Episódios de Libri Dei

Confissões, por Santo Agostinho, Livro Décimo, Caps. 21 a 30

06 de maio de 202616min
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Obrigado por acompanhar o Podcast Libri Dei (Livros de Deus,em Latim). Estamos na nossa terceira temporada transformando livros de santos da Igreja em podcast.

Continuamos lendo Confissões, escrito pelo grande Doutor da Igreja Santo Agostinho de Hipona. Hoje continuamos o livro Décimo, até o capítulo 30.

Esse audio foi gerado automaticamente usando um clone de voz da ElevenLabs, assim como a música de fundo, e editado no Audacity. O conteúdo do Livro está em domínio público e essa versão foi digitada por Lúcia Maria Csernik em 2007.

Assuntos8
  • Felicidade vs AlegriaFelicidade em Deus · Felicidade e verdade · Amor à verdade · Oposição à verdade
  • Luisa Sonza e PolêmicaConcupiscência da carne · Ilusões do sono · Resistência à tentação · Pedido de cura da alma
  • Memória e FelicidadeNatureza da lembrança da felicidade · Desejo universal de felicidade · Felicidade como alegria
  • O Amor ÁgapeTarde te amei · Busca externa · Chamado divino
  • A Vida do HomemVida plena em Deus · Tentação na vida terrena · Luta entre alegrias e tristezas
  • Esperança em DeusMisericórdia divina · Dom da castidade · Amor a Deus sobre a criatura
  • Onde encontrar DeusDeus acima de nós · Verdade como resposta · Servir a Deus
  • Deus e a MemóriaDeus na memória · Verdade como Deus · Santo Agostinho
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Confissões Capítulo 21 A memória do que nunca tivemos

Podemos comparar essa lembrança à que conserva de Cartago, quem a viu? Não, a felicidade não se vê com os olhos, pois não é corporal. Seria, pois, comparável a lembrança dos números? Também não, pois quem conhece os números não deseja adquirí-los. Pelo contrário, a ideia da felicidade nos inclina a amá-la e a querer possuí-la para sermos felizes. Lembramos dela, talvez, como lembramos da eloquência?

Também não, embora ao ouvir essa palavra, muitos que não são eloquentes a associam à realidade que ela exprime e desejariam obtê-la, o que indica que já tem ideia de eloquência. Foi, porém, pelos sentidos do corpo que ouviram a eloquência alheia, deleitando-se com ela e desejando também ser eloquente. E certamente não lhes daria prazer se já não tivessem uma ideia da eloquência, e nem a desejariam se esta não os tivesse deleitado.

mas a felicidade não a percebemos nos outros por nenhum sentido corporal. Essa lembrança será porventura comparável à da alegria,

Talvez, pois quando estou triste me lembro da alegria passada, e quando infeliz, lembro-me da felicidade. Ora, esta alegria, eu jamais a vi, ou ouvi, ou senti, ou saboreei, ou toquei. Apenas a experimentei em minha alma quando me alegrei. E esta ideia se fixou em minha memória para que eu pudesse recordá-la, às vezes com desgosto, outras com saudades, conforme as circunstâncias que a geraram.

De fato me senti invadido de alegria causada por ações torpes, cuja lembrança agora aborreço e abomino. Outras vezes alegrei-me por ações boas e honestas, das quais me lembro com saudade, mas já pertencem ao passado e evoco com tristeza minha antiga alegria. Mas onde e quando então experimentei a felicidade para lembrar-me dela, para amá-la e desejá-la?

Não sou eu apenas ou alguns que a desejam, mas todos, sem exceção, queremos ser felizes. Sem uma noção precisa da felicidade, nossa vontade não teria essa firmeza. Que significa isto? Se perguntarmos a dois homens se querem alistar-se no exército?

Talvez um responda que sim, o outro que não. Mas perguntemos se desejam ser felizes, e ambos responderão que sim, sem nenhuma hesitação. E desejando um engajar-se, e o outro não, tem ambos a mesma finalidade, ser felizes. Um gosta disto, outro daquilo. Mas ambos concordam em ser felizes, como seria unânime a resposta afirmativa a quem lhes perguntasse se querem estar alegres.

Essa alegria é o que eles chamam de felicidade, e ainda que um siga por um caminho e outro por outro, a finalidade de todos é um só, a alegria. Como a alegria é um sentimento do qual todos temos experiência, a encontramos em nossa memória e a reconhecemos ao ouvir pronunciar a palavra felicidade. Capítulo 22 A Verdadeira Felicidade

Longe de mim, longe do coração de teu servo, Senhor, que a ti se confessa, a ideia de encontrar a felicidade não importa em que alegria. A felicidade é uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor. Tu és essa alegria, alegrar-se de ti, em ti e por ti. Isso é felicidade, e não há outra. Os que imaginam outra felicidade apegam-se a uma alegria que não é a verdadeira.

Contudo, sempre há uma imagem da alegria da qual sua vontade não se afasta. Capítulo 23 Felicidade e Verdade

Poderemos então concluir que nem todos desejam ser felizes, pois há aqueles que não querem buscar em ti sua alegria, tu que és a única felicidade, ou talvez todos a queiram, mas como a carne combate contra o espírito, e o espírito contra a carne, e com isso se contentam, porque não querem com força bastante aquilo que não podem, para obtê-lo.

Pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou no erro. Ninguém hesita em declarar que preferem a verdade, como em dizer que querem ser felizes. É que a felicidade é a alegria que provém da verdade. E essa alegria é a que nasce de ti, que és a própria verdade, ó meu Deus, minha luz, saúde de meu rosto.

Todos querem essa vida, a única feliz, essa alegria que se origina na verdade. Encontrei muitos que gostam de enganar.

mas ninguém que quisesse ser enganado. Onde, então, conheceram a felicidade, senão onde conheceram a verdade? Visto que não querem ser enganados, também amam a verdade. E desde que amam a felicidade, que nada mais é que a alegria proveniente da verdade, certamente também amam a verdade. E não a amariam se não retivessem dela, na sua memória, alguma noção.

Por que então não se alegram com ela? Por que não são felizes? Por que se empolgam demais com outras coisas que os tornam mais infelizes do que a verdade, de que se recordam fracamente e que os faria felizes?

Há ainda um pouco de luz entre os homens. Caminhem, caminhem, para que as trevas não os surpreendam. Mas por que a verdade gera o ódio? Por que os homens olham como inimigo aquele que a prega em teu nome, uma vez que amam a felicidade, que mais não é que a alegria nascida da verdade?

Talvez por amarem a verdade de tal modo que tudo de diferente que amam querem que seja verdade. E não admitindo ser enganados, também não querem ser convencidos de seu erro. Desse modo, detestam a verdade por amarem aquilo que tomam pela verdade.

Amam-na quando ela brilha, mas odeiam-na quando os repreende. E como não querem ser enganados, mas enganar, eles a amam quando ela se manifesta, mas a odeiam quando ela os denuncia. Porém ela os castiga, não querem ser descobertos pela verdade, mas esta os denuncia, sem que por isso se manifeste a eles. É assim o coração do homem. Cego e lerdo, torpe e indecente. Quer permanecer oculto, mas não quer que nada lhe seja ocultado.

Em castigo, sucede-lhe o contrário, não consegue esconder-se da verdade, enquanto esta lhe continua oculta. Contudo, apesar de tão infeliz, prefere encontrar alegrias na verdade que no erro. Será, portanto, feliz quando, livre de perturbações, se alegrar somente na verdade, origem de tudo o que é verdadeiro. Capítulo XX e IV Deus e a Memória

Eis como esquadrinhei minha memória em tua procura, Senhor. Não me foi possível encontrar-te fora dela. Nada encontrei de ti que não fosse lembrança, e nunca me esqueci de ti desde que te conheci. Onde encontrei a verdade, aí encontrei a meu Deus, que é a própria verdade. E desde que aprendi a conhecer a verdade, nunca mais a esqueci. Por isso, desde que te conheço, permaneces em minha memória. É lá que te encontro quando me lembro de ti e quando sou feliz em ti.

Estas são as santas delícias que me deixem tua misericórdia, olhando para minha pobreza. Capítulo 25 Recapitulação Onde habitas em minha memória, Senhor? Em que lugar dela estás? Que esconderijo construíste aí? Que santuário aí edificaste para ti? Deixe-me a honra de morar em minha memória, mas em que parte dela resides? É o que quero agora descobrir.

Quando me recordei de ti, ultrapassei aquela região da memória que também os animais possuem, pois não te encontrei entre as imagens dos objetos corpóreos, e cheguei àquela parte onde depositei os afetos de minha alma, mas também aí não te encontrei.

Cheguei à morada que meu próprio espírito possui na memória, porque também o espírito lembra de si mesmo, mas nem ali estavas. Isso porque não és imagem corpórea, nem afeto de ser vivo, como a alegria, a tristeza, o desejo.

o temor, a lembrança, o esquecimento e outros semelhantes. E nem és meu próprio espírito, porque és o Senhor e Deus do Espírito. E tudo isso é mutável, enquanto permaneces imutável e subsistes acima de todas as coisas, e te dignaste habitar em minha memória desde que te conheço.

Mas, por que perguntar em que lugar da memória habitas, como se a memória tivesse compartimentos? Certo é que habitas nela desde que te conheço, e é nela que te encontro, quando penso em ti. Capítulo 26 Onde encontrar Deus

Onde então te encontrei para te conhecer? Não estavas ainda em minha memória antes de eu te conhecer. Onde então te encontrei para te conhecer, se não em ti mesmo acima de mim? No entanto, aí não existe espaço. Quer nos afastemos de ti, quer nos aproximemos, aí não existe espaço algum. Ó verdade, por toda parte assistes aos que te consultam e respondes ao mesmo tempo a todas essas diversas consultas.

Tuas respostas são claras, mas nem para todos. Os homens te consultam sobre o que querem, mas nem sempre ouvem as respostas que querem. Teu servo fiel é o que não pensa em ouvir de ti a resposta que quer, mas em querer a resposta que lhe das. Capítulo 27 Solilóquio de amor Tarde te amei. Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Eis que estavas dentro de mim e eu lá fora vou a te procurar.

Eu disforme me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas comigo e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim e venceste minha surdez. Brilhaste e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o e suspiro por ti. Eu te saboreei e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me e o desejo de tua paz me inflama.

Capítulo 28. A vida do homem. Quando me unir a ti com todo o meu ser, não sentirei mais dor ou fadiga. Minha vida cheia de ti será então a verdadeira vida. Alivias aqueles que enches de ti, mas como ainda não estou cheio de ti, sou um peso para mim mesmo.

Minhas alegrias, que deveriam ser choradas, lutam com minhas tristezas, que deveriam alegrar-me, e ignoro de que lado está a vitória. Ai de mim, Senhor, tem piedade de mim. As tristezas do meu mal lutam com minhas santas alegrias, e eu não sei de que lado está a vitória. Ai de mim, Senhor, tem piedade de mim. Eis minhas feridas, eu não as escondo. Tu és o médico, eu o enfermo. És misericordioso, e eu miserável.

Não é contínua tentação a vida do homem sobre a terra? Quem quer aborrecimentos e dificuldades? Manda-as que os suportemos e não que os amemos. Ninguém ama o que tolera, ainda que goste de o tolerar. E mesmo que alguém se alegre em tolerar, preferiria nada ter que suportar.

Na adversidade desejo a prosperidade e na prosperidade temo a adversidade. Entre estes dois extremos, qual será o termo médio onde a vida humana não seja tentação? Ai das prosperidades do século, onde se receia a adversidade e a alegria é corrompida. Ai das adversidades do século, uma, duas, três vezes aí.

pelo desejo da prosperidade por ser dura a adversidade e pelo temor que vença a nossa paciência. A vida do homem sobre a terra não é, pois, uma contínua tentação? Capítulo 29 Esperança em Deus

Só na grandeza da tua misericórdia coloco toda a minha esperança. Dá-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres. Mandas que sejamos castos? Sabendo, diz um sábio, que ninguém pode ser casto se Deus não lhe der este dom, já é sabedoria saber de quem procede este dom.

A continência reúne os elementos de nossa pessoa, reconduz-nos à unidade que perdemos dispersando-nos por tantas criaturas. Pouco te ama quem te ama juntamente com alguma criatura e não a ama por tua causa. Ó amor, que sempre ardes e jamais te extingues! Ó caridade, meu Deus, inflama-me! Ordena-me a continência, dá-me o que mandas e ordena o que quiseres. Capítulo 30 Sonho e voluptuosidade Sonho e voluptuosidade

Ordenas que me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da ambição do século. Proibiste as uniões luxuriosas e, embora tenhas permitido o casamento, ensinaste que há um estado bem melhor. E pela tua graça optei por esse estado, antes mesmo de me tornar dispensador de teu sacramento.

Mas em minha memória de que falei longamente, vivem ainda as imagens dessas voluptuosidades que meus costumes de outrora ali gravaram. Sem forças diante de mim quando estou acordado, durante o sono, elas não somente suscitam em mim o prazer, mas o consentimento do prazer e a ilusão da ação.

tais ilusões, tem tal poder sobre minha alma e sobre meu corpo, apesar de tão falsas, que seus fantasmas impelem a meu sono o que a realidade não me pode induzir quando em vigília. Acaso então, Senhor meu Deus, será que eu não sou eu nessas horas? E como vai tão grande diferença dentro de mim mesmo do momento em que passo da vigília para o sono e vice-versa?

onde, pois, está a razão que durante a vigília resiste a tais sugestões e que não se abala mesmo diante da realidade. Acaso se fecha juntamente com os olhos ou adormece com os sentidos do corpo? E por que, muitas vezes, mesmo no sono, resistimos, lembrados de nosso propósito, e nele permanecemos castos, negando o consentimento a tais seduções? Todavia, a diferença é tanta que, no caso de não resistir durante o sono,

Ao acordar, voltamos a encontrar a paz de consciência, e a própria diferença entre os dois estados indica que não fomos nós que fizemos aquilo, e lamentamos o que se fez em nós.

Senhor Onipotente, não poderia Tua mão curar todas as enfermidades de minha alma, abolindo também com maior abundância de graça os movimentos lascivos de meu sono? Cada vez mais multiplica, Senhor, o número de Tuas bondades para comigo, para que minha alma, livre do visco da concupiscência, siga até chegar a Ti.

para que não seja rebelde nem mesmo durante o sono, para que pelo estímulo de imagens bestiais, não só não cometa essas torpesas degradantes até a lascivia carnal, mas que nem mesmo consinta nisso.

Não é muito para ti, ó Todo-Poderoso, que podes fazer mais do que pedimos e compreendemos, fazer com que, quer minha idade presente, quer na minha vida futura, eu me deleite nessas tentações, mesmo que sejam tão pequenas, que o primeiro esforço as venceria, quando adormeço com pensamentos castos.

Agora digo exultando ao meu Senhor em que estado me encontro neste gênero de pecado, com tremor pelos dons que já me concedeste e gemendo pelas minhas imperfeições. Espero que aperfeiçoes em mim tuas misericórdias, até que atinja a plenitude da paz de que gozarão em ti meu espírito e meu corpo, quando a morte for absorvida pela vitória.