Episódios de Vocês Sabem Lá

Bruno Martins com Luís Varatojo

10 de maio de 20261h4min
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É o criador do projeto Luta Livre, que lançou em 2025 o disco Contrafação, mas que é também uma figura histórica da música portuguesa, em bandas como Peste & Sida; Despe & Siga; A Naifa ou Fandango.

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Assuntos10
  • Análise dos discos do Luta LivreContrafação (2025) · Técnicas de Combate (2021) · Defesa Pessoal (2023) · Temáticas abordadas: política, iniquidade, comportamentos
  • Carreira musical de Luís VaratojoHistórico em bandas portuguesas · Projeto Luta Livre · Evolução sonora e criativa
  • A vida em Lisboa e o impacto do turismoPressão do turismo no comércio e na qualidade de vida · Perda da identidade local em detrimento de lojas multinacionais · A importância de manter a vida de bairro
  • A experiência de trabalho solo vs. em bandaResponsabilidade e liberdade criativa no trabalho solo · Saudade do espírito de banda e colaboração · Importância da consulta a amigos e família
  • Processo criativo e inspiraçãoImportância do prazer e da invenção · Influência de experiências passadas · Coleta de informação e colagem · Trabalho diário e disciplina
  • O espírito do Punk RockAtitude de ruptura e contestação · DIY (Do It Yourself) · Punk como atitude, não gênero musical
  • Origem e evolução do nome 'Pesticida'Metamorfoses do nome da banda · Impacto social e escândalo do nome 'Sida' · Influência da Fonte da Telha
  • A Naifa e a aproximação à cultura portuguesaDesconstrução do termo 'Portugalidade' · Influência do Fado e da guitarra portuguesa · Carlos Paredes e Amália Rodrigues
  • A cena musical em Portugal: locais e festivaisComparação entre locais de atuação nos anos 80 e atualmente · Criação de espaços para concertos · Proliferação de festivais pelo país
  • Influência da arte plástica e da pintura
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Este é um podcast RTP Antena 3. Há muitos mais para descobrir na RTP Play. Vocês sabem lá.

com Bruno Martins. Bom dia e bom domingo. Começa agora mais uma edição de Vocês sabem lá, aqui na RTP Antena 3. E hoje, para a conversa, trazemos um dos nomes históricos do punk, do rock em Portugal, nos anos 80 e 90, nos Pesticida, depois nos Despiciga.

mas também um artista que não se escusou aos desafios criativos e foi sempre à procura de mais, no projeto Linha da Frente, na Naifa, em Fandango, até ao projeto musical que edita hoje, Luta Livre, e com um disco editado no final do ano passado. Falo, por isso mesmo, de Luís Veratoujo. Bem-vindo, Luís, é um prazer estar aqui contigo. Olá, bom dia. Obrigado.

Eu comecei por fazer aqui um mini resumo Daquilo que são as bandas, os grupos, os projetos Por onde tu passaste e onde estás agora Em luta livre Quando tu ouves este despejar de nomes históricos Há alguma coisa que te venha de imediato à cabeça? Ou algum sentimento que te desperta em particular?

Estou velho Já passou tanta coisa, não acredito É a primeira coisa que me veio à cabeça Ok, e a segunda? Porque quer dizer, isso de velhista Não quer dizer que seja uma coisa má, não é?

Nada disso Não podia estar De forma nenhuma a dizer que isso é mau Se não está a dizer que Não me apetece estar aqui Nada disso Realmente olhando para esses nomes todos E pensando que é

4 discos a um, 5, 7 a outro Cada projeto tem vários E cada disco demora 2 anos a fazer E dá para fazer as contas E perceber que há muito tempo passado Mas também Eu olho para trás E olho para essa lista E gosto daquilo que vejo Eu posso dizer Se calhar não fazia

Em 87, se calhar esta música não tinha escolhido este som Ou não tinha escrito esta letra Ou não tinha gravado desta forma Obviamente que sim Porque eu não sou exatamente o mesmo que era em 87 As pessoas não mudam a sua essência Mas vão-se modificando aos poucos

Vamos aprendendo aos tempos Vamos aprendendo E toda a gente diz isto Eu não faria esta música daquela forma Mas mesmo assim eu olho para trás com orgulho Naquilo que fiz Gosto desta diversidade E no meu ponto de vista Para mim há aqui alguma coerência no trabalho Gosto daquilo que tenho deixado feito Que tenho deixado gravado

É a sensação que me dá também quando hoje em dia ouço isto que fazes, estes discos que tens feito de luta livre, essa coerência, mas já lá vamos. Apesar de todos estes nomes de grupos e de bandas, há uma coisa que te caracteriza, parece-me a mim. Tu és um músico que tem se calhar os olhos mais postos no presente e no futuro do que propriamente no passado.

Estou certo? Sim Como estava a dizer Gosto de olhar para as coisas que fiz E de vez em quando ouço E gosto de ter deixado Essa marca Sobretudo porque Gosto do presente E gosto de olhar para o futuro Gosto de inventar Gosto de me pôr a fazer coisas Que talvez ainda não tenha feito Gosto de me pôr a fazer coisas

Eu não gosto nada de repetir, por isso tenho feito várias coisas diferentes. Não me dá gozo quando estou a repetir uma fórmula, mesmo dentro da mesma ideia de projeto. Eu posso ter feito uma música que resultou muito bem e ter achado ali uma fórmula, mas não me apetece voltar a repeti-la só porque não me dá gozo quando vou para o estúdio começar a trabalhar numa coisa que já sei qual é o resultado final.

Então gosto de inventar e gosto de explorar. E por isso, obviamente, gosto mais de olhar para a frente, de olhar para o futuro e de aproveitar ao máximo o presente. E a forma de aproveitar ao máximo o presente é tentar fazer coisas que me deem prazer e que me deem gozo.

Agora, aquilo que eu faço hoje em dia é muito resultado da variedade de coisas que eu fiz e das coisas que eu experimentei. Tenho consciência que de vez em quando eu estou a utilizar alguma coisa que tirei da altura dos pés.

Ou que tirei da altura dos 10 Ou que vivenciei com a Naifa Por exemplo Tenho noção que isso vai transparecendo Naquilo que eu faço Por isso é que eu gosto muito de olhar para trás E tenho orgulho naquilo que fiz Mas Ir buscar esses Por exemplo E fazer um revival Voltar com os pesticida Ou com os 10 pisciga Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

É uma coisa que a mim não me... Não te entusiasma? Não me passa, não me entusiasma nada. Quer dizer, o punk apareceu para arrasar com o que estava para trás. E agora fazer exatamente o contrário disso é ir contra tudo aquilo que deve ser, não é?

Mas consegues perceber quem o faça e até perceber que ainda há, até do ponto de vista do ouvinte, que esse lado do punk de punho fechado e vamos para a frente e vamos para cima, continua a fazer sentido para muita gente.

Apesar de tu não teres vontade Se calhar de o fazer Acho que o punk, cada um entende Ninguém é dono de nenhuma ideia Por isso o punk é de todos Cada um faz o que quiser com o punk E para mim o punk é

É fazer algo contra aquilo que está a acontecer. E fazer uma coisa... Não é entrar na moda, é fazer uma coisa diferente. É apostar numa coisa diferente. É negar aquilo que está no mainstream. É arrasar o que está para trás. Isto é a lição que eu tirei do PEC. É o faça-você mesmo. É o não entrar em jogos com editoras. É o não entrar em jogos com as produtoras de espetáculos. É o não entrar em jogos com o mainstream.

E é tentar, com isso, criar alguma coisa válida, artisticamente válida, mas que seja antítese disso tudo. E feita, que é o do it yourself, faz com os teus meios, portanto não te sintas pressionado por nenhum dos lados. Portanto, isso é a essência. Se se transforma numa música que tem guitarras e bateria, ou se transforma-se numa música que tem adufos e cavaquinhos, isso já é outra coisa.

Eu acho que o punk não tem nada a ver Não é um género de música Aliás os Sex Pistols Deu naquilo por acaso Podia ter dado noutra coisa E depois sobretudo Há uma série de bandas Daquilo que hoje em dia se chama pós-punk Mas nessa altura não se chamava Chamou-se New Wave, chamou-se outras coisas

Há uma série de bandas que disparam em N direções diferentes e que não são aquela música dos três acordes de guitarra com destrução, baixa bateria, como fizeram os Ramones ou os Shakespeare's. Mesmo os próprios Clash, já ainda em 77 e em 79, sobretudo com o álbum com o London Calling.

mantém essa atitude de rotura com uma série de situações, com o sistema, com muita crítica social, muita política, etc. Mas a música desse álbum já é um coquetel de tudo e mais alguma coisa. Desde reggae, rock'n'roll, blues, soul. E depois no saninista ainda mais. E a atitude continua a ser punk.

O punk não é pegar numa guitarra com destrução e tocar a dois tempos uma música com 120 bpm ou 140. Eu acho que é outra coisa. E pode ser muita coisa, desde que seja contra aquilo que está em vigência.

Sim, e se pensarmos, até estavas a falar nestas bandas do pós-punk que apareceram posteriormente, mas que na verdade se prolongam até aos dias de hoje. Se pensarmos em bandas hoje em dia como os Idols, ou como os Fontaine DC, que têm essa alma, não esses três acordos de que tu falas. Nada disso, os Idols não têm nada a ver com isso. Não têm nada a ver com isso. Tem a energia. A energia e a forma como é dita.

Lembrei-me agora que estávamos a falar de pós-punk Os Bow House, por exemplo É uma banda com muita energia punk E não tem essa sonoridade Uma banda com determinada sonoridade Esta é uma banda punk Uma banda punk é uma banda que rompe com alguma coisa Não é a sonoridade E os Bow House, por exemplo, são um bom exemplo disso

Exatamente. Tu neste projeto Luta Livre, que começaste em 2020, 2019, 2020, pelo menos na construção de canções, como é que tu o consideras? Tu enquadras nesse espírito de punk, porque é esse ainda o teu espírito, deixando de parte os três acordes, mas esse espírito de tentar marcar uma diferença e tentar deixar para trás aquilo que está mal e seguir em frente.

Em primeiro lugar, como eu te disse há pouco Para mim o importante é quando vou trabalhar Quando vou escrever ou fazer música Aquilo dar-me algum gozo Estou-me aborrifado para isso se alguém gosta Desde que me dê gozo quando estou no estúdio Aquilo que está a sair E que eu ouço, que vou gravando E ouço-se, aquilo me entusiasma É por aí que eu vou E depois, quando escrevo Há um monte de coisas À minha volta que me fazem abrir os olhos E me fazem...

Preocupar e dar atenção E essas coisas Vão aparecendo no meu bloco de notas E portanto a escrita vai por isso São coisas que me chamam a atenção Que eu acho que devo falar Eu tenho Preocupações sociais

Isso faz parte da minha vida e da forma como eu fui educado. Vou sempre votar, sou um cidadão preocupado com os outros e olho à minha volta e vejo muita injustiça e vejo muitas coisas que estão mal. E mesmo quando escrevo com humor, eu nunca deixei de escrever com humor. Eu sempre escrevo com um certo sentido de humor.

Com alguma ironia? Ironia, sim, claro. Mas esses temas estão lá sempre. Mesmo quando estão muito disfarçados, ou há muitas metáforas, esses temas estão lá sempre. É isso que me impele a escrever. Portanto, há a parte da temática e depois há a parte da música que é aquilo que me vai dando gozo ouvir. Eu vou gravando e me vai dando gozo fazer.

Se isso naturalmente dá em sonoridades que se calhar não estão na crista da onda, melhor ainda, mas eu não procuro isso com grande sagacidade. Eu vou fazendo aquilo que me dá gozo e vou escrevendo sobre aquilo que me importa.

E se esse cocktail depois dá numa coisa diferente Ótimo, não é? O que interessa é que chegue ao fim do trabalho Eu ouço o disco e estou satisfeito com isto E o que tenho feito com... É nesse final que se percebe a tua essência Que é importante para ti que esteja presente Nas canções

Eu acho que sim Não sei se é assim tão complexo como isso Mas é isso, no fundo Fazes letras Juntas as músicas Tiveste gozo no processo todo Dizes aquilo que queres dizer É aquilo que tu és Exatamente Sim, exatamente

Olhando um bocadinho para este presente A tua luta livre O teu mais recente projeto Tu já editaste três discos Editaste no final do ano passado O Contrafação De 2025 O primeiro foi em 2021 As técnicas de combate E em 2023 veio o Defesa Pessoal

O que é que une todos estes discos? Olhando para eles, qual é que tu achas que é a cola que os une? Acaba por ser um bocadinho isto que tu estavas a dizer, talvez, a tua essência, mas conseguimos elaborar um bocadinho mais.

Eu acho que aqui, olhando para os três disto, há uma coisa que os pode unir logo de início, que é um retrato da paisagem que nos rodeia. Acho que isto ainda não mudou muito, ou se mudou foi para pior, mas os assuntos são muito estes. Se nós olharmos à volta, por exemplo, no primeiro disco falo...

de coisas tão genéricas como o que é que é a política. E depois falo que a política é nós participarmos na vida pública, sermos cidadãos ativos. O referão diz que associações, sindicatos e partidos, as classes dominantes têm horror aos coletivos. E fala disso, que a política no fundo é uma ideia coletiva.

E que nós temos que pensar como coletivo e não como indivíduos para que as coisas possam melhorar. E temos que ter essa participação. Depois há um tema que é a iniquidade, que é uma coisa muito simples, que faz um retrato muito simples de toda a riqueza que há no mundo e como é que ela é distribuída hoje em dia, cada vez de uma forma mais injusta.

Portanto, há aí uma série de temas E o resto do disco anda por aí também São temas genéricos Que falam de ideias ou de conceitos genéricos Mas que têm a ver com A forma como nós vivemos E nos posicionamos no mundo hoje em dia No segundo disco

Eu escrevo histórias mais pessoais, que estão mais perto de mim. O TZ no Barreiro, por exemplo, é a história de um jovem estudante que saiu da faculdade com boas notas, bem formado, com tudo aquilo que o Estado lhe pediu para ser, mas depois não consegue ficar em Portugal porque não consegue alugar uma casa. Então nem que ir para o estrangeiro trabalhar.

Há outra história, há uma história, por exemplo, que é a balada do trabalhador, que é a história de uma pessoa que começa a trabalhar aos 12 anos e depois passa a vida toda a trabalhar, obviamente, e acredita que tem o sonho de que trabalhando toda a vida vai conseguir, no fim da sua vida, viver de forma desafogada e etc., mas não, é um logro.

É uma história pessoal também, por exemplo, a história do meu pai. Esse segundo disco tem a ver com histórias pessoais, mas também, no fundo, essas histórias pessoais representam muitas histórias. Acaba por ser a nossa história coletiva também. Exatamente. E no terceiro disco, eu continuo a olhar à volta e desta vez apeteceu-me escrever sobre...

mais sobre comportamentos, o que é que nós somos perante determinados assuntos, como é que nós nos posicionamos perante o assalto a que temos sido sujeitos em termos culturais. Nós defendemos a nossa cultura ou nós tentamos adaptar a nossa cultura ao modelo que nos é imposto.

Eu falo mais sobre isso, no Fado Imperfeito, por exemplo, nas estufas e alojamento local, que falo que até o Fado não se salvou de ir a leilão. No fundo é a nossa realidade dos dias de hoje mais focada aqui em Portugal. Portanto, no primeiro diz que conceitos mais genéricos, no segundo histórias mais pessoais, e neste tem a ver mais com comportamentos do que propriamente com casos específicos pessoais ou genéricos.

Eu acho que isto é a forma como vejo Como o assunto dos três discos se liga Isto é uma análise que tu fazes agora Que os três discos estão Estão disponíveis Estão para escuta, estão para compra, etc Ou é algo que tu Planeaste? Não sei

Fizeste esta análise posteriormente, não é? Claro, as coisas vão saindo. Quando fiz o primeiro disco, nunca me passou pela cabeça se ia fazer um segundo ou não. E depois nunca me passou pela cabeça se ia fazer um terceiro. As coisas não consigo planear. Acho que ninguém consegue planear. A não ser que tivesse pensado fazer um triptico. Não, temos que experimentar. Eu gosto muito de pintura.

Gosto muito de artes plásticas A minha formação também vem daí Onde estive nas Belas Artes E conheço bem Ou conheço uma boa parte Da história da arte Gosto muito de alguns pintores, sobretudo modernos Por exemplo, um dos mais conhecidos O Picasso Achas que o Picasso de início Programou logo que era ir a fazer o período azul E o período rosa Claro que não, ia inventar o cubismo Não estou minimamente a comparar com o Picasso Calma lá Mas Ent leukempos Ent leukempos

Quer dizer, as coisas acontecem se tu fores todos os dias para o estúdio trabalhar. Começam a acontecer coisas, começas a produzir. Muitas vezes são coisas que não prestam vão para o lixo, outras às vezes aproveitas, mas vais construindo um discurso, uma ideia, não é? As fases, não é? São as fases. E cada disco aqui é uma... Dentro da luta livre, cada disco é uma fase que mora mais ou menos dois anos. Eu não sei se irá haver um quarto ou não. Sinceramente, não sei, porque só quando começa...

a escrever alguma coisa ou a compor é que percebo se aquilo vai a algum lado ou não. Eu quando acabei o primeiro disco

Ou melhor, quando comecei a fazer o segundo, quis começar a fazer o segundo, a primeira coisa que fiz foi ir pegar em coisas que sobraram do primeiro álbum. Eu tinha estado sobretudo a trabalhar a samplar discos de jazz, a aproveitar beats, frases, sons para construir música. Isso é uma marca do primeiro álbum, em termos sonoros. E no segundo eu pensei, bem, se calhar vou pelo mesmo caminho, vou ver o que é que tem aqui no disco rígido, o que é que sobrou que pode ser...

Pode ser usado E comecei, tinha 4 ou 5 coisas que tinham sobrado Comecei a trabalhar E arrumei Em dois dias Arrumei aquilo porque

Não era por ali Trabalhar naquela sonoridade Já não me estava A dar gozo Então peguei na guitarra elétrica E fui ver o que é que dava E deu nesse segundo disco Mas se não desse Se não conseguisse fazer 10 canções que me agradasse Não tinha feito Acho que as coisas acontecem se nós formos trabalhar Aquela ideia do gênio Que vem a ideia lá de cima E num dia faz uma coisa

Super brilhante Eu não sei se isso acontece a alguém Mas eu acho que nem ao Einstein Primeiro o Einstein trabalhava muito Para conseguir chegar lá Imagino que sim Uma vez ouvi o António Lubantunes Numa entrevista em que ele dizia Perguntava-lhe como era o método de trabalho dele

E ele dizia, levanto-me todos os dias e às oito da manhã estou à secretária a escrever. E estou até às oito da noite a escrever. E às vezes ao fim do dia eu machuco tudo e mando fora. Mas só se eu escrever todos os dias é que vou conseguir produzir...

textos que me agradem para conseguir fazer o meu trabalho e conseguir fazer os meus livros portanto não é um dia que eu estou especialmente inspirado é a consequência de um trabalho diário é quase um trabalho operário Esse trabalho diário e pelo que eu tenho lido também noutras entrevistas e tenho escutado noutras conversas que tu tens tido ou passava, a minha curiosidade até era um bocadinho essa passava muito pela recolha de recortes Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

notícias de corta e cola de notícias ainda funciona dessa forma ao terceiro disco isso funcionou no primeiro o primeiro eu escrevi as letras basicamente a maior parte, não todas, mas a maior parte delas foi com ideias que recortei, que tirei, houve algumas colagens até

Que me deram um certo gozo fazer nessa altura Que até eram espelhadas, na verdade No próprio grafismo do disco Acho que isso está bem espelhado Pela colagem do João Pombeiro Que é a capa do disco Mas foi feito com essa técnica Porque eu já andava a recolher Informação, já não são recortes São frases que faço copy-paste E vou juntando

É interessante que este projeto também cresce, também nasce e desenvolve-se numa altura, numa grande explosão daquilo que são os canais de comunicação, de uma grande mudança na forma de consumir informação, naquele período, digamos, pandémico e pós-pandémico, em que há um crescimento muito grande de canais de informação.

de sites de informação de sites que se dizem ser de informação mas que afinal não são e eu fiquei com esta ideia, eu acho que é preciso ter para quem trabalha e para quem, no teu caso a matéria-prima acaba por ser muito aquilo que é o consumo de informação e o dia-a-dia às vezes é preciso ter um bocadinho quase de

Digamos, quase de uma casca grossa Para conseguir Ler tanta coisa Que é dita e que é escrita E absorvê-la de uma forma Para ser transposta em arte Útil E ser transformada em música Coisas que muitas vezes são duras E são pesadas e são cansativas O sofrimento de tanta gente Não falo só de guerra Falo das pessoas que muitas vezes não têm Dinheiro para encher o depósito do carro Ent leukeas vezes

Às vezes é preciso ter um bocadinho de estofo para fazer isto, não é, Luís? Sim, claro que sim. Em termos do excesso de informação, eu acho que o que devemos é escolher os meios que usamos para obter informação. Ou seja, para mim, muito desse lixo passa-me ao lado porque eu não consumo.

Eu leio determinados jornais Online Vejo determinados canais de televisão Ouço determinadas rádios E pronto, eu tenho a noção que estou numa bolha E há outras pessoas que estão noutra bolha Mas até as redes sociais muitas vezes Atiram-nos coisas para cima Sim, sim, nas redes sociais Apesar do algoritmo safa-nos de uma série de coisas

Mas também nos chega, não é? Safa-nos, mas chega-nos. Põe-nos numas palas, não é? Só olhamos para aquele lado. Mas, como tu disseste, é tanta a informação, e muitas vezes não é informação, é desinformação, que o melhor é nós protegermos-nos mesmo. E quando identificamos fontes de informação que são tóxicas, o melhor é não estarmos expostos a elas, porque senão é perigoso mesmo. Por isso eu tento protegermos disso.

Em relação Usei bastante a informação É verdade, para fazer o primeiro disco O segundo já não tanto O segundo andei mais à volta dessas histórias pessoais E foi mais olhar Para os familiares e para os amigos que eu tenho à volta E foi aí que eu fui apanhando as histórias E neste terceiro tem mesmo mais a ver Teve mais a ver Até com viajar pelo país Do que propriamente com apanhar Coisas na internet Ou nas redes sociais É um bocado Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

É um bocado resultado, no fundo, daquilo que eu vou vivendo e que vou experienciando e que vou fazendo. E por isso, nesta altura, não me sinto contaminado por notícias más. Eu vejo as notícias. Aliás, eu tento ultimamente até... Posso dizer que se calhar em 2020 via muito mais canais de notícias do que neste momento. Neste momento, para mim, é impossível.

Sobretudo com as últimas guerras E a forma como elas são tratadas Eu dispenso essa informação Eu prefiro abrir o The Guardian Ou o público E ver a notícia E ler a notícia E ver um ou dois artigos de opinião E para mim é o bastante Estar com um loop de guerra 24 horas em cima E documentário sobre guerra 24 sobre 24 E ver a notícia

Eu acho que é nocivo Eu acho que isto pode até causar problemas De saúde mental Há muita gente exposta a isto Muito tempo E eu acho que isso é tão mau como está exposto a reality shows Também 24 sobre 24 Acabamos por ser quase sempre um O melhor é irmos apanhar ar um bocadinho É verdade, é verdade E tu disseste isso Que este disco até acaba por nascer muito desse Apanhar ar pelo país Ele acaba com uma música que é o Baixa Mar Que é o meio da praia No Algarve ou não?

Eu não digo que é no Algarve, mas é sul. Mas sei que tu tens mais essa tendência para sul, não é? Eu gosto mais da água quente. Da água quente, exatamente. Tu tens vindo a construir essa identidade sonora à volta desta luta livre.

Ainda que o resultado, acho eu, nos três discos, não seja de um disco de um homem só, nada disso, se calhar até pelo contrário, se calhar se pensarmos até no primeiro, convidaste-me um monte. Sim, no primeiro não é nada disso. Nada disso, mas o processo criativo se calhar é o mais solitário que tu tiveste até hoje.

É um trabalho de autor Um trabalho solo basicamente Faço as letras e as músicas O trabalho criativo é esse O trabalho dos arranjos também é criativo Mas pronto, aí entram Por exemplo no primeiro disco Tenho dois saxofonistas Tenho um teclista, tenho um guitarrista Tenho várias vozes Tenho um ator, tenho a cantora A Kika Santos, tenho o João Pedro Almendra E aí

Portanto, há mais intérpretes, mas a composição e a escrita é minha. Por isso é um trabalho solo, sem dúvida. Exatamente. E nos outros discos, ou nestes, nos outros dois discos, como é que tem sido? Tem sido um trabalho também ele de criação solitária para depois levar-se para o palco? Sei que nesta altura estás a tocar com o Ivo Palitos. É um quarteto, sim. Um quarteto, exatamente. Depois, aquilo que é transposto para o palco, realmente é feito em...

Porque eu também durante este tempo todo E desses projetos que falámos logo no início Por exemplo Eu comecei como guitarrista E também ali um vocalista Em tempo parcial nos pesticida Depois nos desp Vocalista e guitarrista Mas também Numa altura já do segundo e do terceiro álbum Comecei a interessar-me pelas eletrónicas Então fiz algumas

programações para esses dois discos últimos dos 10 PC o 99.9 e os Primos e isso depois passou quando fiz a linha da frente com o João Guardel e mais uma série de cantores aí da nossa praça dessa altura de meados dos anos 90

Agarrei mesmo a parte eletrónica O João também tinha muito esse interesse pela eletrónica Então nós basicamente fizemos esse disco Os dois Com um convidado ou outro Uma guitarra, uma bateria Numa música, o resto nós programamos tudo E também gravei alguns baixos Ele tinha um estúdio Eu também tinha estúdio nessa altura

Nós vamos recolhendo equipamentos, baixos e teclados, computadores, sintetizadores, pedais, etc. Tu acabas por ir tocando tudo, não é? E quando começas a programar, a pensar em fazer uma coisa mais ou menos a sol ou a sol...

Até podes pensar Ok, eu vou fazer a maquete Pegue aqui no baixo, faço uma programação Pegue na guitarra e depois convido malta para gravar Mas às vezes aquilo, se tens um estúdio Já fica num resultado final E às vezes não, eu não vou repetir isto Isto está bom ou não vou fazer outra vez

Tu acabas por gravar tudo, não é? O baixo, a programação, a guitarra, a voz E as coisas acabam por se encaminhar Para tu deixares, pelo menos no disco As coisas dessa forma Depois quando vais fazer concertos Obviamente que não consegues tocar tudo E é muito fixe, gosto muito de ter pessoas a acompanharem-me no palco E sermos quatro em vez de um é muito mais divertido Exatamente Foi por isso que certamente terás chamado E isto numa entrevista também Se não estou em Erro com a Agência Lusa Ent leukeas alternativas

Tu dizes que este disco Acaba por ser um projeto É um processo de simplificação em curso Isso tem a ver com os arranjos Dos discos Mas isso acaba por estar relacionado também com a forma De construção do projeto E da música Este último disco Portanto se o primeiro foram os samples De jazz e a eletrónica No segundo peguei na guitarra elétrica Mas músicas mais rock

Como o Conde do Vigário A panela de pressão Que é um reggae rock Mais à clash E muita guitarra elétrica A bateria Neste terceiro álbum Eu tinha andado a fazer uns concertos Já num formato mais acústico

Porque tinha sido desafiado pelo Festival Política Para fazer um concerto Neste formato mais acústico Eu agarrei, fiz uma série de versões Dos outros dois discos Para um quarteto acústico Guitarras acústicas e uma progressão eletrónica Minimal e vozes E nesse embalo Acabei por compor as músicas deste disco

Porque não larguei a guitarra acústica Continuei E foi com ela que eu fiz as músicas deste disco E depois quando vi as músicas Também ainda em formato maquete Com essa guitarra acústica E com os apontamentos eletrónicos Já que tinha gravado

Eu gostei da forma como o disco suava E então achei que Apesar de início Até me tinham passado pela cabeça Meter uma guitarra portuguesa aqui Um acordeão a colar E outros instrumentos Por exemplo, no segundo disco tem um coro grande Gosto pelo Collective Com arranjo mesmo para coro

E havia aqui músicas que até pediam isso Só que quando eu vi esse resultado Da maquete que eu fiz Achei que aquilo não era maquete Já podia ser o disco E gostava, honestamente, gostava E ainda gosto muito de ouvir Se calhar o disco que eu gosto mais de ouvir Destes três é este último

E achei que podia ficar assim Portanto é um disco muito simples Só tem mesmo a guitarra acústica Eu não pus baixo sequer Tem alguns sintetizadores que eu gravei também Alguma eletrónica, alguma programação Uns beats, mas também simples Eu não quis ir para aqueles beats Com bombos muito fortes E tarolas, etc A pontuar, não é?

mais simples e achei que aquilo fazia muito sentido. Gosto da paisagem sonora do disco. E foi o processo de simplificação em curso. Agora não sei o que é que será a seguir, se for à capela. Vamos ver. Vamos ver. Vamos ver o que aí vem. Neste caso, achas que a voz e as palavras acabam por ganhar uma preponderância especial?

Tem mais espaço, sim. Ouve-se mais o que tu dizes. Não estou a dizer que não se ouvia nos outros. Os outros percebe-se bem. Não, acho que sim. E são discos... Uma coisa que eu tenho... Sou exigente quando gravo a voz. Não sou um cantor. Falo, rap, canto. Depende da música. Mas não sou especialista em nenhuma área. Mas uma coisa que eu faço questão é que as palavras se percebam todas. E eu acho que isso está conseguido. As palavras se percebem muito bem.

Aquilo que é dito é importante Não estou a cantar só um lalá lá Estou a dizer coisas que são importantes E portanto acho que Faço questão que só sai O último take é só quando Isso está mesmo tudo perceptível Agora quando as canções têm muito menos Sons Quando tiras uma bateria

Tira as guitarras elétricas Abre-se todo um espaço Sónico Onde a voz pode entrar Por exemplo, aqui baixei bastante o registro Da voz Passei para um barítono Mas aqui passei mesmo Para o registro mais grave Do barítono A maior parte das canções estão vocalizadas assim

Isso também foi possível porque havia espaço para isso. Porque se fosse, não conseguia furar dessa forma, falar ou cantar dessa forma, se tivesse uma parede de guitarras, baixo e bateria. Exatamente. Já percebemos que não és um homem de saudades, de saudosismos, mas nem nesse processo criativo tu sentes sozinho.

Nesse processo criativo de estar à procura de canções Eu gosto muito deste Há quem comece logo a carreira Fazendo discos a sol Há montes, nós conhecemos vários na nossa praça Eu comecei com banda Gostei muito do espírito das bandas Peste e Sida éramos 5 Aquilo é irrepetível O que aconteceu quando tínhamos 22 anos, 23

É irrepetível E foi rápido e bom Como se costuma dizer E não dá para repetir Depois em Despiciga Uma parte da banda era a mesma Mas entrou depois mais gente Que trouxe ali outras experiências Aprendemos todos E também foi muito bom Toda essa experiência De estar numa sala de ensaios Com várias pessoas Discutir ideias Às vezes chatearmos por causa de um solo de guitarra Isso foi muito bom e faz parte Ent leukeas

Depois estive, por exemplo, na linha da frente, éramos um coletivo. Eu e o João dirigíamos as coisas, mas obviamente havia ali muito um papel importante do Rui Duarte dos Rampos, do Janela dos Cossão de Lola, da Viviane, da Dora, dos Delfins. E, portanto, era um grupo gigante. Depois, na Naifa, voltámos a um quarteto, uma experiência através da química.

Só de quatro pessoas em palco. E eu ainda não tinha experimentado aquela coisa como é que é fazeres um... Volto de volta à analogia dos pintores e das artes plásticas. Estás em frente a uma tela sozinho e agora o que é que vais fazer? E se não gostas, podes mandar lá abaixo porque não tens ninguém ao teu lado a dizer peraí, não deites isso fora que isso é bom. E tu podes cometer o maior erro, mas a responsabilidade é tua, não é? E eu estou a gostar muito, finalmente...

de ter essa oportunidade de decidir para o bem e para o mal aquilo que fica registado nos discos e aquilo também depois que vai para o palco portanto neste momento eu acabo por comatar essa entre aspas, essa saudade do grupo quando vamos tocar e quando ensaiamos e vamos tocar para o palco mas agrada-me muito esta parte da responsabilidade total quando estou a gravar e a descobrir as coisas

Estava aqui a lembrar-me de uma conversa que tive há uns bons anos já com o Totripes, já com Dead Combo, que lhe perguntei se ele não tinha saudades dos tempos de banda, dos tempos de Lulubline, por exemplo, e ele respondeu, na altura que estava de caro só com o Pedro Gonçalves.

respondeu, não tenho saudades nenhuma disso porque aquilo era sempre uma confusão porque a malta chegava tarde aos ensaios ou não aparecia e fez-me lembrar um bocadinho quer dizer, não o disseste dessa forma mas acabou por me fazer lembrar um bocadinho essa memória mas tem coisas muito boas por exemplo, se voltar aqui atrás aos pesticidas, aquele primeiro momento em que todos muito novos, toda a gente quer participar e meter coisas at leukeas

Canções ou músicas que apareceram assim de repente Porque havia muita adrenalina no ensaio Alguém fazer uma frase e o outro Peraí, faz isto também E o outro, não, não, volta atrás, metemos aqui esta parte E aquilo ao fim do ensaio de uma hora estava uma coisa já feita Isso não acontece quando tu estás a trabalhar sozinho As coisas são feitas de outra forma Aparece muita dúvida, certamente, não é? Neste trabalho a... Sim, sim, claro, claro

Mas também toda essa experiência passada E todas as pessoas com quem Com quem me cruzei Às vezes são úteis para desfazerem Essas dúvidas Se estivesse com o João, por exemplo O que é que ele acharia desta parte? Ah, ele não ia gostar, vou mandar fora Ou então, é pá, sim Vai por aí Às vezes faço essa consulta Às vezes até inconscientemente

O João, muito infelizmente, ou infelizmente, não está entre nós. O João faleceu em 2009, no início de 2009. Já há 15 anos quase. Não, tens de ir para a escola outra vez, são 17 anos. 17 anos. A matemática não foi a tua forma. Olha, vês como adivinhaste. Mas tens o hábito de...

De partilhar aquilo que vais fazendo Com outros amigos Ou seja, aquilo que vais fazendo em estúdio Vais partilhando ocasionalmente Mandando e-trans Não, não muito Até determinada altura Ou seja, até estar pronto Sim Não quero ter interferências Porque

Eu vou ouvindo as coisas que ouço, eu ouço muito música nova, às vezes vou ouvir a mais velha. Tenho aqui um certo método na audição de música que eu acho que influencia bastante o trabalho que eu faço. Porque é muito regular, são muitas horas por dia, eu acho que já percebi que isso obviamente está presente. Eu estar a ouvir aquilo que vou fazendo, quando ainda não está numa fase final.

Há alguém que pode não ter essa preparação Para ouvir Pode-se induzi-lo em erro Pode-se induzir essa pessoa em erro Que me vai induzir a mim em erro Ou seja, eu quando acho que As coisas estão numa forma Em que

em que não causam dúvidas, aí eu mostro. Mas mostro sobretudo à família. Não sou muito de andar a fazer muitas consultas. E mostro sobretudo à família, duas ou três pessoas em que eu confio e em quem tenho muita confiança, obviamente, e partilhamos muita coisa, por isso, se houver ali um reparo em relação a determinada coisa...

Eu consigo identificar o que é e perceber o que é. E se houver um elogio também. Portanto, percebes, tem que haver um certo... Um grau de confiança. Um grande grau de confiança para tu poderes aceitar e exalterar uma coisa que tu fizeste e que saiu, não sabe de onde, das entranhas, não é? Eu prefiro até determinada altura manter isto muito ali na cave, no estúdio.

Enquanto não está cozinhado Depois de estar cozinhado Já se pode ver Voltamos aos pintores Sim, sim, à vontade Um pintor quando está a fazer o esboço Também não vai mostrar aos amigos O que é que achas deste esboço Sei lá o que isso vai dar Só estou a ver os riscos a preto

Estás a falar tanto de pintura, também és pintor em part-time? Não, agora não sou, mas quando fiz a escola, sim, ainda fiz pintura. Eu estava em design gráfico, mas também tinha aulas de pintura e gosto bastante de pintura. E estou a pensar em comprar uns pincéis e umas telas em breve. Não é nada que ponha fora de questão. Mas gosto de trabalhar a parte da imagem, a parte de design, fotografia, também gosto bastante. Gosto bastante de imagem. Exatamente.

João, eu gostava ainda de poder passar aqui um bocadinho... Ainda há Fandango, o projeto que tiveste com o Gabriel Gomes, com o acordeonista, e que mostrava a eletrónica. Mas gostava aqui de passar um bocadinho pela NAIF, o projeto criado por ti, pelo João Guardela, pela Mitó Mendes, onde estava também o Vasco Vaz.

Foi um projeto que eu acho que agitou muito as águas do fado E se calhar agitou um bocadinho as minhas águas do fado Deu-me a descobrir se calhar naquela altura Em 2004 Uma voz comada mitó Que depois me levou para outras vozes do fado Foi nesse projeto que aprendeste

tocar guitarra portuguesa. Sentes que foi aí que tu te aproximaste da Portugalidade que se calhar tu ainda hoje carregas na luta livre?

Eu não gosto muito dessa palavra Portugalidade Acho que isso foi um termo que Isso para já é um termo inventado Pelo Antigo Rechivo Pelo Departamento de Propaganda de Salazar Pelo António Ferro A Portugalidade que consistia Em ir buscar As referências do folclore

Tradicional português e fazer com que os portugueses tivessem a partir disso um grande amor próprio e se coibissem de inventar outras coisas. E às vezes até com um certo grau de pequenez.

E se ficassem por ali Sim, sim, sim De ir à procura de outras coisas É o meu entendimento Da palavra portuguesa Nesse contexto dessa altura A palavra hoje terá outro significado É verdade, mas nunca me esqueço Desse significado que no fundo

Isso é qualquer coisa que nós temos Se queres falar Da cultura portuguesa Dos valores da cultura Ou das referências da cultura portuguesa Nós nascemos cá Todos temos isso, uns mais do que outros Porque depende também de Aquilo a que somos expostos Por exemplo, rádios que só passam música Que não é portuguesa

Obviamente se eu estivesse sempre a ouvir essas rádios Eu nunca saberei o que é música portuguesa Ou se eu nunca vir Sei lá Nunca visitar o país Não sei o que é a paisagem portuguesa Não sei o que é Não conhecer as pessoas Não sei o que é a alma dos transmontanos Ou dos algarvios Ou dos alentejanos Mas isso está aí intrínseco E nós sempre tivemos isso Eu Obviamente quando tenho 15 anos Eu quero ouvir rock Eu quero ouvir rock

e começo ali nos anos 80, no início dos anos 80, apanho o boom de rock português, eu quero ouvir o HF, Taxi, Rui Veloso, Chutes e Pontapé, GNR, etc. Não me interessa mais nada, apesar da minha tia ouvir fado e dos meus pais ouvirem o GECID. É normal, não é?

Mas quando tinha 10 anos eu ouvia José Cid Porque era aquilo que se ouvia lá em casa Comprarás discos Tem tudo a ver com as épocas A seguir ao 25 de Abril Eu ouvi José C. Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho Porque era a música que se ouvia mais E portanto todas estas fases te marcam E tu não te podes dissociar delas Eu fui exposto a isso E sou português Portanto tenho isso tudo no sangue E aí

Por exemplo, na altura do Especicida Nós temos várias músicas No primeiro disco temos uma música que é a marcha Que é uma marcha lisboeta Vai lá, entre parênteses Instrumental acelerada Temos no segundo disco, vamos lá saindo Que é uma cantiga alentejana tocada

Em vários ritmos Que nós inventámos na altura Temos o furo na cabeça no primeiro disco Que é tipo um corridinho Eu identifico várias Dessas Portugalidades Que nunca foram mandadas Para cima da mesa como

Nem só na naifa, como eu estava a dizer. E nunca foram mandadas para cima da mesa como uma intenção, como um contrato, um registro de intenções. Elas estavam lá porque nós somos assim, não é? E eu acho que isso depois continuou. Agora, quando nós fizemos a naifa, houve duas coisas que eu me aproximei bastante. Foi da guitarra portuguesa.

E do Carlos Paredes, que obviamente conhecia, mas que, confesso, não ouvia. Já tinha ouvido, mas não ouvia com regularidade. Comprei os discos todos e fui ouvir tudo e sacar músicas, etc. E também do Fado, porque a minha tia ouvia Fado e os meus pais também, mas eu, sinceramente, o Carlos do Carmo até, uma vez ou outra, me agradou ouvir. Mas o resto do Fado não. E descobri a discografia da Amália.

Se calhar para muita gente é de uma forma tardia Em 2004 Mas foi aí que a coisa aconteceu Mas sim, o fado e a guitarra portuguesa Apareceram mais nessa altura Diria que é mais isso Do que essa ideia de Portugalidade Exatamente

Estamos à conversa com o Luís Varatojo Des pesticida, dos 10 Pisciga Da knife, de Fandango e agora De Luta Livre E é ele o nosso convidado de hoje Aqui no Vocês Sabem Lá Luís, tenho uma curiosidade Chegaste uma vez a ser fã de wrestling?

Fã de? Wrestling. Wrestling. Luta livre americana? Não, não. Eu cheguei a treinar taekwondo. Taekwondo. Ainda progredi bastante nos cintos em taekwondo, mas esse wrestling não é as piadas nenhuma. Nem aos tempos do Tarzanta Borda. Sabes que o Tarzanta Borda, certamente lembras-se dessa figura icónica. Sim, sim, lembro da figura. Exatamente. Ele tinha uma casa na praia da Fonte da Telha. Fonte da Telha que, de acordo com o João Sampaio, antigo colega nos Pesticida, foi lá que foi criado o nome da banda. Confirmas? Fonte da Telha.

Nós chegámos a ir para a fonte da telha Uma entrevista no Blitz Não sabes especificar Nós de vez em quando íamos Depois da noite em Lisboa No bairro Alto, no Xingão Às vezes no Castaré, no Tóquio

Quando havia um carro Quando havia alguém que tinha carro E o tempo estava bom, sobretudo no verão Íamos às vezes passar a noite à fonte da telha É verdade, caça que es cama E ficávamos no areal numa altura em que se podia fazer isto Exatamente, não era escurrito E isso acontecia, depois acordávamos ali com o sol a pina Às sete da manhã E mergulho logo de manhã Isso chegou a acontecer muitas vezes Não me lembro se esse nome foi sacado de lá Ou não, não tenho nenhuma essa ideia

Sei que o nome teve várias metamorfoses. Não apareceu logo como pesticida. Por exemplo, teve uma vida curta como pastel pop. Eu acho que é a primeira vez que isto está a ser dito em rádio. Em rádio, sim. Isso é contado no livro da história.

E teve ali algumas Só peste também Até chegar ali àquela Coisa de pesticida por causa da sida Na altura hoje em dia já não é uma Já não é assim um nome Um tabu que não se possa falar Mas na altura era e causou um escândalo enorme Ao ponto de termos O manager que não foi o primeiro Que tinha visão e tinha tomates Mas houve outro a seguir que nos Aconselhou a reformular o nome Porque era impossível arranjar patrocínios Com sida Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

Porque SID era realmente uma expressão Na altura que ninguém queria dizer Exatamente, era tudo dito Quase em surdina Exatamente O António Variações morreu De SID e ninguém quis dizer isso Na altura Precisamente

Tu cresceste em Santo Antão do Tujol, em Sacavém. Não, Santo Antão do Tujol não. Não? Não, não. Sacavém, Sacavém. Sacavém mesmo. O Wikipédia tem os seus... Lá está. Lá está. O Wikipédia que... Mas estás cá tu para contrariar isso. Foi mesmo em Sacavém. Eu nasci em Bucelas, no Conselho de Loures, e fui muito pequeno, tipo 3 anos para Sacavém. A minha infância é...

Apesar de viver em Sacavém Eu andei na escola primária E depois preparatória No Beato Onde hoje é a manutenção militar E era nessa altura onde trabalhavas meus pais Exatamente Eu às vezes gostava de saber de onde é que vêm Estas informações da Wikipédia de Santo Antônio do Tijal Porquê que aparece ali Santo Antônio do Tijal Mas enfim, foi lá que começaste a tocar guitarra Em Sacavém Tiveste o grupo musical Que Importa

Que me importa. Que me importa, exatamente. Com Alexandre Dini, Jorge Martins e o irmão do Fernando Martins, do Rito Altejo. Mas acabaste por vir então para Lisboa, formar bandas e por cá ficaste até aos dias de hoje. Tu nunca tiveste a tentação de sair do país, de experimentar a vida fora do país? Como na altura até fizeram colegas teus dos pesticidas? Nunca.

Nunca tivesse... Aliás, houve um colega meu dos pesticidas... Sim, houve um que emigrou depois dos pesticidas acabarem. Mas houve um que estava na Holanda, que era o nosso baterista, o Fernando Raposo, que também era de Sacavém. Que veio da Holanda para... Porque a banda se fez, não é? O Zé Lionel, na altura, o primeiro vocalista, se eu não estou em erro? Não, o Zé Lionel nunca foi vocalista dos pesticidas. Foi aí? Não, o Zé Lionel é a história outra.

O Zé Lionel pôs um anúncio no jornal para músicos, porque ele não é saído dos chutes.

E eu não sabia sequer quem era o Zé Lionel E respondi a esse anúncio Ah, tu não conhecias o Zé Lionel enquanto músico do Chutes? Não, eu conhecia o álbum do Chutes 78, 82 Que já não tem o Zé Lionel Tem uma canção que se chama Leo Que é dedicada ao Zé Lionel Mas eu respondi a um anúncio No Blitz Para ir

Para uma formação de uma banda E depois era o Zé Lionel que estava a organizar isso E foi aí que eu conheci o João Sampaio E nós tocámos ali pouco tempo com o Zé Lionel Fizemos dois ou três ensaios Mas não como pesticida? Não como pesticida, não Aliás, depois nós formámos Eu e o João começamos a ensaiar os dois Sozinhos no quarto dele ali em Alvalade E depois Eu convido esse meu amigo Que é o Fernando Raposo Que é o primeiro baterista de pesticida, o original Entgal

Quando veio de férias, que ele estava emigrado com os pais na Holanda, quando veio de férias a Portugal, arranjámos uma bateria emprestada, ele fez uns ensaios connosco, portanto, éramos um trio. E depois convidámos o João Pedro Almendra, que tinha saído do Escudo de Judas e estava ali mais ou menos livre.

Para as experiências e convidámos o João Pedro Almendra Para cantar, portanto, tínhamos um quarteto inicialmente E ainda isto não se chamava Pesticida Ainda fomos tocar Uma vez a um concurso de música moderna Em Odivelas Que acho que, como não tínhamos nome Chamámos-nos Corpo Maltese Que é um personagem de banda desenhada E depois Pesticida Mais tarde, talvez uns meses Mais tarde, tínhamos adotado Essa designação Ent leukeas

Mas tu nunca tiveste vontade de sair do país? Não, por acaso não. Aliás, eu uma vez tive a oportunidade, quando entrei para as Belas Artes, eu não entrei logo nas Belas Artes em Lisboa. Fiquei fora da média. E então consegui colocação, candidatei-me também à Universidade de Belas Artes no Funchal e entrei para o Funchal.

E pronto, tinha que ir para lá Um ano de estudar Então fui com os meus pais A ocasião militar que vendiam montes de coisas Roupas, malas, etc Comprar uma mala, etc Já tinha tudo preparado Eu no dia anterior, antes de irmos comprar o bilhete de avião Disse, epá, a mala vai ficar aí guardada Eu não vou Eu não vou sair daqui Não me apetece sair daqui Deixar os meus amigos, a minha namorada Eu não vou sair daqui

não me está a obter sair daqui eu aguardo um ano e no ano que vem vou entrar em Lisboa e se a coisa assim aconteceu as coisas têm que acontecer como têm e depois acabei por nesse ano em que entro para as Belas Artes no ano anterior começar a tocar com o João e no ano em que entro para as Belas Artes fazermos os pesticídios e começarmos a tocar, que não teria acontecido se tivesse ido para a Madeira

Mas nunca... Eu gosto muito de viajar, já viajei bastante, mas gosto de ir e voltar. Ir para ficar não é bem o meu registro. Para alguém que é tanto dada a experiência... Gosto muito de Lisboa, gosto muito de Portugal e gosto muito de estar... Aqui estou à vontade. Gosto de falar português, portanto, ir para um sítio onde tenho que falar outra língua. Se tivesse que sair, ia, obviamente. Mas nunca procurei isso. Já pensaste, se não fosse em Portugal, onde é que gostarias de... ...

Ou um país pelo qual também tenha Eu dos sítios que visitei, gostei muito da Grécia Se calhar porque é parecido com Portugal Também gosto muito de Espanha Já visitei várias cidades Sobretudo cidades de pequena e média dimensão

como Granada, Valência, Bilbao. Eu gosto de Espanha. E gostei da Grécia. Gostei de Marrocos também. Ou seja, sou um indivíduo mediterrâneo. Eu acho que daqui não saía. E as proximidades. Exatamente. Luís, há uma coisa que me impressiona muito quando lemos...

E aqui não querendo voltar àquela história que estávamos a falar do punk, mas há uma coisa que me impressiona muito na história do rock em Portugal, e neste caso sobre os pesticidas, que cresceram numa altura em que praticamente não havia sítios para tocar, ou essas bandas não tinham sítios para tocar, e acabaram essas bandas por criar os sítios para tocar, muitas vezes até fazerem as bandas os próprios palcos. Atenção, porque em Lisboa havia mais sítios do que agora.

Não tinham talvez as condições Por exemplo, que tem uma casa capitão Que é um sítio também criado quase de raiz E é muito bom Tem todas as condições e é ótimo Várias salas Mas havia vários spots Onde se podia tocar Arranjando uma aparelhagem e tal Até se faziam tours em Lisboa Dava para fazer Mini tours O Rock Rendezvous seria o sítio mais Eu falo

Mais oficial, mais clássico Maior, da consagração Vá lá aqui em Lisboa Mas depois, lembro-me, nós tocámos Por exemplo, nas Noites Longas Que era ali na Rua de São Paulo Havia concertos no Tóquio, no Cachodré Havia concertos no Bairro Alto Na Ocarina Havia concertos também no No Bairro Alto No Juque Box Havia no Bairro Alto, num sítio que era o Café Concerto

Por exemplo, já perto ali do Camões Havia uma coletividade Que era os vendedores de jornais Onde nós tocámos perto da rua de São Paulo Uma vez fizemos um Se calhar é isso que tu queres ouvir Uma vez montámos um palco E fizemos tudo Porque o sítio não tinha palco

Criaram as condições Para haver espetáculos A aparelhagem apostada aos chutes Num sítio que era a usina Que foi batizado de usina Que no fundo era a sede de rugby Da Associação de Estantes de Direito Ali na rua do Salitre Tinham uma cave Que era uma sala porreira Com espaço suficiente para pôr um palco E receber o público Não tinham era palco E convidaram-nos para ver a sala

Nós vimos a sala e gostámos e pensámos, bem, o que é que fazemos? Sem palco, fazemos um palco. E pronto, arranjámos forma de ir comprar madeiras e barrotes e não sei o que fizemos o palco. E a partir daí começou a haver concertos nessa sala. Mas pronto, havia, e estamos a falar do final dos anos 80, havia várias salas em Lisboa.

Onde se conseguia fazer essa tour E apesar de Lisboa ter menos Se calhar tinha menos gente Ou menos fluxo de gente do que hoje em dia Havia público nesses locais todos Para ver os concertos O pessoal também não tinha redes sociais Nem telemóveis Tinha que se entreter com alguma coisa Então ia ver concertos, era fixo

Dei para mim a pensar que hoje em dia Os músicos acabam por ficar um bocadinho mais Os músicos Vão para estúdio e acabam por ficar lá no estúdio Acabam por não ter tanta vontade Não sei se é vontade, se calhar vontade até tem De fazer concertos Hoje há muitos concertos Se nós começarmos a ver aí mesmo nas redes sociais O anúncio de concertos Há mesmo muita coisa, mais do que nessa altura Mas os espaços para tocar são...

Eu acho que em Lisboa são menos, sim. Agora, pelo país, se nós falarmos ali do final dos anos 80, tirando Lisboa e Porto, talvez Coimbra tivesse um sítio, mas o resto do país tocava-se basicamente nas festas, nas festas das aldeias, dos municípios, etc.

Hoje em dia eu vejo N festivais Mesmo festivais sobretudo Os de pequena dimensão Que são os mais interessantes Porque lidam com os artistas Com os nossos Com a prata da casa E também a produção é feita por associações E por gente que se quer mexer E fazer coisas E vejo muitos a acontecer pelo país todo E isso Adicionando já as semanas académicas Que também passou a haver mais nos anos 90 Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

e as festas de aldeia que sempre houve. Neste momento temos centenas e centenas de espetáculos, desde os mais pequenos aos maiores a acontecer por todo o lado. Acho que isso não nos falta. Festa é a coisa que não falta ao povo português. Exatamente. Tu ainda te sentes confortável a viver em Lisboa nos dias de hoje, Luís?

Sim, eu moro numa zona que ainda não está muito pressionada pelo turismo. Não sinto muito essa pressão. Mas quando tenho que ir à baixa, por exemplo, eu já me sinto um bocado deslocado, sinceramente. Em termos de comércio, não há cafés nem restaurantes, obviamente para mim, porque os preços não são para mim. E a qualidade também não é para mim.

porque sinceramente eu acho que os turistas baixam a qualidade dos restaurantes, por exemplo, porque o dono do restaurante sabe que se a sardinha não for fresca eles não sabem, e para nós, para os portugueses, já tem que ser fresca. Portanto, a qualidade é pior, o preço é mais alto.

E também no resto das lojas Cada vez o comércio Tem deixado de ser O comércio de Lisboa E passa a ser o comércio que há em Londres Em Roma, em várias cidades Porque são as grandes lojas Das cadeias multinacionais As Zaras Nem vale a pena enumerar Ou seja, vamos encontrar tudo o que encontramos Noutro sítio

porque é que vale a pena viajar para ir para um sítio onde temos tudo o que temos no outro sítio de onde vimos e é isso que temos estado a assistir por exemplo na Baixa de Lisboa que não tem mínimo interesse às vezes tenho que ir tratar de uma coisa vou a correr e venho não é uma zona que me deu por exemplo, é uma zona muito bonita obviamente arquitetonicamente e a luz de Lisboa, etc

mas depois toda a envolvente e nós não temos lisboetas à volta portanto temos um olhamos e cruzamos só turistas, pessoas de vários pontos do mundo nada contra, eu também viajo, não é? Mas realmente é uma...

Não é uma boa experiência. Eu tento evitar isso. Na zona onde eu vivo, que é mais para cima, mais para o norte de Lisboa, ainda se mantém um comércio português, para os portugueses. Há poucos Airbnbs, ou alojamento local, ou quase não há.

Portanto, há bairro, há vida de bairro, não há essa invasão. Por isso, enquanto estivermos assim, estamos bem. Quando não estivermos assim, o pior é os aviões. Levo com os aviões, que nunca mais acabam. Não levo com eles de uma forma, levo de outra. Sim, exatamente. Eu penso muitas vezes que...

o ideal se calhar seria às vezes nós focarmos um bocadinho mais nos sítios que ainda não são como esses que estavas a dizer, onde ainda existe essa vida de bairro, para se tentar lá fazer diferente e apostar nesses sítios, se calhar do que propriamente estar a pensar nos grandes centros. Defender um bocado, regular, regulamentar isso. Isso está a acontecer noutras cidades da Europa, que a gente chegou à conclusão que, continuando por aquele caminho...

Destroem a galinha dos ovos de ouro Porque o turista também vai à procura de qualquer coisa em específico Uma coisa original, uma coisa local Quando chega e se depara com uma experiência Que não tem nada a ver com isso Que é um enlatado Também começa a debandar E ir para outros sítios E acaba por se destruir também a vida local Há várias cidades Outro dia estava a ler um artigo sobre Dubrovnik, por exemplo Na Croácia Que já sofre disto desde os anos 60 É uma cidade altamente Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

muito mais turística do que Lisboa, muito mais cedo turística do que Lisboa. E já foram adotadas uma série de medidas para reverter isso, porque de repente o centro de Dubrovnik tinha 500 croatas, o resto eram um parque de diversões, porque eram só hotéis e restaurantes e turistas. Os turistas vão lá então ver o quê? Os edifícios, porque não convivem com os hábitos locais, não falam com as pessoas locais, a experiência não tem nada a ver com o local onde vão.

É uma coisa fabricada. Por outro lado, estava-me a lembrar agora de Marrakech, por exemplo, em Marrocos, onde...

Até acaba por ser um bocadinho ao contrário. Naquele centro parece que quem vive são... Na Medina quem vive são os marroquinhos, são os locais. Pode haver alguma tentativa de fazer as coisas de forma diferente à volta desse grande centro. E há uma forma de viver bastante diferente daquela que é o centro da cidade. Mas ali naquele centro acaba por continuar a ser puro. E há, diria, à moda antiga quase. Sim, há uma Medina...

Árabe, não é? E continuam a ter lá os artesãos A fazer trabalho no ferro Nas peles, na olaria E No fundo Sim, eles não precisaram de abrir aí Lojas das marcas X, Y e Z Porque as pessoas vão lá a procurar é daquilo Precisamente, precisamente Nós vamos a falar disto porque tu também tens uma canção Neste teu último disco também acaba por falar

De certa forma sobre isto, o estudo fazia alojamento local, acaba por fazer um bocadinho este paralelismo entre aquilo que hoje em dia vemos no nosso país, naquilo em que se está a tornar. Luís, nós estamos a chegar ao final da nossa conversa. Gostava de saber como é que vão ser aqui os teus próximos tempos.

Com este disco novo Vem aí um verão, vem um verão de festa Como estávamos a falar há pouco Vamos poder ver-te em breve Também a tocar estas canções pelo país Sim, vai haver alguns concertos Para já Anunciar Posso falar em dois Que é no Festival Bonsons Em Tomar A aldeia de Sensolos em Agosto No dia 8 E o outro nas festas da Amora Portanto aqui perto de Lisboa Ent leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke leuke

Salvo erro no dia 12 Mas as festas serão anunciadas em breve E estamos à espera de algumas confirmações Também para setembro ainda Depois há coisas lá mais para a frente Mas isso a seu tempo Depois lá serão divulgadas Exatamente, para já ainda não há vontade de voltar A experimentar, fazer novas canções Estás na fase de Recolher e absorver E de pensar e de exprimir

Há pouco tempo, disto em outubro Tivemos a preparar os concertos Ainda agora fizemos quatro em março E tivemos com ensaios Agora experimentei um alinhamento Quer retocá-lo Quer pôr ali mais uma canção Tirar outra de sítio O concerto é todo acompanhado Sempre sincronizado com vídeos de animação Também é um trabalho Até um work in progress Portanto há coisas que estão feitas Mas há outras coisas que vão ser reformuladas Para os próximos concertos Ou seja

O tempo que eu vou tendo Estou a trabalhar ainda No alinhamento do espetáculo Acho que ainda vou fazer vários espetáculos Tanto até ao fim do ano como no início do ano que vem Mas é natural que lá para o fim da época Balnear é mais ou menos esconder as coisas Quando eu tenho ali 15 dias na praia

normalmente a cabeça está mais disponível para pensar e surgem algumas ideias para dar o pontapé de saída. Pode ser que isso aconteça nessa altura. No fim do verão é capaz de começar a trabalhar em coisas novas. Mas a cena tem saído naturalmente. Os dichos têm saído de dois em dois anos.

E eu não tenho forçado este processo. Há sempre uma altura em que as coisas começam a acontecer. Eu acredito nisso que não é preciso forçar muito. Também não convém deixar andar. Convém ir trabalhando. Mas esses timings acabam por aparecer. Não tenho precisado esforçar muito.

Muito bem. Queria agradecer, antes de fecharmos a entrevista, queria agradecer ao Fábio Fernandes a ajuda na produção, também ao Tiago Vaz no som, já a seguir vem o Coyote com o Pedro Costa e queria naturalmente agradecer esta última hora de conversa ao Luís Veratoujo, o nosso convidado de hoje, aqui no Vocês, sabem lá, muito obrigado Luís. Obrigado eu pelo convite. E na próxima semana mais conversas, mais conversas com gente do Universo da Música aqui na RTP Antena 3. A todos um bom fim de semana.

Vocês sabem lá. Com Bruno Martins. Este e outros podcasts estão disponíveis na RTP Play, no YouTube e nas plataformas habituais.

Bruno Martins com Luís Varatojo | Castnews Index — Castnews Index