Livros em Cartaz 099 – O Filho de Mil Homens
Neste episódio Gabi Idealli e Andreia D'Oliveira nos apresentam uma vila marcada por ausências e a sobrevivência através de afetos improváveis vividos por personagens que reinventam o significado de família, todos criados por Valter Hugo Mãe em seu prosaico-poético "O filho de mil homens".
Entre homens que desejam ser pais, mulheres que carregam dores invisíveis e encontros que parecem obra do acaso, discutimos como a narrativa constrói, pouco a pouco, uma comunidade de afetos onde antes só havia vazio e silêncios.
Deixe-se levar pelos sonhos e vem ouvir!
Comentados no Episódio
- O Bairro, conjunto de textos de Gonçalo M. Tavares
- Histórias Falsas, coletânea de contos de Gonçalo M. Tavares
- Vamos Comprar um Poeta, novela de Afonso Cruz
- A Intrusa romance de Júlia Lopes de Almeida
- A cabeça do santo romance de Socorro Acioli
- O quarto de despejo autobiografia de Carolina Maria de Jesus
- Zona de Interesse (2023 ‧ Guerra/Drama ‧ 1h 45m) de Jonathan Glazer
- 2666 de romance Roberto Bolaño
- Putas Assassinas coletânea de contos de Roberto Bolaño
- O Ano de 1985 (2018 ‧ Drama/LGBT ‧ 1h 25m)
- EntreLinhas - Valter Hugo Mãe e Daniel Rezende (episódio 187 | 21/11/2025)
- Papel do Homem na FamíliaSolidão e o desejo de ser pai · Valter Hugo Mãe · Crisóstomo · Camilo · Isaura · Antonino · Formação de famílias improváveis · O conceito de afeto
- A Naifa e a aproximação à cultura portuguesaAutores africanos de língua portuguesa · Gonçalves M. Tavares · Afonso Cruz · Júlia Lopes de Almeida · Socorro Acioli · O mercado editorial e a promoção de autores · A importância da leitura em língua portuguesa
- A relação entre enredo e experiência de leituraA dificuldade de encontrar originalidade na literatura · O incômodo como ferramenta literária · Pedro Páramo · Roberto Bolaño · A relação entre o leitor e a obra · A formação de leitores e o mercado editorial
- Pedro Páramo: Análise do FilmeA visão de Daniel Rezende sobre a obra · A atuação de Johnny Massaro · A atuação de Rodrigo Santoro · A melancolia como tom do filme · A diferença entre a experiência do livro e do filme
- Inveja versus destruição na comunidade gayO tratamento de Antonino no livro · O uso do termo "maricas" · A violência social contra pessoas LGBTQIA+ · A busca por aceitação e pertencimento
- Concessão GaleãoA poética da escrita de Valter Hugo Mãe · A representação da crueldade e da violência · A prosaica visão do cotidiano · A tetralogia das minúsculas
- Obras e Personagens MarcantesO Bairro · Histórias Falsas · Zona de Interesse · 2666 · Putas Assassinas · O Ano de 1985 · As Horas · O Homem Bicentenário
- O amor e a construção de uma famíliaA família como construção de afeto · A superação da solidão através dos laços · O amor como força transformadora
"Um homem chegou aos 40 anos e assumiu a tristeza de não ter filho. Chamava-se Crisóstomo." E assim começa O Filho de Mil Homens, romance de Walter Ugumay. Eu sou Andréia de Oliveira.
Eu sou Gabi Deale.
E este é o Livros em Cartaz.
Semi-português, porque não é português, português de Portugal, né?
Ah, então, mas é escrita como literatura portuguesa, né?
É, porque ele muda muito cedo pra lá, não?
Isso, isso, isso.
Ele se muda muito cedo, né?
Então... Isso, ele vai criança assim, né? Ele sai de Angola e vai pra Portugal, né? O Walter Ugumã. Que é bem na época da Guerra da Independência. Então ele é de 71, a Guerra de Independência de Angola é 78, não é isso? A guerra começa um pouco antes, né? Mas eu acho que é isso. Então é muito menino, ele muda, é muito, muito criança. E aí praticamente um português mesmo, né? Não acaba não sendo angolano, né? Tem essa coisa, né, desses autores africanos, né, que a gente olha e fala africano onde, né?
Então tem muito isso nos autores de língua portuguesa, que é o próprio Agualuza, que o pessoal fala muito, né? Que a gente olha e fala ué, Mas não diz que é angolano, não diz que é cabo-verdiano. É porque acaba sendo esses caras de uma elite ali econômica e que são brancos e acabam sendo esses caras que acabam, né? Aí dificilmente você vai ter, por exemplo, Madina Saluxo, né, em Cabo Verde. Enfim, mas tem essa. Depois, para quem é que assim, nós, eu acho que a sua geração também não pegou o ensino de literatura africana.
Não, em língua portuguesa, é na escola, né? Não era obrigatório, mas eu peguei na faculdade. A gente tinha que fazer pelo menos duas cadeiras, tá? Era obrigatório fazer. Uhum. Eu acabei fazendo as 4. Eu fiz Cabo Verde, eu fiz Cabo Verde, Angola, Moçambique, e eu acho que a outra era Moçambique também. Uhum. Era, não tinha, porque tinha coisas a mais ali. E ainda fiz Goa, é Goa que é Índia, né? É Macau. Caraca, que legal. Que é China.
É, acabei fazendo pra entender como que a língua portuguesa chegou nesses outros lugares e como a literatura chegou nesses outros lugares.
Sensacional, é muito legal. É, o pouco que eu tive contato, infelizmente, porque acho infelizmente mesmo, foi o próprio Pepe Tela, né, com o Aion.
Pepe Tela, é.
Aí eu já não tava no ensino médio, foi na época do cursinho, na época que André e eu dávamos aulas.
Isso, entendi.
E um pouco por conta dos alunos eu acabei lendo, por conta da indicação no vestibular, acabei lendo.
Era a FUVEST? Era a UNICAMP?
Não, acho que era a FUVEST. Acho que era a FUVEST.
A FUVEST pediu PPT ela?
Não foi? Ai, deixa eu ver aqui, deixa eu olhar aqui.
É possível, é possível. É que a FUVEST é muito conservadora, né?
Então, pois é, não faz sentido, né? Aham, fato.
É, porque pra mim é Unicamp, sim. A Unicamp é o... FUVESH, foi. Deixa eu ver aqui. FUVESH, né?
Aí depois de uns anos ele foi indicado na UERJ também. Quer dizer, né? Hoje em dia tem muita coisa do... Que também não é nem da sua, nem da minha época. Hoje em dia tem o ENEM, que acho que mudou também grande parte da dinâmica de quando eu me formei.
É porque no meu caso eu tinha muita coisa das obras da FUVESH.
Isso. É, eu também.
Eu fiz FUVEST, então tinha que ler os livros da FUVEST. E assim, durante muitos anos, a FUVEST era muito conservadora. Então assim, você vai no ano que eu fiz, tinha Machado de Assis, of course, que era Memórias Póstumas. Memórias do Sargento de Milícias, A Hora da Estrela, alguma coisa do Guimarães e possivelmente ou era Vidas Secas ou era Morte e Vida Severina. Sei lá. Era isso.
Era Vidas Secas, né? Eu acho que na minha época era Vidas Secas.
Jorge Amado dificilmente entrava. Vinicius, poesia dificilmente entrava. Ah, e tinha os portugueses, né? O Alto da Barca do Inferno, Camões, sempre entrava alguma coisa nesse sentido assim. Então mudou muito, né? Mas na minha época era muito conservadora assim, era, eles iam até ali geração de 45 no máximo.
Isso, jogando alto, né? A maioria eram mais antigos, todos, né?
Isso, isso. Mas tudo isso pra dizer que a gente hoje veio trazer um português contemporâneo. É, é isso. Mais um, mais um.
Mais um, é.
No episódio passado a gente trouxe o Saramago, que é contemporâneo, mas é um contemporâneo que infelizmente já nos deixou. E agora a gente traz o Walter Ugumay, que tá aí vivão e vivendo. Super jovem, inclusive, acho que vai escrever muito aí ainda, assim esperamos. Ah, sim, por favor, né? Por favor, estamos aí. Ele entra nessa leva desses portugueses, ele, o Gonçalves M. Tavares, que eu acho que eu já citei aqui muitas vezes, porque é um autor que eu gosto muito.
Nunca li.
Você vai amar, né? Porque principalmente por Ele tem uma obra chamada O Bairro.
Já gostei do nome.
Então, e aí esse O Bairro, a obra, a gente fala uma obra porque ele é tipo uma coleção. Então vários livros pequenos que tem o senhor Valéry. Então assim, ele vai pegando vários artistas e vários filósofos para colocar nesse bairro e ele vai meio que brincando com essas personagem. E aí você vê ou uma aproximação ou uma distinção. É muito, muito legal. Tem um outro dele, esse é o que eu mais gosto dele, que chama Histórias Falsas, que é uma coleção de contos.
Já gostei.
Que a primeira história é da Julieta da Baviera. E aí você vai ler aquilo E aí tem um Romeu, tem uma Julieta, e aí você vai lendo e você vai falando: "Não, mas tá esquisito isso aqui." Não, esse é muito assim, por quê? Porque ele trabalha com essa nossa, com esse nosso imaginário que a gente tem, que toda civilização ocidental tem do Romeu e Julieta, mas ao contrário. Então assim, Ele consegue fazer essas coisas na obra dele. E ele faz um pouco disso no bairro também.
Então, quem puder, leia Gonçalves M. Tavares. Ele é o tipo do cara que ele fez tudo. Ele fez teatro, ele fez contos, ele fez crônicas.
Ele não tem nada a ver com Rui Tavares?
Não, que não que eu saiba. Não. Tem ele, tem o Walter Ugumã, tem o Saramago, que a gente já falou. Como a gente estuda literatura portuguesa Até o século 19 e depois a gente só vê literatura brasileira, a impressão que a gente tem é que parou, né?
Pois é.
Parou, parou, assim, né?
Com tantas outras, não só com eles acontece, né? A gente deixa de ver, assim, a gente tem uns buracos gigantescos, inclusive todos os contemporâneos praticamente são sumamente ignorados.
Enfim. É isso que eu acho bom a gente falar disso, porque eu acho que a gente aqui no Brasil, a gente acaba lendo autores anglófonos muito, muito, muito, e a gente acaba não lendo esses outros caras que fazem no nosso idioma, entendeu?
Claro, claro. Assim, Walter Ugumay, Walter Ugumay é muito disseminado aqui no Brasil. Eu acho ele assim É, o Miyakoto, né? O Miyakoto, aham.
O Agualuza, o próprio Agualuza.
É, o Agualuza tem bastante mesmo, concordo.
É, então, mas eu acho que são mais pop, né? Mas eu acho também que tem uma predisposição desses caras a vir em flip, a estar, entendeu?
A estar participando também. Porque eu acho que tem isso.
Assim, eu acho que tem essa coisa da eleição desses autores. Eu acho que existe esse lugar também, tipo: "Ai, quem vai vir na Feira do Livro da 451?" Entendeu? Eu acho que tem esse lugar também da coisa do elitismo. Ai, total. De um certo lugar, entendeu? Quem a gente vai trazer? E aí às vezes dá um espaço para esses caras e tá tudo bem, enfim, não tô criticando isso não, mas também eu acho que em quem que essas editoras daqui também apostam, porque no final tudo é produto, né?
Então o que deu mais, né, o Afonso Cruz, por exemplo, ele começou, eu percebo que ele é um cara que ele come meio pela beirada assim, não é um cara que "Todo mundo conhece." É, e hoje em dia isso conta demais no mundo editorial, assim, como é impressionante quanto isso faz diferença hoje em dia pra...
Quer dizer, não sei se sempre fez diferença, mas...
Ó, pra você ter uma ideia, né, por exemplo, eu acompanhei de perto, assim, né, assim, como fã, É aquele menino Eduardo Spoor, do Jovem Nerd, desde quando ele começou a escrever os livros dele até menino. Ele é mais velho que eu, não sei quanto tempo.
Tá tudo bem, quem nunca fez isso, né?
Enfim, mas o tipo de literatura dele é diferente, é uma literatura mais voltada para fantasia. Agora ele tá fazendo a parte de romance histórico e Tudo mais, enfim, tá. Mas esse é o tipo de cara que assim, que ele faz tipo, ele faz tipo uma turnê, entende? Tipo, eu acho que, e eu acho que tem muito, eu acho que tem isso também, tipo, esses caras, esses caras fazerem essas turnês, entendeu? De ir falar com fãs.
E tem hoje as mídias As redes sociais que eu acho que influenciam demais as pessoas, esses escritores, ícones, enfim, novos, jovens, eles todos têm seu perfil aberto nas redes sociais. São perfis que basicamente se autopromovem, então colocam todos os todas as agendas, as participações.
Você cria uma fanbase.
Exato, interage com todos os fãs. Então tem uma outra maneira de cativar, então todos esses, digamos, menos sociáveis ou fora do mainstream.
A gente vai ver cada vez menos aquele estereótipo de que não fala com ninguém, que foi uma pessoa muito doente quando era criança, porque é sempre essa história. Era uma criança muito doente que vivia cercado de livros.
Passou a vida lá deitado na cama escrevendo, morreu de tuberculose jovem.
Isso não vai existir mais. Não tem a possibilidade de existir. E o que eu acho Complexo.
Ai, eu acho ruim, porque você nicha demais, assim, vira um nicho muito— Aí assim, a não ser que você, sei lá, tenha um interesse muito grande por determinada literatura, ou estude isso por algum motivo, ou faça letras, ou qualquer coisa assim, dificilmente você vai sair daquilo que a grande, sei lá—
Mídia te apresenta, né?
É, você não vai encontrar, a não ser que você Talvez seja isso, rato de biblioteca, que já também não existe mais. Então, é, não encontra. Por exemplo, a Andréia aqui falou agora no começo do programa uns 3, 4 nomes da literatura portuguesa que eu nunca tinha ouvido falar na minha vida. Óbvio, não é uma literatura que eu consumo no sentido de procurar bastante e etc. É algo muito recente na minha vida, inclusive o interesse pelos nossos escritores, digamos, do século 19, que tem uma mistura com os portugueses, eu acho ainda.
Então eu não tenho esse contato tão grande, imagina. E aí, isso porque a gente tá falando dos portugueses, mas a gente podia falar dos franceses, sei lá, dos próprios brasileiros, gente. Quem conhece os escritores contemporâneos brasileiros assim, fora, né?
Que é muito louco, né? Porque assim, eu sempre brinco aqui, a gente brinca muito, que eu falo assim: Eu sou a mulher do século 19, que eu gosto muito do... Gosto, mas em língua portuguesa, eu gosto de consumir o que dá. Do tipo, pode ser contemporâneo, pode não ser contemporâneo. Por exemplo, agora eu tô numa fase... Júlia Lopes de Almeida. Que eu não vi na faculdade. E que chegou pra mim por conta de A Intrusa. Chegou assim, como chegou, André?
Chegou, chegou, chegou a Intrusa. Eu tava fazendo umas pesquisas para uma coisa aí, e aí eu fui olhar autora do século 19, chegou a Intrusa. E a hora que eu li aquilo, eu fiquei encantada. Eu falei, gente, como que ninguém leu isso aqui? Como é que ninguém falou disso aqui na escola? Entende? Então assim, É isso lá no século 19. Mas, por exemplo, você já leu Socorro a Scioli?
Ah, não, mas tenho vontade. Então, é, eu, mas ela é mais conhecida, não é?
Socorro a Scioli é brasileira.
Isso, sim, mas muito conhecida.
Mas é contemporânea.
Isso, sim, sim.
É a Júlia Lopes de Almeida. Tia Lopes de Almeida foi uma das fundadoras da ABL, da Academia Brasileira de Letras, e não pôde—
Usurpada de suas obras.
Foi usurpada do seu lugar, porque quando foram inaugurar a Academia Brasileira de Letras, viraram para ela e falaram assim: "Olha, você fez tudo, você ajudou, você fez o estatuto." Parabéns! Você fez tudo. Parabéns, good for you, good for you, mas você não vai entrar não, porque a gente vai fazer igual a Academia Francesa, que não entra mulher. E aí quem entra é o marido, tanto que falam que é o autor consorte, chamam o marido dela de autor consorte.
Nossa Senhora, porque na verdade quem tinha que ter entrado era ela. Deus, deu uma militada aqui, dei, mas não era a intenção.
Ah, mas né, a vida te pede às vezes, pelo amor de Deus.
Às vezes te pede, gente, não dá, não dá. Tem hora que não dá. Mas voltando aqui a coisa, eu sou essa pessoa do século 19, tá? Mas século 19 o quê? Inglaterra, França, Espanha, Portugal e tudo mais. Mas quando é em língua portuguesa de fato, eu acabo meio que lendo, tentando ler de tudo assim, até pra gente entender pra onde que a gente tá indo, né? Mas, de novo, a gente trouxe esse monte de autor, e a gente está falando do Walter Ugumay, a gente falou do Saramago, também para a gente tentar, de novo: "Ah, Andréia, mas é o colonizador." É, mas a gente está lendo colonizador também, a gente está lendo todos os anglófonos, a gente está lendo tanto americanos, estadunidenses, quanto ingleses.
Então eu acho também, eu acho que tem uma, eu não sei, eu acho que existe uma malquerência com os portugueses assim.
Eu acho que sim, e eu acho que a gente tem, eu acho que a gente tem que pensar em quem, qual é esse sistema que seleciona e que promove, quem seleciona esses esses autores, essas autoras, essas escritoras, as redescobertas. A gente vive os últimos 10 anos, mais um pouco talvez, a gente tem uma redescoberta de diversas escritoras brasileiras, uma reedição de Carolina Maria de Jesus.
Sim, sim, por que será?
Pois então, então é isso que eu tô querendo dizer. Então a gente A gente tem, existe um mercado editorial que escolhe o que vai ou não vai ser promovido numa Flip, o que vai ou não vai ser discutido em feira de livro que tem todo ano, o que vai ou não vai virar mesa, o que vai ou não vai virar, enfim, eu acho que a gente tá falando de um mercado que define o que vai ser ou não consumido pela maioria do público. Que já é um público que tá lendo cada vez menos.
Então, que tem aquela que parte do mesmo pressuposto, que era o que eu falava para os meus alunos, das listas de os 100 melhores livros. É, para quem? Porque é isso, a gente, toda vez que a gente vê assim os 100 melhores livros, aí você olha, você fala, tá, os 100 melhores livros para quem? De quem? De onde? De que lugar? Qual é o recorte?
De que gênero?
Aí você vai olhar. Eu tenho, por exemplo, eu tenho exatamente aqueles 1001 livros para ler antes de morrer.
Antes de morrer. Filmes também, eu tenho um monte de filmes.
Tem. Eu tenho de livros. E aí você vai olhar quando você vai fazer a... Porque eu sou essa psicopata.
Claro, claro. Quem vai olhar vai fazer a sua própria, claro. É isso.
Não, não, não. Eu vou fazer, eu vou pegar todas as, todos os, colocar numa planilha, vou colocar numa planilha, vou colocar a, como é que fala, a nacionalidade. E aí, e não só nacionalidade, o gênero, o ano de publicação, o gênero, o gênero que eu digo, o gênero do autor.
Vou dar um spoiler que o nosso, o nosso podcast é mais ou menos assim, talvez Isso, nosso podcast é uma dica. Talvez, talvez sim, talvez não.
É nessa chave que a gente vai, gente. Claro. De verdade. Porque senão a gente fica falando das mesmas coisas que tá todo mundo falando. E não é a intenção, né, primeiro.
E a gente também é um só, a gente não tem como consumir tudo. Ainda que a gente goste muito de determinado gênero. Determinado, que nem André falou, que é dos poemas portugueses, ainda que você goste, você passa uma vida inteira descobrindo pessoas. É um negócio sem fim. É isso. É um negócio sem fim. É algo que você não consegue. Quem dá conta? Não dá conta.
E quanto mais velho você fica, mais desesperado você fica, porque você fala assim: "Eu não vou ter tempo de ler tudo que eu quero ler na minha vida." É.
E ao mesmo tempo também você fica com a impressão de que às vezes é mais difícil te tocar como te tocava. Alguma coisa.
Sim, porque as coisas começam meio aqui a se repetir num lugar, entendeu? Ela tem que ser muito diferente. Por que que a melhor leitura que eu tive de longe assim, de muito tempo, foi Pedro Páramo? Ah, é?
Nossa, hein? Pedro Páramo foi muito bom.
Porque não foi muito bom.
Nossa, foi!
Porque Pedro Páramo, ele te coloca num outro... É uma outra chave de leitura. É uma outra maneira. É uma... Porque eu acho que conforme a gente vai lendo, eu acho que tem isso também. Conforme a gente vai lendo e a gente vai criando uma casca, existem algumas leituras que elas são leituras de conforto e que elas nunca vão deixar de estar ali. Então, por exemplo, no meu caso, eu gosto muito de literatura de menininha. Gosto. Adoro uma comédia romântica pra dar uma leitura.
Tá ótimo.
Li Memórias do Subsolo ali do Dr. Ellis.
Caramba, também, hein?
O que que eu vou ler depois?
Depois de ficar vários dias olhando pro teto.
Então, é, porque já começa por isso.
Tem isso, tem isso.
Calma. Sei lá, eu vou engatar uma angústia do Graciliano Ramos.
Eu não vou fazer isso, cara. Não adianta.
Então eu vou, é a história do um pouco droga, um pouco salada.
Exato. Ou às vezes um pouco droga, muita salada.
Muita salada. Então é isso.
Ou uma sopinha, uma sopinha mesmo.
Uma sopinha assim pra ficar ali no meio termo, né? Então assim, eu acho que tem algumas coisas zona de conforto. Eu acho que todo mundo tem isso, seja com literatura, seja com música, seja com filme. Todo mundo tem, né? Tem aquela coisa, você assistiu um, sei lá, um Zona de Interesse, depois você vai assistir o Bob Esponja, entendeu?
Exato. Doug Funny, Doug Funny.
Aí Doug Funny, aí para dar aquela equilibrada, entendeu?
Não, Doug Funny ainda Ainda tem, exato, dependendo do episódio.
Pode ser tipo Bob Esponja pra lá, entendeu? Tipo, é isso. Então, a gente tem, mas eu acho que tem algumas leituras que conforme vai passando o tempo e você vai criando uma casca de leitura, quanto mais essa experiência, não que ela seja difícil, mas ela for desafiadora, É. Porque foi isso, eu me senti desafiada. Quando eu li, pensou: "Para, vou desafiar." E desafiada no lugar certo também.
Porque tem coisa que você lê que te desafia e que não soa. Porque é difícil, é um tema... A gente tá entrando num tema difícil. É difícil você encontrar... Gente, como não cair no clichê? É muito difícil. Porque o clichê é você dizer assim...
Não, eu acho que não é nem o clichê. Eu acho que não é o clichê. Eu acho que o difícil é não cair no pedante. Isso!
Não, é um mix. O que eu ia dizer assim, como eu tenho medo de eu não cair num clichê que é... O que eu ia dizer é que eu acho que eu vou dizer clichê. Que é difícil você encontrar alguém original. E original sem ser pedante. Original no sentido de te trazer, às vezes... Você fala assim: "Ah, Gabi, mas você quer o quê? Que o cara escreva o quê? Por, sei lá, tudo com letra maiúscula? Você quer..." Não é isso, entendeu? Eu não tô falando só da forma.
Não é que eu tô dizendo: "Ah, não, eu queria um cara que, sabe, colocasse uma imagem..." O nosso autor de hoje escreveu tudo em letra minúscula. Exato! E ótimo! Eu acho que tem quem faça... É isso que eu tô falando. O próprio Saramago. O Saramago tem uma forma de escrita... Dele, que é uma—
Que não tem vírgula, não tem ponto.
Que é uma forma, ele trabalha a forma da escrita. Mas não é disso que eu estou falando, eu estou falando de um, como o André falou, ele te desafia sem ser pedante. Ele não tá te puxando para um lugar que você já viu muitas vezes em outros lugares, ele não tá reproduzindo um estilo já que já Foi, como dizem alguns, né? Já muita tinta rolou. E ao mesmo tempo te traga algo totalmente novo. Totalmente novo, assim. Te toque num lugar que você fala: "Gente!" E Pedro Paramo tava aí, né?
Também não é de ontem. Ele também já tá... Então, isso é... Então... Ele já é o quê? Começo do Sacolovinho. Gente, então isso, isso, então é isso que eu tô falando.
E foi algo que quando eu li eu fiquei, eu fiquei muito encantada assim. Acho que foi de longe uma das minhas melhores, mas assim, de longe uma das minhas melhores leituras dos últimos tempos foi Pedro Páramo.
Também, também. Você já leu o Bolanho? Já leu Bolanho?
Já.
Você gosta de Bolanho?
Eu li do Bolanho.
O que você leu do Bolanho? Você lembra? Quer ver?
Eu não lembro, mas eu tenho escrito.
Ótimo, porque eu li dele aquele 2666.
Tá, não, isso não.
Que é aquele grandalhão, né? Eu ganhei, eu não me lembro de quem que eu ganhei, acho que eu ganhei do meu pai, sei lá por que eu ganhei também, porque não fazia sentido nenhum.
E eu gostei. Você gostou?
Eu gostei. Eu acho que tem algo muito no sentido do que a gente está dizendo da originalidade, ele tem algo de muito original assim, mas que me lembra, você falou de Pedro Páramo, eu acho que ele dá uma bebida aí nessa fonte. Eu acho que ele tenta dar uma bebida nessa fonte. E acha que, por exemplo, os argentinos de certo modo dialogam bastante com isso também?
É, não, o que eu li dele foi Putas Assassinas, que é uma coletânea de contos.
É, eu sei qual é, nunca li, não gosto muito do nome, não me agrada muito.
Eu acho que foi por isso que eu fiquei um pouco, quando você falou, eu falei não, a sensação não me foi boa.
É, imagino mesmo.
Mas eu não as pessoas não têm uma memória assim muito positiva.
Não é uma memória positiva, você acha?
Não é. É porque é que também é aquilo que a gente fala aqui, né? Às vezes o pessoal fala assim: "Ah, é conto?" Eu falo: "Gente, conto é um tipo de gênero difícil de escrever, não é para qualquer um, não." Não, não mesmo. Então tem isso, né? A pessoa: "Ah, não, eu vou treinar escrevendo conto." Boa sorte, vai lá. É porque o romance, ele—
Boa sorte!
É, o romance, você pode escrever qualquer coisa, você pode pegar vários caminhos, você pode desistir no meio do caminho, pegar um outro caminho. O conto, não. O conto, ele é fatal se você fizer isso.
Ah, não!
Você não tem brecha pra nada no conto, né? Então é isso. E a gente tá aqui falando loucamente.
Ah, porque somos assim. E a gente entrou no nosso assunto. Nele, nesse específico homem. Que você já tinha lido algo dele? É a sua primeira leitura?
Não, é a primeira coisa, é a primeira leitura que eu tenho do Walter Ugumanyi é essa. A sua também não?
A minha também. Eu acho que de uns anos pra cá ele se tornou um uma leitura corrente para muitas das pessoas que eu cruzei por aí, eu acho. Então, apesar de eu não ter lido nada dele antes, digamos que você tem essa impressão que houve uma época que as pessoas compartilhavam muitas, principalmente A Máquina de Fazer Espanhóis.
Isso, mas é ele e o Miyakoto. É, eu tenho essa impressão. Miyakoto mais, eu acho.
Mais até, mas ele bastante também, assim, eu acho que ele tem Ele um pouco virou a Clarice Lispector do Facebook de uns anos atrás, que todo mundo compartilhava qualquer frase, escrevia Clarice Lispector e assim.
Mas dá para entender pela... Para quem lê esse texto nosso de hoje, que é o "Menino e o Homem", dá super para entender por quê. Por que que ele entrou nessa chave aí nas redes sociais e tudo?
É, então, ele, esse foi, esse foi, essa foi minha primeira leitura dele. E como foi essa leitura para você?
Eu achei o texto dele lindo.
É?
Em que sentido assim? Ele tem uma, ele tem uma poética, ele fala umas coisas de forma poética mesmo, coisas muito duras, muito difíceis, às vezes escatológicas, violentas, mas ele fala de um lugar, de uma poesia, de um lugar da poética que não é um lugar banal, banal no sentido de, não é banal a palavra, ele não fala no lugar boboca da poesia, não é no lugar do do lirismo pelo lirismo. Eu acho que é isso que eu quero dizer. É uma forma poética de ver o cotidiano.
Eu acho que se eu pudesse definir, é isso. É essa coisa prosaica de uma vila com todas essas suas problemáticas e essas pessoas horrorosas, mas todas elas— e aí As pessoas horrorosas que eu estou dizendo, não as personagens que são retratadas, mas os outros aqui que são pessoas horrorosas. Eu nunca vi um lugar de gente tão ruim. É, e olha que a gente já leu muita coisa aqui, mas eu nunca vi. Você não teve essa impressão de que todo mundo naquele lugar era ruim?
Sim, você, você, você passou por isso? Aqueles. Eu senti lendo, eu me lembrei muito da minha adolescência, assim. Em que lugar? Não num lugar, obviamente não era esse lugar violento. Quer dizer, muitas camadas aí, mas enfim. Digamos que não era violento nesse lugar tão cru. Mas eu passei por um período da minha vida, porque eu morava numa cidade menor que São Paulo.
"Então, eu acho que tem isso que eu não tenho." Exato. Então... "Eu sempre morei em cidade grande." Você...
ele transmite uma impressão muito forte de que... e isso me lembrou sim, assim, essa sensação de que todo... de que você é muito, assim, muito... como fala? Muito desconectado, assim, parece que o mundo inteiro gosta de amarelo. Todas as pessoas. Você não encontra uma pessoa que não goste de, sei lá, de verde, de azul... Fúcsia! Fúcsia, de roxo, de qualquer coisa, de qualquer cor outra que você pensar. Dá uma sensação de que o mundo inteiro é aquilo, entendeu? Entendi. Então... É, aquilo pra mim... Me lembrou, assim.
Ah, então é isso. Então eu não tive essa experiência. Porque eu sempre morei... Mesmo morando num bairro mais afastado, Eu não tenho nenhuma memória.
Isso que eu ia falar, eu não tenho nenhuma memória de algo super violento. Não tô dizendo que o que aconteceu no livro aconteceu na minha adolescência. Mas essa sensação de, digamos, entre aspas aí, um certo provincianismo, um certo pensamento fechado, muito estrito, muito regulado pelas regras masters ali do... Da sociedade e tudo mais, essa sensação de que você não tem um lugar pra onde correr, essa sensação eu vivi sim, essa sensação que o livro tem o tempo inteiro, até o fim.
O tempo inteiro, é.
É o tempo inteiro. É o tempo inteiro. Tanto que eu fico com o coitado do menino, eu falo: "Gente, vai embora daí, rapaz." O Antoine. "Vai embora, vai embora, pega um ônibus, vai embora." Então, eu não tenho...
Pra mim, era assim, é um lugar de gente horrorosa. É isso, é isso. Porque é um lugar de gente muito ruim. Eu falei: "Gente, não é possível que não tenha uma bonitinha." Tá aí um bom exemplo, então não tem.
Se for igual a Pippa, assim... Cara, eu falo...
É um lugar horroroso. Tem uma hora, tem uma personagem que pra mim, eu acho que não tem nada mais violento que isso. Tem uma personagem que o filho dela é homossexual. E aí a amiga, a amiga, porque não é possível que aquilo vira e fala para ela assim: é, dá uma facada nele. Isso é um filho. E eu falo: gente, não, não, sim, como é que essa pessoa? E aí, e normalmente é sempre num lugar do diferente, do estranho, do... E assim, é a porra da mãe!
Como é que você vai virar pra mãe e vai falar assim: "Por que você não matou antes? Esse aí não tem mais jeito não." Eu tava lendo aquilo e eu falava assim: "Eu não tô lendo isso não." E aí eu falei: "Não, não entendi." Tem um filme muito legal, eu assisti há muitos anos, então pode ser que eu Depois eu procuro aqui o nome pra ver se...
Mas ele é um ano, acho que é 1985 o nome do filme. O ano de 1985.
Acho que eles mudaram o nome.
Mas antes quando eu vi era só 1985. E como é que é o filme? Ele é um rapaz que volta pra passar o Natal com a família no ano de 1985. E a família mora nesse interior. E ele volta pra passar esse Natal com essa família. Dá a entender que ele tem já uma vida mais independente. Apesar dele ser bem jovem, ele é um rapaz mais independente. Ele tem um irmão de, sei lá, 10 anos de idade, assim. E ao longo do filme você descobre que, na verdade, ele tem AIDS.
E ele tá voltando pra contar, meio que pra tentar contar pra família que ele está doente.
Putz, logo nessa época?
E eu não me lembro, mas ele morava, por exemplo, no filme ele morava numa cidade muito grande, que pode ser, sei lá, Nova York. E a família vivia numa outra cidade, tipo interior, assim. Então tem essa questão aí da sexualidade dele não ser muito explícita na família e tudo mais. E tem uma hora que o irmão— o importante do filme é a relação com o irmão. Porque chega uma hora que ele diz pro irmão— o irmão tem uma questão lá na escola, ele vai buscar o irmão um dia e tal.
O irmão tá meio— adolescente, né? E ele diz pro irmão algo assim, que eu não vou lembrar, mas ele diz assim: "Calma." Tipo: "Um dia você vai encontrar pessoas muito parecidas com você, que vão ser muito seus amigos, e você vai encontrar outra coisa diferente disso que você está vivendo hoje. Se acalme." Assim, existe vida pós Pós isso tudo. É, como quem diz, isso tudo aqui um dia vai passar, não se aperreie. E o filme é um pouco sobre a relação dos dois, assim, do quanto esse irmão mais velho volta pra ensinar.
E eu acho que aqui tem um pouco essa sensação de que a pessoa não tem ninguém que vire pra ela e diga, sabe assim, do tipo, gente, essas pessoas...
Calma, torcedores, calma.
Torcedores, calma, esse povo aqui é tudo doido. Existe "Existe vida fora daqui, isso daqui não se deixe engolir por essas pessoas." Porque você entra numa que são o quê? Umas 5 histórias em paralelo, talvez?
Isso, isso.
E nenhuma dessas histórias é feliz, gente. Nenhuma dessa história é feliz, nenhuma dessa história tem alegria, uhul, felicidade. Eu tenho pra mim que até a própria A própria formação dessa família, ela é improvável demais, assim. É um... É por isso que talvez tenha um tom um pouco... Um tom um pouco fábula.
De fábula!
É, fabular. Fabular? Será que existe essa palavra?
Fabular!
Tem um tom um pouco fabular, porque você fica: "Não!" Sabe assim? Num mundo real...
Mas é de fábula mesmo. É de fábula mesmo. Bom... Vamos entrar então na obra já para o pessoal entender, e aí a gente vai falando do filme também. Como que esse livro começa de fato? A gente encontra um homem de 40 anos que é— e eu acho que o livro, ele tem alguns temas, mas se a gente fosse eleger o grande tema desse livro, é essa solidão, né? Essa solidão que esmaga, que paralisa, que faz a gente chegar num lugar de sobreviver, né?
Então eu não tô mais vivendo, eu tô indo aqui até onde dá, né? É o Alive lá do Pearl Jam, né? Então, nossa, eu tô vivo de novo, eu tô vivo de novo. É esse lugar dessa solidão. E aí esse homem, ele chega aos 40 anos e ele quer ser pai. É isso, ele chega aos 40 anos desesperado para ser pai. E aí ele pega, escreve alguns papéis, né, bilhetes escrito: quero, sou um filho sem pai e procuro um pai. Como é que é?
Não, sou um pai sem filho e procuro um filho sem o pai.
E a partir daí é que a história começa, porque existe um menino chamado Camilo, e esse menino ele é adotado por uma família, por um senhor que ele chama de avô, mas que na verdade ele é adotado por esse sujeito. E esse sujeito morre, esse avô morre, e ele acaba sendo adotado pelo Eles gostam, é isso. Aí você fala: nossa, mas é super tranquilo a parte, né?
Então é a única parte tranquila, o resto é ladeira abaixo.
Então tranquilo mais ou menos, porque aí a gente vai descobrir por que que aquele homem ele era o avô adotivo desse menino, porque a gente vai descobrir a história da mãe desse esse menino. Aí esse menino vira para o pai adotivo, que até então o adota, e fala assim: 'Ai, eu gostaria de ter uma mãe, por que que você não arruma uma mãe?' E aí a gente vai ter a história dessa mulher pela qual ele se encanta, e também é uma história super triste.
Todas são aí dentro disso, todas são aí dentro dessa história super triste, dessa dessas pessoas é que a gente vai vendo esse, essa crueldade dessas outras pessoas que a gente tá colocando como outros, mas que na verdade todos os protagonistas, entre aspas, dessa história que a gente tá lendo é que são os outros, são os marginalizados, são os que são deixados de lado, são os esquisitos, são, enfim, Toda essa sorte de pessoas que são, entre muitas aspas, defeituosos para aquela sociedade.
É, e nesse primeiro momento a gente não sabe ainda, mas o próprio menino, o próprio Camilo, também tem uma história difícil. É que não é mostrado imediatamente, você não é de imediato que você sabe de onde ele vem, porque o foco inicial do o começo é o Crisóstomo. É esse encontro com esse menino que você fala: ah, legal, eles se conheceram, e é isso aí, né? E mais para frente que a gente vai descobrir que é.
E a gente acha que a história é sobre isso mesmo, porque tá escrito lá: filho de mil homens. E eu acho que a gente tem que falar um pouco desse título. E aí tem um trecho que o Walter Ugumay fala, coloca na boca do Crisóstomo, que é o seguinte: "Todos nascemos filhos de mil pais e de mil mães, e a solidão é, sobretudo, a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo. Para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo, como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fosse por aí irmãos, irmãos uns dos outros.
Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa para pessoa, que nunca estaremos sós. O título, ele é baseado nessa ideia de que a única coisa que de fato que de fato nós temos e que não, e por conta de toda essa, essa regulação da sociedade, né, por conta desse estar social, no social no sentido das regras e valores e religiões, e enfim, em cima disso, o que deveria estar acima de tudo isso?
É que, a depender de quem esteja falando, quem esteja aqui, somos todos irmãos no final, porque somos todos filhos desses mil homens. E tem essa coisa da fábula mesmo, né, que é: há mil anos atrás, aqui o que que ele fez? Ele não colocou há mil anos atrás, há 100 mil anos atrás, no começo do mundo, não. Ele falou: Esse filho de mil homens, porque também tá incutido, né, de tempo, porque são— exato. Mas também essa coisa do tempo, de você— porque eu sou filha da minha mãe, do meu pai, que são filhos dos meus avós, que são filhos dos meus bisavós, e aí vai.
E também tem essa coisa do fabular, do Há mil anos. Então esse filho de mil homens também tem essa ideia fabular de tempo também, de estar lá atrás. E por que que a gente acaba não tendo essa troca de irmãos fraterna no final das contas? Porque somos todos irmãos.
Ao contrário, estamos todos sozinhos.
Por que não temos essa troca fraterna?
Que é isso.
E sempre brigando, né? E sempre, e sempre brigando, né? Bom, é que a coisa começa a ficar complicada isso para gente que é leitor. Vamos lá chegar, vamos tocar nesse momento, porque a gente vai começar, é porque a gente vai começar a ver as histórias que estão se entrecruzando aqui. Então, bom, o Chris Dodd acaba cruzando com a história do Camilo. E quem é esse menino? É um menino de 14 anos que ele é resgatado por uma senhora lá, que ele tá lá não sei quanto tempo depois que o avô morreu, tava lá.
E ela leva esse menino para ir para os pescadores ali falar, olha, "Esse menino aqui, ele tá sozinho, ele aprende rápido, acho que vai ser de... ele já tem 14 anos, então ele já tem que se portar como um homem, né?" Então tem toda uma coisa, uma querência aqui, uma predisposição a dizer: "Olha, ele já é um homem feito, 14 anos, né?" E esse menino só queria estudar, era um ótimo estudante, tá? Mas de onde que vem esse menino? A gente volta um pouco, né?
Aí começa, volta-se um pouco no tempo, e aí a narrativa, os capítulos, eles vão se conectando mais para frente. Então a gente vai meio que entendendo que assim essas histórias vão se conectar lá na frente, mas por enquanto a gente não tá sabendo de nada. E aí aqui o que que acontece? A gente tá sabendo. E aí o que acontece? Ele pula para a história de uma moça com nanismo Nessa cidade, vive ali, aquele lugar, e que todo mundo trata como com esse vilarejo, sei lá, essa cidadezinha ali, e que todo mundo trata como se fosse uma criança, né?
Então é sempre as costinhas, a mocinha, as roupinhas, as, enfim. E ela é uma mulher feita, né? Assim, ela, ela, e sendo uma mulher feita, ela tem os mesmos desejos que qualquer mulher. Ela quer ter uma família, ela quer ter um marido, ela, enfim. E essas mulheres que são muito religiosas, e isso também é interessante, né, que essas mulheres que são extremamente religiosas, enfim, vão até lá para fazer essa caridade, né. Olha a roupinha da minha filha, sabe, tipo uma caridade para ela.
Como uma criança, uma criança. E aí o que eu acho mais curioso é que assim, e isso para mim é desesperador, porque essa coisa do cuidar da vida dos outros, né? Porque as pessoas, aliás, as três mulheres, elas não têm o que fazer.
De novo, muito parecido com a sociedade pequena de novo. Eu sei, ainda bem que você não teve.
Pois é. Cara, isso me dá um desespero, porque a mulher, ela, a mulher, o que que acontece? Elas pegam e vão, ela deixou a porta do quarto aberta, sim, e elas se acham no direito de entrar no quarto para ver como é que é o quarto dela. E aí elas vêm que tem uma cama de casal para dois adultos e elas ficam horrorizadas porque elas falam assim 'Ah, essa pessoa tá ficando maluca porque ela tá achando que ela vai ter um homem do tamanho normal.' E ela tá achando um homem de verdade.
E o que é? E aí elas começam. E aí eu acho que entra no lugar que é um lugar muito, que eu entendo, e isso pode ter acontecido, mas que para mim é desesperador, porque esse lugar que é quase um lugar do fetiche mismo, que é essa coisa do: ai, mas se acontecer dela ter um relacionamento sexual com homem, esse cara— e aí começa umas coisas do tipo: vai chegar nos rins, vai engasgar. Eu, cara, só para, né?
Vai dando uma agonia.
E ele vai esgarçando, ele vai vai começando isso e ele vai falando e você querendo, e você vai querendo enforcar essas três mulheres. Você fala: para, para, chega, a gente já entendeu o que que vocês estão querendo falar. Tipo, e elas ficam naquelas, e elas, e aí elas vão ao médico para perguntar para o médico: olha, não sei o quê, ela tá tendo relacionamento. E aí ela fala, né, Ela tá tendo relacionamento. E aí o médico vira e fala que ela tá grávida.
Aí vocês imaginam.
E aí, minha gente, assim, ai, e ela tá grávida de quem?
É o filho de 15 homens.
Nem ela. Por quê? É o filho de 15 homens porque ela fez as contas por alto, que é o que ela diz. E que deve ter sido uns 15 caras. E aí o polícia, porque ela vai na polícia, ela fala assim: olha, eu preciso de uma ajuda financeira, não quero nada, eu só quero uma ajuda financeira, só que eu preciso saber quem é o pai dessa criança. E aí o polícia, olhando para ela, acha que ela é meio tantã, fala assim: olha, só de andar na rua você fica "Não, não foi isso que aconteceu, meu amigo." E aí ele: "Não foi isso que aconteceu." E aí ele pega e fala, ela pega e fala para ele.
Aí as mulheres vão tirar satisfação com ela, tipo: "Como é que você deixou a porta aberta? Vieram te violar? O que aconteceu?" Porque ainda tem esse lugar do: "Ela não quis, ela foi violada". E aí ela fala assim: "Não, todas as vezes que aconteceu com todos esses homens, eu quis, porque era o pedaço de afeto que me cabia".
Tanto que no filme ela é muito satisfeita com a vida que ela tem. Assim, ela como mulher, como vivendo uma vida com vários amantes. Amantes e vários homens diferentes, ela aparenta certa tranquilidade. Exato, assim, do tipo: "Ai, é isso, eu tava transando. As pessoas não transam também? Então assim, eu tava fazendo aqui o meu rolê, ué. Esse é o meu rolê." É isso.
E aí ela faz de criança pra vagabunda, assim, de onde? No rastilho de pólvora. E aí ela acaba sendo tipo uma persona non grata ali. Aí as mulheres, e aí as pessoas ficam, as grandes beatas rezam para que ela morra, né? Então assim, aí elas vão ao médico para pedir satisfação para o médico. É, mas ela vai ter esse filho, ela não vai morrer? Essa criança pode morrer? Essa E aí fica essa coisa do tipo, as pessoas querendo a morte dela, a morte dessa criança, porque tem esses 15 homens que todo mundo sabe quem é, porque possivelmente naquela cidade horrorosa aquele policial deve ter chamado os 15.
Então todo mundo meio que sabe, mas a errada é ela, né? Então assim, é uma maluquice assim, porque Ela é a vagabunda, os homens casados que estavam ali, que fizeram aquilo, não. Então as grandes beatas e as cristãs começam a rezar para que ela morra, e é uma maluquice. E aí, bom, ela vai parir a criança e ela acaba tendo um menino, Camilo, mas ela morre. O Camilo vem dessa história horrorosa, né? E aí, e aí, e aí ele vai ser adotado por um avô que também não quer muito adotar essa criança.
Ele acaba dando educação para essa criança e tudo mais, mas é uma necessidade também de não ficar só, porque ele tinha acabado de se tornar viúvo. E ele queria perpetuar o nome dessa mulher para depois, porque parece que eles não tiveram filhos. E ele falava assim: não, você vai falar dessa minha esposa. É como se o menino fosse perpetuar essa memória deles. Então tem uma coisa da memória também. E esse homem também morre, e é a partir daí que a gente vê o chrysóstomo adotando esse menino.
E aí esse menino vai para casa, e é aí que ele vira e fala: olha, eu quero ter uma mãe, eu nunca tive uma mãe, ninguém nunca falou da minha mãe para mim.
Não, eles não sabem nada, nada, nada. Tem no livro, diz algo do tipo: ah, ele pretendia contar toda a verdade em algum momento, só que o avô morre. Isso. E o filme dá mais ênfase na morte desse avô, eu acho, sim. E pinta ele até como mais legal do que no livro.
Isso, isso, também acho.
Bem exato.
No livro ele é uma pessoa bem escrota, para dizer o mínimo. E aí ele vira e fala: "Olha, eu acho que agora está na hora de eu ter uma mãe, eu preciso me apaixonar." E o Chris Austin, Ele, para ele, dizia que ele se sentia um homem e meio, né? Ele sentia metade de um homem. E aí, quando o filho dele, quando ele tem esse filho, ele se sente inteiro. E ele vira para esse menino, e eu acho tão bonito isso, que ele fala assim, isso, que o menino fala, então agora a gente vai ser o dobro.
Então, né? Ele fala assim, não, não, mas agora eu tô inteiro. Ele, não, então, mas aí agora a gente vai ser o dobro então, a hora que você arrumar alguém para te amar. E é sempre essa coisa, esse lugar do amor, do amor e dos afetos, de fato. Acho que mais do que esse amor romântico que a gente está tão— Hoje menos, mas que nós, modernos, estamos tão acostumados. E aí ele vê, o Crisóstomo tem uma coisa de falar com as pedras, falar com o mar.
Falar com areia. Isso. Ele é um homem da natureza, enfim. E ele vê, e ele sempre senta no mesmo lugar para fazer isso. Isso, de repente. E aí um dia ele vê Isaura lá. E ele fica, de repente, e a Isaura tá lá conversando com a pedra, sei lá. Isso. E ele fica encantado com Isaura. Encantadíssimo. E aí a gente vai conhecer Que também— E a gente vai conhecer a história de Isaura. E o que acontece com Isaura? Quando a gente vê Isaura, Isaura já está com 35 anos, mas no filme um pouco menos, mas no livro é 35 anos.
Isaura—
Quando adolescente, tinha um namoradinho e eles eram prometidos, eles eram prometidos para casamento, os dois estavam prometidos, iam se casar. E esse menino começou a cutucar essa menina: é porque eu te amo, não sei o quê, eu vou casar com você mesmo, então por que que você não tira? E essa coisa da virgindade, não sei o quê. E aí ela e ele sempre falando, né?
O pai sempre falava: "Ah, Isaura é muito obediente." Você acha que foi a história que mais mexeu com você? Qual das histórias?
Gente, foi, mas essa pra mim, eu acho que é a, pra mim, pra mim, Andréia, é a pior.
Ai, não sei, acho tão difícil assim.
Demais, me deu... Não, essa pra mim foi a mais pesada. Porque mexe num lugar muito específico. E aí, bom, essa moça tá ali, não sei o quê, e aí ele vira e eles têm uma relação sexual ali, ela perde a virgindade com ele. E ele vira e fala assim: de fato, seu pai, eu não quero mais, de fato você é. E ele simplesmente: não quero mais. Ele só queria a virgindade dela no final. E aí fica a mãe querendo que a menina fica, se toque para saber se ela perdeu de fato a virgindade.
Ela sabia que perdeu porque sangrou, enfim, aquela coisa toda. E aí, bom, ela começa a ser tratada como...
Isso.
A perdida.
É, aquela que desonrou a família.
Ela é a perdida.
Importante dizer que o... Que desonrou a família, a perdida. O Walter Ugumay, ele não dá um período específico em que o livro se passa. Ele não diz para você que é século 20...
Não, não.
21, 19... 19, 18, você não entende mais. A premissa ali é de que ela desonrou essa família, de que ela— ninguém mais no mundo vai querer casar com uma mulher que perdeu a virgindade muito jovem, com o primeiro namorado. A mãe é muito problemática.
Isso no filme.
Isso aí é muito bom.
Isso eu achei Isso eu achei— a mãe tem um sotaque, como é que é, sotaque— a mãe dela tem um problema, que a mãe dela só fala com sotaque francês, e é um problema de saúde. A mãe dela quer parar de fazer aquilo, mas ela não consegue. E na real, eu acho que ele colocou isso para dizer que a mãe era snob. Sim, no final das contas, que a mãe queria ser mais do que era. E a filha faz uma coisa dessa, e quem acaba cuidando dessa mãe, depois que essa mãe fica muito doente, enfim, é a própria Isaura.
Um fim trágico assim, né? Vai muito para o hospital, vai e volta, enfim. E essa mulher, e aí vai para escatologia mesmo. Porque essa mulher come até cocô de coelho, de pássaro, de coelho, porque falavam que melhorava, não sei o quê. E eu falo: "Gente..." E no filme tem isso também.
Eu acho que é um mínimo de respiro cômico vem dessas situações do filme, eu acho.
Sim, sim, sim, sim. E aí, bom, e essa moça fica nessa dos 16 até os 35 anos sozinha, muito sozinha. E aí, nesse momento, ela encontra Antonino, a matrioshka do Quem é Antonino?
Do livro, da história. Parece que uma história leva a outra, que dentro tem outra, que tem outra. O Antonino, coitado, ele é o maricas. Então, aí a gente entra na questão que eu acho que André e eu conversamos um pouco antes de começar, enfim, gravar. E eu acho que temos em comum um incômodo que o livro traz e que aqui com Antonino acho que atinge o ápice. Apsi. E pelo menos para mim, eu acho que a questão da história da moça com nanismo tem também.
Eu acho que ambos têm assim esse despojamento na maneira com que ele trata. Porque o que acontece, ele usa aqui com Antonino, ele não, ele quase não chama o Antonino de Antonino. Ele vai chamar o Antonino de Antonino mais para o fim da história do Antonino.
Isso.
Acho que à medida que você descobre que você meio que traduz ele para além do estereótipo do maricas, você transforma ele em Antonino. Mas durante grande parte da história dele, ele é o maricas. E ele é o tempo inteiro retratado como esse menino que é homossexual e que tem uma relação muito symbiótica, talvez, com essa mãe, de muita proteção e de um desenvolvimento que... Gente, o menino é gay! E ele sofre horrorosamente por conta disso.
Tenta de incontáveis maneiras se adaptar ao que as pessoas e a sociedade muito violenta ao redor dele querem dele. A mãe, em incontáveis momentos, é também achincalhada, no sentido de que ela também é convocada a tratar desse menino ou a compartilhar com ele essa vergonha. Ela é o tempo todo, por amigas, por pessoas do bairro, pessoas totalmente desconhecidas batem na porta dela para falar do filho.
É, e porque tem essa coisa da gestação ruim que imputam uma culpa, entre muitas aspas, a essa mãe, assim, do menino ter nascido torto, como eles falam.
E aí você fala, cara, O livro, então, e aí ele vai contando a história de desenvolvimento do Antonino nesse lugar de um intenso sofrimento, de uma criança muito sensível, muito triste, muito melancólica também, que vai desenvolvendo uma depressão mesmo em torno da condição que ele tem, totalmente desencaixada naquela sociedade violenta, machista, tratorada em cima dele. E eu não sei, assim, mas me incomoda muito. É algo— e não é um incômodo porque eu sou uma pessoa— eu gosto muito de literaturas incômodas.
Andréia sabe disso. Eu sou uma pessoa que tem um apreço muito grande por literaturas— quando eu digo literaturas incômodas, é Sei lá, uma grande tragédia, uma história familiar triste, umas pessoas ferradas das ideias. Eu gosto, né? E não é— quando eu digo que é difícil pra mim, não é nesse lugar da história que é difícil, de uma violência que você tá lendo e é difícil de você engolir essa violência. Eu acho que o que me incomoda é a maneira com que ele coloca esse narrador nessa história.
Por quê? Eu acho que cabe aqui essa pergunta: quem é esse narrador aqui? Porque ele é um narrador que... porque devagar a gente está percebendo aqui, conversando, que todas essas pessoas, todos esses desviados vão se encontrar. Já temos o Crisóstomo, o Camilo e a Isaura. E agora a gente conhece o Antonino. Todos eles, ao final, vão fazer parte de uma família, que é essa família desses rejeitados, desses marginalizados, desses desviados da sociedade.
Só que— e esse narrador está narrando essa história. Ele vai te contar essa história dessa família que está se formando, que tem como fundo o que a Andréia leu pra gente aqui sobre essa— sobre o o título. O fundo da obra é um pouco: "Ah, nós estamos falando de pessoas aqui muito solitárias, deixadas ao léu e que não encontraram o afeto verdadeiro e tudo mais." Mas, por outro lado, esse narrador, eu acho que ele assume a voz do outro lado.
Então, essa... Veja bem, para mim não tem problema Tem problema também, vamos colocar assim, tem problema também usar o termo maricas. Eu acho que tem problema sim usar o termo maricas, mas eu acho que ele bem utilizado ele provoca um tipo de reação no leitor que é muito interessante. Por exemplo, eu acho que uma pessoa que faz bem isso, que a gente já falou em outros programas e que eu acho que aqui cabe como exemplo, é o próprio Jorge Amado.
O Jorge Amado Ele sabe usar esses termos muito bem. Por exemplo, Gabriela Cravo e Canella, a gente tá falando uma exaura em Gabriela Cravo e Canella. De certo modo, uma exaura meio crisóstomo. Mas Gabriela tem esse desvio. A Gabriela, a personagem Gabriela Cravo e Canella, ela é uma pessoa muito diferente no meio que ela tá vivendo.
Então é que a Gabriela, ela é uma força da natureza.
Mas tem esse desajuste e o Jorge ele trata, então por exemplo, Teresa Batista, Cansada de Guerra, que é o nosso livro favorito, André e eu já falamos dele incontáveis vezes aqui. Ali você tem muito sofrimento e muita dor mesmo, violência. Nossa, Teresa Batista realmente é cansada de guerra porque Ela é estuprada, enfim, ela é vendida, ela é... nossa, de tudo. E você entende o recurso narrativo, a forma com que ele usa determinados termos, determinadas falas, colocações, de um lugar que quer te provocar alguma coisa.
Você como leitor, você é provocado a sentir um... você direciona essa raiva para um lugar. Essa revolta que você sente, você direciona para um lugar. Aqui, aqui eu não sei explicar, mas me incomoda a maneira com que ele usa e ele narra as coisas. Então, na história da moça com o nanismo, você desenvolve uma empatia pela mãe do Camilo Mas pelo sofrimento que ela tá tendo, assim. Você não tem... O olhar que o narrador entrega pra essa mulher é o olhar dessas vizinhas, é o olhar do médico, é o olhar desses homens que nunca vão assumir que tiveram um caso com ela.
É sempre o lugar... O narrador, ele tá num lugar muito específico pra mim. E eu acho que isso talvez é o que me incomoda. Na história do Antonino, ele é tratado como um desviado absoluto até o último segundo assim dessa história. Então chega uma hora que ele não se redime, que você começa a ter um piripá. Eu, pelo menos, quase falo: gente, pelo amor de Deus, alguém faça alguma coisa acontecer, porque ele não redime esse menino.
Ele vai redimir esse menino muito tardiamente assim, é para o fim, é para o fim do livro assim, realmente. Acho que no último, penúltimo capítulo, que você entende que ele tá encontrando o lugar que não é dado. Porque ele encontra um rapaz... É que aqui tem uma história que... Tem uma história específica que no fim ela é um pouco desconexa das outras. Que acaba sendo incorporada de um outro lugar no filme também. Mas que nessa história, que é a última história, a história que meio que tá fechando o livro.
Nesse lugar, o Antonino encontra uma outra pessoa, um outro moço que ele supõe ser também um homossexual. E eles se olham, trocam alguns olhares, mas assim, nada é feito, nada acontece. Termina o livro e é isso. Assim, ele tem esse lugar dessa família. Porque aí que acontece, esse menino sofre, você vai acompanhando vários momentos. Da vida dele. E isso, ele é estuprado, assassinado, apanha em vários momentos, né?
Isso, isso.
Horroroso, sim. E pra tentar se encaixar nessa sociedade, ele encontra a Isaura. Ele vê nessa moça, digamos aí, rejeitada por outros homens, uma possibilidade dele viver uma vida dentro dos padrões que se esperam. Então eles se encontram, ela muito também entendendo que ela mesma é preconceituosa com ele, porque ela diz: "Ai, esse maricas que tá vindo aqui, esse menino que tá vindo aqui, ele acha que só porque eu não casei eu vou casar com ele." E no fim ela casa mesmo com ele, porque ela também vê nele uma única, uma última redenção social, assim, do tipo: 'Ah, pode ser que eu tenha um filho um dia com esse homem, ele se oriente comigo, qualquer coisa assim.' Eles casam e imediatamente após o casamento ele some.
E é nesse momento que ele some que ela encontra o Crisóstomo na praia. Porque ela fica muito— pra ela é um grande golpe de misericórdia em toda a história dela. É meio do tipo: 'Nossa, nem o cara que eu casei eu vou "Eu vou morrer sozinha." E não é o morrer sozinha, veja bem, porque eu acho que essa família aqui não se trata, eu acho que não se trata especificamente de tipo "Ah, eu não tenho amor." Eu acho, no caso da Isaura não é especificamente do tipo "eu não tenho amor." Eu acho que tem esse lado do amor, que tem um pouco desse retrato, mas ele é muito mais um desencaixe um não lugar, um não pertencimento do que especificamente, né?
E o Camilo tem também, tanto que é isso, ele fica pedindo para o pai e mamãe, ele quer ter um pai também, ele aceita de bate e pronto ter esse pai, assim como o pai quer ter o filho, o filho quer ter o pai também. Então existe essa vontade de formar uma unidade, uma referência, uma essência, um lugar, etc., que todas as pessoas estão procurando. E aí o Antonino, ele some, né, ele desaparece. A Isaura e o Crisóstomo começam a se relacionar e ela vai assumindo então esse papel ali com o Crisóstomo.
Elas meio que— eles não se casam, mas eles estão tendo uma relação. Ela vai assumindo esse papel de mãe, um pouco de mãe do Camilo. E o Antonino, ele volta, ele reaparece, ele diz: "Ai, eu..." Ele não explica muito assim, né? Ele volta e...
Isso, isso, isso, isso é verdade.
Ele tenta suicídio. E reaparece assim, e aí ele reaparece de um outro lugar, um pouco já pedindo desculpas, um pouco assumindo esse, do tipo, gente, é isso. Aí ela ainda pergunta, né, você nunca vai deixar de ser gay? E ele diz não. Ela falou, você já tentou? Ele já. Eu sou essa pessoa e eu serei essa pessoa o resto da minha vida. E eles meio que entram ali num acorda, ela um pouco ali, eles criam um laço que é meio de irmão, eu acho.
Ali eles criam um laço fraterno entre os dois, que, e aí ele maquia ela. É muito bonita essa cena, acho que uma das cenas mais bonitas, porque ele vê a beleza dela, porque ela também, ela tá muito emagrecida, deprimida, triste, enfim, sem vontade de viver mesmo. E ele um pouco dá e ele a faz se reencontrar, digamos, com ela mesma. E aí acho que por um pouco de, digamos, pena dessa pessoa e amor por essa pessoa que ela começa a desenvolver, ela pede ao Crisóstomo que incorpore o Antonino à família.
E o Camilo, que é um menino, Rejeita. O primeiro, o Crisóstomo tem uns ciúmes ali do tipo: como assim, né? A gente não vai viver aqui os três, eu não vou, não vou dividir você com ele. E ela diz: não, veja bem, não é sobre a gente, não vai se dividir aqui, né? Ele não vou ter nada com ele, mas não é um trisal. Exatamente, não é um trisal, ele está aqui, eu estou com você, mas ele, ele é minha família também. Então a gente vai ter que criar uma família aqui.
Nossa, "Mas nesse núcleo que vai ter que virar alguma coisa." Ele acolhe, pergunta.
Tanto que ele pergunta, né? Ele pergunta para o Antonino: "Você ama a Isaura?" Aí ele se acolhe.
Aí eu tenho uma dó. E nesse momento do filme também é tão delicado assim. Eu acho que o Johnny Massaro, eu gosto muito do Johnny Massaro. Eu acho que ele tem uma delicadeza assim, ímpar para Pra fazer alguns personagens específicos, acho que ele tem uma delicadeza muito nobre, assim. Ele tem uma nobreza na maneira com que ele atua com isso, que eu acho difícil de encontrar. E ele dá...
É uma dignidade, né, que ele dá pra pessoa.
Você segue ele no Instagram? É. Ai, é lindo. O Instagram dele é super bonito. Ele compartilha umas coisas super bonitas. Eu acho ele super sensível, assim, um cara com... Um olhar bonito pras coisas, assim. Eu gosto dele bastante. Dá uma olhadinha, eu acho bem...
Ah, vou dar uma olhada depois. Eu gosto.
Eu gosto dele. Eu gosto dele bastante, assim. E eu acho que tem... É o que você falou, acho que ele traz uma dignidade pra personagem que por isso torna ela ainda mais crível, mais humana, mais presente. E... E aqui é um pouco isso assim, ele é um pouco aceito e tem essa primeira resistência do Camilo em relação a ele, que se resolve muito em contato com o Crisóstomo. Quem acalma o Camilo é o Crisóstomo. E quem dá um pouco uma ampliada, eu acho que o grande centro da história é o Crisóstomo, porque ele dá uma ampliada no conceito de amor. Ele vira e diz assim: De todos, exatamente.
Nos horizontes de todo mundo, né?
Sim, ele é um homem muito maduro. É até um pouco surpreendente que um homem tão maduro tenha formado uma família tão tardiamente, porque ele aparece de repente e ele de repente... O quê? Ah, sim, óbvio, mas eu quero dizer assim, como a gente não tem um prévio Do tipo, fica aquela coisa...
É isso, isso me surpreendeu.
Fica aquela coisa do tipo: "O que será que aconteceu? Será que aconteceu alguma coisa? Será que ele..." Enfim. E aí ele que, querendo ou não, ele que meio que amalgama, faz uma amálgama entre todas essas pessoas. E cria ali esse ambiente muito mais acolhedor e propício pras pessoas simplesmente serem elas mesmas e... Serem acolhidas e aí isso eu acho do livro, acho que o livro talvez, eu não acho que seja uma culpa do, eu não digo isso como uma crítica direta à forma com que ele escreve, mas eu acho que talvez ao formato, porque me parece um tanto súbito a maneira com que de repente eles todos se dão muito bem.
E eu entendo que tem um, que tem uma proposta porque os capítulos são curtos, Tem um...
Então, mas eu acho que tem essa coisa dos mil anos, sabe?
Isso, e me lembra um pouco As Mil e Uma Noites.
Eu acho que é isso.
Meio cada noite você tem uma história e essas histórias se fecham nelas mesmas e contam uma história que mescla um pouco algumas delas, outras não, então... Eu entendo que tem a ver com isso, mas me dá uma sensação de súbita... Porque é isso, aí de repente, né? Aí eles se entrosam, acho que existe uma linguagem comum entre todas essas pessoas, entre esse homem de mais de 40 anos... Existe um reconhecimento... Uma parceria também, tem um momento que todos eles se olham, tô tentando me lembrar, mas é mais para o fim assim, em que eles trocam um olhar e o Walter Ugumain diz algo assim do tipo: eles já estavam num estágio em que pouco precisava ser dito para que eles se entendessem.
Então é aquele olhar um pouco cúmplice mesmo, da intimidade, aquele momento que você está confortável com aquela pessoa sem precisar dizer algo para ela. Então Eles se tornam uma família, eles se tornam uma família como deveria ser uma família, né?
É aquela amiga que você não pode deixar saber o que está acontecendo na sua vida. Eu e a Andreia.
Andreia, eu assim, é um perigo, perigo essas pessoas juntas.
Não, não, nós duas juntas, nós duas juntas, a depender do grupo de pessoas que estiver ao redor. Não é uma boa, não é, não é uma boa. Já não é, já não é normalmente, né? Isso, já normalmente só nós duas já não é, já não é uma coisa assim muito, como direi, muito cristã.
A cristandade ficaria, ficaria.
Eu acho que é isso, entendeu? Eu acho que É como eu disse, não sei o que que foi que eu falei, porque a gente tá tendo Copa agora e tal, né? E aí não sei o que que foi que falaram, ah, não sei o quê. Eu falei, gente, não dá para ninguém assistir jogo comigo e com meu irmão, porque a gente ofende toda a gente, toda a linha dos direitos humanos.
Eu não vou me expor a esse nível.
Não vou, não vou, né? Então por isso que eu vejo em casa. É isso, gente. Não, não, não, não, não. Vamos assistir no bar, falei: não, amigo, você não tá entendendo.
A menor.
Não existe a porra.
É isso. E enfim, e enfim, é um pouco É um pouco aí que a história, o grande ápice da história para mim chega nesse lugar em que essas pessoas se encontram e formam essa nova família. E que nesse sentido, a, digamos ali, profecia do começo do livro desse filho de mil homens se concretiza no menino. Porque ele acaba sendo esse filho de mil homens. Primeiro porque ele já é o filho de vários homens, porque ele não tem esse esse pai. A gente, como leitor, sabe que ele não tem, não tem pai.
Isso.
No mínimo 15. Mas aí também, em outro sentido, ele acaba sendo.
Isso.
Esse, ele acaba sendo, porque é isso, ele também é filho do Crisóstomo, ele também é filho da própria Isaura, ele também, de certo modo, é filho do Antonino. Isso. E todas essas pessoas estão ali essa grande família e todas essas pessoas de todos esses lugares muito diversos e também muito múltiplos formam esse menino que, querendo ou não, acaba abarcando todas essas figuras nele, assim, como família, né? E eu acho uma obra linda, mas eu acho, é isso, eu acho que Talvez eu tenha conseguido, espero ter conseguido expressar o meu incômodo.
E que eu não sei, ainda não tomei um lugar pra ele específico. Eu precisaria pensar um pouco mais do que me incomoda, mas tem algo que me incomoda. Eu entendo que seja o narrador, mas talvez tenha mais algum... Porque não é como se eu também quisesse uma narrativa. Eu acho que é a maneira com que ele usa o que ele usa. Não é o que ele usa, mas talvez a maneira A maneira com que ele usa.
A maneira, pode ser. Porque se esboça.
É, não tem um lugar específico, porque ele não redime também esse narrador, assim, é muito... O narrador ele não toma uma posição, é muito louco assim, ele não tem uma...
E no filme o narrador, né?
O filme é lindo, o filme tem o que é transcendental, tem algo de hiper saturado, algumas cenas são muito oníricas. Você não tem um pouco essa impressão assim da natureza, da praia, do mar?
Sim, eu acho que ele é todo sonho. Eu acho que ele é todo sonho. Então, mas eu acho que o filme é todo sonho. Pra mim, a interpretação do povo...
Ele coroa um pouco esse aspecto fantástico que o livro tem, eu acho. Coroa um pouco assim, dá um não lugar, coroa esse não lugar assim, não sei.
Isso, isso. E eu, a gente falou do Fernando Massaro, mas eu acho que a gente tem que falar do Rodrigo Santoro também, que tá incrível, incrível, perfeito.
Ele parece o Chris Austin, é um negócio incrível.
Eu acho que É ele, é ele. E o que é muito louco, porque no livro ele é muito verborrágico, ele fala muito, e aqui ele é praticamente mudo, assim. E tem isso também no filme, ele é, ele tem poucos diálogos, muitos diálogos, ele é muito contemplativo, é muito desse lugar do mostrar mesmo, né, mais mostrar do falar. E eu, e mesmo assim é incrível, você vê, mesmo com isso, mesmo ele não falando tanto, você vê a personagem ali. É, ele é a personagem, né?
Muito louco assim. Eu acho que também acho perfeito para ele, personagem assim, ele leva para um lugar, é, ele leva no lugar da delicadeza do E é crível, assim, é muito crível. Por mais que seja esse homem rústico, que é extremamente filosófico e de uma melancolia imensa, porque o filme também é nessa chave da melancolia, ele é um filme, um livro melancólico. É isso, assim, eu fiquei muito encantada com o filme, fiquei muito encantada com o livro, o texto me pegou muito, assim.
Tenho as minhas considerações como Gabi, principalmente por conta dos termos usados, e aí assim, a gente entende assim mais Mas eu acho que eu ainda preciso entender, e talvez seja isso mesmo que ele quisesse da gente, o incômodo. No final das contas, né, talvez a ideia tenha sido essa mesmo, do incômodo. Tipo, ah, muito provavelmente, que para incomodar, e é isso, né, muito provavelmente, acho que sim. Mas é isso. Acho que vejam o filme.
E a gente falou isso na nossa conversa antes do programa aqui, que esse produto audiovisual— audiovisual, nossa, hoje está ruim— é, o filme em si ele de fato entra nessa coisa, ele é um exemplo perfeito de adaptação, porque são experiências muito diferentes, né? A experiência da leitura, ela é diferente da experiência do filme.
São, são.
Eles são muito distintos, mas ao mesmo tempo são, é a mesma história. É o mesmo enredo, digamos assim, né? A mesma história, mesmo enredo, né? Os acontecimentos acontecem na mesma ordem, né? Tem uma coisinha só, porque a gente não tem uma, a gente não tem uma visão anterior do Crisóstomo. A gente já ouve com 40 anos esse homem de 40 anos, meia-idade, né? A gente já chega com esse homem ali. Então, a gente não tem ideia da vida pregressa dele.
No filme, ele tenta colocar esse lugar, enfim, tenta explicar por que um homem desse estaria tão sozinho, né, com 40 anos. E se é que isso precisaria de alguma explicação, enfim. Eu acho que não precisaria, mas colocaram ali. Mas é isso, eu acho que quem for ao filme, só ao filme, vai ficar faltando a experiência do texto, mas vai transbordar dessa experiência do filme, que o Daniel Rezende foi muito feliz nessa adaptação.
É uma linda adaptação mesmo.
Acho linda a adaptação. Linda, linda, linda. E aí a gente não falou do Walter Ugumay. Tava ávidas. A gente tava aqui as loucas para falar a respeito do livro, enfim, da história do livro e tudo mais. Mas a gente falou um pouco, né, que ele nasceu em Angola, mas que ele foi para Portugal. Então, no final das contas, ele é considerado um autor português, mudou muito muito pequeno por conta da Guerra de Independência. Então ele passou ali a infância numa cidadezinha chamada Poços de Ferreira.
Aí ele fez direito e pós-graduação em literatura portuguesa moderna e contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. E aí ele foi criando o editor.
O homem não parou.
1999, da editora Quase Edições. Não parou. E aí, nessa editora, ele publicou Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, Manoel de Barros, ele publicou Ferreira Goulart, publicou uns brasileiros ali, né, além do pessoal ali da terrinha, ele também publicou uns brasileiros ali. De 2001 a 2004, ele dirigiu a revista Apeadeiro. Depois, em 2006, ele funda uma outra editora, que é a Objeto Cardíaco. Em 2007, ele atinge o reconhecimento ao ganhar o Prêmio Literário José Saramago pelo romance O Remorso de Baltazar Serapião.
E aí o Saramago vira e fala, né: por vezes tive a sensação de assistir a um novo parto da língua portuguesa. Apenas. São palavras do José Saramago. Para ele. Então, apenas, apenas. Em 2020 acontece a primeira exposição, ele também desenha, pinta, enfim, então ele também é de artes plásticas ali. Então, a primeira exposição ele faz em 2020 e os seus primeiros 4 romances, eles são, que é chamado de Tetralogia das Minúsculas. Por quê?
Porque eles são todos escritos sem letras capitais, sem letras maiúsculas. Então, todos os 4 romances não têm letra maiúscula. E qual que era, o que ele tenta fazer com isso? Porque a forma tem um propósito aqui. Então, ele tenta fazer uma, ele diz que ele quer ter uma liberdade para criação literária, E para além disso, dá um pensamento de igualdade também, de não hierarquizar essas palavras. Então, por exemplo, um desses textos é o Remorso de Baltazar Serapião.
Baltazar e Serapião estão em minúscula. Então, ele— tudo em minúsculo, principalmente os substantivos. É porque a gente pensa, quando a gente pensa nessa coisa, o artigo que vai, né, ou é a coisa da primeira palavra depois de um ponto final, início do parágrafo, que sim, existe uma hierarquia se a gente for pensar, e principalmente nos substantivos, né? Então quer dizer que Andréia é melhor do que Casa do que janela, né? Porque é escrito com uma letra maiúscula.
Então tem essas, sim, gente, pessoas que fazem letras, vão malucas. Sim, é isso. E aí que eu vi entrevista do Daniel Rezende no Entrelinhas, né? No Entrelinhas existe um programa, eu vou colocar, vou deixar no post, no do programa, que fala que tem o Walter Ugumay falando a respeito da adaptação e tem o Daniel Rezende falando da adaptação. Eu não vou entrar muito nesses membros aqui porque é um elogiando o outro, mas o Daniel Rezende, ele fala uma coisa que tá escrito no texto.
Acho que tem duas coisas que dá para falar. A primeira delas é que ele falou que Quando ele leu, ele ficou obcecado pelo texto. Ele falou: "Eu preciso fazer assim, eu preciso adaptar isso para o audiovisual". E principalmente por conta... E aí a gente fala a respeito do... Porque no filme ele fala assim que é escrito, dirigido e sonhado por Daniel Rezende. Porque no texto tem uma frase que fala E fala assim: "Quando se sonha tão grande, a realidade aprende." E ele disse que isso foi o que norteou toda a escrita e a direção dele desse filme.
E a outra coisa é que o Walter Ugumay fala que o filme... Ele fala: "Eu gosto muito do meu livro, mas o filme é muito grandioso, eu nunca imaginei." que eu fosse ver algo que fosse baseado em uma obra minha que fosse ser tão grandioso. E isso é do Daniel Rezende. Então, o que ele está dizendo? Que é o que a gente sempre diz aqui: o que é do autor é do autor e o que é do diretor é do diretor. É isso. Vejam essa entrevista, ela é muito interessante.
O entrevistador, eu tenho um pouco de pé atrás, deixa para lá. Mas tanto Walter Ugumã quanto o Daniel Rezende, que eu acho um fofo, todas as vezes que eu vi o Daniel Rezende, acho importante essa entrevista. Certo, Gabi?
Temos uma ideia, temos E é isso, gente.
Leiam literatura contemporânea em português.
Vem, vem, que eu conheço André faz tempo. Pode vir, vem, confia.
Vem conosco, é bom, é bom. Confia, confia, vocês vão gostar. E aí, Gabi, se o povo quiser falar com nós, quiser mandar indicação de literatura contemporânea em outros idiomas também, francês, né, inglês. Inglês a gente já lê bastante, né, mas em outra— ou não, ou se a pessoa quiser pedir algum tipo de indicação, para onde?
Olha, a gente adora cartinha, então manda uma cartinha para nós no livrosemcartaz_portaorefil.com.br, ou se você O que que eu falei?
@portalrefil. Eu falei?
Underline? Que horror! Não é underline. Eu falei tão automático. Então, ó, @portalrefil, gente, .com.br. Ou envia, vem na DM, como dizem os influencers, e segue a gente nas redes sociais, no nosso Instagram, @livrosencartaz. Saz Underline. Agora está certo.
Aproveita, faça como quem?
Como quem?
Como quem? Isso, nosso querido, nosso querido, mandou um e-mail para gente quando? Dia 24/06/2026. E ele mandou falando a respeito os 4 últimos episódios que ele não mandou. Então vamos lá, ele só deu uma pincelada em cada um deles, mas vamos lá. Olá, minhas caras André e Gabi, espero que esse e-mail as encontrem bem, assim como todo e-mail profissional deve encontrar as pessoas.
O seu nos encontra bem, né? O seu sim, o resto a gente não tem como dizer.
Bem, é, não tem como dizer, gente. Gente, tá tenso, viu? Não vou nem falar nada. Vem por meio deste parabenizar vocês pelos últimos 4 episódios e que não tive tempo para comentar antes por motivos de trabalho, correrias da vida e tudo mais. E como o tempo de vocês é mais valioso que o meu, vou só pincelar os últimos 4 episódios. Aí ele vem aqui, episódio 95, As Horas, ou O Patrão Ficou Maluco, Pag-Yum.
Isso aí, gostamos, gostamos.
Não li o livro, então é agir como agora, Pires, e falar que não consigo opinar. Mas mais uma vez vocês me convenceram a ler o livro que está propriamente na minha lista, bem como do episódio da Dona Dolores. Quando terminar de ler ambos, volto para dar mais opiniões a respeito. Isso, gostamos. Vem, vem, vem de opinião. Episódios 96 e 97, O Homem Bicentenário e Blade Runner, ou robôs e/ou androides são quase sempre legais. Li ambos os livros e vocês me convenceram a reler só para não perder o costume.
Nada como ter A e o D do ABCD da ficção científica para falar do futuro. Asimov, que vocês têm um ótimo e altamente recomendado episódio de Eu, Robô, muito obrigada, com o seu homem de 200 anos, e o Dick e as suas ovelhas sonhadoras mostram futuros diferentes, mas de alguma forma iguais, mesmo se o de Dick seja um pouco, do verbo bastante, mais soturno.
Total.
É verdade. É bem mais noturno. Temos, né, temos androides que podem ou não saber que são robôs, temos gente de índole duvidosa, temos vontade de ter um robô eficiente para ajudar na limpeza da casa e dobrar as roupas. Enfim, são universos que podem de alguma forma coexistir graças às gigantes das tecnologias e aos donos cheios de vontade de se tornar imortal. Mesmo sabendo que o que é imortal não morre no final. Sobre os filmes, concordo plenamente que colocar o rosto do Robin Williams no robô foi só para fazer cartaz dele, para ter um rosto conhecido por ali.
Já o Blade Runner, com um dos melhores improvisos da história do cinema, a cena da chuva, "e ainda preciso rever 2049 para valorizar o trabalho do Villeneuve." Exato, já! "Sugestões de filme para ele?" Sugestiu?
Ah, então deixa, Andréia.
Eu não. Eu não sei.
Eu gosto muito. Então já fica a dica aí do que pode ser esse filme. É uma grande tragédia, saiba disso. É uma grande tragédia. E você não imagina. Quer dizer, Acho que lá para o meio assim dá para imaginar o que é, mas é, eu não quero dar spoilers aqui para quem gosta assim, por exemplo, para quem gosta de Old Boy, tá bom, tá bom, tá bom, né?
Ok, já peguei o espírito da coisa. Enfim, a duplinha de episódios de ficção científica foi muito bem representada pelos dois livros e filmes. Episódio número 98: Ensaios sobre a cegueira ou Em terra de cego, quem enxerga é a Julianne Moore.
Isso é verdade.
Não viu o filme? É a cegueira. Não viu o filme nem leu o livro? Não, nem, é, nem li o livro. Sim, estão ambos na minha lista e só preciso criar vergonha na cara para resolver isso. Prometo resolver isso. Assim que terminar de resolver isso, beleza?
Beleza.
E por hoje é só, pessoal. Obrigado pelas horas de companhia e pelas outras tantas horas de entretenimento ao ler os livros e assistir aos filmes que vocês recomendam. E só para não dizer que não falei das flores, partiu episódio 6 de Vida de um Carteireiro. Abraços! Obrigada, Leandro, sensacional!
Muito bom ter você aqui.
Muito obrigado, muito bom, muito obrigado! A gente sempre gosta das suas mensagens. E é isso, turma, sempre agradecendo quem? Os meninos do Portal Refil, sempre, sempre. Ao quê? A esse o quê? Esse o quê? Esse puxadinho! O que a gente tem aqui. Agradecendo sempre a minha co-host favorita, Dona Gabi de Ali. Gabi, muito obrigada, muito obrigada. Sim, estamos indo, dentro de tanto tempo, para o número 100, não é mesmo? Menina, a um passo do paraíso.
É redondíssimo, Andréia.
O número 100 é um número redondo. Né, 100. A gente já fez 50, agora 100. Que doido!
Também não.
Nem imaginei isso. Enfim, né, enfim, agradecer a vocês que ficam aí ouvindo essas duas malucas falando. Olha só que beleza, vejo vocês, né. E é isso, fiquem bem, um beijo para todo mundo, até o episódios, fez. Até já já e tchau tchau.
Tchau tchau.