Metanol – O Risco Oculto da Cegueira
O novo episódio do Dr. Retina Podcast traz um alerta de saúde pública: a intoxicação por metanol, uma ameaça silenciosa que vem crescendo no país — com o estado de São Paulo no epicentro das notificações.Recebemos o Prof. Dr. Rodrigo Jorge, chefe do Departamento de Oftalmologia do HC-FMRP/USP, e a Dra. Renata Moreto, chefe da Neuroftalmologia do HC-FMRP/USP, para discutir os impactos dessa substância altamente tóxica, capaz de causar cegueira irreversível e até morte.O metanol é frequentemente encontrado em bebidas alcoólicas falsificadas ou adulteradas — e o reconhecimento precoce é essencial para salvar vidas.🗣️ “Se você souber que alguém bebeu algo suspeito, não espere pelos sintomas gastrointestinais. Procure o hospital imediatamente. O tempo é o que determina se o nervo óptico será salvo.”🗣️ “Deixo o apelo: a maneira mais fácil de evitar a cegueira e a morte é a prevenção. Não consuma bebidas sem rótulo, sem lacre ou de origem duvidosa. Exija sempre a nota fiscal e denuncie à Vigilância Sanitária ou Polícia Civil.”👁️ Para quem é este conteúdo👩⚕️ Médicos e residentes que buscam atualização baseada em evidências.📚 Estudantes de Medicina interessados em farmacologia ocular e neuroftalmologia.👨👩👧 Pacientes e familiares que desejam compreender e prevenir a intoxicação por metanol e seus efeitos sobre a visão.🚨 ImportanteO Dr. Retina Podcast tem caráter educacional e informativo.⚠️ Não substitui a consulta médica. Procure sempre seu oftalmologista antes de iniciar qualquer tratamento.🎙️ Apresentação👨⚕️ Dr. Rodrigo Jorge – referência internacional em Retina | @drrodrigojorge👩⚕️ Dra. Renata Moreto – chefe da Neuroftalmologia do HC-FMRP/USP | @renata.moreto.caravelas📰 Rose Talomone – jornalista e narradora | @rosemeiretalamone📚 Evelyn Bandeca – produção e conteúdo | @evelyn.bandeca🎧 Produção técnica: @danielestudiohc🔔 Inscreva-se no canal, ative as notificações e compartilhe este episódio para que mais pessoas tenham acesso a informações seguras sobre saúde ocular.
- Uso de Álcool e Drogas· SaudeMetanol·Bebidas alcoólicas falsificadas·Cegueira irreversível·Morte
- Serviços de EmergênciaAntídoto (etanol)·Hemodiálise·Unidade de atendimento rápido
- Mecanismo de ação do monóxido de carbonoMetabolização·Metabólitos tóxicos·Mitocôndria·Respiração celular·Nervo óptico
- Sinais Precoces e DiagnósticoEmbaçamento visual progressivo·Escotoma central·Perda do campo visual·Dor de estômago
- Intoxicação e envenenamento· SaudeBebidas sem rótulo·Origem duvidosa·Nota fiscal·Orientações Vigilância Sanitária Procon
Olá, bem-vindos a mais um episódio do Doutor Retina, o podcast que leva informação e ciência até você, com um olhar atento à saúde dos olhos até a saúde pública. O tema de hoje é um alerta importante: a intoxicação por metanol, uma ameaça silenciosa que vem preocupando autoridades de todo o país e que coloca o Estado de São Paulo no centro das notificações. Para explicar como essa substância age, quais os riscos à visão e à vida, e o que fazer diante de casos suspeitos, recebemos dois especialistas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto.
O professor Dr. Rodrigo Jorge, chefe do Serviço de Oftalmologia, e a Dra. Renata Moreto, chefe da Neurooftalmologia. Professor Rodrigo, e aí, temos uma urgência?
Sem dúvida. Eu acho que ficou provado, como todos puderam ver nos últimos dias na mídia, que trata-se de uma situação muito grave. Houve um descontrole na regulação da qualidade, principalmente das bebidas, a nível do território nacional e estamos vendo casos graves de intoxicação pelo metanol.
Doutora Renata, especificamente, o metanol causa cegueira? É um dano direto?
Sim, Rose, o metanol ele é um álcool, a molécula muito leve, que ele não tem uma molécula de enzima própria no nosso organismo para metabolizar ele. E ele acaba competindo com a molécula utilizada para o etanol. O problema é o produto depois da metabolização do próprio metanol. Ele faz uma partícula tão tóxica que se assemelha ao formol, que é utilizada para embalsamar defunto. Não tem como essa molécula ficar circulante no organismo sem ser danosa.
O dano é muito grave porque, a partir dos metabólitos produzidos, pelo metanol, essas moléculas elas entram na caixinha de força da célula, que é o motor de energia da célula chamada mitocôndria, e ela interrompe abruptamente a respiração celular. Acabou o fornecimento de energia para célula, porque ele entra e ele para. Ele não deixa uma molécula dentro da matriz da mitocôndria chamada citocromo, não deixa ela continuar carregando uma molécula chamada elétron.
Né? E aí você não tem a formação de ATP, de energia. Então acabou aí a formação de energia. Então essa é a gênese inicial. E por que que afeta tantos órgãos, entre eles a visão? Todos os órgãos que têm alta taxa de metabolismo serão afetados num caso de intoxicação por metanol. Entre o coração, entre o pulmão, mas muito mais o sistema nervoso central. No sistema nervoso central, o nervo óptico O nervo óptico, ele é abarrotado de mitocôndria.
É a mitocôndria que fornece energia, porque é alta taxa de metabolismo e consumo de energia o fato do estímulo estimular a retina e essa informação sair pelas fibras dos axônios das células ganglionares. São nesses axônios das células ganglionares, o último neurônio da retina, é que a própria molécula tóxica do metanol vai agir. Então frita o nervo óptico de uma hora para outra. A intoxicação acontece de 4 a 1 dia após a ingestão, 4 horas em diante após a ingestão a gente já começa a ter os primeiros sinais, embaçamento visual progressivo, né?
Então assim, ele acaba matando todas as fibras de axônios da célula ganglionar, que é o que vai formar o nervo óptico. O nervo óptico ele sai, depois o professor pode até evidenciar ali, ele sai do fundo do olho, o nervo óptico ele sai do fundo do olho e ele vai fazer um fio de condução pelo sistema nervoso central. O computador da visão fica aqui na região posterior da cabeça. Então se eu desencapo esse fio, se eu queimo esse fio, não tem como conduzir.
Então o olho pode estar integralmente perfeito, mas com a ingestão do metanol acabou de intoxicar e matar todas as células ganglionares da retina. É uma visão, baixa de visão drástica, é uma baixa de visão dramática, não tem o que a gente fazer.
Doutora Renata, e quais são os sintomas visuais que o paciente mais relata? E qual a diferença de um sintoma leve para uma emergência?
É uma baixa de visão progressiva. Ela inicia com, em geral, um escotoma central, mas ela vai, é um embaçamento progressivo, não tem melhora, não tem episódios de melhorou, piorou, não tem flutuação, é progressivamente vai deteriorando essas fibras retinianas e baixando a visão. O paciente vai vendo de visão embaçada a perda do campo total da visão, até que fica sem percepção luminosa, um escurecimento, né?
Ele começa como embaçamento, né? O escotoma é uma mancha escura, né? Então a mancha escura, e ela começa no centro e ela vai aumentando. Como a Renata disse, não tem flutuação. Então se você começar a ter uma baixa de visão, né, uma mancha escura, e ela só aumentar, é um sinal importante de alerta.
Alguma coisa tá errada, alguma coisa tá errada.
Anteriormente nós recebíamos casos com intoxicação por metanol com uso intencional. Infelizmente eram pacientes moradores de rua, drogadictos, que no momento acabavam ingerindo mesmo muitas vezes o combustível etanol do posto, e isso acabava chegando pela emergência. Era pontual, era um caso aqui, outro ali, e já era dramático, né? Porque além da intoxicação para fibra do nervo óptico, outro núcleo que é muito, tem muito alto gasto de energia, chama putamen, no encéfalo.
Ele acaba tendo um AVC bilateral. Então são pacientes jovens, na maioria, pode ver a faixa etária desses pacientes, né? Eles são pacientes jovens que após a ingestão, após a ingestão, eles apresentavam baixa de visão e ainda sintomas neurológicos de AVC com comprometimento bilateral.
E tem reversão?
Não tem reversão, a não ser que seja tomada uma medida emergencial. Por isso que nós estamos aqui hoje, né, para tentar orientar para que essa busca seja muito rápida. Quanto mais tempo se passa, menos neurônio sobrevive, né? Então aí o antídoto é a única medida emergencial que nós temos nesses casos. A partir de um dia para frente já não se tem mais o que fazer, né? A evolução já é muito dramática.
Doutor Rodrigo, e o que que o Hospital das Clínicas aqui de Ribeirão Preto faz na prática? Quais os recursos para reverter esse quadro, quando é possível, né, revertê-lo?
Bom, eu acho que é uma informação importante deixar bem claro que o tratamento ele deve ser feito dentro de uma unidade de atendimento rápido. Então o paciente, se ele tiver algum desses sintomas que a Renata falou e tiver histórico de ter ingerido bebida alcoólica, ele deve procurar uma unidade básica de saúde, ele deve procurar um serviço, um pronto-socorro E não deve procurar inicialmente por um oftalmologista, porque o tratamento ele é realizado pelo médico emergencialista, ele que vai aplicar o antídoto, né?
A gente tem o etanol que pode ser feito endovenoso, salvo engano está sendo importado o antídoto japonês, fumipesol, que também pode ser utilizado. E o Ministério da Saúde, ele já fez inclusive um guia para o médico que tá no pronto-socorro de qual a sequência de atendimento desse paciente. E assim, de acordo com a gravidade dos sintomas, esse paciente pode até precisar de hemodiálise. A metabolização pelo fígado gera aqueles metabólitos mais tóxicos que a Renata comentou, e a eliminação rápida, né, pode ser feita pelos rins.
Então a gente tem que colocar o etanol para ele competir com— é colocar o etanol para ele competir com metanol. Né? E com isso a gente diminui a formação de compostos tóxicos da metabolização do metanol pelo fígado, né? Então etanol substitui o metanol, né? E aí dá tempo do rim excretar o metanol, né? Então tem que acionar o rim para ele tirar rapidamente a droga, né, e ao mesmo tempo colocar um composto similar que vai ocupar o lugar dele e não vai ser tóxico. Essas são as duas estratégias que o pessoal tem que entender.
Muitas vezes até levar para hemodiálise, né, para tirar rápido.
Isso, quando você leva para hemodiálise, você acelera, vamos dizer assim, a filtração pelo rim, né. E então são essas duas ferramentas básicas que são usadas, mas mais uma vez, isso é feito no pronto-socorro, na unidade básica de saúde. Isso não é feito no consultório oftalmológico. Então às vezes, porque o sintoma é de baixa de visão, a pessoa tende a procurar a oftalmologia. E em alguns lugares, né, como unidade de emergência, a gente tem, já encaminha diretamente É para o pessoal que trata, né, dessas emergências, né.
Depois a Renata pode comentar sobre o que pode ser feito, mas em termos de oftalmologia, infelizmente não tem nada, nenhuma evidência de que nenhuma terapêutica, nem local nem sistêmica, consiga reverter.
Era justamente isso que eu ia te perguntar, qual que é a orientação do ponto de vista da oftalmologia para o profissional emergência, da emergência que vai atender esse paciente?
É como o professor colocou muito bem, a primeira ideia é salvar a vida, né? E a seguir, o oftalmologista, primeira avaliação é sempre cabível porque vai constatar ali um grau de atrofia do nervo óptico, né? Mas infelizmente os trabalhos não têm um número de pacientes tão grande porque isso até então é uma fatalidade, né, não tem muitos casos. Já foi tentado pulsoterapia, que é o quê? Dá uma bomba de corticoide para tentar resetar o sistema imunológico e melhorar de forma mais aguda aquela inflamação local.
E uma segunda estratégia foi passar um componente do sangue, eritropoietina, na tentativa também de diminuir aquela inflamação local. Nenhuma dessas duas estratégias mostrou uma evidência científica, ou seja, não teve uma melhora significativa. São medidas emergenciais que a gente faz, fala que é heroico, né? Não tem o que fazer pelo paciente, vou tentar passar corticoide. Mas a medicina mostra que tanto faz você acabar passando um tratamento ou não, o desfecho vai sim ser muito ruim, o prognóstico visual.
O paciente vai ficar com uma baixa de visão, vendo vultos, vai perceber luz no ambiente, mas dificilmente ele vai restabelecer a visão. Dos casos que nós já atendemos aqui no Hospital das Clínicas, não nessa fatalidade agora, mas em eventos prévios, nós não tivemos um potencial de melhora da visão em nenhum dos pacientes.
Uma dúvida que ficou, e talvez aí quem tá nos ouvindo também possa ter: pelo que vocês falaram, um dos primeiros sintomas de quem foi intoxicado por metanol é a visão?
É a visão. É porque onde tem a maior concentração de mitocôndria é na fibra do nervo óptico. Então ali que começa a acontecer o estresse oxidativo, que é o nome que a gente dá para isso, a parada de fornecimento de energia para célula que conduz o estímulo visual. Então por isso o primeiro foco pode ser sim embaçamento visual, que foi o relatado, né, pelos pacientes que estão internados agora nessa demanda que tá se apresentando.
A maioria deles se apresentou primeiro com visão turva e depois uma dor no estômago, né? E a seguir sim os outros sintomas, mas embaçamento visual foi o primeiro sintoma.
Apenas uma divagação, né, fugindo um pouco do tema, mas para fazer uma correlação, o nervo óptico é uma região extremamente sensível a tanto variações de nutrição como alimento, né? Então Depois a gente pode até fazer um outro episódio sobre isso, mas tá na moda o Ozempic. E as pessoas que têm, por exemplo, são diabéticos, tem uma glicemia muito alta, quando elas começam a usar Ozempic tem uma queda abrupta da glicemia, elas podem ter um problema no nervo óptico, é neuropatia óptica isquêmica.
Não é tão grave como a intoxicação pelo metanol. E aí eu já aproveito a Renata para vir aqui numa segunda ocasião para a gente falar sobre esse assunto. E por último, atentar, porque além da baixa de glicemia, a gente também tem um problema da baixa pressão. Essas pessoas que têm baixa de pressão arterial, né, elas também têm um problema baixo de pressão arterial durante o sono, principalmente à noite, também tem que ficar atento.
Então O nervo óptico é uma região muito sensível e por isso ele é um dos primeiros a sofrer quando falta energia.
Muito bom. Então fica ali a dica, né? Bebeu alguma coisa, não tem, não sabe o que que tá acontecendo, procure emergência.
Esse é o momento que a indicação, seguindo o que o Ministério da Saúde vem passando, Não é o momento de se beber destilados, né? Porque se falar, eu não sei a origem, nós também não sabemos se até o que nós compramos em casa pode estar adulterado, né? Então esse é o momento de parcimônia, né? Bebe seu chope, sua cerveja, que por enquanto não foi encontrado nada, né? Até porque no processo de fermentação, o chope e a cerveja, eles têm que ter pouco metanol mesmo na confecção, né?
E por enquanto esses estão livres ainda, mas se bebeu e teve sintoma, não perca tempo. É unidade de saúde mesmo, pronto atendimento mais perto da sua casa, porque tempo é fibra de sistema nervoso, neurônio a menos, né? Quanto mais tempo você passar, mais dano você vai ter pela intoxicação.
Então por hoje é só. Eu agradeço aqui a participação da Doutora Renata Moreto. E, Doutor Rodrigo, mais uma vez, nós aqui, muito obrigada. E o tempo, pelo que eu vi aí, é o fator mais importante. Quanto mais cedo o tratamento for iniciado, maior a chance de salvar a visão e a própria vida, né? Então é isso aí, gente. Terminamos aqui mais um episódio do Doutor Retina, que traz a informação de qualidade baseada em evidências. Mas o Dr.
Retina não substitui uma consulta médica, tá ok? Fica aí o alerta e até a próxima.
Muito obrigada pelo convite, estou à disposição.
Obrigado, Rose, parabéns. Obrigado.