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Livros em Cartaz 098 – Ensaio sobre a cegueira

17 de junho de 20261h26min
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Só desta vez, o convite de mergulhar em uma narrativa vem com um alerta de perigo: perder-se na cegueira branca de José Saramago é ter a certeza de que a ordem como a conhecemos é muito mais frágil do que imaginamos.

Então, se tiver coragem, venha ouvir este programa sobre "Ensaio sobre a cegueira", romance publicado em 1995 sabendo que ele vem nos alertar, para o bem ou para o mal, que “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”

Comentado no episódio

  • Bola de Sebo conto de Guy de Maupassant
  • Geni e o Zepelim
  • Chinatown (1974 ‧ Thriller/Mistério ‧ 2h 10m) de Roman Polanski
  • Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires
  • Intermitências da Morte, romance de José Saramago
  • Memorial do Convento, romance de José Saramago

Participantes neste episódio2
A

Andreia D'Oliveira

Host
G

Gabi Idealli

Host
Assuntos3
  • Ensaio sobre a Cegueira, de José SaramagoDiferenças na representação do médico · A explicitação de cenas no filme · A dramatização da traição no filme · A escolha de Gael Garcia Bernal como paciente zero · A representação da cegueira branca no cinema
  • A vida de José SaramagoO estilo de escrita de Saramago · A pontuação e a ausência de travessões · A influência do português de Portugal · A ironia e irreverência na escrita · A biografia de José Saramago · O Prêmio Nobel de Literatura · A relação com Jorge Amado · O contexto político de Portugal
  • Obras e Personagens MarcantesIntermitências da Morte · Memorial do Convento · Ensaio sobre a Lucidez · Bola de Sebo · Geni e o Zepelim · Chinatown (1974) · O Dinossauro Excelentíssimo · A Trincheira Infinita
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GIGabi Idealli

O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do Homem Verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto. Não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas impacientes, com o pé no pedal da embreagem, Se mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a shibata.

Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos. Há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicamos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorditamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.

E assim começa Ensaio sobre a Cegueira, romance de José Saramago. Eu sou Gabi Deari.

ADAndreia D'Oliveira

Eu sou Andréia de Oliveira.

GIGabi Idealli

E este é o Livros em Cartaz. Pesado, hein? Hoje o programa promete, hoje promete, menina!

ADAndreia D'Oliveira

Olha, Andréia, pois é, Andréia, Andréia até adoeci para viver, porque é muito profissionalismo, entendeu?

GIGabi Idealli

Tá enxergando pelo menos, né, Andréia?

ADAndreia D'Oliveira

Tô vendo tudo, tô vendo tudo. A voz que pode ser que até o final do programa chegue daquele jeito, daquele jeito, daquele jeito, mas a Mas tá de boas.

GIGabi Idealli

Tá de boas. Me conta, você gosta de Saramago? Eu amo Saramago.

ADAndreia D'Oliveira

Eu já li algumas coisas do Saramago. É que assim, dizer que se ama o Saramago é um pouco complexo, né?

GIGabi Idealli

Pois é.

ADAndreia D'Oliveira

Porque o Saramago, ele... O tipo de texto que ele cria, o tipo de discussão e de... Eu acho que é de discussão mesmo que ele vai trazer. A coisa da, principalmente, tudo muito ligado à pauta social, né? Eu acho que, eu acho que sempre vai ter um peso. Por exemplo, eu gosto muito, eu acho que o que foge um pouco disso é o Intermitências da Morte. Você já leu?

GIGabi Idealli

Não, eu comecei. Meu, é um dos livros favoritos do meu irmão.

ADAndreia D'Oliveira

Eu amo, amo Intermitências da Morte também. Eu gosto mais do que isso. É que O "Ensaio sobre a cegueira", ele é mais contundente, assim, né? Eu acho que o Saramago, ele só ganhou esse Nobel por conta do "Ensaio sobre a cegueira". Assim, não...

GIGabi Idealli

É que é uma ideia muito interessante e que prediz tanta coisa, que tem tanta coisa aqui que a gente, só quem viveu sabe, como dizem.

ADAndreia D'Oliveira

E a gente passou por uma pandemia.

GIGabi Idealli

Exato, exato.

ADAndreia D'Oliveira

E aí você vai olhando as coisas Você vai falando, cara, se isso tivesse se arrastado um pouco mais, as pessoas, se fosse mais grave, se, sabe, tanto sis assim que você vai lendo. Porque na real, gente, é o que o Saramago cria aqui é um mundo distópico. Sim, sim, né? Ele fica distópico por conta de uma doença, que é algo de uma epidemia. Que é algo que pode acontecer. Mas ao invés das pessoas morrerem, como aconteceu na COVID, as pessoas não morriam e as pessoas tinham uma cegueira leitosa branca.

Porque normalmente a cegueira, a pessoa fica no escuro. Aqui não. Aqui eles diziam que eles estavam mergulhados no mar de leite.

GIGabi Idealli

Sim.

ADAndreia D'Oliveira

Então assim, e era uma cegueira que não é como quem tem pessoas que têm na família ou que já viram pessoas que têm algum tipo de predisposição a ter uma degeneração macular, alguma coisa assim, a gente sabe que essas coisas elas são graduais. Isso, e aqui não, aqui é súbito, super súbito. Então pense nisso, pense em um lugar em que você tá vivendo E não é, por exemplo, como no conto da Aya, que é o governo que faz alguma coisa.

Não, é uma ação epidemiológica, né? É uma epidemia. Isso. E que aparece do mais—

GIGabi Idealli

É uma pandemia, meio epidemia, meio pandemia.

ADAndreia D'Oliveira

Meio pandemia, é. E que aparece do mais absoluto nada. E ele— e assim, eu acho que é isso que eu mais gosto nessa obra. E eu acho que isso tem que ser dito. É, acontece do mais absoluto nada, não tem explicação. Ai, André, mas ele não explicou porque não, não. E aí no final as pessoas também vão voltar, porque as pessoas vão voltar a enxergar, e também não tem explicação porque que as pessoas voltam. Porque para ele o que importa é entre essa degradação É a evolução dessa degradação do ser humano a partir do momento que ele não consegue mais, que todas as esferas vão ruir.

GIGabi Idealli

Sim.

ADAndreia D'Oliveira

E eu acho que não tem nada mais alegórico do que ser por meio da visão.

GIGabi Idealli

Tem tantas camadas a ideia da visão que é super interessante. E assim, No fim, é um ensaio sobre a condição humana, do quanto a gente... É... Eu tenho tanto... Eu fiquei pensando, porque a primeira vez que eu li esse livro, eu era muito nova. Deve ter sido assim, porque ele morreu em 2010, o Saramago. Eu devo ter lido esse livro em 2011, 2012...

ADAndreia D'Oliveira

Ah, não foi para o filme.

GIGabi Idealli

Não, não foi para o filme, eu já tinha lido.

ADAndreia D'Oliveira

É, eu li para o filme.

GIGabi Idealli

Ah, você não tinha lido antes então?

ADAndreia D'Oliveira

Não, não, eu tinha lido outras coisas dele.

GIGabi Idealli

O Ensaio sobre a Cegueira mesmo não?

ADAndreia D'Oliveira

Não, eu tinha lido O Intermitências da Morte, tinha lido Memorial do Convento, Ensaio sobre a Lucidez, eu já tinha lido outras coisas dele, mas o Ensaio sobre a Cegueira eu sabia que no momento que eu pegasse ia ser uma porrada, eu já sabia disso porque todo mundo falava isso.

GIGabi Idealli

É uma porrada, eu lembro quando eu li a primeira vez, eu lembro leitura, do quanto foi um marco assim para minha vida. E eu era jovem e eu lembro assim o quanto foi do tipo, existiu um antes e existiu um depois dessa minha leitura assim. Eu lembro que foi quase uma leitura de formação, digamos, para mim. E agora relendo, eu fiquei muito feliz de reencontrar o texto porque me fez lembrar Sobre... Primeiro que eu acho que ele escreve de uma maneira que eu acho assim...

Do tipo, se viesse um gênio da lâmpada e me perguntasse: "Você gostaria de escrever como quem?" Eu falaria: "Eu gostaria de escrever como Saramago." Porque eu acho que ele tem uma... Ele tem uma forma que me lembra... Não sei se é o jeito dele escrever, mas me lembra... Posso falar? Claro.

ADAndreia D'Oliveira

Kafka.

GIGabi Idealli

Pode ser, sim. Eu não ia nem falar o Kafka, mas sim, pode ser o Kafka.

ADAndreia D'Oliveira

Você não ia falar o Kafka?

GIGabi Idealli

Eu ia dizer, sabe o quê? Eu acho que sim, acho que Kafka. Excelente, eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Mas ele me lembra como se fosse um... Eu gosto dele, ele é muito irônico, assim.

ADAndreia D'Oliveira

Ah, sim, sim.

GIGabi Idealli

E eu gosto muito da maneira com que ele traz essa... Ele aplica uma... Uma acidez meio assim, cara, tem hora que eu dou risada com ele assim, mesmo nesse caos, eu olho e falo: "Gente, este homem é muito inteligente." Eu sempre dá um negócio assim, porque eu acho que ele tem uma visão que eu não sei explicar, parece um comédia, é uma, tem algo do ensaio mesmo, por isso o ensaio sobre a cegueira. Ele tem algo de ensaístico, algo de sei lá, crônica, talvez, sabe?

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso.

GIGabi Idealli

Então ele me envolve muito na maneira com que ele escreve, me dá vontade que eu leia mais sobre ele, sabe assim, do tipo: "O que você escreveu, eu vou ler." Porque ele me captura na maneira com que ele escreve. Só que esse tema, ele te tratora de uma maneira, porque... E assim, cara, já vou começar falando isso aqui. O homem bom. Porque assim, a gente já leu muito aqui, já estamos rumo ao nosso centésimo programa.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso. Né? Isso, isso, isso.

GIGabi Idealli

E não é fácil encontrar escritores homens que saibam abordar temas tão delicados pro universo feminino com tanto respeito. Eu acho ele muito, muito respeitoso. Porque ele poderia degringolar em trocentos momentos desse livro, gente.

ADAndreia D'Oliveira

Ah, no Memorial do Convento. Memorial do Convento tem uma personagem lá que é isso, assim. Você olha, você fala: "Ele podia fazer uma desgraça com essa personagem." Eu nunca li o Memorial do Convento.

GIGabi Idealli

Ai, preciso ler, gente. Já gostei. Eu gosto de indicações. Porque aqui tem muitos momentos que poderiam degringolar, assim, pra mim, eu acho. Então, a questão da rapariga de óculos escuros.

ADAndreia D'Oliveira

Sim, sim.

GIGabi Idealli

Ela é um... Que é meio que acontece no filme, né? Isso, pois então, já vamos falar. Por isso que eu falei, eu já estou me adiantando, mas eu acho que nesse caso é interessante falar porque eu acho que tem várias diferenças assim. Por exemplo, a própria relação entre a única mulher, porque a história é isso. Então, a gente tem essa pandemia, essa epidemia, que não sabemos se é global ou não, mas enfim. E existe uma pessoa que continua enxergando, que é a mulher do médico. Que é o primeiro médico que atende esse primeiro homem que fica cego.

ADAndreia D'Oliveira

Cego.

GIGabi Idealli

E eu acho que a relação, por exemplo, a própria relação dos dois poderia, ele poderia ter dado uma nuance, homem hétero, né? Ele poderia ter dado uma outra nuance e ele não faz isso. Ele é muito... Eu acho que ele é muito... Não tem outra palavra pra mim. Eu acho que ele é um homem sensível mesmo. Eu acho que ele é uma pessoa que é observadora, empática mesmo. Então, ele não degringola esse livro, apesar de todas as atrocidades que acontecem com essas pessoas.

ADAndreia D'Oliveira

Ele não... Não é duro? É um livro duro?

GIGabi Idealli

Ele não... Apesar dele representar, por exemplo, momentos de objetificação feminina, Sim. Ele não objetifica essas mulheres. Ele, como narrador, ele não objetifica.

ADAndreia D'Oliveira

Então, mas é... Não é aleatório, né? É funcional para a narrativa.

GIGabi Idealli

Isso, claro.

ADAndreia D'Oliveira

Exato. E é a história que eu sempre falo do sexo na narrativa. Em qualquer narrativa. Então... Que é a diferença que eu sempre brinco da Lady Chatterley com 50 Tons de Cinza. Olha pra onde essa conversa vai.

GIGabi Idealli

Nossa.

ADAndreia D'Oliveira

O Cinquenta Tons de Cinza é o sexo pelo sexo. Tipo, ah, porque... E tá tudo bem, você quer ler sacanagem, cara, tá de boa, vai lá. Só que isso não é uma função, não tem função na narrativa, não tem um porquê narrativo. No caso do Alma de Leite Chatterley, que em termos de sacanagem inclusive é muito melhor do que o Cinquenta Tons de Cinza, Ah, toda narrativa sexual ela tem um propósito. E aqui a mesma coisa. Exato. Essa objetificação e essas coisas que eles falam e tudo mais existe porque tem um propósito de colocar essas pessoas do lado de animais.

GIGabi Idealli

Isso, isso, isso. É isso. Eu ia falar isso, parece que tem uma questão aí desse homem com a natureza, desse homem natural, desse homem animal. Então, e aí, por exemplo, o filme e o livro retratam essas personagens, às vezes, na minha opinião, até de forma muito diferente. Então, o próprio médico, porque nós chegaremos lá, mas algumas coisas acontecem com esse médico Que no filme, como dizer, no filme você, você, eu peguei um ranço do médico no filme.

Chegou uma hora que eu falei: "Ah, meu amigo, sabe?" Tipo: "Me poupe, entendeu? Tá." E aí, e no livro você não tem isso, porque é tão humano.

ADAndreia D'Oliveira

É porque por mais que o médico é colocado no seu lugar, do tipo: "É médico, né?" Então, sim, exato. Então assim, O médico, ele é colocado no seu lugar. Você tá achando que você é grande coisa aqui?

GIGabi Idealli

Exato.

ADAndreia D'Oliveira

Na morte tá que nem que nós. Exato. Só que no filme ele ainda continua tendo esse lugar de, eu não vou colocar privilégio, mas esse lugar de autoridade de alguma forma, porque ele é o médico ali, ele acha que ele tem essa personagem.

GIGabi Idealli

Sim, sim, sim.

ADAndreia D'Oliveira

Entende? Então, aí tem isso também, que vocês não estão vendo a gente falar em nenhum momento o nome das personagens.

GIGabi Idealli

Isso.

ADAndreia D'Oliveira

Porque, por isso que eu falei que ele é Kafka, que Tem um quê de Kafka nele. Porque tem essa coisa do sujeito funcional, né?

GIGabi Idealli

Da vida nua.

ADAndreia D'Oliveira

É, então assim, é a mulher do médico, é o médico, é a moça do... É a rapariga... Dos óculos escuros. Dos óculos escuros.

GIGabi Idealli

Do senhor com tampão, não é?

ADAndreia D'Oliveira

O senhor com tampão.

GIGabi Idealli

Do adolescente, o menininho, como é que é o nome?

ADAndreia D'Oliveira

O menino extrábico, coitado.

GIGabi Idealli

O menino extrábico, coitado.

ADAndreia D'Oliveira

O extrábico é o...

GIGabi Idealli

O ladrão do carro.

ADAndreia D'Oliveira

O ladrão. O primeiro cego. O primeiro segue. Então assim, não existe nome, ele não nomeia essas personagens. E tem um motivo pra ele não nomear. Porque qualquer uma daquelas personagens poderia ser nós.

GIGabi Idealli

É, ou qualquer pessoa.

ADAndreia D'Oliveira

Então você pode imaginar qualquer pessoa ali. Eu acho que ter colocado o Mark Ruffalo como o médico, acho que me tira um pouco da experiência.

GIGabi Idealli

Ah é?

ADAndreia D'Oliveira

Não, mas não é por esse motivo não. Porque eu, quando eu li o livro, as duas vezes que eu li, eu acho que ele é um homem muito mais velho.

GIGabi Idealli

Ah, tá. Eu também, eu também acho que ele é muito mais velho. Concordo, concordo com você. Eu também acho isso, também, também passei por isso.

ADAndreia D'Oliveira

Muito, ele tem um quê muito ainda muito viril, colocamos assim.

GIGabi Idealli

Muito, imagina, super viril.

ADAndreia D'Oliveira

Que não acontece com a Julianne Moore, no filme.

GIGabi Idealli

Ela condiz mais, eu acho.

ADAndreia D'Oliveira

Eu acho que sim. Não, ela é o filme.

GIGabi Idealli

Ela é o filme. Como ela é um pouco o livro também. Eu acho que de certo modo ela é o livro também, porque...

ADAndreia D'Oliveira

Ela é o livro, exato.

GIGabi Idealli

Porque é isso, ela acaba sendo o que...

ADAndreia D'Oliveira

Ela que é os olhos, ela é o rosto.

GIGabi Idealli

Ela que é os olhos, exatamente.

ADAndreia D'Oliveira

Ah, então, pra quem... A gente já tá se adiantando, a gente nem falou da biografia do seriado, mas já que a gente já adiantou, então vamos falar. A história, como é que é, né? O que que traz essa história? Foi como Gabi falou, existe essa pandemia aí maluca que todo mundo fica cego.

GIGabi Idealli

Isso.

ADAndreia D'Oliveira

E aí existe o paciente número 1, normalmente tem esse paciente número 1, né? O zero, zero, desculpa, desculpa, médica. Desculpa, opa, opa, é que para mim era o primeiro paciente que tinha dado ruim, mas não é, o paciente zero. Desculpa, médico, perdão. Aí tem esse paciente zero, zero, que ele chega lá e fala assim: tô cego dos olhos. Vira, fala assim: estou cego. E aí ele vai procurar e fala: olha, tá tudo, seus olhos estão perfeitos, não tem nada aqui que a gente veja que tem algum problema.

E ele começa a investigar, e aí o o médico e todo mundo que tem contato com esse paciente zero começa a perder a visão. E as pessoas que tiveram contato com ele e que tiveram contato com as outras pessoas, começa aí, bom, epidemia. Vimos aqui COVID, todo mundo se lembra, não preciso fazer aqui a progressão geométrica.

GIGabi Idealli

Isso, exato.

ADAndreia D'Oliveira

É isso. Aí, em determinado momento, só que De todas as pessoas que têm contato, a única pessoa que não perde a visão é a esposa do médico. Então ela é meio voyeur e meio— ela enxerga tudo porque ela tá vendo todo mundo, inclusive as reações. E ela diz isso no livro, né, uma hora ali, quando ela começa a ver as reações das pessoas, ela falou assim: "Não era para eu estar vendo isso, é como se eu tivesse ultrapassando um limite da intimidade dessas pessoas." E isso no filme, esse é um ponto bom do filme, porque o filme, porque assim, o livro, ele não, óbvio que ele não detalha algumas imagens, digamos, do que aconteceria. Ah, nem dá, né?

GIGabi Idealli

Nem dá.

ADAndreia D'Oliveira

Já é, nem dá.

GIGabi Idealli

Nem dá, exato, já está mais que suficiente, mas Mas o filme, ele é muito interessante nesse ponto, porque aí o que acontece? De fato, começa esse efeito dominó. Essas pessoas todas começam a ser infectadas. O governo colapsa, basicamente. Assim, basicamente, primeiro ninguém consegue entender o que tá acontecendo. Eles mandam todo mundo pra uma quarentena num antigo sanatório.

ADAndreia D'Oliveira

O que é muito sintomático, né? Ser num sanatório, num manicômio, enfim.

GIGabi Idealli

É, eles entram num pânico, num medo, se desorganizam totalmente. E aí, em vez de pensar em uma condução mais protocolar, no sentido de seguir os protocolos, eles simplesmente isolam todos nesse sanatório e decidem que essas pessoas vão ficar ali para tentar conter essa pandemia, que no fim não vai ser contida, mas em teoria eles estavam tentando fazer isso. Quando isso acontece, rapidamente tudo degringola dentro desse sanatório e as condições vão ficando, vocês imaginam, né?

É só imaginar o que talvez acontecesse com muitas pessoas repentinamente cegas colocadas em um...

ADAndreia D'Oliveira

E a gente não tem noção, a gente não tem. Não. Quando a gente lê esse livro, a gente tem a plena noção De que coisa muito simples, tipo limpar a bunda. Isso. Vira um negócio do outro mundo.

GIGabi Idealli

Ir ao banheiro, ir ao banheiro.

ADAndreia D'Oliveira

Ir ao banheiro, é isso.

GIGabi Idealli

Assim, aí você olha e fala: "Cara..." E o filme é muito interessante nesse ponto, eu acho ele muito interessante, que é... Porque aí, por que eu tô contando isso? Porque conforme a situação evolui, As pessoas, é isso, elas não se vestem mais, elas não conseguem lavar as próprias roupas, elas começam a andar nuas nos corredores, a urinar nos corredores, a defecar nos corredores, porque elas não sabem chegar no banheiro, voltar do banheiro.

Elas, sei lá, elas simplesmente se desumanizam, ou pelo menos desumanizam nesse lugar do humano talvez aí... Adestrado, né? Adestrado, é. Uma coisa assim do tipo, tem gente que não levanta mais da cama, tem quem fique transando, tem quem... E aí é isso, e aí essa barbárie toda vem à tona. E o filme é muito interessante porque o filme nesse lugar ele mostra o que evidentemente já estava acontecendo no livro, porque você consegue imaginar que isso está acontecendo no livro, mas isso não é dito no livro. Mas no filme você vê, por exemplo.

ADAndreia D'Oliveira

Não é explícito, né?

GIGabi Idealli

Não, não é explícito. Mas você percebe, obviamente, pelo tom do livro você consegue imaginar o que tá acontecendo. Mas o filme mostra isso, então de repente tá a Julianne Moore caminhando com o Mark Ruffalo indo pra algum lugar. E aí tá esse corredor todo degradado, as pessoas todas nuas, andando, se esbarrando, se caindo. Sujas, que é o que aconteceria, é basicamente o que aconteceria mesmo. Então essa degradação, ela me pega assim, essa—

ADAndreia D'Oliveira

E o que eu acho mais louco ainda, né, porque para além dessa degradação humana nesse sentido do mais básico, ainda tem a degradação do macrocosmo. Moral. Moral. Então, não, para além do moral ainda tem desse nosso sistema. Então, por exemplo, chega uma hora que eles falam Fala assim, olha, a partir, porque não tem comida para todo mundo. Porque o que que acontece? Chega lá 5 pessoas e daqui a pouco, como eu disse, é progressão geométrica.

Tem 5, daqui a pouco tem 15, daqui a pouco, e aí vai, e aí vai, né? Então chega uma hora que está um inferno na terra, é muita gente e não tem comida para todo mundo. E aí o que que você faz quando você tem 2 hamsters hamsters, que é aquele bichinho que se você gritar ele morre de infarto do miocárdio do lado dele. Se você pegar, colocar dois hamsters dentro do, do bagaiole, dá comida para um só, que que vai acontecer? O um vai matar o outro.

Mas assim, é fato assim. E aí o que acontece é que num primeiro momento eles querem manter Essa sociedade meio que do jeito que ela é. Então, não, mas não é nem isso. Eles entendem, né, que eles querem meio que manter essa sociedade do jeito que tá aqui fora. Então, num primeiro momento, eles começam a— eles acham uma arma.

GIGabi Idealli

Isso. É porque daí, o que que eles começam a fazer? Alguns dos policiais— tem uma coisa assim no livro, eu acho.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso.

GIGabi Idealli

Alguns dos policiais que levam essas pessoas entram juntos porque eles ficam "Eu tenho medo desses policiais contaminarem pessoas fora." Dá a entender uma coisa meio assim, que começa a colocar meio que qualquer um lá dentro, do tipo: "Ah, não, vai dar muito mais trabalho se a gente, né, trazer de fora." Esses policiais que tiverem que interagir com eles, em algum momento vão ter que entrar lá também. Então, não é dito diretamente, mas você pode até supor que talvez tenha vindo por aí uma das armas.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso.

GIGabi Idealli

Eu, pelo menos.

ADAndreia D'Oliveira

E aí... É, tem uns cegos lá, bom, sabe, né? Não existe vácuo de poder em nenhum lugar. A gente já falou disso aqui inúmeras vezes. E bom, eles falam assim: não tem comida para todo mundo. Então, no primeiro momento, eles começam a roubar coisas, né? Ele falou assim: olha, o que que você vai me dar em troca dessa comida?

GIGabi Idealli

Esse grupo que se forma controla comida, controla comida, e passa a criar umas regras assim.

ADAndreia D'Oliveira

Isso. E aí eles começam, e aí eles começam a acumular. Então assim, ah, é anel, é relógio, sei lá. Eles olham aquilo e falam assim: mas isso aqui não serve de nada. Para quê? Porque isso também existe, essa sensação num primeiro momento de que você vai manter a ordem, a mesma ordem que você tem aqui fora, e não vai. E aí chega uma hora que eles falam assim: não, a gente quer coisas mais imediatas, porque são coisas normalmente do corpo.

E aí a gente não precisa dizer que é porque a moeda de troca é sempre mulher. Então é essa coisa de você dar, entre aspas, ter esses... Enfim.

GIGabi Idealli

Não, um dos diálogos que me marcou a primeira vez que eu li Marcou de novo essa, que é quando eles dizem... Porque aí vira uma questão. Isso. O pedido das mulheres vira uma questão e alguns dos homens reagem, né? Do tipo... Porque daí algumas mulheres falam: "Ah, então por que não vai você?" Porque eles começam: "Ah, né? Vamos fazer o quê? Tem que ir lá." E elas, tipo: "Não, a gente não vai." Você já leu um conto chamado Bola de Sebo? Não.

ADAndreia D'Oliveira

Do Guy de Maupassant? Não. É essa dinâmica.

GIGabi Idealli

Ah, é?

ADAndreia D'Oliveira

Ai, preciso ler. Depois leiam, leiam.

GIGabi Idealli

Eu quero ler.

ADAndreia D'Oliveira

Chama Bola de Sebo. É só para quem nunca leu, só entender qual que é o contexto. Eles estão fugindo da França, tá numa revolução na França, lembra? Guy de Maupassant e tal. Eles estão fugindo e para eles conseguirem passar existe uma prostituta que tá dentro do coldre com eles que chama Bola de Sebo, das carnes e tal. Não é um nome pejorativo, mas ela era uma prostituta. E aí, quando precisam dela, sabe a história da Jenny?

GIGabi Idealli

Sim, claro.

ADAndreia D'Oliveira

Bola de Sebo é Jenny, é exatamente aquele lugar do tipo: eu precisei, ela se deu de sacrifício E depois disso a gente coloca ela no lugar dela de novo. Aqui eu acho que é mais ou menos essa dinâmica.

GIGabi Idealli

Sim, total.

ADAndreia D'Oliveira

Não chega, não é?

GIGabi Idealli

Total essa dinâmica. E nesse momento que começa-se a pensar, aí tem, ele tenta retratar diversas reações, e uma delas é algo do tipo, um homem diz: Porque daí uma das mulheres fala: "Ah, vai você lá", né? Do tipo, porque daí ela diz: "Ah, eu não vou, eu não vou lá". E ele diz: "Ué, mas alguém vai ter que se sacrificar", alguma coisa assim. E aí ela diz: "Ué, então por que que não vai você? Vai você lá". Aí ele diz: "É, aqui não tem gay não", alguma coisa assim. Aí ela diz: "Aí, aqui também não tem puta".

ADAndreia D'Oliveira

É isso aí.

GIGabi Idealli

Né?

ADAndreia D'Oliveira

E mesmo que tivesse, né?

GIGabi Idealli

É, mas eu digo, o diálogo, ele é tão possível. Eu poderia ver um ver um diálogo desse acontecendo, sabe?

ADAndreia D'Oliveira

Sim, sim, sim.

GIGabi Idealli

E ele vai... E aí o Sarawako...

ADAndreia D'Oliveira

É tão possível que ele foi pensado em muitos lugares. É disso que eu tô falando.

GIGabi Idealli

Isso, exato.

ADAndreia D'Oliveira

Ele foi pensado lá na Bola de Cebola, ele foi pensado na Genie e o Zeppelin. É isso.

GIGabi Idealli

É tão óbvio quanto, enfim, a condição humana mesmo. Ele estica essa corda e ele te leva pra lá, entendeu? Ele vai esticar essa corda e vai levar você junto. Lá pro esgoto, assim, ó, você vai até lá.

ADAndreia D'Oliveira

Você fica: "Não acredito, não acredito, não acredito, não acredito, não acredito, não acredito." É, você se sente assistindo...

GIGabi Idealli

Sabe quando eu me senti assim assistindo Chinatown?

ADAndreia D'Oliveira

Ah, tá.

GIGabi Idealli

Porque eu assisti Chinatown e eu falei: "Não, mas vai se resolver." Porque você fica com essa expectativa o filme inteiro. E aí chega no fim e... E não se resolve.

ADAndreia D'Oliveira

Aqui é Chinatown.

GIGabi Idealli

Aqui é Chinatown. Então é meio Chinatown aqui. Porque você, ele te leva para esse esgoto assim humano e demora porque ele vai piorando, parece um laboratório mesmo, ele vai piorando a experiência, ele vai entulhando de pessoas, criando esse caos do governo, a falta de comida, pessoas violentas, porque é o que aconteceria mesmo. E o que acontece é, a mulher do médico decide matar, porque tem um líder. Tem um líder desse grupo que monopoliza.

ADAndreia D'Oliveira

Que no filme é o Gael Garcia Bernal.

GIGabi Idealli

Isso, no filme é o Gael Garcia Bernal. Eu não sei até onde foi uma excelente escolha, assim.

ADAndreia D'Oliveira

Eu gosto muito dele. Eu também gosto dele. Mas eu acho que é uma escolha fácil.

GIGabi Idealli

É, eu acho que é uma escolha fácil e ao mesmo tempo...

ADAndreia D'Oliveira

Eu acho que é uma escolha fácil não por nada, porque... É porque ele é latino, isso me incomodou profundamente, entendeu? Eu acho que tem isso. E também acho que tem isso, por exemplo, diferente.

GIGabi Idealli

Como oriental, seu primeiro.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso, obrigado. Também, que é coreano, né?

GIGabi Idealli

Exato, sim, ele é o primeiro a pegar.

ADAndreia D'Oliveira

Eu fiquei tipo, a gente sabe, paciente zero no filme, gente, ele é um oriental. Então, do mesmo jeito que a gente tem toda essa E eu não sei se foi uma ideia do Fernando Meirelles, entendeu? Não sei se foi uma escolha pensada. A gente quer acreditar que não.

GIGabi Idealli

Ah, foi não, imagina, foi totalmente aleatório.

ADAndreia D'Oliveira

Essa coisa de: "Ah, as coisas sempre vêm de lá, sempre, enfim." E existe um movimento desse no livro, "Você me passou isso, você..." E aí o médico fala: "Numa pandemia, numa epidemia, ninguém tem culpa." Mas existe esse lugar ali no filme de ser... Putz, ainda bem que você falou disso. Porque eu pensei, mas eu falei assim: "Não, tá vendo?" Tema, né? "Você tá vendo? Você tá vendo?

GIGabi Idealli

Bichiraru, velho." É, eu gosto do filme. Não é como se fosse um filme que eu desgostasse. Eu gosto do filme também. Mas tem algumas escolhas que não...

ADAndreia D'Oliveira

Mas o Gael Garcia Bernal ser... Já que ia fazer, eu acho que ele ser esse cara mauzão e tal, eu acho que pegou mal. Porque é muito estereotipado, entende?

GIGabi Idealli

Enfim, aí tem todo esse trelelê. Eles pedem às mulheres, as mulheres se organizam para ir. Acontece que nesse grupo, porque começa a se formar o grupo, que é o grupo desses primeiros que foram contaminados, e nesse grupo uma das mulheres morre, que é quando a mulher do médico decide que ela vai matar o chefão. Ela diz: "Não, chega, eu vou matar esse homem, porque assim, é ele ou somos nós, então vai ser ele." Então ela toma essa decisão.

Ela vai lá e mata ele numa cena muito boa. Sim, muito boa. Porque, nossa, você limpa a alma, você fala: "Gente, é isso." Você lava, né?

ADAndreia D'Oliveira

Lava a alma, né?

GIGabi Idealli

É isso. Numa situação dessa, gente, ela tá mais do que certa.

ADAndreia D'Oliveira

Enfim.

GIGabi Idealli

E começa a acontecer que o marido, que é o médico, ele e a moça que tá de óculos escuros Óculos escuros porque ela vai procurar ele, ela é uma paciente dele que tá com conjuntivite, por isso que ela tá com óculos escuros inicialmente. E é muito curioso porque o Saramago não coloca assim como uma carência sexual.

ADAndreia D'Oliveira

Eu acho que tem uma condição, e só quem viveu a pandemia sabe, Eu acho que tem uma condição do tipo, por mais que a mulher dele esteja ali com ele, vivendo as coisas por ele, vou dar um exemplo que vai parecer que não é, porque você sabe que eu gosto muito de fazer comparação.

GIGabi Idealli

Faça.

ADAndreia D'Oliveira

Que pode, vai parecer que não é, mas é. Tá. Senhor dos Anéis, tá, o Frodo e o Sam, o Sam Ele é o cara que, para mim, o Sam na história, ele é o grande herói dessa história. Não é o Frodo, é o Sam. É, o Sam, ele é o cara que ele não pode levar o fardo por ele, pelo Frodo. O anel é o fardo do Frodo. Quem tem que levar esse fardo é o Frodo. Então assim, por mais que ele tente, ele não vai conseguir. E o Frodo, ele tem uma empatia, entre muitas aspas, com o Sméagol de cara, porque eles têm uma mesma miséria.

E eu acho que acontece meio isso aqui. Isso, eu acho que a mulher dele esteja ali, quisesse, né, cuidar, mas ela não divide da mesma miséria que ele tá, que a moça vive com o médico.

GIGabi Idealli

Não, e assim, é uma condição, gente, é uma condição. Eu falo porque eu fui trabalhar no hospital de campanha durante a pandemia e eu fiquei uns 4 meses vendo as mesmas pessoas dia sim dia não, porque a gente trabalhava em esquema de plantão numa situação de pandemia em que ninguém via sua própria família, ninguém via ninguém, as únicas pessoas que eu via eram aquelas. Numa situação que você está vulnerável, vulnerável socialmente, vulnerável pessoalmente, você fica com medo, emocionalmente, né?

E você cria como se fosse uma família com essas pessoas, é uma coisa incrível assim, você de fato cria uma nova realidade com aquele núcleo de pessoas. Imagina numa situação como essa, então assim, é de uma sensibilidade dele Porque ele coloca tudo isso e aí o que acontece? A moça dos óculos escuros transa com o médico.

ADAndreia D'Oliveira

Isso.

GIGabi Idealli

Só que, gente...

ADAndreia D'Oliveira

No filme!

GIGabi Idealli

É, no livro... no livro... no livro também. Então... Quer dizer, eu compreendia como sim. Mas também dá pra compreender como não. Mas ao mesmo tempo... Existe algo, né, que é como se fosse, enfim, existe uma troca de intimidade muito, muito grande.

ADAndreia D'Oliveira

Sim, sim.

GIGabi Idealli

Que você compreende, você não sabe se eles dormiram juntos.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso, isso.

GIGabi Idealli

Se ele apenas confundiu a cama, se eles simplesmente estão ali, enfim.

ADAndreia D'Oliveira

É, eles quiseram no filme, eles explicitaram.

GIGabi Idealli

Isso, é. Mas tem uma fala assim do Saramago do tipo, quando É que eu não vou lembrar agora, mas não é assim, é quase como um "quando eles atingiram o prazer" ou alguma coisa assim. Quando um se satisfez e o outro também se satisfez, alguma coisa assim. Então fica um do tipo: "E aí? Isso foi uma transa? Isso foi um traca-traca ali?" Você não consegue entender. Nisso, obviamente, a única pessoa que enxerga viu. E ele se toca porque ele não... O marido O marido momentaneamente se esquece que é mulher de enxergo.

ADAndreia D'Oliveira

E ela tem uma relação... Ao convenience, né? Se esquece.

GIGabi Idealli

Então, mas o filme faz isso, exatamente. A minha impressão é que o filme... Porque o livro, ele não traça um... Ele não traz um lado psicológico, digamos.

ADAndreia D'Oliveira

Não, não.

GIGabi Idealli

Né? Ele simplesmente... No livro, simplesmente as coisas acontecem. Então a reação dela é um pouco tipo: "Ai, sabe, a gente tá aqui nessa condição horrorosa." Ela cria uma afinidade muito grande com a moça. Elas têm uma proximidade muito forte no livro. Então eu...

ADAndreia D'Oliveira

No filme também.

GIGabi Idealli

No filme também. Mas eu acho que no livro eu senti mais do que no filme. E ela simplesmente... Ela ignora as coisas assim, do tipo: "Tá, isso aconteceu." Tipo, aqui não dá pra gente simplesmente sentar e ter uma DR do tipo: "Você me traiu, então vamos lá?" Né?

ADAndreia D'Oliveira

Tipo... É porque não estão em condições normais.

GIGabi Idealli

É, exato. Então assim, e o filme, por outro lado, dramatiza essa situação muito fortemente. Assim, ela ignora ele, ela começa porque... E aí eu não gosto disso no filme, porque o filme meio que faz eles terem primeiro uma discussão antes. Ele vira pra ela no filme e diz: "Eu não te vejo como uma mulher", uma coisa assim. E eu fico tipo: "Ai, sabe?" Do tipo, muito homem hétero pra mim isso. Tipo: "Ah, você está cuidando demais, você limpa a minha bunda." E tipo, meu amigo, sabe?

A gente está no meio de uma pandemia, estou tentando te ajudar, sabe? E aí ele meio que diz uma coisa assim pra ela, né? "Eu não te vejo mais como uma mulher, porque você é meio..." "Eu sou uma enfermeira agora e tal." E aí depois ele trai ela com a moça. E depois que ele diz isso, ela para, né, de cortar a barba dele, vestir ele, enfim. O filme trata como se ele...

ADAndreia D'Oliveira

É, ela cria um draminha ali, né? É, cria um... Que eu acho que não cabe, né?

GIGabi Idealli

Eu acho que zero cabe. E eu acho que o livro não tem essa preocupação desse draminha, entendeu? Ele tá muito... ele é meio pragmático no livro, eu acho.

ADAndreia D'Oliveira

E eu acho que foi para um lugar muito pior, porque assim, a primeira coisa que eu pensaria é: seu filha da puta, eu vim para cá fingindo que sou cega e você fez isso comigo. Nossa, sim. E no filme não tem isso. Não.

GIGabi Idealli

Né?

ADAndreia D'Oliveira

Porque o que acontece, quando ela vai para lá com ele, não era para ela ter ido, mas ela vai porque ela não quer deixar o Luiz sozinho. Então assim, eu acho que é por isso que o drama no filme me incomoda, porque já que você quer criar um, você quer criar um drama, cria nessa chave. Então quer dizer que eu vim para cá, fiz tudo isso e você ainda "Ah, passa, eu ainda tenho que ver isso?" Não, e assim, é isso.

GIGabi Idealli

Vai pra um lugar totalmente diferente do que iria no natural. Porque no natural seria meio ali... Fica algo tacanho. É, fica... Ai, não sei, eu não gostei. Achei bem... Eu achei uma leitura errada da situação, assim. E acho que ele quis... E eu não gosto, assim, fica uma coisa meio muito explicativa. Do tipo, ele precisava ter uma desculpa. Para traí-la. Então, tipo, primeiro ele cria uma situação do tipo: "Eu não te vejo como mulher, eu não te desejo." Mas não gosto desse papo, entendeu?

"Eu não te vejo como uma mulher." Tipo: "Você me vê como o quê, meu querido?" Do tipo: "O que você tá querendo dizer com isso?" Entendeu? Então cria-se primeiro um enredo pra que isso aconteça, uma justificativa. Então: "Ah, era porque ele não a via mais como mulher. É porque ela virou a enfermeira dele, por isso que ele traiu." E, tipo, não tem, não tem. Não existe isso no livro, entendeu? Não é por isso que ele atraiu.

ADAndreia D'Oliveira

Não, não é. Eu acho que é esse lugar que eu falei, isso sim, com certeza, da miserabilidade, que ele só consegue dividir com outra pessoa que tá vivendo, tá passando pela mesma coisa.

GIGabi Idealli

Exatamente, entendeu?

ADAndreia D'Oliveira

Porque é isso, por mais que a gente queira carregar os fardos das pessoas que estão, que a gente ama, as únicas, as únicas pessoas que vão saber de fato É quem já passou por isso, por mais que a gente queira carregar.

GIGabi Idealli

É, fato.

ADAndreia D'Oliveira

Entende? Eu acho que tem isso.

GIGabi Idealli

E tem um limite.

ADAndreia D'Oliveira

No livro, pra mim, tem isso.

GIGabi Idealli

Tem um limite mesmo. E eu acho que ela, no livro, entende isso. Me dá a impressão de que ela entende isso. De que assim, bom, assim, eu tô tão aqui, olha a situação humilhante que todos nós estamos assim, sabe? O menor dos meus problemas é que meu marido me traiu como ele, entendeu?

ADAndreia D'Oliveira

Me traiu, é.

GIGabi Idealli

Então eu acho que ela um pouco, ai, "Um outro dia a gente fala sobre isso, assim, sabe?" É isso, é isso.

ADAndreia D'Oliveira

Se é que vai falar, tipo, se é que isso importa.

GIGabi Idealli

Se é que isso importa, exato. É outro lugar. E o filme não, o filme meio que precisa criar uma premissa. Eu também não gosto quando me chama de burra. Eu tô assistindo filme e você me chama de burra. Então fica assim: "Olha, ele não está mais vendo ela como uma mulher, então ele vai traí-la. E ela vai ficar muito chateada, então ela vai parar de cuidar dele." Tipo, oi?

ADAndreia D'Oliveira

Sabe?

GIGabi Idealli

Isso não aconteceria nesse cenário, tanto que no livro não acontece.

ADAndreia D'Oliveira

Não, e essa mulher não faria isso.

GIGabi Idealli

Não, não faria isso.

ADAndreia D'Oliveira

Essa mulher abriu mão de tudo pra ficar com esse homem lá, ela não faria isso.

GIGabi Idealli

Não, não faria isso, exatamente.

ADAndreia D'Oliveira

Você entendeu? Ela não ia fazer birra porque o marido dela... Ela não ia fazer isso. Ela podia romper com ele.

GIGabi Idealli

Não ia ser, não.

ADAndreia D'Oliveira

Agora, por causa de um carimbo.

GIGabi Idealli

E a cena no livro é muito bonita. Vai ser draminha. Porque... E no livro... Por isso que eu falo que ele podia avacalhar, ele não avacalha. Ele é um homem decente. Porque, por exemplo, no livro ela vai até a mulher, porque aí tem essa cena que nós não sabemos se é uma trans, mas enfim. Aí ela recolhe o marido, do tipo, põe o marido lá na cama dela. E ela vai até a moça e ela, porque a moça, né, imagina, começa a chorar, né, do tipo: "Meu Deus, olha o que eu fiz aqui e tal." E ela é tão amorosa com a moça, é tão bonito.

Eu acho essa cena muito interessante, assim. Essa e a cena que elas voltam do primeiro abuso.

ADAndreia D'Oliveira

Sim, essa do primeiro abuso é...

GIGabi Idealli

Quando elas voltam, que ele só diz assim: "Quando todos voltaram..." Como é que era? "Quando os homens voltaram, todas as mulheres estavam tão limpas..." Como é que era? Ele diz alguma coisa assim: "Elas estavam tão limpas quanto nunca estiveram." Porque o que acontece, elas vão, são abusadas, uma delas morre e a mulher do médico volta, elas voltam todas para o lugar e eles precisam ir lá buscar comida. E ela vai atrás de água e ela lava todas elas, lava, dá banho, elas lavam o cabelo, se trocam.

E ela limpa essas mulheres e eu fico tipo: "Gente, que..." Assim, esse foi o momento que eu chorei, porque puta que pariu, entendeu? É de uma sensibilidade essa cena, assim, que eu acho difícil. Por isso que ele se dava bem com o Jorge Amado. Eles eram amigos, né?

ADAndreia D'Oliveira

É, não sei, mano.

GIGabi Idealli

Eram bem amigos. A Zélia Gattai falava muito do Saramago nos últimos livros que ela tem, aqueles livros biográficos dela.

ADAndreia D'Oliveira

Sim, sim, sim.

GIGabi Idealli

E eu não me lembro a ordem, mas quando começam a ficar mais recentes, quando vai chegando nas histórias mais recentes, eles são muito amigos, ele e o Saramago. Tanto que tem um livro deles dois, que são as trocas de cartas, que se chama "Com o Mar ao Meio", se não me engano, que é a troca de cartas entre o Saramago e o Jorge Amado. E o Jorge Amado, eu acho que ele é outro autor que, por exemplo, em Tereza Batista, Cansada de Guerra.

Eu acho que ele tem essa sensibilidade também, assim, esse... Essa coisa que você fala: "Gente, podia ser uma mulher escrevendo", sabe? É muito difícil você encontrar um homem que faça um negócio desse, gente. E aqui ele faz, eu acho que ele... O Saramago tem uma sensibilidade que ele insere umas cenas assim... Essa, por exemplo, dela limpando as mulheres. Ou a própria cena da traição mesmo. Eu acho que ele é bem justo com o que ele faz ali.

Eu acho difícil você encontrar um homem que tem essa percepção. Sinceramente, assim, se existe, eu gostaria de conhecer, porque de fato eu acho que ele tratou de uma maneira muito justa, foi muito real, assim. Eu me veria numa cena como essa, sabe assim? Então, e aí o que acontece? Essas mulheres Na verdade, não essas mulheres, mas a mulher do médico vai lá e mata, então, o líder. Causa ali um mega dum escarcéu entre aquele grupo de homens malvados.

Porque, imaginem, ela entra com uma tesoura, enfia a tesoura no homem. E aí ela diz pra todo mundo: "Para cada dia que a gente ficar sem comer..." Eu amo que ela diz: "Para cada dia que a gente ficar sem comer..." "Eu venho aqui, eu mato um." Porque tá todo mundo cego.

ADAndreia D'Oliveira

Isso.

GIGabi Idealli

Então ela diz: "Então vocês fiquem bem espertos, porque assim, parem." Né? E aí depois disso a coisa degringola mesmo, porque começam as... Revoltas. As revoltas, as... Realmente ali a... O momento em que tudo vem à tona. Eu acho outra cena que eu acho bonita é essa, porque ela salva uma moça. Quando ela mata o líder lá, ela tira uma moça que tava ali transando com ele, sendo abusada por ele, né? E ela não diz pra moça que ela enxerga, mas a moça diz pra ela: "Eu vou me lembrar." Ela diz alguma coisa assim, né?

"Eu vou me lembrar de você." Alguma coisa assim. E no instante seguinte, eles começam a se organizar pra tentar pegar comida. E a moça diz pra ela: "Eu vou onde você for." Porque ela escuta a voz dela falando e lembra. Ela pede pra moça não contar pra ninguém que era ela. Mas ela... Ela... Assim que a mulher do médico se manifesta nesse grupo que estão se organizando ali pra pegar comida, ela identifica pela voz e ela diz: "Eu faço o que você quer.

Eu vou com você onde você for." "Como quem diz, você tem uma seguidora aqui." Uma aliada. Uma mega aliada aqui. E é essa moça, é ela que coloca fogo, não é?

ADAndreia D'Oliveira

É.

GIGabi Idealli

Ela lembra que ela tem um isqueiro. Por quê? Fica todo mundo assim: "Gente, mas como que a gente vai lá pegar essa comida?" Do tipo: "A gente é cego, eles estão cegos, eles estão com uma arma, o que que a gente faz?" E aí ela, plim, né? Ela meio que tem uma ideia que ela pensa: "Não, eu vou..." pegar o meu, ela tem um isqueiro.

ADAndreia D'Oliveira

É um sex machine.

GIGabi Idealli

É, mas enfim, né, precisava acontecer alguma coisa, né. E ela pega esse isqueiro, vai até lá no meio desse caos, dessa revolta, e coloca fogo no colchão em um dos colchões que eles colocavam umas camas assim pra fechar a porta. E eles morrem queimados lá dentro. Ela morre, ela vira a própria chama, digamos assim. Ela queima junto. E esse é o momento que todo mundo sai da...

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso.

GIGabi Idealli

Do... Porque aí tudo, aí enfim, né? Começam a perceber que tá aquele vazio, que não tem mesmo comida, que não sei o quê. E no fim não tem mesmo guarda nenhum mais.

ADAndreia D'Oliveira

E é muito louco, né? Porque no final das contas, porque quando as pessoas começam a voltar à visão, é só adiantando um pouquinho, eles já estão meio assim, as coisas para eles já estão um pouco melhores assim, né?

GIGabi Idealli

Isso, sim.

ADAndreia D'Oliveira

E ela, ela é a testemunha ocular sabe tudo que aconteceu. Tipo, nenhum deles vai ver aquela miséria em que eles estavam. Tipo, ela viu tudo, ela estava lá, ela é a testemunha ocular de tudo isso. É muito louco, porque no final fica aquela coisa do tipo, será que aconteceu mesmo? Porque por mais que eles tenham passado, sim, eles não viram. A única pessoa que viu foi ela.

GIGabi Idealli

Sim.

ADAndreia D'Oliveira

Né?

GIGabi Idealli

Sim.

ADAndreia D'Oliveira

É muito louco, assim. De novo, é essa coisa da visão como muitas camadas, né?

GIGabi Idealli

Muitas. E ela começa a ficar mal, assim. Tem a cena do cachorro que lambe lágrimas, é linda também.

ADAndreia D'Oliveira

É linda, é linda, é linda.

GIGabi Idealli

Uma cena super bonita. Ela encontra um supermercado. Que tem uma área ali de armazém, estoque, exato, que pelas pessoas estarem cegas ninguém conseguia entender que aquilo poderia ser, exato. Então ela consegue ali como que um estoque infinito de comida, digamos, de algum modo também conveniente, mas interessante. E ela tem esse momento desse choro, dessa descarga assim.

ADAndreia D'Oliveira

Esgotamento, né?

GIGabi Idealli

Muito interessante. E eles chegam à casa deles, enfim, tem toda uma dinâmica ali de voltar pra casa, enfim. Aí você também, como leitor, vai descobrindo o que aconteceu com esse mundo enquanto eles estavam lá dentro.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso.

GIGabi Idealli

E eles acabam se refugiando, né, na casa ali do médico e da médica. Então eles ficam ali. Eles tomam banho na chuva, eles começam a comprar, a dividir a comida, e eles de fato viram uma família ali. E enfim, é nesse momento que o primeiro cego recupera a visão. Isso. E é nesse momento que você se toca que todo mundo vai recuperar a visão.

ADAndreia D'Oliveira

Isso.

GIGabi Idealli

E enfim. Essa é basicamente a história. É assim, avassalador. Eu acho muito avassalador porque é muito real. Eu sei que tem algo de distópico, eu entendo. Mas tem mesmo, porque...

ADAndreia D'Oliveira

Não, mas eu acho que toda distopia tem assim algo de real, assim. Entende? Acho que...

GIGabi Idealli

Não, acho que sim, mas eu acho que talvez, enfim, talvez tenha a ver com a nossa geração porque a gente passou pela COVID, né? É, eu acho que sim. Então acho que a gente acaba aproximando muito mais da temática, que basicamente foi o que aconteceu, gente. Assim, dadas as proporções, as questões e tudo mais, essa, esse esgoto que se abriu, ele se abriu também na COVID. Então estamos colhendo frutos dele até agora, tá?

ADAndreia D'Oliveira

Até hoje.

GIGabi Idealli

Então esse esgoto foi totalmente exposto. Não ficamos cegos, mas ficamos de algum modo.

ADAndreia D'Oliveira

De alguma forma.

GIGabi Idealli

Então acho que é uma história que tem um impacto, sim. Acho que todo mundo tinha que ler esse livro, porque ele é... Só que é isso, ele desgraça a sua cabeça, entendeu? Mas...

ADAndreia D'Oliveira

Leia se você estiver bem.

GIGabi Idealli

Isso, porque ele vai...

ADAndreia D'Oliveira

Não vai ler se você estiver mal. Pessoal, não! Porque ele vai ferrar a sua cabeça, assim. A gente, no meu caso, que já fui sabendo do que era, tava morrendo de medo. Falei: ah, não, isso é hora de ler esse livro?

GIGabi Idealli

Você já tinha visto o filme? Você leu o livro depois de assistir o filme?

ADAndreia D'Oliveira

Já tinha lido, é, já tinha lido.

GIGabi Idealli

Já, não, mas primeiro você viu o filme ou primeiro você leu o livro?

ADAndreia D'Oliveira

Primeiro eu li o livro.

GIGabi Idealli

Ah, tá. É, eu também.

ADAndreia D'Oliveira

Primeiro eu li o livro.

GIGabi Idealli

Eu também.

ADAndreia D'Oliveira

Depois assisti ao filme.

GIGabi Idealli

Eu também.

ADAndreia D'Oliveira

Mas eu assisti o livro, eu li o livro para assistir o filme.

GIGabi Idealli

Eu também, eu li o livro.

ADAndreia D'Oliveira

Foi uma condicionante, né?

GIGabi Idealli

Eu também, eu também. Eu li o livro e em seguida eu assisti o filme assim, do tipo...

ADAndreia D'Oliveira

Isso, você tava no cinema e...

GIGabi Idealli

E eu li muito rápido o livro assim, eu li muito, porque você não consegue, é um negócio assim de...

ADAndreia D'Oliveira

É.

GIGabi Idealli

De... ele é tão exasperante.

ADAndreia D'Oliveira

Ah, vamos falar um pouco da forma dele, né? Porque todo mundo fala que é muito difícil falar de Saramago e tal. Sim, sim. O Saramago, gente, tem uma fama mesmo de ser, do mesmo jeito que a gente fala da Clarice, do mesmo jeito que a gente, porque ele vai trabalhar com fluxo de consciência, vai trabalhar com aquela brincadeira que eu fiz do narrador Pogobol, né, da Mrs. Dalloway, né, que fica pulando, só que o Saramago faz isso de uma forma que não te cansa, ele não, ele Ele é uma leitura que você tem que prestar muita atenção, de fato.

Mas a hora que você engata, assim, acabou, entendeu? O mundo pode cair ao seu redor que você não tá nem aí. Você vai direto com ele, né? Pelo menos foi a experiência que eu tive as duas vezes que eu li. Não foi uma vez só, não.

GIGabi Idealli

É, mas assim, você também?

ADAndreia D'Oliveira

Então Então, assim, e por que é tão diferente? Bom, primeiro, ele se utiliza da forma, e aí a gente vai entrar naquela história que a gente sempre brinca de que obra de arte tem forma e conteúdo. E aí eu estou falando de um conteúdo de uma desgraceira só, que está todo mundo desorientado, todo mundo meio cego. Como é que eu vou passar essa impressão numa leitura que a pessoa faz com o olho ali, com o olhar, né? Hoje em dia a gente até tem o audiolivro, mas eu acho que para o Saramago não tem, para o Isaías Proseguira eu acho que não tem.

GIGabi Idealli

O quê?

ADAndreia D'Oliveira

Pelo menos não em português. Audiolivro?

GIGabi Idealli

Não, não tem.

ADAndreia D'Oliveira

Não tem, né? Mas a gente tem experiências de audiolivro, mas a leitura ela necessariamente passa pela visão, né? Nesse lugar aqui do comum, né? Pode ser que, ah não, ele tem o braile, tá, mas essencialmente ele vai passar pela visão. E como é que ele vai fazer isso? Como é que ele vai trazer para gente essa ideação de, ah, tá todo mundo ruim, tá todo mundo desorientado, ninguém tá enxergando nada e tal? Então ele vai utilizar A pontuação, a pontuação do Saramago, ela é fascinante, porque você entende tudo.

Sim, então ele, ele, todos os sinais que a gente está acostumado, esqueça, pode esquecer, esqueça, esqueça, aqui não tem. Então não tem. Lembra que a gente falou lá da Mrs. Dalloway, do Pedro Páramo? É naquela chave ali, é tudo junto e misturado. É tudo junto e misturado, entendeu? É daquele jeito ali. Então a gente vai ter fluxo de pensamento, e aí você precisa ter uma leitura de fato mais atenta, né? Mas de novo, é uma leitura atenta que é—

GIGabi Idealli

e ao mesmo tempo ela é orgânica. É isso que eu ia falar, ao mesmo tempo ela é orgânica. Você sente e talvez seja uma forma que orne com o estilo de escrita, porque como eu disse no começo do programa, eu acho que ele é super irônico, assim, ele tem um, não sei explicar, ele é irreverente na escrita e eu acho que essa ausência dessa pontuação favorece esse tipo de leitura.

ADAndreia D'Oliveira

Eu acho que assim, para quem não está acostumado a ler autores portugueses contemporâneos, vai sofrer um pouquinho, porque é diferente de você ler um Eça de Queiroz.

GIGabi Idealli

Ah, sim, com certeza.

ADAndreia D'Oliveira

Entende? Tipo, principalmente por conta, por exemplo, ó, só no primeiro parágrafo que a Gabi leu no começo, a gente, olha só, a gente tem, é, cadê, na passadeira de peões O que que é passadeira de peões? É a faixa de pedestres. Isso. Nada que a gente, pelo contexto, a gente não saiba, a gente não— mas tem umas coisas que você vai ficar olhando e falar: é o quê?

GIGabi Idealli

Tem várias coisas, várias.

ADAndreia D'Oliveira

Tem várias coisas. Também não se pegue assim: nossa, se eu sou obrigada, eu vou pegar a palavra— não faz isso, porque você vai largar, você vai jogar o livro para cima e vai voltar para o começo.

GIGabi Idealli

Eu vi o que você falou, acho que dá para entender sim. Dá pra entender, é por isso que talvez venha daí a minha sensação da irreverência. Porque o próprio jeito dele escrever te dá uma sensação de que ele tá tirando uma com você, assim, do tipo, a passeadeira de pé, você fica tipo, meu amigo, sabe? E aí você pensa, não, mas tudo bem, vem do português de Portugal e tal, mas eu acho que ele tem um quê de... De reverência.

ADAndreia D'Oliveira

Ali no começo ele fala que é V da zebra, que não se lembra, parece tanto com uma passadeira de peões. Surgiu o desenho de um homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando nas faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto. Não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Porque é faixa zebrada, né? Então é isso no final. Tipo, eu acho que ele tem essas sacadas assim, essa coisa meio irônica mesmo que você falou, meio dessas imagens, né?

GIGabi Idealli

Eu acho, acho que ele tem. E eu amo isso, acho bem, acho bem bom. Você sabe, bom, a essa altura as pessoas sabem já o quanto eu gosto da escrita mais moderna, então Acho que quem faz isso de uma maneira tão criativa e competente quanto ele, deixa, dá uma experiência realmente muito diferente. É o que a Andrea falou, de fato eu acho que é diferente, mas acho que depois que você engata, que você entende, você fala: "Ah tá, entendi, é disso que se trata." Depois que você faz esse, que você vira esse botão, você engata, você vai.

ADAndreia D'Oliveira

Eu acho. É isso, eu também acho.

GIGabi Idealli

Você também acha?

ADAndreia D'Oliveira

Eu também acho que é bem por aí.

GIGabi Idealli

É, eu acho.

ADAndreia D'Oliveira

Bom, aí a gente tem esse narrador que ele vai fazer reflexões, né? Ele vai ser esse narrador, como ele vai ser um ensaio, ele vai refletir sobre aquilo que tá acontecendo na história. E aí vai ser aquela coisa sobre, de fato, né, é quase uma fábula que ele monta aqui. O que que é, por quê? E no final, porque o Saramago, ele é conhecido por ser uma pessoa extremamente pessimista.

GIGabi Idealli

Ah, não me diga!

ADAndreia D'Oliveira

E eu acho, não percebi. Então, mas eu acho que ele é um pessimista até a página 2, porque no final do livro você não se sente, você vai sentir todo peso do que você lembra, mas você tem uma esperancinha ali no final, ali, eu acho. Ele te dá essa, que é ligado na humanidade das pessoas, naquilo que é mais humano. É, eu acho que tem isso também.

GIGabi Idealli

Eu acho que na verdade me lembra, ele me lembra um pouco aquela cena do Watchmen com o Dr. Manhattan, quando ele tá ali fazendo toda uma reflexão sobre o ser humano, quando ele tá em Marte. Que é um pouco isso assim, do tipo: sim, nós somos capazes de fazer todas essas atrocidades, assim como somos muito capazes de sermos absolutamente incríveis, totalmente inesperadamente amáveis, né? Então eu acho que ele meio que faz uma referência a todas essas facetas que o humano pode ser, que sim, engloba um ver nesse sentido do expor, ver o pior, o mais cruel, violento, atroz, e ver também esses momentos de pura contemplação da vida, da humanidade como comunidade, como empatia. É tão bonito, acho lindo assim, mas é difícil fazer.

ADAndreia D'Oliveira

E sabe o que? E aí, sabe o que que eu preciso dizer também? Que o Saramago é comunista.

GIGabi Idealli

Não, não só comunista, como ele passou por uma ditadura, gente. E o Portugal, que teve 40 e quantos, gente? Eu fui olhar esses dias, eu fiquei assim como 40.

ADAndreia D'Oliveira

Você não leu do Salazar, né?

GIGabi Idealli

Isso, 48 anos de ditadura. Você tá entendendo?

ADAndreia D'Oliveira

Só terminou quando Salazar morreu. E você sabe como é que ele morreu, né?

GIGabi Idealli

Como que ele morreu mesmo?

ADAndreia D'Oliveira

Então, eu tenho um livro que eu li na faculdade, que eu amo, que chama O Dinossauro Excelentíssimo, que ele cria uma— é como se fosse um livro infantil, mas para adultos. Que é dessa fábula do Salazar, que é esse Salazar que ele não sabe que ele não é mais, porque chega uma hora que o Salazar fica trilhininho.

GIGabi Idealli

Isso é verdade, sim, ele fica mesmo.

ADAndreia D'Oliveira

E aí ele não sabe que ele não é mais o ditador, que Portugal já foi liberta e tal, ele não sabe de nada disso, eles mantêm essa farsa para ele, que ele já tá trilhininho. Aí ele cai da cadeira e bate a cabeça, um negócio assim super estúpido.

GIGabi Idealli

Assim, sozão lá, ó. Ai, desculpa aí, não deveria ri porque tanta atrocidade.

ADAndreia D'Oliveira

Ah, eu acho que sim. Tem pessoas que a gente não tem que ter empatia mesmo, entendeu?

GIGabi Idealli

Não, também acho.

ADAndreia D'Oliveira

O Salazar eu acho que é uma pessoa que você pode ter simpatia.

GIGabi Idealli

Não é nem por ele, é mais por respeito pelas pessoas que morreram nessa situação. Porque assim, eu acho que foi tão violento, foi tão longo, 40 anos. Aquele filme.

ADAndreia D'Oliveira

É porque a gente fala muito das ditaduras, a gente fala muito das ditaduras do Sul da América. Isso, a gente não fala muito das ditaduras europeias, não fala, na verdade. Então não se fala do próprio Mussolini, Salazar em Portugal, o Mussolini na Itália, outro na Espanha, que é o Franco na Espanha. Então assim, o pessoal não fala muito, né? O bigodinho lá, desgraça.

GIGabi Idealli

Aquele filme, você lembra aquele filme do baseado em fatos reais. Eu amo baseado em fatos reais. Que o moço fica preso dentro de casa a ditadura inteira. Você lembra desse filme?

ADAndreia D'Oliveira

O moço fica preso na ditadura inteira?

GIGabi Idealli

É, eu não lembro agora, eu vou procurar. Deixa eu ver se é portuguesa ou espanhola, eu tô tentando lembrar. Se chama A Trincheira Infinita. Deixa eu ver se é isso aqui ou eu tô muito doida, mas acho que é esse aqui. "Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial e Ditadura Franquista marcam um período sombrio na história da Espanha." Quer ver? Porque ele fica... É baseado em fatos. É, eu acho que ele era tipo professor e ele fazia parte da resistência, ele recém-casado.

Ele e a mulher engravida dele e tal, eles recém-casados. E aí eles têm um pouco essa ideia, porque como eles estão reformando a casa, tem um cômodo que eles vão transformar em, não lembro se eles iam transformar num escritório, porque ele é professor e tal. E eles decidem que ele vai se esconder ali uns dias. Só que esses dias vão virando meses, que vão virando anos. Aí ela diz pra todo mundo que ele morreu. E aí vai virando essa história infinita, porque de fato a gente— e foi uma das primeiras vezes que eu de fato pensei nisso que a Andrea tá falando, porque nós conversamos muito sobre as ditaduras latino-americanas e a gente quase não toca no assunto das ditaduras europeias.

Foram ditaduras europeias e longuíssimas, horrorosas. No caso da ditadura portuguesa, Eles tinham uma perseguição, né, da polícia internacional, chamavam de PIDE, a Polícia Internacional de Defesa do Estado, uma coisa assim. E era uma censura muito acirrada. Então você imagina 40 anos disso. Este homem, Saramago, nasceu, se não me engano, uns 2, 4 anos antes do golpe. Ele nasce em 22, acho que o golpe é em 26, 28, e vai até a Revolução dos Cravos, é isso?

Até 70 e pouco, é, acaba com a Revolução dos Cravos, 72, 74, alguma coisa assim.

ADAndreia D'Oliveira

Então o Salazar, que esteja sentado no colo do capeta, ele morreu em 27 de julho de 70.

GIGabi Idealli

Não, mas ainda fica um tempinho depois que ele morre, se não me engano, fica ainda mais uns 2 anos. Aí vem a... não é? Deixa eu ver aqui. Mas eu acho que daí é Revolução dos Cravos. Vamos ver. 74 mesmo.

ADAndreia D'Oliveira

É, é.

GIGabi Idealli

Porque eles tentam... Já não é... é meio igual aqui quando vai chegando 88.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, isso. 86, né?

GIGabi Idealli

86, isso. Desculpa. É, ó, os Cravos é 25 de abril de 74.

ADAndreia D'Oliveira

E aí a gente falou, falou da obra, falamos do livro, falamos do filme e não falamos do homem, do mito.

GIGabi Idealli

Olha, Andreia, tá proibido.

ADAndreia D'Oliveira

Que é o Saramago, né? Que é o Saramago. Não tem outro contexto.

GIGabi Idealli

É, aqui não tem esse perigo não.

ADAndreia D'Oliveira

Então assim, só para dar uma visão geral de quem foi esse cara, né, assim, ele nasceu em 22, né, ele nasceu na aldeia de Asinhaga, E ele era filho de agricultores, né, de José de Souza e Maria da Piedade. O nome Saramago é o nome de uma planta que foi adicionado por erro, porque a família dele era produtora ou trabalhava com essa coisa, né?

GIGabi Idealli

Eram agricultores.

ADAndreia D'Oliveira

E aí colocaram, eram agricultores, e colocaram essa, essa, colocaram, ah, falaram, é de Saramago. Aí pegou e colocou lá para o nome dele, a hora que ele foi. Então, na verdade, o apelido virou nome, Saramago, né? E eu acho que assim, um belo, um belo apelido. Exatamente. E aí, em 24, eles se mudam para Lisboa, né? Na década de 30, ele vai frequentar ali a escola, mas ele tem que abandonar os Adultos, porque o Saramago, ele tem muita dificuldade financeira na vida, nesse começo de vida aqui, tanto que ele vai fazer escola técnica, ele não faz faculdade. Isso, ele faz faculdade, ele faz escola técnica e vai ser serralheiro mecânico.

GIGabi Idealli

Ele é um autor tardio, uma pessoa começa a escrever mais velha mesmo assim. Isso, mais maduro já.

ADAndreia D'Oliveira

Bom, aí é quando ele começa a escrever de fato, né? Bom, primeiro ele se casa, primeira mulher, tem uma filha só com a primeira mulher, né? E é que a Violante, em 47 ele tem a filha, mas ele se casa em 44.

GIGabi Idealli

Gente, o quanto eu amo o nome Violante, não tá escrito, eu amo o nome Violante.

ADAndreia D'Oliveira

Não é muito louco? Violante, Violeta é Violante.

GIGabi Idealli

Eu gosto muito desse nome, não sei nem por quê, mas eu gosto tanto desse nome, eu acho lindo Violante.

ADAndreia D'Oliveira

Aí em 47, no mesmo ano que ele tem a filha, ele publica o primeiro romance, que é Terra do Pecado, intitulado originalmente como A Viúva. No mesmo ano ele trabalha como empregado de escritório. E aí em 53 ele E escreve o romance Clarabóia. Aí, a partir daqui, ele já começa a escrever, na escrita, né? Que acaba sendo rejeitado por uma editora e fica inédito até 2011. Então é um romance que acaba ficando na gaveta, é um romance de gaveta.

GIGabi Idealli

É tanto que quando lançam aqui no Brasil tem toda uma questão, questão, porque em teoria ele não queria de lançar também, porque depois ele faz muito sucesso e tudo mais, e mesmo assim ele não opta por não publicar. Eu lembro disso porque na época caiu em mim o livro, que eu não tô nem lembrando como porque eu não li, mas enfim. E eu fui ler a introdução, qualquer coisa assim, era a edição da Companhia das Letras.

ADAndreia D'Oliveira

Sim, sim.

GIGabi Idealli

E aí tinha esse texto falando que era romance muito precoce dele, jovem, e que tem essas polêmicas assim do tipo—

ADAndreia D'Oliveira

não tem uma coisa que eu acho que a gente tem que falar das edições da Companhia, né? Todas elas, os nomes nas capas são nomes, os nomes dos livros são escritos de forma manuscrita. Não sei se todo mundo, essas novas versões, porque tem uma versão antiga Isso, isso. E que agora você sabe cada um dos textos ali, a letra é de uma celebridade. Então tem Fernanda Montenegro, tem Caetano Veloso, tem— então eles pediram para escrever.

E aí cada um, tanto que se vocês olharem, cada uma das letras do livro, cada um é uma diferente da outra.

GIGabi Idealli

É isso, já reparei.

ADAndreia D'Oliveira

Das capas? É uma curiosidade aí, o da Companhia, lembrei.

GIGabi Idealli

Gostei.

ADAndreia D'Oliveira

Em 1955, ele inicia o trabalho como tradutor, aí ele vai traduzir.

GIGabi Idealli

Tá, é isso que ele traduz, ele traduz Hegel, Tolstói e Baudelaire, tá?

ADAndreia D'Oliveira

Olha, o Baudelaire eu acho que é o mais fraquinho.

GIGabi Idealli

Pois é, e olha Entendeu?

ADAndreia D'Oliveira

E olha que, né, agora o Hegel, cara.

GIGabi Idealli

Hegel, quem traduz Hegel? Me explica, conta para mim, quem lê Hegel? Vamos começar assim, vamos começar por ler, Raquel. Imagina traduzir.

ADAndreia D'Oliveira

Bom, em 66 ele publica Poemas Possíveis, marcando retorno à atividade literária após um hiato de 19 anos, e ele troca a prosa pela poesia, né. Em 69, ele adere ao Partido Comunista Português, o PCP, mantendo-se militante pelo resto da vida. Bom, em 70, ele se separa da primeira esposa, e aí ele tem uma união com uma outra escritora, Isabel da Nóbrega, que duraria até 86. Em 71, ele publica "Deste Mundo e de Outro Mundo", o primeiro livro de crônicas.

Então sim, ele foi por todos os lados, né? Atirou para tudo quanto é lado: romance, poesia, crônica. Em 71— não, em 75, ele ingressa no Jornal Diário de Notícias como diretor adjunto. Em 75, ele é demitido do Diário de Notícias após uma intervenção militar que reagiu aos excessos do 25 de abril. É, e aí ele vai se dedicar exclusivamente à literatura. É aqui que ele começa. Então, em 77, ele retorna aos romances. Então ele vai—

GIGabi Idealli

imagina, a gente já tá falando de um homem aqui de uns 50 anos. É, e sim, ele tinha escrito. Exato, ele já tinha escrito.

ADAndreia D'Oliveira

Não é como se ele também nunca tivesse escrito, mas não tinha se dedicado a isso. Não foi Não foi o Philip K. Dick que largou tudo falando: "Não, vou viver da minha arte." Não foi ele, né? Uhum.

GIGabi Idealli

Nem dava.

ADAndreia D'Oliveira

Nem dava. Aí, em 78, ele publica Contos: Objeto Quase. Em 79, ele estreia, olha lá, teatro agora, com a peça A Noite. E aí, assim, os anos 80 e 90 são os anos de consagração mesmo. Saramago, que eu acho que são as obras mais relevantes dele, né? Então, em 82 ele publica Memorial do Convento, em 85 O Ano da Morte de Ricardo Reis, em 91 O Evangelho Segundo Jesus Cristo, né? Nesse meio tempo ali, em 86, ele conhece a jornalista espanhola Pilar, que é com quem ele vai viver o resto da vida, né? Sim.

GIGabi Idealli

É super bonito, eu amo as frases dele pra ela.

ADAndreia D'Oliveira

As histórias, né?

GIGabi Idealli

Acho super bonitas. Eu sei que agora a gente já tá entrando num momento em que ficou clichê as frases dele pra Pilar, mas enfim, eu acho super bonito.

ADAndreia D'Oliveira

Acontece uma coisa que quando ele publica o Evangelho Segundo Jesus Cristo, porque é uma obra que a Igreja Católica, temos que lembrar que Portugal é um país católico e E a obra, ela é vetada pelo governo português. E ele pega e vai embora de Portugal. Ele vai morar nas Ilhas Canárias. Quem me viu mentiu.

GIGabi Idealli

Quem me viu mentiu.

ADAndreia D'Oliveira

É isso que vocês querem mesmo? Então pronto, entendeu? Ele vai para o exílio de fato. Então em 92 ele vai para esse exílio. Em 95 ele recebe o Prêmio Camões. Que é o mesmo prêmio que o Chico recebeu, né, uns anos atrás. E aí ele publica em 95 também o ensaio sobre a cegueira. E no dia 8 de outubro de 1998 ele vence o Prêmio Nobel de Literatura. É, e que eu acho, e ele vai receber em 99, que é o único em língua portuguesa, né? Se não me engano, é o único em língua portuguesa.

E ali para os últimos anos, ele falece, né, em 2010, em 2011, em 2011, não, em 2010. Não é isso? Cadê?

GIGabi Idealli

2010.

ADAndreia D'Oliveira

Isso, tô ficando doida já.

GIGabi Idealli

Tá tudo bem, tá tudo bem.

ADAndreia D'Oliveira

Então, porque em 2008 tem o lançamento da adaptação Pelo Fernando Meirelles, do ensaio sobre a cegueira. E é muito bonitinho, porque nunca viu o vídeo dele assistindo ao lado do Fernando Meirelles o filme? Você chegou a ver esse vídeo?

GIGabi Idealli

Não.

ADAndreia D'Oliveira

Então, e aí o Fernando, quando termina o filme, fica todo mundo meio assim e tal, e ele tá chorando. E aí ele fala assim: Fernando. Aí o Fernando Meirelles falou assim: 'Não precisa falar nada, do tipo, fica em paz, não precisa falar nada, não precisa falar gostou, que não gostou, que é uma bosta, não precisa falar nada.' E aí ele vira para o Fernando Meirelles e fala assim: 'Eu estou sentindo a mesma coisa que eu senti quando eu terminei de ler, de escrever o romance.' E aí é porque é muito forte.

E aí ele falou assim: 'Você não sabe o quanto—' O Fernando Meirelles falou: 'Você não sabe o quanto eu Fico feliz com essa sua, com essa sua fala, né, com essa sua impressão. Em 2010, aos 87 anos já, ele falece na sua casa vítima de leucemia. Ele tinha uma leucemia. E bom, o que que a gente pode falar um pouco do filme, talvez, né? Como a gente falou É, os, acho que a gente falou de todos, de todos os personagens, e acho que falamos dos atores, né?

Então a mulher do médico é a Julianne Moore, o médico é o Mark Ruffalo, a garota dos óculos escuros é a Alice Braga, que tá bem, tá bem. Eu gosto dela, eu acho que ela é boa também. O primeiro cego aí, o Suki, e Seiya O velho da venda preta é o Danny Glover e o cego, o malvadão lá, é o Gael Garcia Bernal, como a gente tinha dito, né? E bom, ele, esse filme normalmente ele é, ele é classificado como gênero ficção científica. Eu acho que ele cai na ficção científica porque ele é uma distopia, no final das contas é isso.

E aí, o que o Fernando Meirelles faz aqui para simular essa cegueira branca que o Saramago fala? Ele estoura a... Vamos lá, a pessoa que não lida com fotografia, Gabi lida muito melhor que eu, inclusive, sabe bem mais do que eu. Mas é essa coisa de você expor demais a luz, né? Isso. Deixar ali o obturador muito— Muito aberto. Com muita exposição, muito aberto. Então ele faz isso e a gente tem essa sensação o tempo inteiro de uma luz branca estourada muitas vezes, né?

E o que ele diz é que ele usou muita— muitas lentes antigas com filtros esbranquiçados para ter aquela, como eu disse, a superexposição, que é manter esse obturador o maior tempo possível aberto e tal. E no caso do filme, ele teve, em Cannes, ele foi exibido no Festival de Cannes de 2008, E ele teve um, teve umas polêmicas por conta do filme, por conta dessas cenas que a gente falou, que elas são muito gráficas de fato, as cenas de violência sexual.

E elas, elas se esgarçam, né? Elas, sim, ele vai esticando, esticando, como é no livro. É que quando a gente vê é muito mais incômodo de de fato, né? Então não que seja fácil ler, mas eu acho que no filme, no cinema, o impacto é muito maior, né? Então teve essa coisa aí. E é isso, eu acho, hein? É uma pergunta que não quer calar, Gabi. Eu ainda tenho voz. Essa é uma. Você tem voz ainda, André? Acho Acho que tem. Check! A segunda é...

GIGabi Idealli

Temos, Gabi? Temos, Andréia, temos! Nossa, gente, olha só!

ADAndreia D'Oliveira

Olha só! Trouxemos para você um... Fizemos uma inversão maluca, fomos num fluxo aqui de consciência maluco. Esse daqui mudamos completamente a ordem que a gente está acostumado. Pois é, hoje a gente deixou acontecer naturalmente. Exatamente. Exatamente, exatamente. E aí, para quem quiser falar a respeito desse filme, quem quiser falar mais sobre Saramago com a gente, para onde que eles podem mandar mensagem para nós, Gabi?

GIGabi Idealli

Manda uma cartinha para nós por email, para o livrosemcartaz@portalrefil.com.br, que a gente ama uma cartinha. Ou entra na nossa rede social, se você for para frentex, e segue a gente no Instagram, no @livrosemcartaz_ Aproveita para seguir a gente, para comentar nossos posts, para fazer um story, para mandar para o amigo, para mandar uma DM, que a gente também ama.

ADAndreia D'Oliveira

É isso, sempre, sempre agradecendo, mesmo com essa voz.

GIGabi Idealli

Tá ótima a voz, tá ótima.

ADAndreia D'Oliveira

Aí esse, aí esse o quê? Esse cachorrinho aqui que os meninos do Portal Refil nos deram aqui, e sem nos encher o saco. Puxadinho, né? É importante que eles deixam a gente fazer o que a gente quiser aqui no nosso puxadinho. Pois é. Para além deles, gente, paga um café para nós, né? Quem quiser ser nosso patrão, dá um espetáculo lá de vez em quando, uns cascais para nós, vai estar aqui no post, tá? É, agradecendo co-host hoje, que eu tô com— hoje teve uma, uma host meia, uma host meia só, porque eu tô aqui só metade.

GIGabi Idealli

Pode ser uma, que nós duas juntas fazemos uma.

ADAndreia D'Oliveira

0,75. 0,75, pode ser, pode ser. É sempre agradecendo, Gabi. Gabi, muito obrigada.

GIGabi Idealli

Eu que agradeço, Andréia.

ADAndreia D'Oliveira

Eu amo Saramago, acho que as pessoas têm que ler mais Saramago e ler mais autores portugueses contemporâneos. Sim, então Gustavo M. Tavares, mas vou fazer uma listinha, vou deixar aqui no post. Acho que é importante para o pessoal ir atrás. Esse do Dinossauro Excelentíssimo é um livro excelente para dar risada. Eu vou trazer exatamente o nome da autora, acho que vocês vão gostar também. E é isso, um beijo, fiquem bem, fiquem bem, cuidem-se.

E até o próximo programa. Bom, lembra que a gente falou que a gente tava fazendo parzinho de Vaso, né? Então pensa aí no outro português que a gente vai trazer aqui. Que outro português, hein? Quem será que vem? Quem? Quem? Quem será? Quem será? Um beijo, gente. Tchau, tchau, tchau, tchau!