#15 | The Last of Us | Da Perda ao Propósito
Existe um tipo muito específico de solidão que aparece quando todo mundo parece ter vivido uma experiência transformadora… e você ficou do lado de fora dela.
Nesse episódio, eu uso The Last of Us como ponto de partida pra conversar sobre conexão emocional, apego, sobrevivência afetiva e a estranha sensação de não sentir aquilo que parecia obrigatório sentir.
Porque às vezes uma história muda a vida de milhões de pessoas… e ainda assim passa pela gente quase em silêncio.
Ao longo do episódio, a gente fala sobre o peso do hype, o medo de não pertencer, o amor como necessidade emocional e a dificuldade moderna de continuar humano num mundo cada vez mais cansado.
-----PARTICIPAÇÃO ESPECIAL NA ABERTURA
Anderson "Andee" (@andersonandee) Adriana Chiovatto (@drichiovatto)Eric Melo (@erics.png)Gabriel Brito (@brito88biel)
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- Pauta Identitaria e Cultural· CulturaMatéria The Last of Us · Conexão emocional · Sentir-se um estranho · Expectativa cultural
- Sofrimento humano· SociedadeSofrimento como competição · Dor individual vs. coletiva · Manter-se humano
- Modo Sobrevivência e Exaustão EmocionalJoel · Ellie · Trauma · Apego
- Outras formas de amor e vínculosNecessidade emocional · Cativeiro emocional · Sobrevivência afetiva
- Contadores de HistóriasMomento certo · Arte e subjetividade · God of War
Acabou o filme? Maratonou a série ou zerou o jogo? Então cola com a gente, tá começando Depois da Tela com Lincoln Brevillieri. Produção de áudio Vinhetando. O que será que tem aqui? Um rádio?
Se alguém estiver ouvindo, aqui não é mais seguro.
A gente não come nada há 2 dias.
Se você encontrar minha filha, por favor, diga para ela que eu tentei voltar. Eu juro que eu tentei voltar. Eu não consigo mais dormir sem ouvir aquele barulho.
Não sei se alguém vai ouvir isso, só queria ouvir alguma voz além da minha. Eu acho que ninguém imaginou que o mundo fosse acabar assim. Por causa desses monstros.
Quando a gente pensa em histórias de fim do mundo, normalmente a primeira imagem que vem na cabeça são os monstros, a destruição, o caos. Mas revisitando essa história, eu comecei a perceber uma coisa: o mais assustador ali não são os infectados, é o silêncio, a solidão, o medo de perder alguém, a forma como situações extremas conseguem desmontar emocionalmente até as pessoas mais duras. E no meio disso tudo existe uma pergunta que ficou ecoando na minha cabeça: você já se sentiu um estranho por não gostar do que todo mundo ama?
E eu já quero muito saber a sua resposta. Então conta para mim lá no @depoisdatela podcast. Aproveita para seguir o perfil porque toda semana eu compartilho por lá os nossos carrosséis, os cortes dos episódios e um monte de conversa bacana de bastidores. Então deixa eu me apresentar, eu sou o Lincoln e esse é o Depois da Tela, um espaço que não é sobre o que a gente assiste, é sobre o que fica. Hoje a gente vai falar sobre solidão, sobre conexão humana, sobrevivência emocional e sobre o que sobra da gente quando continuar vivo não é mais o suficiente.
Bem, se prepara porque depois da vinheta a gente vai falar sobre The Last of Us. Quando o assunto é cultura pop, existe um tipo muito específico de desconforto que aparece quando todo mundo aparentemente viveu uma experiência transformadora e só você ficou meio que do lado de fora dela, né? Porque normalmente, quando uma obra alcança um certo nível de unanimidade, a gente já chega nela carregando uma certa expectativa. Não é só Esse jogo é bom.
Não, não, não, não, não, não. É aquele tipo de coisa que as pessoas descrevem como revolucionário, como uma experiência que mudou a forma delas enxergarem narrativa, personagens, videogame e às vezes a vida. E The Last of Us virou exatamente isso para muita gente. Mesmo quem nunca jogou sabe o tamanho que essa franquia alcançou, as premiações, os debates, os textos gigantescos que analisam cada detalhe da trama, os vídeos emocionados da galera no YouTube, as pessoas tratando o jogo quase como um evento geracional.
Era praticamente impossível gostar de videogame e não ouvir alguém dizendo que aquela era uma das histórias mais impactantes já feitas. E eu lembro que quando eu finalmente fui jogar, o jogo já carregava todo esse peso. Eu tive um PlayStation 3 por um período muito curto, e aí eu pensei, ah, beleza, tá na hora da gente entender porque que falam tanto assim desse jogo, né? Porque a expectativa já existia na minha cabeça, ela já tava Meita.
E eu não vou mentir, ela era gigantesca. Eu realmente achei que eu fosse terminar o jogo, largar o controle, ficar olhando para o teto em silêncio, tentando processar aquilo tudo que eu tinha acabado de vivenciar. Talvez esse seja um bom momento para a gente fazer um pequeno parênteses aqui para eu explicar um pouco para quem nunca jogou ou passou longe desse universo. The Last of Us se passa em um mundo devastado por uma infecção fúngica que destruiu completamente a sociedade da forma que a gente conhece ela hoje.
E no meio desse caos, a história acompanha Joel, um homem extremamente fechado e emocionalmente destruído, que recebe a missão de atravessar os Estados Unidos levando uma garota chamada Ellie até um grupo bem específico de sobreviventes. No papel, é uma premissa relativamente simples, só que o jogo transforma essa jornada numa discussão constante sobre perda, trauma, sobrevivência, afeto e sobre o que sobra da nossa humanidade quando o mundo, ao nosso redor já desmoronou completamente.
Talvez seja justamente por isso que tanta gente tenha se conectado tanto e de maneira tão profunda com essa história. E olha que doido, eu não consigo nem dizer que eu tive uma experiência ruim. Na verdade, eu acho que o melhor jeito de eu explicar o que eu senti é fazendo uma comparação muito específica. Vê se vocês conseguem me entender. Sabe quando você vai no cinema e aí, beleza, você assistiu um filme que ele claramente não é tão ruim, mas que você também não achou lá grandes coisas assim.
E aí, conforme os dias vão se passando, você mal consegue lembrar de partes muito importantes da história, porque de alguma forma aquilo simplesmente não grudou. Foi mais ou menos assim que eu me senti jogando The Last of Us pela primeira vez. E isso começou a me gerar uma sensação muito estranha no meio da experiência, porque eu fui percebendo que talvez aquilo não tivesse me atravessando da forma que parecia atravessar todo o resto do planeta, sabe?
Acho que vale a pena também reforçar deixar aqui que nada do que eu tô dizendo tem a ver com a parte técnica do jogo, tá? Longe disso. Dá para ver de longe o cuidado com a direção, com a atuação, ambientação, os personagens, atenção nos momentos da gameplay. Inclusive, até hoje eu acho jogabilidade bem gostosinha, aquela mistura de furtividade com improviso. Eu acho que funciona muito bem. Você sente o peso das situações, né, a urgência dos confrontos.
Tudo ali é muito competente, só que emocionalmente alguma coisa que simplesmente não encaixou para mim. E eu lembro exatamente do momento que eu comecei a perceber isso com mais clareza. Foi ali, mais ou menos no meio da campanha, quando a sensação começou a surgir na minha cabeça. Cara, grande parte dessa história é basicamente levar a Ellie do ponto A ao ponto B enquanto o mundo tenta impedir isso. Obviamente aconteciam várias coisas importantes nesse percurso.
O jogo introduz personagens, vai introduzindo alguns conflitos, umas perdas, umas relações, mas naquele momento o tal vínculo profundo entre o Joel e a Ellie ainda não tinha me capturado completamente. É justamente nesse ponto que mora a parte um pouco mais desconfortável dessa experiência, porque quando uma obra é tão amada coletivamente, não se conectar com ela gera uma sensação bem intensa, digamos assim, de inadequação. Como se todo mundo tivesse recebido um memorando e só você não leu porque foi direto para caixa de spam, sabe?
E eu sei que que isso pode parecer exagero, mas é real. E a cultura pop tem feito isso muito. Ela cria essas experiências coletivas, essa sensação de pertencimento. Quando todo mundo vive emocionalmente a mesma coisa ao mesmo tempo, existe ali uma sensação quase automática de comunidade. Então, quando você fica de fora, é no mínimo estranho. Eu lembro que praticamente todos os meus amigos amavam o jogo, mas amavam no nível muito acima do achei legal.
Era uma no chão mesmo, sabe? Aquelas histórias que a galera compartilha para os netos assim. E justamente por isso eu preferi nem comentar muito sobre a minha experiência quando eu terminei, porque eu já consegui imaginar perfeitamente a reação da galera, como: como assim você não amou isso? Você jogou direito? O problema com certeza tá em você. E foi interessante refletir sobre isso hoje, mas a verdade é que em algum nível eu também comecei a pensar sobre o assunto.
Talvez eu fosse frio demais, talvez eu tivesse perdido alguma camada emocional importantíssima, talvez eu só tivesse deixado passar despercebido o que fazia aquilo se tornar tão querido, tão especial. Um outro ponto importante nessa história é que eu tenho a impressão de que hoje existe quase uma pressão para que determinadas experiências culturais sejam esse ato revolucionário, esse ato transformador. Todo filme precisa ser digno de Oscar, toda série precisa se, sei lá, construir emocionalmente, todo jogo precisa mudar a sua percepção sobre narrativa.
E eu não tô falando isso de uma forma arrogante ou cínica não, tá? Porque eu também entro nessa expectativa. A diferença é que às vezes a experiência simplesmente não vem. E talvez o mais difícil não seja não gostar de alguma coisa extremamente famosa, talvez o difícil seja não entender por que que ela não funcionou em você. Existe sim uma diferença entre reconhecer que algo é bom e sentir aquilo funcionando dentro de você. Eu acho importante deixar isso bem claro aqui: esse episódio não é sobre dizer que The Last of Us é ruim, tá?
Muito pelo contrário. Eu consigo enxergar perfeitamente o valor da obra, o cuidado da narrativa, o impacto cultural que ela teve e continua tendo. Inclusive, a prova disso é que eu recentemente revisitei o jogo inteiro na versão remasterizada. Eu platinei o jogo, até o final tentando entender se dessa vez, um pouco mais velho, com outras vivências, um outro repertório emocional, aquela história finalmente bateria diferente. Só que não aconteceu.
E talvez isso diga muito menos sobre o jogo e muito mais sobre a nossa conexão com histórias. Porque assim, ao mesmo tempo, eu tive uma experiência completamente oposta com God of War. Isso é curioso, porque olhando friamente, os dois jogos compartilham temas muito parecidos. Os dois falam sobre perda, paternidade, trauma, reconstrução emocional, e até possuem estruturas narrativas relativamente simples quando a gente para para resumir.
Se eu simplificar brutalmente os dois, um é: leve L do ponto A ao ponto B. O outro é: leve as cinzas da sua esposa do ponto A ao ponto B. E ainda assim, uma dessas histórias me atravessou profundamente e a outra passou por mim quase como um eco distante. Isso me fez perceber uma coisa que talvez seja o verdadeiro coração conclusão desse episódio: algumas histórias chegam na gente no momento certo, outras não. E é muito provável que o problema definitivamente não seja a obra.
Talvez ela só não tenha encontrado a versão certa da gente ainda, ou talvez nunca encontre, e tudo bem também. A grande verdade é que a arte não é matemática. Não existe uma fórmula universal capaz de garantir a conexão emocional das coisas. Às vezes a gente olha para uma obra e ela muda a nossa vida, às vezes a gente admira de longe, e às vezes simplesmente passa pela gente enquanto transforma a pessoa do lado. Eu acho que The Last of Us acabou se tornando importante para mim justamente por conta dessa reflexão, não pelo impacto emocional que ela causou, mas pela pergunta que ela deixou: por que algumas histórias conseguem entrar tão fundo na gente enquanto outras só passam?
Pausa dramática.
Agora é hora da nossa pausa dramática, aquele momento que a gente para tudo e fala sobre a cena que mais marcou. E No caso do The Last of Us, a cena que ficou comigo acontece lá na represa do Tommy, numa discussão entre o Joel e a Ellie. Contextualizando aqui rapidinho, essa altura da história o Joel decide que o Tommy, seu irmão, né, deveria assumir a missão de levar a Ellie até os vagalumes. Na cabeça dele aquilo fazia muito sentido, porque o Tommy seria mais preparado, mais seguro, mais capaz de proteger ela.
Só que a Ellie entende aquilo de outro jeito. Para ela aquilo não era proteção, era abandono. Então ela foge. O Joel vai logo atrás dela e os dois acabam tendo uma das conversas mais intensas do jogo inteiro. E o que torna essa cena tão forte não é só o texto, é o fato de que pela primeira vez alguém realmente confronta o Joel emocionalmente. Porque durante boa parte da história até então, ele funciona como alguém completamente fechado, um cara endurecido pela dor, pela perda, pela necessidade constante de sobreviver.
E faz muito sentido que ele seja assim, tá? O mundo daquele jogo destruiu praticamente tudo ao redor dele. Só que chega uma hora em que o Joel simplesmente explode e diz: você não faz ideia do que é uma perda. E a Ellie responde na lata: todo mundo que eu já amei morreu ou me deixou. Todo mundo menos você. Então não me diga que eu estaria mais segura com outra pessoa, porque a verdade é que eu só ficaria com mais medo. Só que toda essa conversa se conecta totalmente com o que o Tommy disse para ele mais cedo: todo mundo vive perdendo gente, Joel, você não é o único que perdeu alguém.
E nossa, essa frase me pegou de um jeito tão forte, porque ali o jogo deixa de falar sobre trauma, infectado, sobrevivência, e começa a falar sobre uma coisa muito mais humana: a maneira como a dor pode fazer a gente se fechar tanto que começamos a agir como se o nosso sofrimento fosse um território isolado, como se ninguém mais fosse realmente capaz de entender. E antes de continuar, eu acho importante deixar uma coisa muito clara: eu não tô dizendo que o Joel é egoísta ou cruel.
Muito pelo contrário, eu só acho que ele é um cara profundamente machucado. E talvez seja justamente aí que mora o problema. Tem dores que machucam tanto que elas começam a distorcer a forma como a gente enxerga o resto do mundo. E eu acho que muita gente já passou por isso em algum nível. Claro, talvez não no contexto de um apocalipse zumbi, né, mas em algumas coisas muito mais próximas da nossa realidade. O fim de um relacionamento, uma perda importante, uma decepção pesada, uma fase muito ruim da vida, às vezes a gente sofre um baque tão forte que começa a construir uma muralha ao redor de si mesmo, na esperança de não cair na próxima armadilha.
E assim, na superfície, quase sempre isso parece proteção. Pelo menos para mim parecia. Hoje eu consigo olhar para trás e perceber que esse movimento de isolamento também existe em mim, mas por muito tempo eu não enxergava dessa forma. Eu genuinamente acreditava que eu só tava me protegendo, como se me afastar fosse evitar novos danos, como se sentir menos fosse uma forma inteligente de sobreviver. Só que tem um detalhe perigoso nisso tudo: quanto mais a gente transforma a própria dor em moradia, mais difícil fica perceber que todo mundo ao redor também tá tentando sobreviver às próprias cicatrizes.
Essa fala da Eli para mim é muito importante, impactante, porque ela desmonta completamente essa lógica de sofrimento como competição, essa ideia de você não sabe o que eu passei, ninguém entende a minha dor, o meu caso é diferente. E sim, cada dor é diferente mesmo, ela é individual, ela machuca em lugares específicos. Mas isso não transforma ninguém em protagonista exclusivo da tragédia humana. Todo mundo vai perder alguém, todo mundo vai passar por alguma coisa que vai destruir uma parte de si, todo mundo vai precisar aprender a continuar mesmo depois de um grande impacto.
A gente não é o alecrim dourado das novelas mexicanas, a gente é só mais um nesse moedor de sonhos chamado vida. E eu sei que isso pode soar pessimista, mas estranhamente existe também um conforto nisso, porque talvez reconhecer que a dor é coletiva ajude a gente a parar de carregar tudo sozinho. Talvez seja justamente por isso que a Ellie insiste tanto em permanecer com o Joel, porque ela entende uma coisa que ele ainda não consegue aceitar: sobreviver sozinho até pode manter alguém vivo, mas não necessariamente humano.
E a beleza da cena tá aí. Ela não cura o Joel, ela não resolve os traumas dele, ela não desmonta instantaneamente os muros que ele construiu, mas ela cria uma rachadura. E às vezes é assim que uma conexão começa, não quando alguém salva a gente da dor, mas quando alguém consegue atravessar, nem que seja por alguns segundos, o silêncio que a gente construiu ao nosso redor.
Depois da tela.
Mesmo sem ter me conectado profundamente com o jogo inteiro, existe uma coisa em The Last of Us que eu acho extremamente poderosa: a forma como ele trata o apego. Porque em muitos momentos o jogo parece menos interessado em discutir amor de uma forma bonita e idealizada e mais interessado em mostrar mostrar como as pessoas acabam se tornando emocionalmente necessárias umas para as outras. Isso muda completamente o peso das relações.
Eu falei no bloco anterior que o vínculo entre o Joel e a Ellie demorou um pouco mais para me pegar emocionalmente, mas olhando para a história hoje, acho interessante perceber que isso também faz parte da construção deles, né? Porque o jogo nunca trata aquela relação como uma coisa mágica, uma conexão instantânea. Não é aquele clichê onde duas pessoas se encontram e imediatamente viram família. Muito pelo contrário. No começo existe uma certa distância, uma desconfiança, uma irritação.
O Joel claramente tenta manter a Ellie num lugar um pouco mais frio, quase operacional, como se ela fosse uma missão que ele precisa concluir. E é justamente por isso que esse personagem é tão tridimensional, né? Porque depois de certas perdas, se apegar de novo parece perigoso demais. Só que a convivência é um negócio complicado, né? Quanto mais tempo você passa do lado de alguém, mais difícil fica manter aquela blindagem emocional intacta.
Eu acho muito bonito essa ideia de que o amor não nasce pronto, que ele vai sendo construído nas pequenas coisas, nas conversas aleatórias, nos momentos de silêncio, na convivência, e também, obviamente, nos conflitos. Eu confesso que eu só me dei conta disso enquanto eu escrevia o roteiro, de que talvez seja justamente esse o motivo pelo qual a relação dos dois funciona tão bem para tanta gente, porque ela não parece idealizada, ela parece gradual.
Só que junto desse afeto nasce uma outra coisa: o medo. Porque quanto mais alguém passa a ocupar um espaço emocional importante dentro da gente, maior fica a possibilidade daquela pessoa nos destruir quando for embora. E quando o assunto é The Last of Us, é bem nesse ponto mesmo que as coisas começam a ficar realmente desconfortáveis, porque o jogo começa a mostrar como o amor e a sobrevivência emocional podem acabar se misturando de um jeito um tanto perigoso.
O Joel não protege a Ellie só porque ele gosta dela. Em alguns momentos, em muitos momentos, parece que ele protege ela porque perder aquela conexão significaria desmoronar completamente mais uma vez. E eu acho isso absurdamente real, não necessariamente saudável, mas real. Porque convenhamos, na prática isso acontece com muito mais frequência do que a gente gostaria de admitir. Às vezes uma pessoa entra na nossa vida e sem perceber começa a ocupar um espaço que vai muito além do carinho.
Ela vira uma sustentação emocional, vira uma justificativa, vira um motivo para continuar tentando. E isso pode ser um tanto complicado quando a nossa estabilidade emocional passa a depender completamente da existência de outra pessoa. A gente perde um pouco o controle sobre si mesmo, e o nosso humor depende do outro, a nossa paz depende do outro, as nossas decisões começam a girar em torno do outro. É quase como se a nossa existência emocional fosse terceirizada.
E a gente faz isso o tempo todo, não faz? Coloca o peso da nossa necessidade no sucesso de um relacionamento, na validação de um amigo, na expectativa de que o outro preencha um vazio que é só nosso. A gente cria o nosso próprio vagalume, aquela cura milagrosa que vai salvar a nossa vida, e coloca ela no bolso de outra pessoa. O problema é que quando você faz do outro o seu único motivo para caminhar, o amor começa a se misturar com uma necessidade que deixa de ser saudável.
É uma linha muito fina entre o cuidado e o cativeiro emocional. E eu preciso dar o braço a torcer porque o roteiro do jogo nunca tenta simplificar isso, ele não tenta passar pano para ninguém. O jogo não tá interessado em perguntar: isso é certo ou errado? Ele tá muito mais interessado em perguntar: você entende por que que alguém chegaria nesse ponto? E honestamente, dá para entender. Talvez justamente porque o Joel já chega naquela história emocionalmente quebrado.
A perda da filha não virou apenas tristeza, virou uma parte da estrutura dele, virou uma lente, virou na maneira como ele passou a enxergar o mundo inteiro. Isso conversa muito com o que a gente falou lá na pausa dramática. O Joel parece alguém que passou tanto tempo tentando sobreviver à própria dor que acabou transformando ela numa espécie de centro gravitacional emocional, porque tudo gira em torno daquela perda. E eu nem preciso dizer o quanto isso é extremamente danoso, né?
Porque quando alguém vive tempo demais dentro da própria dor, qualquer possibilidade de perder de novo começa a parecer insuportável. Eu acho que E aí que o amor e o egoísmo se misturam de um jeito um pouco confuso, porque existem escolhas que a gente entende emocionalmente mesmo sabendo que elas podem ser moralmente questionáveis. E The Last of Us vive exatamente nesse território cinzento. Não existe uma resposta confortável, não existe uma decisão limpa, não existe aquela separação simples entre o herói e o vilão.
Só existem pessoas tentando sobreviver emocionalmente da melhor forma que conseguem. E a parte mais disso tudo é perceber que em situações extremas muita gente provavelmente faria a mesma coisa. Até porque essas histórias de apocalipse quase nunca mexem com a gente por conta dos monstros ou dos zumbis ou o que quer que seja. No começo da jornada, a Ellie era só uma carga, um contrato de entrega de mercadoria para o Joel. E é fascinante reparar como as grandes crises têm esse poder de forçar intimidade que em tempos normais a gente jamais aceitaria, né?
Na calmaria a gente consegue consegue escolher a dedo quem entra na nossa rotina, mas no meio do tiroteio você se segura em quem tiver do teu lado. Isso me faz questionar se esses laços que nascem do trauma são reais ou se são apenas o desespero de dois náufragos querendo dividir o mesmo pedaço de madeira. A gente se une pelo afeto legítimo ou pelo pavor absoluto de morrer sozinho no escuro? Quando a gente limpa todo o barulho da história, o que sobra de mais assustador é perceber que os seres humanos estão dispostos a fazer qualquer qualquer coisa quando o assunto é sobrevivência ou medo ou desespero.
E aqui eu acho que o The Last of Us é muito inteligente, porque o jogo não mostra apenas o mundo destruído, ele mostra pessoas sendo transformadas por esse mundo. Algumas endurecem, outras enlouquecem, outras se tornam extremamente violentas, e algumas simplesmente param de confiar em qualquer coisa. E isso é um exercício interessante, porque a gente pensa que isso funciona quase como uma via de mão dupla, porque assim, existem pessoas que talvez já carregassem certas sombras dentro de si e só precisavam de um cenário extremo para deixar aquilo florescer.
Mas também é impossível ignorar o quanto situações absurdas conseguem empurrar seres humanos para lugares emocionalmente irreconhecíveis. E entender isso não significa justificar, tá? Eu acho importante deixar isso bem claro aqui, porque compreender o motivo de alguém fazer algo terrível não transforma automaticamente aquilo em algo aceitável. Mas talvez ajude a gente a perceber o quanto moralidade se torna um tanto confuso quando viver deixa de ser uma garantia.
E é bem possível que seja por isso que uma das cenas mais bonitas do jogo seja justamente quando a girafa aparece, porque no meio de um mundo completamente destruído, violento e brutal, o Joel e a Ellie param por alguns segundos para simplesmente admirar algo muito bonito. E cara, eu acho essa cena muito simbólica porque ela parece lembrar que continuar e continuar humano são coisas completamente diferentes. Sobreviver é instintivo, mas conseguir sentir encantamento, afeto, conexão, mesmo depois de tanta desgraça, talvez seja o que ainda resta de humanidade para aquelas pessoas.
Isso que torna The Last of Us tão fascinante para tanta gente. Não os infectados, não a violência, não o apocalipse, mas sim essa pergunta desconfortável que fica ecoando o tempo inteiro. Quanto de nós ainda sobra depois que o mundo acaba?
Depois da Tela, porque aqui é sobre o que fica.
E para você que ficou até aqui comigo, o meu muito obrigado. Se você tá ouvindo pelo Spotify e gostou da conversa, pô, lembra de seguir e avaliar o Depois da Tela. Isso ajuda demais o projeto a continuar crescendo. Hoje a gente falou sobre uma grande verdade: gostando ou não da jornada do Joel e da Ellie, é impossível passar por The Last of Us sem levar algum arranhão. Trocadilho não intencional, tá? Seja pelo incômodo de não fazer parte de uma unanimidade ou pelo peso de perceber o quanto a nossa própria dor pode nos isolar do mundo.
No fim, as histórias de apocalipse não servem para nos assustar com o futuro, elas servem como um espelho retrovisor para a gente olhar para trás e entender o que estamos fazendo com o presente, com as nossas relações, com as pessoas que a gente escolhe segurar a mão quando o nosso mundo particular começa começa a desabar. E eu posso não ter favoritado esse jogo na minha lista, mas ele me fez sentar aqui, abrir o microfone e conversar com você sobre o que nos mantém humanos.
E se uma obra consegue fazer isso, talvez ela seja realmente isso tudo que dizem por aí, né? Só que de um jeito diferente para cada um de nós. E agora eu quero retomar a pergunta lá do começo: você já se sentiu um estranho por não gostar do que todo mundo ama? Me conta lá no Instagram, no @depoisdatela podcast. Até porque às vezes pode acontecer da gente crescer acreditando que conexão funciona como uma regra coletiva, que certas obras deveriam tocar todo mundo da mesma maneira.
Mas arte não funciona assim, pessoas também não. Cada história vai encontrar uma versão diferente da gente. E entender que não existe jeito certo de sentir pode ser algo libertador. E se você gostou desse episódio, compartilha com aquela pessoa que você queria ter do lado no meio de um apocalipse zumbi. E antes de eu ir, eu queria fazer um convite. Entre um episódio e outro, eu comecei a inscrever em uma newsletter chamada Versão do Diretor.
A ideia não é repetir o que você ouviu aqui, é continuar a conversa. Lá eu escrevo com mais calma, com mais espaço, sobre pensamentos que ficaram atravessados, sobre coisas que eu vi, joguei ou senti nesses dias, sempre com um texto meu, uma indicação e um convite para você participar também. Se quiser receber, o link para se inscrever tá lá na bio. Bem, então é isso. Fica mais um pouquinho porque já já vai começar a cena pós-crédito.
E se você quiser deixar a sua voz futuros episódios, já sabe, é só mandar um email para depoisdatelapodcast@gmail.com que a gente te explica direitinho como participar. Combinado? A gente se encontra daqui a 15 dias no próximo episódio. Obrigado mais uma vez pela companhia e tchau tchau!
Ei, não sai daí, ainda tem a cena pós-crédito. Esse comentário contém spoiler.
Oi gente, eu sou Ana Laura eu crio conteúdo sobre games e fotografia nos jogos. Bom, eu vou começar bem do comecinho mesmo, é até meio redundante de falar assim, mas eu vou voltar lá no meu primeiro contato com o jogo e o período que isso aconteceu. Eu sempre tive console na vida desde pequena, mas a era do PlayStation 3 para mim foi uma era perdida, então eu não cheguei a ter contato com o primeiro The Last of Us na sua época de lançamento, assim como eu também não tive no lançamento da parte 2.
Mas no final de 2020 era uma época que eu tava passando por um momento bem complicado e eu realmente não tava bem. E eu acabei ganhando um PlayStation 4 dos meus pais, e logo em seguida eu saí correndo para comprar o The Last of Us e entender o que todo mundo falava tão bem dessa obra. E é claro, eu fiquei fissurada e corri comprar o parte 2. Eu nem imaginaria o quanto eu me apaixonaria por essa obra. Acho que o que mais me chama atenção nessa obra, me fez criar um laço tão forte, é a carga emocional e afetiva, né?
É a forma como a gente consegue se conectar e se apegar tanto nos dos personagens. Isso eu digo nem só de protagonistas, mas eu também falo daqueles personagens que acabam passando por nós ao longo da jornada e como a história de cada um deles consegue nos tocar com uma intensidade muito forte. E eu acabei sentindo isso ainda de uma maneira mais intensa na parte 2, onde eu consegui me apegar muito na Ellie. A gente já conhecia a história dela, né, mas eu vi ela em muitos momentos onde ela tava angustiada, ansiosa, e eu também estava passando isso, né?
Então teve essa identificação. E depois a gente consegue ver também o lado da Abby. Teve um misto de sentimento ali. No começo ela é nos colocada como uma certa inimiga, uma certa vilã, já que em pouco tempo a gente vê que o primeiro baque da jornada é causado por ela, que é a perda do Joel. Mas depois o jogo brinca com esse sentimento nosso de raiva do começo para entender a história dela. E aí nos coloca para ver desde pequenininha a Abby lá com seu pai.
E isso também me trouxe muito identificação, visto que eu sou extremamente apegada aos meus pais, né. Depois o jogo nos coloca para a juventude, até o momento em que ela perde o pai, para o momento final de The Last of Us Parte 2, onde a Ellie tá sozinha e com um dos seus maiores medos, né, que era terminar sozinha. E a Abby tentando salvar o Lev, assim como Joel salvou a Ellie. Então acho que tudo isso, esse misto de sentimento, foi o que mais me fez ficar apegada a essa franquia, esses jogos.
E essa foi a minha ligação com The Last of Us. Tem muita coisa que que me chama atenção nesse jogo, mas principalmente a forma que ele consegue mexer com a gente. É isso, eu espero que vocês tenham gostado muito. Foi um prazer participar aqui com vocês. Um beijo e tchau!
Sinta, relembre, compartilhe depois da tela, porque aqui é sobre o que fica.