#32 - E agora, pra onde eu vou?
Se você também está se sentindo sem rumo, com o GPS quebrado e sem saber pra onde vai, esse episódio é pra te ajudar a entender como lidar com tudo isso.
Em meio à tantas mudanças e o desmoronamento das nossas referências, o caminho parece ter ficado turvo, tomado por uma neblina e decidir os próximos passos da vida podem ter se transformado num grande desafio.
Nesse episódio falamos sobre como fatores internos e externos estão impactando na maneira como os ser humano conduz a própria vida e como se reconectar com o seu caminho.
- A importância do autoconhecimento e a reconstrução de referências internasPropósito de vida·Valores pessoais·Mapa astrológico·Terapia·Pitty
- A perda de referências e a desorientação coletiva pós-pandemiaCOVID-19·Tecnologia·Inteligência Artificial·Ansiedade·Fadiga
- A aceleração das mudanças e a perda de valor do tempo na era digitalTransformações sociais·Transformações tecnológicas·Transformações culturais·Mercado de trabalho·Burnout·Redes sociais
- Estratégias para reencontrar o sentido e a direção na vida pós-pandemiaTempo de silêncio diário·Escrita reflexiva·Comunidades reais·Ajustar expectativas·Cuidado com o corpo·Planejamento·Projetos pequenos
- O impacto da pandemia na saúde mental dos jovens adultos e o vazio existencialONU·Juventudes e Pandemia: E Agora?·Crises de ansiedade·Cansaço e exaustão·Acompanhamento psicológico·Viktor Frankl
Todo ser humano precisa de referências. Elas são aquelas estruturas invisíveis que organizam a vida cotidiana: rotinas, rituais, vínculos sociais, expectativas de futuro. São elementos que muitas vezes a gente nem percebe de forma consciente, mas que funcionam como pontos de ancoragem, de sustentação. Eles nos dizem quem nós somos. O que a gente faz, para onde a gente vai. E antes da pandemia, essas referências estavam relativamente estáveis.
O trabalho presencial dava um ritmo para o dia, com horários e rotinas bem definidos. Encontros sociais reforçavam vínculos. Férias planejadas também criavam expectativas. Celebrações familiares, como aniversários, datas comemorativas, eram presença confirmada no calendário de qualquer pessoa. Tudo isso formava uma teia que sustentava a nossa identidade. Mas aí veio a pandemia da COVID-19 e rasgou essa teia. De repente, rotinas desapareceram, rituais foram interrompidos, vínculos foram enfraquecidos, o futuro virou uma grande incógnita.
Essa quebra de continuidade, o avanço desenfreado de tecnologia, Inovações constantes, surgimento de IAs, diversos outros fatores que geraram uma sensação de desorientação coletiva bagunçaram totalmente as nossas referências. Pesquisas em psicologia existencial mostram que a previsibilidade é um fator essencial para o desenvolvimento do bem-estar. Sem previsibilidade, o cérebro entra em estado de alerta constante. É como se você estivesse dirigindo o seu carro com o GPS, de repente, no meio da pista, você enfrenta uma neblina fortíssima e o GPS simplesmente para de funcionar.
Você entra num estado natural de tensão e atenção, e esse estado prolongado gera ansiedade e fadiga. Foi exatamente isso que aconteceu. De repente, todo mundo se viu diante de uma neblina densa, e sem parâmetros para seguir. De lá para cá, uma dúvida vem assolando muita gente de forma silenciosa: e agora, para onde eu vou? Mas antes da gente continuar e se aprofundar nesse assunto, já aproveita para me seguir nas redes sociais, @guilhermebioto, e tem também o canal do YouTube e o blog.
Toda segunda-feira tem conteúdo novo lá, então você pode acompanhar também. Seja no trabalho, na carreira, vida pessoal, afetiva, enfim, Parece que nas mais diversas áreas da vida a gente perdeu a nossa bússola, o norte que nos guiava. E é justamente sobre esse assunto, para onde eu vou, que hoje nós vamos colocar juntos a terapia em dia. Essa nova realidade pós-pandemia impactou o mundo todo e a gente já sabe disso. Só que os jovens adultos foram particularmente mais afetados.
Essa faixa etária, na qual inclusive eu me incluo, vivia já um período de transição natural, que saía da adolescência, passava para uma vida adulta, aquela fase onde as responsabilidades começam a bater à porta. E nesse momento a gente viu as nossas referências simplesmente desaparecerem justamente quando a gente mais precisava delas. Um relatório da ONU intitulado Juventudes e Pandemia: E Agora? indicou dados assustadores. A pesquisa ouviu mais de 16 mil jovens em todo o país, em todo o Brasil, e chegou à conclusão de que 63% dos jovens brasileiros enfrentaram crises de ansiedade após a pandemia, sendo que foi o grupo mais impactado emocionalmente pela crise de saúde. 50% dos entrevistados apontaram que sentem cansaço e exaustão frequentes, e 47% indicaram a necessidade de acompanhamento psicológico feito através do SUS.
A ausência de sentido se manifestou em sentimentos de inadequação, desespero, falta de propósito. Segundo o neuropsiquiatra Viktor Frankl, o ser humano precisa de sentido para viver, precisa de um propósito. Quando esse sentido desaparece, surge um grande vazio existencial. E hoje o que a gente tem mais observado é justamente esse distanciamento da busca de um propósito, da busca de um sentido para a vida. É um vazio psicológico, mas também é um vazio social.
A pandemia abalou as estruturas coletivas de referência. Então as instituições perderam credibilidade, modelos de sucesso foram questionados e foram completamente reformulados, principalmente com essa onda avassaladora de influenciadores digitais. Então hoje na internet tudo é muito pautado nessa busca por um grande sucesso, uma grande realização, que você tem que sair do transformada e alcançar grandes patamares. O número elevadíssimo de óbitos durante a crise da COVID-19, né, esse luto coletivo vivido pelo mundo de modo geral, também contribuiu para uma sensação de que as estruturas sólidas que a gente conhecia simplesmente desapareceram, como se tirassem o chão abaixo dos nossos pés.
Então isso afetou a sociedade como um todo. E o colapso das referências tem consequências práticas. Muitas pessoas relatam hoje dificuldade para planejar o futuro, para manter foco, para tomar decisões. Os projetos são começados e abandonados com muita frequência. Negócios que abrem e fecham numa velocidade assim assustadora. Relações que ficaram muito fragilizadas. Então Tá tudo muito plástico, muito descartável, né? Então começa uma relação hoje, amanhã já não tem mais.
Para finalizar uma relação basta simplesmente parar de seguir ou bloquear a pessoa nas redes sociais. Então tá tudo muito insólito. Trabalho perdeu sentido muitas vezes, até por conta dessas mudanças todas que ocorreram. Lazer que não traz mais satisfação. A internet já não tá mais preenchendo aquela lacuna do distanciamento social, porque naquela época a internet foi uma grande facilitadora para unir as pessoas, gerou muita empatia, então as pessoas auxiliavam aquelas que não podiam sair de casa, gerou uma grande comoção.
E hoje o que a gente vê é algo completamente diferente, principalmente em tempos de ano eleitoral, que se torna cada vez mais uma ferramenta de brigas, conflitos, discussões. Então, a internet virou palco para brigas e conflitos. A falta de respeito com a imagem, com a opinião, com, enfim, com o simples direito de existir de cada pessoa ficou cada vez mais escrachado nas redes sociais de uns anos para cá. É como se a nossa bússola interna tivesse quebrado.
E para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve, mas parece que nenhum caminho de fato tá sendo o caminho correto. E é importante entender que as referências não são só externas. E eu vou até um pouco além, porque parece que as que mais se perderam, as que mais foram afetadas, são justamente as mais importantes, as referências internas. É sobre quem nós somos, o que a gente quer, o que a gente gosta ou não, o que nos realiza na vida, é basicamente saber quem você é.
A pandemia rompeu essa estrutura. É como se a história de vida das pessoas tivesse se perdendo, se fundindo num meio quase que universal, onde tudo e todo mundo tem que ser igual, fazer as mesmas coisas, gostar das mesmas coisas, performar, né, ser 100% perfeito em tudo que faz. Então os planos de vida foram adiados ou foram cancelados, sonhos e objetivos foram reavaliados, repensados, muita coisa foi deixada de lado, parecia que aquilo não era mais importante, não tinha mais sentido, então precisava entrar um novo objetivo no lugar.
Enfim, a vida virou de cabeça para baixo. Isso gerou uma grande crise de identidade. Quem sou eu sem os meus planos? Quem sou eu sem a minha rotina? Quem sou eu sem os meus vínculos, sem os meus sonhos, sem os meus objetivos? E tudo isso fez a gente repensar a vida, recalcular a rota. Não dava mais para seguir no mesmo rumo. Só que justamente no momento que a gente mais precisou, as nossas referências foram com Deus, foram embora.
Então não tinha mais onde se apegar. E a gente até achava que tudo isso ia acabar junto com o fim da pandemia, mas ledo engano, né? Muito pelo contrário, essa crise só se prolongou porque o mundo voltou diferente, completamente diferente. Voltou muito mais acelerado, totalmente digital e fragmentado. Ah, porque depois disso nós vamos sair melhores, porque depois da pandemia as pessoas vão se tornar pessoas melhores. Era o que muita gente dizia.
Eu lembro inclusive na época eu fiz algumas lives e eu falava: pessoal, não contem com isso, não é assim que acontece. A evolução não dá saltos, então não é uma varinha mágica, principalmente em meio todo o caos que foi vivido. E no final das contas A gente voltou diferente, voltou mais desorientados, mais perdidos, mais confusos e sem referências, o que tem levado inclusive a muito mais agressividade e falta de senso de coletividade.
Se eu não tenho referências internas, eu não respeito as referências do outro. Isso leva muito mais agressividade, brigas, conflitos, enfim. Então houve um colapso de referências. O que antes servia para orientar, hoje já não serve mais. E a gente ainda não achou substitutos sólidos para colocar no lugar. Então tá tudo muito confuso, muito bagunçado. E o vazio existencial tá ligado a uma angústia provocada pelo excesso de liberdade e pela consciência de finitude que o pós-pandemia trouxe.
Porque o medo do amanhã, a ideia de que né, a vida é um sopro, como muitas pessoas falam, fez com que boa parte das pessoas passasse a encarar a realidade como algo angustiante, porque tava todo mundo vivendo a vida tranquilamente, seguindo uma rotina, um fluxo natural. De repente tiraram o chão debaixo dos nossos pés. Muita gente se viu enfrentando processos de luto, perdendo pessoas amadas de um dia para o outro sem poder se despedir.
Então esse senso de finitude e essa necessidade de uma liberdade que trouxe esse pós-pandemia mexeu de forma muito intensa com a maneira como as pessoas encaram a realidade. Então, o colapso de referências também impactou numa dimensão cultural. Práticas religiosas, artísticas, comunitárias, tudo isso foi afetado. Surgiram diversas novas experiências místicas, religiosas, que buscavam novos sentidos em meio ao caos que a gente viveu.
Mas muitas se aproveitaram do momento para instaurar modelos baseados no medo, no espetáculo, nos grandes palcos, em telas de LED, num falso senso de pertencimento, porque era justamente isso que muitas pessoas estavam buscando no pós-pandemia. Pertencimento. Eu me senti completamente perdido, completamente desamparado, eu preciso de alguém que me sustente, que me dê a sensação de pertencimento. E fazer parte de um grupo seleto, mesmo que eu precise pagar para ter, sei lá, um assento privilegiado ou participar de um evento religioso onde tudo é muito espetaculoso, isso dá uma falsa sensação de pertencimento.
E esse colapso de referências pode ser entendido também como uma crise de legitimidade e de identidade. Então, eu não sei mais quem eu sou, eu busco em alguém, ou em algum grupo, ou em alguma ideologia, fé, crença, enfim, alguém que me responda, que me dê essa informação, esse norte, esse direcionamento, sendo que essas questões devem ser buscadas de forma interna. Além de tudo isso, as instituições de todas as áreas, de todos os ramos, foram abaladas.
A escola passou por modificações severas, o trabalho migrou para o remoto e mesmo com o fim da pandemia muita gente continuou trabalhando nesse modelo, a família foi fragmentada, a religião teve que se reinventar em plataformas digitais e eu acho que é ok, eu acho que é legal também você permitir e possibilitar que a pessoa acompanhe, por exemplo, uma celebração, um culto, alguma coisa religiosa através das plataformas digitais.
O que eu não acho legal é que se aproveitam disso para fazer um espetáculo. Então aí eu acho que já passa um pouco, extrapola um pouco do que é de fato o propósito real da religião, que é o religare, né? O religar você a algo superior. E atualmente é possível perceber como marcas, empresas, lojistas, profissionais de todos os segmentos estão precisando se reinventar. E eu acho que mais do que isso, estão precisando se redescobrir.
Eu acho que a palavra certa é essa: redescobrir. E tá acontecendo um movimento muito interessante de rever a imagem, o que a empresa representa, o público que ela deseja atingir. De forma bem silenciosa, esse movimento tá transitando em todas as áreas da vida. É muito importante que a gente faça esses questionamentos para se conectar de novo com a nossa essência. Qual é o nosso propósito? Qual é o nosso caminho? Para onde eu tô indo e para onde eu quero chegar, né?
Então, sem essas perguntas, a gente vai continuar no mesmo lugar e vai ficar para trás, porque o mundo tá constantemente mudando. Porque essa crise de legitimidade deixou todo mundo sem pontos de apoio claro, ficou todo mundo meio perdido, meio desorientado. Então agora tá sendo um momento de rever essas questões todas. Tá sendo um momento de repensar a minha história, a minha trajetória, quem eu sou. A ausência de referências claras também é uma crise de sentido.
O ser humano precisa de narrativas para viver, precisa acreditar que as suas ações têm propósitos, que a vida tem um direcionamento. Então, quando essas narrativas são interrompidas ou modificadas drasticamente, de repente, como aconteceu, surge esse grande vazio existencial. Esse vazio gera um sofrimento real, com impacto na saúde mental, na motivação, na capacidade de tomar decisões no dia a dia. Também foi gerada uma crise de valores, e eu acho que aqui é um ponto essencial que a gente reveja o quanto antes, porque o que antes era considerado importante pode ser que hoje já não seja mais.
O que antes era considerado estável, hoje talvez já não seja. O que antes era considerado certo, hoje já é dado como incerto. As pessoas se acham no direito de ditar valores aos produtos, serviços, ideias, pensamentos, ideologias, até na vida dos outros. Então essa crise de valores gera muita confusão, polarização, conflito, ainda mais agora, né, como eu falei, época eleitoral, tudo vira tiro, porrada e bomba. E essa falta de referência leva as pessoas acreditarem que os valores pessoais delas são os únicos que valem, são os únicos corretos, são os únicos dignos, né.
Então todo mundo tem que pensar igual aquela pessoa. Todo mundo tem que valorizar a mesma coisa que ela. Por isso que se acham no direito de ditar regras, de colocar valor na vida das pessoas, nas crenças, enfim. E acham um absurdo quando encontram alguém que se opõe a qualquer coisa, forma de pensar, valores pessoais, enfim. E é muito importante a gente reforçar que são só valores pessoais. Cada indivíduo tem o seu valor, cada indivíduo tem a sua forma de pensar, de ser, de existir.
A gente precisa respeitar isso. E essa falta de referência que leva a um desrespeito do valor alheio gera uma grande, uma gigantesca desorientação coletiva. A velocidade das mudanças se tornou um fator central na sensação de desorientação que tanta gente relata no pós-pandemia. Não é exagero quando a gente fala que vive num tempo que o ritmo das transformações sociais, tecnológicas, culturais já ultrapassou a capacidade humana de assimilação.
Essa aceleração que já existia foi muito intensificada, de forma muito radical. A pandemia funcionou como um catalisador. Foi como se os processos que levariam anos para acontecer tivessem acontecido em questão de meses. O digital, que antes era um complemento, virou um tema central praticamente para tudo. Hoje tudo gira em torno de dados online. Então trabalho, educação, estudo, consumo, até a telemedicina evoluiu. A inteligência artificial, que ganhou muita força, e a gente já falou sobre isso também no episódio anterior, então caso você não tenha ouvido, depois dá uma olhadinha aqui no programa, tem um episódio dedicado a isso.
Também foi um impacto muito intenso nessas mudanças todas. Hoje a gente já nem sabe mais diferenciar o que é real do que não é. Essa aceleração foi tanto a nível tecnológico, mas também a psicológico e social. As pessoas tiveram que se adaptar rapidamente a novas formas de viver, de trabalhar, de estudar, de se relacionar. Essa adaptação forçada gerou um estresse. Ansiedade, gerou sensação de inadequação. E tem estudos que mostram que quando o ambiente muda muito rápido, o cérebro perde a capacidade de criar previsibilidade.
Como a gente já falou, previsibilidade é o que dá a sensação de direção. Sem ela surge uma sensação de estar sempre atrasado, sempre correndo atrás de alguma coisa, sempre tentando se atualizar. E o que a gente mais ouve hoje em dia é isso, né, essa sensação de Não dou conta de tudo, tô sempre atrasado, sempre na correria. O mercado de trabalho é um dos exemplos mais claros dessa aceleração. Antes a gente tinha uma separação bem delimitada entre a vida profissional e a vida pessoal.
Hoje em dia essa separação desapareceu, não existe mais. Trabalho invadiu a casa, as fronteiras entre profissional e pessoal se tornaram muito difusas. Hoje tudo é híbrido, flexível, digital, e o digital ganha mais e mais força todo santo dia. Se o profissional, empresa, marca, enfim, se o negócio não se posiciona na internet, é como se não existisse. Parece que o maior requisito hoje para ser bom é ter visibilidade digital, e todo mundo sabe que não é isso que torna algo bom.
Essa mudança trouxe benefícios como uma maior autonomia, flexibilidade, enfim, mas também trouxe muitos desafios. A dificuldade de separar a vida pessoal da profissional aumentou muito. O aumento de carga de trabalho, então nem se fala. A sensação de estar sempre disponível, de precisar estar sempre online disponível. A aceleração do trabalho gerou uma fadiga coletiva E nunca se ouviu falar tanto em burnout e crise de ansiedade ou problemas de saúde emocional dentro de ambientes de trabalho.
Eu tenho ouvido muito dos meus clientes que boa parte deles não se sente satisfeitos, não se sentem realizados profissionalmente falando, mas não sabem o que fazer a respeito. Não sabem o que querem ou não fazer, o que gostam ou não. Muitos têm medo de arriscar, de inovar, de empreender, de mudar completamente de área e começar do zero. E por conta disso vão só vivendo um dia após o outro, às vezes até muito infelizes com o que fazem, porque falta referências, falta referências claras, falta olhar para dentro de si, se redescobrir no meio desse caos todo.
Precisa saber quais são as suas reais aspirações, quais são seus valores, talentos, habilidades, quais são os desejos que você tem para sua carreira e para sua vida. O melhor meio para isso é o autoconhecimento. Já indico logo de cara aqui: faça seu mapa astrológico, vai facilitar muito esse processo. As relações sociais também foram aceleradas e muito fragmentadas, né? O contato físico foi substituído praticamente de forma integral por relações digitais.
Tudo hoje é videochamada, é uma reunião online. As redes sociais ganharam ainda mais protagonismo. E vamos ser bem honestos, né, diga-se de passagem, de social elas já não têm mais quase nada, porque viraram vitrines, viraram palco para exposição, para vendas. Mas o senso de comunidade mesmo já foi bem fragilizado, principalmente nas redes sociais. O individualismo tá muito forte, tá praticamente imperando, né. O pertencimento foi enfraquecido, a intimidade foi substituída por conexões totalmente superficiais.
E eu vou só mencionar dois lugares que você pode prestar atenção no comportamento humano e você vai ver no seu dia a dia, em qualquer outra situação, em qualquer outro lugar, você vai ver como isso está muito claro, muito nítido, como as pessoas já não se importam muito mais com o coletivo e se acham donas do mundo. Por exemplo, Mercado, academia, presta atenção no comportamento das pessoas. Só vou dar esses dois exemplos porque assim, são os que estão muito próximos aqui do meu dia a dia, tá?
Mas é muito clara a percepção que a gente tem no comportamento das pessoas de que muitos já não têm mais essa percepção, esse senso de coletividade. As relações sociais estão se transformando de uma forma muito complicada, muito intensa, E essa falta de referência é justamente o que leva a certas atitudes que são bastante repressivas, né? Pessoas agindo de forma completamente voltadas para o próprio umbigo. O consumo de conteúdo digital simplesmente explodiu.
Tudo é streaming, tudo é assinatura, nada nos pertence mais de fato hoje em dia, né? Então tudo é um aluguel que você paga. O tempo de atenção foi totalmente fragmentado. Então não basta ser bom, você tem que ser perfeito em 3 segundos para prender a atenção da pessoa, para já no algoritmo que determina tudo que as pessoas assistem, ouvem, consomem, gostam. Isso alterou a percepção de tempo e valor. O que antes era construído de forma lenta passou a ser consumido rapidamente, constrói-se em 3 segundos.
A profundidade deu lugar à velocidade. Então isso impacta diretamente na identidade das pessoas. Hoje as histórias, a identidade, a personalidade das pessoas não é mais construída a partir de coisas sólidas, é a partir de pequenos fragmentos, recortes, ilusões, o que leva a uma geração totalmente desconectada da própria essência. E claro, não dá para negar que o fato da vida parecer que tá pressionado o botão de 2x lá do WhatsApp para acelerar o áudio gera uma ansiedade monstruosa.
As pessoas sentem que se piscarem perdem uma atualização, nunca estão completas, nunca estão prontas, sempre falta algo. Essa sensação que as pessoas têm, uma sensação de insuficiência que destrói a confiança, dificulta a tomada de decisões. Então, pelo amor de Deus, parem de achar que tudo é performance, tudo tem que ser mostrado no mais alto grau de perfeição. O tempo não volta atrás. Lá no futuro, lá na frente, a gente vai se arrepender muito de não ter vivido mais.
Ninguém vai chegar no leito de morte e pensar: nossa, eu deveria ter entregado mais resultado nas minhas redes sociais, né? Deveria ter passado mais tempo com o celular na mão. Ninguém vai pensar isso. Os jovens adultos estão tendo cada vez mais dificuldade de planejar o futuro, justamente porque o que você planeja de manhã, à tarde já pode ter mudado, já que tá tudo se baseando num algoritmo que se atualiza a todo instante. Então tudo muda a um clique.
Isso gera crise existencial, vazio, falta de propósito, e claro, a dúvida que vai se instalando: e agora, para onde eu vou? Em resumo, a velocidade absurda das mudanças é um dos principais fatores que explicam a sensação de perda de rumo nesse pós-pandemia. O problema não foi o mundo ter mudado, foi ter mudado a uma velocidade que a gente não tá conseguindo acompanhar, não tá conseguindo assimilar tanta coisa. Eu tenho ouvido bastante dos meus clientes que estão buscando um propósito de vida.
Eu acho muito bom, muito legal essa busca, até porque parece que as pessoas estão despertando. Só que encontrar esse propósito não é algo mágico, não é uma revelação mística que aparece de repente, é uma construção prática feita de pequenas decisões repetidas ao longo do tempo e que precisam estar alinhadas com os valores pessoais. Mas é justamente aqui que muita gente tá derrapando. Sem referência, fica difícil alinhar isso. Família, autonomia, segurança, criatividade, aprendizado, trabalho, relacionamento, enfim, quando as ações não conversam com os valores, tudo fica desalinhado e fica tudo vazio, superficial.
Então, antes da pandemia, o propósito geralmente se construía do fluxo natural e contínuo da vida: rotinas bem delimitadas, vínculos fortes, projetos que a gente tinha começo, meio e fim, com projeção realmente para o futuro, com expectativas, Porque tudo era mais previsível. Essa continuidade já não existe mais como antes. É por isso que hoje muitas pessoas não sabem o que querem, porque perderam o contexto que dava sentido ao querer.
Então, antes de descobrir para onde eu vou, eu primeiro preciso descobrir de onde eu vim, qual foi o caminho que eu trilhei para chegar até aqui. No meio dessa confusão toda, dar alguns passinhos para trás, respirar, olhar tudo de fora, de outra perspectiva, pode ajudar a ganhar impulso para seguir em frente, ajuda a ganhar tempo. Enquanto você não identificar de onde você veio, você não vai conseguir ter clareza de para onde você tá indo.
O trabalho e a carreira são uma das principais fontes de propósito na vida adulta, mas nem tudo se resume a isso. Além de prover os recursos financeiros, o trabalho e a carreira são intimamente ligados ao reconhecimento. Então muitas pessoas passaram a se questionar se as suas carreiras fazem sentido, se estão no caminho certo, se vale a pena investir energia e tempo em ambientes que não oferecem estabilidade ou reconhecimento, se se sentem realizadas no que fazem.
Muita gente tá mudando de área ou de atuação de direção profissional. Esses dias eu vi um vídeo bem interessante no Instagram de um rapaz que era PM, policial profissão militar, e ele abandonou tudo para abrir um negócio de manicure, e ele tá super feliz, super realizado. Então sim, é possível fazer essas transições. E o estresse diário do trabalho tem levado muita gente a refletir até que ponto vale a pena continuar em determinado lugar, profissão, ou até às vezes perseguindo objetivos que parecem que não chegam nunca.
E pertencer a uma comunidade, compartilhar experiências, construir vínculos também dá sentido à vida. Muitas pessoas têm relatado dificuldades de retomar vínculos sociais, de criar novas relações e sentir que pertencem a alguma coisa maior. Conversas estão cada vez mais rasas, aplicativos de namoro que não levam a lugar nenhum. Tenho ouvido cada relato absurdo, inclusive, das conversas que saem nesses aplicativos. Pessoas agressivas e hostis nas redes sociais, como eu falei, né?
Então antigamente você entrava numa comunidade ou um grupo que as pessoas tinham os mesmos interesses para interagir, fazer amigos, trocar ideias. Hoje você comenta, ah, já surge uma infinidade de pessoas com críticas e ofensas. Eu não costumo comentar, interagir em nada, justamente por conta disso. E hoje mesmo, enquanto eu tava escrevendo aqui o episódio do podcast, eu tinha comentado um vídeo do Instagram, era um trecho de uma série, e eu só escrevi assim, ah, eu assisti, mas eu não gostei muito.
E aí um perfil fake, claro, sempre um perfil fake, veio me chamar de burro. Ele disse que eu não gostei porque eu sou burro, como se eu fosse obrigado a gostar de alguma coisa e como se a pessoa fosse, nossa, extremamente inteligente porque entendeu e gostou da série, sendo que a série realmente era chata. Eu não gostei, tá? Não vou nem mencionar qual que é, enfim. Mas até nisso as pessoas acabam criando intriga. Eu vi também durante essa semana um perfil divulgando uma rede social que é basicamente um clone do Orkut, o falecido Orkut, que foi feita por fãs do Paraguai.
E eu comentei perguntando, falei, será que realmente é segura, porque, gente, segurança digital hoje em dia é tudo, né? E a pessoa simplesmente pegou o meu comentário, printou e colocou nos Stories, escreveu assim: gente, não se preocupem com um mero detalhe bobo. Com esses termos, tá? Um mero detalhe bobo. Segurança digital hoje em dia ser um mero detalhe bobo, cara, eu realmente não consigo entender como as pessoas conseguem se expor a riscos desnecessários na internet.
Mas enfim, em outros tempos pode ser até que alguém tivesse me respondido assim com educação, com tranquilidade, porque eu não falei nada de ofensivo, nada que magoasse alguém, né? Eu só fiz uma pergunta e um comentário dizendo que eu não gostei de uma série determinada. Então criar e manter vínculos tá se tornando um tanto quanto desafiador realmente, né? E isso faz com que o nosso senso de propósito acabe se perdendo. Como eu falei, eu evito comentar qualquer coisa, eu prefiro ficar invisível nessas horas.
Música, arte, literatura, cinema, esportes, tudo isso também ajuda a construir identidade e sentido. Só que o digital praticamente engoliu essas atividades, né, e tudo se tornou performance. Não basta você ler um livro, tem que ler muitos livros em um mês. Não basta gostar de música, arte, cinema, tem que ser crítico de internet. Esporte então piorou, né, porque para o brasileiro é praticamente uma religião. Então a vida pode ser mais simples.
Na verdade, a vida é simples, a gente que complica, né. Em resumo, a crise de propósito é uma crise de identidade. Quem sou eu sem os meus planos, rotinas, vínculos, gostos, referências culturais, Essas perguntas é que vão revelar a profundidade dessa crise que a gente tá vivendo. É por isso que antes de encontrar respostas do onde eu vou, é preciso encontrar respostas do de onde eu vim, como eu já falei. E apesar de não ser algo tão simples e fácil, tem algumas formas de você se reencontrar.
E é importante frisar que esse caminho é único e individual. Não é necessariamente sobre encontrar um grande propósito, uma grande missão de vida, mas de construir pequenas referências ou reconstruir essas pequenas referências. Rotinas, rituais, vínculos, metas. É muito mais sobre recuperar o senso de continuidade, pertencimento e valor. Envolve desacelerar o suficiente para ouvir a própria vida. Assumir responsabilidade por escolhas, mesmo que no meio de incertezas, e buscar sentido em experiências cotidianas.
Eu vou passar algumas dicas aqui para vocês praticarem em casa para poder encontrar ou reencontrar essas referências internas. Primeiro, reservar tempo de silêncio diário. Para para ouvir seus pensamentos, para para olhar para dentro. Segundo, escrever reflexivamente. Coloca para fora, põe no papel para você ler depois, ver o que faz sentido e o que não faz. Terceiro, celebrar pequenas vitórias. Nem tudo precisa ser performático, nem tudo tem que ser grandioso.
Celebre coisas pequenas para você conseguir celebrar coisas grandes depois. Quarto, participar de comunidades reais. Sai dessa coisa ilusória da internet, vai viver a vida offline também. Quinto, ajustar expectativas. Isso é muito importante. Expectativas precisam ser realistas. Sexto, buscar ajuda. Busca uma mentoria, uma pessoa que possa te orientar, te auxiliar nesse processo, seja através de processo terapêutico, seja através de algum programa que auxilia a encontrar essas referências internas.
Sétimo, cuidados com o corpo, porque claro, corpo e mente precisam estar bem equilibrados para você ter bons pensamentos e conseguir organizar sua vida. Oitavo, planejar em 3 caixinhas diferentes: a de curto, médio e longo prazo. Assim você sabe exatamente cada procedimento que precisa ser adotado. E nono, criar projetos pequenos e persistir neles. Não adianta querer achar que vai começar com uma meta gigantesca, porque você vai abandonar no caminho.
Então começa com coisas pequenas e insista nelas até que elas deem espaço para coisas maiores. E uma das coisas que mais me chama atenção na realidade atual é como as mudanças rápidas tornou tudo tão descartável, gerou uma completa quebra de senso de valor de tudo, né? E valor não é só o preço, é o significado que a gente atribui a alguma coisa ou alguma situação, é a importância que a gente dá para aquilo, é uma unidade de medida que a gente usa para medir o peso que é atribuído a uma experiência, uma relação, um objeto, uma atividade, enfim.
Esse valor é construído socialmente pelas normas culturais, pelas instituições, tradições, enfim, e pessoalmente pelas nossas experiências, pelos nossos valores internos, pelas nossas prioridades. Por exemplo, se você é um grande fã de carros, você pode muitas vezes achar que um carro com preço elevadíssimo vale muito mais a pena do que investir em um imóvel. Então, isso é questão de referência e de valor pessoal. Antes existia uma certa estabilidade nesse sistema de valores.
A gente sabia valorizar, por exemplo, o encontro com amigos, isso tinha um valor emocional muito importante, sabia o valor de um dia de trabalho produtivo, de um momento de lazer para reparar as energias, Só que hoje tudo tá bem bagunçado. E o que mais me espanta é que um dos principais e mais valiosos recursos que a gente tem é o que mais foi afetado por essa total perda de valor: o tempo. O tempo perdeu muito a estrutura. A gente não vê mais passar a hora, não vê o sol nascer ou se pôr, não observa o céu estrelado.
O tempo com a família, com os amigos, filhos, animais de estimação Tudo tem que ser calculado, marcado na agenda do celular. Mas o tempo nas redes sociais ativando dopamina de forma indistinta, aí esse a gente não consegue nem mensurar, né? Esse a gente perde de vista. O fato da era digital colocar todo mundo em contato com tudo e com todos ao mesmo tempo gera uma sensação de que o tempo tá em disputa. Sempre a gente tá batalhando contra ele ou contra o tempo de outras pessoas.
Os conflitos geracionais também ficam muito evidenciados justamente porque é nítido como cada geração tem percepções diferentes do valor do tempo. Eu tenho muitos amigos que são profissionais autônomos, são empresários, donos de negócios, lojistas, enfim. E é assustador quando a gente para para conversar com essas pessoas e todo mundo relata a mesma coisa. O consumidor em geral não tem mais noção de valor das coisas, seja do tempo, seja de um produto, seja de um trabalho, enfim.
Ele quer precificar o trabalho alheio, quer comparar alhos com bugalhos e que os valores sejam os mesmos. Tem um vídeo que circulou na internet um tempo atrás, eu acho que é uma cena de uma novela ou de um filme ou série, enfim. Eu sei que é brasileiro porque eu acho que era a Mel Maia que fazia o papel, não tô muito certo. Ela tava vendendo brigadeiros na escola e a um preço assim assustadoramente baixo, né? E quando os amigos questionam como ela calculou o valor, ela fica sem entender, porque ela simplesmente deu um valor meio arbitrário e tava saindo no prejuízo, coitada.
E essa cena ilustra muito bem uma realidade atual onde tudo parece que tá sem bases fundamentadas dos valores. Não enquanto produto ou serviço oferecido, mas do outro lado. A pessoa que vai adquirir, ela usa dos valores pessoais, o quanto ela acha que vale, ela quer precificar, ela quer dar o valor final sobre algo que ela não tem noção do quanto tempo, esforço, material, recurso é necessário para aquilo. Outro ponto que se perdeu muito a referência foi a nossa capacidade intelectual.
Seja de pensar, de ter opinião própria ou até de concentração. A gente tá vivendo um sistema em que empresas, plataformas, instituições competem o tempo inteiro pela nossa energia mental, pela nossa atenção, pela nossa concentração. Cada clique, cada visualização, cada segundo de atenção é monetizado. Todos os estímulos que a gente tem recebido de forma até um tanto quanto abusiva são desenhados especificamente para capturar a nossa atenção, mesmo que contra a nossa vontade.
É por isso que as grandes empresas estão encarando um processo trilionário nos Estados Unidos. E você não ouviu errado, são trilhões de dólares. Você pode pesquisar aí processo contra Meta, YouTube, Google, né, as plataformas aí que a gente utiliza no dia a dia. Quanto mais a gente prende atenção na tela, menos a gente percebe o mundo real à nossa volta, mais a gente perde as nossas referências e mais fácil se deixa manipular.
E esse é um caminho que leva rapidamente a uma completa dissolução do senso de propósito, identidade e de percepção de futuro. E se você deixa um algoritmo ou uma IA decidir por você, a resposta da pergunta para onde eu vou vai ser sempre um grande vazio existencial. Tem gente utilizando a IA para decidir o que vai pedir do cardápio de um restaurante ou cafeteria. Vocês têm noção disso? A que ponto nós chegamos? Enquete de Stories, para mim também eu acho o cúmulo do absurdo, quando a pessoa define qual roupa vai usar, corte ou cor de cabelo, enfim, através de uma enquete de Stories, onde pessoas vão opinar sobre a sua decisão.
Eu já vi gente colocar opções de logo para empresa. Ó, que legal! Eu vou abrir a minha empresa, é minha, tá? Minha empresa. E aí o designer me manda 3, 4 opções, aí eu coloco nos Stories para as pessoas votarem. Ou seja, as pessoas vão definir qual é a imagem da minha empresa? Qual é o sentido disso? Se é a sua empresa, você que tem que definir. Esse é um cenário muito claro de que as referências internas foram completamente apagadas, e o excesso de estímulos é um dos principais responsáveis.
A hiperestimulação reduz a capacidade de reflexão profunda. O cérebro humano não foi projetado para lidar com múltiplos estímulos simultâneos de forma contínua. Quando a gente tá constantemente reagindo a notificações, notícias, vídeos curtos, mensagens, a nossa atenção fica fragmentada. Essa fragmentação gera fadiga cognitiva, gera ansiedade, gera sensação de dispersão, bagunça completamente a nossa cabeça. A sobrecarga de estímulos, responsabilidades, afazeres do dia a dia também contribui diretamente para a sensação de perda de rumo.
A distração passou a fazer parte da vida das pessoas. E distração não combina com construção. Se torna cada vez mais difícil construir e manter a solidez nas coisas, porque sem continuidade não dá para construir propósito. Sem propósito surge o vazio existencial. E a pergunta, e agora, para onde eu vou? Surge justamente porque a gente não consegue ouvir a própria vida em meio a tanto ruído, em meio a tanta interferência. Notificação, tanto estímulo.
Essa combinação de falta de referência, alteração da percepção de valor, excesso de estímulos e tudo que a gente falou até aqui levam a um ponto extremamente importante para que esse tema possa ser levado em conta: a desconexão e falta de valor do autoconhecimento. Se conhecer profundamente hoje é para poucos, mas não porque seja caro, porque é um item de luxo feito em lotes limitadíssimos. Não, é para poucos porque hoje se tornou algo muito pouco valorizado.
E como as referências internas praticamente desmoronaram, tudo muda e gira rapidamente. É como tentar construir um castelo de cartas em cima de uma esteira ligada. Terapia, que antes era considerado como algo até meio que secundário, ganhou um destaque muito grande durante a pandemia foi promovida, né, a um serviço de primeira necessidade, mas passada a crise parece que foi rebaixada a: ah, se der eu faço, mas tomara que não dê não.
Desculpa os que fazem isso, mas achar que conversar, desabafar com o IAP e pedir conselho para ela resolve os seus problemas é no mínimo ingenuidade, para não falar burrice. Achar que rede social é um pilar de construção de identidade É jogar no lixo tudo o que foi construído através de séculos do senso de individualidade. O mapa astrológico natal reflete um universo todo particular para o seu momento de vida, para o seu nascimento, que você leva para a vida inteira.
Ninguém é igual a ninguém. Sabiam que nem mesmo irmãos gêmeos têm a mesma expressão de mapa natal? Deixar que alguém, um completo desconhecido, dite as regras do que é certo e errado, o que você deve ou não fazer, gostar ou desgostar, é renegar a uma das coisas mais preciosas e mais bonitas que você recebeu no momento do seu nascimento: a sua essência. Sabe aquela música da Pitty que ela fala: Pense, fale, compre, beba, leia, vote, não se esqueça.
Use, seja, ouça, diga, tenha, more, gaste, viva. Quem quer ditar essas regras de conduta, seja para você, seja para qualquer outra pessoa, não tá nem um pouco preocupado com você, nem com seu propósito, e muito menos com a humanidade. Essa é uma preocupação totalmente egoística. Porque se eu controlo, se eu manipulo, isso me confere poder. Se eu tenho poder, eu consigo o que eu quero de uma forma ou de outra, de uma maneira muito mais fácil, obviamente.
Se você sabe de onde veio, sabe das suas origens, suas raízes, seus valores, conhece a sua identidade, a expressão da sua essência em todas as áreas da vida, trabalho, carreira, relacionamentos, estudos, enfim, ninguém vai conseguir colocar um cabresto em você. É por isso que eu falo: conheça seu mapa astrológico. Ninguém vai dizer para você aonde você tem que ir, o que você tem que fazer, como você tem que agir. E se disserem, você já vai ter as respostas, ou pelo menos meios de encontrar essas respostas por você mesmo.
E não tem nada mais gratificante do que a gente encontrar o nosso lugar no mundo, porque antes de mais nada a gente precisa entender que o mundo é o nosso lugar. A gente só precisa se localizar e se achar dentro das nossas perspectivas pessoais. A gente tá aqui para viver, para aprender, para evoluir, para crescer enquanto seres humanos, seres sociais, seres espirituais. Enfim, o tempo não vai desacelerar e parar e ficar esperando a gente olhar para dentro e encontrar os meios de solucionar as nossas crises existenciais.
Mas ele pode ser um grande auxiliar, um grande aliado nesse processo de descoberta. Saturno na astrologia, que é o tempo, não costuma ser muito amigável não. Primeiro ele dá uma bela de uma porrada na nossa moleira, faz a gente comer terra, rastejar. Aí quando você entende o que ele quer, você levanta a cabeça depois de muito penar na vida e você fala: agora eu entendi. Aí que ele te ajuda. Ele te levanta, ele te recompensa e a coisa fica estruturada.
O tempo não começou agora, nesse instante que você tá me ouvindo. O seu tempo começou lá atrás, no momento que você deu o seu primeiro respiro aqui na Terra. Olha para o seu passado, analisa tudo, faz uma avaliação profunda, sem julgamento, sem pressa. Se questiona quem você é de verdade. E quando você tiver essas respostas de forma profunda, satisfatória, e que não envolva falar, por exemplo, eu sou terapeuta, eu sou dentista, eu sou advogada, eu sou médica, aí sim você vai entender quem de fato você é.
Que a profissão é uma forma de expressão da sua identidade, mas não é a sua identidade. Quando você entender a sua real essência, A pergunta para onde eu vou vai se descortinando na frente dos seus olhos pouco a pouco. Por isso que eu falo da importância de conhecer o seu mapa astrológico. O primeiro passo é reconhecer que a sensação de estar perdido não é um defeito pessoal, não é uma falha, falta de disciplina, preguiça, incapacidade, não é nada disso.
É o contexto que a gente tá vivendo, é consequência de um mundo que mudou muito rápido de referências que entraram em colapso, de valores que se fragmentaram e de estímulos que se multiplicaram de forma absurda. Reconhecer isso é libertador, porque tira o peso de culpa e abre espaço para responsabilidade. Então, tira a culpa, substitui isso pelo senso de responsabilidade, que já vai transformar tudo numa coisa muito mais leve.
Segundo passo é reconstruir as suas pequenas referências. Não precisa ser algo gigantesco, grandioso, propósitos maravilhosos e imediatos, tá? Pequenas rotinas, pequenos rituais, pequenos vínculos já vão abrindo caminho para essa reconstrução. É no cotidiano que a gente vai se construindo. Um projeto pequeno que é levado adiante, uma conexão real, pessoas próximas no dia a dia, uma atividade prazerosa pelo simples fato de ser prazerosa, sem precisar performar, Essas pequenas referências funcionam como pontos de sustentação.
O terceiro passo é estabelecer critérios de valores pessoais. Como pós-pandemia bagunçou esse nosso termômetro interno, a gente tem que reconstruir. Isso significa decidir o que realmente importa para cada um, independente da pressão externa. Critérios são filtros que vão nos ajudar a escolher, a tomar decisões. Então, eu aceito trabalhos que respeitam o meu tempo de descanso. Eu invisto em trabalhos que me aproximem de pessoas que admiro.
Eu invisto tempo e esforço em projetos que me tragam reconhecimento. Eu não consumo conteúdos que me geram ansiedade. Eu invisto naquilo que me aproxima dos meus objetivos. Esses critérios funcionam como uma bússola interna. Eles vão nos ajudar a dizer não ao que não importa e sim ao que realmente é importante. Quarto passo é recuperar a atenção como recurso essencial. Atenção é o que constrói propósito. Então é preciso aprender a gerenciar estímulos.
Isso significa reservar tempo sem telas, criar rituais de foco, reduzir exposição a conteúdos superficiais, aumentar a exposição a conteúdos profundos. Significa valorizar o silêncio, meditação, escrita reflexiva, leitura, consumir conteúdos edificantes. Significa treinar a mente para estar presente. Exercícios de mindfulness ajudam muito. Inclusive, aqui você encontra também no canal, no podcast. Sem atenção não dá para construir propósito.
Quinto passo é cuidar do corpo: sono, alimentação, exercícios, contato com a natureza. O corpo não é separado da mente, ele é a base da mente. Então, quando a gente tá privado de sono, já falei também sobre a importância do sono aqui, então depois dá uma olhadinha no canal, você vai encontrar, a nossa capacidade de tomar decisões cai drasticamente. Quando a gente não se exercita, nossa energia diminui. Então, pequenas mudanças corporais têm efeito direto na sensação de direção da vida.
Se você tá se sentindo perdido, começa por regular o seu sono e o movimento. Faz alguma atividade leve, tranquila, mas principalmente regule o seu sono. Pode parecer básico e bobo, mas é fundamental. Sexto passo é buscar uma comunidade. Então, o propósito raramente é construído sozinho. Vínculos sociais, grupos, comunidades dão sentido. Então, participar de grupos e atividades coletivas cria pertencimento. E não precisa ser uma coisa grandiosa, tá?
Pode ser uma coisa simples, desde que te faça bem. Pode ser um grupo pequeno. Pertencimento alimenta o propósito. Então, se você se sente perdido, procura alguma comunidade que compartilhe interesses reais, não só de forma performática. Então, busque profundidade e não quantidade. Qualidade acima de qualquer coisa. Sétimo passo é reconstruir a narrativa pessoal, fortalecer a sua identidade. É muito importante que você se conecte com quem você é de fato, com o que você deseja.
Essa narrativa e identidade precisam ser reais, sinceras, honestas, baseadas nas suas verdades, na de mais ninguém. Sou alguém que busca aprender, sou alguém que valoriza vínculos, sou alguém que cria. Tudo isso ajuda a tomar decisões, funciona como critérios de identidade. Quando a gente tá diante de uma escolha, a gente pode se perguntar: essa escolha me aproxima do meu objetivo? Me aproxima do que eu quero de fato? Do que eu quero ser?
De quem eu quero ser. Oitavo passo, já até falei sobre isso: ajustar expectativas. Muitas vezes a sensação de estar perdido vem da expectativa irreal de alguma coisa, da comparação com falsas realidades vistas na internet, rede social. A exceção tá sendo mostrada como regra, principalmente no digital, né? Então isso faz com que as pessoas tenham sonhos e metas irreais, inatingíveis, levando à frustração, porque fulano conseguiu, ciclano conseguiu.
Aquilo é só um recorte da realidade, muitas vezes nem é real. A busca por clareza imediata, sucesso rápido, propósito grandioso, tudo isso mais confunde e atrapalha do que estimula e incentiva. A clareza vem em camadas, o sucesso é resultado de um processo, o propósito é construído. Ajustar as expectativas é um ato de compaixão com você mesmo. É permitir que o caminho seja feito de pequenos passos, de erros, de acertos, de ajustes, de aprendizados.
É valorizar cada pequena experiência, cada pequena conquista. Nono passo: experimentar. Não espere ter certezas absolutas, verdades incontestáveis para poder agir. Com segurança, obviamente, vá trabalhando com as possibilidades e com as hipóteses que você tem naquele momento. Teste projetos pequenos, hobbies, rotinas, experimente novas formas de trabalhar, de se relacionar, de se divertir. Experimentar gera informação e experiência que permite tomar decisões melhores.
Mudar de rota não é fracassar, é ajuste de curso. O importante é não ficar paralisado. Movimento gera sentido. Eu tenho ouvido muito isso ultimamente: queria mudar de área de atuação, mas e todo o investimento que eu fiz na faculdade? Ou: e o investimento que os meus pais fizeram na minha faculdade? Mudar a rota não é demeritório. Os objetivos de vida mudam, os propósitos são reconstruídos, ou novos propósitos surgem no lugar dos antigos, e tá tudo bem.
O que não dá é para ficar a vida toda se lamentando e sofrendo com a dor da incerteza de: e se eu tivesse feito a mudança que eu queria? Então, a pergunta: e agora, para onde eu vou? Não tem uma resposta definitiva. Não sou eu que vou dizer para você: vá para lá ou vá para acolá. Ela é uma pergunta que precisa ser feita continuamente. O caminho não é linear. O mundo não tá estável, as referências mudam, os valores mudam, os estímulos mudam.
Então não dá para desenhar a vida igual um projeto arquitetônico de um prédio. A gente precisa viver um dia de cada vez, ela vai se desenhando conforme a gente vai vivendo. O que a gente pode fazer é construir direção a partir de pequenas práticas, de critérios pessoais, de atenção consciente, de cuidados com o corpo, de vínculos comunitários, de narrativas de identidade, de expectativas realistas e de experimentação constante.
Direção não é algo que se encontra, é algo que se constrói. E se você tá se sentindo perdido, saiba que você não está sozinho. Estamos todos de alguma forma tentando reconstruir um sentido num mundo que mudou rápido demais. O caminho não é fácil, mas é possível. E começa com pequenos passos repetidos diariamente, com um propósito, com uma intenção determinada. Então, se você gostou, já encaminhe esse episódio para alguém que também tá se sentindo perdido com os rumos da vida.
E a gente se encontra no próximo episódio para mais uma vez colocar a terapia em dia juntos. Até lá!