. Com sua escrita refinada e olhar atento, constrói personagens que revelam as fragilidades, os desejos

e tensões presentes na sociedade brasileira do início do século XX.

Ambientada em um período de transformações sociais e culturais, a obra reflete especialmente a condição feminina, tema recorrente na produção da autora. Em Cruel Amor, os afetos se entrelaçam com as convenções sociais, e o amor surge, muitas vezes, marcado por renúncias, expectativas e silenciosas dores.

Com sensibilidade e elegância, esta narrativa convida o ouvinte a uma experiência íntima e reflexiva, que permanece atual e tocante.

Acomode-se, coloque os fones e deixe-se envolver por Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, aqui no Audiolivros da Aninha.

Boa audição! 🎧📚

Participantes neste episódio1
A

Aninha Barros

NarradorNarradora
Assuntos1
  • Condições dos pescadoresMudanças sociais · Conflitos entre ricos e pobres
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Cruel Amor de Júlia Lopes de Almeida, narração de Aninha Barros Capítulo 18 Tinha rompido um janeiro aguacento. Os pescadores aborrecidos e sem vintém maldiziam da sorte.

Se havia uma estiada, aproveitavam-na logo, num assodamento. Mas a maior parte dos dias as chuvas eram continuadas e tão fortes que lhes não permitiam o lançamento de uma simples tarrafa. De mais a mais, o diabo da gente rica ia invadindo a praia, transformando as antigas e pobres habitações em casas confortáveis.

empurrando para longe da orla do mar os pobres, que do mar viviam e careciam a todo instante de estar junto dele. Os felizados eram João Cervo, Luí Lino, que tinham sabido bem guardar o seu ninho no sopé da igrejinha, ali mesmo de sentinela às canoas, mais seu clarindo da camponesa e o vigia da arrecadação.

Os mais viviam espalhados aqui e acolá, longe da música embaladora das ondas e a vista dourada do oceano sem fim. Para não morrerem de aborrecimento nos seus quartos, os pescadores reuniam-se às vezes para jogar a bisca no telheiro da arrecadação ou na toca de um outro pescador já meio aposentado do trabalho. O tenente do leme.

Nessa casa, oculta por dois rochedos que lhe faziam uma espécie de pórtico, havia logo à entrada uma grande sala tosca, sem assoalho, onde os homens se reuniam para jogar ou para o fabrico de redes e mais utensílios de pesca.

Da gente da Guanabara, só o Rubião frequentava esse piscador. Seu conterrâneo e também como ele, grande conhecedor de todo esse litoral, que era fechar os olhos e ver inteirinho, como seus brandos recortes e as suas linhas estiradas e brancas, que pareciam não terem fim. O tenente, muito gabarola, desafiava o outro, asseverando conhecer mais praias do que ninguém.

Rompia assim o tiroteio das afirmações e negações, que duravam horas. Se o Rubião dissesse que as melhores ostras eram as criadas no pau do mangue, branco ou vermelho, em águas de mar sossegado, logo o outro pulava, dizendo que não. Que tal julgamento era de quem não tinha paladar, ou não entendia das coisas. As melhores ostras eram as criadas nos recôncavos. Obrigado.

em pedregulhos e rochedos. Se era o tenente que elogiava o sabor dos camarões grandes, de águas claras, o rubião ria-se da ignorância, asseverando que o gosto do camarãozinho do cisco de água baixa era o mais acentuado.

Ele queria ter de contos de réis, como de vezes tinha pescado de uns e de outros camarões com a rede caicai, ou de noite escura, com archotes que punham na água manchas trêmulas, cor de sangue. O tenente contrapunha aquelas pescas banais e sem perigo as que ele fizer as cavalas, não de arrastão, como os pescadores medrosos de Copacabana fazem, mas de currículo.

Depois de ter deitado na canoa para a água, a corte liçada de anzóis com as competentes iscas, aquilo é que era remar. Seu Rubião deslizando na onda como um socó pelos ares, ora, ora, como se o Rubião não tivesse conhecimento de pescaria de currículo. Ele que até já ajudara a arpoar a baleia na baía, poderia alguém ter mais sabedoria?

Mais coragem do que ele é que não. Bastava dizer que desde pequenote sabia apanhar a braço o povo, virando-lhe a carapuça com tamanha destreza que o bicho não lhe escapara nem da primeira vez.

Aquilo era pôr o joelho em terra, enfiar o braço pelas fendas das pedras, deixar o ladrão do povo agarrar-se-lhe à carne e, logo, numa volta hábito inesperada, torcer-lhe o corpo para que a posição da carapuça invertida o cegasse. O animal afrouxava, vencido.

Se o tenente afirmava que quem quisesse ver belas conchas fosse a cabo frio, o Rubião negava a informação, dizendo que esse alguém deveria ir de preferência à linda lagoa de Araruama. De vez em quando, porém, por fadiga ou por entusiasmo, concordavam em como não havia em todo o Brasil pescado delicioso como o de uma certa praia.

nem mar tão belo como o do seu arraial. Estavam também de acordo em que a arte dos pescadores de Copacabana era limitada e que eles eram tímidos.

O largo mar batido não lhes permitia todos os recursos dos outros pescadores do interior da Bahia. João Cérvolo mesmo, que era o sabichão do lugar, talvez não soubesse fazer num remanso um curral bem feito de esteira de pindoba e corda de embé. Como esses que a gente de Septiba arranja para apanhar corvinas.

Se voltavam a contradizer-se, o recurso esmagador do Rubião era apelar para a conferência do seu passado, que tinha ele sido desde que se conhecia mundo. Pescador, só pescador. Não aconteceram mesmo ao outro que estivera anos no exército, de que ele adviera o título de tenente, quando em boa verdade nunca tinha passado de soldado raso.

O certo é que tinham vindo ambos, de praia em praia, do norte ao sul, parando aqui, parando ali, em pousadas, sob teleiros ou choças de sapé, ajudando uns, ajudando outros, contentando-se com um pedaço de peixe, meia cuia de farinha durante o dia e uns arpejos de violão à noite, com modas inventadas ou repetidas.

Para chegar à casa do tenente era preciso transpor areais em que os pés se afundavam. Ali se reuniam na grande sala térrea, onde havia por única mobília dois bancos compridos de pau ladeando uma mesa de pinho, coberta por novelos de linha hamburguesa, lançadeiras de pau, chumbos de rastão, cartas de jogar e um tinteiro quebrado com borra de tinta seca no fundo.

Embora essa habitação fosse longe, no sopé da montanha, o Rubião ia de Copacabana até lá num fôlego. Às vezes, encontrava no caminho a mãe de Flaviano. De andar mole, cachimbo na boca, chale nos ombros, a chuva ou ao sol, sem resguardo na sua filosofia de preta velha.

Ela ia quase sempre para o mesmo destino, a palestra em casa do tenente, de cuja mulher era amiga. Ali chegada, com as roupas empapadas, reacendi o cachimbo meio apagado. Agachava-se com a outra, igualmente feia e suja, a um canto, ou ficava em longos silêncios cortados apenas pelas chupadelas saliventas no tubo do cachimbo.

ou em frases curtas, informando a mulher do tenente do que se passava lá fora. Às vezes, Rubião prestava o ouvido e pasmava. Como podia aquela mulher, de cuja convivência tão pouco se gabavam, saber tanta coisa? Os seus olhos, de glóbulos compactos como a clara do ovo cozido, viam através das paredes, conheciam minúcias no interior de certas casas.

Tal homem, engravatado, especulava com a mulher, mantendo o luxo à custa dela. Tal outro recolhia-se nas jogatinas tantas da madrugada. Essa senhora escrevia cartas anônimas, intrigando os vizinhos. Aquela outra senhora consumia os ordenados dos empregados e o dinheiro das compras diárias em bilhetes de loteria.

E ainda a outra saía diariamente para Sabe Deus Onde, deixando as crianças sem vigilância e a casa a amatroca. Um certo coronel espiava os passos do filho através dos escritos que lhe ia remexer na gaveta.

Esse era um homem miudinho, calado, que não se esquecia de assentar todas as manhãs as despesas da quitanda e da venda e de contar os ovos que tirava do armário para dar à cozinheira. A verdade é que tudo andava limpo em sua casa. Ele passava as mãos sobre as colchas, a ver se os lençóis não teriam rugas e ia à cozinha cheirar as panelas.

A sua mania era caminhar no corredor horas consecutivas, para trás e para diante, como um maluco sério. E indagada a criada, quem seria o pai de uma mocinha costureira, que andava a tentar-lhe o filho? A mulher do tenente abriu os ouvidos com a avidez de quem vivia como caracol, sempre em casa, longe do bulício e das comoções da vida.

Essa era uma mulher magra, desgrinhada, em cujo corpo várias raças pareciam debater-se. O marido tinha a presa ao seu lado, fazendo-a compartilhar de vez em quando a guisa de consolação de um cálice de Paraty.

A mãe do Flaviano conhecia a vida alheia por palestras nas esquinas ou na soleira da sua porta com as parceiras, criadas de servir que extravasavam nela as suas confidências e as suas queixas, mistura com os rídicos e as fraquezas dos patrões. De si raramente falava. Mas um dia em que, por mais empapada de chuva, a amiga lhe fez beber mais de um copo, para assinar o seu King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King King

Ela expandiu-se numa lamúria. O filho queria se casar com a peste de uma songamonga que figia de branca e haveria de mais tarde pôr-lhe o pé no cangote. O bobo estava pelo beiço, mas enquanto ela vivesse, tal casamento não se realizaria. Eles tudo pensavam que ela era rica.

que das suas quitandas tinham ficado moedas de toda qualidade. E fora por isso que a mãe da tal Maria Adelaide, de má sorte, atiçara a paixão do Flaviano. Ela, quanto a isso, só achava graça. Teria que rir no fim. A mocinha, se não se casasse com outro, ficaria solteira toda a vida.

Flaviano não ganhava nada e tinha gênio desperdiçador. Ela mesma alimentava a indolência do filho, com o sentido de prolongar aquela situação. Depois, quando não tivesse outro recurso, teria ido da feitiçaria. Não queria saber de noras que se pusessem nas suas tamanquinhas e se julgassem mais e melhor do que ela.

O que tem de ser tem muita força, comentava a outra. Ao que a negra redarguia. Certo, só a morte. E que dava-se agachada no seu canto, com os olhos fixos numa ideia e os grossos beiços franzidos no cachimbo fétido. No centro da sala, o tenente saltava, batendo um murro na mesa. Que? As ostras de santo serem as melhores?

É porque o Rubião não conhecia as de Santa Catarina, de um sabor amar acentuadíssimo e de uma frescura que pareciam sair de água gelada. As de Santos talvez não houvesse no mundo outras tão grandes, esse tamanho imenso, afirmara-lhe um capitão de navio costeiro, homem entendido dessas coisas. Era devido a uma doença que atacava os moluscos como a hidropsia ataca os homens.

Rubião achou graça naquela doença, que não poupava uma única ostra e as tornava tão saborosas.

E saiba você, afirmava o tenente, que em toda a costa do Brasil não há ostreiras como na Europa, porque nós não sabemos apreciar o que é bom. Outra gargalhada do Rubião. Homem, você já esteve na Europa? Não. Mas esse mesmo sujeito que me contou da tal doença das lustras de Santos foi que me disse isso.

Que necessidade tinha ele de mentir? É brasileiro como nós. Basófias. Se eu fosse acreditar no que os outros dizem, haveria de imaginar que o gosto do bagre gordo é bem preparado, tal e qual como o do bacalhau. E é? Fique você sabendo que é. Qual nada? João Batista inventou essa caraminhola e você acreditou. Ué?

Pois então, Cis, eu nunca comi bagre e nunca vi bacalhau. O Bion torceu-se de riso e depois. É como a história da corvina chorar alto que nem criança. Oh, desgraçado, pois você nunca ouviu corvina encurralada chorar? Então não é pescador. E tanto chora a corvina que os pescadores, quando elas entram no curral, não as pescam todas. Deixam sempre algumas para atraírem outras com o seu alarido.

O charé ouve, a tainha tem faro, a corvina chora. É o que eu lhe digo. Bem pensado, não há nada que não sinta nesse mundo. Direitamente, nem a gente deveria pescar tainhas nem corvinas, quando vem nas mantas para desovar na beira dos rios ou dos mangás. E é aí que o pescador se assanha. Veja quanto pescado se perde em cada ova dessas tainhas de junho.

Se nós não pescássemos, se não caçacas, estávamos bem servidos com o mercado. Às vezes, mais internecidos por um golinho de Paraty, devaneavam. Ah, quem conhecesse palma a palma todo esse litoral, onde há praias que dividem com uma só linha branca a terra do mar.

e outras que circundam rochedos e montanhas, mudando de cor e de feitio em cada sinuosidade. O rubião tinha refletido nas retinas o verde claro das ondas em que se banharem pequeno.

achava enegrecido, turvo o mar do sul. E falando do mar, lamentavam ambos a gente serrana, a triste gente do interior, que vive com a alma abafada na mataria escura, sem aquela grande e luminosa liberdade das águas movediças. As aventuras da pesca entretinham os largas horas, esquecidos do baralho da bisca e da monotonia da chuva.

E a conversa, começada em contradições e querelas, morri heroicamente no meio de descrições de valentias. Rubião contava o modo trágico porque, tendo se virado uma canoa no mar, ele matara um dia a faca dois formidáveis tubarões, ao que outro anotava sardônico. A vela de ser jamantas.

Por si tinha proezas de outra qualidade, as caçadas aos jacarés nos igarapés do Amazonas. Apesar de lhe subir o sangue à cabeça quando questionava, o Rubião, ao sair da casa do amigo, sentia a alma aliviada. Como se tivesse voltado de uma viagem às paragens onde vivera na sua mocidade.

Na arrecadação em Copacabana, as conversas eram outras. As mulheres intervinham. Fortunata embarafustava com opiniões e risadas sobre isso ou sobre aquilo. E a Hortência, com a magia de sua voz, interrompia a zanga dos homens, que instintivamente paravam de falar para ouvi-la. O diabinho da moça modos que tem uma sereia na garganta, dizia o Rubião.

Acrescentando que, se ele fosse solteiro e tivesse menos uns 10 anos, seria aquela doce mulherzinha que ele escolheria para a companheira de toda a sua vida, porque ela curava melhor os desgostos dos outros do que a raiz do mangue vermelho cura os ataques da asma. E olhassem que não havia remédio para asma comparável à raiz no mangue.

Assim, em ósseos e conversas, se passou a primeira quinzena de janeiro. Ainda ela não estava bem extinta quando houve uns dias de estiada. Pela escala, cabia a primeira pescaria canoa cruzeiro. Mas o pessoal das outras, saudoso do trabalho e do bom tempo, reuniu-se de manhã cedo na praia para ver o lanço e apreciar as manobras dos colegas.

O céu cor de pérola rosada tinha uma claridade fosca. As águas acinzentadas, golpeadas de cortes verdes, estendiam-se chatamente na areia pálida. Vinha de terra, das matas, das montanhas.

Já com uma débil música delicada, achureada-se-se antes das cigarras. Voltava o calor de dezembro, que a chuva tinha interrompido. As águas sujas pelas enxurradas tornariam os peixes mais confiantes, favorecendo as pescarias. Atraído pelo bom tempo, Rui tinha feito madrugada, observava o movimento da praia. Encostado à quilha da camponesa.

Ao vê-lo, Fortunata não conteve uma exclamação achando o cor de sidra. Ele explicou, era cansaço dos estudos. Aproximava-se o dia dos exames e depois procurando rodeios, indagou se Ada e Rola tinham aparecido por ali. Fortunata cortou logo o embaraço com decisão. Ada fugia da gente pobre como de leprosos.

Só vinha a praia para o banho. Suas preferências estavam todas voltadas para os lados do Ipanema, com as famílias que roneavam cedas, dos senadores e dos doutores. Agora, meu amiguinho, eram passeios de automóvel, chapéus de flores, até luvas. Rola matava-se em cima da agulha para a soberba da filha, olhados da sua igualha por cima do ombro.

Gostava mesmo de ter ocasião de dizer essas coisas ao Rui, porque não era falsa e desejava que soubessem todas as suas opiniões. Se ela fosse o Rui, mudava de ideias. Mas os homens são tolos e correm para o perigo. Ele que desculpasse, mas estava morta por dizer aquilo, custasse o que custasse. Já lhe constara que o coronel tivera uma entrevista com a Rolinha em casa do senador.

Para quê? Seria isso verdade? Rui encolheu os ombros. Fortunata deixou entrever que já se murmurava da assiduidade do Eduardinho na casa do avô, onde outrora só vinha de longe em longe, e dos seus passeios com a tia silenciosa e a da faceira.

Quem bem me avisa, meu amigo é, concluiu ela resolutamente. Rui defendeu Ada das antipatias da outra. A boca do mundo é perversa. Não acreditasse em metade do que se dizia.

Achava natural que Eduardinho rodeasse a moça de cortesias, mas essas cortesias cairiam no chão. Estava tão certo do amor de Ada como de estar ali em pé na praia. Ele dizia tais coisas com uma voz diferente da acostumada, em um timbre falso. A verdade é que a sua última carta, tão apaixonada e tão longa, ficará largos dias sem resposta.

para só vir na véspera um bilhete, numa caligrafia apressada e num sentido obscuro. Supondo que ela aproveitasse a manhã bonançosa para o banho, ele viera até a praia na esperança de vê-la. E, em vez disso, a Fortunata desenganava-o daquele modo. — Escute — continuava a mulata. Rola proibiu a filha a vinda à praia, só por causa do Eduardinho, que se meter a ensiná-la a nadar.

Não falava por ter visto, mas por ter ouvido dizer. Olhasse. Ali estava quem assistir a tudo. Rui olhou. Pedro mudo, com seu balaio enfiado no braço.

As calças de algodão arregaçadas, o chapéu de palha de coco desabado sobre as orelhas enormes, passava a caminho das pedras da igrejinha. Atrás dele carregando uma tarrafe, dois caniços e o bié, crescido, magrinho, com ar triste. De que serviria ao ruio o testemunho daquele homem?

Deixou-o passar sem fazer um gesto, mas foi o acompanhando com a vista. Como quisesse ler-lhe através do corpo no coração. Bia está magrinho, comentou Fortunata. É o crescimento. Está ali, está um homem.

Como as crianças mudam em poucos meses? A cabritinha da Anitta já está ganhando a vida na cidade. Ru interrogou a mulata com espanto. Ela respondeu. Está de copeira em casa de uma modista. Imagine que de louça há de quebrar. Tão criança, coitadinha. Pobre não tem idade, é assim mesmo. A mãe teve razão. Anitta só podia aprender maldades quando andava solta por aí.

São capazes de bater-lhe. Ah, por força. Quem dá o pão dá o ensino. A mãe recomendou isso mesmo ao modista. Os olhos de rua encheram-se de água. Pobres gaivotinhas da praia. Bem cedo a vida lhes cortava as asas. E seria para sempre. Para sempre.

Ao redor dele, na amplidão dos céus, das areias e das águas sem fim, tudo parecia criado para a liberdade. Com o rosto vincado por sucos de tristeza, o estudante comparava esse imenso quadro cheio de luz, onde a pequenita trêfega costumava mover-se, como no seu elemento,

com a estreita cozinha onde ela estaria agora apertada, entre panelas engorduradas, esfregões sujos e paredes cobertas de fumo. Que saudades teriam os doces olhinhos da Anitta, criada solta com os bentivis, quando da janelinha do seu presídio, sobre os telhados da casaria velha, procurassem traçar, no espaço limitado da sua nesga de céu, o caminho daqueles morros e daquelas areias tão amadas.

A sua simpatia corria ao encontro daquela ansiedade. Só se entendem as almas que sofrem. Mas a dele era de homem, já com envergadura para a luta. A da outra, coitadinha, não saberia ainda se não chorar. A conquista do dinheiro nunca se lhe afigurou tão brutal. A pequena ia trabalhar como uma besta.

sob a chuva de pancadas e de repelões. Conheci essa história. A negregada, a exploração da criança. Afinal, para que tão duro sacrifício, se ela nem tinha noção do valor do dinheiro, e tanto pior se a tivesse, porque ele tão cedo não lhe cairia nas mãos.

Era doloroso pensar que também para essa pobre criaturinha, selvagem, inocente, a vida já fosse um duro esforço. Oh, quem pudesse esbofetear essa justiça impassível que preside a tão vários destinos sem se inclinar para os mais fracos e os mais infelizes?

Que idade tem Anitta? Dez anos. Uma bela idade, não é verdade, Fortunata? Para se brincar com bonecas e aprender a ler. Se todos nascessem para a mesma coisa, objetou a mulata. Seríamos todos irmãos, concluiu Rui. A outra riu-se do disparate. Ele olhou melancolicamente para as ondas que se desmanchavam em espumas.

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