Redes Sociais: democracia, algoritmos e polarização
See omnystudio.com/listener for privacy information.
- Impacto das Redes SociaisAlgoritmos e indignação · Bolhas de opinião e polarização · Viragem do espectro político para a direita · Lógica viral vs. debate democrático · EdgeRank e o poder do algoritmo · Engenheiros do caos · Viés da confirmação e negatividade · Fim da vergonha e escancarar da janela de Overton · Rage bait e monetização do ódio · Regulamentação das redes sociais · Inteligência artificial e combate a fake news
- Violência PolicialInvestigação de alegadas torturas e violações · Mensagens de ódio em grupos de WhatsApp · Caso de Alfragide e Movimento Zero · Aviso de Manuel Moraes sobre a polícia · Avisos da Amnistia Internacional · Condições nos estabelecimentos prisionais
- Redes Sociais PoliticaDireita vs. Esquerda no uso das redes · Simplificação de mensagens e ódio · Princípio da assimetria do bullshit · Chega e Iniciativa Liberal em Portugal · TikTok como máquina de radicalização
- Condições de trabalhoNegociações sem acordo · Proposta de lei no Parlamento · Voto contra do Partido Socialista e Chega · Ministra do Trabalho Palma Ramalho · Desgaste do governo da ADE
- Crise do Governo Montenegro: Caso Spinum VivaMoção de censura aprovada · Crise económica na Roménia · Aliança com o PSD e Partido Nacionalista Direita · Dinâmicas de direito radical na União Europeia
- Padrão de radicalização em estágiosTeoria da normalização de Vicente Valentim · Legitimação de opiniões extremas · Debate com terraplanistas · Fim da vergonha e da decência · Anonimato nas redes sociais
Sejam bem-vindos a mais um episódio do Demiço ao Impossível. O podcast onde eu, Daniela Cunha, o Gonçalo Osório de Castro e o Guilherme Lindon Guerra comentamos o que se passa na política nacional e às vezes internacional e desafiamos um convidado a juntar-se a nós para debatermos o que realmente está em jogo.
As redes sociais deixaram de ser apenas passos de partilha para se tornarem motores de influência política. E é este o nosso tema de hoje. Algoritmos que permeiam indignação, bolhas de opinião e debates cada vez mais polarizados estão a mudar a forma como discutimos a democracia e como votamos. Neste episódio de Missão Impossível tentaremos perceber de que forma este ecossistema digital contribuiu, por exemplo, para a viragem do espectro político para a direita.
como se constrói hoje o poder político online e o que acontece quando a lógica viral se sobrepõe ao debate democrático. A nossa convidada é a Mafalda Anjos, uma das vozes mais atentas à relação entre política, mídia e sociedade em Portugal. Mas antes disso, vamos aos temas quentes da semana. Gonçalo, qual é o teu tema quente desta semana?
Bom, o meu tema quente desta semana, no nosso DOCS está só o UGT, mas é mais do que isso, porque a mim parece-me que se avizinha a primeira grande derrota dos governos, mas do governo da ADE. Os governos da ADE têm anunciado um estado de graça natural de um governo que é recente, e, portanto, com todas as polémicas, obviamente, mas a mim parece-me que vai-se iniciar agora o seu grande processo de desgaste. Isto porque, no dia em que nós estamos a gravar este episódio, portanto, cerca de três a quatro dias antes do seu efetivo lançamento,
chegaram ao fim as negociações do pacote laboral, após nove meses de negociações e de reuniões, e chegaram ao fim sem qualquer tipo de acordo. Isto no dia a seguir à Confederação Empresarial ter dito que faria algumas excedências relativamente às propostas da UGT. Não houve uma contraproposta formal apresentada num documento.
mas a CIP no dia anterior ao chumbo das negociações fez uma conferência de imprensa em que disse, bom, se a UGT é isto que quer, nós vamos ceder nestes cinco pontos. Um deles era, por exemplo, o Banco de Horas Individual, tocava também na questão do outsourcing, enfim.
No dia seguinte, portanto, no dia da gravação deste episódio, houve mais uma reunião da Consertação Social e finalmente não se chegou a um acordo. E, portanto, aquilo que vai acontecer agora... Daí a tua esperança, finalmente. Exato. Portanto, aquilo que vai acontecer agora é que o anteprojeto vai ser transformado numa proposta de lei que irá para o Parlamento. E eu sei que isto é um stretch, aquilo que eu estou a fazer, mas se todos os partidos forem fiéis àquilo que têm vindo a dizer e aos sinais que têm vindo a dar...
na comunicação social, a proposta de alteração ao pacote laboral será chumbada. Isto porque, com o voto contra do Partido Socialista e, ao que tudo indica, com o voto contra do Chega... Ao que tudo indica. Ao que tudo indica. Atenção, isto é um ponto muito importante. Confiar no Chega envelhece sempre por mal. Exato. Cá estaremos para fazer o fact-check daqui a uns tempos. A proposta será chumbada e, portanto, dois pontos que eu acho que são relevantes mencionar. Em primeiro lugar...
dizer que não parece que a Ministra do Trabalho, Palma Ramalho, tenha condições para continuar no cargo se eventualmente esta proposta for chumbada, porque nós não temos ouvido falar de mais nada sem ser o pacote laboral, do ponto de vista deste Ministério, e, aliás, isto tornou-se mesmo no centro nevrálgico da atuação do Governo nos últimos tempos.
Dito isto, parece-me que isto também pode contaminar o governo como um todo e, portanto, daí eu dizer que se iniciará agora o processo de desgaste mais a fundo do governo da ADE. É uma demissão possível? Talvez.
Não saem as minhas dúvidas. Guilherme, o teu tema quente desta semana? Eu também vou falar de uma demissão forçada, que é uma demissão, uma queda do governo romeno, aqui para amenizar um bocadinho o tema do Gonçalo, vamos à política internacional. E quero-vos trazer esta queda de um governo que era pró-europeu, liderado por Ilia Bologen, devo estar a dizer o nome completamente mal.
Foi derrubado por uma moção de censura aprovada no Parlamento Romeno a 5 de maio de 2026, este ano, há poucos dias.
E é uma crise que ocorre num contexto muito complicado economicamente para o país. A Roménia é o país da União Europeia que tem maior déficit orçamental e que tinha este governo pró-europeu, que entretanto tinha uma aliança com o Partido Social Democrata, ou com o PSD rumeno, que é mesmo assim que se chama o PSD, e com um partido que estava de fora dessa aliança, que é o Partido Nacionalista Direita, portanto a aliança da União dos Romenos.
O que aconteceu? Este PSD sai da aliança com o governo, junta-se com este Partido Nacionalista para apresentar uma moção que é aprovada com uma maioria bastante alargada, nem foi propriamente assim 50-50, e portanto isto reforça, num país que em 89 era uma ditadura comunista, que tem esse trauma ainda bastante recente, neste momento está exposta...
a um Parlamento que está novamente, portanto, também na Roménia, a trazer umas dinâmicas de direito radical. Mais um país na União Europeia que sofre disso. Muito a reboque das condições económicas paupérrimas em que está, de facto. As pessoas estão descontentes. Foi o que falámos também do caso da Hungria.
E, portanto, estou com alguma preocupação a ver o que se passa na Roménia, porque, de qualquer forma, em tantas coisas, o mecanismo de decisão na União Europeia é por consenso. A Roménia é mais um daqueles casos que pode causar agora ser a nossa nova Hungria.
Sim, e tem um posicionamento geográfico também bastante delicado para essa situação e por isso é mais uma questão a acompanharmos. O meu tema quente é um tema que eu já trouxe numa versão inicial, num dos nossos primeiros episódios e é, infelizmente, outra vez, a Esquadra do Rato, e eu neste momento já não sei se é só a Esquadra do Rato. Já não é. Já não é, não é? E há aqui de repente uma coisa concertada.
que afeta, infelizmente, várias polícias. E, portanto, depois dos dois polícias tidos em julho e acusados pelo Ministério Público em janeiro, e dos sete polícias tidos em março, foram agora tidos mais 15 agentes. 13 polícias, agentes, dois chefes, um civil, de segurança, também é um clássico.
Isto é um processo, para quem não se lembra, de alegadas torturas e violações a pessoas vulneráveis, nomeadamente toxicodependentes, sem abrigo, pessoas migrantes. Uma investigação que foi denunciada pela própria PSP, porque muitos desses abusos foram filmados e partilhados em grupos de WhatsApp com dezenas de outros agentes.
E estamos a falar de uma acusação aqui de tortura grave, violação, abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas. E aquilo que me fez trazer novamente este tema aqui foi não só esta nova detenção de 15 pessoas, que é bastante gente.
Foi o que se ficou a saber das mensagens destes grupos do WhatsApp. E eu vou só aqui dar algumas. Ele levou tanto que entrou em choque. Foi pena não ter morrido. E perdoem-me, estou a citar esse paneleiro. Eu meti o gajo no tejo. Dá-lhe bué. Faz aí um vídeo a meter-lhe o esfragão com pi.
Na boca são algumas das mensagens enviadas por outros polícias neste âmbito. No dia que estamos a gravar foram presentes a tribunal e à entrada o advogado de quatro destes agentes ainda disse que os agentes se sentem injustiçados. Portanto, eu imagino como é que se sentem as vítimas que eram obviamente escolhidas pela vulnerabilidade.
que tinham. O novo ministro da administração interna, Luís Neves, já foi muito claro com este caso e eu acho que isso é importante e é de valorizar e parece-me ser uma pessoa que vai levar isto a sério. Espero que a estrutura da polícia e da PSP também leve, porque infelizmente não é o que tem acontecido.
E espero mesmo que não se repita aquilo que aconteceu no caso de Alfragide, em que os polícias que foram condenados, e a sua condenação pelo Tribunal de Sindra foi depois confirmada pelo Tribunal da Relação, esses polícias que também sequestraram as jovens do bairro da Cova da Moura, na esquadra de Alfragide, que também lhes enfiaram a cabeça na cenita, que também lhes bateram.
foram levados ao colo e em ombros pelos colegas. É exatamente deste caso que nasce o famoso Movimento Zero. Mesmo depois de condenados, alguns deles continuam ao serviço da PSP, nomeadamente no aeroporto. Muitos deles tiveram pena suspensa. Muitos deles tiveram pena suspensa. E, para mim, pior ainda do que isso, é que estão ao serviço da PSP. Uma polícia condenada por agredir um cidadão de uma esquadra está a prestar serviço, mesmo que seja atrás de uma secretária.
Acho absolutamente lamentável. E, por fim, fazer aqui uma referência a Manuel Moraes, polícia e...
líder do sindicato da PSP, que há muitos anos avisou sobre o que se passava dentro da polícia e que foi ignorado e acabou suspenso, porque uma vez mandou uma boca ao André Ventura no Facebook. Acho que se calhar é a altura de irem ouvir novamente Manoel Moraes e pensarem seriamente quem é que são as pessoas que estão a atrair para a polícia.
E a própria Amnistia Internacional já avisou várias vezes para a violência das forças de autoridade portuguesas. Ou seja, em termos da Amnistia Internacional, há a questão da polícia, há a questão dos estabelecimentos prisionais. Eu dou aqui a nota. É possível que estejamos prestes a ver uma greve de fome no estabelecimento prisional de Lisboa. Recomendo muito que vão ver as imagens. Aquilo não é aceitável em lado nenhum. Há prisioneiros de guerra que não estão detidos naquelas condições. Portanto, acho que tem que separar aqui com um bocado de impunidade que existe.
Neste setor em específico E espero, até ver Tenho boa impressão do novo ministro Da administração interna que possa ser uma pessoa Que arrume a casa
Como disse anteriormente, temos connosco em estúdio Mafalda Anjos, jornalista, ex-diretora da Visão, comentadora da CNN e autora dos podcasts da RTP Antena 1, Anatomia do Ressentimento e Enredados, sobre redes sociais, lá está. Falou de muito do que hoje também iremos aqui abordar. Mafalda, obrigado por ter aceito o nosso convite. Olá, é um gosto estar aqui convosco. E começando aqui um bocadinho pela questão da ligação entre redes sociais e democracia, que é o que nos traz muito aqui hoje.
Considera que isto é uma crise nova que estamos a enfrentar ou é um bocadinho uma nova versão de fenómenos políticos que leva a serem amplificados pelas redes sociais que criam uma polarização que se calhar existia mas que não tinha a dimensão que tem hoje em dia?
É uma boa pergunta. Eu acho que é uma crise nova, porque a tecnologia que nós temos hoje é verdadeiramente disruptiva e muda tudo. Muda tudo na forma... Mudou muita coisa na forma de nós comunicarmos, de nós nos informarmos.
na forma como nós nos sentimos, nós utilizadores das redes sociais, na forma como interagimos uns com os outros, na forma como olhamos para o mundo e na forma como formamos as nossas opiniões e com base nelas interagimos com o mundo. Decidimos e interagimos com o mundo em última análise, como votamos. E nunca antes existiu uma tecnologia que tivesse feito tudo isto ao mesmo tempo, em todo lado e ao mesmo tempo, como diz o filme.
Eu acho que esta crise é nova. Nós só estamos neste momento a sentir, a ver a ponta do iceberg do impacto que o digital, não apenas as redes sociais, mas o digital e as redes sociais têm, já estão a ter e terão nas democracias, porque isto é só o início. Tem muito pouco tempo. Se me deixarem cinco minutos, não é muito. Cinco minutos é muito errado.
Eu tenho dois minutos para contar uma história Eu em 2014 Estive em Silicon Valley Manolo Park Sede do Facebook Que tinha acabado de comprar o Instagram na altura Fui a primeira jornalista portuguesa a lá entrar Trabalhava, era editora da revista do Expresso na altura E fui fazer uma grande reportagem sobre Como é que se trabalhava O que era a rede social e tal E de todas as unidades da empresa que eu visitei
e todas elas tinham uma palavra escrita enorme em todo lado e também, por exemplo, no chão uma palavra escrita com letras gigantes que se podia ver do céu. Não sei se algum de vocês consegue adivinhar que palavra era esta aos ouvintes. A palavra era hack ou hacker. E to hack é um bocado cortar com um machado desromper, revolucionar e aquilo era o espírito revolucionar tudo, não só a forma de comunicar como muitas outras coisas mais, como eu expliquei.
E de todas estas unidades, que todas elas tinham a palavra hack escrita de maneiras muito diferentes, aquela que me impressionou mais foi a unidade que na altura tinha uns 200 engenheiros a trabalhar numa coisa que se chamava EdgeRank. E o EdgeRank é o algoritmo do Facebook, que depois foi também aplicado ao Instagram. E eu quando falei com aquele tipo que era o diretor daquela unidade...
Fiquei absolutamente Estasiada E ao mesmo tempo assombrada Com o poder imenso que aquele homem tinha Homem, rapaz, jovem Adulto, jovem rapaz Era novíssimo Com o poder que ele tinha O Facebook naquela altura já era provavelmente a maior nação do mundo Já tinha milhares de milhões de utilizadores no mundo inteiro E aquele homem que obviamente não tinha sido eleito E que obviamente É...
não tinha a noção, obviamente não, mas eu acho que ele não tinha a noção plena da responsabilidade gigantesca que tinha nas mãos, ele podia, de facto, decidir o que é que cada um de nós via e, em última análise, como é que nós nos sentíamos quando entrávamos no Facebook ou no Instagram e começávamos a fazer scroll na nossa timeline. E ele explicou-me que tudo aquilo era feito com base.
Aquilo que as pessoas sabem, não é? Com base nos amigos que nós seguimos, nos conteúdos que nós gostamos, nas páginas que nos interessam, mas depois em outras coisas que não são tão óbvias e tão imediatas, como aquilo que nós não percepcionamos, como, por exemplo, quando fazemos scroll, quando paramos microsegundos só para tentar perceber o que é, os vídeos em que nós ficamos mais uns segundinhos do que noutros em que, em vez de ficarmos três segundos, ficamos só dois, as coisas que são menos evidentes e que depois...
vieram a saber que também eram feitas, que tinham a ver com emoções, como, por exemplo, se veio a revelar no escândalo de Cambridge Analytica. Ou seja, um conjunto que na altura eram milhares de variáveis, hoje serão dezenas de milhares ou mais de variáveis que estão ali incluídas e que determinam...
coisas com impacto gigantesco, não só em nós, na nossa saúde mental, como na sociedade, como em ultima análise na política. E a partir daí eu fiquei obcecada por este assunto. E passei a estudá-lo intensamente, a fazer mais trabalhos sobre isso, a estudar o assunto, porque de facto isto tem um poder imenso. E o resultado que nós estamos hoje a ver, esta crise na democracia, eu acho que podemos de facto falar disto assim,
é em grande parte resultado disso, resultado daqueles engenheiros do caos, como lhe chamou Juliana da Empoli, que souberam explorar este novo mecanismo, este novo instrumento e utilizá-lo para promover melhor do que os políticos tradicionais o... lançar o caos.
Aproveitava exatamente essa expressão que eu acho que é muito bem conseguida dos engenheiros do caos para falar aqui um bocadinho do algoritmo. Porquê que, e a Mafalda que já teve mais essa experiência e tem estudado este tema, e eu acho que neste momento então de 2014 para cá é uma diferença brutal, não é? Em tão pouco tempo na história.
Porquê que são estes conteúdos mais emocionais, esta indignação, o medo que têm tanto alcance? Portanto, são conteúdos que são maniatados pelo algoritmo para isso ou a nossa própria reação acaba por alimentar? E, assim, a última análise, estas empresas querem o máximo da nossa atenção possível, o máximo lucro e, portanto, dão-nos aquilo que nós próprios...
Queremos e vamos reagir. Eu falei com muita gente sobre isso e as respostas são diferentes conforme o campo de trabalho das pessoas. A resposta das empresas, das tecnológicas, é a culpa é nossa. A culpa é nossa porque são as nossas escolhas e aquilo que nos interessa. A resposta de um conjunto de outras pessoas, nomeadamente, sei lá...
pessoas de psicólogos sociais e outros estudiosos, cientistas políticos e tal, é que o algoritmo está desenhado com base numa coisa que eu acho super interessante e que eu gosto também de estudar que é, se quiserem, a nossa ancestralidade, a nosso cérebro ancestral que vem de um tempo em que nós estamos no fundo desenhados para ficarmos mais atentos a tudo o que possa consistir num risco numa ameaça à espécie humana e oi
E o que é que acontece? Tudo o que sai fora da norma, tudo o que desperte a nossa atenção, tudo o que causa emoções, tudo o que causa impacto e, sobretudo, as coisas negativas, as coisas quando as pessoas estão zangadas ou a chorar ou tristes ou furiosas, nós estamos programados ancestralmente.
para ficar despertos para isso. E o que estes engenheiros tecnológicos, aos quais se juntaram depois também psicólogos sociais, fizeram, foi explorar isto. E a dada altura houve mesmo um anúncio de que se passaria a promover muito mais conteúdos. Eles chamaram-o emocionais e na altura venderam a coisa como se fosse os conteúdos da nossa família, as coisas boas, a felicidade, o amor, os parabéns, essas coisas. O ser humano.
Mentira! Obviamente O resultado disto, eles sabiam muito bem Era amplificar os conteúdos com cargas negativas Emocionais muito fortes Claro que tocaste no tema principal Que é Porquê que as redes sociais são de borla? Porque o conteúdo somos nós O produto somos nós O produto somos nós
É isso, não é? O produto somos nós e, portanto, o objetivo máximo é fazer dinheiro e quanto mais tempo nós, que somos o produto verdadeiro daquilo, lá passarmos, mais as tecnológicas fazem dinheiro. Quanto mais nos viciarem, agarrarem e prenderem ali, mais nos conseguem impingir produtos e serviços, que em última análise é ali que eles ganham dinheiro. E, portanto, está desenhada assim para amplificar estes conteúdos negativos.
O impacto disto é que depois também cria um conjunto de outras coisas à volta. O efeito...
de bolha e o efeito de bolha é perigosíssimo. Nós sentimos que os algoritmos tendem a devolver-nos coisas com as quais, ou opiniões, orientações, visões do mundo... Sim, vamos ficar fechados, não é? Sim, nós concordamos e naquilo que acreditamos e às tantas parece que o mundo inteiro concorda connosco, quando não é assim.
E o efeito de amplificação de perceções, que ali é o terreno fértil para tudo isso. E há um livro super interessante, eu até fiz um apanhado dos vários vieses que as redes sociais...
tendem a amplificar e que criam estas percepções. E uma delas é esse viés da confirmação, aquela ideia que nós somos atraídos por histórias que reforçam as nossas ideias do mundo e é, aliás, isso que os algoritmos nos devolvem. O viés da negatividade, ou seja, nós tendemos a guardar muito mais as histórias negativas que nos aparecem à frente e que geram emoções do que aquelas que são positivas e que são boas. Lá está, é o nosso instinto de sobrevivência.
O viés da retrospeção idílica Que as redes sociais também amplificam Que é aquela ideia de tendemos a recordar o passado Só as coisas boas do passado E a esquecer as coisas más É também mais uma vez a nossa A forma como nós estamos desenhados Se não, por exemplo
Bom, nós não teríamos mais filhos, porque aquilo é tão duro ter filhos, que se nós não tivéssemos esta coisa natural, humana, de tentar esquecer o que foi mau e olhar para as coisas boas, depois se calhar não repetiríamos certas coisas que teríamos que repetir. E o viés do efeito ilusório da verdade, que eu também gosto, que é uma mentira muitas vezes repetida, se nós nos habituarmos a ela e virmos tantas vezes, às tantas começamos a acreditar que aquilo é mesmo verdade.
Mas continua a ser mentira, apesar de olharmos para ela muitas vezes. E as redes fazem tudo isso, como fazem a história do viés da história cativante. Nós tendemos a guardar muito mais informação na nossa cabeça se ela nos for apresentada como uma história do que se ela nos for apresentada num relatório com factos inúmeros.
E a puxar-me a questão de como é que as redes têm sido usadas pelos políticos, para fazermos aqui esta relação com a democracia que falávamos ao início, e perguntava-te, Gonçalo, que uma pergunta muito direta, se achas que a direita percebeu melhor do que a esquerda, como é que podia usar todas estas concepções que a Mafalda nos estava aqui a apresentar?
Sim, acho que a resposta é óbvia. Em primeiro lugar, dizer que, acho que é importante que se ressalve, que a informação política passou a ser mais veiculada através das redes sociais do que a própria televisão, e isso está documentado. Obviamente que os meios tradicionais continuam a ter um grande impacto, quer dizer, os debates continuam a ser transmitidos.
nas televisões tradicionais e etc. Mas a verdade é que o eleitorado também mudou e grande parte do eleitorado agora está mais concentrado na juventude. E, portanto, a maior parte das pessoas da nossa idade vai buscar a sua informação, feliz ou infelizmente, às redes sociais.
Eu acho que isso agora até já é um bocadinho transversal a todas as idades, não é? Sim, mas acho que há sempre... Com suas redes até também. O que é que é importante que se perceba? Sim, eu acho que a direita fez essa leitura melhor, mas também é importante dizer, e isto também está documentado, que os algoritmos tendem a favorecer esse tipo de mensagens. Em primeiro lugar, simplistas, e depois mensagens de ódio, extremistas, e tendencialmente baseadas no reforço de preconceitos.
E, portanto, isso está muito associado à questão da extrema direita. E, portanto, é importante...
que isso ressalve. Dizer que em Portugal, especificamente, eu acho que essa diferença foi mais acentuada do que se calhar noutros países, porque tivemos, ao mesmo tempo que esta mudança se fez, vários partidos de direitos, nomeadamente o Chega e a Iniciativa Liberal, se calhar vou dar mais ênfase ao Chega, a aparecer nessa altura e que nasceram exatamente dessa proposição de que as redes sociais têm uma mensagem muito mais simples, a nossa mensagem é simples e, portanto, nós vamos usar este meio de comunicação para veicular a nossa mensagem.
E, portanto, sim, eu acho que a direita, comparadamente com a esquerda, que acho que ainda hoje consegue não perceber como é que isto se utiliza, quer dizer, tive conversas com líderes partidários, cujo nome não vou mencionar, em que me disseram que também não posso fazer um vídeo a descascar uma laranja. Certo, mas se calhar não precisamos fazer um vídeo a descascar uma laranja no Parlamento. Para utilizar as redes. Mas há outras formas de o fazer.
E, portanto, sim, a esquerda convinha acordar, até porque claramente estamos num terreno de jogo que está inclinado.
Eu se me permitia só completar uma coisa. Há uma razão para que isto tenha acontecido assim. Em partidos novos perceberam que era muito mais barato começar por ali. Embora seja caro fazer uma campanha bem feita nas redes sociais. Sim, mas não é preciso muito para fazer uma campanha bem feita nas redes sociais. Há uma coisa que eu costumo chamar o princípio da assimetria do bullshit.
é que nas redes sociais tu consegues amplificar uma tanga, um bullshit, a uma velocidade estonteante, e depois a energia que é preciso despender para desmontar a tanga e o bullshit é desproporcionalmente maior. Isso é aquela coisa das fake news, viajam seis vezes mais rápido do que o desmentido. Quando a mentira não deu o volto ao mundo, a verdade ainda não teve tempo de vestir as calças.
E aqui eu acho que é mais do que isso A frase não se sabe Se é de Mark Twain ou do Churchill É atribuída aos dois Mas eu acho que é mais do que isso A mentira dá dez vezes a volta ao mundo Antes de ter tempo de abrir a pestana Ainda nem acordou Tem que reagir àquilo que está a circular E o que é que esta malta
Percebeu bem os tais engenheiros do caos e, claro, de facto, aqui à direita percebeu muito melhor do que a esquerda que ficou a dormir no ponto durante não sei quanto tempo. Percebeu que era fácil, era barato e dava milhões. E fizeram aquilo muito bem. Eu fiz um trabalho, só muito rápido, fiz um trabalho, uma capa da visão sobre o TikTok, máquina de radicalizar jovens, era qualquer coisa assim.
E fizemos exercícios muito simples, que é criar uma conta virgem, sem conteúdos, sem interesses, sem nada, e pesquisar por política portuguesa. E em 20 conteúdos apareciam 18 do Chega. E isto era por bom trabalho do Chega, bom, entre aspas, trabalho eficiente do Chega, e era por, óbvio, mau trabalho e falta de compreensão de todos os outros partidos. Acho que basta ver qual é o tipo de conteúdo. O espectro ideológico.
Está nas várias contas Por exemplo, no TikTok é uma rede muito jovem A quantidade de produção Que o Chega faz nas redes Não tem comparação Hoje já não é bem assim Mas agora 2023? Sim, 2023 Mas ainda é muito Ainda é muito desproporcional Só uma nota muito rápida Efetivamente há de mérito da esquerda Mas também é importante que se faça jus Porque a esquerda em Portugal esteve no poder 8 anos e estava confortável com aquilo que tinha Então E aí
não sentiam necessidade de apelar e de captar eleitores portanto não havia esta necessidade de captar novas estrelas a esquerda e não foi só em Portugal sim, sim, isto é completamente transversal, acho que são poucos os exemplos da esquerda a utilizar bem as redes talvez em Nova Iorque agora era isso que te ia perguntar Portugal está atrasado ou alinhado com esta tendência internacional de radicalização online?
É engraçado, até eu trouxe aqui um livro, apesar de não termos aqui o vídeo, mas é o Fim da Vergonha, do Vicente Valentim, e ele, de facto, na introdução, menciona essa questão, porque até 2017 julgava-se que Portugal era até um exemplo que resistia no panorama europeu a esta radicalização. Essa radicalização.
Excepcionalidade usada E até a Espanha também O Vox já tinha em trás É só atraso Nós chegámos para a tarde Nós também fomos na terceira vaga Da democratização E agora não sei que vaga em que estamos De se calhar Inversão Da democratização Pela polarização
Mas Portugal não é uma questão de estar atrasado. Acho que cada contexto político é muito específico. E em Portugal, e usando aqui a teoria do Vicente Valentim, que é a teoria da normalização, em que se explica este fenómeno da ascensão da direita radical neste espaço das redes sociais,
Não que as pessoas tenham mudado de opinião, mas é porque criam um espaço onde as opiniões que já existiam, as ideias que já existiam, têm um espaço legítimo. Porque isto é... Eu quando penso nesta... E era um dos pontos que tinha aqui quando a Mafalda nos estava aqui a fazer a introdução, que é o digital antes das redes sociais dava-nos um espaço em que nós éramos o espectador.
Portanto, nós viamos um filme, viamos um conteúdo qualquer de entretenimento no digital e éramos o espectador. As redes sociais vão mudar isso completamente. Vão-nos colocar dentro de um espaço digital. Dentro de um espaço onde convivemos e vivemos. Precisa ser consumidor para ser ator. E é produtor de conteúdo, não é? Dentro desse espaço. Ou seja, democratizou-se o acesso ao espaço público. E um Zé Trauliteiro ou um Prémio Nobel têm o mesmo acesso ao espaço público.
Exatamente, e mais, encontram bolhas que legitimam as suas ideias, o tal viés da confirmação. Eu tinha estas ideias, eu não agia conforme estas ideias porque o espaço social à minha volta censurava essas ideias, mas agora eu vejo aqui um espaço social, digital, que legitima estas ideias, que confirma estas ideias. E, portanto, é normal ter estas ideias. Este é o grande perigo.
Passando para o panorama político, o grande perigo é a normalização deste discurso. É a normalização das ideias e da mentira. E de se achar que é legítimo mentir, omitindo qualquer forma da mentira que seja. Isso é o princípio do fim, o princípio do caos. Porque a partir daí, por mais que se diga verdade, por mais que se diga mentira, é como se estivéssemos a debater com terraplanista.
Quando nós debatemos com um terraplanista Por falar em chão Nós mostramos uma imagem da NASA Como agora tivemos na missão Artemis E eles dizem isto é tudo fabricado Sim, isto é uma grande base da discussão online Portanto a partir daí Nós moldamos a realidade Da forma como bem entendemos E repetimos-a de tantas formas Que passa a ser verdade ou realidade Percepcionada Deixa-me pegar nessa ideia da vergonha Ok
que eu acho super interessante. O Vicente Valentim estudou mais da perspectiva da ciência política. Ela também tem imenso interesse da perspectiva da sociologia. Mas a vergonha, por exemplo, é a primeira emoção que aparece na Bíblia. Por exemplo, a vergonha é muito importante na organização social e humana. Porque a vergonha impede-nos de...
de ofender o outro. A vergonha impede-nos de nos mostrarmos ao mundo de forma que possa ser ofensiva para o que é a norma. E por isso é que é tão importante falar, por um lado, nesta coisa do fim da vergonha em que as redes trouxeram e...
também na ideia da decência ou da indecência. As redes e os algoritmos também acabaram com esta coisa, que era o chão comum da decência, que fazia parte, por exemplo, de uma democracia. Havia certas coisas que os homens de Estado, os políticos, não faziam e não diziam porque...
Se convencionou que era assim e fazia parte do decor básico, das normas de civilidade. E as redes vieram também ajudar a acabar com isso tudo. Porque atrás do anonimato, que é uma coisa também muito importante que nós ainda não falamos, o anonimato que as redes proporcionam.
As pessoas conseguem, atrás de não havendo esta coisa de estarmos aqui olhámos para os outros e da cara a cara, as pessoas têm coragem, perderam a vergonha de dizer e de opinar coisas que estavam muito escondidas e muito recalcadas lá por dentro.
E isso que se vê bastante em qualquer interação Em determinadas redes sociais Twitter, X, etc Que há um nível de agressividade Que não seria tolerável em nenhum debate Impossível, mas ninguém diria isso numa mesa de café Não existe no frente
que não existe no frente a frente. E o que isso fez foi, um outro conceito que é muito interessante, é escancarar a janela de Overton. As redes sociais vieram escancarar a janela de Overton. A janela de Overton é o conjunto de ideias que são admissíveis numa determinada sociedade num determinado período de tempo.
E essa janela vai abrindo mais para um lado ou para o outro, passando de uma coisa que é impronunciável e indizível para uma coisa que depois é aceitável e até é uma política pública. E o que as redes fizeram foi escancarar completamente as ideias que são pronunciáveis altas. Eu já vi nas redes sociais pessoas comentarem uma fotografia adorável de uma mãe branca com um filho negro a chamarem macaco àquela criança.
E coisas piores nessa fotografia. E coisas piores. E eu vi isto e eu penso, como é que o ser humano tem o cérebro tão frito? Como é que este instrumento, esta tecnologia que é a rede social, potenciou este lado? E eu não sou nada daquelas pessoas que acreditam na bondade, o ser humano, o homem, como naturalmente bom. Eu acho que infelizmente não é isso, não é?
Como é que chegámos a este ponto em que é possível dizer isto e haver ali não só esta pessoa que diz, como mais de 30 pessoas que vão lá fazer like e dizer muito bem, sim senhora. Isto é muito escante. Mais interessante e até triste do que este fenómeno de massas que nós vemos das pessoas que estão demasiado à vontade. É interessante perceber que o segredo das redes está na resposta a seguir, que é que é o segredo.
Nós na rua, se virmos um maluco a dizer maluquices, nós ignoramos. Mas nas redes sociais toda a gente se sente compelida a ir responder àquela barbaridade que está a ser dita. E parece-me a mim que é aí que está o segredo da monetização do ódio que nós muitas vezes falamos. É o ragebite que agora se fala. É isso, é o ragebite que hoje em dia é utilizado propositadamente para gerar engagement.
E, portanto, obviamente que todas estas atrocidades são aquilo que são, são atrocidades, mas o segredo das redes sociais está em ser uma atrocidade tão grande que as pessoas se sentem compelidas a ir responder, que é para também, eu acho, em parte, e toda a gente aqui talvez já tenha sentido isso,
sentirem-se afastadas daquilo. E, portanto, gera-se aqui este engagement exatamente à base do ódio. Portanto, as redes sociais beneficiam disso. E depois os outros órgãos de comunicação social, nomeadamente os órgãos de comunicação social tradicionais, como, por exemplo, as televisões, replicam isso. Sim.
Vão atrás desse efeito de rage bait também, se quisermos. Hoje em dia, para ser comentador num órgão de comunicação social de televisão, não basta ser conhecedor do assunto, sensato, ponderado, especialista, não.
Às vezes até não. Às vezes essas pessoas não têm lugar. Porquê? Porque falam de nuances e falam de coisas... Não têm certezas absolutas. É verdade, os temas são complexos. Não há certezas absolutas. Porque são conciliadores. Isso é uma chatice. O que tem lugar e espaço é pessoas que conseguem dizer coisas que causam emoções, que causam choque.
que impressionem, mesmo que possam não ser verdade, não é? Mas é a sua opinião e, como é a sua opinião, têm direito a isso. E isto superficializa também muitíssimo, por um lado, o nível de debate público, porque as televisões muitas vezes seguem precisamente aquilo...
que acontece nas redes sociais e vão atrás daquelas dinâmicas que passam muito por goste só não, o que importa é criar emoções. Já dizia José Castelo Branco, falem bem ou falem mal, o importante é que falem. Há aqui uma coisa interessante sobre a vergonha, porque o facto de termos vergonha vem de muitas coisas, mas entre elas o facto de haver regras em sociedade.
E temos de que as cumprir e de sabermos que se fizermos isto não as estamos a cumprir e a parte de sermos responsabilizados por isso. Que são duas coisas que não existem nas redes sociais. As regras, quer dizer... Já existiram e agora cada vez menos, não é? Há um caso ou outro em que alguma pessoa consegue ser responsabilizada por aquilo que foi dizendo, mas não é a norma.
isso acontecer. Porque o debate público foi tão simplificado, quando se fala de restrições ou de controlo mínimos é um atentado à liberdade. Sim, por acaso esta era uma pergunta que tinha para vos fazer aos três e portanto ficamos aqui em debate, que era exatamente se ainda vamos a tempo de tentar regular para evitar até consequências mais dramáticas, porque nós temos aqui estado um bocadinho a falar dos comentários que são colocados e etc e desta...
A radicalização do debate Mas hoje em dia temos toda a questão da inteligência artificial Que em termos de produção De conteúdo Dá cabo de qualquer distinção Entre verdade e mentira Até para pessoas muito bem informadas Terão maior dificuldade E facilmente numa campanha eleitoral, por exemplo Se faz um vídeo de um político qualquer A agredir, por exemplo, alguém E estamos completamente no campo das fake news Acham que ainda vamos a tempo De tentar regular isto De vez em quando Vamos lá
A União Europeia lança algumas tentativas neste âmbito, mas depois o debate, até com os Elon Musk da vida e etc., é logo altamente polarizado sobre este tema. Nós temos que ir a tempo, não há outra alternativa. Quer dizer, eu ouvia, o Miguel Sousa Tavares dizia que se devia acabar com as redes sociais. Não podemos fazer isso, não é? Não podemos, quer dizer...
Tentar parar o vento com as mãos. Isto é um caminho que não tem retorno. Agora, que a única forma de sairmos daqui é regulamentando e aplicando e fazendo com que isto não seja o faroeste que é hoje e passa a ter um conjunto de regras mínimas que são cumpridas e que são exigidas, não vejo muita alternativa. Agora, a União Europeia fez um esforço bastante grande de criar um quadro regulatório para isto e lançou ali três diplomas muito importantes.
Mas depois a eleição do Trump E aquela parceria com o Elon Musk O Julian D'Ample mais uma vez chamou-lhe a hora dos predadores Ele chamou-lhe o tecnopopulismo Que é este conjunto, esta união entre políticos populistas
donos, magnatas das tecnologias que se juntaram e que passaram a controlar a coisa isto referiu um bocadinho porque o timing político não era o ideal. Agora decorrem um conjunto de processos e o que acontece hoje é que existe um ambiente regulatório bastante diferente na Europa do que aquele que depois existe nos outros sítios do mundo e nomeadamente nos Estados Unidos. E em última análise pode ser também isso que vai acontecer.
nos Estados Unidos ser possível tudo, valer tudo e depois haver assim algumas zonas. Houve também algumas tentativas no Brasil, até com o Twitter que esteve suspenso. O Brasil que o Twitter suspendeu precisamente e depois o Elon Musk viu-se obrigada a ceder e a cumprir a legislação.
E não vai haver alternativa. Uma coisa que é fundamental, por exemplo, é a transparência do algoritmo, porque nós não sabemos quais são as variáveis que estão incorporadas no algoritmo. Nós não sabemos. E isto é só elementar, pelo menos nós termos, quando entramos num sítio, sabermos quais são as regras de comportamento e o que é que nos mostram naquele sítio.
E deverá ser um pouco difícil De ser tão transparente Porque nós estamos aqui a falar de empresas Porque é alma do negócio Exatamente, e seria dar os segredos todos A uma outra empresa Que pudesse, isto na ótica deles Dos tais que conheceu em Silicon Valley Em 2014 Que ainda lá estão E já há outros também
O argumento que as empresas utilizam, como é evidente... Aquilo é o core do negócio deles, é o segredo daquilo funcionar tão bem... Eles têm forma de chegar lá e de decifrar como é que os conteúdos se amplificam e se aplicam e como é que os algoritmos são desenhados. Facilmente não diria, mas com cálculos chegam lá. E não vai haver muita alternativa a isso, como a moderação de conteúdos vai ter que ser efetivamente feita, que neste momento não é, e também.
É preciso dizer isto. As pessoas vão ter que passar a agir mais. Porque nós, neste momento, pensamos, não estou para me amassar, vou agora fazer queixa, vou agora levar isto em diante. As pessoas preferem cair os ombros e continuar adiante. Mas as coisas têm consequências.
E se passarmos a olhar para aquele espaço digital como um outro espaço público qualquer e levarmos as coisas à frente dos tribunais e a ganharmos, porque em muitos casos é difamação e são ofensas e crimes.
Sim, considerar que aquilo não é um espaço diferente do resto da sociedade. É espaço público. É espaço público, ponto final. E quando isto começar a acontecer mais vezes, eventualmente aí as pessoas também se começam a inibir mais de fazer isto. E isso, de uma maneira ou de outra, já se começa um bocadinho a notar. Agora, a margem de liberdade de expressão é imensa. A margem de opinião é imensa. Onde é que está a fronteira entre uma opinião e uma difamação?
Às vezes não é fácil, não é clara. E, portanto, é preciso mesmo uma regulamentação e uma auto... Eu acho que vai ser fundamental multas pesadas para que sejam as próprias plataformas a autorregularem-se e a criarem um ambiente.
que é, por um lado, mais saudável em termos de saúde mental, porque nós não estamos a falar disso, estamos a falar essencialmente aqui de democracia, mas isto amplifica tudo o que são problemas de saúde mental, ansiedades, depressões, automotilações, suicídios, tudo isto, mas depois um ambiente também mais saudável para a própria democracia, sociedade.
Gonçalo, achas que, por exemplo, a questão do anonimato, a obrigatoriedade, por exemplo, das pessoas estarem registadas numa plataforma com os seus dados, poderá ajudar nesta situação? Porque só o facto de poder ser rastreado aqueles comentários de absoluto ódio, difamação, etc., que são feitos sob o anonimato e depois, obviamente, o trabalho da polícia é difícil em identificar essas pessoas.
Vejamos, as redes sociais hoje em dia são a nossa rua. Nós antigamente fazíamos as compras na rua, conhecíamos pessoas na rua, falávamos com pessoas na rua. Hoje em dia qualquer pessoa pode fazer isto numa rede social. E, portanto, se nós na rua temos que andar identificados, porquê que numa rede social não temos? Nós temos que ser responsabilizados pelos nossos atos. E, portanto, se os impactos que ainda por cima são amplificados nas redes sociais são graves, e, portanto, se as redes sociais são amplificados.
Não vejo por que não. Sinceramente, a resposta é simples. Acho que tem que se regular, sim. Do ponto de vista da ótica mais individual, acho que é importante que as pessoas estejam identificadas. Não precisa de ser algo... Não tenho que estar no Twitter como o Gonçalo Castro, por exemplo. Mas é importante que a minha conta esteja associada à minha pessoa.
para eventualmente, do ponto de vista legal, judicial, conseguir fazer essa associação. Sim, até agora está a ser trabalhado com a questão dos menores, não é? A ver quase só uma plataforma intermédia de verificação, que essa sim verifica a idade e dá o ok para a pessoa seguir pela plataforma. Sim, do ponto de vista mais macro, para ir à questão que tu tinhas feito há bocado.
Parece-me muito difícil por um simples facto, que é que a Europa ainda vai muito atrás dos Estados Unidos e, infelizmente, os políticos dos Estados Unidos estão presos àquilo que são os desejos dos magnatas da tecnologia porque, para todos os efeitos, são muitos dos financiadores das suas campanhas. E viu-se, por exemplo, agora com Trump, uma passagem de uma certa facção destes magnatas da tecnologia que, tendencialmente, estavam mais com os democratas, viraram e passaram a estar mais com os republicanos.
perceberam também que era mais benéfico para eles e portanto acho muito difícil que isto se venha a tornar uma realidade, embora devesse tornar-se uma realidade. Mas a Europa está atrás em termos tecnológicos, basta pensar que das 50 maiores empresas tecnológicas do mundo, nenhuma é europeia isto há uns tempos, se calhar agora um pai e um meio e a questão em termos tecnológicos sim, mas em termos regulatórios não, está bastante adiante
E atenção, as multas começam a ser pesadas Pode ser até 6% Das receitas das plataformas Isto dói E esta malta conhece a linguagem do dinheiro Aliás, é a única É a única que eles conhecem E portanto, eu por acaso aqui Estou-me a transformar numa pessoa
Bastante pessimista Eu aqui não estou totalmente pessimista Porque eu acho que é O único caminho E a Europa está disponível para fazê-lo Agora, infelizmente tem uma prioridade Mais imediata e mais absoluta Que é uma guerra aqui na sua fronteira Todo o foco Da União Europeia neste momento Está em segurança e em defesa E não estou para comprar mais uma frente de guerra Isto também é segurança e defesa Em muitos casos, até porque a questão de ameaças híbridas E etc E etc
É verdade, mas a verdade é que a Europa está com vontade e tem uma equipa bastante alargada a trabalhar neste caminho e a forçar esta barra. Vai ter que fazer, percebem claramente a importância disto. Mas há um ponto importante que é sobre a inteligência artificial e aí a Europa também tem um regulamento que entrou a vigor há pouco tempo e que está...
trilhar caminho novo nesta matéria. Mas é curioso, eu li há pouco tempo um artigo muito interessante que dizia que, sim, tipo, fakes e assim é um tema perigoso. Mas, por outro lado, hoje em dia, a maior parte das pessoas, pelo menos mais jovens ou utilizadores mais frequentes, já não vão ao Google fazer uma pesquisa. Vão a um perplexity ou vão a um qualquer ferramenta de IA que ajuda nas pesquisas.
E uma das coisas interessantes que eu vi é que a IA pode ser um instrumento poderoso para acabar com as fake news. Não digo acabar porque acabar é impossível. Ajudar a desmontar as fake news porque a IA consegue
identificar, obviamente, o que são verdades e mentiras, ou factos e construções, consegue perceber, separar as fontes, coisa que muitas vezes os humanos não conseguem tão bem fazer e conseguem identificar o que é que são fontes cardíacas e o que é que não são.
E que a IA pode ser um instrumento poderoso para combater esta coisa que as redes sociais e o digital trouxeram de ser um terreno fértil para amplificar mentiras. Isto é curioso, ou seja, nem tudo é mau. Nem tudo é mau. E em real time. É um tema paradoxal. É um tema paradoxal porque, por um lado, nunca tivemos tantas formas de verificar a informação.
Estava ao alcance de qualquer um Não apenas dos jornalistas cujo trabalho Era mais do que toda a gente Era dar essa informação e ser esse filtro Hoje todos nós conseguimos ter acesso a esse filtro Por outro lado, nunca foi tão fácil de manipular A informação para quem não tem essa vontade Sim, mas com a generalização Destes chatbots de IA Isto pode ajudar
Sim, apesar de tudo, no Twitter Agora até tem acontecido aquilo A desmontar tweets feitos Às vezes as pessoas querem ir verificar E aquilo acaba por desmentir Aquilo que eles achavam Com esta notícia mais positiva Em relação à nossa conversa Temos aqui uma rubrica final Vou dar duas opções
Não são muito sérias algumas A Mafalda escolhe uma e essa acompanha Até termos aqui a nossa decisão final E a nossa rúbrica poder de veto Portanto tem poder de veto agora aqui nessa parte final Eu escolho uma e vou sempre escolhendo uma Televisão ou TikTok? Televisão Televisão ou podcasts? Cuidado com a resposta Televisão Televisão ou comentadores?
Televisão Televisão ou jornalistas? Jornalistas Jornalistas ou regulação das redes sociais? Jornalistas Com os jornalistas ficamos, regressamos ao tradicional Este foi mais um Demissão Impossível Comigo, Daniela Cunha, com o Gonçalo Osório de Castro E o Guilherme Lindon Guerra Esta semana com uma falda anjo Já sabem que nos podem ouvir todas as segundas-feiras Na RTP Antena 3 e nas vossas plataformas habituais Até para a semana