Episódios de Terapia em Dia com Guilherme Biotto

#30 - Impactos das Bets

29 de junho de 202656min
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Por que tantas pessoas estão perdendo tempo, dinheiro e saúde mental com as bets?A resposta não está no aplicativo, está no cérebro. E, principalmente, na dor emocional que cada pessoa carrega.

Neste episódio, exploramos o impacto psicológico das apostas e dos estímulos constantes que tomaram conta das redes sociais. Falamos sobre dopamina, impulsividade, ansiedade, reforço intermitente, trauma, vergonha e a busca por alívio rápido que leva tanta gente a perder o controle.

Este não é um episódio sobre apostas.É um episódio sobre saúde mental, regulação emocional, comportamento humano e como a terapia pode ajudar quem se sente preso nesse ciclo.

Um mergulho profundo, humano e necessário sobre o que as bets revelam sobre nós, e como recuperar autonomia emocional em meio a tantos estímulos.

Participantes neste episódio1
G

Guilherme Biotto

Host
Assuntos6
  • Vício em apostasDopamina e sistema de recompensa · Reforço intermitente · Ilusão de controle · A banca nunca perde
  • Tratamentos e TerapiasRegulação emocional · Identificação de gatilhos · Reconstrução da autoestima · Manejo da impulsividade · Psicoeducação sobre dopamina · Estratégias de prevenção de recaída
  • Superação da instabilidade emocionalEstresse financeiro crônico · Falta de perspectiva · Cultura do talvez agora vai · Baixa educação emocional
  • Perfis comportamentaisTensão · Impulso · Ação · Alívio imediato · Culpa · Promessa de parar · Recaída
  • Dopamina e o CérebroMotivação e expectativa · Arma biológica · Likes, comentários e seguidores
  • Comparativo com outras propagandasPropaganda de cigarro · Propaganda de bebida alcoólica · Propaganda de brinquedo · Apologia a drogas ilícitas
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GBGuilherme Biotto

Sejam todos muito bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast. E hoje eu resolvi trazer um tema que tomou conta das redes sociais nos últimos dias e acendeu discussões importantíssimas, além de levantar preocupação em muita gente, que é o impacto psicológico das bets. Cada vez mais elas vêm sendo jogadas na nossa cara em forma de propaganda constante, o que nos leva a pensar que elas não apenas causam impacto financeiro, mas também social, emocional, comportamental e, claro, mental.

Antes da gente prosseguir, já me segue nas redes sociais, @guilhermebioto, e também no nosso blog lá no meu site, www.guilhermebioto.com.br. Você encontra lá no menu o link para acessar o blog Terapia em Dia. Eu quero deixar bem claro desde o começo Esse episódio não é sobre apostas, é sobre o que apostas fazem com a mente humana. Porque no fundo, a pergunta que realmente importa não é por que as bets existem, mas sim por que cada vez mais pessoas estão vulneráveis a elas.

Por que tantas pessoas se sentem atraídas por esse tipo de estímulo. E por que tantas pessoas perdem o controle? A resposta envolve diversos fatores: estímulos agressivos, funcionamento cerebral e, principalmente, a dor emocional que cada pessoa carrega. Então, é com esse tema, o impacto psicológico das bets, que hoje a gente vai colocar juntos a Terapia em Dia. E para entender por que as bets se tornaram um fenômeno tão grande, é preciso entender o que elas fazem com o cérebro.

Aqui a gente já precisa falar sobre neurociência, e é onde entra um conceito fundamental: a dopamina. A dopamina é um neurotransmissor associado à motivação. A recompensa e a expectativa. É o hormônio responsável pela motivação do querer, do buscar e do tentar de novo. Então, a liberação de dopamina vem sendo utilizada praticamente como uma arma biológica contra nós mesmos. Eu digo isso porque cada vez mais é possível perceber que as grandes empresas, especialmente do ramo de tecnologia, e claro as casas de aposta, tigrinhos e afins, têm se aproveitado desse sistema para fazer com que as pessoas de todo mundo ajam segundo as vontades e interesses de quem já está com os bolsos cheios de dinheiro e continuem enchendo cada vez mais, claro.

Toda vez que o seu cérebro recebe um estímulo recompensatório, ele quer mais. Por isso, as grandes gigantes, né, da tecnologia se aproveitam dessa brecha para diariamente projetar na sua cabeça, através de likes, comentários, seguidores, funcionalidades novas, né, que cada vez mais aparece alguma coisa nova por aí, etc., que você precisa passar mais tempo conectado, mais tempo nas redes sociais, mais tempo utilizando as ferramentas que eles querem que você use.

E no caso das casas de aposta, mais tempo jogando. Dessa forma, eles vão instalando silenciosamente um padrão na vida de bilhões de seres humanos de que o pertencimento é digital, que você precisa de mais e mais e mais. E se você acha que isso é exagero da minha parte, pois fique sabendo que no dia 25 de março deste ano de 2026, um júri de Los Angeles, nos Estados Unidos, condenou as empresas Google e Meta por contribuírem para uma crise de saúde mental entre jovens e adolescentes por meio das plataformas Instagram e YouTube.

A Meta foi condenada a pagar 4,2 milhões de dólares em indenização, o que equivale mais ou menos a R$22 milhões. O Google foi condenado a pagar uma indenização de cerca de 1,8 milhões de dólares, equivalente a R$9,4 milhões. E sabe como foi que eles fizeram para gerar esse impacto negativo todo? Exatamente, se aproveitando dos gatilhos dopaminérgicos. E as bets foram construídas para ativar exatamente esse mesmo sistema de recompensa.

Eles usam um sistema chamado de reforço intermitente, o mesmo mecanismo usado em cassinos, máquinas caça-níqueis e nas redes sociais também. É quando a recompensa não vem sempre, mas ela vem Às vezes, e de forma imprevisível, como por exemplo um like, um comentário, uma viralizada inesperada. De repente você abre suas redes sociais e percebe que viralizou um conteúdo seu e ganhou 5 minutos de fama. Esse tipo de reforço é o mais viciante que existe.

O cérebro fica na expectativa: talvez agora vai, talvez agora aconteça, dessa vez vai dar certo, eu tava quase lá, então agora vai dar certo, eu só preciso tentar mais uma vez. Vez. E esse mais uma vez acaba se tornando infinito. É por isso que a gente vê cada vez mais pessoas querendo ganhar 5 minutos de fama na internet por meio de conteúdos rasos, repetitivos, copiando uns aos outros e se moldando para encaixar no famoso algoritmo.

E mais ainda, pessoas que estão perdendo tudo Literalmente tudo para casas de aposta. Além disso, as bets criam a ilusão de controle. A pessoa sente que tá tomando decisões, escolhendo, analisando, calculando, mas na prática o sistema é desenvolvido para ser imprevisível. E uma coisa que precisa ficar claro para todo mundo que aposta, todo apostador precisa ter essa frase bem gravada na mente, para todo mundo que considere iniciar qualquer tipo de jogo de aposta, grave bem essas minhas palavras: a banca nunca perde, a casa nunca perde, quem perde é o apostador.

Essa combinação reforço intermitente mais ilusão de controle mais dopamina é explosiva e destrutiva e tá acabando com a vida de milhares de pessoas. E é por isso que frases utilizadas para justificar o excesso de propaganda de bets, como por exemplo: ah, mas joga quem quer. Ou aquela tentativa falha, fracassada e patética de tentar amenizar o estrago com: jogue com responsabilidade. Depois de incitar a apostar o seu dinheiro, não faz o menor sentido.

Os estímulos utilizados para fazer com que você mergulhe de cabeça nesse universo são extremamente agressivos. São apelativos sob máscara de um lucro fácil, e uma vez que conseguem encontrar uma brecha para que o usuário dê o passo inicial, o sistema todo começa a se instalar como um vírus, um vírus altamente destrutivo que primeiro vai aprisionar o usuário em um looping que ele próprio sequer se dá conta de estar preso. O cérebro vai querer mais, mais, mais e mais.

Quando um apresentador vem a público em meio de uma transmissão para milhares, milhões talvez de pessoas, e fica estimulando o uso de bets com promessas fáceis, ganhos fáceis, com um cupom de desconto para quem se cadastrar e fizer as primeiras apostas, ele já sabe aonde ele tá te empurrando. Ele já sabe que pode ser um caminho sem volta para você. Ele não é ingênuo, e digo mais, ele já ganhou muito dinheiro para fazer isso, e esse dinheiro veio de apostadores que perderam.

Elas são destrutivas e causam impactos que podem ser irreversíveis, tanto em danos materiais como em danos ao cérebro, gerando compulsão e vício. Então imagina que bizarro seria se em rede nacional um apresentador fizesse apologia a todos os tipos de drogas ilícitas incentivando o uso dessas substâncias altamente viciosas, oferecendo desconto aos usuários de primeira viagem, e no final da propaganda soltasse uma ilustre frase: use com moderação.

Do ponto de vista da ativação do sistema de recompensa cerebral, a gente tá falando de cenários que estão caminhando ali lado a lado. Então, se justificar depois de uma enxurrada de críticas com: ah, Mas fazer o quê, né? É o que paga mais. É isso que faz a roda girar. Joga quem quer. É o mesmo que dizer: já recebi meu dinheiro, divulguei, agora o problema é seu, não é mais meu. Problema é de vocês que caem nessa conversa mole e acabam jogando e perdendo dinheiro.

E só para deixar claro, tá? Isso vale para todo e qualquer ser humano, meio de comunicação ou canal de informação que divulga esse tipo de conteúdo. Não é sobre A, B, C, D. Isso não tem nada a ver com preferência, gosto, posicionamento político ou qualquer outra coisa. Estamos falando sobre responsabilidade, sobre divulgação, beleza? Existe uma curiosidade por detrás de tudo isso que me fez pensar bastante, ainda me faz pensar: quem ainda está se beneficiando com tudo isso?

Porque se a gente parar para pensar No ano de 1996, entraram em vigor as primeiras leis proibindo propaganda de cigarro, culminando no ano de 2011 com o banimento total de qualquer tipo de propaganda de cigarro em qualquer meio de comunicação. Em 96 também entraram em vigor algumas leis e regras com restrições à propaganda de bebida alcoólica. Hoje a gente já sabe que o cigarro é proibido inclusive dentro de estabelecimentos fechados.

No ano de 2014, uma resolução do CONANDA, o Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes, proibiu a veiculação de propaganda de brinquedo porque considerou que esse tipo de propaganda é ilegal e abusiva para proteger crianças e jovens que ainda não têm a capacidade de discernir entre propaganda e realidade. Tanto que na época gerou inclusive muita discussão, né? Até hoje se fala muito que, por exemplo, os programas infantojuvenis como tinha muito na época dos anos 90, 2000, já não tem mais na TV aberta porque não tem patrocinador.

Enfim, aí acende uma outra discussão que não vem ao caso. Mas, mas hoje o que a gente mais vê nas telas de celular, computador, TV, especialmente durante transmissão de jogos de futebol e Copa do Mundo? Propaganda de bet, que se não tiver na tela, tá nos painéis em torno do campo do estádio de futebol. E no seu mais alto grau de agressividade, sem que nada seja feito a respeito disso. E as apostas não foram feitas só para afetar apenas quem tem tendência ao vício, elas foram feitas para afetar qualquer cérebro humano.

Esse é um ponto que precisa ser dito com muito cuidado, mas com muita clareza, porque o brasileiro é tão vulnerável a esse tipo de estímulo? O Brasil vive um cenário emocional e social que torna as pessoas extremamente vulneráveis a estímulos de recompensa rápida. Alguns desses fatores podem ser destacados. Vamos lá. Primeiro: estresse financeiro crônico. Grande parte da população vive com insegurança financeira. E insegurança financeira ativa o sistema de ameaça do cérebro.

Quando o cérebro tá em ameaça, ele busca alívio rápido, imediato. Aqui eu preciso abrir um parênteses e dizer que, como profissional autônomo de atendimento ao público, e principalmente como terapeuta, eu percebo o quanto as pessoas têm cada vez menos responsabilidade e educação financeira. Eu vou contar brevemente um relato de um atendimento e só para deixar claro, tá? Esse é só um dos casos. Eu já vi e ouvi situações que se eu contar parece exagero, parece invenção, vozes da minha cabeça, mas vamos lá.

Certa vez estava atendendo uma cliente com tarô e ela me fez uma pergunta sobre o financeiro. Eu expliquei tudo que as cartas tinham de mensagem para ela E só depois ela me contextualizou. Ela falou que ela estava endividada, que aquele mês tinha tido uma queda financeira drástica, o companheiro estava desempregado, mas mesmo assim eles tinham planos e já estavam fazendo movimentações para isso, para comprar uma casa, para comprar um carro, e já tinham assumido mais uma dívida, mais uma responsabilidade financeira.

Sobre uma festa. Olha só que bacana! Na minha cabeça, eu não consigo fazer essa conta fechar em hipótese alguma. Não fecha essa conta na minha cabeça. E esse é só um dos exemplos que eu quero trazer para vocês sobre o quanto as pessoas se penduram no financeiro por decisões erradas, por não ter o mínimo de planejamento financeiro. O brasileiro tem essa tendência, né, de esperar, viver esperando o próximo feriado prolongado para esticar, para festejar, para viajar, para dar aquele pulinho na praia.

E eu não tô dizendo que você que trabalha não mereça isso, muito pelo contrário, a gente merece sim ter momento de lazer e eu acho muito válido lutar por isso. Inclusive eu vejo o quanto esse assunto também está em alta Principalmente com relação à questão da escala 6x1, 5x2, enfim. E eu sou completamente a favor do brasileiro também ter o seu momento de lazer. Porém, contudo, entretanto, quando a pessoa passa a contar com o ovo antes da galinha botar para pagar uma despesa que não é essencial e que afeta a sua saúde financeira, afeta aquilo que é primordial, as contas básicas, ela não consegue cumprir suas necessidades básicas em benefício de uma coisa supérflua, em benefício de uma escapadinha para ir para praia, de passar o Carnaval num lugar diferente, isso passa a ser não mais sobre merecimento, mas sim sobre prioridades.

Quais são as prioridades dessas pessoas? Com o que de fato elas estão gastando esse dinheiro? Como elas estão administrando o seu recurso financeiro? E a gente pode perceber muito, principalmente através do aumento avassalador de pessoas que estão endividadas com situações ligadas a bets, ou enfim, até com relação a outros tipos de jogos que fazem com que elas percam dinheiro e fiquem com dívidas até o pescoço, de que de fato o brasileiro não sabe administrar o seu dinheiro, não tem nenhum tipo de educação financeira, que falta muito nas nossas escolas.

Mas esse também é um debate para um outro momento, porque senão a gente vai entrar aqui em pautas de políticas públicas, e aí o negócio não vai ter fim nunca. Atualmente, conversando com diversos colegas terapeutas e psicólogos, eu percebo que cada vez menos os cuidados com saúde mental estão sendo priorizados e cada vez mais o superficial e o supérfluo vem ganhando espaço na vida das pessoas. Então, antes de buscar recompensas rápidas, soluções milagrosas para o seu estado financeiro, Pensa se de fato as suas escolhas estão sendo saudáveis, estão sendo racionais e equilibradas.

Não fica esperando, não fica na expectativa de triplicar o seu dinheiro num aplicativo para poder pagar as contas no final do mês. E não cai na ilusão de que fulano ganhou, eu também consigo. Essa pode ser uma das piores armadilhas que levam à ruína de qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade. Lembre-se sempre: a banca nunca perde. O segundo fator é a falta de perspectiva. Quando a pessoa sente que não tem mais oportunidades, que não sente abertura de portas, qualquer promessa de ganho rápido se torna emocionalmente sedutora.

Toda vez que você sente que chegou no fim da linha, no fundo do poço, é onde vem aquela sensação de pior do que tá não fica, e o que vier é lucro, né? Nessa o que vier é lucro que a gente acaba caindo nessas armadilhas, porque nesse caso o lucro não vem, ele só vai, ele vai para o bolso de quem divulga e de quem gerencia. A falta de perspectiva faz parte dessa grande bola de neve que gira em círculo vicioso com várias outras variáveis.

O cenário atual é bastante complexo e obviamente a gente não pode dizer que é o mesmo para todo mundo. A sua realidade é completamente diferente da minha, que é completamente diferente da do seu vizinho. Então não vamos generalizar, certo? Mas de modo mais abrangente, alguns pontos contribuem para que essa perspectiva seja cada vez mais cada vez mais coberta de pessimismo. Um dos pontos principais é justamente o uso excessivo e abusivo de redes sociais e tecnologia.

Hoje em dia é muito mais fácil você pedir para a IA gerar um banner daqueles horrorosos para postar nas redes sociais do que contratar um designer de verdade, por exemplo, que vai fazer o serviço de qualidade. Ah, mas por que que eu vou pagar alguém para fazer se a IA faz de graça para mim? Faz, ela faz de graça e fica horroroso. Vamos falar o português claro, fica uma porcaria. A gente tem visto cada vez mais as redes sociais entupidas desses banners aí, dessas imagens feitas com IA, que acaba ficando chato, saturou, ninguém aguenta mais.

Eu particularmente, quando eu vejo perfis que ficam postando fotos, vídeos, coisas feitas com IA de forma excessiva, sem o menor sem a menor preocupação com a qualidade. Vamos ser bem honestos, que a pessoa que tá postando um negócio desse não tá preocupado com a qualidade. Eu simplesmente vou lá ou deixo de seguir. Se é uma pessoa que de fato, ah não, realmente vai ficar muito chato se eu parar de seguir, eu coloco para não ver mais nada, eu silencio tudo, que eu não quero ficar me alimentando desse tipo de conteúdo.

Eu tô bem cansado de ficar vendo esse tipo de conteúdo, então eu já tiro da minha frente, que é para não ficar me incomodando. E eu não sou contra o uso da IA, eu já falei sobre isso aqui em outro episódio. Eu acho que ela é muito válida, principalmente para auxiliar a fazer revisões, ter ideias, né? De repente você tá com uma dificuldade criativa, ela pode te auxiliar trazendo alguns temas, algumas ideias bacanas que você pode utilizar junto da sua criatividade, mas não usar a IA como uma substituta para tudo.

Então hoje em dia é muito mais fácil pesquisar no Google, pedir para a IA explicar alguma coisa para você, ler só as duas primeiras linhas e sair comentando sobre algum assunto como um verdadeiro pseudo-especialista, né, do que muitas vezes parar, estudar, ler, se aprofundar. Estudar para quê, né? Dá trabalho, tem que ler, tem que se dedicar às vezes 3, 4 anos para ter uma formação. Infelizmente é assim que muitos pensam hoje em dia.

Para que estudar se eu posso ganhar dinheiro monetizando vídeo na internet, fazendo trend? Para que estudar se eu tenho a IA na palma da mão que me responde tudo que eu preciso? E outra questão que vem causando um impacto com poder destrutivo tal qual uma bomba atômica no senso de perspectiva do ser humano é a normalização do que não é normal. Você entra na internet Aí você se depara com um vídeo de, sei lá, uma pessoa de 20 e poucos anos contando como ela fez o primeiro milhão, que ela já comprou uma casa, que ela comprou carro, que ela vai casar, que ela é casada, que ela tem família, filhos, enfim, que ela já fez 500 faculdades, que ela lê 40 livros no mês.

Nada disso é real. Todas essas falsas referências que alguém manifestou o sonho em tempo recorde, que ficou rico de forma fácil, que lê muitos livros, que consegue ir na academia 300 vezes no dia, que faz Pilates, que vai— isso é ilusão, isso é exceção à regra quando acontece de verdade, né? Porque a maioria das vezes é só conversa fiada, é só a história da carochinha, conversa para boi dormir. Porque hoje na internet é muito sobre o parecer ser e não sobre ser.

Desde que você passe uma imagem de acordo com o que você gostaria que os outros acreditem no que você fala, tá tudo bem. Você convencendo as pessoas, muita gente vai cair nessa conversa fiada, muita gente vai cair nessa lábia. Então, quando as pessoas enxergam esses novos padrões, esses, entre aspas, esse novo normal que as pessoas estão criando na internet, passa uma sensação de: minha vida é uma droga, não tenho perspectiva de crescimento nem de alcançar isso que as pessoas estão alcançando na internet.

E quando surge a possibilidade do dinheiro fácil, surge com ela também a falsa esperança do: agora sim, agora eu posso conquistar tudo que eu vejo na internet, que os outros já conquistaram. De repente, com uma aposta eu consigo ganhar um dinheiro, de repente eu vou conquistar minha casa, vou conquistar o carro, vou conquistar aquilo que o outro já conquistou e tá falando sobre isso na internet o tempo todo, que muitas das vezes, como eu já disse, nem existe de fato, tá?

A pessoa inventa um monte de coisa lá e aí as pessoas acabam acreditando. E é justamente nesse momento dessa falsa esperança de agora vai, agora eu consigo você conquistar tudo isso que entra o sistema dopaminérgico. Aí, uma vez que ativou o sistema dopaminérgico, a situação complica um pouco mais. E é onde entra o terceiro fator, que é a cultura do talvez agora vai. O brasileiro é esperançoso por natureza. Sou brasileiro e não desisto nunca é um dos slogans mais usados, né?

Só que nesse caso, vou ser bem sincero, é melhor desistir sim. Desistir de apostar e de perder dinheiro. Esperança, quando misturada com desespero, vira vulnerabilidade, vira ilusão e desengano. E é justamente o depositar todas as fichas num sonho impossível sob uma máscara de esperança que leva muita gente à queda. Sonhar é necessário, claro, né? Sonhar é o ensaio para conquistar. Mas se o sonho é irreal, impossível e com alta probabilidade de se transformar em um pesadelo, ele já se torna fantasia.

E é nessas horas que ter dois pés bem fincados no chão ajudam a refletir, descobrir que as respostas dos problemas não estão no mundinho de Alice, só que no mundo real. A gente precisa olhar com realidade, com frieza e calculismo nessas horas. A fantasia distorce a realidade, ela nos afasta das verdadeiras soluções e vão nos aproximando, vão nos empurrando cada vez mais para os devaneios, para paranoia, para aquela fé cega de que a próxima aposta, essa sim, ela vai recompensar tudo que eu já perdi, e aí eu vou conseguir ganhar muito dinheiro.

E quando vem um ganhozinho, por mínimo que seja, vem também o viés de confirmação. Tá vendo? Eu falei que eu ia ganhar, foi pouco, mas eu ganhei. Falei que nessa aqui ia dar certo, agora vai, agora a sorte vira. Eu vou recuperar, mas não recupera, nunca recupera. A banca nunca perde. O quarto fator é o excesso de estímulos. A gente vive num país hiperconectado, com redes sociais, notificações, vídeos curtos, influenciadores, e que diga-se de passagem, muitos incentivam, estimulam o uso de casas de apostas como se estivessem recomendando você se hidratar num dia de calores caudantes do verão.

E esse excesso de tecnologia que, só a cargo de curiosidade, o Brasil é um dos países que mais passa tempo conectado. Um estudo feito pela We Are Social mostra que o brasileiro passa em média 9 horas e 32 minutos conectados por dia. É muita coisa, gente, é mais do que o tempo de sono que a gente precisa. E o Brasil lidera o ranking de países mais conectados na internet. Então esse excesso de estímulos é muito prejudicial. O cérebro já tá se acostumando e tá acostumado já com esses estímulos constantes.

As bets entram só como mais um estímulo, só que muito mais potente. É um estímulo que vai se normalizando, vai ganhando força. A velha história do sapo na panela de água: se você joga esse sapo numa panela de água fervente, ele salta para fora imediatamente. Mas quando você leva a panela com água e o sapo dentro para o fogo, enquanto a água vai sendo aquecida, ele vai se acostumando com a temperatura até que a água ferve e o sapo acaba indo de arrasta para cima.

De novo, não podemos e não devemos normalizar o que não é normal. Então, se você não quer entrar nesse mundo, faça um favor para você mesmo e toda vez que aparecer um conteúdo desse tipo, bloqueia, clique em não tenho interesse, tira da sua frente. Principalmente essas pessoas, essas empresas que estão fazendo dessa propaganda uma ferramenta de ganho fácil às suas custas e às custas de quem está perdendo dinheiro. Reforça até que o algoritmo entenda que não, eu não quero ver esse tipo de coisa.

Dá bloque nessa galera toda aí, já vai limpar muito o seu algoritmo, já vai facilitar muito para ele entender que você não tem de fato interesse nesse conteúdo. E por último, mas não menos importante, a baixa educação emocional. A maioria das pessoas não aprendeu a lidar com a impulsividade, com a ansiedade, frustração, tédio, vazio emocional. E eu lembro alguns anos atrás, 6 anos para ser mais preciso, e isso até me assusta um pouco, né, porque parece que foi ontem, quando a gente viveu o caos da pandemia.

Algumas pessoas bastante iludidas, posso dizer, vinham a público na internet dizer: ai, a gente vai sair muito melhor dessa pandemia, a gente vai sair muito melhor do que a gente entrou. Nessa altura do campeonato, elas devem estar bem arrependidas, acho, de ter cogitado essa ideia. Porque eu me lembro que eu fiz inclusive uma série de lives durante esse período para dar uma desestressada, para galera também ter o que fazer, meus seguidores interagirem, levar um conteúdo legal.

A gente a gente conversava principalmente sobre assuntos, né, da área da terapia, e que a gente podia conectar com o momento que a gente tava vivendo. E eu falei várias vezes, falei, gente, não caiam nessa, não se iludam, a gente não vai sair melhor disso. Porque tava muito claro durante o período da pandemia, já era nítido como brasileiro não sabia lidar com crises, não sabe até hoje, né, lidar com crises. E principalmente com a crise emocional.

Então, tão logo a ameaça iminente da COVID foi sanada, né, foi resolvida, parece que abriram os portões de uma manada mesmo assim que tava presa, querendo sair, querendo viver, querendo experienciar tudo que não podia naquela época, ou viver tudo no mais alto grau de intensidade, viver como se amanhã pudesse ser o último dia, como se de repente tudo fosse parar de novo e o mundo fosse acabar. E esse pós-pandemia gerou uma nova pandemia: pessoas ansiosas, impulsivas, completamente desconectadas dos cuidados emocionais.

E quando você não sabe lidar com as suas emoções, você busca alívio em comportamentos ou em bens. E quem melhor para unir essas duas coisas do que as bets, né? Algumas pessoas vão procurar em comida, outras vão procurar em compras, outros vão procurar em pornografia, outros vão buscar drogas, álcool, bebida, enfim, muitos vão se apoiar nas bets. Existe um escritor britânico chamado Johann Hari que ele faz uma palestra TED que é sobre vícios de forma excepcional, onde ele explica de uma forma muito clara e é possível entender que que todo vício é só a pontinha de um iceberg de dor, de sofrimento, de traumas emocionais e principalmente da sensação de abandono, de desesperança e de desconexão.

Eu já falei também aqui em outro momento sobre um documentário do Dr. Gabor Maté chamado de Wisdom of Trauma, que é a sabedoria do trauma. Ele mostra de forma brilhante também como a falta de cuidados emocionais impacta na vida dos seres humanos. Que pode levar inclusive ao vício. E claro, a gente pode juntar a esse mesmo item da falta de educação emocional a falta de educação financeira que eu já mencionei. Resumindo, o brasileiro tem uma tendência absurda ao comportamento automatizado, seguindo orientações de estranhos da internet, porque tem um baixíssimo nível de autoconhecimento, então acaba não sabendo o que gosta, o que não gosta, o que tem interesse, não sabe exatamente qual é o seu propósito de vida, não se conhece.

Muitos passam a vida inteira sem saber qual é a sua vocação, qual é o seu propósito, o que veio fazer nesse plano. Então muita gente acaba nem sabendo quais são os próprios gostos e interesses. Eu percebo muito isso, inclusive quando eu faço atendimentos com astrologia. Algumas pessoas já têm um pouco mais de consciência, já sabem algumas questões. Quando a gente fala sobre o mapa, as coisas começam a se conectar e elas falam: não, realmente isso aqui já entendi, já consegui perceber.

Mas muita gente acaba procurando de fato por não saber nem qual é a sua motivação, quais são os seus objetivos, o que gosta, o que não gosta, o que quer fazer, o que não quer, quais são meus propósitos, meus planos. Não sabe, muitas vezes a pessoa não sabe e acaba passando batido pela vida. E isso é muito, muito triste na minha opinião. E eu acho que as pessoas precisam trabalhar muito mais esse autoconhecimento, se aprofundar, e com certeza mudaria muito o cenário atual do país.

E uma questão muito importante de ser reforçada é que impulsividade não é falta de caráter, não é falta de força de vontade, não é falta de disciplina. A impulsividade é um mecanismo de regulação emocional. Então, quando a pessoa está ansiosa, ela busca alívio imediato. Quem tá deprimido busca estímulo, quem tá entediado busca dopamina, quando você tá frustrado você busca recompensa, compensação, quando existe uma vergonha a gente busca fuga.

A pessoa em sofrimento, em dor, ela quer o alívio agora, ela não quer esperar, não dá para ficar perdendo tempo. E as bets oferecem tudo isso em alguns segundos, de forma obviamente muito ilusória. Então a impulsividade muitas vezes pode vir acompanhada de ansiedade, TDAH, traumas, depressão, baixa autoestima, desregulação emocional, sensação de vazio, falta de propósito, de amor próprio e solidão. Ou seja, não é sobre aposta, é sobre dor emocional.

O vício comportamental, seja em bets, comidas, compras, pornografia, redes sociais, enfim, eles seguem um ciclo muito claro. Primeiro vem a tensão. A pessoa sente ansiedade, tédio, frustração, vazio, estresse, e ela fica tensa. Segundo vem o impulso. O cérebro busca alívio rápido para aquela sensação que gerou o tensionamento. Em terceiro vem a ação. Nesse caso especificamente, a pessoa vai apostar. O quarto é o alívio imediato.

A dopamina sobe, o corpo relaxa, a mente desacelera, porque ativa o sistema de recompensa. Lembra disso? Quinto vem a culpa. A pessoa percebe o que fez, ela sente vergonha, sente arrependimento. E na sequência, em sexto lugar, a promessa de parar. Nunca mais eu faço isso. E por fim, para recomeçar o ciclo todo, vem o número 7, que é a recaída. A tensão volta, o ciclo recomeça. É um ciclo neurobiológico, emocional e humano. Não tem nada a ver com moral, com fraqueza.

Muitas vezes a pessoa quer sair desse ciclo e não consegue. E quanto mais ela tenta parar na força, amarra, fica mais difícil, porque ela tá tentando controlar o comportamento sem tratar a emoção que o comportamento tenta aliviar. Eu vou falar sobre um estudo de ratinhos, sempre os coitados dos ratinhos, né? Fizeram um estudo uma vez com ratos em gaiolas em que haviam tubos de água tratada, água normal, e tubos de água com drogas.

Os ratos começaram, obviamente, a sentir mais prazer, porque havia um estímulo associado à droga, então começaram a ir sempre na água que tinha a substância. Com o passar do tempo, eles foram refinando esse estudo. Para que os ratos pudessem ter acesso a esse tubo de água com a droga, eles precisavam passar por uma espécie de uma plataforma, uma região da gaiola em que eles tomavam um choque elétrico. Então, quando eles passavam por ali, dava um choque elétrico, eles sentiam a dor, mas mesmo assim eles percorriam e iam em direção ao tubo com água com droga.

Os pesquisadores começaram a aumentar a dose do choque. Então, cada vez que eles passavam por ali, o choque ficava mais intenso. Agora, você deve imaginar que, poxa, tá tomando um choque, vai parar de ir até a água com droga, certo? Errado. Muitos morriam justamente por continuar insistindo, insistindo e insistindo, mesmo com o estímulo aversivo. Acabavam morrendo eletrocutados porque não conseguiam deixar de buscar a água com droga.

Não é algo que se controla apenas na marra. O que acontece no seu cérebro te guia de forma instintiva. É preciso compreender e tratar adequadamente. É por isso que não faz o menor sentido, mais uma vez, dizer ao final de uma propaganda: jogue com responsabilidade, aposte com responsabilidade. Ah, mas joga quem quer, aposta quem quer. Não é assim que funciona, a banda não toca desse jeito. Então as bets não afetam só o bolso, elas afetam o cérebro, afetam a identidade.

E onde entra também a vergonha tóxica. A pessoa começa a acreditar que ela é fraca, que ela é irresponsável, que ela é incapaz. Ela passa a ter vergonha de contar, ela não fala mais sobre isso, ela não fala com os outros, ela tenta consertar essa coisa toda apostando mais. Ela esconde, ela mente, ela evita falar sobre isso, evita pedir ajuda. Por isso que muitas famílias só percebem quando o estrago já foi feito, já se tornou crônico, não tem mais muita solução não.

Então a pessoa começa a se ver como alguém que não presta, que não aprende, que não tem controle, acaba se punindo, se torturando, se martirizando por conta disso. Ela passa a se distanciar da família, os vínculos vão se enfraquecendo, vão se desfazendo, o ciclo de culpa e de recaída desgasta emocionalmente, que vai gerando mais ansiedade, pode levar à depressão, e a pessoa sente que perdeu o controle da própria vida e se considera um fracasso completo.

E tudo isso alimenta ainda mais o comportamento compulsivo, porque, claro, ela tá em sofrimento, ela tá em dor, ela quer alívio imediato, e ela vai se apoiar mais uma vez nas casas de aposta. Então, o que as bets revelam é que elas são, na verdade, um espelho. Elas revelam a dificuldade de lidar com frustração, a busca por alívio imediato e rápido, a relação com dinheiro completamente sem educação financeira e nenhum pingo de racionalidade.

Diga-se de passagem que esse é um dos problemas crônicos do brasileiro, muito antes das bets surgirem. Mas que se intensificou muito agora. A nossa relação com controle de modo geral, com a esperança, com a dor emocional, com a dificuldade de esperar, dificuldade de tolerar incertezas e a dificuldade de sentir emoções desconfortáveis. Então as bets não criam vulnerabilidades, elas se aproveitam como ervas daninhas da vulnerabilidade que já existe em cada ser humano que se torna presa fácil.

E como a terapia pode ajudar nesse cenário todo? Ela não é só sobre parar de apostar. É sobre entender o porquê você aposta, o que te leva a buscar esse apoio na vida, qual é a dor emocional que causa essa sensação de preciso de um alívio imediato. E principalmente sobre construir recursos internos para não precisar mais desse estímulo. Lembra que eu falei que a pessoa sente que perdeu completamente o controle da sua vida? A terapia é sobre reconstruir esse vínculo com você mesmo, sobre assumir de novo o controle da sua vida, as rédeas das suas decisões, das suas escolhas.

Então, a regulação emocional é extremamente importante. Aprender a lidar com ansiedade, tédio, frustração, raiva, vazio é um dos primeiros e mais importantes passos nesse processo para regulação emocional. Que, diga-se de passagem, independente de você ter ou não algum problema associado com o jogo, com vício, com bet, é algo que todo ser humano deveria aprender. Isso é crucial para conviver em sociedade. Em segundo vem a identificação de gatilhos, porque a terapia vai te ajudar a entender e identificar esses gatilhos.

Porque assim como todo outro tratamento de vício, a gente precisa entender o que é que para essa vontade? O que te leva a apostar? Qual emoção por detrás de tudo isso? Qual o pensamento associado à aposta? Quando a gente trabalha vícios de qualquer espécie, principalmente com a hipnose, é preciso fazer um mapeamento dos gatilhos. Não adianta querer fazer regressão, nesse caso não vai resolver. A gente precisa tratar os gatilhos, o que está causando.

Vamos trazer a ativação do córtex, córtex pré-frontal com o autocontrole, o raciocínio, o pensamento lógico para impedir o comportamento automatizado que leva ao jogo, nesse caso, né, ao vício de modo geral. É importante também reconstruir a autoestima. Sem autoestima, qualquer recaída vira prova de fracasso. Então a terapia vai ser essencial nesse papel de restabelecer autoestima e o contato com a própria essência, que mais uma vez reforço, independente de qualquer questão, independente de vício, independente de bets, eu acho que todo brasileiro, todo ser humano na verdade, precisa trabalhar essa conexão com a própria essência e, claro, autoestima também.

O manejo da impulsividade também entra como um dos fatores que a terapia vai auxiliar com técnicas práticas para desacelerar o impulso, que vão ajudar a reassumir o controle e as rédeas da sua vida, que podem ser o freio de mão necessário para impedir novos episódios de aposta. Se você não souber lidar com o momento da crise, com certeza a recaída vai ser extremamente tentadora e com uma altíssima taxa de probabilidade de você derrapar e recomeçar todo aquele ciclo que a gente viu.

A psicoeducação sobre dopamina também ajuda muito. Então entender o funcionamento cerebral de forma automática reduz a culpa e aumenta a clareza. Mas obviamente, vamos ser muito claro aqui, português claro, tá? Nada de transferir a responsabilidade para, entre aspas, entidade cérebro, como uma parte separada da sua personalidade, né? Porque muita gente também busca sempre um bode expiatório, porque a culpa é minha, eu boto em quem eu quiser.

Então é preciso assumir responsabilidades, só que sem se torturar psicologicamente, e ter maturidade para focar na solução. Não vamos empurrar a culpa na dopamina completamente, falar: ah, não, É, não é porque eu não quero, é porque tem dopamina ativa. Não, vamos assumir o controle das nossas ações, das nossas responsabilidades, principalmente através desse trabalho desempenhado, desenvolvido aqui com a terapia para reassumir o controle.

E as estratégias de prevenção de recaída, que obviamente sem isso acaba sendo um tratamento bastante falho. Então ajuda a criar estratégias reais, possíveis, e que ajudem a evitar recaídas e trazer soluções para os danos que já foram causados. Isso é uma parte fundamental fundamental do processo de recuperação. Além disso, a gente também trabalha na terapia a aprender a lidar com a dor da vergonha e da culpa, para se abrir e receber ajuda de pessoas próximas, que facilita muito o tratamento.

Então, quando a gente tem acolhimento, isso é de uma importância, de uma, de um significado que vocês não fazem ideia. Isso é uma das questões que o Johann Hari fala muito na palestra TED dele. Não é afastando, não é excluindo a pessoa da sociedade que a gente vai conseguir reintegrá-la. Muito pelo contrário, isso só alimenta cada vez mais o vício e o comportamento autodestrutivo. E a reconstrução de redes neurais. Então o cérebro precisa de alternativas saudáveis de recompensa que criem novas conexões de redes neurais.

Então novos hábitos precisam ser implementados, e através da terapia é muito mais fácil você encontrar hobbies, atividades que você goste e que tragam esse mesmo senso de realização, de pertencimento, que satisfaçam aquela vontade, aquele desejo, aquela resposta que o seu cérebro busca quando está em dor e sofrimento. Então, qual é a intenção positiva que existe por detrás dessa busca de uma aposta, de uma bet, de uma casa que vai te trazer uma ilusão de recompensa rápidas é justamente sanar aquela dor emocional.

Então, como a gente pode sanar isso? Através de uma outra atividade que seja muito mais saudável, com menos risco ou com zero risco, né, preferencialmente. Então, através de um novo hábito, de uma nova recompensa muito mais agradável, muito mais segura, a gente cria novas redes neurais, como se fosse— eu vou dar um exemplo. Imagina que existe um gramado e esse gramado, todo santo dia você passa por cima dele. Em algum momento vai parar de crescer grama exatamente onde você pisa.

Ao redor, a grama começa a crescer, fica mais alta, enfim, começa a ficar até um pouco mais poluído visualmente por conta do mato. Agora, a partir do momento que você para de percorrer esse mesmo caminho e começa a trilhar outro caminho, naquele caminho antigo onde não havia mais grama, não havia mato, Começa a crescer, mato novamente, dificultando o acesso e abrindo um novo caminho. É exatamente isso que acontece quando você passa a ativar uma outra atividade recompensatória e acaba deixando de lado aquela atividade, como por exemplo jogar e perder dinheiro numa bet que não vai realmente levar a lugar nenhum, mas uma atividade mais saudável com certeza vai ativar novas redes neurais muito melhores para você.

Beleza, então o que fazer agora a partir desse momento? Eu vou dar algumas dicas práticas aqui, principalmente se você está com algum tipo de problema envolvendo casas de aposta ou qualquer outro vício que seja, tá? Então anota aí esses passos práticos, você pode seguir isso para lidar da melhor forma possível e claro Não se esqueça de sempre buscar ajuda. Primeiro, nomeie a emoção antes de agir. Eu tô ansioso? Eu tô entediado?

Eu tô frustrado? Eu tô buscando alívio? O que que eu tô sentindo no momento que eu tenho o desejo, a ânsia de buscar uma aposta para resolver o meu problema? O que que eu sinto? Segundo, procura criar um delay, um atraso de pelo menos uns 10 minutos. Se bater a vontade de apostar, tenta se distrair o máximo possível com outras coisas para tirar a sensação de urgência. Quanto mais a sensação de urgência gritar dentro de você, maior a probabilidade do impulso, maior a probabilidade de você agir sem raciocinar.

Terceiro: tira o comportamento do automático. Desinstalar o aplicativo talvez não resolva 100%, mas quanto mais dificuldade você colocar entre você e o ato de apostar, melhor. Reduz a impulsividade. Então, se eu lembrar que, nossa, para isso eu vou ter que reinstalar, ter que logar de novo minha conta, toda uma burocracia, talvez você já começa a perder Aquele senso de urgência, aquele impulso começa a ser reduzido, já facilita um pouco o caminho para se afastar.

Quarto, fale com alguém de confiança. Vergonha cresce no silêncio. Então, diminuir conexões não vai ajudar em absolutamente nada. É muito, muito importante que você se sinta acolhido, que você tenha conexões com pessoas que possam te ouvir, que possam te auxiliar, que possam inclusive te dar um apoio emocional para que no momento que bater a vontade você possa conversar, ligar para essa pessoa e falar: estou sentindo vontade e não quero fazer isso.

Conversa com a pessoa, se distrai por alguns instantes, já vai ajudar muito. O senso de pertencimento, de acolhimento, é de um grau de importância que vocês não fazem ideia no processo de combate, de tratamento aos vícios. Quinto, busque ajuda profissional. E esse é extremamente importante, né? Sempre que você sentir que tá perdendo ou que já perdeu o controle, não é fraqueza, é coragem. Quando você sentir que não tá conseguindo, não tá lidando bem com a coisa sozinho, busca ajuda profissional.

O profissional não vai te julgar, não vai criticar o seu comportamento. Muito pelo contrário, vai te auxiliar a ter recursos para reassumir o controle as rédeas da sua vida. É muito importante ter ajuda profissional. Sexto, e esse é muito importante se você está numa situação de risco, de vulnerabilidade, principalmente se você já entrou nesse meio e quer sair dele: bloqueie o seu CPF no gov.br para que não seja possível apostar.

Lá você consegue colocar o prazo que você quer que fique travado o seu CPF para não ter ter nenhuma conexão com casas de aposta. Existe uma limitação que fica por um tempo determinado, só que é importante que você saiba que a partir do momento que você escolhe esse prazo, não é possível desbloquear antes do tempo que você escolheu. Ou também existe lá a opção de tempo indeterminado, então bloqueia e não vai ter realmente nenhuma possibilidade de apostar.

Então esse é o grau máximo que inclusive recomendo que seja feito se você está querendo parar de vez com a casa de aposta. Quanto mais limitações, quanto mais barreira você colocar entre você e o jogo, menos risco você corre. Bom, para finalizar, as bets não são só um problema financeiro, não é um problema somente de bolso. É um problema emocional, mental, de regulação emocional, de impulsividade e de dor não tratada. No final das contas, esse episódio de fato não é sobre apostas, é sobre você, é sobre sua mente, suas emoções, as dores emocionais que todo mundo carrega, e principalmente sobre a capacidade de reconstrução que a gente tem.

Então o brasileiro é muito forte. O brasileiro tem grande capacidade de se reconstruir. Mas de novo, o que eu percebo é: falta muito o autoconhecimento, falta educação financeira. E a gente tem acesso a todo tipo de informação que a gente queira através de uma coisinha que deve estar na sua mão nesse momento, chamada celular. Ao invés de gastar tempo vendo bobagem, vendo conteúdos rasos, eu acho que é de extrema importância que a gente tire pelo menos, nem que você tire 20 minutos da sua semana.

Não tô falando para você fazer isso todos os dias não. Se você tirar 20 minutos da sua semana para consumir algum conteúdo produtivo, um conteúdo que eleva, que traga autoconhecimento, que te conecte com a sua essência, eu garanto para você que a sua vida a longo prazo vai se transformar, você vai sentir os benefícios disso. Então, por favor, não deixe de se conhecer, não deixe de trabalhar as suas questões emocionais, não deixe de buscar ajuda, de priorizar sua saúde mental, emocional, de se apoiar em profissionais capacitados.

E mais uma vez, é extremamente importante reforçar aqui: procurem profissionais capacitados. Resultados. Eu acho que cada vez mais a gente vai precisar olhar para a formação profissional, para o estudo, para bagagem de conhecimento. Esquece número de seguidores, esquece visualização, esquece engajamento de redes sociais. Isso aí é para inglês ver. Então procurem pessoas que de fato tenham informação, tenham capacidade, tenham potencial para te auxiliar.

E tô falando aqui não é para que, ah, quer que faça terapia com ele. Não precisa vir comigo se você não se sentir conectado com o meu trabalho, tá tudo bem, tem espaço para todo mundo. Não é sobre isso, não tô falando que eu sou a melhor pessoa indicada para você. Talvez não seja, talvez você se realize, se encontre realmente com outro profissional da área de terapia. Mas é de fato muito importante que você procure alguém que seja capacitada.

Não se esqueça, é um investimento e é um investimento da sua saúde. Saúde mental e emocional são extremamente importantes. E eu tenho certeza absoluta que você não se colocaria em risco passando com um profissional da área médica que você não confiasse, que você não sentisse que tem capacidade suficiente para resolver seu problema, que poderia muitas vezes te passar um tratamento errado, que poderia fazer uma cirurgia de altíssimo risco, que eventualmente você nem sobrevivesse, eu tenho certeza que você não faria isso.

Então tenha esse mesmo zelo quando a gente fala sobre saúde psicoemocional. É a mesma coisa. O impacto de um tratamento mal realizado, de um tratamento feito de maneira inadequada, é tão destrutivo quanto, por exemplo, de uma cirurgia feita errada. Talvez você não sinta algo físico imediatamente, talvez você não tenha sequelas físicas, mas você pode sim carregar muitas feridas, muita dor, muitos traumas, e quando não resolvidos, eles podem afetar a sua vida como um todo.

Então cuidem da saúde emocional, da saúde psicoemocional, né, mental. Não deixem para depois. Não priorizem o que é supérfluo em prol da sua saúde mental e emocional. Bom, então é isso. E não se esqueçam, vocês não estão sozinhos, não precisam segurar essa barra sozinhos. Vocês podem buscar ajuda. Não se culpem por algo que, antes de tudo, antes de mais nada, é humano, passa pelo seu sistema de recompensa instintivo. Mas não se esqueçam também de assumir responsabilidades tratamento, buscar ajuda.

E se você gostou, ou se você sabe de alguém que tá precisando ouvir isso, já compartilha esse podcast. E a gente se encontra no próximo episódio para colocar juntos a terapia em dia. Até lá!

#30 - Impactos das Bets | Castnews Index — Castnews Index