Episódios de Pé na Porta com Alice Urbim

Alice Urbim com Clara Pechansky | Pé na Porta #28

04 de maio de 20261h9min
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Na vigésima oitava entrevista da temporada entrevisto Clara Pechansky. E o pé na porta segue no canal, se me permitem o trocadilho. A cada semana recebo um convidado para tratar de diversos temas em torno do não ao etarismo.Siga no instagram @aliceurbimaliceurbim.com

Assuntos4
  • Trajetória artística de FaíscaPrimeiros contatos com a arte e a leitura · Estudo na Escola de Belas Artes de Pelotas · Influência de Aldo Locatelli · Primeira exposição na Livraria Leonardo da Vinci · Trabalho como ilustradora e designer de capas · Parceria com a Editora Globo · Amizade com Alice Soares · Séries de obras: Anjos, Generais, Dama, Mágico, Quixote · Inspiração no Casal Arnolfini
  • Identidade e cultura judaicaHistória da família de Clara Pechansky · Emigração da Rússia para o Brasil · Primeira Guerra Mundial e suas consequências · Vida em Pelotas · Costumes e tradições judaicas
  • Relacionamentos FamiliaresEncontro com Isaac Pechansky · Casamento e vida a dois · Filhos e netos · Perda do marido Isaac Pechansky · Luto e superação
  • Cultura e Sociedade nos Anos 50Influência do cinema americano · Importância do rádio como meio de informação · Cultura em Pelotas: Atenas Rio Grandense · Música e canto na família Pechansky · Romantismo e
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Hoje a gente está aqui com vocês com mais um Pé na Porta!

E hoje eu tô aqui com a Clara Pechansky. A Clara nasceu clarita, ita, em Pelotas, em 1936. Já estão perguntando. Ela já fez 90 anos? Ainda não. Ainda não. Eu sou de dezembro. É, de dezembro. Então é 89 e alguns meses. Pé na porta!

A família da Clara veio da Rússia, que hoje é a Ucrânia. Isso. Aos seis anos, ela descobriu que se chamava Clara, pela lista de chamada, quando ela entrou no grupo escolar. É verdade. É verdade. Ela é desenhista, gravadora, pintora, radicada em Porto Alegre desde 1957.

A Clara veio com 20 anos pra cá, recém-casada, com o psicanalista Rio Grandino. Rio Grandino quer dizer que veio de Rio Grande, da cidade. Isaac Pechansky. E ela veio, junto com Isaac, viver na capital. Eu queria saber um pouco dessa infância.

Dessa guria que vivia numa cidade do interior, garanto que tinha porta aberta, tinha bicho, tinha pai, tinha mãe, tinha avô, tinha primo. Porque quando os imigrantes vinham para o Brasil, eles não vinham sozinhos e às vezes eles vinham aos poucos. Não vinham no mesmo navio.

Exatamente, foi o que aconteceu na minha família. Então, eu imagino as histórias, as fotografias, esse ambiente. Me conta um pouco, assim, como eu queria ter vivido nessa época? Era uma época bonita. Pelotas, como se dizia lá na Rússia, as minhas avós contavam sempre, que diziam para Pelotas. Para Pelotas. Pelotas. Era como eles pronunciavam lá na Rússia.

Meu avô emigrou em 1913 e deixou a família lá, porque ele veio fazer América, como faziam todos os imigrantes. E em 1913, um ano depois, estoura a Primeira Guerra. E ele então fica oito anos morando em Pelotas, fazendo a sua vida.

Começando a sua vida como todos os imigrantes começavam, primeiro como mascate, vendendo de porta em porta, e depois conseguindo já se estabelecer num estabelecimento comercial, então já comprando um local onde ele poderia ter uma loja.

A maioria dos judeus dessa época tem mais ou menos uma história semelhante a essa do meu avô. Chegam, se estabelecem... Como era o nome dele, claro. O nome dele era Rodolfo. Rodolfo. Também chamado de Harmil, que era o nome hebraico. O vô Rodolfo fica, então, oito anos sem a família, porque estoura a guerra.

E aí havia algo que hoje eu não sei se seria possível, talvez hoje chamassem essa pessoa de coiote. Mas havia emissários confiáveis que iam com dinheiro buscar a família que tinha ficado na Lúcia. Eles eram agentes, né? Eles eram agentes. Chamavam agentes de imigração. Isso. Então a minha avó...

Minha mãe, então com 10 anos, digamos, e eu vou fazer um parêntese porque os judeus têm ano lunar. Então eles não têm um calendário igual ao nosso calendário, que tem 30 dias. São calendários de 28 dias. Então como é que eles registravam as pessoas? Tantos dias depois da festa tal.

ou tantos dias antes da festa tal, sempre festas religiosas. Certo. Então, a minha mãe calculava que tinha chegado em 1900, tinha nascido em 1910, então ela ficou com três anos lá na Rússia, com a minha avó Ana.

E um menininho menor, o Jacó, que faleceu de tifo. Na época não havia antibiótico. E aí eles vieram, então esse emissário pôde trazê-los. É uma grande novela, porque eles não podiam emigrar como russos. Eles tiveram que ficar um ano na Romênia.

para ter um passaporte romeno e poder então pegar um navio e vir para o Brasil. E tem uma história bonita no meio disso tudo. Ao chegar em Rio Grande, no porto de Rio Grande... Depois de atravessar os oceanos... Depois de atravessar todos os oceanos possíveis, minha avó e minha mãe, o vovô Rodolfo esperando no cais, ele pensa...

Eu quero fazer uma festa, eu quero celebrar essa chegada da minha filha, para quem ele tinha comprado um inesquecível vestido de seda branca. Ah, que coisa maravilhosa. Eu quero celebrar... Ele estava em Rio Grande e morava em Pelotas. Aí ele pensou, eu tenho um amigo em Rio Grande, o nome dele é Salomão Pechansky.

Então ele leva a família para a casa do Salomão Pechansky, casado com a Malvina Pechansky, ela brasileira, ele ainda nascido no que hoje é a Romênia. E eles festejam a noite toda, eles cantam a noite toda e celebram essa chegada. E aí tem mais um detalhe. Isaac!

O Isaac não era nascido. Não era ainda, mas eu estou dizendo. Isso é 1910. Isso é 1921. Desculpe. Quem era nascida? A Helena.

que depois se transforma em Helena Weinberg, cantora. Cantora da OSPA, mãe do Paulo Weinberg, escritor, minha cunhada. Então, eu não sou de acreditar em destino. Eu acho linda essa história, porque ela tinha um ano de idade.

Minha sogra casou com 15 anos. Sim, o normal da pré-epoca. O normal da época. Aos 25 anos, ela tinha cinco filhos. Um deles era o Isaac. Era o Isaac, isso. E quando tu reencontra o Isaac nessa história? Pois então, eu sabia da história porque a minha mãe sempre contou. Ela adorava contar histórias. Ela era uma mulher que gostava muito de livros.

E ela ensinou as três filhas, eu sou a caçula de três mulheres, ela ensinou as filhas a gostar de ler. Ela sempre leu. E quando ela chegou no Brasil, então, digamos, aos 10 anos, o que ela falava? Um pouco de russo.

Yiddish, que era a língua mãe, a língua com a qual os judeus se comunicavam em toda a Europa. E um pouco de romeno, já que tinha ficado um ano na Romênia também. Mas português, nada. Então, os pais tiveram a brilhante ideia de conseguir uma professora de português para ela.

Só que conseguiram uma professora alemã. Enfim, para encurtar o caso, ela acabou, sim, como era uma menina, frequentando o grupo escolar Félix da Cunha, que existe até hoje em Pelotas. Então, lá é que ela fez a formação dela e...

começou a, ou continuou a gostar de livros. Meu avô era um bom leitor também. E ela estudava a seleta em prosa e versos. A seleta em prosa e versos. E ela sabia lá de corte. E aí, nossa, a gente estava perguntando do Isaac. E o Isaac... Ah, o Isaac, onde é que ele entra? O Isaac nasceu em Rio Grande.

veio para Porto Alegre, estudou no Julinho, fez o científico, então, no Julinho, para se preparar para o vestibular de medicina, cursou medicina aqui, se formou em 52. Em 1956, eu...

Eu também tenho uma história engraçada. É que tu casou? Não. Em 1956, a gente se reencontrou. Porque eu entrei para a escola de belas artes quando eu tinha 15 anos, Alice. Sim, tu te formou com 19. Me formei com 19. Eu fiquei sabendo que haviam fundado uma escola de belas artes em Pelotas.

Eu era muito bem informada porque eu frequentava a biblioteca. A dona Gilda era a minha orientadora da biblioteca pública. Minha mãe, com seu amor a livros, me fez sócia da biblioteca pública de Pelotas quando eu ainda era uma pirralha, quando eu estava no primário.

E aí eu frequentei a biblioteca, eu li toda a biblioteca infantil, e aí a dona Gilda, a bibliotecária-chefe, me transferiu para a biblioteca dos adultos. Já tinha passado ali, para todos ler? Todos.

E aí, Alice, o mundo se abriu para nada. Porque aí eu conheci a enciclopédia. O livro dos adultos. Eu sempre desenhei. Eu nasci desenhando. Eu não lembro de... Eu sei que eu me chamo Clara, porque eu já estava lendo e a minha mãe não sabia o que fazer comigo, me levou então para o...

Grupo Escolar Cassiano do Nascimento, e tentou me matricular, eu tinha seis anos. Dizendo para a diretora, olha, ela já está lendo. Então a diretora me aceitou, ela me matricula no primeiro ano e pergunta meu nome, e eu disse Clarita, porque na minha casa... Sim, te chamavam de Clarita.

Eu era Ita. Ita, só o final. Sempre fui Ita. Mas eu achava que meu nome era Clarita. E aí... Para a tua surpresa. Para a minha surpresa, a minha mãe apresenta a minha certidão de nascimento, evidentemente, e está escrito Clara. E eu não sei quem é Clara. Eu não... Clara é um...

É uma persona que eu mais tarde acabei assumindo. Sim, que tu assina, inclusive. Que eu assino, inclusive. E como, claro. Porque ao casar, na época, em 1977... A gente agarrava. A gente adotava o nome do marido. Exato, mas eu casei nos anos 70 e também agarrei o nome de marido. Foi uns três anos depois. Era meio que um sonho da menina mudar de nome. Exato.

E o coitado do meu pai, que teve três mulheres, não tem Gusminsk na família, pelo menos não no lado do Pelotense. Só do lado do irmão dele que ficou em São Paulo. Aí nós temos uma família Gusminsk. Deixa eu só... Nós estamos ligando então... Isaac, que eu quero saber. Isaac. Quando é que a Clarita diz, é o homem da minha vida! Quando é que isso acontece?

Em 1956, dia 18 de maio. Como eu já estava cursando a escola de belas artes? Porque eu comecei a cursar com 15 anos. Sim, sim. E à noite eu fazia o clássico. Entendeu? Então, de tarde eu fazia uma faculdade e à noite eu fazia o segundo grau. Sim, sim.

Então eu era vice-presidente do centro acadêmico da Escola de Belas Artes de Pelotas. Maravilhosa! Eu fui para Porto Alegre para um congresso da UE, União Estadual de Estudantes, que eu tenho um enorme orgulho de ter vivido aquela época, que a gente chamava de Esquerda Festiva, depois chamaram.

E nessa época, nesse congresso, eu conheci amigos da vida. Flávio Tavates, Romualdo Romanovski, que então eram presidentes dos seus centros acadêmicos.

E uma menina não vinha para a capital ficar num hotel. Ela tinha que ficar em casa de parentes. De família. Isso. Então eu fiquei na casa da minha prima, Skaletsky, a mulher do Henrique Skaletsky, a Helenita, que está viva.

Eu, durante o congresso, eu frequentei o congresso religiosamente, porque eu sempre fui muito... Caxias, como a gente diz. Disciplinada. A palavra não é Caxias. Disciplinada. Disciplinada. Caxias eu nunca fui. É, disciplinada. Isso. Então eu estava frequentando o congresso. Eu vim para o congresso.

Só que naquela tarde, a Helenita, minha prima que me hospedava, disse, olha, eu tenho uma reunião no centro, vamos até o centro e tal. E eu não tinha naquele dia congresso, vamos. Então fomos caminhando pela Rua da Praia. De fronte à livraria Cosmos, do seu Orgler. Vem vindo em minha direção um rapaz muito elegante.

de sobretudo cinza. Eu não sei se a tua audiência sabe o que é sobretudo. Vamos falar. Exatamente, um trench coat. Um trench coat. Gravata. Um rapaz muito bem apessoado. Eu achei ele lindo. E para na nossa frente e dá dois beijos na Helenita. Porque ele é primo dela. As mães são irmãs. Sim.

E aí a Elenita disse, tu deve conhecer a Clarita. E ele disse, é, eu conheci ela quando ela tinha nove anos. Porque aí tem uma outra história bonita.

Meu pai tinha uma casa no cassino, o Isaac morava em Rio Grande e nas férias ele ia passar com a família. Como sempre, ia para o balneário. Ia para o balneário e o cassino. Meu pai tinha uma bela casa lá no cassino e eu tinha nove anos de idade. E eu sempre fui arteira no sentido... E a diferença do Isaac? Dez anos. Dez anos. Dez anos. Então ele já... Tinha 19 anos. Ele tinha 19, eu tinha 9. Uma criança. E ele perdeu o ônibus.

para voltar para casa. Ele, então, pensou que ele conhecia uma família que tinha duas moças, que eram as minhas duas irmãs mais velhas, Geni e Célia, então adolescentes, e pensou, eu vou almoçar lá. Não tinha... Pensa que tu está nos anos 40, entre 40 e 50.

Não tem restaurante. Não, e no cassino eram algumas casas e areia. E tu acha que ele tinha dinheiro para pagar o almoço? Claro que não, ele só tinha para o ônibus. Então ele lembrou que ele conhecia as moças Kuzninsky. E apareceu lá em casa. E é engraçado que eu lembro.

Eu lembro da cena, porque, como eu te disse, eu sempre fui arteira no sentido de fazer coisas. Eu tinha feito uma... Curiosa. Arco e flecha, eu tinha feito. Arco e flecha? Eu imagino isso numa família, uma menina fazer arco e flecha. Eu fiz.

Era pra brincar de quê? Com a Alves? Era pra brincar de quê? Pache Apache? Não sei, eu não sei. Eu tive vontade e fiz. Que maravilha isso! Meus pais nunca me tolheram, Alice. Que maravilha isso! Eles nunca disseram, tu não deve desenhar.

Eu usava o papel de embrulho da loja do vovô Rodolfo e da loja do meu pai, Valentim Kuzminski. Cada um tinha uma loja, que eram lojas de armarinho, confecção e tal. E eles tinham o papel de embrulho impresso da loja.

O que eu fazia? Eu rasgava ali na bobina. Naquele rolo com a bobina. Na bobina. E usava o lado interno. Inverso. E com o lápis eu desenhava, desenhava, desenhava, desenhava, desenhava. Naqueles belíssimos balcões de madeira. E sigo desenhando até hoje.

Vocês viram que ela não me conta como é que aconteceu a história do Zaque. Mas eu tô chegando lá. Ela vai chegar porque, assim, eu tô aqui, ela vê ele na rua da praia. Aquele homem belíssimo de sobretudo era uma artista de cinema. E aí a Elenita então diz, ah, tu deve conhecer a Clarita. Ele fala dos nove anos.

Eu conheci quando ela era pequena. No Arco e Flecha e tal. Eu lembro do Arco e Flecha. E lembro de que alguém veio almoçar. Só que tem outra história, Alice. Aí ele conseguiu... Enfim, almoçou lá em casa. Eu chamei ele para ver meu Arco e Flecha.

Acho que eu fui meu próprio cupido. Imagina! 19 anos, 9 anos! 9 anos dela, você tinha! Era uma pirralha, né? Anos 9. E aí ele...

Pegou seu ônibus de volta, voltou para casa e a dona Malvina, minha futura sogra, perguntou onde é que tu estava, porque não tinha telefone. Sim. Entende? Tu não tinha como te comunicar. Logicamente, deve ter ficado preocupada. Sim, porque ela não tinha voltado. O filho foi de manhã nadar no cassino. Isso, e não voltou nunca mais. Só voltou sei lá que horas. E aí ele disse, aconteceu isso, isso e isso, eu perdi o ônibus, me lembrei da família Kuzminski, almocei lá,

E tem duas moças muito bonitas, mas tem uma agulhazinha que vai incomodar. Que era a tu. Era eu. A pirralha. E aí, bom, a partir desse dia do nosso encontro na rua da praia, vem vindo esse jovem elegante, que era primo da minha prima.

E conversamos um pouco e ele diz, vocês não querem tomar um chá? E a minha prima disse, olha, eu não posso, que eu tenho um compromisso. E aí ele me convidou e eu disse, bom, eu não tinha nada, eu topei. E aí fomos tomar um chá na Galeria Chaves, na Confeitaria Cruz de Malta.

Acontece que ele já era formado, era 1956, fazia quatro anos que ele estava formado. E ele já estava fazendo até concurso. Então ele tinha 29 e tu 19 anos. Exatamente. E aí começamos a conversar, conversar, conversar, conversar. E lá pelas tantas ele pede licença, que tinha que dar um telefonema. Sai, volta.

Eu fiquei sabendo depois que ele foi desmarcar a consulta que ele tinha, porque ele quis ficar comigo. Que delícia. Essa foi a história, Alice. O Isaac sempre dizia, e aí a gente começou a conversar e nunca mais parou. Não, e em um ano depois vocês casaram? Não, porque três dias depois nós decidimos o casamento. Três dias? Três dias.

Sim. Isso foi dia 18 de maio. Ele não tinha carro, a gente andava de táxi pela cidade, mas nós não nos largamos mais. E aí, três dias depois, a gente marcou noivado, no dia 13 de novembro, que iria coincidir com o aniversário de casamento de meus pais.

E o casamento, nós sabíamos que íamos casar aqui em maio, e a gente pensou, vamos casar daqui a um ano. Três dias depois. A gente nunca mudou de ideia. Foi assim. Agora, que coisa linda isso. É bonito. Agora, e as famílias? Aceitaram isso normalmente? Mas claro. As famílias se conheciam. E por que não?

Não, pela época. A minha pergunta é mais pela época, assim, pela rigidez. Não. Não. Não, não.

Tu acha que isso é porque os imigrantes eram mais leves em relação a isso? Pelo tipo de trabalho que tinham passado? O amor era... Quando uma pessoa encontrava outra e tinha aquela felicidade que já poderia se dizer eterna, como no caso de vocês, a leveza do relacionamento...

Era aceito. Era aceito. Porque eu acho incrível isso. Alice, você tem que pensar na época. Nós estamos nos anos 50, em que o romantismo impera no mundo. Isso. No mundo. Eu sou o produto de... Nasci em 36. Mas todo o meu repertório...

O repertório artístico de história da arte se formou na biblioteca pública, como eu te disse. De Pelotas. De Pelotas. A enciclopédia abriu o mundo para mim, porque não tinha TV.

E eu sabia da existência de artistas e artistas, mas eu nunca tinha visto a obra deles. E a enciclopédia mostrava a obra deles, entendeu? E fora isso, estamos nos anos 50 e o cinema americano domina o mundo. E...

Mais um detalhe, o fato de ter nascido em Pelotas. Sim. Como é que era a nossa vida cultural? Meus pais eram sócios da Sociedade de Cultura Artística, que de vez em quando trazia artistas, cantores, declamadores. Sim, porque Pelotas, Rio Grande e Jaguarão era passagem.

Para a Argentina e Uruguai. Então, exatamente, era um polo. Exatamente. Então, era Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, e fazia esse trajeto. Isso aí. E aí a gente frequentava a Sociedade de Cultura Artística.

E as audições, os recitais, a gente chamava assim, eram no conservatório de música. E eu estudei piano, como toda moça prendada, nós tínhamos um piano em casa. Todas as casas tinham um piano Alice.

Bastava ser classe média e tu tinhas um piano armário, o nosso era um piano alemão, com aqueles candelabros. Sim, sim. Porque originalmente ele era um Essenfelder o nome do nosso piano.

E todas... não era o destino, era uma formação natural. Cultural, importante, artística. Era importante e Pelotas era conhecida como a Atenas Rio Grande. Exatamente. Então, essa formação cultural que até os 20 anos eu tive, eu conseguia ter tempo de estudar violão, piano.

frequentar a Escola de Belas Artes, conhecer o Locatelli, que me viu desenhando, me puxou pela mão. Aldo Locatelli, gente. Aldo Locatelli. O pintor do aeroporto, o pintor de San Pelegrino. Da Igreja de Caxias do Sul. Isso, e do nosso Palácio do Governo também. Isso.

O Locateli me viu desenhando quando eu tinha 15 anos, quando eu entrei para a escola. E me pegou pela mão, literalmente, e me levou para a aula dele de pintura. E disse, vem todos os dias que eu vou te ensinar a desenhar. Eu tive essa sorte. Mas tu teve essa sorte porque tu era bem metida, né, também.

Eu não sei se a palavra era essa para mim. Eu era curiosa. Eu acho que sim, eu acho que essa é a palavra. Eu sou curiosa até hoje. Eu sempre quero saber.

Eu sempre quero me informar. Esses dias eu estava lendo que a curiosidade é a que mais exercita a neuroplasticidade do cérebro. Talvez. É porque a cada... Te ativa. Ela te ativa. Então ela não deixa o cérebro em desuso.

Isso. Então, por isso que, assim, quando eu sou perguntadeira, é porque eu fico querendo saber o que tem. E isso, né, porque está ativando lá, eu estou enxergando isso. E aí tem o seguinte, nós temos, então, vamos juntar, então, o Isaac e a Clarita.

O Isaac vem de uma família de músicos. O pai dele tinha sido convidado quando o guri, por algum que passou lá na Romênia, em Kishinev, onde ele nasceu, e ouviu ele cantar na sinagoga, lógico, tinha uma voz de tenor, e disse, eu quero te levar para os Estados Unidos e lá tu vai ser cantor.

vai ser cantor de sinagoga. Claro que a mãe dele não deixou. Assim, tudo certo, mas Estados Unidos não. Não. Mas ele era um cantor, ele cantava. E a Helena, minha cunhada mais velha, foi regente do coral da OSPA, cantava ópera. Daí eu conheci Pablo Komlosh e passei a fazer programas para a OSPA.

Porque aí tu tem que juntar isso. Então temos uma família musical, Peixão, e uma outra família musical. Que alegria essa casa, né? Que coisa! E esses anos 50 que eu estava te descrevendo tem o seguinte detalhe. A rádio...

O rádio era o lugar que nos informava, não tinha TV. E aí vinha... Não tinha streaming, nada disso. E aí vinha as rádios de Buenos Aires. Exatamente. Belgrano. Nós nos informávamos através da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e das rádios de Montevidéu e Buenos Aires, porque as rádios locais eram... o sinal era muito fraco.

Mesmo assim, eu tive um programa de rádio junto com meus amigos adolescentes na biblioteca pública. Essa dona Gilda... Uma mulher maravilhosa, né? Ela foi uma pessoa...

que apoiou tudo que eu inventei. E ela tinha a hora do conto. Nós tínhamos um programa de rádio. E vocês faziam para a rádio local. Isso. Além disso, tínhamos um jornal, do qual eu era redatora, ilustradora e tocava o mimiógrafo álcool.

E pirava com cheirinho. E o nome do jornal, eu tenho ele até hoje. É mesmo? O Mundo Infantil. Que maravilhoso. E nós fazíamos peças de teatro.

E a gente, então, por ouvir rádio e porque só entrava Rádio Belgrano de Buenos Aires, Rádio El Mundo de Buenos Aires, Rádio Solis de Teatro Solis de Montevideo, nós as três falamos espanhol. Que incrível isso.

Entendeu? A gente, natural, e claro que a gente cantava todos os tangos, todos os boleros. Lúcio Gatica... E tu canta ainda, Clara? Até hoje. E tu consegue agora cantar alguma coisa pra mim agora? Não, agora eu não vou cantar porque eu não tô aqui pra isso. Mas nem um pedacinho assim? Não. Nada? Talvez assim, Uno Buscagino de Esperanças.

Ele Camino que me... Não sei o que. Prometeram nas sustâncias. Enfim, o que eu quero te dizer, Alice, é que você tem que situar geopolíticamente os anos 50. Que foram anos que deram Andy Warhol, que deram Marilyn Monroe, que deram Elvis Presley logo em seguida.

Pensa! Fora a formação clássica, porque estudando piano, a gente tinha que tocar, no mínimo Mozart, no mínimo Beethoven. Então, junta tudo isso e aí tu tem várias camadas que vão se acumulando.

e que eu vou desenhando ao longo da minha vida. Quando tu vem pra Porto Alegre, aí eu tava lendo que a tua primeira exposição é dois anos depois que tu vem pra cá, pra Porto Alegre, né? Em 1959. Nove, dois anos depois. Livraria Leonardo da Vinci. Da Vinci.

Que era de um português. Do Edgardo Xavier. Edgardo Xavier. Que era português, mas tinha uma livraria francesa. Exatamente. Na Salgado Fítio. Isso. E aí tu faz uma exposição lá.

Essa exposição eram meninos de rua e fila de encostados do INPS. Não, da época não se chamava INPS, era IAPI. Era IAPI, não, PIS.

Isso. E NAMPS e API. E hoje é INSS. Isso. Então, fila de encostados é uma palavra que a gente não usa mais. Esses encostados. E o encostado seria o aposentado hoje. O aposentado hoje. Mas era muito comum a gente falar, ah, o cara tá encostado pelo INPS. Tá encostado. Pelo IAPI. Pelo IAPI.

Por isso que tem a vila do EPI, né, gente? Só pra gente entender. Onde nasceu Elis Regina. Onde nasceu Elis Regina. Então, assim, não é? As coisas têm relação, né? Aí, tu foi pra vitrine lá. Fui. Foi pra vitrine. E aí, tava concorrendo com vários pesos pesados. Pois é, acontece o seguinte. Quando eu vim pra cá, em 1957...

O mundo era outro para um... Eu sempre quis ser ilustradora. É preciso fazer esse parêntese. Eu nunca quis ser pintora, expor em Paris. Eu não tinha isso. Eu queria ilustrar. Porque eu...

Eu fui uma leitora voraz de tudo que era ilustrável, Monterrobato, todos os outros. É a tua formação. A minha formação e o meu desejo sempre foi ilustrar.

Ilustrar é tornar ilustre. Isso eu vim saber muito depois. Mas não era isso que eu queria. Eu queria fazer ilustração. Mas a ilustração seria invenções a partir das palavras? Que era uma coisa desse tipo? Eu consegui, tive uma sorte muito grande, que naquela época nós tínhamos muitos jornais aqui em Porto Alegre. Tinha diário de notícias, tinha...

Correio do Povo. Correio da Manhã. Depois foi fundada... Correio da Manhã, não. É Folha da Manhã. Mas antes tinha o Correio da Manhã. Eu não peguei o Correio da Manhã. Ah, tá. Eu peguei a Folha da Tarde. Peguei a Folha da Tarde. Depois a Folha da Manhã. E aí eu fui convidada pelo meu amigo P.F. Gastal, Paulo Gastal. De Pelotas também.

a começar a ilustrar contos, poesias. E eu fazia isso como freelancer. Mas quando eu te perguntei da ilustração, a ilustração vem de uma vontade de tornar aquelas palavras graficamente. Exatamente.

Porque é dar vida aquela palavra através do traço. Foi aí que eu comecei a fazer capas de livro. Capas. Aí ela fez capas. Para a Editora Globo. Fiz mais de 60 capas. Editora Globo. Então, olha aqui, algumas coisas aqui. Aqui ela trouxe da coleção do Érico Veríssimo.

Essa é a coleção Sagitário que o seu Henrique Bertazzo, que era o dono da editora Globo, e era um visionário, ele...

Ele decidiu, porque ele começou editando livros clássicos, chamada Coleção Nobel. E nós tínhamos grandes tradutores. Mário Guintana, Herbert Caro, Lia Luft.

Toda essa gente trabalhava. Érico Veríssimo, que eu conheci pessoalmente, porque a Livraria do Globo era uma grande sala. Eu me lembro. Com várias mesinhas. E cada mesinha sentava... Eu não tenho 90, mas eu fui lá. Terás. Terás. Mas assim, chegando... E aí, o que havia era um bom mercado de trabalho para ilustrador.

Então eu comecei, em seguida, a trabalhar com o que eu queria trabalhar. Que era a ilustração. Que é transformar textos em linhas, traços, cores. Então eu fui...

Comecei na Editora Globo, seu Ernest Soynel, que era o chefe lá daquela lindíssima sessão de desenho lá em cima, onde trabalhava Edgar Kitts, João Farion, Fedrich, Nelson Beira Fedrich, todos trabalhavam lá dentro. Eu não, eu era free.

Eu ia e voltava. E quando eu me apresentei para... Dizendo que eu... E tinham poucas mulheres ilustradoras. Nenhuma. Nenhuma. Ah, tá. Nenhuma. Não, depois tinha uma.

que era de Santa Catarina. Até tem um livro que tem uma capa errada, um livro Clarissa, do Érico Veríssimo, tem o meu nome na capa, mas não foi o que eu fiz. Mas aí eu quero só voltar. Aí tu estava lá, fez essa exposição. Ah, sim. E quem é que, por exemplo, disse ela é uma artista? Quem disse foi Alice Soares.

A Alice Soares. Olha só, Alice Tua Chará. A gente sabia, eu sabia, eu era informada, eu não sei como que eu era informada, eu acho que lia jornal, porque era a única forma da gente se informar. Eu sabia que Alice Soares era considerada a maior desenhista do Rio Grande do Sul. Eu sabia que Vasco Prado...

era considerado o maior escultor do Rio Grande do Sul. Esse tipo de informação eu tinha, mesmo aos 19 anos, mesmo chegando aqui... Porto Alegre e tal. Enfim, eu faço então essa primeira exposição com o Edgardo Xavier na livraria francesa, chamada Leonardo da Vinci.

E eram só desenhos preto e branco, só. E sempre preocupada já com... Fazendo coisas de cunho social, né? Meninos de rua, fila de encostados. E eu tô lá no meu cantinho, no fundo da livraria, e vejo uma moça alta entrar, fazer a volta e tal.

chega para mim e diz, meu nome é Alice Soares. E eu tive vontade de me ajoelhar. Sim. Entende? Uma referência. De repente, a maior desenhista do Rio Grande do Sul. Aí ela disse, eu quero te convidar para trabalhar comigo. Eu tive muita sorte, Alice. Mas eu acho que isso não é só sorte, é estar no lugar certo.

Sim. Então ela estava fundando um grupo de trabalho junto com a Alicinha Brigman, com mais dois.

Um deles chegou a ser diretor da escola do Instituto de Artes aqui. Eu não vou lembrar dos outros nomes, porque o importante foi a minha amizade com as duas Alices, que durou a vida toda. Maravilha. Começou ali. Esse grupo de trabalho se reunia à noite, nós pagávamos um modelo.

E desenhávamos. Modelo vivo. Sim, modelo vivo. E desenhávamos. Esse grupo durou uns dois anos, eu acho. Depois ele se desfez. Mas isso consolidou uma amizade para sempre com as duas Alices. Eu cheguei a escrever algumas vezes sobre elas, à medida que elas foram... Quando a Alice faleceu, eu escrevi, enfim.

E quando tu fala dessa amizade, tem uma outra parte, que era quando vocês vieram pra Porto Alegre, também vocês iam muito na casa do Chico Stockinger, né? É. Que era na Rua Pelotas. E se eu te contar que eu morava na Rua Pelotas... E tu era vizinha do Chico? Morava na frente da casa do Chico. E lembra? Tu lembra do forno lá no fundo da casa? Lembro de tudo, porque eu era muito amiga da Dona Ieda.

que ela era professora do Grupo Escolar Marejal Floriano Peixoto. Não era o Colégio Batista? Não, mas ela depois também dava aulas no Grupo Escolar Marejal Floriano Peixoto. E também era um pouco contemporânea dos filhos, eles eram mais velhos que eu, mas eu andava lá pela casa e observava as festinhas de sábado, como criança.

Então, não era bem as festinhas. Eram uns encontros, né? Encontros de amigos. Hoje a gente diria que seria o quê?

Um encontro cultural. Tipo um sarau quase. Não. Não tinha música. Porque o Chico já estava começando a ficar surdo. O Chico estava chegando do Rio de Janeiro, onde ele tinha sido aluno do GELD, de escultura. Sim. E o Chico queria ser escultor. Só que ele não tinha dinheiro para ser escultor. E nós tínhamos um amigo comum, que tu conhece.

Roberto Eduardo Xavier. Sim. O bodoque. Folha da Tarde. Roberto Eduardo Xavier nasce em Rio Grande. Olha as coincidências. E era amigo do Isaac. Desde Rio Grande.

E começam a acontecer uns encontros, sábado à tarde, na casa do Chico, na Rua Pelotas. Os encontros, 12 encontros, participa Josué Guimarães, Jaco Anídia. Jaco Anídia. Esqueci o primeiro nome dele, Heraldo. Heraldo Ferreira, médico, que era primo do Josué.

O Isaac Pechansky, o Roberto Eduardo Xavier, sem a fé Ema. E eles fazem o seguinte, todos os sábados, eles decidem fazer um conto, mas eles promovem, eles decidem um tema, e todo mundo escreve sobre aquele tema um conto.

Então, repara que isso é o início das coisas que depois o Assis Brasil, a Cíntia... Oficina de Escrita Criativa. Escrita Criativa. Só que ninguém atinava que era isso. Mas pensa que era. É o início. É o gênese. Eu tenho esses contos. Que coisa linda, Clara. Eu tenho esses contos. Mas por quê? Porque eu não participava. Sabe o que eu fazia?

Eu ia lá para os fundos, onde o Chico tinha feito... No pátio? Não, onde ele tinha os cactos. Ele tinha feito um fundo de... Não, cactos ainda não. Nem tinha cactos. Lógico, não tinha. Ele tinha feito um forno de cerâmica. E a única coisa parecida com a escultura que ele fazia eram vasos de cerâmica, que ele podia, então, queimar. Ele não tinha dinheiro para bronze.

Isso veio depois. Então, nessa época, nesses anos 58, 59, eu não tinha filhos ainda. Meu primeiro filho nasceu com 60. Pois eu ia te perguntar, quando? Em 60. Ah, em 60. O Rubem nasceu em 60. Três anos depois. E o Flávio nasceu em 61. Tá. Então, nesse tempo, eu fui com o Chico, eu ficava com o Chico fazendo mais uma coisa, que ele me ensinou.

Xilo ou gravura? Porque a Escola de Belas Artes de Pelotas tinha uma falha. Na minha formação não tinha gravura, porque não tinha quem desse gravura em Pelotas. Então eu tive pintura, tive história da arte, tive geometria descritiva, não sei o que eu ia fazer com aquilo, geometria analítica, enfim, é o currículo completo, menos gravura.

Chegava no terceiro ano, tu tinha que optar. Ou tu ia para a escultura, ou tu ia para a pintura. Eu fui para a pintura. Me formei bacharel em pintura, então. Mas eu nunca tinha feito gravura. E o Chico me ensinou a pegar uma goiva. Que professora, hein?

Que luxo. Que luxo. Mas, assim, nós estamos conversando e o tempo vai indo também, né, Clara? Mas eu não vou deixar de fazer aqui algumas perguntas. E como esse canal é de Alice Urbinho, Pena Porta, ela pode aumentar o tempo quando ela quiser. Olha, que maravilha. Que maravilha, né? Porque eu não vou perder tempo.

de ouvir essas histórias. Aí, pegando depois da... Eu queria... Nós já falamos das capas de livros, já falamos dessas celebridades aí que andaram ao teu redor.

Aí, para a gente ir fechando um pouco, a Clara realizou mais de 70 exposições individuais. 78. 78 exposições individuais em galerias e museus do Brasil. Fora do Brasil também. E do exterior.

E tem mais de 200 exposições coletivas, entre bienais, trienais. Quer dizer, como é que se fosse tudo colocado num armário, tem uma gavetinha lá bem preferida, que às vezes tu olha? Porque é difícil, né? Porque cada obra, quando a gente termina... Não é mais tua. Não é mais tua.

Mas é. E qual é, assim, dá pra dizer que tem, assim, se não é uma, se tem duas, alguma série que, sabe, que te tem na cabeça? O que me vem primeiro à cabeça é uma série sobre o casal Arnolfini, do Jan van Eyck, 1434.

Os irmãos Van Eyck inventam a tinta óleo. E esse painel é sobre madeira, é um quadrinho desse tamanho. Que toda vez que eu ia à National Gallery, lá em Londres, eu ia lá pedir a pena pro canal. Eu tinha vontade de me ajoelhar. Não cheguei a fazer.

Mas eu ia lá pedir a bênção para o casal, porque eles foram a inspiração de mais de 60 obras minhas em gravura, em pintura, em todas as técnicas possíveis e eu sigo fazendo. É interessante essa coisa do tema recorrente.

Na época da ditadura, começaram a surgir, antes da ditadura vieram os anjos. Vieram os anjos. E o nosso amigo Tatata Pimentel e nossa amiga Tina Zápoli, então Tina Presser, tiveram a ousadia de fazer uma exposição em preto e branco. Minha.

E eu pedi para o meu vizinho, então, Armindo Trevisan, escrever a apresentação, e ele fez um ensaio enorme sobre os meus anjos. Sim, era a pessoa certa para escrever também, né? É verdade. É verdade. E aquilo foi uma ousadia, porque uma exposição em preto e branco não se fazia. Anos de chumbo, né?

Não, ainda não. Foi um pouquinho antes. Não, já estávamos. Já estávamos. Os anjos são dos anos 80. Porque daí tem os anjos, depois tem os generais, tem candidatos. Pois então. Aí começam a surgir os generais, o candidato, que é o único que tem boca. Isso. A dama.

O mágico, que eu acho que sou eu, porque tem uma palheta aqui de pintor entalada no pescoço. Tu acha ou é? Eu acho que sim. Ah, tá. Então é? É.

Deixa eu ver, faltou. E o Quixote. E o Quixote. Sobre esses cinco personagens... Eles vão e voltam, né? Eles são recorrentes. A Paula Ramos fez uma grande retrospectiva. E isso foi no Margues, né? No Margues. Ela usou cinco salas do Margues para expor todas essas séries. E eu não sei, Alice, trabalhar em uma obra única.

Tu trabalha com várias coisas ao mesmo tempo. Então, eu fiz há pouco essa exposição Hino, lá com a Regina Galvins, que é na gravura. Eu trabalhei em 24 ao mesmo tempo. Porque eu digo que é porque isso permite uma unificação de cor. Uma harmonia de cor. Mas não é por isso. Mas é porque tem a tua... É porque eu não sei.

Não sei. Trabalhar? Receber uma encomenda e fazer um. Não sei. Agora, quando eu recebia encomenda de capa de livros, eu me obrigava a ser disciplinada, lia tudo, vinha tudo datilografado. Não tinha pendrive, não tinha nada. Era máquina de escrever. Isso. Então eu recebia um catatal.

e lia tudo e fazia capa. Isso eu fiz disciplinadamente durante muitos anos. Sigo fazendo capas, eu adoro fazer capa de livro.

E aí quando tu faz tudo junto, tu também tem uma outra coisa que é tudo junto, que é uma paleta de cores, né? Sim. Que é o vermelho, o azul, o amarelo. Teve uma exposição, Alice, que eu decidi só usar as cores básicas, azul, vermelho e amarelo. E chamei a Marta Medeiros para fazer a apresentação.

E foi muito interessante aquela exposição, porque eu só usei essas cores. Acontece que com elas tu faz todas as outras. Se é desenho, se é sobre papel, eu desenho com o Nanquim.

E o nanquim faz o traço fino. Faz o traço e o traço fica lá e a pessoa pode acompanhar meu pensamento. Se eu errei, ficou a marca, não tem problema. A mesma coisa eu faço na tela. Sempre. Porque eu desenho com tinta. Ah, e a tinta... E fica a marca também. E fica a marca. E eu deixo lá. Tá. E isso por que que... Isso é uma... Assim... Porque eu...

Eu ia responder porque eu quero. Mas é porque eu acho que... Tu acha que as camadas têm que aparecer? Eu acho que a pessoa tem direito.

De acompanhar o pensamento do artista. E se o artista erra, não tem a mínima importância. Hoje em dia, tu usas o raio-x para ver o pentimento. Aqui, o Leonardo da Vinci tinha projetado fazer um bebê. No entanto, ele trocou por um braço. Isso tu descobre através de raio-x.

Mas deixa isso aparecer. Deixa aparecer o erro. O erro faz parte da obra de arte. Isso é bem importante para o conhecimento. Isso é muito diferente de tu pegar um texto e editar. Porque tu tem todo o direito de apagar, digamos assim.

E depois, então, tu vai refazendo o teu texto várias e várias e várias vezes. Meus alunos de desenho sabiam que não podiam usar borracha.

Porque é preciso deixar a marca do desenho. E esse desenho que usa borracha é lápis ou é nanquim? Os alunos aprendiam a desenhar com lápis, com carvão, com nanquim, com tinta, com tudo que é material. E eles não podiam usar borracha.

Teoricamente, não. É muito maravilhoso isso, deixar o erro à prova. É, mas acontece que quando tu desenha e é modelo, e tu pega um modelo de frente e não acerta os olhos, esse modelo vai ficar extrábico, esse desenho. Então, aí sim, tu é obrigado a corrigir. Aí entra a borracha. Mas, se for possível, não vou deixar apagar. Não usa.

E isso é muito bonito de ver nos desenhos que ficaram dos grandes mestres. Quando se faz uma pesquisa. Alguns deixaram desenhos. Leonardo deixou desenhos. Miguel Angelo deixou desenhos lá embaixo. Sim. Lá embaixo na capela de São Lourenço. Ah, de São Lourenço. Lá embaixo. Lá embaixo. Ele desenhava carvão enquanto ele estava preso pelos Médici. Mas isso aí é outra história. Stop.

E daí, mais ou menos, falando um pouco da Clara, que ela falou antes que ela teve filhos, depois de três anos de casamento, teve um, então a Clara tem dois filhos, quatro netos. Que são muito musicais também. Muito musicais, foi casada com o Isaac durante 70 anos.

Faz quase um ano que o Isaac faleceu, né? Então, foi uma vida inteira, né? De união, de convívio. E de gosto pela música e pela arte. Pela música, pela literatura, pela arte. Viajava, o Isaac é psicanalista, né? A gente viajava em função de concertos, em função de exposições. Olha, vai inaugurar tal coisa, a gente sabia, se informava.

E foi uma vida muito rica. E me diz uma coisa, como é que está sendo esse exercício de saudade? Muito difícil. Muito difícil, mas a gente sabe que é assim. Eu, afinal de contas, convivi 70 anos com uma pessoa sábia.

E isso me ajuda muito. E a saudade faz parte do luto. Então a gente aprende a conviver com isso. E no meu caso sou capaz de poder me expressar graficamente.

ou pictoricamente, isso também me ajuda também. E depois de um ano, tu consegue fazer algumas obras que são... Eu voltei a desenhar. Voltou a desenhar. Eu passei alguns meses sem desenhar.

Aconselho do meu filho médico, Flávio, ele me sugeriu, volta a trabalhar. Foi a melhor coisa que eu podia fazer. Porque, na verdade, estar contando essa história, e como eu trabalho com figura humana, isso é mais fácil. Se eu fosse uma artista abstrata, concreta, eu não teria como expressar sentimentos só através de cor.

Mas como eu trabalho com figura humana, é muito mais fácil contar histórias. E as pessoas vão poder ver e vão poder acompanhar, numa futura exposição, toda uma evolução de sentimentos. E tu pretende fazer alguma exposição?

Sim. Agora sobre... Eu tô sempre com algo... Não, tu tá sempre com um projeto, com uma exposição. Mas eu queria saber se tem uma exposição para Isaac. Já teve, né? Eu fiz justamente como ele acompanhou a exposição Hino.

Logo depois que ele faleceu, já estava pronta a exposição. Aí eu fiz. Isso. Fiz e... Mas aí ela já estava andando. Estava andando. O que eu quero saber é depois dessa parada, depois desse exercício... Agora voltei a desenhar a partir de fevereiro. A partir de fevereiro. Novos desenhos com novos temas.

Mas que, no fim das contas... É uma continuação. É. Porque mesmo que tu não queiras, ao longo de tantos anos de trabalho, tu adquires um estilo. Entende? O meu desenho é reconhecível.

Sim, a gente vê o desenho e diz, esse é da Clara. Isso, isso. Pelas cores, pelo movimento, pelas figuras que se repetem, que se alternam. Porque esse repertório que tu vai... Esse é o teu repertório, é a tua história. Exatamente. É a tua personalidade. E desenhar é como escrever, é contar histórias.

Na verdade, ao te expressar graficamente, ou literariamente, ou dançando, ou escrevendo música, tu está sempre contando histórias. E como é que, por exemplo, estaria escrito na tua lápide?

Que legado? O que vai estar lá? Não sei. Uma mulher que... Não sei, não sei, não penso nisso. Não pensa no teu legado? No legado, sim, claro. Eu penso, o que os coitados dos meus netos vão poder fazer com tanta obra? Porque eu tenho muita obra. Já conversaram sobre isso, tu e os teus filhos?

Não. Porque tu tá viva! Até porque não é legado, eu sigo trabalhando. Tu siga trabalhando, segue trabalhando. Eu não adoro a nada dizer, ah, ela agora desmanchou o ateliê do Bonfim.

E aí ficaram não sei quantas obras para o ateliê, outras obras foram doadas para o Instituto Ágora de Cachoeira, etc. Mas ela segue fazendo o projeto Miniarte, ela segue fazendo o projeto Fiesta de Paz Brasil, ela segue fazendo seus próprios projetos pessoais. Então, que legado é esse?

É um legado contínuo. Contínuo. E é um pé na porta contínuo, né? É uma pirralha. Vocês viram que desde que ela começou a falar aqui, nós agora estamos indo realmente para o encerramento, a pirralha...

Ela, desde os 6, 7, 8, 9 anos, nessa casa maravilhosa, que eu só queria ouvir esses sons, que eu imagino que eram sons maravilhosos. Eu continuo desenhando com música, não sei desenhar sem música. Pois é isso, é porque a gente reproduz um pouco as histórias, a tua infância, a tua...

Família, ela tá ali. Ela não deixa de existir quando as pessoas vão embora, né? Essa casa aqui, o Urbim tá aqui sempre. Que foi meu marido que morreu também. E ele tá aqui sempre. Não tem como tirar ele daqui.

Nós construímos isso aqui. Mas ninguém quer tirar. Ninguém quer tirar, né? A verdade é que é boa essa convivência, isso faz bem. Exatamente. Entende? Agora, quando ele fizer 100 anos... Vai ter festa? Claro, eu vou fazer um almoço para a família. Vai ter festa. Lógico. Óbvio que tem que ter. Vou fazer. Vou fazer com as comidas preferidas dele.

E o mundo é isso. É maio, né? Junho. A vida é isso. Se nós ficarmos dentro de nós mesmas, sem nenhum tipo de expressão, aí sim são os encostados, os aposentados. Entende? Não é isso que a gente quer. E tu sabe bem.

Essa tua ideia do pé na porta é muito ousada, muito ousada. Ela faz com que o entrevistado fique às vezes inseguro. O que será que ela vai me perguntar? Já que tu tá colocando o pé na porta, essa expressão pé na porta significa... Peraí! Peraí! É.

Mas vocês veem que tem um pé na porta aqui também. Porque essa aqui... Não, porque tu não para.

Não, mas eu sou muito tranquila. Não, tu é tranquila, mas o que eu tô dizendo do pé na porta, como... Tu tá sempre procurando aprender. Sim, sim, eu sigo curiosa. Tu segue curiosa, tu tá sempre procurando aprender. Sigo, sigo, e meus netos me ensinam muito. Exatamente. Tu não esquece que eu tenho uma neta artista, Daniela.

que é exatamente igual a vovó. Ela começou pequenininha desenhando e hoje ela é uma profissional. E tem a... Tendo três designers na família, tem músicos nessa família, ou seja... Tem troca, né? Tem troca. Então, quando eu falo assim, do pé na porta, é da... Porque essa expressão, ela surge...

Por causa de um cientista americano que diz que tem três portas para abrir na segunda metade da vida. Óbvio que o cientista americano não fala pé na porta. Mas ele fala que tem. A primeira porta é a primeira porta que a gente nega o envelhecimento. Que eu chamei de pé na cofa.

A segunda porta é a que a gente aceita o envelhecimento, que eu chamei de pé na pantufa. E a terceira é a que a gente não quer parar, porque a gente é um eterno aprendiz. Então, esse pé na porta, ele também tem um pouco disso, da eterna aprendizagem, da curiosidade, da neuroplasticidade, da gente estar sempre inventando. E não deixar que o tempo...

nos domine. Nos domine, exatamente. Não, nós vamos dominar. Eu repensei o meu tempo. Eu repensei o meu estilo de vida. Exato, mas eu acho que é isso que a gente tem que fazer todos os dias. Tu tá com 90, eu tô com 72. Eu não tenho 90 ainda. Não, não tem 90. Ela não tem 90 ainda. Eu vou te explicar por quê? Porque eu havia...

previsto exposições do tipo retrospectivas para esse ano dos nove... Esse ano de 26. Aí eu me dei conta que eu não estava em condições de fazer nada. Sim. Aí eu parei. Parou. Parei para pensar, sentei para pensar. Eu gosto muito da expressão sentar para pensar. É boa. É.

E aí eu fiz muito bem em desmarcar tudo. E a única coisa que está prevista é no final do ano fazer uma reedição com a Liana Timm, minha querida amiga, da nossa série de exposições chamada Duas Mulheres de Fino Traço. Nós vamos reeditar então.

na gravura galeria. E o ano que vem, quando aí sim eu tiver cumprido os 90, aí eu vou fazer bastante coisa.

Em 2027. Isso. E aí o Pé na Porta ainda vai existir, e a gente vai fazer outras entrevistas, mostrar essas exposições, mas o trabalho da Clara está no site dela, tem todas as exposições, dá para procurar ali, e sempre tem numa galeria, e a Galeria Gravura é a que representa as obras da Clara Pechansky aqui em Porto Alegre, que é com a Regina Galbinski.

Exatamente. Então eu só vou encerrar assim, porque eu não quero encerrar sem falar na minha amiga Cristina Dias, que também já foi pra na porta aqui, porque ela escreveu uma história sobre a Clara. E aqui eu vou deixar assim, já que a gente falou tanto, eu vou pegar agora as palavras da Cris e ler o início aqui, que é de Clara Clarita Ita, que fala assim.

Clara Clarita Ita era tão intensa a menina que precisava de três para explicar o que tinha.

Clara de encantamento, clarita de delicadeza, ita de felicidade. Assim foi chegando a menina, que tinha muito a fazer. Nos primeiros passos, seus pés andavam pela casa à procura de imagens. Encontrava no assoalho imagens de imitar.

Procurava nas paredes cores para compor. Buscava nas janelas transparências para ilustrar. Vem menina, está na hora de cantar. E aí, gente, continua. E o livro é todo ilustrado pela Clara.

E é preciso dizer que a Cristina Dias, eu conheço desde que ela tinha 15 anos. E nós já fizemos muita coisa junto. E a Cris é uma adorável criatura que está lançando agora. Agora. Um livro que se chama A Mulher que Ovia os Quadros. Exatamente. Então, tem algo, né?

Muito obrigada Adorei essa entrevista Eu que agradeço Deixamos o tempo passar Porque histórias é muito bom de ouvir e contar Muito obrigada Obrigada, querida Clara Clarita Ita

Alice Urbim com Clara Pechansky | Pé na Porta #28 | Castnews Index — Castnews Index