#056 - Psicanálise tem bibliografia obrigatória?
No episódio de hoje do Quem Tem Medo de Psicanálise?, a gente parte de uma pergunta de um ouvinte: Tem uma bibliografia obrigatória para a formação do analista?
E, apesar de parecer uma pergunta simples, ela encosta numa angústia que muita gente que começa a estudar psicanálise conhece bem: por onde começar? O que vale a pena ler? Como estudar sem se perder no meio de tantos autores, conceitos e caminhos possíveis?
Um episódio sobre leitura, formação, Freud, e sobre a diferença - nem sempre tão óbvia - entre ler um texto… e realmente se encontrar com ele.
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Se estiver curtindo o Quem Tem Medo de Psicanálise?, segue o podcast e avalia - isso ajuda muito o projeto a chegar em mais gente.
- Psiquiatria e medicalizaçãoBibliografia obrigatória · Por onde começar a estudar psicanálise · Leitura e formação · Freud · Diferença entre ler e conhecer · Angústia na formação · Processo de implicação com o texto
- Lidar com o sofrimento e as adversidadesA formação como processo, não garantia · Aprender a sustentar a angústia · O percurso não linear · Aumentar a percepção da ignorância
- Propósito em conquistas materiaisJuntar material como forma de adiamento · Sensação de progresso vs. processo real · Excesso de material que confunde · A sedução do acúmulo
- Importância da LeituraInterpretação dos Sonhos · Dificuldade de compreensão inicial · Sensação de não pertencimento · O papel do contexto histórico e linguístico
- Interpretação textual responsávelLer vs. conhecer · O texto aparecendo na experiência · Conceitos que fazem sentido em situações concretas · O tempo da elaboração
Este é o Quem Tem Medo de Psicanálise, um podcast pra quem tem curiosidade sobre a psicanálise e pra quem tá começando a estudar pra um dia se tornar psicanalista. Aqui a gente vai falar de um jeito simples, mas não superficial. Porque se a psicanálise é fascinante, ela também é cheia de desafios. Então aperta o play e vem descobrir porquê, na psicanálise, às vezes, mas quase nunca, um charuto é só um charuto.
Olá, meu nome é Mário Prado e este é o podcast Quem Tem Medo de Psicanálise. No episódio de hoje eu vou começar de um jeito um pouquinho diferente. Não é com uma ideia, mas com uma dificuldade. Um ouvinte do podcast fez essa pergunta que é aparentemente simples. Tem uma bibliografia obrigatória para quem quer se tornar psicanalista? E eu vou te dizer com toda honestidade, essa pergunta me travou.
Eu comecei a responder algumas vezes. Eu escrevia, parava, apagava tudo, voltava, tentava de novo, apagava de novo. Algumas vezes. Até que ficou claro pra mim que o problema não era encontrar uma resposta. Era outro. Era que essa pergunta não é tão simples quanto parece.
E talvez o ponto mais importante desse episódio seja justamente aí. Porque quando alguém pergunta por onde eu começo ou o que eu preciso ler, isso não é só uma dúvida prática. Tem alguma coisa ali por baixo. E eu não estou fazendo análise selvagem do comentário do colega. Mas é isso que a gente vai tentar explorar aqui hoje.
Não para ter uma lista pronta, mas para entender por que essa lista parece tão necessária e porque mesmo quando ela existe, talvez ela não resolva o problema. Bora lá?
Então, pra começar, eu vou te contar como foi que eu comecei a ler psicanálise. Porque eu acho que isso ajuda a colocar essa pergunta num lugar mais concreto. Não como uma discussão abstrata sobre bibliografia, mas como uma experiência que muita gente provavelmente já teve quando começou a se aproximar desse universo.
Quando eu comecei a me interessar mais pela psicanálise, eu fiz o que acho que quase todo mundo faz no começo. Eu fui procurar Freud. E fui direto para a interpretação dos sonhos.
Porque parece fazer sentido começar por ali. É Freud, é um clássico, é o livro fundador da psicanálise. E é uma dessas obras cercadas por uma espécie de aura que... Aqui começa a psicanálise. Então, na minha cabeça, aquilo parecia quase obrigatório. Tipo, bom, se eu quero entender psicanálise, eu tenho que começar por aqui. Mas teve um problema. Eu comecei a ler e não entendi quase nada e achei chatíssimo.
Algumas partes até dava pra acompanhar, um trecho ou outro parecia interessante, mas no geral era como se o texto não encaixasse em lugar nenhum. E não era só pela linguagem de 120 anos atrás. Claro que isso pesa um texto antigo, escrito de outro jeito, em outro contexto, com outro ritmo de argumentação. Mas o problema maior era outro. Eu ainda não tinha lugar nenhum pra colocar aquilo.
Eu não sabia exatamente quais perguntas Freud estava tentando responder. Eu não sabia o que era essencial, o que era exemplo clínico, o que era construção teórica, o que era debate com o pensamento da época. Então, eu estava lendo um texto importante, sem saber o que fazer com aquela importância.
E aí veio essa sensação meio desagradável, isso aqui não é pra mim. Ou, eu não tô entendendo porque eu não tenho capacidade suficiente pra isso. E eu acho que muita gente passa por isso. A pessoa pega um texto considerado fundamental, começa a ler, não entende, se sente burra, atrasada, fora do lugar, e talvez conclua rápido demais, comecei errado. Ou pior, isso não é pra mim.
Só que hoje, olhando pra trás, eu não acho mais aquela experiência algo ruim. Ela foi desconfortável, mas foi importante. Porque ela me mostrou uma coisa logo de cara. Aquele não era o melhor caminho pra mim naquele momento. Isso também é uma forma de orientação. A gente costuma imaginar orientação como alguém dizendo Começa por aqui. Mas às vezes, orientação também é descobrir. Por aqui, agora, não dá.
E isso muda bastante a ideia de começar certo. Porque talvez o problema não seja começar errado. Talvez o problema seja acreditar que existe um começo certo, universal, igual para todo mundo.
E aí entra um ponto que começa a deslocar a pergunta. Porque quando a gente começa a estudar alguma coisa, qualquer coisa, a gente não chega do zero. A gente chega com uma expectativa. E essa expectativa vem de tudo que a gente já viveu como estudante.
Se você vai prestar vestibular, tem uma lista de leitura. Vai estudar para concurso, tem um edital. Se você entra numa faculdade, tem grade, uma sequência, um percurso mais ou menos organizado. Sempre existe algum tipo de orientação prévia. E mais do que isso, existe uma promessa implícita.
A promessa de que se você seguir aquele caminho, se você cumprir aquelas etapas, você vai chegar em algum lugar. Você passa, você se forma, você domina aquele conteúdo. Mesmo quando é difícil, tem uma sensação de que você está fazendo o que tem que ser feito. Isso dá segurança. Só que quando essa lógica encontra a psicanálise, ela começa a falhar. E não é uma falha pequena do tipo, ah, aqui é só um pouco mais difícil.
É uma falha mais estrutural. Porque a psicanálise não se organiza como um conteúdo que você percorre de forma linear. Ela não é um conjunto de informações que você vai acumulando até completar. Não tem um ponto claro em que você vai poder dizer...
Agora eu sei o suficiente. E isso incomoda, porque quebra exatamente aquilo que sustenta a nossa forma de estudar, a ideia de um progresso que dá para medir. Então, o que muitas vezes acontece? A gente tenta reconstruir essa estrutura por conta própria.
A pessoa começa a procurar quais são os livros essenciais, qual é a ordem correta, por onde eu começo de verdade, como se em algum lugar tivesse uma lista certa, uma lista que alguém já organizou. E que se você tiver acesso a ela, o problema está resolvido. Mas repara numa coisa, essa busca por uma lista não é só prática, não é só organização.
ela tem um efeito emocional muito forte. Porque uma lista organiza o caos, dá contorno, transforma algo aberto em algo mais previsível. E principalmente a lista reduz a angústia. Porque quando você tem essa lista, você não precisa mais decidir tanto. Você não precisa ficar o tempo todo se perguntando se está indo na direção certa. Você só precisa seguir. E isso é confortável.
Então, talvez a pergunta, existe uma bibliografia obrigatória, não seja só uma pergunta sobre estudo. Talvez seja também uma tentativa de trazer a psicanálise para dentro de um modelo que a gente já conhece. Um modelo mais organizado, previsível, controlável. Mas tem um problema. A psicanálise não se encaixa bem nisso. Você pode até montar uma lista, organizar um percurso, pode separar textos introdutórios, intermediários, avançados.
Mas isso não resolve o essencial, porque você pode seguir tudo isso direitinho e ainda assim não conseguir fazer muita coisa com isso. E é aí que começa a aparecer uma diferença importante. Talvez o problema não esteja só no que você estuda, mas talvez esteja no modo como você se relaciona com o que você estuda. E isso é bem menos confortável do que simplesmente ter uma lista para seguir.
E quando essa estrutura não aparece, acontece uma coisa curiosa. A gente tenta compensar.
Se não tem uma lista clara, se não tem um caminho definido, se não tem um começa aqui e termina ali, a gente começa a fazer o quê? Juntar material. Isso é muito comum. A pessoa se interessa por psicanálise, começa a procurar coisas e de repente está com vários livros comprados, uma pasta cheia de PDF, artigos salvos, vídeos marcados para assistir depois. E isso vai crescendo.
Às vezes rápido, sem muito critério, sem muita ordem, mas com uma sensação de que alguma coisa está acontecendo. E de um certo modo, está mesmo. A pessoa está interessada, está buscando, está se aproximando. Mas tem um ponto delicado aqui. Porque nem tudo que parece estudo é estudo. Às vezes isso é outra coisa. Tem gente que não estuda psicanálise, tem gente que monta uma biblioteca de psicanálise.
E eu não estou falando isso como crítica, eu estou falando porque isso acontece mesmo. E muitas vezes sem a pessoa perceber. Porque juntar material produz um efeito muito específico.
Comprar um livro dá a sensação de início, baixar um PDF dá a sensação de preparo. Salvar um texto dá uma sensação de avanço. Você sente que está mais perto, mais dentro, mais envolvido com aquilo. Só que tem uma diferença importante aqui. Sensação não é processo. Você pode ter acesso a tudo e não conseguir sustentar uma leitura de verdade.
Pode ter muitos livros e não conseguir entrar em nenhum. E aí começa a aparecer uma contradição. Quanto mais material você tem, mais difícil fica começar. Porque esse excesso não organiza, ele confunde. Você olha para aquilo tudo e pensa, tá, mas por onde eu começo? E a pergunta volta. Só que agora mais pesada ainda, mais carregada, mais angustiante.
E aí muitas vezes o que a pessoa faz? Busca mais material. Ah, talvez falte um livro melhor. Acho que eu ainda não encontrei o texto certo. Talvez alguém tenha uma lista mais organizada. E o ciclo continua. Mais material, mais sensação de que está fazendo alguma coisa, e ao mesmo tempo, menos movimento real.
E aqui eu acho que vale dizer de um jeito bem direto. Às vezes, você não está estudando. Você está só adiando o estudo. E isso não tem a ver com preguiça, não tem a ver com falta de interesse.
tem a ver com uma dificuldade de sustentar o encontro com o texto. Porque quando você começa de verdade, você encontra algumas coisas inevitáveis. Você não entende tudo, você se perde, precisa voltar, precisa insistir. E isso não é confortável. Então juntar material pode funcionar como uma forma de ficar perto, sem precisar entrar de verdade.
Você fica num lugar intermediário, um lugar que parece que você está fazendo alguma coisa, mas ainda sem se confrontar com a dificuldade. E isso explica porque essa acumulação pode ser tão sedutora. Ela organiza por fora, mas desorganiza por dentro. Porque quanto mais coisa você tem, mais difícil fica escolher. Mais difícil fica sustentar uma leitura. E mais difícil fica se implicar em alguma coisa de verdade.
E aí, sem perceber, você começa a se afastar do que realmente importa. Que não é ter acesso ao conteúdo, é conseguir se implicar com ele. E isso não tem atalho. Não tem download e não tem biblioteca que resolva. E é justamente aqui que começa a aparecer uma diferença, que pra mim é central. Que é a diferença entre ler e conhecer.
Porque quando a gente fala em estudar, quase sempre está pensando em leitura. Ler textos, ler livros, avançar páginas, dar conta de um conteúdo. E isso faz sentido, né? A gente aprendeu assim. Só que na psicanálise, isso começa a não ser suficiente. Você pode ler muito, muito mesmo. E ainda assim, não conhecer quase nada daquilo que você leu. Isso não é uma crítica, é só uma constatação.
Porque ler, no sentido mais comum, é passar pelo texto. Você acompanha o raciocínio, entende algumas partes, sublinha trechos, às vezes até faz anotações e segue. Mas isso não garante que aquilo produza algum efeito real em você.
E aqui vale uma pergunta simples, mas incômoda. Quantas coisas você já leu que pouco tempo depois você já nem lembrava? Ou pior, quantas coisas você leu que nunca chegaram a mudar de verdade a forma como você pensa?
Isso acontece o tempo todo, em muitas áreas, e isso até funciona. Porque o objetivo é acumular informação, dominar um conteúdo, responder uma prova, aplicar um conceito, resolver um problema. Mas a psicanálise não opera só nesse nível. Porque o que está em jogo não é só entender o texto, é o que acontece com você a partir do texto que você entendeu. E isso muda completamente o lugar de leitura. Porque na psicanálise, conhecer um texto não é terminar esse texto.
Conhecer um texto é quando ele começa a aparecer em você. É quando você está ouvindo alguém falar e alguma coisa daquele texto volta. Às vezes sem você lembrar exatamente de onde veio, talvez sem você conseguir citar o autor. Mas aquilo está ali, operando. É quando um conceito deixa de ser só uma ideia e começa a fazer sentido numa situação concreta.
É quando aquilo que você leu começa a reorganizar a forma como você escuta, como você pensa, como você percebe o outro. Isso não acontece no ritmo da leitura, isso acontece no tempo da elaboração.
Às vezes você lê um texto inteiro e ele não te atravessa. E às vezes você lê umas poucas páginas e aquilo fica com você por dias, semanas, às vezes até mais. Então quando alguém pergunta o que eu preciso ler, tem uma armadilha involuntária aí. Porque a pergunta já vem carregada de uma lógica de quantidade.
Como se o problema fosse quanto. Mas talvez o problema não seja esse. Seja uma outra questão. O que você consegue sustentar a partir do que você lê? Porque você pode ter lido muito e não ter conseguido fazer nada com aquilo. E ao mesmo tempo você pode ter se debruçado sobre um único texto, voltado nele algumas vezes, pensado, discutido, escutado ele aparecer na sua própria experiência, e isso produzir um efeito muito mais consistente.
E eu sei que isso, às vezes, é difícil de aceitar, porque quebra a lógica da produtividade. Não tem como medir direito, como transformar em meta, não tem como dizer, li três textos essa semana, estou avançando. Porque na prática, você pode ter lido três textos e não ter avançado quase nada.
E aqui começa a aparecer uma outra camada de angústia. Porque, se não é sobre quantidade, então não existe um critério tão claro de progresso. E isso desorganiza. Mas, ao mesmo tempo, talvez seja justamente aí que o estudo da psicanálise começa a ganhar um outro sentido.
quando deixa de ser uma corrida por conteúdo e passa a ser um processo de implicação. Um processo em que o que importa não é só o que você leu, mas o que aquilo fez com você. E isso é bem menos confortável do que simplesmente cumprir uma lista. Mas talvez seja muito mais próximo do que está em jogo quando a gente fala em formação em psicanálise.
E aí dentro disso tudo, aparece uma outra questão que é quase inevitável. Tá, mas então quer dizer que não importa o que eu leio, qualquer coisa serve? Não, também não é isso. Porque apesar de não existir uma lista que garanta a formação, também não é verdade que tudo seja equivalente.
E isso é um ponto importante de sustentar. Porque se por um lado a gente está desmontando a ideia de manual, por outro a gente não pode cair numa espécie de vale tudo. Tem uma diferença entre não ter um caminho fechado e não ter caminho nenhum.
E na psicanálise existe um ponto que pra mim é difícil de contornar, ou impossível. Em algum momento você vai se encontrar com Freud. Não é uma questão de tradição. Não é uma questão de tem que ler porque todo mundo leu. É uma questão estrutural. Porque certas perguntas, quando levadas a sério, acabam te levando até ali.
Você começa a se perguntar sobre sonho, sintoma, repetição, desejo, e em algum momento você vai esbarrar em Freud. Não porque alguém te mandou, mas porque ele formulou de um jeito muito específico problemas que continuam operando até hoje.
Isso não significa que você precisa começar por ele, nem que você precisa entender tudo de primeira, ou dar conta de uma obra inteira. Mas significa que ignorar completamente esse encontro costuma empobrecer o percurso. E aqui é importante fazer uma distinção. Não é sobre cumprir Freud. Não é sobre dizer, li isso, li aquilo, então tô ok. Porque isso volta exatamente pra lógica do checklist que a gente tá tentando questionar.
É sobre, em algum momento, sustentar esse encontro, mesmo que seja difícil, parcial, às vezes até frustrante. Porque o que está em jogo ali não é conteúdo, simplesmente.
É um modo de pensar. E isso vale, em graus diferentes, para outros autores também. Mas Freud tem um lugar específico. Não como uma autoridade que precisa ser obedecida, mas como um ponto de origem de certos problemas. Porque isso muda a forma de colocar a pergunta. Em vez de se questionar quais textos eu preciso ler, talvez faça mais sentido perguntar com quais questões eu preciso me encontrar. Isso é bem diferente.
porque as questões não vêm organizadas, elas aparecem. Às vezes numa leitura, outras numa conversa, às vezes numa experiência pessoal.
E quando elas aparecem, elas te puxam. E elas te levam para certos textos, para certos autores, certos caminhos. Então sim, tem algo como um núcleo. Mas esse núcleo não é uma lista pronta. Ele é mais como um conjunto de problemas que em algum momento você vai precisar encarar. E a forma como você chega até eles não é a mesma para todo mundo.
E talvez nem devesse ser mesmo. Porque se fosse igual para todo mundo, a gente voltaria exatamente para aquilo que a psicanálise não é. Um manual de instrução. E aí a gente chega talvez no ponto mais difícil ou estranho dessa conversa. Porque se não tem uma lista que resolva, se não tem um manual de instrução, e se não basta acumular livros...
E se até o encontro com Freud não funciona como um checklist, então sobra uma pergunta que é ainda mais incômoda. Como é que eu sei se eu estou no caminho certo? Eu acho que essa pergunta é o que está por baixo de quase todas as outras. Porque muitas vezes, quando alguém pergunta qual bibliografia eu preciso ler, talvez a pergunta não seja só essa.
Talvez seja, como é que eu sei se eu estou estudando direito? Como é que eu sei se eu não estou perdendo tempo? Ou se eu não estou enganando a mim mesmo? Como é que eu sei se um dia eu vou poder escutar alguém? Essas perguntas são muito mais difíceis. Porque elas não resolvem nada com uma lista.
Uma lista pode até aliviar por um tempo, para dar a sensação de organização, de direção, mas não responde o essencial. Porque o essencial é que, na formação em psicanálise, não tem um momento claro em que você pode dizer, agora eu estou pronto. Pode existir curso, instituição, certificado, e tudo isso pode ter importância. Não estou dizendo que não tem. Mas nenhuma dessas coisas garante por si só que alguém se tornou um analista.
E isso é desconfortável, porque a gente quer garantia, quer saber se está fazendo certo, quer ter um tipo de confirmação. E eu entendo isso. Ninguém quer passar anos estudando uma coisa e descobrir depois que só estava circulando em volta dela. Mas a psicanálise não oferece esse tipo de segurança. E talvez isso seja uma das primeiras coisas que ela ensina. Não é só como teoria, mas como experiência.
Você vai estudar sem saber exatamente se está estudando certo. Você vai ler sem entender tudo. Você vai voltar aos mesmos textos várias vezes. Vai achar que entendeu e depois percebeu que não tinha entendido nada.
E isso não é um problema do percurso, isso é o próprio percurso. Porque a formação aqui não se parece com aquela ideia de avanço linear, não é uma escada, não é uma sequência de etapas bem definidas. É mais parecido com voltar ao mesmo ponto e perceber que alguma coisa mudou. O texto é o mesmo, mas você não é o mesmo. Você leu outras coisas, pensou de outro jeito, escutou outras pessoas, passou por outras experiências.
E aí aquilo que antes parecia impossível começa a fazer algum sentido. Ou então, aquilo que parecia simples fica mais complexo. E isso pode ser irritante, porque parece que o chão nunca fica totalmente firme. Mas também pode ser muito potente, porque estudar psicanálise não é só diminuir a ignorância. Às vezes é aumentar a percepção dela.
E isso muda a posição de quem estuda. Você deixa de buscar uma resposta final e começa a sustentar melhor as perguntas. Só que isso tem uma consequência. Porque se você não consegue sustentar a própria angústia diante do não saber, fica muito difícil escutar a angústia do outro sem tentar preencher tudo rápido demais. Então essa questão da bibliografia, no fundo, encosta numa outra coisa. Não é sobre quais livros ler.
é sobre como você se relaciona com o fato de que não existe um caminho totalmente garantido. E talvez esse seja um dos primeiros deslocamentos importantes da formação.
Não sair do não saber, mas aprender a não fugir dele o tempo todo. Então, voltando para a pergunta que abriu esse episódio. Existe uma bibliografia obrigatória para quem quer se tornar psicanalista? Acho que a resposta mais honesta que eu consigo dar é existe um caminho que passa por certos textos, por certos autores, certos encontros, mas não tem nenhuma lista que por si só resolva a formação. E talvez isso frustre.
Porque seria muito mais simples se tivesse Se alguém dissesse, começa por ali Depois vai pra ali e pronto
Mas ao mesmo tempo, talvez seja justamente isso que muda o lugar de estudo. Porque estudar psicanálise não é só avançar numa sequência. É aos poucos você se implicar com aquilo que você lê. Voltar, reler, estranhar, não entender, entender um pouco, perder de novo. E nesse processo, ir mudando também. Então talvez a pergunta não seja mais o que eu preciso ler. Mas o que acontece comigo quando eu leio?
E principalmente, o que eu faço com aquilo que eu ainda não entendo? Porque talvez seja aí que o estudo da psicanálise começa de verdade.
Então é isso. Se quem tem medo de psicanálise está te acompanhando, te provocando, te dando vontade de continuar pensando, segue o podcast aí na plataforma que você usa e também avalie o programa. Isso ajuda muito o projeto a chegar para mais pessoas. Aqui no Spotify é bem fácil, é só ir lá no perfil, clicar nos três pontinhos e avaliar o programa. Se achar que esse episódio pode conversar com alguém, compartilha. E se quiser, escreve aqui nos comentários também, que eu leio todos e respondo sempre que dá.
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