#17 | Obsessão | Da Escolha à Liberdade
Existe uma pergunta que quase todo mundo já fez em algum momento da vida: "Por que aquela pessoa não me escolheu?"
Em Obsessão, um desejo aparentemente simples dá origem a um dos filmes de terror mais desconfortáveis dos últimos tempos. Mas, por trás do sobrenatural, existe uma conversa muito maior sobre rejeição, consentimento e liberdade.
Neste episódio, a gente fala sobre as mentiras que escolhemos acreditar quando elas nos favorecem, sobre a dificuldade de aceitar a vontade de quem amamos e sobre uma pergunta que atravessa o filme inteiro: Se alguém não pode dizer "não"... o que realmente significa o seu "sim"?
O verdadeiro horror não foi o desejo. Foi a ausência de escolha.
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- A obsessão como reflexo da dificuldade de aceitar a rejeiçãorejeição·Obsessão·Bear·Nick
- A covardia de Bear em evitar a rejeição e a manipulação de NickBear·Nick·covardia·insegurança
- A liberdade como valor fundamental para o amor e as relações humanasamor·liberdade·garantia·segurança
- A capacidade de ignorar a realidade para manter o que se desejaBear·Nick·One Wish Willow·autoengano
- A importância de reconhecer a vida e os planos das pessoas ao redorSarah·Bear·coadjuvante·protagonismo
- O sucesso de filmes originais em contraste com franquias estabelecidasindústria do cinema·franquias cinematográficas·filmes originais·Marvel·DC·Disney·Backrooms·Devoradores de Estrelas
Acabou o filme, maratonou a série ou zerou o jogo? Então cola com a gente, tá começando Depois da Tela com Lincoln Brevillieri. Produção de áudio Vinhetando. Existe uma pergunta que em algum momento da vida quase todo mundo já se fez: por que aquela pessoa não me escolheu? É no mínimo curioso pensar que esse questionamento quase nunca acaba por aí. Pouco tempo depois, ele costuma evoluir para: o que que eu fiz de errado? O que que faltou em mim?
Pode ser que o problema esteja justamente aí. Talvez não tenha faltado nada. Talvez o outro simplesmente tenha feito uma escolha. E aceitar isso pode ser muito mais difícil do que parece. Mas e se eu te dissesse que existe uma forma de deixar todas essas dúvidas de lado? E se bastasse um único desejo pra garantir que alguém nunca mais pudesse ir embora? Então, deixa eu me apresentar. Eu sou o Lincoln e esse é o Depois da Tela, um espaço que não é só sobre o que a gente assiste, é sobre o que fica.
Hoje eu quero conversar sobre um filme de terror que usa uma premissa sobrenatural para discutir esses assuntos, mas também quero falar sobre as mentiras que a gente escolhe acreditar quando elas não nos favorecem, sobre a dificuldade de aceitar a vontade de quem a gente ama, e sobre uma pergunta que ficou martelando na minha cabeça durante dias depois que o crédito subiu: se alguém não pode dizer não, o que realmente significa um sim?
Mas antes da gente começar, eu quero saber de você: qual foi a rejeição que mais se transformou. Me conta lá no Instagram, no @depoisdatela podcast. Aproveita para seguir o perfil também, porque toda semana eu compartilho por lá os bastidores do podcast, os carrosséis, os cortes dos episódios e um monte de conversa que continua depois que eu desligo o microfone. Bem, se prepara, porque depois da vinheta a gente vai falar sobre obsessão.
Esse episódio contém spoiler. A vontade de falar sobre esse filme já tava sendo elaborada na minha cabeça antes mesmo de eu assistir. E o motivo é bem simples: ele representa exatamente o oposto de uma tendência que vem me deixando bem incomodado com a indústria do cinema atual. Essa sensação de que grandes distribuidoras estão cada vez mais desesperadas para diminuir qualquer tipo de risco. E eu até entendo a lógica. Cinema custa caro, muito caro.
Então, na cabeça de quem precisa investir centenas de milhões de dólares numa produção, parece muito mais seguro apostar numa franquia que o público já conhece, num personagem famoso, numa continuação, num remake, ou qualquer coisa que chegue às salas carregando algum tipo de familiaridade. Só que de uns tempos para cá, essa suposta segurança também começou a mostrar algumas rachaduras. Em 2025, por exemplo, a Marvel teve um bem abaixo do que já foi habitual para o estúdio.
A DC recentemente precisou engolir a seco os números muito amargos que a Supergirl fez nas telonas. Isso sem falar nas apostas da Disney ao longo dos últimos anos com seus remakes e revivals, etc. E eu quero deixar uma coisa bem clara aqui: eu não acho que isso significa que o público cansou de franquias e agora só quer assistir filmes originais. Isso claramente não é verdade. As pessoas continuam lotando salas para ver personagens que conhecem e as histórias que elas amam.
Mas existe uma diferença enorme entre dizer que o público gosta de familiaridade e agir como se ele fosse incapaz de se interessar por qualquer coisa nova. E aí veio 2026 para bagunçar um pouco essa conversa. De repente a gente teve Backrooms, um filme relativamente barato dirigido por um jovem cineasta que nasceu na internet e que levou multidões ao cinema. A gente teve Devoradores de Estrelas, que obviamente é uma produção muito maior com um elenco sem trocadilhos, por favor, e um orçamento um tanto inchado, mas que ainda assim apostou numa história que o grande público não conhecia como uma franquia cinematográfica estabelecida.
E aí veio Obsessão, um filme feito com cerca de $750 mil, que enquanto eu escrevia esse roteiro já bateu a casa dos $400 milhões ao redor do mundo. E cara, eu acho isso fascinante, porque quando aparece uma ideia forte, uma visão artística muito clara, e alguém disposto a fazer alguma coisa criativa com os recursos que tem, as pessoas vão aparecer. E foi isso que primeiro me chamou atenção em Obsessão, antes mesmo da temática, antes dos personagens e de qualquer reflexão que o filme fosse provocar em mim.
Eu queria entender como uma produção tão pequena tinha conseguido se transformar num fenômeno tão grande. E aí, depois de assistir, a resposta ficou bem mais clara. Obsessão é um daqueles filmes que parece entender perfeitamente as próprias limitações. Ele não tenta fingir que custou mais do que foi, ele não tenta compensar a falta de grana enchendo a tela com um monte de coisa que ele não consegue executar direito. Muito pelo contrário, ele pega uma ideia relativamente simples e começa a apertar essa ideia até que ela se torne cada vez mais desconfortável.
A história acompanha Bear, um jovem que trabalha numa loja de instrumentos musicais ao lado de Nick, sua amiga de infância e também a pessoa por quem ele é completamente apaixonado. O problema é que Nick não sente a mesma coisa por ele. E eu sei que até aqui isso parece uma premissa de umas, sei lá, 400 comédias românticas que a gente assistiu na vida. Só que em determinado momento o Bear encontra um brinquedo chamado One Wish Willow.
É um salgueiro de um desejo só, eu acho. Uma espécie de galho mágico que promete realizar um único pedido. E ele deseja que a Nicky o ame mais do que qualquer outra coisa no mundo. E o desejo funciona. O que obviamente significa que tudo dá terrivelmente errado. Afinal de contas, esse é um filme de terror. Porque a Nicky, que aparece depois daquele pedido, não é simplesmente uma mulher apaixonada. Alguma coisa mudou nela. O comportamento é estranho, a intensidade é perturbadora, a forma como ela olha, fala e se aproxima dele começa a deixar muito claro que existe alguma coisa extremamente errada naquela situação.
E aqui começa a parte do filme que mais me interessa, porque Bear percebe, e ele percebe muito cedo. Talvez ele não entenda exatamente o que aconteceu, talvez ele não saiba o tamanho do problema que ele colocou em movimento, Mas já na primeira noite dos dois juntos, ele acorda no meio da madrugada, olha pra Nick e vai pesquisar algumas informações sobre o brinquedo na internet. Ele não faria isso se ele acreditasse que tá tudo normal, né?
E foi aí que eu comecei a olhar pro Bear de um jeito meio diferente. No começo do filme, eu até senti um pouco de pena dele, tá? A gatinha dele morre, ele claramente tá sofrendo, existe alguma coisa muito triste ali naquela solidão. Por alguns minutos, é fácil enxergar só um cara tímido, meio perdido, apassionado pela melhor amiga e sem coragem de dizer o que sente. Só que essa impressão dura muito pouco, porque o que começa a aparecer não é apenas timidez, é covardia.
E eu não tô falando daquela covardia de ter medo de se declarar para alguém, tá? Isso é super normal. Eu tô falando de uma incapacidade muito mais profunda de sustentar qualquer sentimento que possa ameaçar a proximidade dele com a Nick. A gata dele acabou de morrer, ele tá mal, mas a Nick aparece, de repente ele engole aquilo tudo, finge que tá Shopping do Bem. Ele empurra o próprio luto para algum canto não porque superou, não porque decidiu lidar com aquilo depois, mas porque existe uma oportunidade ali dele ficar perto da pessoa que ele deseja.
E isso me faz perceber uma coisa muito importante sobre o personagem. Antes mesmo do brinquedo entrar em cena, o Bear já tinha prática em apagar partes da realidade quando elas atrapalhavam aquilo que ele queria. Primeiro ele faz isso consigo mesmo, Eu vou apagar partes de mim para ficar com você. Depois, quando o desejo é realizado, o movimento muda de direção: eu vou apagar partes de você para você ficar. Só que eu quero segurar essa segunda parte por enquanto, porque a gente ainda vai voltar para ela com bastante calma depois.
O que me interessa agora é esse primeiro movimento, essa capacidade que a gente tem de olhar para uma coisa, perceber que alguma coisa ali não tá se encaixando e continuar mesmo assim. Porque eu acho que existe uma diferença enorme entre não saber a verdade e não querer saber. E sim, eu sei que existem situações em que a pessoa realmente não percebe o que tá acontecendo, principalmente quando existe alguém ali manipulador do outro lado.
Tem gente que é muito boa em esconder, distorcer, confundir e fazer a outra pessoa duvidar da própria percepção. Mas existe também o outro caso, e ele acontece muito: aquele momento em que os sinais já estão todos espalhados na nossa frente, mas a gente continua desviando o olhar porque encarar a verdade exigiria alguma coisa da gente. Talvez terminar um relacionamento, pode ser admitir que aquela amizade já existe mais pelo hábito do que pelo afeto, abandonar um projeto no qual a gente investiu tempo para caramba, dinheiro, energia, ou reconhecer que a pessoa que a gente construiu na cabeça nunca existiu do jeito que a gente quer, né?
Nem sempre a mentira precisa ser muito convincente. Às vezes ela só precisa continuar nos oferecendo alguma coisa: companhia, conforto, esperança. Aquela sensação de que ainda existe tempo para a situação mudar. E eu acho que é isso que torna o comportamento do Bear tão incômodo para mim, porque ele não precisa acreditar completamente naquela nova realidade. Basta ela entregar o que ele sempre quis. A Nick tá ali, ela deseja ele, ela não vai embora.
Então cada sinal estranho pode ser empurrado um pouquinho mais para frente, cada dúvida pode esperar até o dia seguinte, cada desconforto pode receber uma explicação provisória. E a gente faz isso o tempo Não necessariamente com um galho mágico amaldiçoado, o que felizmente eu ainda nunca encontrei para vender, mas com as histórias que a gente conta para nós mesmos. E uma das formas mais complicadas disso acontecer para mim é quando a mentira não protege alguma coisa que a gente tem, ela protege quem a gente acredita ser.
Por exemplo, eu já tive uma questão gigantesca com a minha aparência. Hoje ela só é grande, o que para mim já é um avanço. E durante muito muito tempo eu também quis acreditar que eu era muito mais seguro e confiante do que eu realmente me sentia, não só com a forma como eu me enxergava fisicamente, mas também com as coisas que eu produzia. Porque existe uma versão ideal de nós mesmos que é muito confortável de carregar, aquela pessoa segura, confiante, que não liga para o que os outros pensam, que recebe uma crítica e pensa: tudo bem, faz parte.
Só que aí basta um comentário atravessado para acabar com o nosso Uma rejeição desmonta completamente a nossa confiança, uma comparação que faz a gente questionar tudo que a gente produziu nas últimas semanas. E mesmo assim a gente continua dizendo: não, mas eu sou uma pessoa segura. Será? Eu não tô dizendo isso para transformar ninguém numa fraude não, tá? Muito pelo contrário. Eu acho que todo mundo carrega alguma distância entre a pessoa que é e a pessoa que gostaria de ser.
O problema começa quando proteger essa versão idealizada se torna muito mais importante do do que enxergar o que realmente está acontecendo, porque algumas verdades ameaçam o que a gente tem, outras ameaçam quem a gente acredita ser, e essas são muito mais difíceis de abandonar. E se eu admito que um projeto não funciona, eu perco um projeto inteiro. Se eu admito que uma amizade acabou, eu perco uma relação inteira. Mas quando eu não admito que talvez não seja tão seguro assim, tão desapegado assim, tão corajoso assim, ou tão bem resolvido assim quanto eu passei os últimos anos eu tô contando para mim mesmo, eu preciso reorganizar uma história inteira.
E ninguém gosta de descobrir que talvez tenha sido um narrador pouco confiável dentro da própria vida, né? Eu acho que esse é o primeiro grande horror de Obsessão. Antes da violência, antes do sobrenatural, antes de tudo sair completamente do controle, Bear olha para uma realidade que claramente não fazia sentido e de continuar vivendo dentro dela, não porque a mentira é perfeita, mas porque naquele momento ela ainda é mais confortável do que a verdade.
Mas a pergunta desconfortável que fica não é quantas vezes a gente deixou de perceber os sinais, é quantas verdades você realmente não percebeu e quantas você já conhece, mas ainda não decidiu o que fazer com elas. Pausa dramática. E agora é hora da nossa pausa dramática, aquele momento que a gente para tudo e fala sobre a cena que mais marcou. E no caso de Obsessão, eu confesso que eu fiquei muito tentado a escolher uma das cenas mais perturbadoras do filme, aquela do Vale da Estranheza.
Quem já viu o filme sabe exatamente do que eu tô falando, mas não foi ela que ficou comigo não. A cena que mais me pegou acontece quando a Sarah, a melhor amiga do Bear, tá levando uma carta para ele. Até aquele momento ela poderia facilmente ocupar um lugar bem simples na nossa cabeça: o papel da amiga confiável, aquela pessoa que tá sempre por perto, aquela personagem que escuta os problemas do protagonista, oferece algum apoio, depois sai de cena para a história principal continuar avançando.
Só que existe uma vida inteira acontecendo ali, e aquela carta deixa isso muito claro. A Sarah tá esperando uma resposta da faculdade. Dentro daquele envelope existe uma informação capaz de mudar completamente os próximos anos da vida dela. Pode ser uma notícia maravilhosa, uma decepção, pode ser o começo de uma nova fase, ou aquele tipo de resposta que faz a gente sentar um pouquinho e reorganizar os planos. E ela não quer descobrir isso sozinha, ela procura o melhor amigo.
E eu acho que é isso que torna aquela cena tão dolorosa para mim, porque naquele momento a Sarah não tá indo atrás apenas do cara por quem ela tem algum tipo de sentimento, ela tá procurando o amigo e a pessoa que sempre teve ali para ela, alguém com quem ela quer dividir a alegria caso a resposta seja positiva, ou a tristeza caso as coisas não saiam exatamente como ela esperava. Só que a conversa começa a revelar outra coisa: a Sarah gosta do Bear.
E aos poucos ela começa a criar coragem para colocar isso em palavras. O mais interessante é que o filme nunca teve tempo para desenvolver essa possibilidade. A gente não sabe exatamente o que ela diria, até onde aquela conversa chegaria, ou o que aconteceria depois. E nunca vai saber, porque tudo é interrompido. A Nick aparece e a Sarah é morta de uma forma brutal. Eu sei que a cena é violenta, eu sei que a morte é impressionante.
Mas sem pensar duas vezes, o que mais me destrói ali é outra coisa: a carta que não foi aberta. A Sara morre sem saber. E cara, isso é uma crueldade gigantesca, porque de repente a gente percebe que não foi só uma vida que acabou ali, foram vários futuros, várias possibilidades. Ela nunca descobre se foi aceita na faculdade, ela nunca termina de dizer o que sentia, ela não descobre o que ela faria com aquela resposta, ela não sabe aonde ela estaria daqui alguns meses.
Tudo isso tava estava prestes a começar e simplesmente para. E eu acho que foi aí que eu comecei a olhar para Sarah de uma maneira um pouco diferente, porque o filme acompanha o Bear. A gente tá preso à história dele, ao desejo dele, a obsessão dele e ao caos que ele mesmo colocou em movimento. Mas a Sarah não existia ali só para cumprir uma função na vida dele. Muito pelo contrário, ela tinha os próprios planos, ela tinha expectativa, ela morria de medo de abrir aquela carta, e ela tinha um sentimento que ela ainda tava criando coragem de colocar em palavra.
Tinha uma vida inteira acontecendo fora do enquadramento dele. E talvez a melhor definição para o lugar que ela ocupava na história do Bear seja exatamente essa: a Sarah era a coadjuvante confiável, aquela pessoa que tá sempre ali, que escuta, que se preocupa, que oferece apoio, e que de tão constante corre o risco de virar parte da paisagem. Só que a Sarah nunca parece tratar o Bear dessa forma. Lá no começo do filme, quando a gatinha dele morre, ela é a única pessoa que realmente para e reconhece que ele perdeu uma coisa muito Depois, quando tudo começou a ficar estranho, a preocupação dela não era só com o Bear, era com a Nick também.
E eu acho isso fundamental, porque seria muito fácil olhar para Sarah e transformar a história dela naquela velha conclusão de que o Bear deveria ter percebido que a garota certa tava do lado dele o tempo todo. Mas isso não é real. A Sarah não é o prêmio de consolação, não é o prêmio que ele deixou passar. Ela é uma pessoa. E o fato de gostar do Bear nunca parece apagar isso. Ela pode sentir alguma coisa por ele e continuar sendo amiga, pode querer ser escolhida e ainda se preocupar genuinamente com a Nicky.
Ela pode ter os próprios desejos sem transformar todo mundo ao redor em peças de uma história que existe apenas para satisfazer ela. E isso cria um contraste muito legal, porque o Bear passa boa parte do filme olhando tanto para o foco dele que todo o resto começa a perder nitidez. A Sarah tá ali, a amizade tá ali, o cuidado tá ali. E eu sei que o que acontece no filme é extremo, mas essa tendência transformar as pessoas ao redor, pelo menos em alguns momentos, em cenário, é assustadoramente comum, tá?
Quem nunca entrou numa conversa sem realmente estar prestando atenção? A pessoa fala e a gente responde no automático, concorda, faz algum barulho, e às vezes solta até um: nossa, complicado isso aí, hein? Mas a cabeça continua presa num trabalho, num projeto, numa preocupação, numa coisa que aconteceu umas 3 horas atrás, ou numa coisa que ainda nem aconteceu. A nossa mente entra num hiperfoco, uma coisa ocupa tanto espaço que todo o resto começa a ficar meio desfocado.
E eu não tô dizendo que isso transforma alguma pessoa em alguém horrível, claro que não, seria até hipócrita da minha parte, porque quem nunca fez isso, né? Mas é algo que a gente precisa perceber, porque o outro também é importante. E uma das coisas mais interessantes que essa cena faz lembrar é que todo mundo é protagonista da própria história. Eu confesso que eu não tive esse insight enquanto eu assisti o filme. Para mim, a Sarah era apenas uma personagem secundária.
Só que aquela carta fechada mudou completamente a forma como eu enxerguei isso, porque durante todo o tempo em que a gente acompanha o Bear tentando conseguir aquilo que ele quer, a Sarah tava ali vivendo, esperando a resposta, fazendo planos, imaginando possibilidades, criando coragem. E isso não vale só para ela. As pessoas ao nosso redor também estão carregando coisas que a gente não conhece. Pode ser uma preocupação que ainda não conseguem contar, uma alegria que ainda não queiram dividir, uma pergunta que estão criando coragem para fazer.
A gente nunca sabe que carta alguém está prestes a abrir. Eu acho que é por isso que essa cena ficou tanto comigo. A Sarah morre sem descobrir o que existia dentro daquele envelope e sem conseguir revelar tudo que existia dentro dela. Não tem uma reflexão bonita capaz de diminuir a crueldade disso, mas tem um incômodo que eu quero carregar comigo. As pessoas ao nosso redor não são coadjuvantes esperando a nossa história avançar.
Enquanto a gente tá preso nas próprias obsessões, Eles também estão vivendo, esperando as respostas e fazendo os planos. E de vez em quando vale a pena sair um pouquinho da nossa própria cabeça, olhar para quem tá do nosso lado e perguntar: e você, o que que tem acontecido aí? Depois da tela. O que torna tudo isso ainda mais absurdo é que o Bear passa boa parte do filme sofrendo por uma rejeição que na prática nunca existiu. A Nicky nunca colocou ele na friendzone, ela sequer teve a oportunidade de responder qualquer coisa, porque antes que isso acontecesse o Bear já tinha decidido na cabeça dele qual ia ser a resposta.
Durante o início do filme ele age como pobre coitado injustiçado que nunca foi escolhido tadinho. Só que ninguém nunca rejeitou ele, muito pelo contrário. Num determinado momento, a Nick praticamente escancara uma porta para que ele diga o que sente, porque ela nota que tem alguma coisa engasgada ali. E aí cria a oportunidade perfeita para ele. E o que que ele faz? Nada. Ele recua, engole as palavras e escolhe o brinquedo. O Bear não tem medo só da rejeição, ele tem medo da possibilidade dela.
Se ele se declara, a Nick pode corresponder responder ou não. Quando ele faz o desejo, essa certeza desaparece. E cara, isso é uma covardia tão grande. Não por sentir medo, seria muita hipocrisia da minha parte dizer que eu nunca deixei de fazer alguma coisa porque tinha medo da resposta que eu ia ouvir. Quem nunca escreveu uma mensagem e apagou antes de enviar? Quem nunca desistiu de apresentar uma ideia a alguém porque imaginou que, ah, ninguém vai gostar disso?
Quem nunca sofreu por uma resposta que nunca nem chegou a ouvir? A gente faz isso o tempo inteiro, só o Bear pega esse mecanismo tão mundano e leva para um lugar completamente monstruoso. Ele constrói sozinho uma rejeição que nunca existiu e depois toma uma atitude extrema para impedir que ela aconteça. Aí chega a cena do quarto, e eu acho que até ali qualquer possibilidade de interpretar o personagem como alguém que simplesmente não sabia o que tava fazendo já foi por água abaixo.
O Bear sabe que a Nick tá sofrendo presa dentro daquela realidade, e quando a Nick de verdade finalmente consegue falar, ela olha para ele e diz: eu nunca fiquei com você, Bear, por favor me mata. E a resposta dele: por que é tão ruim assim ficar comigo? Cara, olha a audácia desse macho, porque diante de uma mulher aprisionada, desesperada, implorando para morrer, o Bear ainda consegue fazer com que tudo gire em torno dele mesmo.
A Nick tá dizendo: eu tô sofrendo. E o Bear responde: o que que isso tem a ver comigo? Ela tá pedindo socorro, ele tá pedindo aprovação. Ela tá falando sobre a própria existência, e ele transforma aquilo numa avaliação sobre o próprio valor. Nesse momento do filme, a gente não tem mais espaço para auto-engano. O Bear sabe exatamente o que que ele tava fazendo, sabe que a Nick nunca escolheu aquilo, sabe que ela tá vivendo num pesadelo, e sabe que tudo começou por causa da decisão que ele tomou lá atrás.
Mesmo assim, o sofrimento dela continua pesando menos do que a necessidade dele entender por que que ele não foi escolhido. Olha que legal, né? E o mais curioso é que a Nick apenas afirma uma verdade simples: eu nunca fiquei com você. Ela não diz que ele é insuficiente ou um fracassado, apesar de ser, né? Mas o Bear não consegue ouvir isso como uma verdade sobre ela. Ele transforma a frase numa sentença sobre si. E infelizmente, eu preciso admitir que eu entendo um pouquinho esse mecanismo.
Bem pouquinho, tá? Por favor, vamos lá, né? Porque quando alguma coisa é importante para gente, a nossa insegurança tem uma habilidade impressionante de transformar qualquer comentário numa conclusão sobre nós nós mesmos. Alguém critica uma coisa que eu fiz, meu cérebro escuta: você não é bom o suficiente. Alguém prefere outra pessoa, o meu cérebro escuta: você não é bom o suficiente. Alguém simplesmente não quer a mesma coisa que eu e de repente parece que existe alguma coisa de errada comigo.
Só que existe uma diferença enorme entre entender por que isso acontece e achar que isso justifica qualquer atitude. A insegurança explica muita coisa. Ela explica por que um não machuca, explica por que certas críticas atravessam a gente de um jeito que dói mais do que deveria. Ela explica por que uma rejeição específica às vezes parece colocar em dúvida tudo aquilo que a gente é, mas ela não transforma a verdade do outro numa injustiça contra nós.
E eu acho que é esse ponto que o Bear não consegue aceitar. Se a Nick não o escolhe, então deve ter um motivo, alguma coisa que ele possa entender, discutir, consertar. Porque se ela disser que é por conta da timidez dele, ele pode tentar mudar. Se for, sei lá, eu nunca vi você dessa forma, talvez talvez ele consiga convencer ela de algum jeito. Se ela dissesse que ele fez alguma coisa de errado, então ele poderia tentar reparar.
Mas e se a resposta fosse simplesmente eu não quero? O que que a gente faz com isso? Não tem argumento, não tem negociação, não tem nada ali para a gente consertar. Eu acho que a gente tem uma mania muito curiosa de procurar explicações que satisfaçam o nosso ego. A gente diz que quer entender, que quer um fechamento, que quer saber exatamente por quê. Mas será que quer mesmo? Porque existe uma pergunta que eu fiquei fazendo para mim enquanto eu escrevia esse episódio: será que eu realmente quero saber o motivo por trás de um não?
Ou será que eu tô procurando uma resposta que doa um pouquinho menos? Porque são coisas completamente diferentes, né? Vamos concordar aqui. Claro que isso vai mudar dependendo da relação, né? Um casamento de 20 anos não vai terminar da mesma forma que alguém que tá recusando um primeiro encontro. Existem conversas que precisam acontecer, tem responsabilidades emocionais que mudam completamente de acordo com o contexto. Mas existe uma frase que que para mim continua fazendo muito sentido, que é: nem todo não precisa de uma explicação.
Porque às vezes a gente não quer compreender o outro, a gente quer encontrar uma brecha, uma justificativa que ainda permita a gente continuar insistindo. Só que o outro não tem a menor obrigação de aliviar o nosso ego. Na cena do quarto, o Bear simplesmente vai embora, não porque não entendeu, mas porque a verdade exige a única coisa que ele é incapaz de fazer: abrir mão daquilo que ele deseja. Eu sei que é muito confortável olhar para o Bear e pensar que jamais agiríamos daquela forma, e eu espero que sinceramente ninguém que esteja ouvindo esse episódio tenha encontrado um galho mágico amaldiçoado por aí, tá?
Por favor. Mas eu também acho que existe uma versão bem menor, né, obviamente, desse comportamento morando em cada um de nós. A gente já transformou a verdade de alguém numa pergunta sobre o próprio valor, já ouviu um não gostei como se fosse um você não presta, já procurou uma explicação que alimentasse um pouquinho o nosso ego machucado, já sofreu por uma rejeição que nunca nem chegou a acontecer. Todo mundo já passou por isso tudo.
A diferença não tá em sentir esse golpe, porque isso faz parte da vida. A diferença tá no que que a gente vai fazer depois desse golpe. E é justamente nisso que eu comecei a fazer uma outra pergunta, porque até aqui a nossa conversa foi sobre o direito que a Nick tinha de dizer um não. Só que o Bear fez uma coisa muito pior do que simplesmente ignorar esse não, né? Ele eliminou a possibilidade dele sequer existir. E quanto mais eu pensava nisso, mais eu percebia que talvez esse seja o verdadeiro horror de obsessão, que olhando de fora o Bear conseguiu exatamente aquilo que ele passou o filme inteiro desejando.
A Nick tava ali, queria passar todo tempo do mundo com ele, ela demonstrava carinho, demonstrava desejo, não queria ir embora. Era, em teoria, o relacionamento perfeito. Então por que aquilo não parecia bom o suficiente? A resposta que nunca encontrei é bem simples: porque tudo aquilo parecia amor, mas nunca foi. E eu acho muito bonito como o próprio filme comunica isso sem precisar explicar absolutamente nada. Tem uma escolha de fotografia que me chamou muito a atenção.
Depois que o desejo é realizado, a Nick quase nunca aparece completamente iluminada. O rosto dela vive escondido nas sombras, parte da expressão dela desaparece na escuridão. Parece que em alguns momentos existe alguém tentando sair dali de dentro mas sem conseguir ocupar totalmente aquele corpo. É um detalhe técnico muito pequeno, mas que diz muita coisa. Bear continua enxergando só um corpo, ele deixou de enxergar a pessoa. Eu lembrei de uma frase que eu ouvi há alguns anos e que na época me incomodou bastante.
Ela dizia que o amor só existe quando há a possibilidade dele deixar de existir. Na hora eu achei aquilo pessimista demais. Eu pensei: então quer dizer que todo relacionamento tá condenado? Essa frase só fez sentido quando eu percebi uma coisa muito simples. Eu Eu não sou mais o mesmo de 4 anos atrás. Eu espero sinceramente que eu não seja. Nesse tempo eu aprendi algumas coisas, eu mudei de ideia sobre outras, amadureci em alguns aspectos.
Eu continuo precisando amadurecer em vários outros, e eu imagino que daqui a 4 anos tudo isso vai estar completamente diferente. Então por que eu cobraria da pessoa do outro lado uma permanência que nem eu mesmo fui capaz de oferecer para mim, entende? Talvez seja por isso que um relacionamento seja uma construção tão porque a pergunta deixa de ser: você me amou um dia? E passa a ser outra: o meu eu de hoje continua escolhendo caminhar ao lado do seu eu de hoje?
O amor deixa de ser um contrato assinado lá atrás e passa a ser uma escolha que continua acontecendo enquanto as duas pessoas estiverem caminhando juntas. E eu acho isso infinitamente mais bonito do que qualquer promessa de garantia eterna. Aliás, Eu acho que existe uma confusão que a gente faz o tempo inteiro quando a gente fala sobre relacionamento. A gente trata segurança e garantia como se fossem sinônimos, mas elas são quase que opostas.
Garantia é quando a outra pessoa não pode escolher diferente. Segurança é quando ela pode e mesmo assim continua ficando. Se eu pudesse escolher entre as duas coisas, eu não teria a menor dúvida. Eu prefiro muito mais saber que alguém poderia seguir outro caminho e ainda assim escolhe construir a vida do meu lado, porque é essa liberdade que dá dá valor à permanência. E talvez seja justamente essa ausência de garantias que torne as relações humanas muito bonitas, né?
Eu sei que isso pode parecer estranho num primeiro momento, mas tenta acompanhar aqui meu raciocínio e deixa aí nos comentários o que que você acha sobre o assunto. Mas quem é que gosta da ideia de uma pessoa que simplesmente não pode ir embora? Eu acho que ninguém, né? A gente quer segurança, a gente quer estabilidade, quer acreditar que aquilo vai durar. Só que existe essa diferença enorme entre desejar que uma relação com a Duri e acreditar que ela deveria durar independentemente da vontade das pessoas envolvidas.
Porque permanecer ao lado de alguém só tem valor quando essa pessoa continua podendo escolher outro caminho. Eu não tô dizendo que isso seja bonito, não tô dizendo que isso não vá doer, só tô dizendo que é assim que as relações humanas funcionam. E talvez aceitar isso seja uma das partes mais difíceis de amar alguém. O Bear, por exemplo, nunca conseguiu aceitar. Desde o começo do filme, ele tenta fugir da possibilidade de ouvir uma resposta que ele não queria Primeiro porque ele não tem coragem de se declarar, depois quando ele encontra uma forma de garantir o resultado dele e se agarra a ela com todas as forças.
E quando finalmente escuta a verdade saindo da boca da própria Nicky, faz a única coisa que sabe fazer durante o filme inteiro: fugir. No filme, eu acho que o Bear nunca quis a Nicky, ele queria a experiência de ser amado por ela. Só que essas duas coisas não combinam, porque uma experiência pode ser fabricada, o amor não. O amor precisa de verdade, precisa de liberdade, precisa da possibilidade de que a outra pessoa acorde amanhã e ainda assim continue escolhendo dividir a vida com você.
E aí que mora o desconforto de Obsessão, não porque mostra um relacionamento tóxico, nem porque mostra um homem obcecado, mas porque leva até as últimas consequências uma pergunta que em algum momento muita gente já fez para si mesmo: o que eu faria para nunca ser rejeitado? O Bear encontrou a resposta dele e descobriu da pior forma possível que uma pessoa incapaz de ir embora também é incapaz de ficar. E foi justamente essa possibilidade que o Bear destruiu no momento em que fez o desejo.
Talvez um sim só tenha valor porque um não sempre foi possível. Depois da Tela, porque aqui é sobre o que fica. E para você que ficou até aqui comigo, o meu muito obrigado. Se você tá ouvindo pelo Spotify e gostou da conversa, lembra de seguir e avaliar o Depois da Tela. Parece um detalhe pequeno, mas isso ajuda muito o podcast a chegar para mais pessoas. Hoje a gente falou sobre obsessão, reflexão, consentimento. Mas eu acho que no fundo esse episódio acabou sendo sobre liberdade.
Existe uma parte da vida adulta que é muito desconfortável porque ela não oferece garantias. As pessoas mudam, a gente muda, os planos mudam. Às vezes um relacionamento termina, às vezes uma amizade acaba seguindo outro caminho, às vezes a pessoa simplesmente deixa de escolher a mesma vida que escolhia antes. E por mais doloroso que isso possa ser, é justamente essa possibilidade que torna cada permanência tão valiosa, porque ninguém quer do lado por obrigação.
Ninguém quer ser escolhido porque eliminou todas as outras opções. No fim, o que a gente procura é uma coisa muito mais simples e ao mesmo tempo muito rara: olhar para quem tá do nosso lado e saber que aquela pessoa poderia sim ter seguido outro caminho, mas ainda continua escolhendo caminhar perto da gente. Eu acho bonito pensar que as melhores relações não são aquelas em que ninguém pode ir embora, são aquelas em que ninguém precisa ir.
Isso vale para o amor, para amizade, para família e até para os lugares que a gente decide chamar de casa. E eu quero saber de você: qual foi a rejeição que mais te transformou? Deixa sua resposta lá no @depoisdatela podcast. E se esse episódio fez você pensar em alguém, compartilha com essa pessoa. Talvez essa seja uma forma muito bonita de dizer obrigado por continuar aqui comigo. Bem, continua mais um pouquinho porque já já começa o cena pós-crédito.
E se você quiser deixar sua nos futuros episódios, já sabe, é só mandar um email para depoisdatelapodcast@gmail.com que eu te explico direitinho como participar. Combinado? A gente se encontra daqui a 15 dias no próximo episódio. Obrigado mais uma vez pela companhia e tchau tchau! Ei, não sai daí, ainda tem a cena pós-crédito.
Oi, tudo bem? Meu nome é Leonardo Van Beek, escuto podcast há algum tempo já, gosto muito inclusive, sou de Curitiba. Vamos lá. Impressões, cara. Bear, pau no cu pra caralho. Egocêntrico pra caralho. Narcisista da pior forma possível. Vamos ser bem breves. Só arregou quando ele viu que o negócio ficou feio pra ele. Quando ele precisava morrer pra que tudo fosse resolvido. Coitada da Nick. A Nick ficou se fodendo desde o começo.
Ela implorou a morte e ele ainda assim... Ele não conseguiu entender que ela estava sofrendo naquele lugar ali da possessão. E ele, a única pergunta que fez foi: é tão ruim assim ficar comigo? Eu acho que esse foi o ponto mais pesado do filme pra mim. Não foi o ponto gory, não foi o ponto do alimento ali, que tem a cena, né, que ela cozinha um lanche especial, entre aspas, pro cara. Não foi. Foi o ponto emocional e toda essa manipulação onde o Bear se sentia alimentado por aquilo, mesmo que o sentimento era muito deturpado.
Então eu odiei muito o tempo todo o protagonista. E o final, o desfecho, foi satisfatório, mas perturbador. E a gente sabe que a vida da Nick nunca vai ser a mesma. E isso é muito triste, porque não tem final feliz, né? E a gente pode ver isso como uma alegoria na vida de muitas mulheres por aí. E o mais triste de tudo é que tem muito cara que vê esse filme e olha como se a Nick fosse a doida e não tivesse nada de problemático no que o Bear fez.
Sinta, relembre, compartilhe Depois da Tela, porque aqui é sobre o que fica.